LIVRO UNICO Filosofia Criancas
LIVRO UNICO Filosofia Criancas
LIVRO UNICO Filosofia Criancas
Crianças
Lígia de Almeida Durante Correa dos Reis
© 2019 por Editora e Distribuidora Educacional S.A.
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida
ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, eletrônico ou mecânico,
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Presidente
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Conselho Acadêmico
Ana Lucia Jankovic Barduchi
Danielly Nunes Andrade Noé
Grasiele Aparecida Lourenço
Isabel Cristina Chagas Barbin
Thatiane Cristina dos Santos de Carvalho Ribeiro
Revisão Técnica
Egle Pessoa Bezerra de F. Adrião
Raquel Muniz de Oliveira
Editorial
Elmir Carvalho da Silva (Coordenador)
Renata Jéssica Galdino (Coordenadora)
ISBN 978-85-522-1389-5
CDD 107
2019
Editora e Distribuidora Educacional S.A.
Avenida Paris, 675 – Parque Residencial João Piza
CEP: 86041-100 — Londrina — PR
e-mail: editora.educacional@kroton.com.br
Homepage: http://www.kroton.com.br/
Sumário
Unidade 1
A filosofia na escola����������������������������������������������������������������������������������� 7
Seção 1.1
Um estudo sobre o pensamento filosófico................................... 9
Seção 1.2
O pensamento filosófico na sala de aula����������������������������������� 19
Seção 1.3
Uma proposta para o ensino de filosofia���������������������������������� 30
Unidade 2
Conhecendo o programa de Filosofia
para Crianças������������������������������������������������������������������������������������������ 43
Seção 2.1
O programa de Filosofia para Crianças������������������������������������ 45
Seção 2.2
Os fundamentos do programa de Filosofia
para Crianças������������������������������������������������������������������������������� 55
Seção 2.3
Pressupostos da Filosofia para Crianças����������������������������������� 66
Unidade 3
A criança e o pensar filosófico na escola��������������������������������������������� 79
Seção 3.1
O desenvolvimento das habilidades na infância��������������������� 80
Seção 3.2
As habilidades do pensamento�������������������������������������������������� 91
Seção 3.3
Educar para o pensar ���������������������������������������������������������������102
Unidade 4
Comunidades, investigação e práticas pedagógicas na
filosofia para crianças���������������������������������������������������������������������������113
Seção 4.1
Da teoria à prática���������������������������������������������������������������������115
Seção 4.2
Metodologia de ensino e aprendizagem���������������������������������125
Seção 4.3
Avaliando a prática filosófica���������������������������������������������������138
Palavras do autor
C
aro aluno, nos textos que se seguem teremos uma experiência impor-
tante e prazerosa. Você terá a oportunidade de estudar e refletir sobre
questões importantes acerca da infância e do pensamento.
Caso surjam dúvidas ao longo do estudo, você poderá esclarecê-las com
seu professor ou buscar respaldo em outros autores (que serão apresentados
a você ao longo de nossos estudos), pois diante de dificuldades, é muito
sábio pedir ajuda. O processo como um todo, entre possíveis dificuldades e o
prazer do estudo, resultará em uma aprendizagem gratificante e elucidativa.
O livro está dividido em quatro unidades de estudos para que a experi-
ência de conhecer seja gradativa e profunda. Vamos resgatar um pouco de
como a humanidade se dedicou a conhecer o mundo e as formas de expli-
cá-lo, além da importância do conhecimento filosófico para a compreensão
das coisas que nos tocam. Em destaque, neste estudo, reencontraremos a
infância sob uma nova perspectiva: a de estimulá-lo a pensar filosoficamente.
Para isso, conheceremos o Programa de Educação para o Pensar e outras
iniciativas que dedicam ao pensamento e à infância tempo de encontro e
convergência, acreditando, desta forma, que ensinar a pensar filosoficamente
é uma prática educacional capaz de permitir às crianças uma condição de
sair da menoridade (pensando a menoridade não como divisão etária, mas
como uma condição menor, como se fosse menos).
Reserve um tempo para dedicar-se às leituras e às reflexões propostas.
Nas páginas seguintes você terá acesso a muitas informações que precisam
de tempo e condições de serem organizadas mentalmente por você, a fim de
que se tornem efetivamente conhecimentos e, posteriormente, orientem sua
prática profissional.
Unidade 1
A filosofia na escola
Convite ao estudo
Todos nós temos algo a descobrir. Existe uma infinidade de coisas que
não entendemos e, com tanta informação disponível nos meios de comuni-
cação (atente-se para o fato de que informação não é conhecimento),
sentimos que nunca conseguiremos compreender tudo o que nos acontece.
Nesta unidade abordaremos a necessidade que as pessoas têm de conhecer
e entender o mundo. A partir do momento em que um bebê desenvolve seu
aparato sensorial, essa busca tem início, e assim também foi com a história
da humanidade: desde os primeiros hominídeos, a manipulação de objetos
e a necessidade de comunicar-se e expressar-se demonstraram que também
houve essa necessidade de conhecer e explicar tudo.
Ao término desta unidade, é esperado que você conheça as bases teóricas
sobre o pensamento filosófico na escola, tendo em vista o desenvolvimento
de propostas de ensino de filosofia para crianças, e demonstre capacidade de
desenvolvê-las com base na fundamentação teórica. Por isso a unidade foi
estruturada abordando conteúdos que possibilitem o alcance de tal expecta-
tiva, fazendo menção à história do pensamento filosófico e suas potenciali-
dades, diferindo-o de outras formas de pensamento.
Refletiremos sobre situações práticas do cotidiano profissional. Você já parou
para pensar que o desejo e a necessidade de conhecer o que nos cerca faz parte
de todos os seres humanos? As crianças demonstram maior avidez em compre-
ender o funcionamento de aparelhos, utilidade de objetos e fenômenos naturais.
São cheias de “por quês”. Em uma sala de aula do ensino fundamental ou mesmo
da educação infantil, em que há agrupamento de crianças em faixa etária próxima
ou igual, as questões costumam ser parecidas também. Por exemplo: cada um
de nós, um dia, tentou compreender por que a lua nos seguia enquanto o carro
andava, ou por que a pessoa no quadro/foto olhava fixamente para nós mesmo
quando trocávamos de lugar. As crianças de uma determinada faixa etária estão
sujeitadas às mesmas informações midiáticas e às mesmas programações de ativi-
dades escolares, isto é, há uma padronização implícita e explícita no tratamento da
infância. Mas isso pode não ser inquestionável ou inflexível, podemos estimular e
ensinar várias formas de se pensar em uma questão.
A filosofia com crianças é uma grande possibilidade de problema-
tizar estas questões a partir de uma metodologia organizada em torno de
procedimentos que permitem às crianças e aos adultos desenvolverem
habilidades cognitivas que culminam em um pensamento de maior rigor. Os
professores que trabalham nesta perspectiva tendem a obter maiores avanços
em seu trabalho de educador.
Pense um pouco neste contexto: se você fosse a professora nesta situação
e não pudesse ignorar estes questionamentos, qual tratamento daria para
as dúvidas e comentários apresentados pelas crianças? O que você faria se
as atividades que planejou para a aula fossem insistentemente interrom-
pidas por uma avalanche de questões - para os adultos - aparentemente sem
importância?
Assim, você é convidado a avançar em busca das formas de se pensar
o mundo em que vivemos e refletir sobre as realidades nas quais estamos
inseridos. Faremos uma breve contextualização dos diferentes tipos de
reflexão e de como o pensamento filosófico contribui de maneira significa-
tiva para a vida humana, bem como sua importância no espaço escolar e
nas práticas pedagógicas. Conheceremos uma proposta de ensino pautada
no pensamento filosófico e na prática do pensar. Desta forma, nesta primeira
unidade, veremos as diferentes formas de conhecimento frente ao pensa-
mento filosófico e as possibilidades da filosofia como método de investigação
junto às crianças.
Seção 1.1
Diálogo aberto
Temos muitas dúvidas em nossas vidas, não é mesmo? Existem coisas
que não entendemos e gostaríamos de mudar para acomodar às nossas
necessidades, que se assemelham às de todos os que convivemos ou às da
maioria deles. Por que pessoas ainda efetuam queimas de terrenos urbanos se
sabemos que quem mora ao redor e mesmo o dono do terreno terá prejuízos?
Precisamos que estas queimas parem, a fim de termos uma melhor qualidade
de ar e de solo. Este é um exemplo bem simples de uma necessidade comum,
para ilustrar como a vida em sociedade faz com que muitas coisas entre os
seus viventes se assemelhem.
Assim como as necessidades comuns existem, os questionamentos
comuns também existem. Indagamo-nos sobre a morte, sobre o universo,
sobre a cura para doenças, sobre os motivos para situações às quais somos
submetidos, até sobre motivos que levam outras pessoas a agirem como
agem. Também há questionamentos próprios para cada fase da vida. Os
bebês atiram objetos porque estão elaborando conhecimento sobre distância,
as crianças por volta de três anos necessitam de razões lógicas para tudo,
por isso não param de perguntar “por quê?”, e os adolescentes questionam a
ordem hierárquica (assim como os adultos).
Imagine-se na situação em que você é professor de um primeiro ano
do ensino fundamental, é início de ano e os seus alunos estão habituados
à rotina da educação infantil. Pensando em fazer com que essa transição da
educação infantil para o ensino fundamental não seja um momento ruim
para eles, você organiza um tempo dedicado à oralidade ao final das aulas.
Em um desses momentos, um aluno que relatou a viagem com os pais no
fim de semana, contou que, na volta para a casa, a lua veio junto, seguindo
o carro de sua família. Com isso, a sala ficou agitada, porque todos os seus
alunos também tinham uma história para contar sobre a lua. Todos preci-
savam organizar seus materiais para irem embora, e foi nessa confusão que
a aula se encerrou.
Como aproveitar um momento como esse e conduzir seus alunos para a
descoberta de que existem várias formas de se pensar e conhecer o mundo? Como
demonstrar a eles que há várias explicações para um mesmo fenômeno? Como
você, professor, agiria diante deste questionamento dos alunos, apresentando,
inclusive, exemplos de interpretação para o caso da lua?
10 - U1 / A filosofia na esco
registro e meios de ensinar tudo isso às futuras gerações. Todos esses conhe-
cimentos são incessantemente aprofundados, renovados e superados sem
que, para isso, precisem ser descartados. Assim como é possível falar em
evolução do homem, também é possível falar em evolução do conhecimento.
Embora possamos tipificar os conhecimentos de acordo com a forma
com que os adquirimos, a diferenciação entre eles não significa que um seja
superior ao outro. Não são sucessões de formas de pensar, mas sim diferenças
que convivem em todos nós e ao longo de nossa história. A evolução mencio-
nada acima não está localizada entre um e outro conhecimento. Está dentro
de cada um deles. Para que fique mais clara essa diferenciação e evolução,
veremos isoladamente cada um deles.
Conhecimento empírico
Este tipo de conhecimento é proveniente das experiências vividas, todas
as pessoas o acessam ao longo da vida. Também o chamamos de senso
comum. Comumente, em ambientes com pessoas mais intelectualizadas (ou
até mesmo no universo acadêmico) este tipo de conhecimento tende a ser
menosprezado e até mesmo rejeitado.
Contudo, é uma importante forma de entendimento, porque é a partir
dele que nos posicionamos nas diversas situações sociais em que estamos
imersos. Ele acontece de forma intuitiva, sem requerer grandes reflexões
sobre fatos ou consequências, não depende de pesquisas ou estudos sobre os
eventos cotidianos. É a partir do conhecimento empírico que nos adaptamos
às diferentes realidades com as quais convivemos.
Exemplificando
Os ditados populares são uma forma bastante expressiva do conhecimento
empírico, como se fossem notas de sabedoria popular que abrangessem
qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo. Vejamos alguns deles:
“Mais vale um pássaro na mão do que dois voando.”
“Quem muito quer nada tem.”
“Quem tem boca vai a Roma.”
Conhecimento mítico-religioso
Além do conhecimento proveniente de nossas experiências, também
existe uma forma de conhecer o mundo que advém de nossas crenças e das
explicações que tomamos como verdades absolutas, que não necessitam de
comprovações e testes para se configurarem como certas.
Exemplificando
Enchentes catastróficas podiam significar, nos primórdios da existência
humana, que os deuses estavam irados com os homens ou mesmo um
único Deus (judaico-cristão), como foi a explicação do dilúvio. A mesma
chuva torrencial que significa ira, podia e pode (ainda para alguns) signi-
ficar benção e prosperidade.
