Sociologia - O Trabalho e A Vida Económica
Sociologia - O Trabalho e A Vida Económica
Sociologia - O Trabalho e A Vida Económica
Anthony Giddens
Leiria, 2024
Índice
Assim como tantos outros aspetos do nosso mundo social o trabalho e a vida
económica vêm sofrendo uma enorme transformação. A cada momento, parece
que estamos diante de declarações anunciando a "morte das carreiras", notícias
envolvendo fusões e reduções no tamanho de corporações e rumores
contraditórios a respeito do impacto da tecnologia da informação sobre o local
de trabalho. Porém, além de estudarem esses aspetos de domínio bastante
público dos padrões contemporâneos do trabalho, os sociólogos interessam-se
pelo modo como as mudanças no trabalho estão afetando a vida privada dos
indivíduos e das famílias.
Uma forma de compreendermos o alcance das mudanças na vida económica
atual é considerando as trajetórias de trabalho radicalmente diferentes que
surgiram no período de apenas uma geração. Foi o que fez o sociólogo Richard
Sennett, ao explorar recentemente os efeitos do trabalho contemporâneo sobre
o caráter pessoal.
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Experiência de Enrico e Rico
O que é o trabalho?
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representar um elemento estruturador na composição psicológica das pessoas
e no ciclo de suas atividades diárias.
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Grande parte do trabalho feito na economia informal, por exemplo, não possui
um registro direto nas estatísticas oficiais de empregos. O termo economia
informal refere-se às transações que ocorrem fora da esfera do emprego regular,
as quais às vezes envolvem a troca de dinheiro por serviços prestados, mas que
geralmente também envolvem a troca direta de mercadorias ou serviços.
Alguém que aparece para arrumar a televisão pode ser pago em dinheiro, sem
a emissão de nenhum recibo, nem um registro dos detalhes do serviço. As
pessoas trocam mercadorias "baratas" - ou seja, furtadas ou roubadas - com
amigos ou colegas por outros favores. A economia informal abrange não apenas
as transações em dinheiro feitas "às escondidas", como também muitas formas
de auto-suprimento realizadas pelas pessoas dentro e fora de casa. As
atividades do tipo “faça você mesmo” maquinário e as ferramentas domésticas
por exemplo, proporcionam mercadorias e serviços que, de outra forma, seriam
obtidos mediante pagamento (Gershuny e Miles, 1983). A atividade doméstica,
que, por tradição, tem sido executada principalmente pelas mulheres,
geralmente não é remunerada; entretanto, não deixa de ser um trabalho - em
geral, muito pesado e exaustivo. O trabalho voluntário, para casas de caridade
ou outras organizações, possui um papel social importante. Ter um emprego
remunerado é importante por todas as razões expostas anteriormente - porém a
categoria "trabalho" é ainda mais ampla.
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objetivo é a produção de mercadorias e serviços que satisfaçam as
necessidades humanas.
Uma ocupação, ou um emprego, consiste no trabalho executado em troca de um
ordenado ou salário regular. Em todas as culturas, o trabalho é a base da
economia. O sistema económico consiste em instituições que cuidam da
produção e da distribuição de mercadorias e serviços.
Tendências do sistema ocupacional
O trabalho está sempre incrustado no sistema económico mais amplo. Nas
sociedades modernas, esse sistema depende da produção industrial. Como foi
enfatizado em outros trechos deste livro, a indústria moderna difere em um
aspecto fundamental dos sistemas pré-podemos de produção, os quais
baseavam-se, sobretudo, na agricultura - a maioria das pessoas trabalhava nos
campos ou cuidava de rebanhos. Já, nas sociedades modernas, apenas uma
ínfima proporção da população trabalha na agricultura, e a própria lavoura
tomou-se industrializada sendo administrada, em grande parte, por intermédio
de máquinas, e não por mãos humanas.
A própria indústria moderna está em constante transformação - a mudança
tecnológica é uma de suas principais características. A tecnologia refere-se ao
aproveitamento da ciência nos maquinários com o intuito de atingir uma
eficiência produtiva maior. A natureza da produção industrial também varia em
relação a influências sociais e económicos mais amplas. Se considerarmos o
sistema ocupacional dos países industrializados durante o século XX, podemos
enxergar esse fenómeno com bastante clareza: mudanças na economia global
e avanços tecnológicos provocaram transformações profundas no tipo de
trabalho que realizamos.
O trabalho, remunerado ou não, envolve a execução de tarefas físicas e mentais
para produzir bens e serviços que atendam às necessidades humanas. Uma
ocupação implica trabalho em troca de um salário regular. Em todas as culturas,
o trabalho é fundamental para a economia, que consiste na produção e
distribuição de bens e serviços. Nas sociedades modernas, o trabalho está ligado
à produção industrial, que difere significativamente dos sistemas agrícolas pré-
modernos. A agricultura moderna é altamente mecanizada e depende menos de
mão de obra humana. A indústria está constantemente mudando, impulsionada
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pela mudança tecnológica e influências sócio económicas mais amplas, como
mudanças na economia global e avanços tecnológicos.
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profissionalizados, 35% semiprofissionalizados e 10% não-profissionalizados.
Os empregos profissionais e os de colarinho-azul (branco) somavam um número
relativamente pequeno. Até a metade do século, os trabalhadores manuais
representavam menos de dois terços da população que fazia parte da mão-de-
obra remunerada, e o trabalho não-manual havia apresentado uma expansão
semelhante.
Um censo da população do RU foi realizado em 1971, e outro em 1981. Ao longo
desse período, houve um declínio na proporção de pessoas em ocupações de
produção de 62% para 56% (no grupo dos homens), e de 43% para 36% (no
caso das mulheres). Os cargos profissionais e gerenciais ocupados pelos
homens aumentaram em até 1 milhão. Até o ano de 1981, havia 170 mil homens
a menos exercendo atividades de rotina de colarinhos-brancos, mas 250 mil
mulheres a mais em empregos desse tipo. O declínio dos empregos manuais
correspondeu diretamente à diminuição das proporções das pessoas envolvidas
na indústria manufatureira. Em 1981, houve uma redução de 700 mil homens e
420 mil mulheres no trabalho manufatureiro em relação a 1971.
Essas tendências ainda são percebidas atualmente, mas, até certo ponto, se
estabilizaram. Um Labour Force Sut~vey (Levantamento da Força de Trabalho)
realizado pelo governo em 1998 mostrou que apenas 25% dos homens e 10%
das mulheres trabalhavam na indústria manufatureira, percentuais que
demonstram um contraste evidente com a disparada no número de pessoas
empregadas nos serviços financeiros e empresariais: em 1981, apenas 10% dos
homens estavam empregados nesse setor, mas, até 1998, esse percentual havia
subido para 16%. Entre as mulheres, houve um aumento de 12% (em 1981) para
19% (em 1998).
Existe um debate considerável em tomo dos motivos que levaram a essas
mudanças. Aparentemente, há várias razões. Uma delas é a introdução contínua
de um maquinário capaz de poupar trabalho, o que, nos últimos anos, culminou
com a difusão da tecnologia da informação na indústria. Outro motivo é o
crescimento da indústria manufatureira fora do Ocidente, especialmente no
Extremo Oriente. As indústrias mais antigas das sociedades ocidentais sofreram
grandes cortes em função de sua inabilidade para competir com os produtores
mais eficientes do Extremo Oriente, que possuem custos de mão-de- obra mais
baixos.
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Referências