Barbier, René. A Pesquisa Ação
Barbier, René. A Pesquisa Ação
Barbier, René. A Pesquisa Ação
Braslia: Liber
Livro Editora, 2007. p. 03 - 36. ISBN: 85-98843-01-6 (Srie Pesquisa, v.3).
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Ren Barbier
PESQUISA-AO
Srie Pesquisa v. 3
Traduo
Lucie Didio
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Ser do pulo. No ser do festim, seu eplogo.
Ren Char
O que foi compreendido no existe mais,
O pssaro confundiu-se com o vento;
O cu, com sua verdade;
O homem, com sua realidade.
Paul Eluard
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Age
porque tu sabes
A vida no tem fronteiras
Busca porque tu trazes
O smbolo no qual fervilha o sentido.
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SUMRIO
APRESENTAO - pgina12
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(laboratrio de pesquisa, rgo pblico etc), sem antes o ter apresentado ao seu
grupo de pesquisa de campo, principal interessado. Quando possvel, ele o redige
coletivamente.
O trabalho de implicao do pesquisador em ao o conduz, inelutavelmente, a
reconhecer sua parte fundamental na vida afetiva e imaginria de cada um na
sociedade. Ele descobre todos os reflexos mticos e poticos, assim como o
sentido do sagrado freqentemente dissimulado nas atividades mais banais e
cotidianas. Para emprestar sentido s formas de socialidade encontradas e para
partilh-las e discuti-Ias, ele precisa reinventar uma outra sociologia da ao que
no exclui o que Michel Maffesoli denomina a razo sensvel. Este o motivo pelo
qual eu acredito que a pesquisa-ao a metodologia especfica de uma teoria
mais abrangente que eu nomeio como Abordagem transversal, a escuta sensvel
em cincias humanas (paris: Anthropos, 1997).
A abordagem transversal reconhece a importncia primordial do imaginrio
tridimensional (pulsional, social e sacra!) que ultrapassa as categorias
classificatrias habituais em cincias humanas. Dentro da perspectiva da
complexidade, to cara a Edgar Morin, ela desenvolve uma teoria da escuta-ao
deste imaginrio nos planos cientfico, filosfico e potico. A abordagem
transversal inventa instrumentos concretos de pesquisa como a observao
participante existencial e o jornal de itinerncia. Ela requer do pesquisador ser
mais que um especialista: por meio da abertura concreta sobre a vida social,
poltica, afetiva, imaginria e espiritual, ela faz um convite para que ele seja
verdadeiramente, e talvez, to simplesmente, um ser humano (Krishnamurti, Le
courrier du livre, 2000).
Ren Barbier
Paris, maio de 2002.
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INTRODUO
H mais de cinqenta anos, surgiu uma abordagem especfica em Cincias
Sociais, denominada pesquisaao, e foi desenvolvida no mundo, notadamente a
partir dos Estados Unidos. Em 1986, por ocasio de um colquio no Institut
National de Recherche Pdagogique (INRP), os pesev.Iisadores partiram da
seguinte definio: "Trata-se de pesquisas nas quais h uma ao deliberada de
transformao da realidade; pesquisas que possuem um duplo objetivo:
transformar a realidade e produzir conhecimentos relativos a essas
transformaes" (Hugon, Seibel, 1988, p. 13). Uma concepo clssica da
pesquisaao consiste em pensar que essa nova metodologia somente um
prolongamento da pesquisa tradicional em Cincias Sociais.
Uma outra concepo, mais radical, d lugar a uma revoluo epistemolgica
ainda a ser amplamente explorada.
O objetivo desta obra visa mostrar a pertinncia dessa segunda perspectiva. A
pesquisa-ao no uma simples transfigurao metodolgica da sociologia
clssica. Ao contrrio, ela expressa uma verdadeira transformao da maneira de
elas prevem, mesmo sem muita nitidez, a evoluo das tenses sociais? Elas
no so nem mais, nem tampouco menos eficazes do que as cincias ditas
"duras" que se chocam contra o lado imprevisvel das catstrofes naturais, como
os terremotos, por exemplo, (Califrnia, janeiro de 1994), ou que no sabem o que
"cientificamente" o fogo, os segredos da vida de uma rvore ou a natureza
essencial da gua.
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Diante dessa constatao desenganada da ao pouco eficaz das cincias do
homem e da sociedade, muitos pesquisadores sensibilizaram-se e reconsideraram
sua maneira de explorar a realidade psicolgica e social. Estou impressionado
com o esprito do que eu chamarei as "novas cincias antropossociais" que
tendem a reconhecer um lugar cada vez mais importante sensibilidade da ao
humana (Barbier, 1994). No se pode ignorar a sensibilidade, enquanto fato social.