Na Austrália há um grande território de deserto onde as catástrofes
naturais são constantes. A mesma chuva que destrói (porque o solo não
tem capacidade de infiltração) poderia ser considerada grande benção,
especialmente em épocas de intensa seca, que resulta na morte de gado
e impossibilidade de agricultura.
Assimile
Conhecemos e explicamos o mundo de diferentes formas: por meio da
experiência (conhecimento empírico), por meio das crenças (conhe-
cimento mítico-religioso), por meio de testagens e comprovações em
ambiente controlado (conhecimento científico) e por meio de refle-
xões do cotidiano de forma criteriosa e cuidadosa, sem que se chegue
12 - U1 / A filosofia na esco
a respostas imutáveis e sem que precisem ser testadas em ambientes
controlados (conhecimento filosófico).
Conhecimento científico
Diferentemente dos outros dois conhecimentos já abordados, o científico
requer comprovação, mas, igualmente aos demais, também nasce da dúvida
e da necessidade de explicação e entendimento.
O conhecimento científico precisa validar seus conceitos por meio de
experimentos que comprovam hipóteses concretamente. É porque se desen-
volvem explicações conhecidas como leis gerais, aplicáveis a todos os eventos
similares, independentemente do local e da data de ocorrência. Por exemplo,
o fato de ficarmos sempre atraídos ao solo foi o conhecimento científico que
comprovou o fato de a Terra não ser plana, então criou-se a lei da gravidade
uma explicação geral, comprovada e possível de testagem em laboratórios
(ambientes controlados).
Reflita
Um tipo de conhecimento não anula o outro. É possível um cientista ser
religioso e guiar-se por máximas provenientes de saber empírico. Duas
explicações distintas podem conviver. Pense em você. Quando pensa
sobre sua morte, quais certezas tem?
Conhecimento/pensamento filosófico
Deixamos para abordar esta forma de conhecimento por último porque é
dela que se trata toda a disciplina subsidiada neste livro. Como estamos nos
dedicando ao estudo de Filosofia para crianças, há que se deter mais demora-
damente sobre a própria filosofia. Ela é um tipo de conhecimento que se dá
por meio da elaboração de conceitos (representações mentais organizadas e
estruturadas a partir de características gerais e comuns acerca do objeto de
estudo).
O conceito é aquilo que define as coisas e torna possível que pensemos
juntos ou a partir dos pensamentos de outras pessoas. Por exemplo, a felici-
dade: todos sabemos o que é (ou pelo menos sabemos se a possuímos ou não).
Outro exemplo mais concreto é a cadeira. Apenas ao ler a palavra cadeira,
você entendeu que se trata de um móvel pensado, projetado e construído
para que pessoas possam se sentar. Contudo, há uma infinidade de cores,
tipos e estilos de cadeiras. Mas há um conceito que coloca todos esses objetos
em uma única categoria: cadeira.
“
[...] o que nos faz precisamente pensar manifesta-se, na actua-
lidade, no facto do nosso-não pensar. O que se deve pensar,
manifesta-se, esconde-se, dá-se e retira-se; o retirar-se é impos-
sível sem o dar-se, o comunicar-se. Ora o pensar está precisa-
mente neste retirar-se e até hoje não nos demos conta de que
maneira, o que se deve pensar, se retira ou esconde e se entrega.
(ABRANCHES, 1955, p. 679)
14 - U1 / A filosofia na esco
possa mobilizar seus conhecimentos empíricos na resolução, então, não há
uma resposta fechada e universalmente correta para ela.
A resolução desta situação parte da elaboração de um planejamento de
aula abordando as diferentes formas de se conhecer o mundo e levando
em conta as diferentes explicações para um mesmo fenômeno. Embora a
filosofia seja apoiada em metodologia dialógica, ela é intencional e requer
planejamento, não devendo ser pensada de forma improvisada.
Nesse sentido, a partir das perguntas das crianças, o professor poderia
realizar um planejamento de atividade que mobilizasse os conhecimentos
prévios das crianças, problematizando-os a fim de instigar o aprofunda-
mento dos conhecimentos e motivar o desejo de aprender mais. A primeira
coisa a fazer seria valorizar a pergunta e as respostas dadas espontaneamente,
ouvindo-as com atenção.
Cabe destacar que planejar é um dos principais atos do docente. Uma
aula tem que ser intencional, dispor de estratégias metodológicas e recursos
específicos. Planejar também exige antecipação, ou seja, o professor deve
pensar em quais respostas possíveis seus alunos dariam e quais perguntas ele
poderia fazer para fomentar a discussão, organizando as possíveis respostas
em categorias (mítico, científico, empírico e filosófico).
Cada pessoa desenvolve uma maneira de organizar-se mentalmente.
Uma das formas mais comuns é a de apoio visual, uma imagem que
auxilie na organização das informações, como uma tabela com as possí-
veis respostas escritas nas linhas e as características de categorias nas
colunas. Atente-se para o fato de que uma forma de conhecimento não
necessariamente exclui outro. Então, pode acontecer de uma resposta
estar categorizada em mais de um tipo de pensamento ou você pode ficar
em dúvida em relacioná-la.
Avançando na prática
Descrição da situação-problema
Coloque-se na seguinte situação: você está trabalhando com uma turma
de terceiro ano do ensino fundamental composta de alunos de oito anos. Nas
aulas de Ciências, está trabalhando o universo: planetas, astros e satélites. Na
segunda aula sobre o tema, um aluno pergunta se há vida em outros planetas.
Você responde que não sabe, que existem algumas pesquisas e trabalhos de
Resolução da situação-problema
Não há uma resposta exata para esta questão. A resolução deste problema
depende da sua capacidade de articular os diversos conhecimentos que possui
e as habilidades filosóficas das quais dispõe. Você pode escrever um parágrafo
na lousa ou até mesmo dialogar com o aluno, refletindo sobre as duas teorias
e mostrando de que forma se aproximam, contestam-se ou convergem-se.
Lembrando que filosofia é intrínseca ao humano e, portanto, temos tais habili-
dades (alguns com maior desenvolvimento e outros nem tanto). Uma maneira
razoável de convergir as teorias é a argumentação de que, a partir da vontade
divina, a vida se fez e que a evolução faz parte da elaboração divina na criação.
16 - U1 / A filosofia na esco
a) Trata-se de uma lenda com base no conhecimento empírico dos povos indígenas
brasileiros.
b) Trata-se de uma lenda com base no conhecimento filosófico que questiona e reflete
sobre as relações parentais.
c) Trata-se de uma lenda com base no conhecimento mítico para justificar afoga-
mentos e suas consequências.
d) Trata-se de uma lenda com base no conhecimento científico que busca evidências
para justificar as ocorrências mitológicas.
e) Trata-se de uma lenda baseada no senso comum da sociedade moderna que
pretende alertar para os riscos de afogamento.
2. O carvalho é uma árvore que se fortalece cada vez mais a cada tempestade ou
intempérie.
3. Analise o trecho da música a seguir que fala sobre imagens negativas de seu autor.
“Mas a filosofia hoje me auxilia
A viver indiferente assim”
(ROSA, 1933)
18 - U1 / A filosofia na esco
Seção 1.2
Diálogo aberto
Você já deve ter percebido que não há como afirmar com certeza que um
tipo de conhecimento é superior a outro. É possível até optar por um tipo e
defendê-lo como o mais viável em determinadas circunstâncias, mas não é
possível dizer que um é maior em importância.
Você está convidado a reviver um pouco a situação de sala de aula
apresentada no início desta unidade, em que você seria professor de alunos
que frequentemente interrompem suas atividades programadas com infinitos
comentários sobre qualquer coisa que você fale. Imagine que é uma turma de
segundo ano do ensino fundamental que fala sobre tudo o tempo todo. Você
iniciou o trabalho com o ciclo da água nas aulas de Ciências com as seguintes
perguntas aos alunos: como a chuva é feita? Por que chove?
Dessas duas perguntas, vieram como enxurrada, uma quantidade trans-
bordante de respostas: porque São Pedro está lavando o céu, porque o sol
chora e porque as nuvens são feitas de água.
Você não quer interromper a fala de seus alunos, mas também se sente
incomodado com os comentários desconexos que mais tumultuam do
que colaboram para aprendizagem. Além disso, também sabe que precisa
aproveitar o conhecimento prévio deles para avançar na aprendizagem,
promovendo um conhecimento mais profundo. Então, como organi-
zaria estes momentos? Como ajudar os alunos a se posicionaram sobre os
diferentes assuntos abordados e aprenderem mais sobre eles?
Para resolver esta situação, agora você vai conhecer um pouco de uma
proposta de educação centrada no diálogo. Esta proposta utiliza uma metodo-
logia chamada Comunidade de Investigação, justamente porque envolve o
conjunto das pessoas em torno de uma mesma questão (comunidade), por
meio do diálogo criterioso, criativo e cuidadoso (investigativo).
A partir dessa experiência de proporcionar atividades de pensamento para
seus alunos, você também contribuirá para que eles se posicionem crítica e
criativamente nos ambientes que frequentarem, iniciando a construção de
uma cidadania ativa.
Pesquise mais
Você pode ler mais sobre os motivos que Epicuro apresentava para justi-
ficar que a filosofia não devia ficar restrita a alguns, mas, pelo contrário,
deveria ser uma prática desde a mais tenra idade.
EPICURO. Carta sobre a felicidade: (a Meneceu). Tradução de Álvaro
Lorencine e Enzo Del Carratore. São Paulo: Editora Unesp, 2002.
“
Que ninguém hesite em se dedicar à filosofia enquanto jovem,
nem se canse de fazê-lo depois de velho, porque ninguém
jamais é demasiado jovem ou demasiado velho para alcançar
a saúde do espírito. Quem afirma que a hora de dedicar-se à
filosofia ainda não chegou, ou que ela já passou, é como se
dissesse que ainda não chegou ou que já passou a hora de ser
feliz. (EPICURO, 2002, p. 14)
Reflita
Sua própria experiência com filosofia na escola foi prazerosa ou propor-
cionadora de momentos de felicidade? Será que as práticas e os procedi-
mentos adotados nas aulas de filosofia levam em conta esses preceitos?
20 - U1 / A filosofia na esco
Conforme você pôde estudar anteriormente, a filosofia difere das outras
formas de compreender o mundo, por não se tratar de uma busca pela verdade
absoluta. Ela se constitui como pensamento crítico e possui várias vertentes
de explicações para um mesmo problema. Justamente por isso, o pensamento
pode nortear o ideário educacional a fim de promover mudanças e emanci-
pação dos sujeitos.
“
Se a filosofia é, por sua própria natureza, um conhecimento
crítico – marcado pela diversidade e complexidade das teorias
que a história do pensamento suscita e estimula –, como deve
ser o seu ensino? Essa questão não deixa de incomodar a mente
de filósofos, pedagogos, e professores de filosofia. Se, realmente,
todos têm o interesse no aprendizado e na divulgação da filosofia
como matéria importante, seja para a profissionalização do aluno
como futuro professor e pesquisador, seja para a sua formação
como pessoa e cidadão, o problema do seu ensino é relevante.
(RAMOS, 2007, p. 198)
Exemplificando
Os membros de um conselho de classe, por exemplo, reúnem-se para
discutir os problemas específicos de aprendizagem dos alunos e para
procurar mecanismos e formas de auxiliar na resolução de tais problemas.
Se o agrupamento de profissionais for pautado pelo diálogo, as deliberações
serão cumpridas e os alunos terão maiores chances de avanços.
22 - U1 / A filosofia na esco
Este tipo de congregação de pessoas que seguem esse modelo de diálogo
é chamado de Comunidade de Investigação, em que os indivíduos aprendem
a dialogar pela própria prática do diálogo.
“
Se a comunidade de investigação está intimamente preocu-
pada com a construção do significado, ela deve dessa maneira
estar preocupada com o conteúdo. Tal conteúdo não é restrito
à informação previamente empacotada, contida nos livros e
nas cabeças dos professores, que é transmitida em seguida
para os livros e (talvez) para as cabeças dos alunos. Nesse
processo de transmissão, o que é transmitido tende a ser
inerte e portanto incapaz de estimular alunos a pensarem por
si mesmos ou formular as perguntas do tipo que levam à inves-
tigação. (SPLITTER; SHARP, 1999, p. 38)
Assimile
O pensamento filosófico se dedica ao conhecimento das coisas levando
em consideração as explicações empíricas, científicas e míticas. São pontos
de vistas diferentes sobre questões humanas, e a filosofia tenta organizar
essas informações de maneira racional e razoável, criando um conceito que
permita a todos compreender o objeto em questão.
