A Gestão de Riscos em Barragens de Rejeitosno Brasil
A Gestão de Riscos em Barragens de Rejeitosno Brasil
A Gestão de Riscos em Barragens de Rejeitosno Brasil
Site: www.nppg.org.br/revistas/boletimdogerenciamento
Histórico:
A gestão de risco consiste em antecipar através de sistemas de controle,
Recebimento: 08 Out 2020
Revisão: 09 Out 2020 eventuais alterações de determinada estrutura, preocupando-se com sua
Aprovação: 13 Out 2020 segurança e funcionamento. Desta forma tal gestão se antecipa aos
riscos, determinando decisões e recomendações, aumentando o controle
e buscando evitar acidentes futuros. O avanço da produção mineral no
Palavras-chave: Brasil bem como as tragédias vivenciadas incentivaram as empresas a
Barragens de rejeitos adotarem regras mais rígidas de monitoramento e controle no que se
Geotecnia refere ao armazenamento dos rejeitos produzidos pela atividade de
Gestão de riscos mineração implementando sistemas de gestão de risco, fins dar maior
clareza e segurança junto aos órgãos fiscalizadores desta atividade
buscando evitar assim rupturas das estruturas, que acarretam danos
materiais, pessoais e ambientais. Este artigo busca apresentar a gestão
de riscos aplicada a barragens de rejeitos e como esta impactará sobre a
mesma bem como a apresentação da metodologia utilizada através de
métodos de análises de riscos e do Plano de Ação de Emergência (PAE),
sendo esses inexistentes em parte do Brasil havendo a necessidade de
serem implementados.
2.4.2 Métodos de análise de riscos Falha, dos seus Efeitos e da sua Severidade):
aplicados à barragens Constitui uma extensão ou generalização da
FMEA, permitindo ordenar vários modos de
Atualmente as empresas de mineração
ruptura de acordo com o mais crítico.
utilizam-se de uma diversidade de métodos de
Aplicando escalas de probabilidade de
análise de risco. Segundo Eckhoff [12]
ocorrência de falhas e da gravidade dos seus
existem 37 métodos de análise de risco. Já
efeitos é possível ordenar as diferentes
segundo a CNPBG [7], são seis os métodos
maneiras que um processo pode falhar, e ser
de análise de risco em destaque. Abaixo
elaboradas instruções para se tomar as
seguem os principais métodos: [2]
devidas providências de defesa. Registram-se
• HAZOP – Hazard and Operability os resultados do método de forma a incluir as
Analysis (Análise dos Perigos e da recomendações de correções.
Operacionalidade): O método classifica
O método do tipo FMECA é
através de palavras-chaves, os desvios das
semiquantitativo, onde a probabilidade de
grandezas que repercutem no desempenho do
ocorrência dos eventos bem como a
sistema. Seu principal objetivo é investigar
severidade das consequências é ordenada,
através de uma metodologia precisa, cada
respectivamente em classes de probabilidade
segmento de um projeto, objetivando a
e classe de consequências.
exposição de todos os distanciamentos
possíveis das condições normais de operação, Conhecida as consequências de cada
fornecendo sua determinada justificativa. Do modo de falha, sua criticidade fica definida
HAZOP, resulta um documento estimativo, com a avaliação da probabilidade de
relacionado às possíveis distorções de ocorrência. Essa avaliação é baseada em taxas
operação, com metodologia e orientações de de falha (failure rate) de cada componente,
seguranças a serem seguidos. [2;11] que são fornecidas pelos fabricantes com
condições de utilização definidas
• FMEA – Failure Mode and Effect
(temperatura, umidade, tempo de utilização,
Analysis (Análise dos Modos de Falha e dos
etc.).