Ela est inserida na evoluo das relaes sociais contemporneas que
desvalorizam a violncia privada (vingana, crueldade e cdigo de honra das
sociedades arcaicas) e supervalorizam o poder do Estado e o imaginrio da
insegurana, como o demonstraram Norbert Elias em La civilisation des moeurs,
na histria das mentalidades, ou Gilles Lipovetsky em L' ere du vide, apoiando-se
nas teses de Pierre Clastres.
J h muito tempo, uma primeira corrente em Cincias Sociais havia se
distanciado da Sociologia clssica de tendncia francamente positivista, propondo
uma sociologia do acontecimento ou da cotidianidade, uma sociologia e uma
antropologia do sentido simblico da vida, uma sociologia da socialidade, na qual
a dimenso dionisaca da vida coletiva no esteja excluda da pesquisa.
Reconhecem-se a os trabalhos realizados pelas equipes de Edgar Morin, de
Henri Lefebvre, de Gilbert Durand, de Roger Bastide, de Georges Balandier, de
Georges Lapassade, de Jean Duvignaud ou de Michel Maffesoli, sem contar os de
todos os etnlogos que seguiram sem restries esse rumo - as obras da coleo
"Terre Humaine" de Jean Malaurie, editadas pela Plon. O etnlogo Pascal Dibie,
por exemplo, props uma interessante pesquisa sobre a etnologia do quarto de
donnir (1987). A filosofia e a histria das religies desempenharam igualmente um
papel nada desprezvel graas s correntes fenomenolgicas (Henri Corbin,
Mircea Eliade, Rudolphe Otto). Mais recentemente socilogos, como Vincent de
Gaulejac e Shirley Roy, no hesitram em desenvolver um plo de "sociologia
clnica", em mbito mundial, a partir de pesquisas implicadas (1993). Georges
Bertin, JeanMarie Brohm, Louis Vincent Thomas abrem a Antropologia para o
corpo, para a morte, para o imaginrio, para o sagrado. Outros, seguindo a
corrente de Oscar Lewis e de Franco
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HISTRICO DA PESQUISA-AO
fora de lembrar o essencial em nome do urgente, acaba-se por esquecer a
urgncia do essencial.
Edgar Morin
difcil compreender os desdobramentos atuais da pesquisa-ao sem voltar a
seus fundamentos histricos (Hess, 1983). Sem se prender excessivamente fase
inicial da pesquisa-ao, destacam-se, em funo de seu processo de
radicalizao epistemolgica, dois perodos:
1) o perodo - mais americano - de emergncia e de consolidao entre os anos
que precedem a Segunda Guerra Mundial e os anos 60;
2) o perodo de radicalizao poltica e existencial, mais europeu e canadense,
desde o final dos anos 60 at nossos dias.
1. O perodo de emergncia e de consolidao
Como toda disciplina cientfica, a pesquisa-ao no nasce espontaneamente.
Ela tem suas razes num passado mais ou menos distante.
Seria preciso, sem dvida, desenterrar as razes nos mtodos de investigao
propostos pelos pesquisadores
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em Cincias Sociais do sculo 19 e do primeiro quartel do sculo 20. Penso na
obra L' enquete ouvriere, de Karl Marx, que, em seu tempo, incitava os operrios
das fbricas a refletirem sobre suas condies de vida, respondendo a uma
sondagem, concebida como um instrumento militante, por meio de um
questionrio. Penso ainda nas monografias sobre os oramentos familiares dos
operrios europeus de Frdric Le Play, as quais inauguravam os primeiros
esboos de uma sociologia qualitativa. Na Europa e, mais particularmente, na
Frana, foi a escola sociolgica de mile Durkheim que triunfou, eclipsando os le
playsianos e seus seguidores que trabalhavam em monografias, como o
demonstraram com muita propriedade Antoine Savoye e Bemard Kalaora. A partir
da, os fatos sociais sero considerados como objetos, e as estatsticas tornar-seo o auxiliar indispensvel de toda investigao sociolgica. Em verdade, na
Alemanha no ocorreu o mesmo graas influncia de uma forte tendncia
filosfica em Cincias Sociais. Autores como Wilhelm Dilthey, Georg Simmel,
Ferdinand Tonnies, Alfred Vierkandt ou Max Weber mantiveram firme a
necessidade de compreender as situaes sociais antes de explic-Ias. Nos
Estados Unidos, a Escola de Chicago, em concorrncia com as universidades de
Nova York e da FIladlfia, vai desenvolver uma linha de pesquisa original e
implicacional relacionada com os problemas sociais urbanos da primeira metade
Georges Lapassade, Guy Le Boterf, Andr Lvy, Ren Lourau, Grard Mendel,
Max Pages, etc.) discutem igualmente o lugar mais ou menos marginal da
pesquisa-ao no mbito das Cincias Sociais.