24 - U1 / A filosofia na esco
Como tudo o que acontece, a experiência descrita acima passa a fazer
parte dos que a vivenciaram, e os comportamentos e aprendizagens passam a
ser semelhantes em outras esferas e em outros locais.
Os membros de uma Comunidade de Investigação, mesmo quando não
estão reunidos, cada um a seu modo, posicionam-se de maneira crítica
diante de qualquer situação, são capazes de desenvolver uma conversa
respeitosa com qualquer pessoa – isto porque aprenderam a ouvir e apren-
deram que o que ouvem pode contribuir de alguma forma. Essa dispo-
sição ao diálogo favorece, inclusive, o aprimoramento de habilidades muito
necessárias para a escolarização, como a leitura, a ampliação do vocabu-
lário, a oralidade e a escrita.
Além das competências essenciais para a escolarização, estas também
permitem que seus integrantes construam uma cidadania responsável. Isso
se dá porque a participação na comunidade de investigação e a dedicação ao
diálogo investigativo contribuem para que as ações de seus integrantes sejam
baseadas na coletividade e no respeito aos direitos e às manifestações múlti-
plas presentes na sociedade (artísticas, culturais e religiosas).
É importante ressaltar que estas ações baseadas na coletividade só
conseguem ser reais e efetivamente desempenhadas porque se originam da
reflexão filosófica. Ao entrar em contato com a infinidade de informações
e as diferenças existentes, é a reflexão filosófica que possibilita ao sujeito
a criação de conceitos (pensamento consciente) que nortearão os atos de
forma coerente com o pensamento. Desta forma e nesta perspectiva, a
cidadania não se resume a reivindicar direitos ou cumprir deveres - é o
posicionamento crítico e ético diante do mundo, sem perder o critério e a
dimensão estética. Assim, os estudantes e professores podem se reconhecer
no mundo e como parte da humanidade, analisando e propondo soluções
e problematizando as situações, desempenhando a cidadania de forma
autônoma e efetiva.
Reflita
É possível alguém se posicionar criticamente ou criativamente somente
em um espaço de vivência? Ou a pessoa participativa e colaborativa age
com essas habilidades em todos os espaços?
O pensamento filosófico não é acionado em situações determinadas. A
partir do momento em que alguém se dedica ao filosofar, seu pensar
passa a ser filosófico perenemente.
26 - U1 / A filosofia na esco
e o que elas têm em comum. Por exemplo, dizer que o sol chora é mais
parecido com a afirmação de que as nuvens derretem ou com a afirmação de
que a água sobe até o céu e depois cai?
Você é membro da comunidade e pode auxiliar os alunos propondo
categorias, argumentando e solicitando contra-argumentos.
Avançando na prática
Descrição da situação-problema
Em um outro momento do dia com seus alunos da educação infantil,
enquanto manipulam brinquedos de valor afetivo, acontece uma disputa por
determinado brinquedo. É um objeto macio e, em seu, interior, há um guizo.
Todas as crianças gostam muito dele e frequentemente quem o pega não troca
e não cede a outro aluno. Neste dia específico, dois alunos se indispuseram e
chegaram a se agredir na disputa pela posse do brinquedo. A primeira coisa
que você faz é separá-los e isolar o brinquedo, depois se questiona sobre como
lidar com essa situação sem precisar lidar com ela de maneira punitiva e sem
precisar excluir o brinquedo desses momentos, já que eles gostam tanto dele.
Resolução da situação-problema
A partir da ideia de formação de uma Comunidade de Investigação, o
diálogo deve ser a escolha metodológica. Depois que as crianças estiverem
menos exaltadas, vale a pena fazer uma roda para conversar sobre o
brinquedo, pedir para que exponham as razões de gostarem tanto dele e
que compartilhem o sentimento que experimentam quando estão com ele e
quando ele está com o outro.
Sensibilizados e envolvidos com a problemática, está na hora de resolver
a disputa. Juntos, os alunos podem resolver e propor soluções: sendo razoá-
veis, todos acatam (inclusive você); não sendo razoáveis, você apresenta os
argumentos para a impossibilidade de resolução da maneira como proposto
e prossegue a discussão até que haja consenso.
1. Joana está trabalhando uma letra de música com seus alunos para comemoração
na escola. Além dos ensaios, ela propõe uma discussão sobre os significados daquela
28 - U1 / A filosofia na esco
a) As duas são verdadeiras, e a segunda é uma justificativa correta da primeira.
b) As duas são verdadeiras, mas não estabelecem relação entre si.
c) A primeira é uma afirmativa falsa, e a segunda, verdadeira.
d) A primeira é uma afirmativa verdadeira, e a segunda, falsa.
e) As duas afirmativas são falsas.
30 - U1 / A filosofia na esco
Não pode faltar
“
No novo cenário mundial, reconhecer-se em seu contexto
histórico e cultural, comunicar-se, ser criativo, analítico-crí-
tico, participativo, aberto ao novo, colaborativo, resiliente,
produtivo e responsável requer muito mais do que o acúmulo
de informações. Requer o desenvolvimento de compe-
tências para aprender a aprender, saber lidar com a infor-
Pesquise mais
Os PCNs foram documentos anteriores à BNCC, que não tinham um
caráter normativo como a Base. Eles apenas definiam objetivos a serem
atingidos e não estabeleciam um currículo. A introdução do tema Ética
no caderno de temas transversais e ética nos dá importantes infor-
mações sobre conceito de cidadania. Nas páginas 49 a 51, é possível
perceber como o texto se relaciona com o que estamos entendendo a
respeito da filosofia.
BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares
nactionais: apresentação dos temas transversais, ética. Brasília: MEC/
SEF, 1997.
Assimile
Filosofia, nos anos iniciais do ensino fundamental, pode ser uma
prática que permeia todas as outras práticas e todos os compo-
nentes curriculares.
32 - U1 / A filosofia na esco
As questões que serão discutidas e abordadas nas experiências filosóficas
podem ser contribuintes para o estudo das propostas nos materiais didáticos
adotados e nas atividades elaboradas pelo professor para dar conta de conte-
údos previstos no currículo, já que a Filosofia se debruça sobre todas as
questões que envolvem a humanidade.
Por meio das experiências filosóficas, os alunos terão habilidades de racio-
cínio melhor desenvolvidas para se dedicarem aos estudos propostos por
outras disciplinas específicas e encontrarão relações entre o que aprendem na
escola e as situações da vida cotidiana fora da dela.
Assim, podemos nos pautar nos seguintes dizeres do jornalista Gilberto
Dimeinstein:
“
Cidadania é o direito de ter uma ideia e poder expressá-la.
É poder votar em quem quiser sem constrangimento. É
processar um médico que cometa um erro. É devolver um
produto estragado e receber o dinheiro de volta. É o direito
de ser negro sem ser discriminado, de praticar uma religião
sem ser perseguido. Há detalhes que parecem insignificantes,
mas revelam estágios de cidadania: respeitar o sinal vermelho
no trânsito, não jogar papel na rua, não destruir telefones
públicos. (DIMESNTEIN, 1994, p. 6-7)
Exemplificando
O fato de um aluno jogar papel no chão, sujar a carteira, responder
funcionários de forma grosseira, colocar os pés na cadeira em que
outras pessoas vão se sentar, podem ser motes para a discussão sobre o
respeito à coletividade.
Reflita
Se a filosofia contribui para que as habilidades de pensamento
sejam aprimoradas e a linguagem seja mais rica, quando ela deve
ser iniciada? Por que os textos filosóficos comumente são direcio-
nados ao público adulto e utilizam linguagem erudita?
O bebê, assim que começa a estabelecer relação com o mundo que o cerca,
comunica-se. O balbucio, o choro, o riso e os gestos deixam de ser reflexos
e passam a ser comportamentos quando o bebê começa a compreender
que para cada ato seu existe uma resposta específica de outra pessoa. Mais
tarde, quando começa a se expressar verbalmente, vai copiando palavras e
ampliando seu vocabulário com uma velocidade surpreendente. Um adulto,
quando precisa aprender outro idioma, demora muito tempo para adquirir o
novo vocabulário. A criança o faz mais rapidamente.
34 - U1 / A filosofia na esco
Ensinar a filosofar
A escola é o lugar ideal para o acontecimento dessas atividades plane-
jadas. É lá que crianças de diferentes famílias e contextos sociais se encon-
tram. A diferença de experiências vividas e a proximidade por faixa etária
possibilita momentos muito densos de pensamento.
A matéria (no sentido de material e não de componente curricular)
principal de trabalho na escola é a linguagem. É a partir dela que as relações
se estabelecem, que os conceitos são apresentados e aprofundados.
Contudo, para que isso aconteça, é preciso que se instaure uma comuni-
dade de investigação. Tanto o professor ou professora, como os alunos
precisam estar dispostos ao diálogo e às consequências de respeitar a fala
dos outros, pois as discordâncias vão aparecer, assim como os pensamentos
contrários, as solicitações de argumentações sobre o seu próprio ponto de
vista e outros fatores, inclusive sobre a fala do professor.
A filosofia com crianças foi desenvolvida com base em pressupostos
educacionais, filosóficos e éticos. Podemos resumi-los e enumerá-los assim:
1. Crianças devem ser introduzidas ao pensamento filosófico.
2. Investigar é a metodologia que vai ao encontro da curiosidade infantil.
3. As crianças desenvolvem o julgamento a partir do pensamento em
coletividade.
4. O texto filosófico auxilia no desenvolvimento da identidade da criança.
5. Personagens dos textos filosóficos podem modelizar raciocínio e
conduta.
6. Roteiros e planejamentos estruturam a experiência filosófica.
7. Realizar julgamentos frequentes e defendê-los contribui para a
razoabilidade.
8. Realizar inferências de forma estruturada fortalece o raciocínio da
criança.
9. Filosofia propicia aprendizagem de conceitos.
10. As crianças aprendem a classificar e generalizar.
11. O professor propicia o questionamento por parte dos alunos.
12. O professor incentiva que todos considerem as falas dos demais.
Reflita
Se a filosofia parte da necessidade de explicar o desconhecido,
de maravilhar-se com as descobertas, será que não há mais razão
de existir?
36 - U1 / A filosofia na esco
como verdades absolutas. Todas as pessoas ainda podem questionar o estado
de coisas a que somos reduzidos frequentemente e tentar compreender qual
o nosso lugar neste mundo. De que maneira podemos nos posicionar diante
das intensas inovações tecnológicas que (numa contradição ao próprio termo
inovação) contribuem para a manutenção das sociedades?
Como a escola pode contribuir para suscitar estes questionamentos?
Nesta unidade vimos alguns aspectos que respondem essas perguntas.
Contudo, elas ainda nos acompanharão ao longo de nossos estudos.
Descrição da situação-problema
Você está trabalhando com recorte e colagem e pediu para que as crianças
localizassem em revistas as letras que compõem seus nomes e colassem em
uma folha de sulfite, organizando-as de acordo com a ficha de nome que cada
um tem à sua disposição.
Durante a atividade, uma criança cola letras invertidas, e outra, que está
mais avançada na aquisição da leitura, aponta o erro ironizando-o. A criança
que cometeu o equívoco fica bastante nervosa, amassa a folha e joga no chão.
Você só percebe que algo estava errado a partir desse ato. Solicita, então, que
a criança pegue o papel amassado e venha conversar com você. Ela se recusa
e diz palavras ofensivas à outra criança (a que ironizou). Como conduzir
esta situação para um desfecho razoável? Deixar de castigo até resolver se
redimir? Colocar no famoso cantinho do pensar? Ignorar para não piorar e
mandar recado aos responsáveis?
Resolução da situação-problema
Em uma comunidade de investigação, as atitudes de seus membros
também são alvos de reflexão e debate. É necessário ter cuidado para não
causar constrangimento, mas a conversa precisa acontecer. Neste caso, o fato
deve ser apresentado a todos. Sente em roda com todos e solicite que alguém
que estava à parte da situação relate o que aconteceu. Peça que os envolvidos,
caso queiram, apresentem suas versões, relatem como se sentiram e como
avaliam a própria atitude. Tire o foco dos sujeitos e transfira para a ação,
perguntando aos demais se alguém já passou por alguma situação semelhante,
como foi e quais as outras possibilidades de agir. Dessa maneira, o diálogo se
centra nas formas de avaliar quais condutas são mais adequadas em situações
de erro e de chacota. Assim, você terá coordenado uma discussão filosófica
que acarretará na autoavaliação e autocorreção.