seus Efeitos): Método de análise que se inicia
a partir da identificação e compreensão dos • ETA – Event Tree Analysis (Análise por
possíveis modos de falha de um sistema, Árvore de Eventos): É um método de análise
avaliando suas causas, sequelas, meios de quantitativo de riscos, que a partir de um
determinação, prevenção e atenuação dos seus ponto inicial, identifica as complicações que
efeitos. Assim, identificando previamente podem ocorrer, bem como a probabilidade de
todos os modos de ruptura críticos do sistema, ocorrência das mesmas. A partir da
poderá ser antecipada uma correção para identificação de um evento de origem, traça-
prover a atenuação ou extinguir os riscos. O se dois ramos representando o sucesso ou
FMEA pode ser aplicado em momentos fracasso do mesmo, e a partir de então
distintos do projeto e com diferentes constrói-se a árvore sempre derivando dois
objetivos, como: [2;11] ramos de cada ramo. Calcula-se a
probabilidade de ocorrência do evento inicial,
o Controlar a execução da cobra;
e de todos os demais eventos derivados,
o Instrumento de segurança para a fase de podendo ser aplicado em qualquer etapa do
serviço; projeto, ou da construção da barragem.
o Instrumento de decisão relacionado ao A elaboração de uma ETA acompanha o
abandono de uma obra; desenvolvimento do projeto e pode ser
o Auxílio na tomada de decisões no início alterada ou atualizada assim que novos dados
do projeto, detectando possíveis falhas e sejam disponibilizados ou que tenham sido
melhorando a confiabilidade da obra. assumidas diretrizes diferentes de projeto,
construção ou operação.
• FMECA – Failure Mode, Effect and
Criticality Analysis (Análise dos Modos de
Revista Boletim do Gerenciamento nº 22 (2021)
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• FTA – Fault Tree Analysis (Análise por ruptura parcial ou total da barragem (1
Árvore de Falhas): Método gráfico que para baixo e 5 para elevado);
utiliza símbolos definidos em norma, para o Verossimilhança (Veros.): É a
indicar a relação de eventos, partindo de uma probabilidade de falha do objeto (1 para
falha e identificando combinações de eventos baixo e 5 para elevado);
até a descoberta da ocorrência da falha. É
aplicado aos sistemas complexos. o Grau de Confiança (Conf.): Relacionado
às incertezas do método. Mostra a
No começo, utiliza-se outro método para confiança do das estimativas do efeito e
identificar os defeitos. Eles são chamados de da probabilidade. (1 para elevado e 5 para
eventos de topo, como por exemplo a ruptura baixo ou duvidoso).
de barragem por galgamento. A partir daí, é
feito uma investigação, identificando todos os De forma geral, pode-se afirmar que o
acontecimentos que possam provocar a método LCI é considerado uma versão
situação de falha no evento do topo, traçando simplificada dos métodos FMEA/FMECA,
assim, os ramos da árvore. De acordo com sendo aplicado com o objetivo de criar uma
Pereira o processo é finalizado quando todos hierarquia num conjunto de sistemas ou dos
os ramos forem interpretados e os fatores na modos de ruptura de um único sistema. [14]
parte inferior da árvore sejam do tipo simples, • Análise de riscos por índices: Abrange a
ou seja, de modo que as frequências de determinação de um índice global de risco,
ocorrência ou probabilidades de ocorrência conseguinte de uma classificação atribuída a
possam ser estimadas. [2] fatores selecionados. A implementação deste
Vide Figura 2 em anexo. [8] método acarreta na divisão dos fatores de
risco em tipos e na concessão de pesos para
• Noeud Papillon (Nó Borboleta): Trata-se cada uma delas. Assim, o método é indicado
da junção de dois métodos anteriores através para casos nos quais seja necessária apenas a
de um ponto central. O método une o método disposição correspondente dos riscos.
da Árvore de Falhas na parte esquerda, e o
método da Árvore de Eventos na parte direita, • Análise Preliminar de risco (APR):
como mostra a Figura 3 em anexo. [8] Indicada para fase de desenvolvimento do
projeto, da obra ou de início de operação em
• Análise por diagramas do tipo LCI campo, e é utilizada quando existe pouca
(Localização, Causa e Indicadores de Falhas): informação, falta de referência e
Método indutivo, semiquantitativo, detalhamento em relação a um determinado
implementado em duas etapas: Primeiro a processo ou sistema. [14]
identificação e avaliação das potenciais
consequências e segundo: após os resultados Cada risco deve ser identificado, com
da primeira etapa, realiza-se a identificação e suas respectivas possíveis causas descritas,
avaliação dos modos de ruptura. assim como suas consequências. Deve-se
detalhar tipos de equipamentos, instrumentos
Para realização da análise, elabora-se um ou objetos utilizados em determinada
diagrama de localização, causa e indicadores atividade, e recomendar os equipamentos de
dos modos de ruptura, como mostra a Figura segurança necessários para tal.