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Os americanos Gerard I. Susman e Roger D. Evered, desde 1978, numa
perspectiva radical, formalizam sem compromissos as diferenas essenciais entre
as cincias positivas e a pesquisa-ao. J desde 1965, com I. L. Horowitz e o
movimento dos "radical caucuses", a sociologia americana radicaliza-se ao
denunciar o projeto "Camelot" que prope enviar pesquisadores em Cincias
Sociais nas zonas "turbulentas" do mundo para estudar os movimentos de
contestao poltica. Sal Alinsky desenvolve, em trabalho social, um mtodo de
interveno eficaz, como Danilo Do1ci j o havia realizado na Itlia; e Alfred Mac
Clung Lee, no seu Humanistic Sociology (1973), abre o caminho sociologia de
interveno (Hess, 1981, p. 117-133). Na Amrica Latina, a sociologia radical uniuse ao militantismo revolucionrio com Camilo Torres, Luis A. Costa Pinto,
Florestan Femandes, Orlando Fals Borda, e, do mesmo modo, com a "pedagogia
dos oprimidos" de Paulo Freire, em educao popular (Barbier, 1977, p. 51-58).
Por seu turno, os socilogos britnicos, com Lawrence Stenhouse, John Eliott e
Clem Adelman, propem uma reatualizao de uma "nova pesquisaao" por
meio de seus trabalhos em etnografia da escola que Peter Woods aprofundou
(1990). Nelly P. Stromquist, que trabalha no Canad, ope sistematicamente a
sociologia clssica pesquisa-ao. Wilfred Carr e Stephen Kemmis (1983)
definem a pesquisa-ao como uma forma de pesquisa efetuada pelos tcnicos a
partir de sua prpria prtica (Lapassade, 1989). Eles fazem coro com as teses
defendidas h tempo por Ruth Canter-Kohn e a problemtica dos "sbios do
interior" de Patrick Boumard (1989). Os anos 80 levantam a questo sobre
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uma pesquisa-ao existencial (Barbier, 1983), ao mesmo tempo em que ela
surge com toda sua diversidade, um tanto catica (Goyette, LessardHbert, 1987;
Hugon, Seibel, 1988).
No Quebec, a pesquisa-ao empreendida pelos tcnicos se diz "integral" com
Andr Morin, numa linha terica ligada aos "sistemas abertos em tecnologia
educativa" de Constantin Fotinas (1992) e de Henri Desroche. Isso no impede
que outros pesquisadores do mesmo pas desenvolvam pesquisas-aes muito
mais "lewinianas" e experimentais (Lessard- Hbert, 1991; Revue..., 1981a).
Embora Raymond Boudon no diga uma palavra sobre a pesquisa-ao na
reedio de 1976 de sua obra Les mthodes en Sociologie (coleo "Que saisje?"), ela j parece, entretanto, entusiasmar muitos pesquisadores. Em 1993,
Madeleine Grawitz consagra-lhe um longo captulo em seu Manuel des sciences
sociales (9. ed.). Em 1987, Jean Dubost (1987, p. 140), ao trmino de uma longa
investigao, prope uma primeira definio da pesquisa-ao: "ao deliberada
visando a uma mudana no mundo real, engajada numa escala restrita, englobada
por um projeto mais geral e submetendo-se a certas disciplinas para obter efeitos
de conhecimento ou de sentido". Enfim, em setembro de 1995, sai um "Que saisje ?", de Jean-Paul Resweber, pela editora PUF, que apresenta a problemtica
sobre a pesquisa-ao numa perspectiva global, mas sem verdadeiramente
afmnar sua natureza de ruptura epistemolgica com as cincias sociais institudas.
Nota 1 pgina 32:. Que est revestido de um carter sagrado, que foi
sacralizado, oposto a profano (N.T.).
Nota 2 pgina 32:. Gadget, palavra americana, que significa dispositivo novo,
dotado de poder mgico, capaz de resolver todos os problemas (N.T.).