38 - U1 / A filosofia na esco
Assinale a alternativa que apresenta as palavras que preenchem corretamente as
lacunas da afirmação.
a) cuidadoso; criativo; crítico; criterioso.
b) crítico; criativo; coletivo; capcioso.
c) unitário; cidadão; coletivo; cooperativo.
d) conformado; criativo; vigoroso; justo.
e) verdadeiro; inquestionável; ajuizado; razoável.
BRASIL. Ministério da Educação. Base nacional comum curricular: educação é a base. 2017.
Disponível em: http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=down� -
load&alias=79611-anexo-texto-bncc-aprovado-em-15-12-17-pdf&category_slug=dezem-
bro-2017-pdf&Itemid=30192. Acesso em: 21 nov. 2018.
EPICURO. Carta sobre a felicidade (a Meneceu). Tradução Álvaro Lorencine e Enzo Del
Carratore. São Paulo: Editora Unesp, 2002.
GLOBO LIVROS (Org.). O livro da Filosofia. Tradução Douglas Kin. Rio de Janeiro: Globo
Livros, 2016.
LIPMAN, M. O pensar na educação. Tradução Ann Mary F. Perpétuo. Petrópolis: Vozes, 1995.
LIPMAN, M.; SHARP, A. M.; OSCANYAN, F. S. A filosofia na sala de aula. Tradução Ana Luiza
Fernandes Marcondes. São Paulo: Nova Alexandria, 2001.
SPLITTER, L.; SHARP, A. Uma nova educação: a comunidade de investigação na sala de aula.
São Paulo: Nova Alexandria, 1999.
Unidade 2
Convite ao estudo
Caro aluno, vamos iniciar agora uma nova etapa nos estudos de filosofia
para crianças. Anteriormente você pôde compreender o lugar do conheci-
mento filosófico nas práticas educacionais e teve indícios do que seria uma
educação para o pensar.
Nesta unidade você conhecerá o professor e filósofo norte-americano
Matthew Lipman e o programa de Filosofia para Crianças – Educação para
o Pensar, concebido e desenvolvido por ele, bem como sua propagação para
diferentes países do mundo, incluindo o Brasil.
Esse programa tem uma metodologia específica, pautada na dialogicidade
e no efetivo exercício da cidadania, conforme você estudou anteriormente.
Pensando na potência da dialogicidade e nas possibilidades de práticas
escolares, propomos o seguinte contexto que servirá de base para os estudos
desta unidade:
Comumente as escolas e os educadores utilizam castigos com seus
educandos. Não estamos falando de castigo físico (que, embora sendo crime,
ainda ocorre). Estamos falando de penalização para atos inadequados.
Um desses castigos, muito comum (até mesmo fora da escola), é colocar a
criança em algum tipo de restrição e pedir para que ela pense no que fez.
Pensar, nesse caso, torna-se algo ruim, punitivo. Algumas escolas, têm até
lugar específico para o castigo: a cadeira ou o cantinho do pensar. Se você
trabalhasse em uma escola em que essa prática fosse muito comum, se você
também agisse assim, perceberia que não surte efeito e se incomodaria com
isso .... Então é preciso repensar e modificar a prática docente.
Esta unidade visa ajudá-lo na reflexão e na proposição de situações
diferentes da utilizada e lhe dará acesso aos objetivos, fundamentos e
metodologia desse programa. Você terá a oportunidade de pensar em situa-
ções escolares diversificadas nas quais o programa Filosofia para Crianças
seja o caminho ideal para o desenvolvimento das atividades com crianças em
idade escolar, oferecendo recursos para que se aprenda a lidar com situações
do cotidiano, resolver problemas do dia a dia e solucionar conflitos.
Também conhecerá as outras experiências filosóficas derivadas do
programa de Lipman, sobretudo no Brasil. São experiências que têm acumu-
lado relatos de sucesso tanto por parte dos alunos quanto dos educadores.
Enfim, que este seja o início de um envolvimento com a prática de
experiências filosóficas com crianças. Você pode se apaixonar por isso, pela
educação e pela infância. Bons estudos!
Seção 2.1
Diálogo aberto
Você brincava de escolinha quando era criança? A maioria das pessoas
responde afirmativamente a esta pergunta!
Se não brincou, com certeza alguma criança próxima brincou. Isso porque
crianças copiam modelos de comportamento adulto para se ajustarem à
sociedade em que vivem. Interpretam papéis sociais com os quais têm maior
contato ou que desejariam ter. Oscilam entre o real e o fantástico; às vezes
imitam pessoas comuns, às vezes heróis e heroínas.
Essa modelização contribui para a formação humana e está presente na
maioria dos adultos. Você já se imaginou em sala de aula? Já selecionou quais
professores da sua trajetória você vai utilizar como referência e quais não
deseja se assemelhar em nada? Tendemos a reproduzir ações que permearam
nossa história e repudiar outras.
Acontece que o mundo muda vertiginosamente, e a educação escolar não
pode permanecer estática. As crianças de agora são muito diferentes das de
dez anos atrás, têm acesso a uma infinidade de informações e tecnologias
e estão imersas no mundo onde a indústria cultural reina e o mercado de
consumo tiraniza a infância. Por isso, você, na sua carreira docente, precisará
reinventar e inovar, para garantir que seus alunos sejam cidadãos conscientes.
Pense na seguinte cena: você está ministrando aulas para o quinto
ano do ensino fundamental, e seus alunos têm de 9 a 10 anos. Há alguns
bastante indisciplinados. Uma criança especificamente vai todos os dias para
um canto longe da turma para “pensar no que fez”, às vezes para o pátio, às
vezes para a sala da coordenadora, às vezes fica sentada enquanto os outros
brincam... Você está muito incomodada com isso, porque não vê mudanças
no comportamento. Pergunta a outras professoras e professores sobre o que
fazer, e as sugestões de castigos são muito diversas. Um dia, enquanto corrigia
as redações que solicitou aos alunos (estavam aprendo a escrever cartas),
deparou-se com uma destinada a você. E quem a enviou foi justamente a
criança que vive tendo que pensar no que fez. Na carta a criança agradece por
ser sempre colocada em algum lugar para refletir, porque assim fica sem fazer
as atividades passadas em sala (que considera chatas) e pode pensar no que
quiser, até nas próximas peripécias. Você fica furiosa e tem vontade de picar
a folha. Mas se acalma, lembra que já teve pensamentos sobre a ineficácia da
ação e se questiona: como fazer essa criança aderir às atividades? Como “o
Reflita
Ler, interpretar, inferir, construir sentenças e fazer julgamentos não são
capacidades pretendidas no início da escolarização?
O que pode ter acontecido em todo o percurso escolar desses alunos
(desde o início de suas vidas como alunos) a ponto de chegarem à univer-
sidade com grandes dificuldades?
Assimile
Pensamento multidensional é um pensamento que suspende a ordem,
a certeza; é aquele que considera o que é ambíguo, que problematiza.
É o pensamento que possibilita às pessoas a dedicação à investigação,
que faz com que entendamos que o conhecimento não está completo
e acabado.
Exemplificando
O NEFI possui vários projetos de pesquisa e experiências filosóficas.
Contudo, há um deles que merece destaque, por se tratar de experiência
filosófica que vem sendo desenvolvida há mais de 10 anos em escola
pública de periferia. O projeto em questão foi intitulado Em Caxias, a
filosofia en-caixa?! A escola pública aposta no pensamento. Nele, alunos
e professores – da educação infantil ao ensino de jovens e adultos (EJA)
– participam de experiências filosóficas com o intuito de pensarem
melhor. As atividades são desenvolvidas nas escolas e na universidade e
permitem aos integrantes das experiências pensarem de maneira cuida-
dosa suas práticas e desenvolverem formas de pensamento que se consi-
derem mutuamente e que não sejam inferiores a outros pensamentos.
Pesquise mais
As experiências do NEFI nas escolas públicas deram origem ao livro:
KOHAN, Walter; OLARIETA, Beatriz Fabiana. A escola pública aposta no
pensamento. São Paulo: Autêntica, 2012.
Chama atenção o fato de que tais práticas e experiências não fazem parte
de uma política pública para a Educação, contudo os educadores que experi-
mentam esse trabalho compreendem os benefícios e as alternativas para uma
prática de sucesso.
Avançando na prática
Descrição da situação-problema
Um aluno bem magrinho da sua turma insiste em ofender uma aluna
obesa chamando-a de gorda, baleia, saco de areia. Mas ele faz isso sem que
você saiba, e a situação está se repetindo pela terceira vez. A aluna chorou
por três dias nas aulas, e você pergunta o motivo, mas ela não conta. Você
até solicitou aos pais que a levassem a um psicólogo para avaliação. Os pais
conversaram com a filha em casa e mandaram um bilhete a você informando
que o aluno (citando o nome dele) estaria ofendendo constantemente sua
filha há três dias. Primeiro você se questiona sobre o fato de estar aconte-
cendo um episódio de bullying. Afastada a possibilidade, como proceder em
relação a isso sem expor ainda mais a aluna ao constrangimento?
Resolução da situação-problema
Essa situação pode ser tratada a partir de uma roda de filosofia. Os alunos
em círculo são convidados a relatar o que os deixam felizes e o que os deixam
tristes. Aproveite os relatos que envolvam as relações interpessoais para
discutir a influência dos outros nos nossos sentimentos. A instauração de
uma comunidade de investigação fomenta o respeito aos outros, a conside-
ração pelas diferentes formas de pensar – e, basicamente, somente com a
dinâmica da comunidade de investigação, esse caso se resolveria. Além disso,
a partir dos relatos e do diálogo, outros temas podem ser posteriormente
abordados (beleza, felicidade, padrões humanos e ética).
O programa desenvolvido por Lipman pode ser entendido como um programa que:
3. Lipman não escolheu trabalhar com Filosofia para Crianças de forma aleatória.
Ele estudou, refletiu, constatou fatos e percebeu que seria a melhor opção e uma
possibilidade de mudança na Educação. Com base nisso, leia as assertivas a seguir e
marque (V) para verdadeiro e (F) para falso.
a) V; F; V.
b) V; V; V.
c) V; V; F.
d) F; V; V.
e) F; V; F.
Diálogo aberto
Filosofia para crianças já é um termo com o qual você está se habitu-
ando a conviver. Acredito que agora já deva estar mais familiarizado com o
conceito e com a metodologia de trabalho do programa de Matthew Lipman.
Nesta seção vamos nos debruçar sobre o entendimento dos fundamentos do
programa criado por Matthew Lipman, compreendendo mais detalhadamente
cada um dos momentos propostos por ele para o desenvolvimento das aulas.
Vamos relembrar o contexto de aprendizagem que nos acompanha
nesta unidade de estudos? Comumente, as escolas e os educadores utilizam
castigos com seus educandos. Tratam-se de penalizações para atos inade-
quados. Um desses castigos, por exemplo, é colocar a criança em algum tipo
de restrição e pedir para que ela pense no que fez. Pensar, nesse caso, torna-se
algo ruim, punitivo. Algumas escolas têm até lugar específico para o castigo,
como o cantinho do pensar ou, até mesmo, a própria cadeira. Agora, imagi-
nando-se nesse cenário como docente, vieram imediatamente a sua memória
lembranças de sua prática docente e o pensamento de que possivelmente
você já se utilizou desse recurso. Isso porque, na escola onde trabalha, essa
prática continua sendo comum entre todos os profissionais. Hoje, durante a
última aula, enquanto observava seus alunos do quinto ano do ensino funda-
mental, que construíam, em grupo, maquetes sobre os diferentes tipos de
relevo existentes no Brasil, você percebeu que uma aluna, aparentemente
muito irritada, destruiu um pedaço do trabalho de seu próprio grupo. Você
imediatamente a manda para um canto da sala para pensar no que fez. Ela
vai chorando, e o grupo continua o trabalho. A aula acaba, e os grupos não
terminam as maquetes; vão retomar as atividades no dia seguinte. A menina
vai embora sem se despedir. Você se incomoda com a atitude da aluna e com
a sua também. Sente que a sanção aplicada não alcançou o objetivo esperado,
mas opta por tomar a questão como ponto de partida para promover a
reflexão desejada. O que você pode fazer para resolver essa situação? Como
retomar esse assunto no dia seguinte?
Com o estudo desta seção você terá subsídios para pensar uma ação que
promova o resultado esperado. Você entenderá como o programa está estru-
turado e quais são os procedimentos adequados, tanto do docente, quanto do
discente, para que a reflexão filosófica aconteça em sala de aula.
Exemplificando
Essas perguntas podem ser classificadas da seguinte maneira:
CLASSIFICAÇÃO EXEMPLO
Para esclarecer, explicar ou definir Pode dizer isso com outras palavras?