4 em anexo. [13]
Este documento é altamente utilizado na
A aplicação dos diagramas LCI valoriza Engenharia de Segurança do Trabalho, como
muito a detecção visual de indícios de
ferramenta auxiliar na execução de tarefas de
comportamentos que podem acarretar ruptura. alto risco, onde nem todos são conhecidos.
De acordo com Pereira as causas e os Ou seja, é uma análise preliminar, através de
indicadores das falhas são classificados de 1 a um método indutivo e qualitativo, onde é
5 através de três atributos: [8;14] feito um estudo simples e global com o
o Efeito (Ef.): Relaciona a falha do objeto, objetivo de encontrar riscos e perigos em
definindo se a mesma ocorreu com determinada atividade, estimando
construção, terreno, espaço a jusante, etc. responsável pela obra, bem como do
responsável pela segurança da barragem.
3.3 Plano de Emergência Interno -
Metodologia • Comunicação: Desenvolvimento de um
sistema de comunicações, tanto internas
Tem como objetivo a estruturação e ajuda
quanto externas, sendo confiável e
às operações de controle de segurança da
operacional.
barragem em situações de emergência ou
críticas. O documento deve conter • Organização interna: Apresentação sobre
informações sobre o dono da obra e o o centro de controle, com sistema de
responsável pela elaboração do PEI; dados transmissão de dados. Deve-se prever no PAE
sobre a barragem como localização, data da Interno o isolamento da área da barragem,
construção, capacidade; Informações sobre o bem como a segurança interna.
sistema de controle da barragem; • Ações de segurança: Em consoante com a
Identificação da população à jusante da situação encontrada, e o nível da emergência
barragem; cenários de acidentes; escala de fixado, deve-se listar as ações a serem
emergência para classificação dos acidentes. tomadas, prioridades, manobras a serem
Na elaboração da escala de nível de realizadas.
emergência, recomenda-se uma escala de 0 a • Transmissão da informação à
3 ou 4, onde cada risco considerado pode ser comunidade: Listagem dos canais de
descrito como: comunicação para divulgação da emergência
• Nível zero: Condição normal de para o público civil, com informações e
operação. Não representa nenhum sinal de orientações de segurança vindo diretas do
alerta. centro de controle, e coordenadas também
com o órgão de proteção civil.
• Nível 1: Atenção, relacionado a detecção
de problemas operacionais ou estruturais. • Relatórios de Acidentes e Incidentes:
Deve-se preparar uma mobilização caso a Revisão exemplificada de eventos passados,
situação venha a piorar. Neste primeiro nível, incluindo causas, consequências, medidas de
a cadeia de mobilização caberá apenas a segurança tomadas e recomendações de ações
equipe interna da Barragem. em caso de nova emergência.
• Nível 2: Alerta geral, representando um • Treinamento e formação: Procedimentos
agravamento da situação do Nível 1, ou a para treino operacional para funcionários da
ocorrência de um evento completamente barragem, em combinação com a autoridade.
adverso e inesperado, onde a ruptura da Cursos de atualização e revisão de medidas a
barragem seja uma possibilidade. serem tomadas, de forma a incrementar a
competência dos mesmos, e a segurança geral
• Nível 3: Alerta de Catástrofe.
da barragem.
Constatação que a situação deixou de ser
controlável e um acidente é inevitável. Neste • Conjuntura dos riscos potenciais da
nível as ações do plano de evacuação devem Barragem: Documento que visa apresentar os
ser imediatamente adotadas, de forma a riscos existentes na barragem, de forma a
minimizar as perdas de vidas na comunidade fornecer um entendimento adequado dos
jusante a barragem. mesmos, para que a preparação adequada seja
feita.