Para expor opiniões contrárias, Há outras maneiras ou possibilidades de
alternativas ou refutações ver este assunto?
Sua afirmação é válida em qualquer
Para contestar uma fala
circunstância?
Para pedir razões ou justificativas O que faz você pensar assim?
Para medir consequências ou O que podemos concluir a partir da sua
realizar inferências fala?
Vocês estão dizendo a mesma coisa? O
Para estabelecer relações que há de semelhante e diferente nas falas
de vocês?
Porque apresentou esta pergunta?
Para perguntar sobre uma pergunta Qual é a relevância desta pergunta para
nosso diálogo?
Fonte: elaborado pela autora.
Exemplificando
Uma das possibilidades do diálogo investigativo é a mudança de ideia.
No seguinte trecho da novela Ari dos Telles, Lipman traz esse modelo
para o aluno: “Tá bom! Eu concordo que talvez a mente não seja exata-
mente a mesma coisa que o cérebro. Sei que antes eu disse que era, mas
mudei de opinião” (LIPMAN, 1990, p. 33).
Luísa
Esta novela encerra o currículo pensado para o ensino fundamental e está
direcionada aos alunos de oitavos e nonos anos. Trabalha com as ferramentas
de investigação ética, abordando temas relacionadas a moral, valores, justiça
e liberdade.
Além destas novelas, ainda foram escritas outras três, que comporiam
o Programa de Filosofia para Crianças. Suki, Mark e Natasha. Suki e Mark
destinam-se aos três anos do ensino médio, com duração de um ano e meio
cada novela. Suki aborda a questão estética e Mark, a política. Nenhuma das
duas foi traduzida para a língua portuguesa.
Natasha é uma novela, já traduzida para a língua portuguesa, que foi
escrita para adultos. É direcionada aos professores que estão em formação.
Assimile
Filosofia para Crianças é um programa educacional completo: pensado
metodologicamente, com currículo elaborado, material didático próprio
e uma formação docente preconcebida.
Reflita
O material didático traz modelo de aluno e modelo de professor. Traz
também modelos de perguntas e de comunidade de investigação. Isso
seria um fator de engessamento do pensamento? Se não há escolha
neutra, por que a escolha por oferecer modelos prontos?
Avançando na prática
Descrição da situação-problema
Depois do recreio seus alunos entram correndo para a sala. Nesse corre-
-corre alguns esbarram em algumas carteiras e objetos caem no chão. Lápis
de unicórnios se misturam aos dos heróis da Marvel. Os alunos se abaixam e
pegam seus pertences. Nisso, um deles sente falta de seu apontador superes-
pecial, que é idêntico ao de outros alunos. Você conversa com a sala e pede
que quem esteja com o apontador, que o tenha pegado por engano, o devolva.
Uma voz que você não conseguiu identificar se faz ecoar dizendo: achado
não é roubado! Pronto, o alvoroço começa de novo. Impossível continuar a
aula anterior. Você precisa parar tudo e tratar do tema.
Resolução da situação-problema
Diferentemente da situação anterior, um dos atores da situação atual está
desconhecido. Não há como pedir para que justifique as razões pelas quais
pegou algo que não lhe pertencia. Mas a expressão dita em voz alta demonstra
um problema ético que precisa ser discutido. Essa discussão pode ser iniciada
colocando-se a frase na lousa e pedindo para que os alunos manifestem seus
posicionamentos a respeito, justificando e buscando exemplos que demonstrem
coerência em suas argumentações. Todos os alunos precisam falar e contrapor
I. Por ser filósofo e escritor de histórias, antes de iniciar o seu programa, a narra-
tiva era seu tipo de texto de predileção.
Por isso
3. Existem perguntas específicas para cada tipo de reflexão que se deseja fomentar.
O professor deve lançar mão de algumas delas quando a discussão não estiver fluindo.
Por exemplo: quando ao discutir castigo físico as crianças só ficam expondo opiniões
contrárias ou favoráveis sem aprofundarem o tema.
a) Por quê?
b) Alguma coisa faria você pensar diferente?
c) É certo pensar assim?
d) O que você quer dizer com isso?
e) Quais são as razões que o fazem pensar assim?
- 65
Seção 2.3
Diálogo aberto
Você é uma pessoa competitiva? Torce para algum time? Crianças
normalmente são muito competitivas. Adultos também. Às vezes as pessoas
competitivas não sabem lidar com a frustração de não ganhar sempre, de
reconhecer que existem pessoas melhores em determinadas habilidades e
competências.
Imagine isso dentro de uma escola... Melhor, imagine isso dentro daquela
escola hipotética do nosso contexto de aprendizagem desta unidade.
A escola em que você trabalha com a turma de quarto ano (alunos de 9 e
10 anos) também atende aos anos finais do ensino fundamental. Os profes-
sores de Educação Física dos anos finais decidiram organizar e promover
um campeonato de futebol entre classes. Todos estão em clima de euforia.
Os alunos dos anos iniciais foram convidados a assistir aos jogos e também
torcer. Como você já havia planejado usar o tema dos jogos para trabalhar
tabelas, gráficos, regiões do globo terrestre, entre outros assuntos, aceitou o
convite e levou seus alunos a todos os jogos. O jogo final foi muito disputado,
emocionante, e aí os ânimos se alteraram. Quando você retornou com seus
alunos para a sala, eles brigavam tanto entre eles, com xingamentos e ameaças,
que foi preciso chamar a coordenação da escola. Depois das broncas e adver-
tências, ficou elucidado que os alunos estavam em pé de guerra porque nos
dois times que disputaram a final havia jogadores que eram irmãos de alguns
de seus alunos. A sala ficou dividida, pois, diante dos xingamentos, uns, que
não tinham nada a ver com a situação, tomaram as dores dos outros, e foi um
caos! Depois da visita da coordenação, aparentemente restaurou-se a ordem.
Você sabe que a bronca da coordenadora não é suficiente para inibir esse tipo
de conduta, certo? É uma ação paliativa! Você, como responsável pela turma,
precisa promover na próxima aula uma reflexão e diálogo sobre as questões
filosóficas da moral. Como promover essa reflexão e o diálogo? Quais são
os pontos a serem abordados com as crianças para que reflitam e consigam
dialogar de forma empática, respeitosa e ética?
Vamos estudar algumas características e recursos de Filosofia pra Crianças
que poderão ser um subsídio para que você consiga pensar estratégias de
lidar e de resolver essas situações de conflito. Para tanto, nesta seção serão
abordados elementos do programa de Filosofia para Crianças – Educação
para o Pensar que contribuem para a consolidação do diálogo investigativo
Assimile
Comunidade de investigação não foi invenção de Matthew Lipman. O
termo foi cunhado por Charles Sanders Peirce referindo-se ao conjunto
de cientistas que desenvolviam pesquisas juntos, em busca de um mesmo
objetivo. A comunidade ajudava a identificar as falhas nas pesquisas e se
autocorrigia. Lipman se apropriou do termo.
“
A criança que cresce na família tem sua curiosidade despertada
pela aventura das conversas familiares e aprende a “reconhecer
as vozes” e a “distinguir os momentos certos quando se fazem
declarações, passando paulatinamente a iniciar-se no desenvol-
vimento da capacidade e participação” deste diálogo contínuo.
Quando é chegada a hora para a educação formal, ocorre, mais
uma vez: a iniciação no desenvolvimento desta capacidade e na
participação da conversa, na qual aprendemos reconhecer as
vozes, a distinguir os momentos certos das declarações e adqui-
rimos os hábitos intelectuais e morais apropriados à conver-
sação. (LIPMAN, 1995a, p. 35)
Assimile
O Centro Brasileiro de Filosofia para Crianças (CBFC) foi o responsável
pela tradução do material didático (novelas filosóficas e manuais do
professor) e pela introdução do programa de Filosofia para Crianças –
Educação para o Pensar no Brasil. Suas atividades foram encerradas, e os
direitos sobre o material, agora, são da Fundação Sidónio Muralha, em
parceria com o Instituto de Filosofia e Educação para o Pensar.
Reflita
Como trabalhar qualquer assunto/conteúdo/habilidade se os alunos não
estiverem motivados? E quando estão interessados, o que é necessário?
Somente boa vontade não é o suficiente...
Exemplificando
No manual da novela Issao e Guga, Lipman faz as seguintes considera-
ções, que exemplificam o teor dos manuais para docentes:
Descrição da situação-problema
Uma de suas alunas fica sempre de “escanteio”. No recreio tem dificul-
dade para brincar em grupo, nos agrupamentos em aula você percebe uma
rejeição velada. O fato é que essa aluna é muito nervosa, sempre com cara
de brava e fala áspera. Um dia, você propôs para a sala que lessem a história
da Rapunzel para realizarem uma encenação. Quando começou a organizar
os personagens e perguntou quem seria a bruxa, TODOS gritaram o nome
da aluna em questão. Um aluno ainda disse: Ela já é uma bruxa malvada! A
garota não esbravejou como de costume, ficou sem ação, e você também, por
alguns instantes. Mas precisa agir rápido, antes que o tumulto comece e uma
possível briga se inicie.
Resolução da situação-problema
Um encaminhamento razoável para a situação é dizer às crianças que
comentários depreciativos e constrangedores não são aceitos nesse grupo.
Que, então, irão conversar sobre a bruxa da história e o fato de tratarem
uma colega de turma dessa maneira. Ao longo da conversa, você pode
desenvolver questões voltadas para o jeito de ser de cada pessoa e a neces-
sidade de se estabelecer relações respeitosas com todos os indivíduos.
Você não precisa escolher um texto, porque ele já está aí: o conto que será
encenado. Coloque seus alunos em círculo (se não estiverem assim) e
peça para cada um ler um pedaço da história. Pergunte a eles quais são os
motivos que levaram a bruxa a prender Rapunzel na torre (o maior deles
foi o fato de ter sido roubada pelo pai dela). Compare com nosso sistema
penal, especificamente com o fato de pessoas inocentes serem presas no
lugar de outras. Questione sobre o que é justo ou não. Problematize se é
justo ou não ofender um colega por conta de suas características pessoais,
físicas ou emocionais. Problematize também os personagens da história
questionando os motivos (moralmente aceitos ou não) de cada um deles
para as ações que foram desencadeadas. Pergunte aos alunos se já tiveram
coisas furtadas, como foi a experiência, quais são as possibilidades de
resolução que não seja prender “na torre”. Aí o diálogo investigativo
começará, e VOCÊ, novamente, será a garantia do sucesso ou não dessa
experiência. Ao final da conversa pergunte à aluna que foi indicada como
bruxa se ela gostaria de ser algum dos personagens da história.
“
1. – Pois então. Eu me sinto culpado, entende? Acho que eu devia,
sei lá. Ter feito mais da minha vida. Em honra a eles. Eu estou
aqui representando milhões, bilhões de espermatozoides, cada
um com uma pessoa em potencial. E o que é que eu fiz da minha
vida?” (VERÍSSIMO, 1982, p. 20).
a) Não pode ser utilizado em aulas de Filosofia por ter viés estritamente biológico.
b) Somente pode ser utilizado em aulas de Biologia e Religião por se tratar da
origem da vida.
c) Permite reflexão acerca do determinismo, da liberdade e da própria existência
humana.
d) É um texto de literatura e, portanto, só deve ser utilizado nas aulas de Língua
Portuguesa.
e) O texto é para ser lido, estudado e interpretado. Não há possibilidade de reflexão
sobre temas.
a) V; V; V.
b) F; V; V.
c) V; F; F.
d) V; F; V.
e) V; V; F.
Convite ao estudo
Olá, caro aluno, a partir desta unidade de estudos, vamos começar a
entender um pouco mais sobre a possibilidade de filosofar com crianças na
rotina do trabalho docente no nosso país. Você já teve a oportunidade de
aprender sobre muitas coisas importantes em relação à Filosofia para Crianças.
Viu que a Filosofia é um tipo de conhecimento que convive com outros
conhecimentos, sem ter necessariamente uma ordem hierárquica entre eles; que
saber a história do pensamento filosófico é diferente de saber Filosofia; que não
há idade certa para iniciar a investigação filosófica (nunca é cedo demais nem
tarde demais) e que o ideal é que seja o quanto antes; que existe um programa
educacional pensado e estruturado para se ensinar filosofia às crianças (ensiná-
-las a filosofar); e que existem outras experiências de filosofar com crianças que
só se tornaram possíveis a partir da proposta de Lipman.
Nesta unidade, convido você a entender um pouco mais sobre tal proposta,
vinculando-a ao nosso tempo e à nossa realidade. É aqui que faremos um
estudo sobre as diferentes habilidades necessárias a serem conquistadas para
o desenvolvimento de um pensamento de Ordem Superior.
Pense um pouco sobre a seguinte situação em relação às condi-
ções escolares atuais: as crianças em fase escolar são cheias de diferentes
habilidades, interagem com tecnologias diversas com extrema facilidade e
familiaridade, muitas vezes, até melhor que seus próprios professores. Elas
têm acesso a infinitas fontes de informação. Mas, então, por que os índices
de educação do Brasil são tão baixos? Por que alunos concluem o Ensino
Fundamental sem as competências básicas esperadas para alguém que
atinge esse nível de ensino?
Para buscarmos respostas a essas perguntas, precisaremos nos dedicar
um pouco aos estudos de habilidades e a como elas são importantes no dia
a dia, em todas as esferas de nossas vidas. Embora a escola tenha um papel
fundamental e sistematizado para o trabalho de desenvolvimento de habili-
dades, elas se manifestam em competências que, na maioria das vezes, são
observadas fora do ambiente escolar. A partir disso, também precisaremos
estudar um pouco sobre as experiências e os pensamentos que são originados
por elas, nelas ou sobre elas. Sendo assim, ainda temos um bom caminho a
percorrer nessa jornada do aprendizado! Vamos em frente?
Seção 3.1
Diálogo aberto
Você já teve contato com uma criança aprendendo a ler? Já percebeu
como a aprendizagem da leitura causa euforia em uma criança? No começo
da minha carreira docente, eu dava aulas para alunos de sete anos (era uma
primeira série) e minha obrigação com a turma, entre outras coisas, era
ensiná-los a ler e escrever. Lembro-me com bastante clareza de uma aluna
que veio até mim e disse: “Professora aqui está escrito PIPOCA, sabia?!”. Eu
muito feliz (pois nenhum dos meus alunos sabia ler no início do ano) e ela
mais ainda com a descoberta, continuamos a conversa. Eu: “Sério?! E como
você sabe disso?” Ela: “Aprendi sozinha”.
No início me senti mal, todo esforço para ajudá-la a compreender aqueles
símbolos e nenhum reconhecimento. Depois, repensando, acabei concor-
dando com ela. Aprendeu sozinha, mas só porque tinha todas as condi-
ções favoráveis para isso, e essas condições foram planejadas e encadeadas
sequencialmente por mim.
Você já parou para pensar que pode ser que passe por situações
semelhantes com seus futuros alunos? Imagine que você tem uma turma
de primeiro ano e terá que ensiná-los a ler. A organização curricular será
diferente daquela em que você foi alfabetizado. Existe uma nova Base
Nacional Comum Curricular, que se organiza a partir de competências e não
mais de conteúdos conceituais.
Por meados de agosto, a maioria dos alunos já escreve frases e lê pequenos
textos, o que leva a acreditar que houve um avanço na aprendizagem. Porém,
quando submetidos à uma avaliação institucional de larga escala para aferir
leitura, muitos demonstram desempenho insatisfatório. A partir dos dados
obtidos por meio de tal avaliação, você terá que refletir sobre sua prática e
repensar ações de intervenção. O que fazer diante da sua observação quanto
à leitura deles e os resultados das avaliações?
Os estudos desta seção permitirão a você refletir um pouco sobre isso e
repensar ações docentes para a melhoria da qualidade do ensino e da leitura
de seus alunos de forma competente e habilidosa.
Assimile
Competência é a capacidade de lidar com situações complexas, utili-
zando habilidades específicas em determinadas situações-problema.
Para isso, os conhecimentos adquiridos (pela ciência, religião, filosofia
ou vida cotidiana) são mobilizados e ativados em situações práticas.
Por isso, competência não é algo que se adquire ou se ensina. Compe-
tência é desenvolvida.
Reflita
Por que disciplinas como Filosofia e Sociologia oscilam tanto nos currí-
culos? Quais as justificativas para retirá-las e quais as justificativas para
mantê-las ou incluí-las?
Assimile
A escola fundamentada em teorias marxistas rompia com o ideal de
preparação para o mundo do trabalho, de instrumentalização dos alunos.
O processo educativo se estruturava em torno do conhecimento histórico
e socialmente produzido, que deveria ser apropriado por todas as pessoas.
Saiba mais
John Dewey compartilhava do ideal pragmatista de Charles Pierce e de
sua teoria a respeito do método científico dever ser aplicado à Educação.
Disso se dá a influência das propostas de experimentação em sala de
aula e do protagonismo dos alunos propostos por Dewey como reformas
necessárias à educação.
Mas o Brasil estava sob governo ditatorial nesse período, e tal programa,
como vimos no estudo anterior, só foi introduzido aqui na década de 1980,
depois de terminados os “anos de chumbo” (1964-1982).
Com a abertura democrática e a conquista de uma nova Constituição
Federal, em 1988, a escola brasileira passou a acompanhar as discussões
educacionais que estavam acontecendo nos demais países e implementou
novas experiências educacionais; passou a ser direito de todos e a matrí-
cula obrigatória nos anos iniciais de escolarização. Também é garantido aos
professores o direito de ensinar, conforme se vê na letra da lei:
“ Art. 206. O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios:
I - igualdade de condições para o acesso e permanência na
escola;
II - liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o
pensamento, a arte e o saber;
III - pluralismo de idéias e de concepções pedagógicas, e coexis-
tência de instituições públicas e privadas de ensino;
IV - gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais;
V - valorização dos profissionais da educação escolar, garan-
tidos, na forma da lei, planos de carreira, com ingresso
Exemplificando
Uma criança que tem irmão gêmeo questiona aos adultos como sabiam
quem era quem na hora do nascimento, perguntando: “- se as pulseirinhas
de nomes tivessem sido trocadas, então eu e meu irmão estaríamos com
os nomes errados?” Esse tipo de indagação sobre identidade acontece em
níveis diferentes do desenvolvimento humano e leva tanto adultos quanto
crianças a refletirem sobre a mesma questão: “quem sou eu?”
Avançando na prática
Gráficos e tabelas
Descrição da situação-problema
É dia do brinquedo na escola e você está trabalhando gráficos e tabelas
com sua turma do segundo ano. Resolveu combinar o dia do brinquedo por
se tratar das primeiras semanas de aula e desejar que os alunos se entrosem
e convivam de maneira prazerosa. Além disso, você planejou construir um
gráfico com os brinquedos trazidos para que os alunos, a partir dos gráficos,
elaborassem uma tabela com as informações.
Foi uma diversão só. Você percebeu que seus alunos gostavam de bebês,
carrinhos, personagens televisivos e personagens heroicos. A partir dessa
observação, enquanto eles interagiam entre si e com os brinquedos, você
construiu um gráfico de barras com as quatro categorias e de acordo com a
quantidade trazida pelos alunos.
Depois do momento de brincar, você apresentou a eles o gráfico feito e
perguntou se imaginavam o que era aquilo. Responderam em uníssono que
se tratava dos brinquedos deles. Então, você pediu que, a partir das informa-
ções do gráfico, construíssem uma tabela.
Porém, ao caminhar na sala para verificar a atividade, percebeu que
não estavam conseguindo desenvolver a tabela. Mas as informações foram
passadas e você explicou o que deveria ser feito. Será que faltou algo?
Resolução da situação-problema
Perceba que essa situação é semelhante à anterior. Estava faltando algo
para os alunos conseguissem completar a atividade. Se a turma, como um
I. Durante o regime militar, a filosofia foi retirada do currículo, que se tornou mais
tecnocrático e menos crítico.
Porque
II. A escola precisava treinar o profissional necessário ao mercado, por isso o foco
estava em habilidades e não em conteúdos.
( ) Filosofia para Crianças foi construída em meio às discussões por uma nova educação.
( ) Matthew Lipman foi fortemente influenciado por Paulo Freire.
( ) O programa de Lipman apresenta aspectos da teoria de Dewey.
( ) Filosofia para Crianças pretende desenvolver habilidades para um pensamento
de ordem superior.
a) V; V; V; V.
b) F; V; F; V.
c) V; V; V; F.
d) V; V; F; V.
e) V; F; V; V.
As habilidades do pensamento
Diálogo aberto
Você já viveu experiências de alfabetização com crianças depois de ter
se tornado adulto? Já esteve presente em salas de alfabetização, seja como
auxiliar, estagiário ou mesmo professor? Uma experiência como essa pode
ser prazerosa ou não, mas com certeza será inesquecível. Se for prazerosa,
melhor ainda!
As avaliações de larga escala demonstram que o Brasil tem um grande
déficit de aprendizagem em Língua Portuguesa e Matemática (que são as
disciplinas constantemente verificadas), mas o índice de analfabetismo não
acompanha esses índices. As crianças aprendem a ler, mas não há conhe-
cimento a partir da leitura feita. Matemática tem uma linguagem própria,
cheia de símbolos e regras, e muitos alunos não conseguem realizar ativi-
dades matemáticas com autonomia.
Imagine que você é professor de um segundo ano do ensino fundamental
e percebe que seus alunos não resolvem situações-problemas corretamente,
mas realizam operações de forma assertiva. Suponha que você tenha verifi-
cado que sabem ler e escrevem em hipótese alfabético-ortográfica. Quando
você explica e faz o passo a passo na lousa, as crianças chegam rapidamente à
solução, mas, sozinhas, parece que a situação não se desenvolve.
A partir disso, você percebe que o que falta é a compreensão do que
estão fazendo e que explicações do padrão que estavam sendo dadas não
funcionam. Os conceitos matemáticos e de Língua Portuguesa são conhe-
cidos de seus alunos, mas o conhecimento que eles possuem está mais
próximo de um treinamento para determinadas situações e, por isso, não
estão conseguindo relacioná-los a novas situações. Como seus alunos conse-
guirão transformar os conceitos aprendidos em habilidades? Como auxiliá-
-los a desenvolver competências que os permitam aplicar os conhecimentos
adquiridos em diversos momentos? Quais propostas apresentaria para
auxiliar seus alunos nessa empreitada?
Nesta seção, discutiremos um pouco sobre algumas habilidades especí-
ficas e, assim, algumas pistas de como trabalhar na situação exposta estarão
disponíveis no texto.
“ •
•
Habilidade de explicar ou desdobrar o significado de
qualquer palavra;
Habilidade de analisar e esmiuçar elementos que compões
um conceito qualquer e de unir novos elementos, reconsti-
tuindo o conceito;
• Habilidade de buscar significados de palavras em fontes
como dicionários, enciclopédias, pessoas, e de adequá-los
ao contexto em que as palavras estão sendo utilizadas;
• Habilidade de observar características essenciais para que
algo possa ser identificado;
• Habilidade de definir algo e o que o torna inconfundível.
(LORIERI, 2002, p. 28)
Assimile
Uma das habilidades básicas no processo de formação de conceitos é
ser capaz de definir. Por isso, as atividades escolares que exigem das
crianças a descrição, observação e nomeação de objetos auxiliam sobre-
maneira na conceituação das coisas.
Exemplificando
Quando se conta uma história às crianças e se solicita que desenhem o
que entenderam, ou quando se ensaia uma coreografia a partir de uma
música para alguma atividade festiva, as habilidades de tradução estão
sendo mobilizadas.
Reflita
Todos sabem que em locais com aglomerações, se houver algum
incidente, a primeira coisa a se fazer é manter a calma. Por que será que
essa é a orientação dada?
Habilidade de raciocínio
A capacidade de raciocinar pode ser definida como um processo de pensa-
mento pelo qual obtemos, a partir de informações que temos, novas informa-
ções. Quando pensamos e obtemos novas informações ou conhecimentos a
partir do estabelecimento de relações com informações anteriores, realizamos
uma inferência. Dessa forma, podemos dizer que raciocinar é inferir conclu-
sões pensando. É algo que fazemos constantemente no dia a dia. É um processo
que ocorre quando ainda somos bem pequenos (em idade).
Avançando na prática
Descrição da situação-problema
Imagine a seguinte situação: você está ministrando aulas para uma turma
de quarto ano do Ensino Fundamental e suas crianças são muito comuni-
cativas, opinam em tudo, para tudo têm um comentário, participam das
decisões que os envolvem e também são solidárias umas com as outras. As
professoras que trabalham na mesma escola dizem que você recebeu um
prêmio, que sua sala é perfeita. Mas você não se satisfaz com isso, pois sabe
que quando precisam escrever sobre qualquer coisa utilizam frases curtas
e muito simples. Você já utilizou o recurso de pedir justificativas para as
respostas e leu, inúmeras vezes, “Porque sim” ou “Porque não”. Percebeu que
falam e se posicionam a partir de suas próprias vivências, mas não conse-
guem falar sobre coisas que não lhes são familiares.