Segundo Almeida, o documento pode ser
estruturado da seguinte forma: [21] 3.4 Plano de Emergência Externo -
Metodologia
• Introdução: Contendo aspectos gerais,
informações sobre a barragem, localização. Tem como objetivo a diminuição da
quantidade de vítimas caso ocorra um
• Responsável e Autoridades: Principais
acidente na Barragem a montante. O PAE
autoridades relacionadas à construção de
Externo objetiva, principalmente, a proteção
barragens, identificação do dono e
das vidas humanas. O Regulamento de ação, com vários tipos de informações que
Segurança de Barragens (RSB) define o PEE podem ser essenciais durante uma
como um documento formal e vinculativo que emergência. Essa parte pode ser dividida em
determina as orientações de atuação dos três seções: A primeira visa identificar os
diversos agentes de proteção civil, atribuindo- membros da Comissão Municipal de Proteção
lhes missões, de forma a garantir o empenho e Civil e a declaração do estado de alerta.
coordenação de todos, defronte de uma Na segunda seção são feitas
catástrofe ou acidente, evitando caracterizações gerais sobre a barragem, da
consequências inaceitáveis. [9] estrutura, espaço, socioeconômica, além da
De acordo com a APSEI, o Plano de explicitação do risco, onde é feita a análise de
Emergência Externo deverá ser organizado risco e vulnerabilidade, com medidas
com as seguintes partes: [22] propostas para minimizá-las.
• Parte I - Embasamento geral do plano; Na terceira seção são disponibilizadas
informações de acesso rápido que podem
• Parte II - Organização da resposta;
fazer a diferença na atuação frente a uma
• Parte III - Áreas de Intervenção; emergência. São exemplos: inventários de
• Parte IV - Informações Complementares. recursos, modelos de relatórios, comunicados
e requisições, listas de contatos, controle e
3.4.1 Embasamento geral do plano: registros do plano, legislação, dentre outros.
Introdução e apresentação geral do plano O PAE Externo deve ser atualizado
de ação, com seus objetivos explicados e sua periodicamente, de acordo com definição da
existência justificada. Aqui, deve-se expor Comissão Nacional de Proteção Civil ou
como interligar o plano com os outros quando os Serviços de Proteção Civil se
instrumentos de defesa, além de mitigar o mostrarem necessários, ou quando houver a
enquadramento legal e os antecedentes do identificação de novos riscos e
processo, e a realização de uma articulação vulnerabilidades.
com outros sistemas de planeamento.
3.4.2 Organização da resposta:
4. Considerações Finais
Nesta parte constam informações sobre a
execução do plano, tanto na fase de Após as tragédias vivenciadas no Brasil
emergência quanto na fase de reabilitação. houve um avanço na estruturação do
Deve-se expor também, a zona de intervenção fiscalizador mas entende-se que essa
em que é aplicado. Define-se também as estruturação deve melhorar. Além disso pode-
respectivas missões dos agentes de proteção se observar que a cultura impregnada no
civil e dos organismos e entidades de apoio. Brasil é de não se ater aos riscos e não
priorizar o planejamento, gestão e controle de
3.4.3 Áreas de Intervenção: seus projetos levando a uma resposta tardia
São apresentadas as áreas de intervenção em relação aos problemas apresentados pelos
básicas da organização geral das operações. mesmos. A cultura que prioriza apenas prazo
Nesta parte é detalhada a administração dos e custo acaba criando barreiras para a
recursos, bem como a logística de apoio, e a implementação de práticas diferentes
gestão da informação de emergência, com o estagnando a evolução dos processos que
plano de comunicação elaborado. As ações de deveriam ser considerados fundamentais
serviços médicos e transportes das vítimas, tantos por entidades públicas quanto privadas.
salvamento e serviços mortuários também são Visto a tamanha dificuldade atual para
especificados. Por fim, os protocolos para implementação de boas práticas de gestão
manutenção da ordem pública. pode-se concluir também que a situação de
3.4.4 Informações Complementares: muitas comunidades se encontra em risco
elevado e medidas precisam ser tomadas,
Funciona como um anexo ao Plano de
Revista Boletim do Gerenciamento nº 22 (2021)
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6. Anexos