Resolução da situação-problema
Nesse caso, atividades de observação e descrição seriam o ideal. Assim, as
crianças aprendem a observar coisas não familiares (tornando-as familiares)
e aumentam seu repertório linguístico ao buscarem palavras para realizar
a descrição do que está sendo observado. Podem ser expostos objetos,
paisagens, cartazes, anúncios, tabelas, gráficos e pessoas. Tudo depende do
que está sendo trabalhado nas disciplinas que compõem o currículo, pois
o desenvolvimento de habilidades deve estar sempre integrado ao conheci-
mento, não pode ser um momento de treinamento.
Porque
II. Pensar sobre várias coisas ao mesmo tempo não é dispersão, é pensar multidi-
mensionalmente.
2.
O seu olhar agora
O seu olhar nasceu
O seu olhar me olha
O seu olhar é seu
(ANTUNES, Arnaldo. Seu olhar. Álbum: Ninguém, BMG 1995, faixa 9.)
Esse trecho da música de Arnaldo Antunes ilustra muito bem como a comunidade
de investigação colabora para o desenvolvimento das habilidades de autocorreção.
a) V; F; F.
b) F; F; F.
c) V; V; V.
d) F; V; F.
e) V; F; V.
Diálogo aberto
Em nossos estudos anteriores, você pôde ver que, apesar do grande
acesso de nossas crianças às informações e tecnologias, os índices de
educação (que avaliam conhecimentos) são muito baixos em nosso país.
Esses dados constam em relatórios nacionais (como o índice de desenvol-
vimento da educação básica - IDEB) e internacionais (como o Programme
for International Student Assessment - PISA), e se referem aos estudantes de
maneira generalizada, sem diferenciar alunos por deficiências, níveis econô-
micos ou sociais.
Você, em sua futura trajetória docente, irá se deparar com as exigências
advindas desses relatórios e da insuficiência educacional refletida nas apren-
dizagens dos alunos. Assim, pense em você na seguinte situação: é começo de
ano letivo; você já ministrou cinco dias de aula para os alunos do quinto ano
do Ensino Fundamental e desenvolveu algumas atividades avaliativas para
efetuar um diagnóstico das aprendizagens de seus alunos.
O sistema de ensino ao qual você tem vínculo empregatício estabelece
metas a serem atingidas ao final de cada ano letivo. Você verificou que seus
alunos atingiram medianamente a meta proposta para o ano anterior e,
agora, precisa elaborar um planejamento para que, ao final deste ano, eles
atinjam satisfatoriamente as metas propostas para o quinto ano.
Você é um docente que se exige muito e se preocupa em possibilitar
aos alunos aprendizagens significativas e reais, principalmente, pelo fato de
estarem concluindo uma etapa da escolarização e, no ano seguinte, iniciarem
uma nova etapa, em que o número de professores se eleva e a permanência
desses com os alunos diminui. Ao constatar que seus alunos detêm informa-
ções superficiais sobre todas as disciplinas e que, quando precisam mobilizar
tais informações para solucionar problemas ou propor novas situações de
aplicabilidade dos conhecimentos adquiridos, demonstram imensa dificul-
dade, você se preocupa com a metodologia que deverá lançar mão no ano
que se inicia. De quais recursos precisará dispor? Como evidenciar as infor-
mações que os alunos já trazem e proporcionar novos conhecimentos?
Nesta seção você terá indícios de como resolver essas questões. Estudará
formas de se ensinar a pensar e a pensar bem, como o conhecimento pode
ser produto de experiências e proporcionar novas experiências e novos
conhecimentos.
Pesquise mais
Vários filósofos, ao longo da história da humanidade, se preocuparam e
refletiram sobre as formas que os homens costumam conhecer o mundo.
A própria razão foi objeto de reflexão. O artigo indicado a seguir auxilia
na compreensão de como a própria razão pode ser um artifício para não
nos emanciparmos, além de sobre a razão instrumental. Confira!
SILVA, F. L. Conhecimento e Razão Instrumental. Psicol. USP, São Paulo,
v. 8, n. 1, p. 11-31, 1997.
Verbete
FETICHISMO: (in. Fetishism- fr. Fétichisme, ai. Fetíchismus; it. Feticismó).
Crença no poder sobrenatural ou mágico de certos objetos materiais
Reflita
Quando uma criança vê outra chorando, costuma ficar desconfortável. O
comportamento muda, alguns tentam consolar, se importam uns com os
outros, embora a infância seja a época de nossa vida em que o egoísmo
é exacerbado.
O que faz com que os adultos (que também já tiveram esse compor-
tamento de solidariedade na infância) consigam assistir a noticiários
sensacionalistas, ver tanta desumanidade, como se tudo aquilo fosse
ficção? Por que alguns choram com assassinatos em novelas e não se
comovem com notícias de assassinatos reais?
Exemplificando
Quando nascemos, estamos centrados em nós mesmos, em nossas
necessidades. Não há regras. Para que aconteça a socialização é neces-
sário que introjetemos as normas do grupo em que vivemos. Esse
processo é arriscado e conturbado, pois a necessidade de aceitação
muitas vezes é imbuída do coletivismo perverso e resulta em atitudes
Assimile
A experiência de uma pessoa não configura aprendizado para outra pessoa.
Aprendemos com nossas próprias experiências. Para aprender com a
experiência vivida por outra pessoa temos que revivê-las e, mesmo assim,
o conhecimento será diferente do que viveu a experiência semelhante.
Se experiência é aquilo que acontece conosco que nos toca, nos atravessa e nos
move, então, a experiência do pensar deve ser algo que nos toque, que nos trans-
forme e nos impulsione a modificar nossa própria existência. Desta forma, quando
se propõe ensinar Filosofia para Crianças a partir de experiências filosóficas, o que
está em evidência é a oportunidade de reflexão profunda sobre questões que sejam
importantes às crianças e aos adultos que pretendem dialogar com elas.
Nesse sentido, a comunidade de investigação é o local da experiência
coletiva. Todos estão vivendo o mesmo acontecimento no mesmo instante,
as informações e opiniões expostas e manifestas numa comunidade de inves-
tigação vão além dos fatos em sua superficialidade, as pessoas participantes
da narrativa e das falas apresentadas no diálogo se envolvem com os aconte-
cimentos e umas com as outras também. E, embora o acontecimento seja o
mesmo e seja concomitante, as experiências vividas são ímpares (e também
Avançando na prática
Resolução da situação-problema
O aluno disse que nunca mais fará isso. Provavelmente ele está dizendo o
que de fato ocorrerá. Ele adquiriu um conhecimento por experiência e esse
tipo de conhecimento é muito significativo. É claro que não é preciso que se
queimem sempre para entender que não podemos pôr a mão em determi-
nados objetos. Mas, se a criança já se queimou de alguma forma, a menção ao
ocorrido e a própria advertência à possibilidade de experiência semelhante
inibe o comportamento. Isso acontece porque temos habilidade de relacionar
acontecimentos. Se essa habilidade não for desenvolvida ou aprofundada,
certamente acontecimentos semelhantes serão recorrentes. Ao docente, cabe
proporcionar situações para que as relações entre acontecimentos sejam
pensadas e estabelecidas.
Assim:
I. O experimento deve prevalecer à experiência como a verdadeira forma de
conhecimento.
Porque
3.
Responder a perguntas não respondo.
Perguntas impossíveis não pergunto.
Só do que sei de mim aos outros conto:
de mim, atravessada pelo mundo.
a) A lição que ela recolhe para si ninguém entende porque partiu de sua experi-
ência e é singular.
b) Não responde às perguntas porque cada um deve experimentar e conhecer por
si próprio.
c) Só conta de si mesma aos outros porque é a única coisa que conhece, o mundo
externo não é cognoscível.
d) Ninguém mais entende sua lição porque todo o estudo dela aconteceu em solidão.
e) A autora demonstra falta de habilidades sociais e impossibilidade de experiências.
Convite ao estudo
Caro aluno, com esta unidade, encerramos nossos estudos em Filosofia
para Crianças e com crianças. Esperamos que esta tenha sido uma oportu-
nidade para criar em você o desejo de iniciar a carreira docente de maneira
democrática e dialógica. Nesta nossa última conversa, estudaremos um
pouco mais a teoria que embasa a prática do filosofar na escola a partir de
situações reais. Você terá contato com relatos de experiências docentes e
infantis vividas e, juntos, analisaremos e entenderemos as situações a partir
de referência teórica.
A seguir, narraremos uma situação-problema baseada em uma experi-
ência real, ocorrida em 2018, em uma cidade do interior de São Paulo,
colocando você como protagonista.
Você é professor de uma turma de quarto ano do ensino fundamental,
de uma escola localizada em bairro periférico de uma cidade com mais
de 140 mil habitantes. Sua escola fica em uma região de alta vulnerabili-
dade social. Seus alunos são filhos de presidiários, em situação de pobreza,
e alguns com histórico de abuso e violência. Além dessas características
sociais, você tem uma aluna com deficiência intelectual e outra com
má-formação dos membros (além de problemas emocionais decorrentes
de sua aparência). O convívio com eles, logo nos primeiros dias, já fez com
que você percebesse o grande potencial de aprendizagem e o repertório de
vivências que traziam.
Você estudou o tema filosofia para crianças e tinha receio de trabalhar
com metodologia diferente da dos colegas da escola. Uma universidade da
sua cidade começa a desenvolver um projeto de extensão em filosofia para
crianças na sua escola e você pede para que aconteça na sua sala, dispondo-se
a coordenar, também, as experiências.
No entanto, muitas dúvidas permeiam seus pensamentos. Você não
sabe ao certo como pôr tudo o que aprendeu em prática. Como viabilizar o
filosofar dentro de uma estrutura estabelecida pelo sistema educacional em
que está inserido?
Nesta unidade, veremos como tudo isso se delineia a partir de práticas
já realizadas e relatadas. Você perceberá e terá informações acerca das estra-
tégias para o trabalho em sala de aula, bem como formas de organização e
avaliação dessas práticas.
Ainda temos um caminho a prosseguir até o fim desta jornada – que
pretende ser o início de muitas outras; afinal, o conhecimento é inesgotável e
a educação acontece em movimento.
Seção 4.1
Da teoria à prática
Diálogo aberto
Você já deve ter presenciado, ao longo de sua vida estudantil, pessoas com
diferentes dificuldades de aprendizagem tendo de superá-las em diversos
ambientes, inclusive nos escolares.
Imagine que você é o professor da situação apresentada no início desta
unidade. Além das inúmeras situações de conflito geradas pelas condições
sociais, econômicas e emocionais de seus alunos, você precisa lidar também
com a promoção de aprendizagem de uma aluna com deficiência intelectual
incluída em sua turma, que tem 32 alunos matriculados.
Essa criança lê de maneira razoável, tem boa articulação do corpo e sua
fala não apresenta problemas. Contudo, tem imensa dificuldade em compre-
ender informações conceituais. Consegue manipular e aprender por meio do
concreto, mas as representações e a própria expressão de coisas abstratas são
o seu grande desafio.
Em face dessa situação e da sua responsabilidade em fazer com que todos
os alunos avancem em suas trajetórias de aprendizagem, de que maneira você
pode conduzir as aulas, garantindo a participação de seus alunos de maneira
inclusiva?
Se a sua pretensão é formar cidadãos críticos, democráticos e autônomos,
como pode contribuir para a formação dessa aluna em especial?
Esta seção traz alguns pontos importantes sobre concepção de ensino
e aprendizagem, democracia e filosofia que podem auxiliar você a pensar
práticas educativas que, além de propiciar um pensar bem, também sejam
inclusivas.
Reflita
Se as crianças falam sem parar sobre inúmeros assuntos, como pode ser
tão difícil manter um diálogo organizado e coletivo em sala de aula?
Exemplificando
A educação para o trânsito é um exemplo das relações entre experiên-
cias individuais e sociais. A criança que olha para os dois lados antes de
atravessar a rua e, além disso, opta por fazê-lo sobre a faixa de pedes-
tres consegue relacionar suas próprias experiências de pedestre com as
informações de perigo (atropelamento e morte, por exemplo) que foram
obtidas a partir de experiências vividas por outras pessoas.
Assimile
Como foi exposto anteriormente, nesta disciplina, o conceito de experi-
ência vai além da experimentação. Ele deve ser entendido como aquilo
que nos atravessa, que nos toca e nos mobiliza em direção à compre-
ensão do que foi vivido.
Descrição da situação-problema
Imagine a seguinte situação: você tem uma sala numerosa, com alunos
em defasagem de aprendizagem e que, no ano anterior, tiveram uma rotativi-
dade grande de professores porque a professora titular se aposentou e parou
de dar aulas. Não foi contratada uma nova professora, e várias a substituíram
eventualmente. Você tenta promover com eles discussões e atividades mais
lúdicas, mas parece que nada do que você propõe causa-lhes interesse. Você
varia os temas e eles não se envolvem. Que outras estratégias você poderia
utilizar para resolver essa situação?
Resolução da situação-problema
Um dos motivos pelos quais os alunos não respondem às suas expecta-
tivas, provavelmente, é o fato de não participarem da proposição dos temas
e das atividades. Estão sempre em uma posição passiva – a ação aparenta
ser papel do professor. Permitir que as crianças participem da escolha dos
assuntos que lhes interessa; além de envolvê-los ativamente no processo de
construção de novos conhecimentos também permite que o professor acesse
as experiências e vivências de seus alunos – compreendendo seus limites,
suas dificuldades e necessidades educacionais.
“
2. O impacto das práticas autoritárias e antidemocráticas nas insti-
tuições ocorre paulatinamente.”
Assim:
Porque
II. Essa prática/ferramenta favorece o envolvimento dos alunos com o conhecimento
pretendido em aula.
Reflita
A professora, em parceria com a pesquisadora, optou por se dedicar
à experiência filosófica como maneira de propiciar a aprendizagem do
diálogo a seus alunos. Embora seja um modelo ideal, também há outras
formas de propiciar o aprendizado do diálogo. Um professor criativo
seria capaz de propor várias atividades para isso. Você consegue pensar
em uma? Como você faria?
É claro que a escola não deve ser a encarregada de ensinar tudo, lembrando
que:
“
Talvez a pior tentação a que sucumbiu a pedagogia tenha sido
aquela que lhe oferecia ser a dona do futuro e a construtora do
mundo. Porque, para fabricar o futuro e construir o mundo, a
pedagogia tinha de dominar primeiro tecnicamente (pelo saber
e pelo poder) as crianças que encarnavam o futuro por vir e o
mundo por fabricar. (LARROSA, 2003, p. 196)
Exemplificando
Quando um professor pergunta a um aluno que está fora de sua cadeira:
“É aí seu lugar?”; na verdade, ele quer dizer ao aluno que deve voltar
para seu lugar, que ambos sabem muito bem onde é. Esse é um tipo de
pergunta disciplinadora.
Assimile
Filosofia para/com crianças não exige o consenso ou a concordância
com pontos de vista divergentes, pressupõe o respeito mútuo entre as
pessoas e por suas ideias.
Figura 4.8 | Sobre relações com colegas II Figura 4.9 | Escola ideal
Exemplificando
As seguintes reflexões foram feitas:
“Ruim da amizade é ter gostos diferentes. O bom de ter gostos diferentes
é que aprendemos a gostar de coisas novas.”
“O pior da amizade é a separação.
A separação pode ser uma coisa muito boa, porque às vezes a gente vive
brigando. A gente separa e param as brigas.
Aí você conhece amigos novos.”
Avançando na prática
Descrição da situação-problema
Em determinada escola, em 2019, houve matrícula de oito crianças
com transtorno do espectro autista (TEA). Cinco dessas crianças estão
“
Com a malícia que costuma ser dom dos humoristas, ele percebeu
que essa capacidade de dar a entender, sem afirmar, fazia da
pergunta o instrumento ideal para pôr em evidência o que não
podia ou não estava sendo dito com todas as letras. (SENRA,
2010, [s.p.])
a) A pergunta é feita para inquirir, nunca para trazer uma informação à tona.
b) As perguntas podem ser classificadas de acordo com a função que exercem no diálogo.
c) Perguntar é habilidade nata e não há nenhuma aprendizagem posterior possível em
relação às perguntas.
I. Para que aconteça a experiência filosófica em sala de aula, é necessário que alunos e
docentes entendam a importância da pergunta.
Porque
II. Ela não pretende apenas verificar se o conhecimento planejado pelo professor foi
adquirido. Não se pergunta apenas para confirmar algo.
Subsidiados por essa citação, em relação aos materiais de filosofia para crianças,
classifique as afirmações a seguir em verdadeiras (V) ou falsas (F):
Em relação aos materiais de filosofia para crianças, assinale a alternativa que apresenta
a sequência correta de verdadeiro ou falso.
a) V; V; V.
b) F; V; V.
c) V; F; F.
d) V; F; V.
e) V; V; F.
Diálogo aberto
Estamos concluindo uma etapa na sua formação, e para encerrarmos a
disciplina de Filosofia para Crianças, abordaremos agora questões acerca
da avaliação em uma área do conhecimento bastante aberta e singular.
Precisamos manter o foco no fato de que qualquer experiência inserida no
contexto escolar carrega em si uma intencionalidade pedagógica. Por isso,
também está ligada a procedimentos pedagógicos comuns a outras experiên-
cias escolares (como é o caso da avaliação e da organização).
Antes de prosseguirmos em nossos estudos, você precisa se lembrar do
contexto apresentado no início da unidade e pensar um pouco a partir da
perspectiva de um professor que está em uma escola pública no interior do
estado e recebe seus alunos com inúmeras situações de vulnerabilidade.
Imagine que a escola em que você trabalha instituiu a Filosofia como
disciplina curricular para os alunos de 1º ao 9º ano. A princípio, você ficou
muito feliz, porque estudou bastante o tema, tem uma prática que considera
reflexiva, dialógica, praticamente filosófica com seus alunos. Pensou que
seria a melhor coisa que aconteceria na sua vida profissional naquele ano,
já que não haveria adoção de material didático específico na sua escola e o
planejamento seria feito por você.
Depois, começou a pensar no número de alunos, nos casos de inclusão,
nos excessos de faltas, nas cobranças burocráticas, no planejamento anual
(você nunca aceitou o fato de ter de planejar um ano inteiro de uma vez,
porque a dinâmica da sala de aula é imprevisível) e de repente uma pergunta
instaurou-se em seu pensamento tirando o seu sono: como elaborar uma
avaliação formal para a nova disciplina?
Nesta seção, você encontrará subsídios para responder a essa questão e
formular outras questões e outras respostas, e assim sucessivamente.
Exemplificando
Para compreender o ciclo da água na natureza, também é necessária a
compreensão dos estados físicos. Para conseguir resolver uma sentença
matemática, é necessário o conhecimento das operações básicas (adição,
subtração, divisão e multiplicação) e, antes disso, reconhecer os sinais que
a linguagem matemática utiliza. Para que uma criança avance do nível
pré-silábico de escrita para o nível silábico e alfabético, é necessário dispor
de atividades que promovam a compreensão da correspondência entre os
sons e os símbolos e, gradativamente, das convenções da língua escrita.
Existe uma linha muito tênue que separa a esfera profissional da esfera
particular, principalmente em professores da educação infantil e dos anos
iniciais do ensino fundamental devido ao grande tempo de permanência
com seus alunos e à frequência diária desses encontros.
Há de se ter grande clareza de seu papel educativo e de suas metas e seus
objetivos para que sua relação com as crianças não deixe de ser profissional
e passe a ser mais pessoalizada (no sentido de intimidade e envolvimento
emocional). Contudo, isso não quer dizer que a relação com as crianças deva
ser de distanciamento ou rispidez.
Essa linha se atenua mais ainda quando o assunto é ser professor de
filosofia ou professor que se dedica a ensinar filosofia para as crianças e se
dispõe a filosofar com elas, dado que em uma comunidade de investigação
todos estão em certa situação de equidade.
Além da relação entre os membros da comunidade de investigação, há
também a relação deles com a filosofia e a relação da filosofia com o currículo
e a escola. Essa relação, por muitas vezes, gera um desconforto porque, se por
um lado o professor deve ter clareza de seu papel dentro da instituição escola,
Pesquise mais
Vera Waksman escreveu um capítulo de livro intitulado Da tensão do
pensar: sentidos da filosofia com crianças, no qual ela discute a multipli-
cidade da prática de filosofia na escola.
Assimile
Uma avaliação pode ser de vários tipos (de acordo com o seu objetivo) e
acontecer em infindáveis momentos do processo de ensino e aprendizagem.
O essencial é que, ao avaliar, também ocorra ensino e aprendizagem.
No decorrer das atividades, muitas avaliações podem ser feitas e, por estar
inserida em uma escola e por pertencermos a uma sociedade que normatiza as
relações escolares e estabelece as metas e aprendizagens esperadas para cada
faixa etária e nível de ensino, então estamos submetidos a exames ou provas.
Esse tipo de avaliação, chamada de avaliação somativa, pretende aferir
o que o aluno aprendeu efetivamente a partir de um programa previa-
mente elaborado e que, inclusive, esse resultado aferido possa ser expresso
matematicamente.
Contudo, contrariando essa rigidez avaliativa, a avaliação pode e deve ser
considerada como a oportunidade de aprimorar a capacidade de julgamento
Reflita
Se a Filosofia enquanto disciplina na grade curricular deve se estruturar
de acordo com diretrizes gerais e a filosofia enquanto prática pedagógica
ou experiência do pensar pode acontecer em situações que englobam
qualquer outra disciplina, mantendo suas especificidades, não seria mais
vantajoso e coerente que as escolas e os educadores optassem pela
segunda situação? Por outro lado, sem componente curricular obrigatório,
há a garantia de que a filosofia seja uma aprendizagem das crianças.
Dito isso, podemos considerar que a avaliação pode ser pensada como
um fator que constitui a autonomia e a emancipação da pessoa, já que é parte
do processo de ensino e aprendizagem, e não apenas um momento isolado e
alheio a esse processo.
Como todos os membros da comunidade de investigação participam da
avaliação e avaliam diversos aspectos da aprendizagem, esse ato de avaliar
passa a ser fundamental para que o pensamento investigativo seja recons-
truído constantemente e aprofundado.
No caso exposto na unidade, os alunos e educadores, ao realizarem a
autoavaliação, decidiram que fariam o registro em um livro que contasse o
percurso das discussões, como uma maneira de documentar todo o processo
de aprendizagem.
Os registros pessoais das professoras e pesquisadora serviram como
norteador do texto que comporia o livro, além disso, os alunos fizeram
ilustrações para os momentos em que não haviam fotos que remetessem ao
que foi vivido ou falado.
O diferencial é que as crianças dessa turma estavam tão habituadas ao
projeto inicial da professora regente (pedagoga) que sentiam a necessidade de
Descrição da situação-problema
Você planejou uma sequência de atividades lúdicas com o intuito de
promover experiências de pensamento com seus alunos nos horários
semanais das aulas de Filosofia. Nesse início de trabalho, optou por utilizar
a teoria de Matthew Lipman a respeito das habilidades e, junto com seus
alunos, escolheram quais habilidades de pensamento deveriam ser desen-
volvidas e aprofundadas no bimestre. Como você teria 50 minutos de aula
apenas por semana e o bimestre teria nove aulas, você escolheu o tema
“identidade” e trouxe diversos suportes e gêneros textuais para envolver os
alunos na atividade. Você registrou tudo e, na nona aula, ao analisar os regis-
tros com os alunos, percebeu que não correspondiam ao plano traçado. E
agora? Onde estaria a falha do processo?
Resolução da situação-problema
No texto que referencia esta seção, falamos um pouco sobre avaliação
diagnóstica. É aí que está a falha no processo apresentado. Qual é a primeira
pergunta que fazemos a uma pessoa quando desejamos nos aproximar dela?
Geralmente, perguntamos o nome dela. Isso porque aproximar-se de algo é
conhecê-lo, é estabelecer uma relação. Na escola, também tem de ser assim.
Quando desejamos aprender algo, precisamos nos aproximar dele. Se uma
habilidade foi eleita para ser desenvolvida e aprofundada, você, professor,
precisa entender como essa habilidade está dada, junto com a comunidade
de investigação. Se optarem por uma habilidade que nenhum aluno ainda
desenvolveu, seu plano deve ser menos exigente e, talvez, não contemplar
outras habilidades que estejam na mesma situação. Enfim, não se pode
planejar sem conhecer os alunos e a situação em que se encontram, e isso só
é possível por meio da avaliação diagnóstica.
Porque
2. Filosofia com crianças é uma prática que, na escola, objetiva proporcionar uma
______________de pensar. Por isso, avaliação é um quesito ________________,
na medida em que o ato de avaliar possibilita o ______________ e a
___________________.
3. Silvio Gallo (2002), falando sobre o ensino de filosofia, utilizou as seguintes palavras: