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Superinteressante - Edição 471 (2025-01) (1)

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vacinas

EDIÇÃO 471 • janeiro 2025


transmissíveis
Conheça os vírus modificados
que imunizam animais em vez
de causar doenças – e podem
prevenir pandemias. p. 32

r$ 29,90

Pensar fora da
caixa parece um dom
exclusivo de artistas
e inventores. Mas a
ciência mostra que
essa habilidade pode
ser aprendida e
aprimorada. Entenda
como surgem as boas
ideias – e descubra
como treinar o seu
cérebro para torná-lo
mais criativo. P. 20

p. 46 p. 54 p. 40 p. 08
a crise climática o moscow mule não a escola de por que trens
que acabou com é russo e outras craques da são coisa rara
o império romano. histórias etílicas. ciência nacional. no brasil.

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1260772-ABRIL COMUNICAÇÕES-1_1-1.indd 2 09/01/2025 15:40:07
carta ao leitor editorial

Retrospectiva Fundada em 1950

Publisher : Fábio Carvalho


A Organização Meteorológi- Grande do Sul. Também houve desli-
ca Mundial (WMO) divulgou, no zamentos de terra com centenas de
começo de dezembro, que há 55% de vítimas na Índia e Papua Nova Guiné,
chance de o fenômeno climático La bem como os ciclones Yagi na China
Niña ocorrer entre dezembro de e Trami nas Filipinas e os furacões
2024 e fevereiro de 2025. Os dados Helene e Beryl nos EUA e no Caribe. Editor-chefe: Bruno Vaiano Editor: Bruno Garattoni Diretora de

disponíveis até agora indicam que a Isso é só um aperitivo do que está arte: Juliana Krauss Repórteres: Bruno Carbinatto, Maria Clara
Rossini, Rafael Battaglia Designers: Caroline Aranha, Cristielle
Menina, caso venha, virá fraquinha: por vir se negacionistas do naipe de Luise Rodrigues, Luana Pillmann Estagiários: Eduardo Lima, Isabela
Lobato e Manuela Mourão (texto), Rafaela Reis (arte) Colaboração:
as correntes marítimas e os ventos Bolsonaro ou Trump continuarem as- Bianca Albert (revisão) e Anderson C.S. de Faria (produção gráfica)

sobre o Pacífico deverão voltar ao sumindo países e ensaiando golpes de www.super.abril.com.br/


www.youtube.com/@Superinteressante
normal ainda no outono. Estado mundo afora. Em junho de Instagram: @revistasuper
Mesmo assim, o verão que come- 2017, vale lembrar, o loirão topetudo X: @revistasuper

çou em 21 de dezembro deve ser anunciou a saída dos EUA do Acordo


mais ameno, sem as ondas de calor de Paris (o país contribui com 13,5% CO-CEO Francisco Coimbra VP DE PUBLISHING (CPO) Andrea
Abelleira VP DE TECNOLOGIA, PRODUTOS E ASSINATURAS (COO)
aflitivas que acometeram o Centro- das emissões de CO2 do mundo). Guilherme Valente, DIRETOR DE DISTRIBUIÇÃO E NOVOS NEGÓCIOS
Erik Carvalho, DIRETOR DE PUBLICIDADE Ciro Hashimoto, GERENTE-
-Sul do Brasil ao longo de 2024 em Em termos de potencial destrutivo EXECUTIVA DE PROJETOS ESPECIAIS Juliana Caldas

virtude do Niño. Os anos de Niña e afronta diplomática, essa renúncia


também costumam ser sinônimo de equivale à Crise dos Mísseis de Cuba Redação e Correspondência: Rua Cerro Corá, 2175, lojas 101 a 105,
1° andar, Vila Romana, São Paulo, SP, CEP 05061-450
mais chuvas na Amazônia e menos em 1962. A diferença é que bombas
SUPERINTERESSANTE edição nº 471 (ISSN 0104-178-9), ano 39, nº1,
precipitação na Região Sul. destroem cidades em instantes, não é uma publi­ca­ção da Editora Abril SUPERINTERESSANTE não admi­te

Dito isso, é bom manter em mente décadas. O Fórum Econômico Mun- publi­ci­da­de reda­cio­nal

que, ainda que 2025 nos dê dias mais dial estima 14,5 milhões de mortes
IMPRESSA NA PLURAL INDÚSTRIA GRÁFICA LTDA
Av. Marcos Penteado de Ulhôa Rodrigues, 700,

frescos, ele não será uma volta ao causadas por desastres intensificados Tamboré, Santana de Parnaíba, SP, CEP 06543-001

normal após um ano atípico de quei- pelo aquecimento global até 2050, e
madas, cheias e outros desastres. US$ 12,5 tri em perdas econômicas.
Não existe mais “normal”. É espe- Não por coincidência, uma das
rado que haja anos mais ou menos maiores campanhas a favor do cum-
frios, com maior ou menor propen- primento do Acordo de Paris, a Inicia-
são para fenômenos extremos em tiva pelo Tratado de Não Proliferação www.grupoabril.com.br
diferentes partes do mundo. Isso é de Combustíveis Fósseis, foi batizada
parte da dinâmica das mudanças cli- em referência ao Tratado de Não Pro-
máticas. O gráfico com a temperatu- liferação de Armas Nucleares de 1967. Vendas Assinaturas www.assineabril.com.br

ra média da Terra, ano a ano, é uma Em 1985, George Kennan, que era Vendas corporativas e vendas em lote
assinaturacorporativa@abril.com.br
linha serrilhada. conselheiro do Depto. de Estado dos Atendimento exclusivo para assinantes minhaabril.com.br
O que interessa é a tendência de EUA, já havia escrito o seguinte:
longo prazo: o serrilhado sobe sem “Nosso mundo, no presente, se vê WhatsApp: (11) 3584-9200
Telefones: SAC (11) 3584-9200

parar. Anos de Niño sempre foram diante de dois perigos supremos e Renovação 0800 7752112
De segunda a sexta-feira, das 9h às 17h30
mais quentes que anos de Niña. Mas sem precedentes. Um é o perigo não atendimento@abril.com.br

os Niños de hoje são mais quentes só de uma guerra nuclear mas de EDIÇÕES ANTERIORES

que os Niños do passado, e o mesmo qualquer grande guerra entre as gran- Todo acervo publicado de Superinteressante está no App
Superinteressante. Baixe aqui
vale para as Niñas. O ano de 2025 des potências industriais. [...] O outro
ainda será o terceiro mais quente da é o efeito devastador da industrializa-
história, atrás de 2024 e 2023. Por ção moderna e da superpopulação no
Google Play Apple Store
sua vez, 2024 foi o primeiro com meio ambiente. Um ameaça destruir a
temperatura média 1,5 ºC acima do- civilização pelo egoísmo temerário de LICENCIAMENTO DE CONTEÚDO
Para adquirir os direitos de reprodução de textos e imagens,
padrão do século 19. suas rivalidades militares, o outro pe- envie um e-mail para:
licenciamentodeconteudo@abril.com.br
Temperaturas tão altas aumentam lo abuso massivo de seu habitat natu- LICENCIAMENTO DE MARCA
o potencial destrutivo de desastres ral”. Eis aí uma resolução para 2025: Para inserir as marcas do Grupo Abril em produtos e negócios,
envie um e-mail para:
climáticos. A retrospectiva meteoro- ouça Kennan enquanto dá tempo. licenciamento@abril.com.br

lógica do ano passado não é boa: PARA ANUNCIAR NO ESPAÇO DIGITAL E IMPRESSO

houve enchentes devastadoras no Bruno Vaiano


e-mail: publicidade@abril.com.br

Paquistão (em março), na Espanha Edi tor-chefe


TRABALHE CONOSCO
https://talentosabril.vagas.solides.com.br
(em outubro) e, naturalmente, no Rio bruno.vaiano@abril.com.br

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1261364-VEJA NACIONAL-1_1-1.indd 4 09/01/2025 15:40:26
cardápio janeiro de 2025

20 Capa

Criatividade:
Dá para aprender?
Pensar fora da caixa não é exclusividade
de artistas e inventores: trata-se de
uma habilidade, que pode ser aprendida
e aprimorada. A gente explica como.

32 Novidade contagiante
Vacinas que se transmitem como vírus
são uma aposta para imunizar animais
selvagens e evitar a próxima pandemia.

40 A escolinha do Prof. Xavier


Conheça a Ilum, uma universidade de ponta
que aceita apenas 40 alunos por ano –
e quer formar a elite da ciência brasileira.

46 Até tu, Brutus?


Muito além de invasões germânicas e brigas
aristocráticas, entenda como o clima deter-
minou a glória e o fim do Império Romano.

Zé Gotinha
54 Leia sem moderação
selvagem P. 32 Dos bartenders americanos que foram
pra Cuba ao brasileiríssimo Rabo de Galo,
uma breve história da coquetelaria.

14 “Pai, tenho fome” 65 Manual


Pesquisadores brasileiros Como fazer estampas de
essencial investigam possível risco
de jejum intermitente.
Número
incrível oráculo camiseta com serigrafia.

6 uma imagem... 60 racionamento


Tecido vermelho em O que o modo de
Bangladesh. Muito tecido. baixa energia realmente
muda no celular?

16 Copia, só não faz igual


A história de Nosferatu
(1922), a adaptação não
autorizada de Drácula que
8 ... uma opinião acaba de ganhar um remake. 61 pá pum
Por que trens
são coisa tão 18 Morfeu high tech
3,1 63
64
Só acredito vendo
CONEXÕES
rara no Brasil? O gadget que mexe com as metros de
64 lost in translation
ondas cerebrais para ajudar ferrovia exis�

os usuários a dormir. tem para cada


quilômetro
quadrado do

supernovas
12 Enquanto isso... território
brasileiro.
última página
15 não é bem assim Na argentina , 66 De volta para o futuro
10 receita caseira 16 Pérolas do streaming são 15. 62 bola de bilhar O filme Ela se passa em
EUA tentam frear produção Nos EUA , 150. O que é o teorema 2025. Veja quais futuros
de armas em impressoras 3D. 19 VOcê decide p. 08 da calvície? fictícios ainda estão por vir.

Capa | Ilustração Felipe Del Rio.

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essencial uma imagem...

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Foto NurPhoto / Getty Images

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essencial ...uma opinião

na página anterior: Estudantes caminham em campos cobertos por tecido vermelho


em Bangladesh. Após o tingimento, os panos devem secar debaixo do Sol por cerca de
seis horas. O país é o segundo maior exportador de roupas para marcas de fast fashion
do Ocidente, mas sofre com falta de direitos trabalhistas, casos de trabalho infantil e
instalações que colocam em risco a saúde e a vida dos empregados.

Por que trens


Não, a culpa
não é bem do
rodoviarismo
de JK ou de um
complô da indústria

são coisa
automobilística.
Muito antes de os
carros tomarem
o Brasil, nossas

tão rara
ferrovias já
estavam em crise
constante – e
não atendiam às
necessidades do

no Brasil?
País. Entenda essa
história.

por Bruno vaiano

C
Cresci no bairro paulistano da Água Branca, em uma vila
operária na várzea do Rio Tietê, construída no começo do século
20 nos arredores da Vidraçaria Santa Marina. Atrás das chaminés
e fornos, uma ferrovia cruza a Av. Santa Marina. Quatro cancelas
compridas – com pintura zebrada, luzes amarelas piscantes e uma
campainha estridente – interrompem os carros para os trens pas-
sarem. Em geral, são comboios comuns, recheados de gente com
destino a Jundiaí ou à Estação da Luz. Mas, volta e meia, vêm duas
ou três locomotivas rangendo em ritmo de hipopótamo, puxando
vagões de soja. Para o bebê Bruno, esses eram os dias felizes. Faziam
o mundo parecer feito de Lego. Eu acenava para os maquinistas;
queria ser um deles quando crescesse.

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Haja imaginação. Nos anos 1990, as
margens da ferrovia eram repletas de
As ferrovias já estiveram no
lixo, entulho e galpões; o ar ficava to-
mado de fuligem e cheiro de borracha
cerne do cotidiano nacional –
queimada. Em comparação a essa época,
os trens paulistas atuais são um conto
foram até berço do nosso futebol.
de fadas com ar-condicionado. Mas são
exceção. Como um todo, a malha ferro- uma faixa estreita murada por uma Ou seja: os carros, caminhões e rodo-
viária brasileira beira o inexistente. De serra de escarpas íngremes, que difi- vias que tomaram o País dos anos 1950
acordo com o Departamento Nacional culta a conexão entre o planalto e os em diante – uma tendência simbolizada
de Infraestrutura de Transportes (DNIT), portos lá embaixo – muitos rios do Sul pela gestão JK, pela implantação de fá-
todos os trilhos do Brasil, somados, dão e do Sudeste, inclusive, correm para o bricas de automóveis ao ABC paulista e
30.660 km, contra 1,7 milhão de km de interior. Por séculos, o lombo de burro pela inauguração de Brasília, com seus
malha rodoviária. São 3,1 metros de fer- foi o único jeito de descer. Nosso status bolsões de estacionamento e raras faixas
rovia para cada km² do território nacio- de colônia de exploração também não de pedestre – não precisaram competir
nal – contra os 15 m/km² da Argentina ajudou. O objetivo dos portugueses era com as ferrovias, porque elas já nasceram
e 150 m/km² dos EUA. extrair recursos naturais e levá-los de em condições desfavoráveis, e entraram
A extensão, vale dizer, não é tão maior navio para a Europa, o que não gerava em decadência muito antes disso.
que a de antigamente. Em 1940, o com- estímulo para ferrovias que conectassem “Não é incomum encontrarem-se
primento total da malha era de 34.252 diferentes regiões do País entre si e favo- ainda entre os brasileiros explicações
km. Nos anos 1960, alcançamos um auge recessem o desenvolvimento econômico. de cunho francamente conspiratório”,
de 38.287 km. Acontece que a popula- O final do século 19 foi a tempestade escreve o historiador Paulo Roberto
ção e a economia do País também eram perfeita: D. Pedro II era genuinamente Cimó Queiroz, da UFMS, “segundo as
menores, o que significa que os trens interessado no desenvolvimento tecno- quais o triunfo das rodovias teria sido
eram responsáveis por uma porcenta- lógico do País; industriais como o Ba- obtido graças a um verdadeiro complô,
gem muito maior dos deslocamentos de rão de Mauá precisavam que o Brasil envolvendo, numa vasta trama de cor-
passageiros e carga. Em 1940, as ferro- largasse sua herança colonial para fazer rupção, os governos e as grandes empre-
vias levavam 62% das mercadorias do dinheiro; e a libertação tardia dos es- sas petrolíferas e automobilísticas (todas
País – em 1968, a participação relativa cravizados – nós fomos o último país estrangeiras) – complô pelo qual se teria
havia caído para 14,7%. da periferia do Ocidente a abolir esse deliberadamente deixado as ferrovias à
Um segundo fator é o estado de con- horror – modernizou a economia. As míngua de recursos”.
servação: no pós-2ª Guerra, apesar do relações diplomáticas com os ingleses, A realidade é muito mais tediosa: no
recorde de quilômetros, uma parte ra- que construíram ferrovias mundo afora pós-guerra, a flexibilidade e o preço
zoável da infraestrutura ferroviária já e lucravam com elas, alcançaram o auge. mais baixo dos caminhões serviram
estava dilapidada, decadente – o auge Apesar disso, só as estradas de fer- muito melhor às necessidades de um
da manutenção e confiabilidade das ro associadas ao café davam dinheiro: país gigantesco e com uma indústria
estradas de ferro brasileiras rolou no boa parte do Brasil ainda não produzia ainda humilde – infelizmente ao cus-
comecinho do século 20, ainda que a nem exportava mercadoria suficiente to da tragédia ambiental dos motores
malha dessa época fosse menor que a para justificar a implantação de trens à combustão. Prova disso é que a Vale,
atual. Entre 1900 e 1914 – início da 1 ª em larga escala. Parlamentares bairris- hoje, usa ferrovias para levar sua pro-
Guerra –, o Brasil ganhava mais de 900 tas, interessados em construir traçados dução homérica de minério de ferro
km de trilhos por ano. irracionais para sua própria conveniência aos portos. Quando o trem é a melhor
Um terceiro ponto é que os trens não e em beneficiar seus currais eleitorais, solução, é inevitável que ele dê as caras.
preenchiam só necessidades práticas: reivindicavam quilometragem em vez O problema é que trilhos como esses
também faziam parte do imaginário de qualidade – e havia uma pressão ainda servem ao mesmo fim que inte-
popular e do tecido social. Vide o fute- generalizada para que as empresas re- ressava aos portugueses: levar nossos
bol, que se espalhou pelo País a partir duzissem tarifas perfeitamente justas, recursos naturais para fora. E é difícil
de 1900 nas mãos de clubes formados o que as deixava sem caixa para operar argumentar que repetir o passado tor-
por operários do setor ferroviário. as ferrovias satisfatoriamente (muito nará o futuro melhor. Reestabelecer e
Então, o que aconteceu? Por que não menos expandi-las ou modernizá-las). expandir nossa rede ferroviária não é só
existem mais comboios fazendo cone- O equipamento foi ficando obsoleto, uma questão de adicionar mais quilôme-
xões tão óbvias quanto a ponte aérea as viagens se tornaram cada vez mais tros de trilhos – mas de pôr esses trilhos
Rio-São Paulo? De partida, a geografia demoradas e as ferrovias falidas passa- a serviço e ao alcance da população e do
do Brasil não é ideal para ferrovias. Um ram para as mãos do Estado, que não desenvolvimento do Brasil, muito além
trecho razoável do litoral consiste em conseguia nem queria mantê-las. da exportação de minério ou soja. S
Principais referências capítulo de livro “Notas sobre a experiência das ferrovias no Brasil”, de Paulo Roberto Cimó Queiroz; artigo “Expansão
e crise das ferrovias brasileiras nas primeiras décadas do século 20”, de Ivanil Nunes; livro História das ferrovias brasileiras, de Paulo Boiteux.
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supernovas
design caroline aranha

EUA tentam frear produção


de “armas fantasmas"
Elas são pistolas feitas em casa com uma Mangione utilizou uma Chairmanwon V1, arma
impressora 3D (que é usada para gerar as peças, fantasma que imita uma pistola Glock com silen-
a partir de arquivos disponíveis na internet). ciador. Duas empresas do setor de impressão 3D,
Foram usadas em atentados em Maryland, na a Print&Go e a 3DPrinterOS, criaram algoritmos
Filadélfia e na Califórnia nos últimos anos, sem que prometem detectar se o usuário está tentan-
maior reação das autoridades. Mas isso deve do imprimir peças de armas – e bloquear essa
mudar após o caso de Luigi Mangione, o ame- operação. Não há estimativas confiáveis sobre
ricano de 26 anos que assassinou Brian Thomp- o número de pistolas fantasmas nos EUA, cuja
son, CEO do plano de saúde UnitedHealthcare, população tem 393 milhões de armas registradas
em Nova York. Segundo a imprensa americana, (1,1 por habitante). (Bruno Garattoni)
A
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sn. Edição Bruno Garattoni

800
milhões de dólares
é o valor do disco
rígido que está
perdido em algum
aterro sanitário de
Newport, no País de
Gales – e contém
8.000 bitcoins.
Seu dono é o inglês
James Howell, cuja
esposa jogou fora o
disco acidentalmen-
te em 2013. Agora,
uma década depois,
ele entrou na Justiça
pedindo permissão
para revirar os
lixões da cidade –
o que pretende fazer
com um grupo de
"especialistas em
escavação". (BG)

Inseto é imune
aos efeitos Adoçante causa danos à memória de cobaias
Pequenas doses de aspartame causam alterações cerebrais em ratos, mostra estudo.
do álcool Ratos que consumiram aspartame apresen- derivado do cérebro (BDNF), uma proteína es-
A vespa oriental taram perda na capacidade de memorização sencial para o bom funcionamento do órgão.
(V. orientalis) con- (se saíram pior em testes de aprendizado) e O estudo chinês confirma os resultados de
segue se alimentar alterações no ritmo circadiano, desenvolvendo outra experiência 3, que foi realizada em 2023
apenas de álcool 80% padrões anormais de sono. Essa foi a conclusão pela Florida State University – e na qual as
(o dobro do teor etí- de um estudo 2 publicado por cientistas chi- cobaias desenvolveram problemas similares
lico da cachaça) sem neses, que forneceram diariamente às cobaias após quatro meses consumindo pequenas do-
qualquer alteração no uma dose modesta de aspartame (equivalente, ses de aspartame. Ainda não é possível afirmar
seu comportamento em mg da substância por grama de peso cor- que esse adoçante tenha o mesmo efeito em
ou longevidade, des-
poral, a 1/3 do limite permitido em humanos). humanos. Mas, se for o caso, os danos podem
cobriram cientistas da
Os pesquisadores constataram que o as- ser generalizados. Isso porque os estudos em
Universidade de Tel
Aviv 1. A vespa tem partame, muito utilizado em refrigerantes, ratos apontaram uma consequência intrigante:
várias cópias do gene sucos, iogurtes e outros alimentos industriali- os problemas de memória das cobaias foram
NADP+, e por isso os zados, inibiu a produção do fator neurotrófico transmitidos aos descendentes delas. (BG)
cientistas acreditam
que ela produza uma
quantidade maior da
enzima álcool desi-
drogenase – que serve
“Sou incapaz de produzir uma resposta",
para metabolizar o
etanol, e também diz o ChatGPT se você perguntar quem é Jonathan Turley, um professor de direito na Universidade George
está presente em Washington. Turley vinha sendo difamado pelo robô, que o acusava falsamente de assédio sexual. Em vez
humanos. (BG) de corrigir isso, a OpenAI preferiu apagar Turley da memória do bot. O ChatGPT também se recusa a falar
sobre Jonathan Zittrain, professor de direito da Universidade Harvard e crítico frequente das IAs. (BG)
Ilustração A Midjourney Fotos Getty Images. Fonte (1) "Tolerance and efficient metabolization of extremely high ethanol concentrations by a social
wasp", S Bouchebti e outros, 2024; (2) "Non-nutritive Sweetener Aspartame Disrupts Circadian Behavior and Causes Memory Impairment in Mice",
H Bai e outros, 2024; (3) "Learning and memory deficits produced by aspartame are heritable via the paternal lineage", S Jones e outros, 2023. janeiro 2025 super 11

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sn.

A Globo reuniu vários


ex-BBBs numa festa de
fim de ano para celebrar
os 25 anos do reality show.

enquanto
isso...
Texto Eduardo Lima
Ilustração Caroline Aranha

Pesquisadores brasileiros des-


cobriram que algumas pessoas
têm um gene que pode proteger
da Covid-19, pois impede
Experiência aponta risco em jejum intermitente
Em ratos, pausa alimentar prolongada elevou incidência de tumores.
a reprodução do vírus A.

O jejum intermitente �raz benefícios pode, num indivíduo geneticamente suscetí-


à saúde, como perda de peso e melhora vel, levar a maior risco de câncer colorretal.
da saúde cardiovascular. Mas um estudo 4
feito com camundongos revelou um outro O que essa descoberta em cobaias pode
lado: em animais geneticamente predis- significar para a saúde humana?
Foram encontrados ossos
postos a ter câncer, fazer jejum aumentou a Tudo o que eu vou falar aqui é especulação,
humanos de 9.000 anos com
o genoma de uma bactéria da incidência de tumores. Conversamos com porque o que a gente viu foi um modelo
família da sífilis. Isso indica Marco Aurélio Ramirez Vinolo, professor animal. O jejum intermitente tem bene-
que a doença surgiu nas Amé- da Unicamp e coautor da pesquisa. fícios metabólicos, para o organismo. Isso
ricas e foi levada à Europa B. já está bem comprovado. Agora, ele pode
O estudo mostrou que quando os ratos trazer riscos em indivíduos suscetíveis
voltavam a se alimentar, após o jejum, [a tumores]. Um outro fator que a gente não
havia uma proliferação de células-tronco explorou ainda, mas será super-relevante
intestinais. Por que isso acontece? para as próximas pesquisas, é entender
O intestino é formado por uma camada de como a alimentação interfere nisso. Será
células-tronco, que se diferenciam e geram que mudando o tipo de alimento, eu torno
Um novo fóssil de crânio ajudou as células maduras, os enterócitos, com fun- ainda mais suscetível, ou eu protejo contra
cientistas a descobrir a aparência
do Saturnalia tupiniquim,
ções de absorção [de nutrientes], secreção de tumores? É algo que tem de ser estudado.
dinossauro brasileiro de 230 muco e várias outras. É um processo que
milhões de anos que é um dos acontece continuamente. Em humanos, há Seria recomendável evitar o consumo
mais antigos do mundo C. uma renovação do epitélio intestinal inteiro de certos alimentos logo após o jejum?
a cada 3 a 5 dias. Em camundongos, é mais A carne queimada, quando passa do ponto,
ou menos a mesma coisa. tem algumas moléculas com efeitos po-
Quando a gente coloca os animais em tencialmente carcinogênicos. São fatores
jejum por 24 horas, essas células diminuem que se unem para aumentar as chances de
a taxa de proliferação. Isso é esperado. desenvolvimento [de um tumor].
Uma sonda da Nasa completou O interessante é que, depois que acontece
o voo mais próximo do Sol já a realimentação, a proliferação [celular] au- E embutidos ou ultraprocessados?
feito por um objeto construído menta em relação ao animal que se alimenta Sim. Aí você puxa para o lado da quanti-
por seres humanos, suportando continuamente. Ou seja, a realimentação dá dade de gordura nesses alimentos, outro
temperaturas de 982 °C. um boost na proliferação das células. Isso fator que também está associado à maior
Fontes A Universidade de São Paulo; tem efeito positivo para o organismo, que é suscetibilidade [ao câncer]. É bem por aí
B Instituto Max Planck de Antropologia Evolu-
tiva; C Universidade Federal de Santa Maria. aumentar a taxa de regeneração arterial. Mas mesmo. (Bruno Garattoni)

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Mundo produziu 10 milhões de toneladas de café em 2024
Quantidade equivale a 1,2 kg por pessoa; líder mundial, Brasil exporta 2/3 do que planta.

Coffea arabica
Produção global 56,6%
5,742 milhões de toneladas 10,152

total
milhões de
43,4%
em 12 meses Coffea canephora*
4,410 milhões de toneladas
toneladas

Evolução Maiores produtores


SAFRA produção 1. brasil 2. VIETNã 3. colômbia
(em milhões de toneladas)
2015
69,5% 30,5%
9,1
2016 Para Para consumo
exportação: interno:
9,6 2,28 milhões 1 milhão de
2017 de toneladas toneladas
1,74 milhão 0,72 milhão
TOTAL: de toneladas de toneladas
9,5 3,28 milhões de toneladas
2018
10,5
10º Amazonas
2019
888 kg 4º Bahia
10,1 185.874 kg
2020 5º Rondônia
10,6 152.634 kg
2021 2º Espírito
9,9 Santo
8º Mato Grosso
839.820 kg
2022 16.254 kg
9,8 9º Goiás
15.150 kg 7º Rio de Janeiro
2023 21.270 kg
1º Minas Gerais
10,1 1.683.516 kg
2024 6º Paraná 3º São Paulo Outros
10,5 40.506 kg 326.676 kg 4.776 kg
2025
Estimativa *Inclui as variedades robusta e conillon.

Fonte "Sumário Executivo do Café – Novembro 2024", Ministério da Agricultura e Pecuária.

11,7
milhões de pontos de QI podem estar sendo perdidos no mundo, a cada ano, devido à expo-
sição das gestantes a três compostos químicos: o bisfenol A (BPA) e o di(2-etilhexil) ftalato
(DEHP), ambos empregados na fabricação de plásticos, e os éteres difenílicos polibromados
(PBDEs), que são retardadores de fogo adicionados a diversos materiais. Essas substâncias
contaminam o meio ambiente, acabam sendo ingeridas pelas grávidas – e prejudicando o
desenvolvimento cognitivo dos fetos, o que reduz sua inteligência na idade adulta. É o que
afirma um estudo 5 da Universidade de Maryland, que analisou dados de 38 países. (BG)

Fontes (4) "Short-term post-fast refeeding enhances intestinal stemness via polyamines", S Imada e outros,
2024; (5) "The benefits of removing toxic chemicals from plastics", M Cropper e outros, 2024.
janeiro 2025 super 13

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sn.

3 notícias sobre Solitá-


rios to-
Computador quântico mam mais
Ele ainda é primitivo – mas vem dando bons saltos.
antide-
pressivos
Ao longo de cinco
anos, pesquisado-
res analisaram os
dados médicos de
277 mil pessoas
que vivem em 409
cidades da Hungria
– e descobriram
9 que há uma
relação direta
entre a solidão e
o uso de antide-
pressivos. Pessoas
que mantêm redes
mais coesas de
amigos e parentes,
com contatos e

1.
Google cria método Tecnologia da IBM
2. Cientistas reduzem
3. encontros frequen-
tes, têm menor
tendência a utilizar
esses medicamen-
para corrigir erros permite conectar chips componente em 1.000x tos – e, quando o
Os qubits (bits quânticos) são Os computadores quânticos atu- Pesquisadores de Cingapura fazem, é em doses
muito frágeis: duram poucos mi- ais trabalham com bem poucos criaram um dispositivo 8 que menores. O efeito
lissegundos e podem perder suas qubits: no máximo 1.200, o que produz fótons emaranhados também vale para
propriedades quânticas, gerando limita bastante sua capacidade (duplas de partículas que têm
erros, quando associados a ou- de processamento. Se você tentar um vínculo quântico entre si) e amizades a
tros qubits. Mas o chip quântico aumentar o número de qubits mede apenas 1,2 micrômetro – é distância. Segundo
Willow, do Google, promete num chip, eles ficam instáveis 80 vezes mais fino do que um fio os cientistas, isso
resolver isso. Ele usa um novo e param de funcionar. Mas de cabelo. O componente pode- acontece porque
sistema de correção de dados 6, pesquisadores da IBM criaram um rá ajudar no desenvolvimento as relações sociais
e por isso inverte a tendência dos sistema 7 que permite conectar de computadores quânticos
computadores quânticos: comete vários chips quânticos – e, com menores e mais práticos (hoje, ajudam a reduzir
menos erros conforme aumenta isso, construir máquinas com eles têm aproximadamente o estresse, ansiedade
o número de qubits. (BG) maior número de qubits. (BG) tamanho de um carro). (BG) e depressão. (BG)

grau de
SEXO cor ou raça instrução FAIXA ETÁRIA CLASSE social
Metade dos % que só 100%
98
86
brasileiros só acessa a 80%
60 66 66 63
81
66 68
80
62
usa internet rede pelo
60% 54 51 56 47 49
56

no celular smartphone
40%
20%
22 18 25
Computador vai
ficando para trás;
C
Total

Masculino

Feminino

Branca

Preta

Parda

Superior

Médio

Fundamental
Analfabeto/
Ed. Infantil

10 a 15 anos

16 a 24 anos

25 a 34 anos

35 a 44 anos

45 a 59 anos
60 anos
ou mais

DE

tendência é maior entre


adolescentes e idosos.

14 super janeiro 2025 Fonte "TIC Domicílios 2024", Centro Regional de Estudos para
o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br).

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Não é bem
assim...
Notícias que
bombaram por
aí – mas não
são verdade

A notícia

ChatGPT
escreve poesia
melhor do que
humanos
O que ela dizia
Numa experiência
11
realizada pela
Universidade de
Pittsburgh, nos EUA,
um grupo de 1.634

H5N1 está se adaptando para infectar humanos


voluntários não foi
capaz de diferenciar
poemas escritos
Vírus causa gripe aviária letal – e tem demonstrado alterações preocupantes. pelo ChatGPT de
outros redigidos por
grandes poetas da
Nos úl�imos meses de 2022, com a pan- holandeses utilizaram amostras de duas ce- língua inglesa, como
demia de Sars-CoV-2 na reta final, outro pas do vírus, que circularam pelo mundo em Walt Whitman, T.S.
vírus se tornou alvo de preocupação: o 2005 e 2022, para infectar células das vias Eliot e Sylvia Plath.
H5N1, subtipo do influenza que provoca aéreas superiores humanas – e constataram Além disso, as
uma gripe aviária letal (mata quase 100% 10 que o H5N1 mais recente penetra nelas poesias do robô re-
ceberam notas mais
dos animais infectados). Ele começou a se com maior facilidade, e se reproduz mais altas nos quesitos
propagar também entre mamíferos, e houve depressa após fazer isso. O H5N1 “clássico" "beleza" e "ritmo".
alguns casos em humanos – levantando o só se multiplicava nas vias aéreas inferiores
temor de uma nova pandemia. Isso ainda (que incluem a traqueia e os pulmões). Já a a verdade
não aconteceu, mas, como um novo estudo nova cepa é mais adaptada para se replicar Os voluntários eram
revela, o H5N1 está se adaptando para infec- no nariz e na garganta, o que pode tornar leigos no assunto:
tar pessoas com mais facilidade. Cientistas o vírus mais transmissível. (BG) 90% admitiram
que não tinham o
hábito de ler poesia,
e 67% não sabiam
nada sobre os auto-
Empresa usa anúncios para rastrear celular res usados no teste.
Um pesquisador
da Universidade
A americana Babel S�reet criou um serviço, chamado Locate X, que permite monitorar a lo- de Nova York teve
calização das pessoas usando banners publicitários exibidos em sites. A técnica, que funciona no acesso aos dados e
iPhone e no Android, explora o mobile advertising ID: número de identificação que o celular envia publicou um artigo
12 revelando os po-
para os sites enquanto o dono navega na internet. O Locate X revela o nome do dono do celular, e é
emas escritos pelo
tão preciso quanto o GPS. A Babel Street compra espaço publicitário em sites – e seus banners são
ChatGPT: todos
exibidos quando a pessoa está perto de um determinado lugar (a polícia poderia rastrear mulheres bem repetitivos
que foram a uma clínica de aborto, por exemplo). O sistema já está sendo utilizado nos EUA. (BG) e banais. (BG)
Fontes (6) "Quantum error correction below the surface code threshold", Google Quantum AI, 2024; (7) "Combining quantum processors with real-time classical
communication", A Vazquez e outros, 2024; (8) "Van der Waals engineering for quantum-entangled photon generation", W Gao e outros, 2024; (9) "Antidepressant
use in spatial social networks", B Lengyel e outros, 2024; 10 "A 2022 avian H5N1 influenza A virus from clade 2.3.4.4b attaches to and replicates better in human
respiratory epithelium than a 2005 H5N1 virus from clade 2.3.2.1", L Bauer e outros, 2024; 11 "AI-generated poetry is indistinguishable from human-written poetry janeiro 2025 super 15
and is rated more favorably", B Porter e E Machery, 2024; 12 "ChatGPT’s Poetry is Incompetent and Banal: A Discussion of (Porter and Machery, 2024)", E Davis, 2024.

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sn. playlist

Contos Nosferatu, em cartaz nos cinemas, é o remake do diretor Robert Eggers


(de A Bruxa e O Farol) do clássico terror homônimo de 1922. Saiba como

da cripta foram os bastidores do filme original.


Texto Rafael Battaglia Popp • Design Cristielle Luise

A mente Te vejo
por trás no tribunal

D urante a 1ª Guerra, o
alemão Albin Grau F lorence Balcombe,
viúva de Stoker,
teria ouvido a história de exigiu royalties por
um fazendeiro sérvio cujo Nosferatu e processou a
pai havia se transforma- Prana. Florence ganhou,
do em vampiro. De volta porém Albin Grau decla-
à Alemanha, Grau, que rou falência e ela jamais
participava de um grupo viu a cor do dinheiro. Em
ocultista, cofundou o 1925, a Justiça alemã exi-
estúdio Prana para pro- giu que todos os rolos do
duzir filmes com temas filme fossem recolhidos
sobrenaturais. Grau é um e destruídos. Àquela
Copia, só dos grandes responsáveis altura, porém, a obra já
não faz igual pelo visual gótico de Nos- havia se espalhado pelo
Estreia de gala Outras versões

feratu (o Conde Orlok, mundo. As cópias piratas
osferatu é uma
adaptação não
autorizada de Drácula
por exemplo, foi baseado
numa versão ilustrada de
1915 do Golem, criatura
D irigido por F.W.
Murnau, Nosferatu
é um dos principais expo-
preservaram o longa até
que as primeiras restau-
rações fossem lançadas
� m 1979, Werner
H e r zo g fe z u m
remake de Nosferatu.
(1897), livro do irlandês entes do expressionis- O diretor quis usar dez
do folclore judaico). décadas depois.
Bram Stoker (1847-1912) mo alemão, movimento mil ratos em cena, porém
que consagrou a versão q u e e x a ge ra va n a s metade deles morreu
moderna do mito dos sombras, maquiagens, devido a maus-tratos
vampiros. O roteiro figurinos e atuações para durante a produção.
alterou os nomes dos dar vazão às angústias do Outro filme que explora
personagens (“Drá- pós-guerra (e que lançou Nosferatu é A Sombra do
cula” virou “Orlok”, as bases para gêneros Vampiro (2000), com o
“Van Helsing” virou como o terror e o noir). ator Willem Dafoe (que
“Buwler”, e por aí vai). A Prana Film investiu está no filme de Eggers).
Além disso, transferiu pesado na campanha O longa se passa nos
a história da Inglaterra de lançamento: a estreia bastidores do original
para a Alemanha. Mas teve uma apresentação de 1922 e aborda a lenda
há elementos inéditos, de dança e um baile à de que o alemão Max
como mostrar a luz fantasia no auditório Schreck, que interpretou
do Sol como uma das do Jardim Zoológico Orlok, seria um vampiro
fraquezas dos vampiros. de Berlim. na vida real.

série filme
Ruptura Como vender a Lua
Apple TV+ (2024) Apple TV+
Para trabalhar na Lumon O projeto Apollo está pro-
Industries, os funcionários têm gredindo, mas tem atrasos
e problemas. Pode ser que a
Pérolas do de se submeter a uma cirurgia
cerebral que divide as memó- alunissagem não dê certo, e os
astronautas morram; ou que
streaming rias: quando estão no trabalho,
eles não se lembram de nada da fiquem presos, sem conseguir
sua vida pessoal, e vice-versa. voltar à Terra. Para evitar um
Pode até parecer bom negócio, vexame internacional, a Nasa
mas é um poço de angústia – e decide encenar a missão – que
de mistério. Eis a premissa desta é gravada da Flórida, e transmi-
instigante série, que chega à tida ao vivo para todo o mundo,
segunda temporada. (BG) como se fosse da Lua. (BG)

16 super janeiro 2025 Imagens Reprodução/Divulgação.

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Edição Bruno Garattoni

“Mesmo uma
taxa de fracasso
de 80% a 90%
pode ser
considerada
bem-sucedida",
escreve o neurologista
O jogo do poder americano Stuart Fires-
tein neste livro, em que
Você assume o controle de um povo e deve guiá-lo rumo à prosperi- explora um lado oculto
dade, lidando com ameaças externas (guerras e disputas comerciais) e do progresso científico:
internas (crises políticas e econômicas). Essa é a fórmula de Civilization, as (muitas) vezes em
que é baseado em situações históricas reais. No novo game da franquia, que as pesquisas fracas-
você assume o papel de 18 líderes históricos – de Confúcio a Benjamin sam e as experiências de
Franklin, passando por Augusto, Maquiavel [acima] e Napoleão. (BG) laboratório dão errado.
Civilization VII. Lançamento dia 11/2, para PlayStation, Xbox, Switch Porque é só errando que,
e PC. R$ 350. um dia, finalmente se

Podcast
acerta. (BG)
Fracasso: por que a ciên-

instantâneo
cia é tão bem-sucedida.
R$ 35.

Sabe quand o você se


depara com um texto mais
longo, mas fica com pregui-
ça de ler ou está sem tempo
para fazer isso? Este aplica-
tivo permite transformá-lo
num podcast: basta copiar
o link do texto e colar na
telinha do app. O resultado
é excelente: a narração fica Como tudo começou
bem natural, parece que Alexey Pajitnov, de 29 anos, trabalhava no Centro de Computação
foi gravada por um locutor da Academia de Ciências da URSS. Em junho de 1984, nos intervalos do
humano (o app oferece
várias opções de voz para
trabalho, criou um jogo inspirado nos pentaminós, um tipo de dominó
grego. Nascia ali o Tetris, que se tornaria um fenômeno global, com 520 Touradas
você escolher). (BG)

ElevenReader. Para iOS


milhões de cópias vendidas. Este software traz 15 versões do jogo, incluindo
uma inédita, e um documentário em vídeo contando toda a história. (BG) no Brasil
e Android. Grátis. Tetris forever. Para PlayStation, Xbox, Switch e PC. R$ 130. Elas já foram populares
por aqui, e não em rincões
perdidos: aconteciam no
Realengo, em plena cida-
de do Rio, no começo do
filme Documentário
século 20. Atraíam mi-
O criador (2023) A conspiração lhares de espectadores, e
Amazon Prime consumista (2024)
os jornais tinham até co-
Em 2055, uma inteligência Netflix
mentaristas de touradas.
artificial detona uma bom- Ex-funcionários de megacor- Este livro, escrito por dois
ba atômica em Los Angeles, porações revelam alguns dos
historiadores da UFRJ,
matando milhões de pessoas. truques que elas usam para nos
Os americanos decidem elimi- fazer consumir: desenvolvem conta como as touradas
nar toda a IA do planeta. Mas a produtos impossíveis de con- vieram parar no Brasil –
China, não: lá robôs são permi- sertar, forçam a obsolescência e como o país conseguiu
tidos e vivem em harmonia na de modelos antigos, jogam se libertar delas. (BG)
sociedade, inclusive formando mercadorias no lixo, mentem
famílias com humanos. E isso sobre reciclagem e tentam Sol e sombra: as toura-
desencadeia uma guerra entre impedir que você raciocine das no Rio de Janeiro.
os dois países. (BG) antes de comprar algo. (BG) R$ 43.

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sn. tech

O indutor Gadget altera as ondas cerebrais para ajudar


a adormecer. Pode parecer meio difícil de

de sono
acreditar – mas tem comprovação científica.
Texto Bruno Garattoni Design Cristielle Luise

1. TODAS AS ONDAS O gráfico é a soma


dos cinco tipos de ondas elétricas geradas
pelo cérebro: alfa, delta, theta, beta e gama.

1 2. AS ONDAS ALFA Oscilam de 8 a 12


vezes por segundo. São mais prevalentes
quando a pessoa está quieta e tranquila.

2 3. AS ONDAS THETA Oscilam de 4 a 7


vezes por segundo, e ficam mais intensas
3 quando a pessoa está sonolenta.

4 4. OS PULSOS ACÚSTICOS São disparados


pelo Elemind e se propagam pelo crânio.
Isso atenua as ondas alfa e reforça as ondas
theta, ajudando a dormir.

Ele se chama Elemind, e está sendo lançado nos EUA lembra o som de uma cachoeira ou televisão fora do ar).
por US$ 349 (mais uma taxa de US$ 6,99 por mês). Você Esse som é modulado de acordo com as ondas cerebrais
coloca o aparelho, que parece uma tiara acolchoada, na do usuário e, ao se propagar pelo crânio, tem o poder de
testa ao se deitar. Ele tem sensores de eletroencefalogra- alterar a atividade elétrica do cérebro: após alguns minu-
ma (EEG), que monitoram dois tipos de oscilação elétrica tos, o Elemind reduz as ondas alfa e aumenta as ondas
do cérebro: as ondas alfa, que ficam mais intensas quando theta, ajudando a pegar no sono. O gadget foi criado por
estamos acordados e tranquilos, e as ondas theta, ligadas neurocientistas do MIT, e teve a eficácia verificada por
à sonolência [veja quadro acima]. um estudo 1 realizado com 21 voluntários ao longo de
Em seguida, o Elemind começa a emitir pulsos uma semana: quando estavam usando o aparelho, eles
acústicos: pequenas vibrações que o ouvido interpreta adormeceram em média 15 minutos antes (em relação à
como som (ele se assemelha ao chamado “ruído rosa”, que fase placebo, na qual o Elemind estava inoperante).

18 super janeiro 2025 Fonte (1) ”A randomized controlled trial of alpha phase-locked auditory stimulation to treat symptoms of sleep onset insomnia”, S Bressler e outros, 2024.

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Edição bruno garattoni

Pulseira inflável você decide


O Huawei D2 (R$ 2.799) é o primeiro smartwatch Os projetos mais
capaz de medir a pressão sanguínea. Seu segre- interessantes
do está na pulseira, cuja parte interna é inflável do mundo do
(como o manguito usado nos medidores de pres- crowdfunding
são tradicionais). O relógio leva 60 segundos para
medir a pressão – e faz isso automaticamente,
se você quiser, algumas vezes ao longo do dia.
Ele também tem a função de eletrocardiograma,
e registra todas as variáveis mais tradicionais
(distância percorrida, consumo de calorias etc).

Menor e melhor
indiegogo.com
Projeto Capsule Personal
Dishwasher
O que é Uma lava-louças
que ocupa muito menos
Criptos na mão espaço (ela mede 26 cm de
largura por 46 cm de altura),
Deixar criptomoedas numa corretora ou exchange tem risco: se não precisa ser conectada à
a empresa quebrar, o dinheiro já era. Por isso, muitos adeptos das torneira (basta encher seu
criptos preferem guardá-las em casa, numa wallet (carteira offline). reservatório de água antes
Mas, se você esquecer a chave (senha) de acesso a esse dispositivo, de usar) e lava em apenas
perde tudo. A carteira Bitkey é uma solução melhor – pois, além da 15 minutos. Apesar do
senha, também pode ser destravada com a sua impressão digital. Ela tamanho, tem boa capaci-
é compatível com iOS e Android, e custa US$ 99. dade: comporta até 35 itens,
incluindo panelas grandes
(até 31 cm de diâmetro).
Quanto já arrecadou
US$ 800 mil
Fim do tremor Chance de rolar bbbb

A luva GyroGlove pro- Visão térmica


mete transformar a vida
indiegogo.com
de quem tem Parkinson,
reduzindo drasticamente os Projeto Robofinity
tremores das mãos. Ela con- O que é Uma câmera térmica
segue fazer isso porque tem para instalar no carro
sensores que detectam os e dirigir com mais segurança
tremores, um chip que cal- à noite. Ela tem um sensor
cula a velocidade e a direção de calor, que você coloca no
deles, e um motor elétrico para-brisa, e uma tela de
que movimenta uma peça
esférica embutida na luva
– isso gera forças opostas
Dirigido pela IA
Muitos vídeos são gravados com teleprompter: um aparelho que
6,2 polegadas, que fica no
painel do carro – e mostra
quando há pessoas, animais
às dos tremores, cance- vai mostrando, sobreposto à câmera, o texto do roteiro para o apre- ou outros veículos à frente
lando-os. O resultado, a sentador ler. O teleprompter pode ser usado em velocidade fixa, ou (segundo os criadores do
julgar pelas demonstrações controlado por uma segunda pessoa. O Elgato Prompter (US$ 280) é produto, ele tem alcance de
realizadas pelo fabricante, é diferente: ele tem uma IA que monitora a sua voz enquanto você está até 200 metros).
impressionante. A luva pesa gravando o vídeo e passa o texto na velocidade exata. Ele vai ajustando Quanto já arrecadou
580 gramas, e está sendo a rolagem para acompanhar o seu ritmo, e para automaticamente o US$ 220 mil
lançada por US$ 5.900. texto quando você fizer uma pausa. Chance bbb

Fotos Reprodução/Divulgação. janeiro 2025 super 19

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CriaCAPA

tivi
Pensar fora da caixa
parece um dom
exclusivo de artistas
e inventores. Mas
a psicologia e a
neurociência mostram
que essa habilidade
pode, sim, ser aprendida
e aprimorada. Entenda
como surgem as boas
ideias – e descubra
como treinar o seu

dade
cérebro para torná-lo
mais criativo.

dá para aprender?
Texto Bruno Carbinatto Fotos Eduardo Dulla
Design Caroline Aranha Edição Bruno Vaiano

20 super janeiro 2025

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janeiro 2025 super 21

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q
Quando estava com
um bloqueio criativo,
Salvador Dalí recorria
a uma técnica inusitada.
mentes mais inventivas
da História, nem sempre
ter ideias boas e originais
era algo fácil e automáti-
co. Às vezes, era preciso
um empurrãozinho.
Imaginar é um dom
comum a todos os seres
humanos – e também
uma daquelas caracte-
rísticas que nos diferen-
ciam dos outros animais,
incapazes de atingir esse
nível de abstração. Ape-
sar disso, a criatividade
Foi só no Renascimento que a ideia
do ser humano enquanto criador aparece
de vez, um conceito que ganhou força
no Iluminismo e, depois, no movimen-
to Romântico. Isso fica claro nas artes
plásticas – que, do século 19 em diante,
se tornaram cada vez mais abstratas e
experimentais, se afastando do objetivo
de representar fielmente a natureza.
Desde então, buscamos entender co-
mo as boas ideias surgem, e se é possível
melhorar o processo criativo. O tema, é
claro, é explorado há muito tempo nas ar-
tes e na filosofia. Também é uma fixação
de teóricos da administração e autores de
por exemplo. Para Guil-
ford, a criatividade é um
produto direto da nossa
capacidade de pensar de
forma divergente. Ao fa-
zer conexões entre coi-
sas aparentemente des-
conexas, criamos ideias
inéditas. Até hoje, essa
explicação é a mais aceita
pelos cientistas.

O que (não)
é criatividade
A teoria de Guilford ex-
Em seu estúdio, o pintor parece a muitos de nós autoajuda – que investigam, por exemplo, plica de onde a criativi-
espanhol tirava uma so- algo inacessível, difícil de o que faz uma empresa ser inovadora e dade vem. Mas há ainda
neca em uma poltrona cultivar, restrita apenas como os gestores podem cultivar essa uma questão mais ele-
enquanto segurava uma àqueles que já nasceram soft skill no ambiente de trabalho. mentar – e, surpreenden-
chave com a mão. Seu com aptidões artísticas O que se pode chamar de estudo temente, mais complexa:
braço ficava pendurado ou inventivas. científico da criatividade começou só o que é a criatividade?
para fora do assento – Isso não é verdade. Nas na década de 1950, quando o psicólo- O conceito é um da-
e no chão, embaixo da últimas décadas, a psico- go americano J. P. Guilford publicou as queles que todo mundo
chave, ele deixava uma logia e a neurociência bases desse campo de pesquisa. Ele se sabe reconhecer intuiti-
travessa metálica. começaram a desvendar interessou em responder uma pergunta vamente, mas que é difícil
Então, era só esperar o processo de surgimen- essencial: de onde vêm as ideias criati- de colocar em palavras.
o sono chegar. Quando to de ideias originais no vas? Para isso, propôs que o raciocínio Até dá para resumir em
enfim começava a ador- nosso cérebro – e des- humano se divide em dois tipos: o con- algo como “a habilidade
mecer, sua mão relaxava cobriram estratégias que vergente e o divergente. Ambos podem ser de ter ideias originais e
e deixava a chave cair em qualquer um pode adotar usados para resolver problemas ou che- fora do comum” ou “a
cima da travessa, resul- para aperfeiçoar a própria gar a conclusões após uma análise, mas capacidade de encontrar
tando num barulho que capacidade criativa, mes- funcionam de maneira bem diferente. respostas pouco óbvias
o acordava do soninho. mo que você se considere O pensamento convergente é aquele para uma determinada
Dalí não perdia tempo: desprovido desse traque- que busca uma única solução para um pergunta”, mas, quando
imediatamente voltava jo. Vamos entender como impasse específico. Ele segue uma ordem se trata de pesquisa cien-
ao trabalho, ainda meio nas próximas páginas. estruturada, avançando e refinando uma tífica, é preciso de uma
grogue. (Detalhe: Thomas mesma ideia em vez de experimentar definição um pouco mais
Edison, inventor da lâm- Penso, logo crio várias resoluções diferentes. Pense, por exata. Qual usar?
pada, fazia a mesma coisa Por muito tempo, a ideia exemplo, numa questão de uma prova “Entre os pesquisado-
– mas com bolinhas de de pessoas como criadoras de matemática. Pode até haver várias res, existe uma grande
metal em vez de chaves.) não existiu no imaginário maneiras de chegar no resultado, mas diversidade de opiniões
O motivo? Eles acredi- do Ocidente. Na Antigui- o mais fácil (e comum) é escolher um sobre como definir a
tavam que os momentos dade Greco-Romana, por único método e seguir com ele até o final. criatividade”, conta Adam
logo antes do sono pro- exemplo, entendia-se que Já o pensamento divergente é mais Green, neurocientista da
fundo – aquele estado em os humanos mais explora- fluido e caótico: ele explora diversas ideias Universidade de George-
que estamos meio acor- vam as possibilidades da diferentes ao mesmo tempo, muitas vezes town, em Washington
dados e meio dormindo, realidade do que de fato misturando as soluções e conectando- (EUA). Green é fundador
chamado de “hipnagogia” criavam coisas novas. -as de maneiras pouco óbvias. É o tipo da Sociedade para a Neu-
– eram os mais propí- Mesmo a arte era con- de raciocínio típico dos brainstormings, rociência da Criatividade, →
cios para o surgimento siderada uma represen-
de ideias criativas. Hoje, tação da natureza, e não
os cientistas sabem que exatamente um fruto da
isso tem um fundo de imaginação. Músicos e Não há um jeito óbvio de medir um
verdade – mas calma,
leia toda a matéria antes
poetas pediam inspiração
a um grupo de deusas co-
conceito como a criatividade.
de providenciar chave nhecidas como musas – e Mas pesquisadores têm estratégias
e travessa. acreditavam ser veículos
Esses exemplos mos- por meio dos quais elas criativas (rs) para isso.
tram que, mesmo para as se manifestavam.

22 super janeiro 2025

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O pensamento
divergente
é a chave da
criatividade:
consiste em
tirar conceitos
e ideias de suas
caixinhas e
recombiná-los
de jeitos
inusitados.

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Como medir que reúne os especialistas da área, e,
por isso, está no centro das discussões
e reorganizá-los para
criar algo novo, surpre-
a criatividade sobre como definir o conceito. endente e significativo”,
Adam garante que não há consen- diz Kounios.
O conceito pode ser subjetivo, mas pesquisadores
so. Até existe uma “definição padrão”, Outros pesquisadores
precisam definir quem (ou o que) pode ser considerado
adotada de forma provisória pelos também acham importan-
criativo para entender de onde a habilidade vem.
pesquisadores da área na falta de algo te dividir a criatividade
Veja três técnicas usadas para isso.
melhor. “Mas ninguém gosta dela de em duas manifestações
Teste de usos verdade”, brinca John Kounios, pro- distintas: a small-c (“pe-
Técnica 1 alternativos fessor de psicologia na Universidade
Drexel e também referência no tema.
quena”), que se refere a
atividades do dia a dia
Nosso cérebro resolve problemas de dois jeitos: A tal “definição padrão” diz que, para que exigem ideias no-
Pensamento convergente: algo ser considerado criativo, precisa vas, como pensar numa
Linear e lógico, busca uma única solução por meio cumprir dois requisitos: ser novo e útil. receita diferente com os
de etapas bem-definidas. O primeiro passo é fácil de entender ingredientes que estão
– a originalidade é o cerne da criati- na geladeira, escolher
Pensamento divergente: vidade, claro. O segundo é um pouco um presente fora do ób-
Caótico e imaginativo, explora diversas opções ao mais confuso. vio para o seu amigo ou
mesmo tempo para escolher uma solução. Típico Acontece que só criar algo inédito disparar aquele trocadilho
das sessões de brainstorm. não basta. Qualquer um pode rabiscar perfeito numa conversa; e
uma forma geométrica diferentona a big-c (“grande”), que ge-
A criatividade é fruto do objeto: Xícara.
segundo tipo. Quem tem numa folha de papel ou inventar uma ralmente está relacionada
mais capacidade de pensar uso 1: Beber café ou chá palavra nova – basta combinar vogais ao trabalho ou à carreira
de forma divergente tam- (óbvio). e consoantes numa sequência inexis- e se refere a empreitadas
bém tem mais potencial uso 2: Um pequeno vaso tente, tipo “alaqueneuta”. Isso, porém, mais complexas, como in-
criativo. Os testes que para uma planta ou um não significa nada. ventar uma história para
medem essa habilidade scoop para pegar grãos num O que pode ser considerado criativo um livro, desenvolver um
s ã o c h a m a d o s “u s o s recipiente (não tão óbvios).
alternativos”, em que vo-
é criar um termo que seja ideal para produto novo ou esboçar
uso 3: Um molde para descrever uma determinada coisa em um projeto de pesquisa.
luntários precisam elencar
desenhar um círculo perfeito um determinado contexto, como fazia
várias aplicações diferentes
ou um instrumento musical Guimarães Rosa com os neologismos Medindo a
para um objeto. Quanto
de percussão (ainda mais
mais usos a pessoa ima-
ousados).
em seus romances. É por isso que o criatividade
ginar, e mais variados eles requisito “utilidade” entra na defini- Se definir o conceito já é
forem, maior a habilidade uso 4: Um chapéu para ção. Mas é aí que surge um segundo difícil, imagine medi-lo.
de pensamento divergente. seu gnomo de jardim
Veja um exemplo. (extremamente criativo).
problema: sabemos que uma pintura, Sabemos, é claro, que al-
um poema ou uma música podem ser gumas pessoas são, sim,
criativos, mas até que ponto eles são mais criativas que outras,
úteis – e o que é ser útil? Emocionar e também conseguimos
Técnica 2 Consenso pessoas ou se expressar são objetivos
muito sutis para uma palavra tão dura.
identificar quando algo
(um filme, um design etc.)
Usada para determinar se alguma coisa (uma pintura, É por isso que a definição padrão não é criativo. Ou seja, existe
uma história etc.) é criativa. Humanos reconhecem a agrada totalmente. O grande desafio é um gradiente. Mas como
criatividade quando estão diante dela, ainda que seja ter uma mesma descrição que possa colocá-lo em números?
difícil medi-la. Por isso, os pesquisadores pedem que um ser aplicada a diferentes manifestações Para a maioria das
grupo de pessoas, de preferência especialistas, avalie se da criatividade (na arte, na ciência, nos habilidades cognitivas,
algo é criativo. Surpreendentemente, há um alto grau de
concordância nas respostas. Isso indica que, de fato, usar
negócios etc.). há testes relativamente
a opinião de terceiros é um medidor confiável. Algumas versões substituem a parte simples que resolvem a
do “útil” por “relevante” ou “apropriado questão. A memória pode
a um contexto”, o que ajuda a ampliar ser colocada à prova (“Vo-
a definição e diminuir o utilitarismo. cê se lembra do que eu lhe
Técnica 3 Testes de personalidade O lado ruim, é claro, é que a definição
também fica menos precisa.
apresentei na nossa última
consulta?”), bem como a
Psicólogos classificam pessoas a partir de cinco eixos de Para contornar esse empecilho, ou- reação a estímulos exter-
personalidade. O mais relevante para a criatividade é a tros autores preferem mudar o foco: em nos (“Você está ouvindo
“abertura para experiências”. Quanto maior a pontuação no vez de definir as coisas que são criativas, esse som?”), a identificação
item, maior tende a ser a performance da pessoa em testes de preferem descrever o próprio proces- de padrões (“Qual dessas
pensamento divergente. Por isso, a métrica (medida através
de questionários) é um indicador indireto da criatividade.
so de criação de ideias. “Eu defino a figuras difere das outras?”)
criatividade como a habilidade de que- e até alguns sentimentos
brar um conceito em vários elementos (“Isso faz você se sentir →

24 super janeiro 2025

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A criatividade
é um processo
curioso no
cérebro: envolve
interação entre
áreas antagô-
nicas, como a
rede neural
responsável pela
divagação e a
rede responsável
pela atenção.

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triste ou feliz?”). Não dá para fazer o
mesmo com a criatividade.
Fora da Algumas das mentes mais criativas da História tinham
truques específicos – às vezes nada ortodoxos
Ou melhor: até dá. Basta ser cria-
tivo (rs). Uma saída comum para esse
casinha – para estimular a criatividade. Veja alguns exemplos.

problema são os chamados “testes de


usos alternativos”. Esses experimentos
de laboratório consistem em entregar Steve Agatha Yoshiro Igor
um objeto aleatório para voluntários Jobs Christie Nakamatsu Stravinsky
de pesquisa e pedir que eles pensem O fundador da A rainha do Quando ficava sem No caso de
em várias possibilidades de aplicação Apple costumava mistério não tinha ideias, esse prolífico bloqueios criativos,
fazer longas uma mesa fixa inventor japonês, o compositor russo
daquele item em contextos diferentes.
caminhadas na para escrever suas famoso por criar o plantava bananeira
Se o objeto for um copo de plástico, cidadezinha de histórias. Em vez disquete e centenas por alguns segun-
por exemplo, uma resposta básica seria Palo Alto, na disso, produzia em de outras patentes, dos. Ele acreditava
usá-lo para beber água. Uma ideia um Califórnia, para qualquer canto da mergulhava numa que isso ajudava a
pouco mais ousada seria enchê-lo de refrescar a mente casa em que pu- piscina e prendia a aumentar a circu-
– e inclusive pre- desse se apoiar – e, respiração o máxi- lação de sangue no
terra e transformá-lo num vasinho de
feria participar de às vezes, fora dela. mo que conseguia. cérebro e cultivar
planta. E uma pessoa com um bocado reuniões andan- Mudar de ambiente Segundo ele, a adre- a imaginação.
de pensamento divergente poderia usar do. Hoje, sabemos é uma estratégia nalina do momento Não há nenhuma
um barbante para transformá-lo em um que essa técnica realmente ajudava o cérebro evidência que fun-
telefone improvisado. tem comprovação eficaz para ser a pensar. Não faça cione, claro, mas
Colhidas as respostas, os cientistas científica. mais criativo. isso em casa. parece divertido.
calculam quão boas essas pessoas são Fotos Wikimedia Commons.
em pensar de forma divergente com
base em métricas como a quantidade exatamente a criativida- racional e científica. Ba- a massa cinzenta.
total de aplicações encontradas para o de com isso, mas sim o lela, claro. A realidade é A chamada rede de
objeto, quanto tempo o participante potencial de criativida- mais complicada. Mais modo padrão parece ser
levou para chegar a essas aplicações e de”, explica Mark Runco, recentemente, com o ad- a principal envolvida
quão diferentonas elas são em relação professor e pesquisador vento de tecnologias que no surgimento de novos
às apresentadas pelos demais. sobre criatividade na mapeiam a atividade ele- insights. Ela é a respon-
Em 2021, pesquisadores de Harvard Southern Oregon Uni- troquímica do órgão em sável pela nossa capaci-
criaram e validaram um teste ainda mais versity, nos EUA. Afinal, tempo real, os neurocien- dade de divagar e fica
simples para medir a capacidade de pen- esses testes apenas iden- tistas finalmente come- mais ativa quando não
samento divergente. Nesse questionário, tificam a capacidade de çaram a entender o que estamos focados em al-
o usuário só precisa escrever dez palavras pensamento divergente ocorre na nossa cabeça go – quando estamos
aleatórias, tentando escolher termos que de cada pessoa, mas não quando estamos gerando sonhando acordados.
sejam distantes entre si em todos os senti- necessariamente o quan- ideias originais. Seria pos- A segunda protagonis-
dos (semântico, morfológico, fonético etc.) to elas aplicam aquela ha- sível encontrar uma área ta do processo é a rede de
Então, um software analisa quão bilidade para de fato gerar do sistema nervoso res- controle cognitivo, formada
distintos realmente são os vocábulos boas ideias no dia a dia. ponsável especificamente por áreas do cérebro que
escolhidos e quão original o usuário pela criatividade? são acionadas quando é
foi em suas escolhas em relação aos A criatividade A resposta é “mais ou preciso focar a atenção no
outros – calculando, com isso, uma no cérebro menos”. Observando o cé- mundo externo, como ao
nota final de criatividade. Você pode Você já deve ter ouvido rebro de pessoas duran- fazer uma prova. Ela pa-
inclusive experimentar o teste (em falar naquela história de te experimentos em que rece ser responsável por
inglês), buscando por The Divergent que o lado direito do nos- elas se esforçavam para avaliar, de um modo mais
Association Task. (1) so cérebro é o polo cria- ter ideias originais, cien- racional, os insights que
De qualquer forma, esses métodos tivo e artístico, enquanto tistas descobriram que foram gerados pela rede
não são perfeitos. “Nós não medimos a metade esquerda seria essa habilidade é fruto de modo padrão, descar-
da cooperação entre três tando aqueles estapa-
redes neurais distintas. (2) fúrdios e dando segui-
O estudo científico da criatividade “Redes neurais” são con- mento aos promissores,
juntos de neurônios que que prosseguem para se
começou na década de 1950, costumam trabalhar em tornarem uma ideia de
mas bombou nos últimos anos sintonia para cumprir de-
terminadas funções. Não
fato. Isso acontece quase
sem percebermos.
graças às tecnologias de são exatamente áreas, por- O terceiro componente
tanto – não nessa acepção é a rede de saliência, cuja
mapeamento cerebral. geográfica com que nos função ainda não foi to-
habituamos a descrever talmente elucidada. Ela →

26 super janeiro 2025 Fontes (1) Artigo “Naming unrelated words predicts creativity”; (2) Artigo “Functional Realignment of Frontoparietal Subnetworks during Divergent Creative Thinking”.

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Parte da capa-
cidade criativa
tem origem
genética. Outra
parte depende
da personali-
dade de cada
pessoa, que
pode mudar
aos poucos.
Mas qualquer
um pode
desenvolver
essa habilidade
com hábitos
específicos.

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parece fazer a ponte entre – o que faz sentido do ponto de vista da-
Cinco dicas para as duas outras redes. rwiniano, já que alguma engenhosidade

ser mais criativo O mais curioso de tudo


é que essas redes neurais
é essencial para sobreviver na natureza.
A verdade é que não seria mesmo
são bastante antagônicas: muito criativo imaginar que há uma
normalmente, quando única área do cérebro dedicada à cria-
Diversifique suas experiências uma está mais ativa, a tividade. “Faz sentido que a criativida-
Não tem como criar ideias novas outra costuma registrar de surja de um esforço de várias áreas
se suas referências são sempre as uma atividade baixíssima. do cérebro trabalhando ao mesmo
mesmas. Estudos mostram que pessoas
Ao divagar, por exemplo, tempo”, diz o neurocientista Adam
mais criativas são mais curiosas e
exploradoras. Dê chances para pessoas, é a rede de modo padrão Green. “Criatividade é feita de pensa-
livros, filmes, culinárias etc. que fujam que está dominando seu mentos e conexões, e o cérebro inteiro
do seu padrão. cérebro, não a de contro- está pensando e fazendo conexões o
le cognitivo. O processo tempo todo.”
criativo, porém, é uma O sono também é importante para
exceção notável. Ele exige ter ideias. Lembra do truque barato
Relaxe trabalho em equipe de vi- de Salvador Dalí e de Thomas Edison
Pesquisas mostram que a capacidade zinhas que normalmente narrado no início do texto? Em 2021,
de pensamento divergente é maior não se bicam. pesquisadores do Instituto do Cérebro
quando estamos felizes e relaxados, Essa é só uma descri- de Paris colocaram a estratégia à prova.
e menor quando estamos tristes, ção simplificada, é claro. No estudo, 103 voluntários precisavam
estressados ou sob pressão. Meditação Há muitas minúcias em resolver um problema de matemática
mindfulness pode ajudar, assim como
hobbies agradáveis.
jogo. O neurocientista que, à primeira vista, parecia bastante
Adam Green, por exem- complicado – mas que, na verdade, po-
plo, identificou uma quar- dia ser solucionado rapidamente caso os
ta partezinha específica da participantes notassem um detalhezi-
cachola que é mais ativa nho na equação. Só 16 pessoas, porém,
Ande por aí durante processos criati- tiveram esse insight e conseguiram re-
Ficar preso no mesmo cubículo todos vos, chamada córtex fron- solver o enigma logo de cara.
os dias mata a imaginação e impede sua topolar. O pesquisador e Os voluntários remanescentes pas-
mente de divagar. Mude de ambiente em sua equipe estimularam saram então por um intervalo curto, no
casos de bloqueio criativo. Prefira uma
caminhada ao ar livre, que, de quebra,
esse naco do cérebro de qual puderam deitar e descansar enquan-
ainda pode ser relaxante. voluntários com corren- to seus cérebros eram monitorados por
tes elétricas (em doses um exame chamado polissonografia. Eles
baixas e seguras, claro) e podiam ou não dormir – mas, se dormis-
notaram que, logo após sem, seriam acordados com o barulho
essa intervenção, a perfor- de uma taça de vinho se quebrando.
Anote mance dos participantes Quando voltaram ao trabalho, aqueles
O momento “eureka!” pode vir a qualquer em testes de pensamentos que tinham entrado nos estágios iniciais
hora, principalmente quando estamos divergentes melhorou. (3) do sono – o estado hipnagógico, entre
divagando sem propósito. É importante Qual é o papel exato desse a vigília e a soneca – foram três vezes
registrar essas ideias, por mais vagas que córtex? Ainda não se sabe. mais eficazes em encontrar a solução da
sejam, para revisitá-las depois. Manter Um outro estudo des- equação do que a parcela do grupo que
um diário ou um bloco de anotações no
cobriu que o sistema de não havia conseguido pegar no sono. (5)
celular ajuda.
recompensa do cérebro Esse e outros estudos sugerem que,
– o mesmo que se ativa de fato, dormir parece ter um papel na
quando você come uma criatividade. Não entendemos exata-
guloseima, por exemplo mente o porquê, mas sabemos que, du-
Tolere erros
– também está envolvido rante o sono, áreas do cérebro que não
Nem sempre uma ideia que parece na criatividade. Em um costumam agir em conjunto passam a
criativa vai dar certo. É do jogo. Punir experimento, quando os se comunicar – e conexões inusitadas
erros – seja os seus próprios ou os de
seus funcionários – vai desestimular voluntários tinham um podem levar a insights inéditos. É como
novas tentativas ousadas no futuro. insight, a atividade no uma divagação, mas no modo turbo.
O melhor é recompensar os acertos córtex orbitofrontal, que
criativos. tem a ver com a regulação Como ser mais criativo
do prazer e a motivação, Agora que entendemos de onde a
Ícones Getty Images.
subia rapidamente. (4) Is- criatividade vem, chegamos à ques-
so parece indicar que ser tão de ouro: dá para aprender a ser
criativo é algo satisfatório criativo? Ou pensar fora da caixa é →

28 super janeiro 2025 Fontes (3) Artigo “Thinking Cap Plus Thinking Zap: tDCS of Frontopolar Cortex Improves Creative Analogical Reasoning and Facilitates Conscious Augmentation
of State Creativity in Verb Generation”; (4) Artigo “An insight-related neural reward signal”; (5) Artigo “Sleep onset is a creative sweet spot”.

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Não dá para
virar um gênio
criativo do dia
para a noite,
mas técnicas
simples, como
relaxar e sair
para uma
caminhada,
comprovada-
mente ajudam
na criação de
ideias originais.

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o oposto. (O pensamento impactos e efeitos colate-
Rotinas rígidas e ambientes convergente, é claro, é afe- rais do uso dessas subs-
tado negativamente pelas tâncias para estimular o
estressantes matam a criatividade. caminhadas, por causa das pensamento divergente.
Uma simples mudança de hábitos distrações da rua.) (9)
Paul Seli, artista, psi-
Diante de experimen-
tos tão variados e tantos
pode cultivar a habilidade. cólogo e pesquisador da resultados inconclusivos,
Universidade Duke, nos você pode estar saindo
EUA, elenca um outro su- desta matéria frustrado,
privilégio de alguns pou- pessoas, filmes e músicas de gêneros pressor clássico da cria- com a sensação de que
cos talentos inatos? variados, culinárias exóticas, progra- tividade: o julgamento. não existe bala de prata
A resposta é um pouco mas diferentes etc. Faz todo sentido Pessoas excessivamente contra o problema. E é
de cada coisa. Algumas que elas também sejam mais criativas, críticas, seja de si mesmas verdade: tornar-se mais
pessoas, é fato, são natu- claro: a bagagem de referências é mui- ou dos outros, também criativo é um projeto de
ralmente mais criativas. E to maior e mais diversa do que a de têm uma aversão maior a longo prazo, que depen-
os geneticistas estão dan- quem segue a mesma rotina sempre novas experiências, justa- de de mudanças no nosso
do alguns passos, ainda e consome os mesmos conteúdos. A mente por causa do medo lazer, na nossa rotina e na
que humildes, na direção chance de fazer conexões menos ób- de falharem e de serem maneira como encaramos
de entender esse com- vias é bem maior. julgadas. Quem tem e julgamos pessoas e situ-
ponente hereditário do A personalidade, é claro, não é algo autocompaixão tende a ações. Só não fique com
pensamento divergente. que se muda na marra, pelo menos não ser mais criativo do que preguiça de tentar. Dá pa-
Um estudo de 2016, por da noite para o dia. Não basta dizer para quem se cobra demais. ra começar hoje mesmo.
exemplo, descobriu que uma pessoa tímida simplesmente sair Essa é uma conclusão É só fazer uma forcinha.
há uma correlação entre por aí falando com estranhos em busca que se repete também em “[Nos nossos testes], a
criatividade e genes asso- de aventuras. Mas é fato que o primeiro estudos do campo da ad- alteração mais forte que
ciados com a dopamina, passo para se tornar mais criativo, pelo ministração e dos negó- observamos na criati-
uma molécula mensageira menos em longo prazo, é tentar também cios: empresas mais cria- vidade foi quando sim-
do sistema nervoso que ser mais aberto a novas experiências. tivas são também aquelas plesmente pedimos para
está associada à motiva- Uma rotina rígida, com pouco espaço que dão mais liberdades as pessoas: ‘Você pode
ção. (6) A hipótese é que para novidades, tende a matar o pen- para seus times experi- tentar pensar mais cria-
esses genes mexem com samento divergente. Evite. mentarem, mesmo que tivamente do que isso?’”,
a conectividade das redes Também no longo prazo é possível isso leve, eventualmen- conta o neurocientista
neurais do cérebro, facili- praticar o que os pesquisadores cha- te, a erros. Punir projetos Adam Green. “Quando
tando a comunicação en- mam de “divagação com propósito”. Ou ousados que falharam só essas pessoas passaram a
tre elas. De qualquer mo- seja: adquirir o hábito de deixar sua aumenta o medo de testar praticar o mindset cria-
do, esse é o aspecto menos mente vagar por aí às vezes, “sonhando caminhos alternativos e tivo propositalmente, a
estudado da criatividade, acordada”, mas ainda assim tentando reforça as mesmas solu- peformance delas tam-
então não dá para cravar. direcionar essa divagação para temas ções já testadas. Um jei- bém passou a melhorar
A habilidade de pensar relevantes para sua vida – trabalho, rela- to melhor de estimular a ao longo do tempo. Pode
fora da caixa também está cionamentos, lazer. Pesquisas mostram criatividade é compensar ser uma conclusão meio
claramente ligada à per- que pessoas que relatam divagar com os acertos. entediante, mas é o que
sonalidade de cada um. frequência também se saem melhor em Outros pesquisadores, melhor funciona.”
Na psicologia contem- testes de criatividade. (7) por sua vez, estudam se a Pois é: a capacidade
porânea, o padrão-ouro Vários estudos já chegaram à con- falta de criatividade tem de usar o raciocínio di-
para esse tipo de análise clusão – talvez um tanto óbvia – de que remédio no sentido literal vergente vem instalada
se baseia em cinco eixos humanos são mais criativos quando da coisa: o farmacêutico. de fábrica em todos nós
(apelidados de big five), estão relaxados e de bom humor, e Um campo promissor é o e foi essencial para nossa
sendo eles: abertura a ex- que o estresse é um dos maiores su- uso de drogas psicodélicas sobrevivência ao longo da
periências, conscienciosi- pressores do pensamento divergente. para turbinar o cérebro – Pré-História e da História
dade, neuroticismo, ama- Especialistas recomendam, em caso de uma estratégia que, como propriamente dita. Assim
bilidade e extroversão. O bloqueios criativos, buscar atividades você sabe, deu um bocado como qualquer outra habi-
primeiro é o que, com- prazerosas e calmantes, ou tentar me- certo para alguns grandes lidade, é preciso praticá-la.
provadamente, está mais ditação mindfulness. (8) artistas da História (alô, Nem todos podemos ser
associado à capacidade de Sair para uma caminhada também aju- Beatles). Porém, essa é Salvador Dalí ou Thomas
pensamento divergente. da, como mostrou um estudo de pesqui- uma área de pesquisa Edison, mas sempre dá pa-
Pessoas mais abertas sadores de Stanford. Além de relaxante, o obviamente delicada do ra se tornar um bocadinho
a experiências são mais ar livre também ajuda a mente a divagar ponto de vista ético e le- mais mente aberta do que
curiosas e experimentam e estimula o pensamento divergente, en- gal, e ainda não há resulta- você foi ontem. Boa sorte
mais em sua vida – novas quanto ficar sentado num cubículo faz dos conclusivos sobre os – e boas ideias. S
Contribuiu para a reportagem: Gerard J. Puccio, professor da Universidade Estadual de Buffalo, nos EUA, e líder do Centro de Imaginação Aplicada.

Fontes (6) Artigo “Dopamine and the Creative Mind: Individual Differences in Creativity Are Predicted by Interactions between Dopamine Genes DAT
30 super janeiro 2025 and COMT”; (7) Artigo “What types of daydreaming predict creativity? Laboratory and experience sampling evidence.”; (8) Artigo “Mindfulness and
creativity: Implications for thinking and learning”; (9) Artigo “Give Your Ideas Some Legs: The Positive Effect of Walking on Creative Thinking”.

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saúde

Texto Maria Clara Rossini


Ilustração Ana Kozuki
Design Juliana Krauss
Edição Bruno Vaiano

missí
trans
Vacinas

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veis e
Em novembro de 2024,
o Brasil parou de aplicar a
vacina oral contra a polio-
mielite (VOP). O imuni-
de se replicar, ainda que
precariamente. Em países
com saneamento básico
deficiente e baixa cober-
60% das doenças infecciosas zante foi substituído por tura vacinal, pessoas não
uma versão injetável, que imunizadas podem entrar
que afetam os humanos come-
é aplicada em crianças de em contato com essa ver-
çam em animais – Covid-19, dois a 15 meses. Hoje, a são capenga do vírus por
ebola e HIV são só uns poucos Organização Mundial da meio do esgoto. Dessa
Saúde recomenda o uso forma, o patógeno con-
exemplos. Por isso, alguns apenas da injeção, o que tinua se multiplicando
cientistas propõem vacinar levou mais de 60 países a no corpo de outros indi-
abolir a única dose indolor víduos, que por sua vez
animais selvagens antes do calendário. Agora, só excretam-no novamente
que seus vírus pulem para com a espetada. no ambiente.
A VOP foi muito im- O problema é que o ví-
humanos. E a única maneira portante, é claro: erradi- rus muda um pouquinho
de fazer isso seria com uma cou a pólio do Brasil, que cada vez que se reproduz.
não registra casos desde Com o passar do tempo,
nova tecnologia: vacinas que 1989, e serviu de inspi- após vários ciclos de con-
se espalham sozinhas. ração para o personagem taminação e excreção, ele
ícone da vacinação nacio- pode recuperar a capaci-
nal, o Zé Gotinha. Mas, dade de causar a doença.
apesar de seus méritos, É o chamado “poliovírus
ela apresentou um efeito circulante derivado da
colateral inesperado. vacina”, ou cVDPV. Os
A VOP é feita com primeiros casos de pólio
uma versão atenuada do causados pelo cVDPV
vírus da poliomielite. O foram identificados nos
patógeno enfraquecido é anos 2000 – e, atualmen-
suficiente para desencade- te, essa é a variante mais
ar uma resposta imuno- prevalente no mundo.
lógica nas crianças, mas É por isso que a OMS
não para causar a doença. recomendou mudar o
Por ser engolido, o vírus método de vacinação. A
necessariamente passa pe- vacina injetável contém
lo sistema digestório. Al- apenas fragmentos do
guns vírions, então, saem vírus da pólio. Ele ge-
no cocô das crianças e vão ra imunidade, mas não
parar no esgoto. consegue se reproduzir
Esses vírions atenua- no organismo. A estraté-
dos mantêm a capacidade gia faz parte dos esforços →

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para erradicar a pólio de Um artigo publicado na desconhecida, a hipó-
vez no mundo todo, já que Science (2) em 2024 debate tese mais disseminada
ainda há casos da doença essa possibilidade. Seria afirma que o paciente
em 48 países. O polioví- uma maneira não só de zero contraiu o patóge-
rus selvagem, raiz, circula eliminar doenças que fa- no de alguma espécie
apenas no Paquistão e no zem mal a diversas espé- selvagem no mercadão
Afeganistão. Os outros 46 cies – algumas em risco de de Wuhan, na China.
países sofrem surtos cau- extinção –, mas também Sabemos também que
sados pelo cVDPV (1). de impedir que esses ví- o sars-cov-1, um outro
Apesar de tudo ter rus se adaptem e passem coronavírus que se espa-
ocorrido por acidente, a a infectar humanos. O que lhou pela Ásia em 2003
gotinha se tornou o ca- é sinônimo de evitar, no – mas causou bem me-
so mais emblemático de futuro, uma nova pan- nos estrago –, infectava
uma tecnologia ainda inci-
piente que hoje é chamada
demia – potencialmente
mais devastadora que a
As vacinas morcegos originalmente.
É uma história co-
de vacina transmissível. A
ideia é simples: soltar ví-
de Covid-19. A seguir,
entenda essa história. transmissíveis mum. O HIV, causador
da aids, evoluiu a partir
rus enfraquecidos de pro-
pósito no meio ambiente. Na natureza poderiam não de um vírus que circu-
lava em chimpanzés. Os
Não com o objetivo de selvagem vírus do ebola também
usá-las em humanos, e O sars-cov-2, vírus res- só eliminar vieram de primatas. Por
sim em outros animais, ponsável pela pandemia sua vez, os vírus da gripe
para imunizar bichinhos
selvagens que certamen-
de Covid-19, muito pro-
vavelmente surgiu em
doenças que aviária (que foi o prová-
vel responsável pela gripe
te não esperariam na fila
da UBS.
um animal. Embora sua
origem exata ainda seja
fazem mal espanhola em 1918) e da
gripe suína (causadora da
a diversas pandemia de 2009, que
popularizou o álcool gel
espécies mas no Brasil) circulam em
aves e porcos, como os
nomes já indicam.
também Geralmente os vírus se
contentam em infectar
impedir que apenas sua espécie hos-
pedeira, mas nem sempre.
esses vírus Os exemplos acima são
casos de spillover, quando
se adaptem um patógeno passa a in-
fectar uma outra espécie,
e passem que ainda não tem imu-
nidade para combater
aquele invasor.
a infectar O spillover ocorre gra-
ças às mutações aleató-
humanos. rias que os vírus adqui-
rem naturalmente ao se
reproduzirem. Algumas
delas podem favorecer
sua disseminação – por
exemplo, quando surge
uma mutação no gene pa-
ra uma proteína que per-
mite ao vírus entrar em
células humanas. Se um
humano incauto entrar
em contato com o ani-
mal que carrega o vírus

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vírus em morcegos da
Mata Atlântica.

Dois métodos
Existem dois possíveis tipos de vacinas que se
espalham sozinhas: as transferíveis e as transmis- Em 2023, a pesquisa-
síveis. Entenda a diferença entre elas abaixo. dora participou de um
congresso internacional
que discutiu o desenvol-
Vacina transferível vimento de vacinas trans-
Os cientistas aplicam a missíveis. Ao imunizar os
vacina na pele do animal, animais, a ideia é cortar o
na forma de um creme. mal pela raiz, combatendo
A vacina se espalha pela um vírus patógeno antes
população por meio de
que ele seja transmitido
comportamentos de
higiene, em que os indiví-
aos humanos.
duos da espécie limpam Existem estratégias pa-
uns aos outros. Apenas ra vacinar animais selva-
Morcegos não Morcegos
os animais que tiveram gens desde os anos 1980.
vacinados vacinados
contato com o primeiro Quando há surtos de raiva
indivíduo se vacinam. em uma floresta próxima
à cidade, por exemplo, é
possível vacinar os bichos
para evitar que o vírus se
Vacina transmissível
O animal é infectado com um
espalhe para humanos e
vírus inofensivo, que carrega animais domésticos. O
um pedacinho de material imunizante é colocado
genético de outro vírus – este, em iscas que são lança-
sim, causador de uma do- das ou espalhadas por
ença. O indivíduo transmite helicópteros. Cada isca
esse vírus-vacina para outros só vacina o animal que a
da espécie. A imunidade se ingere – o que é suficiente
espalha conforme o sistema para controlar um surto
imunológico dos bichos se fa-
local, mas não para erra-
miliariza com esse trechinho
dicar uma doença.
alienígena de genoma.
Uma vacina transmis-
sível se espalharia sozi-
nha, eliminando o desafio
de vacinar vários animais
selvagens individual-
com essa mutação, esse faz com que os animais mente. Ao gerar imuni-
pode ser o marco zero se aproximem dos cen- dade de rebanho, ela pro-
de mais alguns anos de tros urbanos, aumen- tegeria a espécie vacinada
isolamento social. tando as chances de e outras também, sem a
Estima-se que exis- contato conosco. necessidade de atender
tam 10 mil espécies de Cerca de 60% das do- os bichinhos indivi-
vírus em mamíferos enças infecciosas conhe- dualmente, o que seria
com potencial de cau- cidas chegaram aos huma- virtualmente impossível.
sar doenças em huma- nos por meio de animais
nos, mas a maioria deles (4). Para doenças novas e Vírus do bem
circula em animais sel- emergentes, a porcenta- As vacinas transmis-
vagens (3). O problema gem é 75%. “Existe um síveis podem ser feitas
é que, com as mudanças número enorme de vírus, de duas formas: com
climáticas e a degrada- e não tem como a popu- vírus atenuado, como a
ção de biomas, muitas lação ter anticorpos para vacina oral da pólio; ou
espécies têm se deslo- todos eles. Eventualmente com vírus recombinante.
cado de seus habitats acontece de eles passarem A primeira é considera-
naturais em busca de para humanos”, diz Maria da mais arriscada, pois já
comida e de um clima Vitória de Moraes, médica vimos que o vírus pode
mais adequado. Isso veterinária que pesquisa adquirir mutações que o →

Ícones Getty Images. janeiro 2025 super 35

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fazem voltar à forma que
causa a doença.
A segunda opção é
mais segura. Primeiro, é
Etapas de Algumas medidas são necessárias para
desenvolver uma vacina transmissível e evitar

segurança
que ela se torne um novo patógeno ou cause
necessário escolher um um desequilíbrio ecológico. Abaixo, veja os
vírus inofensivo que cir-
passos propostos por pesquisadores da área.
cula apenas em uma es-
pécie – por exemplo, um
herpesvírus específico de
gorilas. Esse se tornaria o
vetor da vacina. Depois,
os cientistas enxertariam Patógeno Vetor
um pedacinho do DNA de
um vírus maléfico dentro
desse vetor. Isso é feito
com técnicas de edição
genética, em laboratório.
No final, temos a mis-
tura de um vírus ino-
fensivo com um pouco
de material genético de
um vírus que causa uma Fase 1 Fase 2
doença. Isso é suficiente O primeiro passo é estudar a ecologia Estudos em laboratório devem avaliar como
do habitat e identificar o vírus que será o o vetor se comporta em células da espécie
para desencadear uma
vetor da vacina. Ele deve infectar apenas hospedeira e em outras espécies, como
resposta imune contra o a espécie-alvo e ter uma boa prevalência humanos. Cientistas inserem no vetor uma
vírus patógeno, mas sem entre os animais da região, o que garantiria parte do material genético do patógeno a ser
deixar o animal doente – o espalhamento do imunizante. combatido, criando um protótipo da vacina.
ou seja, uma vacina. Por
manter as características
do vírus vetor, o imuni-
zante deve se espalhar
entre os indivíduos da
espécie como se fosse ser necessário vacinar os sua transmissibilidade.
uma gripe do bem, que animais mais de uma vez. “O vírus não pode se
protege todo mundo.
Para Scott Nuismer, Mesmo que Mesmo que seja pro-
jetado para ser benéfico,
espalhar para outras es-
pécies. São necessários
professor da Universidade
de Idaho e um dos pesqui- seja projetado um vírus ainda carrega
sua parcela de imprevi-
testes rigorosos para
evitar que a vacina cau-
sadores mais engajados sibilidade. Uma possibi- se efeitos indesejados
no tema, é praticamente para ser lidade é que, ao imuni- tanto na espécie-alvo
impossível que uma va- zar os animais, a vacina quanto em outras”, diz
cina recombinante passe
a transmitir a doença.
benéfico, um abra espaço para outras
infecções, liberando um
Moraes. “E temos que
monitorar mutações,
O que pode acontecer é
o contrário, que o vírus
vírus ainda “nicho” de oportunidade
que antes era ocupado
além de criar planos
de contingência.”
vetor acabe “perdendo”
os genes do patógeno pode evoluir pelo patógeno.
O congresso de 2023
Para conter surtos lo-
cais, uma aposta mais
ao longo do tempo e se
torne ineficaz. É seleção de forma estabeleceu normas de
segurança que devem ser
sensata seria o uso de
vacinas transferíveis, e
natural: se o trecho do seguidas no desenvolvi- não transmissíveis. Nesse
material genético inse- inesperada. mento dessas vacinas. modelo, a vacina é aplica-
rido artificialmente não Uma delas é usar vetores da na pele do animal, na
favorece a reprodução do que já circulam na natu- forma de um creme. Ela
vírus, não há motivo para reza, sem fazer edições se espalha por meio dos
ele estar ali. Por isso, pode genéticas que aumentem hábitos de higiene típicos
Referências (1) Global Polio Eradication Initiative; (2) artigo “Developing transmissible vaccines for animal infections”; (3) artigo “Global estimates of mammalian viral
diversity accounting for host sharing”; (4) artigo “Prioritizing Zoonoses for Global Health Capacity Building—Themes from One Health Zoonotic Disease Workshops in 7
36 super janeiro 2025 Countries, 2014–2016”; (5) artigo “Fluorescent biomarkers demonstrate prospects for spreadable vaccines to control disease transmission in wild bats”.

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Embora não sejam sufi-
cientes para evitar uma
pandemia, elas poderiam
ser empregadas o quan-
to antes para proteger
humanos e animais que
vivem em regiões com
alta prevalência de raiva
e outras zoonoses.

Em busca da vacina
perfeita
A primeira experiência
com vacinas transmis-
síveis intencionais data
da década de 1990. Um
grupo de pesquisadores
do Centro de Pesquisa
em Saúde Animal de
Madrid desenvolveu um
imunizante contra duas
Fase 3 Fase 4 doenças: mixomatose e
Ainda em laboratório, iniciam-se os estudos Testes no mundo real avaliam a transmissão e doença hemorrágica de
em animais para avaliar a segurança, a eficá- a evolução da vacina. Eles devem ser feitos em
coelhos – RHD, na sigla
cia, a transmissibilidade e a possível evolução regiões isoladas geograficamente, para evitar
do vetor viral. Com essas informações, o espalhamento descontrolado da vacina.
em inglês. Esses vírus
a vacina pode ser alterada ou refeita caso Boas escolhas são ilhas ou vales entre não infectam humanos,
seja necessário. cordilheiras de montanhas. mas ambos são altamente
letais para os orelhudos.
(Ironicamente, a pesqui-
sa foi financiada por uma
federação de caçadores
espanhóis. Eles queriam
da espécie, em que um encontraram três colônias imunizar os coelhos para
animal lambe, mexe e se com mais de 200 morce- que pudessem, eles mes-
esfrega no outro. Esse é gos, e passaram um cre- mos, continuar matando
um comportamento ob- me com um biomarcador os animais.)
servado em morcegos e inofensivo nas costas de Na vacina desenvol-
macacos, por exemplo. 20 a 60 animais em cada vida, o vírus atenuado
Dessa forma, a vacina grupo. Aqueles que inge- da mixomatose foi mo-
só seria transferida para riram o produto ficavam dificado para expressar
os animais que entram com o pêlo fluorescente. uma proteína do vírus
em contato com seus Alguns dias depois, pelo do RHD. Dessa forma,
pares que receberam o menos 84% dos mor- um único patógeno es-
creme [veja no infográfi- cegos em duas colônias timulava a produção de
co da página 35]. E esse estavam brilhando (5). anticorpos contra as du-
método, naturalmen- O alcance das vacinas as doenças no organismo
te, é mais eficaz que as transferíveis é menor em dos coelhos. Como o ví-
iscas convencionais. comparação às transmis- rus da mixomatose é bas-
Em uma expedição re- síveis. Mesmo assim, elas tante contagioso, a vacina
alizada em 2017 no Peru, têm potencial de erradicar se espalhava facilmente
pesquisadores verificaram doenças localmente. Além entre os animais.
como uma possível vaci- disso, as vacinas transferí- Até hoje, a vacina trans-
na transferível contra a veis usam uma tecnologia missível contra mixoma-
raiva se espalharia entre que já existe, o que faci- tose e RHD foi a única
morcegos. Os cientistas lita sua implementação. a ser testada no mundo →

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real. A prova de fogo foi frente. Em entrevista a citomegalovírus especí-
feita na Isla del Aire, uma uma rede de rádio ale- fico de roedores como
ilhota de 34 hectares lo- mã, o pesquisador Juan vetor. Após a aplicação,
calizada na costa sudeste Bárcena, que participou os animais até desenvol-
de Menorca. O pedaço de dos estudos, disse que veram anticorpos contra
terra tem uma população um segundo experimen- o vírus indesejado, mas
total de 300 coelhos. A to foi feito no continente. a transmissibilidade do
vacina foi aplicada em 76 Os cientistas tentaram vetor não foi avaliada (7).
deles, que logo desenvol- recriar as condições na- Essa experiência, no
veram anticorpos contra turais em uma fazenda, entanto, serviu de ins-
as doenças. Metade da como a presença de pre- piração para um outro
população não inoculada dadores. Só que dessa vez imunizante. Em 2015,
também ficou imune, gra- a vacina não se espalhou pesquisadores da Uni-
ças à transmissibilidade tão bem, e o financiamen- versidade de Plymouth
da vacina. to acabou cortado. desenvolveram uma va-
Um artigo publicado em Desde então, pouquís- cina contra ebola usando
2001, que descreve o teste simos experimentos con- um citomegalovírus (8).
(6), relata que não houve clusivos ocorreram. No O ebola é extremamente
efeitos indesejados graves. início dos anos 2000, por letal para humanos e ou-
No entanto, os autores exemplo, pesquisadores tros primatas, com uma
ressaltam a importância da Universidade de Ne- taxa de mortalidade que
de realizar os primeiros vada desenvolveram varia de 25% a 90%, então
estudos em ambientes uma vacina contra um a imunização vem bem
isolados geograficamente, hantavírus usando um a calhar.
como ilhas ou cordilhei-
ras de montanhas. Isso ga-
rante que a vacina possa
ser controlada caso algo
dê errado.
Além disso, os animais
desconhecem fronteiras.
Uma vacina aplicada em
coelhos da Espanha po-
deria facilmente aparecer
em outro país. “A ideia
é justamente que ela
se espalhe. Então seria
preciso ter algum tipo
de acordo internacional
para evitar maiores pro-
blemas”, diz Moraes. Na
Austrália, por exemplo,
os coelhos se tornaram
uma praga desde que
foram introduzidos no
bioma, desbalanceando
a flora e a fauna nativas.
O objetivo por lá é con-
trolar a população de co-
elhos, e não aumentá-la
– o contrário do que pro-
põe a vacina espanhola.
De toda forma, a vacina
dos coelhos não foi para

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exclusivamente após o
contato com animais.
“Outras possibilidades
incluem doenças zoonóti-
cas como o vírus Marburg
[parente do ebola] e o vírus
Nipah”, diz Nuismer. Co-
mo a tecnologia ainda está
em sua fase inicial, os pes-
quisadores focam em do-
enças bem documentadas
que já são um problema
para os humanos. “Usar
vacinas transmissíveis
para atingir novos vírus
que poderiam causar uma
futura pandemia é desa-
Existem fiador, e não é um dos
objetivos imediatos.”
duas vacinas Você pode ter se per-
guntado se eventual-
transmissíveis mente surgirão vacinas
transmissíveis aplicadas

em em humanos. Afinal, o
combate a doenças infec-
ciosas é um dos maiores
desenvolvimento: desafios da saúde global,
e já temos imunizantes
Os pesquisadores britâ
nicos acreditam que o
No experimento realizado
em 2015, foi exatamente
uma contra o para muitas delas. Trans-
mitir um vírus protetor
citomegalovírus seja o
vetor ideal para as vaci-
isso que aconteceu: os
ratinhos imunizados ge-
vírus de Lassa, seria uma maneira eficaz
e barata de atingir alta
nas transmissíveis: ele é
benigno, altamente infec-
raram anticorpos apenas
contra o ebola. Leram a que circula em cobertura vacinal.
Mas essa ideia está fora
cioso, e espécie-específi-
co. Um citomegalovírus
mensagem sem matar
o mensageiro. roedores, e outra de cogitação para espe-
cialistas da área. Não só
que infecta chimpanzés Atualmente existem por ser uma violação bio-
não passa para gorilas, dois projetos de vacinas contra a raiva ética, visto que a trans-
e vice-versa. transmissíveis em desen- missibilidade impede o
Além disso, ele pode
infectar o hospedeiro
volvimento, ambas na In-
glaterra. Na Universidade
em morcegos. consentimento indivi-
dual de se vacinar. Mas
mais de uma vez. Isso de Plymouth, pesquisa- também porque existem
é importante porque a dores trabalham em uma pessoas com contraindi-
maior parte dos animais contra o vírus de Lassa, cações à vacinação, como
(inclusive humanos) já foi que circula em roedores e os imunossuprimidos.
infectada por citomegalo- causa a febre de Lassa em Para eles, a possibilida-
vírus no passado. Se todos humanos. Já a Universi- de de pegar a vacina por
tivessem imunidade a ele, dade de Glasgow desen- meio do ar ou contato
a vacina não se espalha- volve um imunizante físico seria um risco
ria. É importante que ela contra a raiva projetado constante. O plano mais
gere anticorpos apenas para circular entre mor- viável é mesmo prevenir
contra o antígeno que cegos. Ambas são doen- em vez de remediar: pôr
está dentro do vetor, e ças bem conhecidas que fim aos vírus antes que
não contra o vetor em si. afetam humanos quase eles cheguem a nós. S
Referências (6) artigo “First field trial of a transmissible recombinant vaccine against myxomatosis and rabbit
hemorrhagic disease”; (7) artigo “Generation of a Recombinant Cytomegalovirus for Expression of a Hantavirus
Glycoprotein”; (8) artigo “A cytomegalovirus-based vaccine provides long-lasting protection against lethal
Ebola virus challenge after a single dose”. Fontes Akira Homma, assessor científico sênior de Bio-Manguinhos.
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ciência

A
fantástica

FÁBRICA de Texto Manuela Mourão

cérebros
Design Caroline Aranha
Edição Bruno Vaiano

40 super janeiro 2025 Fotos Divulgação.

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Fomos a Campinas,
no interior de São
Paulo, conhecer
a Ilum: uma
universidade
interdisciplinar
integral,
inteiramente
gratuita e mais
concorrida que o
curso de Medicina
da USP – e que
quer formar a
próxima geração
de pesquisadores
do Brasil em
laboratórios
de ponta.

s
ete dias. Esse foi o no interior de São Paulo – onde fica o (CNPEM), é basicamente
tempo que Gabriela curso de graduação mais cabeçudo da uma versão real da Man-
Frajtag teve para mudar América Latina. são X do Prof. Xavier –
completamente de vida. Enquanto isso, Mayllon Emmanoel personagem da Marvel
Ela lembra que tudo co- Silva, um alagoano que recebeu o mes- que dirige a Escola para
meçou em 2023, durante mo e-mail, se concentrava em montar Jovens Superdotados,
um date em um boliche no Rio de Janei- um PowerPoint ao melhor estilo Deltan onde estudaram Ciclo-
ro, sua cidade natal. Mais ou menos no Dallagnol para convencer seus pais de pe, Homem de Gelo e a
meio do encontro, alguns strikes já na que a mudança de cidade, com seus Garota Marvel. O Xavier
conta, chegou a cartinha de Hogwarts. recém-completados 18 anos, era uma da vida real foi o físico
Ou melhor: o e-mail. De toda a exten- decisão razoável. Ele também queria Rogério Cerqueira Leite,
são do recado, apenas algumas palavras frequentar a Ilum, que foi inaugurada que idealizou a escola e
ficaram registradas em sua memória: em 2021 e formou sua primeira turma pôde vê-la sair do pa-
“bem-vinda à Ilum”. Gabriela tinha agora, no final de 2024. pel antes de morrer, aos
só uma semana para aceitar a vaga e A Ilum, que é parte do Centro Nacio- 93 anos, em dezembro
se mudar para a cidade de Campinas, nal de Pesquisa em Energia e Materiais de 2024.

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A telepatia ainda é um Também há dois labo- Nada de vestibular
obstáculo a ser superado ratórios: um seco, desti- O processo seletivo, único no Brasil,
por esses X-Men: por ora, nado à caracterização de tem poucas semelhanças com o ingresso
os alunos se contentam materiais, e um úmido, às universidades comuns, públicas ou
com o único curso que para trabalhos com re- Nanoes- privadas. Ele é dividido em três partes:
a instituição oferece, o agentes e soluções. Os pectrofo- a primeira é uma demonstração de inte-
multidisciplinar de Ci- nomes dos equipamen- tômetro e resse, na qual o candidato escreve uma
microscópio
ência, Tecnologia e Ino- tos encontrados nessas carta explicando por que tem um perfil
de tune-
vação. Com três anos de salas ajudam a pintar a condizente com o da Ilum. O segundo
lamento
duração, aulas em período cena, ainda que o ser hu- quântico:
passo é fazer o Enem e, claro, pontu-
integral e um currículo mano médio precise de lidar com ar bem. Medalhas em olimpíadas de
que abrange ciências na- um glossário para enten- equipa- matemática, física e química também
turais e humanas, o obje- der o inventário a seguir: mentos contam pontos.
tivo ali é formar uma elite uma centrífuga refrige- de nomes A última etapa consiste em entrevis-
científica precoce, capaz rada, uma cabine de se- simpáticos tas individuais com os 250 candidatos
de transitar sem dificul- gurança biológica, um (rs) é parte mais bem avaliados nas duas fases an-
dade entre diferentes nanoespectrofotômetro da rotina teriores. As conversas são gravadas e
áreas do conhecimento. e alguns microscópios de de aulas analisadas por um comitê de seleção,
práticas.
O bacharelado é 100% última geração (de força que dá o veredicto final. Trata-se de um
gratuito; a Ilum opera atômica, de tunelamento processo muito mais certeiro e humano
sem fins lucrativos. O de elétrons, microscó- do que um vestibular tradicional, mas
0800 não se limita à pios ópticos tradicionais, também custoso e difícil de implantar
mensalidade: eles dão microscópios com luz em larga escala – é de se imaginar como
moradia, alimentação, ultravioleta etc.). algo assim funcionaria na Universidade
laptop para usar nas
aulas e transporte até a
universidade em si e às
demais instalações do
CNPEM. Também cus-
teiam cursos de inglês,
consultas com psicólogo
e até a primeira viagem
dos alunos a Campinas.
As instalações ficam
no bairro afastado da
Fazenda Santa Cândida,
em um galpão que, por
fora, mantém todas as ca-
racterísticas típicas de…
um galpão. Uma certa au-
sência de arquitetura le-
va o visitante a imaginar
apenas algumas caixas e
inventários lá dentro.
Ledo engano. O que
se vê são salas de aula
com paredes de vidro
de ponta a ponta e mesas
agrupadas, o que permite
que qualquer pessoa ob-
serve os estudantes em
aula o tempo todo – e
que os próprios estu-
dantes se comuniquem
facilmente entre si. A
ideia é propiciar a inte-
ração, não o silêncio.

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de São Paulo (USP), que das proteínas, equações trons de quarta geração
tem 60 mil alunos só diferenciais, história da – o tipo mais avançado
na graduação.
Os alunos passam os
três anos do bacharelado
O curso dura ciência etc. É um sopão
anabolizado de todas as
áreas, que mostra onde
que há no mundo –, que
é capaz de gerar visua-
lizações tridimensionais
já com um pé na pesqui-
sa. E o diploma já os qua-
lifica para ingressarem
apenas três estão as fronteiras e os
limites da nossa compre-
ensão do mundo – e como
de altíssima definição
de coisas tão variadas
quanto bactérias e poros
diretamente em um dou-
torado. Tudo para que es-
ses brasileiros comecem
anos, com é possível expandi-los.
“São matérias bem
diversificadas, mas com
em rochas petrolíferas.
Outro é o futuro Órion,
um laboratório de máxi-
a trabalhar o mais cedo
possível, ainda na faixa
etária ideal para fazer
uma grade o tempo você percebe
a conexão entre elas e
como podem conversar
ma contenção biológica
que será conectado ao
Sirius (o que permitirá,
contribuições acadêmicas
relevantes (cientistas são
um pouco como atletas:
horária ou ser usadas como fer-
ramenta”, explica a aluna
Raquel Vianna, vinda do
por exemplo, observar
patógenos perigosos
em escala molecular). A
a maior parte dos vence-
dores de Prêmios Nobel
fez as descobertas que
intensa. E os Paraná. “A natureza não
se divide conforme disci-
plinas – compreendê-la é
conclusão da obra está
prevista para 2026.
O CNPEM, fundado
mudaram suas carreiras
entre os 25 e os 35 anos).
Linguagem Matemá-
formandos resultado de uma combi-
nação de todas elas.”
A integração com o
em 1997, não é um centro
de pesquisa comum. Tra-
ta-se de uma Organização
tica, Ciência de Dados,
Ciências da Matéria,
Ciências da Vida e Hu-
saem CNPEM não é apenas
burocrática. Os alunos
passam uma parte sig-
Social (OS) vinculada ao
Ministério da Ciência,
Tecnologia e Inovação
manidades são os cinco
pilares de conhecimento
da grade curricular da
prontos para nificativa de sua rotina
universitária por lá – um
dia da semana é dedicado
(MCTI). Isso significa que,
embora seja uma entidade
privada, ela não tem fins
Ilum, que consiste em 14
disciplinas por semestre.
Um dia normal por lá tem
começar o exclusivamente a ativida-
des no Centro. A ideia é
que eles já saiam do curso
lucrativos e se sustenta
com recursos públicos.
O resultado é que eles
aulas sobre aprendizado
de máquina, fundamen-
tos da mecânica quân-
doutorado. prontos para mexer nos
“brinquedões” de lá.
Um deles é o Sirius,
têm toda a flexibilidade
administrativa de uma
empresa comum – como
tica, estrutura e função um acelerador de elé- a contratação CLT em vez

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de concursos públicos –, jovens promissores dire- quase ninguém desiste
mas podem custear inicia-
tivas como a Ilum, o Sirius
ou o Órion sem a obriga-
São 97,3 tamente do ensino médio,
não existe uma idade li-
mite para se inscrever
do curso. De acordo com
Fazzio, “começamos com
uma turma de 40 alunos,

candidatos
ção de gerar dinheiro com no processo seletivo. Por dos quais 35 estão se for-
elas. Essa combinação pôs exemplo: Ana Luiza Loss, mando neste ano e apenas
o órgão na vanguarda da uma aluna que veio de dois estão atrasados”. A

por vaga, e a
pesquisa nacional. Rondônia, contou para a taxa de evasão é de apenas
Super que a Ilum não foi 10%, contra os 54% de um
A vida dos sua primeira faculdade. curso como matemática
iluminados Ela passou alguns anos aplicada e computacional
Piadinhas com X-Men à
parte, falar em genialida-
escola aceita experimentando cursos:
fez primeiro mecânica de
na USP (o dado é de 2023).
Outro ponto fora da curva
de inata é um erro. Ainda aviões, e depois tentou fí- é a variedade de pessoas e
que os alunos seleciona-
dos para a Ilum tenham
apenas 40 sica biomolecular na USP
de São Carlos.
origens: a turma de Ana
Luiza, por exemplo, tem
alguma facilidade natural A Ilum abre apenas alunos de 24 estados do
com a vida acadêmica, o
traço de personalidade
novos alunos 40 vagas por ano. Para
a turma de 2024, a dis-
País. 50% das vagas vão
obrigatoriamente para
mais importante para puta foi entre 3,9 mil alunos de escolas públicas.
conseguir uma vaga por
lá é a vontade de apren-
por ano. inscritos, o que dá 97,3
candidatos por vaga –
Essa fidelidade toda
também é crédito de uma
der sobre tudo – e a força para fins de comparação, abordagem mais huma-
para aguentar o tranco de
uma grade curricular tão O processo são 96,5 para Medicina
na USP. Não existe pre-
nizada que as graduações
comuns (especialmente
variada. “A receita para visão de crescimento. as de exatas). Apesar das
ser cientista é esforço,
resiliência, criatividade, seletivo Adalberto Fazzio, o di-
retor, explica que o nú-
40 horas de aula sema-
nais – e da fatia razoá-
muita, muita curiosida- mero modesto de alunos vel do tempo livre que
de e uma boa pitada de
sorte e oportunidades”, tem até permite atendê-los com
a atenção necessária. Até
os estudos inevitavel-
mente vão ocupar –, há
diz Gabriela Frajtag (a o nome de alguns pais os poucas provas nos mol-
do boliche).
Prova disso é que,
ainda que a Ilum pesque
entrevista. docentes sabem.
O resultado dessa per-
sonalização toda é que
des clássicos, e as notas
são atribuídas com base
em participação em aula,

44 super janeiro 2025

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Para os alunos que
ainda não se sentem pre-
parados para cair direto
no doutorado ou buscam
caminhos profissionais
fora da pesquisa, a Ilum
oferece a possibilidade de
se matricular, ao final do
curso, nos anos finais de
graduação de cursos de
exatas na Universidade
Federal do ABC – que,
embora opere em mol-
des mais tradicionais
que a Ilum, ainda tem
uma abordagem inter-
disciplinar que a difere
das demais federais.
Cursos desse tipo são
uma tendência no Brasil.
Algo semelhante já está
acontecendo no Rio de
Janeiro por meio do IM-
PA Tech, uma graduação
recém-inaugurada pelo
Instituto de Matemática
Pura e Aplicada com o
mesmo perfil da Ilum.
Para não falar no pre-
cursor de ambos: o len-
dário curso de Ciências
Moleculares da USP, que
só é acessível por meio
de um processo seleti-
relatórios de experimen- jogos de futebol e vôlei. vo interno, entre alunos
tos nos laboratórios, re- Os trabalhos de conclusão de curso, já matriculados.
sultados de projetos em que rolam em grupos de quatro estu- Iniciativas assim estão
grupo e outros critérios dantes, são projetos de pesquisa cien- alinhadas com o que es-
que têm muito mais a As avalia- tífica supervisionados por acadêmicos pecialistas e instituições
ver com a rotina real de ções são hu- mais seniores, e os alunos devem sem- renomadas pregam como
um cientista. manizadas pre se preocupar com os desdobramen- ideal na formação de pes-
e não giram
Ninguém se priva de tos de suas descobertas para o mundo quisadores – e prometem
em torno
bater uma bolinha ou de provas. além das paredes da Ilum. Responder nos dar uma geração de
tomar um goró, diga- E os alunos a perguntas como ‘“por que este tema brasileiros com um quê
se. O aluno Isaque Ju- não são é importante para a sociedade?” e “por de polímatas, capazes de
nior Silva explica que as crânios sem que desenvolver este projeto no Brasil?” ir além da força bruta das
vida social:
agremiações estudantis é essencial na apresentação final. equações e pensar em sin-
ninguém
da Ilum funcionam co- se priva de Gabriela explica que “a partir do tonia com as necessidades
mo as de qualquer ou- bater uma 3° semestre temos uma matéria cha- do País e do planeta. Dian-
tra faculdade. O Centro bolinha ou mada Iniciação à Pesquisa, em que te das mudanças climáti-
Atlético Acadêmico: tomar um trabalhamos por um semestre desen- cas, do problema crônico
goró.
Pesquisa e Ensino de Ci- volvendo algum projeto em um dos do negacionismo cientí-
ências (CAAPEC) é res- Laboratórios Nacionais localizados no fico e de tantos políticos
ponsável por organizar complexo do CNPEM”. Há o LNBio, interessados no desmonte
as integrações entre as de biociências, o LNBr, de biorreno- da ciência nacional, não dá
turmas – seja na forma váveis, o LNNano, de nanotecnologia para negar: eles vêm em
de calouradas, saraus ou e, é claro, o próprio Sirius. boa hora. S

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história

Como o
Império Romano
realmente acabou
As invasões bárbaras e os
conflitos da elite romana
foram importantes. Mas
outros elementos podem
ter sido igualmente fortes:
as mudanças climáticas e,
com elas, uma sucessão de
epidemias e crises agrícolas.
Conheça as novas descobertas
que estão reescrevendo
a história de Roma.

Texto Reinaldo José Lopes


Edição Bruno Garattoni
Ilustração Ananda Ferreira
Design Luana Pillmann

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E
Estamos no ano 166 d.C. O exér-
cito romano, sob liderança do senador
Avídio Cássio, cerca a rica cidade de
Selêucia (na região da atual Bagdá, no
Iraque). Selêucia rapidamente se rende
ante o poderio de Roma, mas os homens
de Cássio iniciam um saque de grandes
proporções mesmo assim. Um dos sol-
dados invade o templo do deus Apolo e
abre uma antiga arca. Reza a lenda que
esse ato de sacrilégio fez com que saísse
do baú um vapor pestilento, o qual “po-
luía tudo com contágio e morte, desde
as fronteiras da Pérsia até o rio Reno
e a Gália [França]”, segundo cronistas
da época. Assim teria começado a Peste
Antonina – provavelmente uma pan-
demia de varíola, que correu o mundo
antigo e teria exterminado 7 milhões
de pessoas, ou 10% da população do
Império Romano, na época o Estado
mais populoso e poderoso do planeta.
Jogar a culpa da tragédia no desres-
peito a Apolo casava bem com a cultura
greco-romana. Uma epidemia devasta-
dora, causada por um sacrilégio contra
esse mesmo deus, é justamente a cena
de abertura do mais famoso “best-sel-
ler” dessa cultura, a Ilíada, poema épico
atribuído ao grego Homero. Mas essa
associação não é inteiramente fictícia; ela
pode ter base concreta. Novos estudos
sobre os micróbios e o clima do passado
têm revelado que os romanos tiveram de
enfrentar forças ainda mais insidiosas e
destrutivas que os deuses do Olimpo.
Além dessa primeira pandemia, que
realmente ocorreu, o Império Romano so-
freu com mudanças climáticas e, ironica-
mente, foi vítima de seu próprio sucesso,
que o levara às regiões mais distantes da
Ásia e da África – mas acabou tornando
Roma vulnerável a uma sucessão de gol-
pes do destino, que levaram seu poderio
à fragmentação e ao desaparecimento.

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A prosperidade Esse período foi tão
bom que recebeu a desig-
nação oficial de “ótimo”.
agrícola de Roma Para ser mais exato, o de
Ótimo Climático Roma-

era baseada em
no (a palavra, nesse con-
texto, tem o sentido de
“condições ideais”). Em-

um clima quente bora a Itália e as regiões


vizinhas da bacia do mar
Mediterrâneo, que sem-
e úmido. Mas ele pre foram o núcleo mais
importante da civilização
romana, sejam notórias
não duraria pela relativa instabilidade
climática, com presença

para sempre. intermitente de grandes


secas e invernos severos,
essa fase “ótima” se carac-
terizou pela constância
de chuvas relativamente
abundantes, e temperatu-
Essa nova visão sobre o declínio ras um pouco mais altas que a média
e a queda do Império Romano não dos milênios anteriores.
descarta, é claro, a relevância dos Um estudo recente (1), assinado pela
inimigos externos (principalmente os geóloga Karin Zonneveld, da Universi-
chamados bárbaros, em geral tribos dade de Bremen, e pelo historiador Kyle
guerreiras que falavam línguas germâ- Harper, da Universidade de Oklahoma,
nicas, como as ancestrais do alemão e reconstruiu as condições climáticas
do inglês de hoje). Também não ignora desse período e dos séculos que o se- O estudo concluiu
as picuinhas e os duelos mortais que guiram. Os pesquisadores conseguiram que o Ótimo Climático
devastavam a elite romana de vez em fazer isso com alta precisão: sua mar- Romano manteve o tem-
quando, enfraquecendo ainda mais o gem de erro é de apenas três anos. po relativamente úmido
domínio dos Césares. Esses fatores Eles analisaram sedimentos do e quente na região entre
foram importantes – e podem ter si- fundo do Mediterrâneo, obtidos na mais ou menos 200 a.C.
do alimentados pelos demais, criando região de Tarento, no sul da Itália. Os e 130 d.C. É justamente a
uma espiral de desastres. sedimentos contêm restos de dino- fase em que os exércitos
Mas a nova abordagem histórica de flagelados, um grupo de organismos romanos foram conquis-
Roma admite a profunda dependência unicelulares com grande diversidade tando cada vez mais terri-
que as civilizações antigas, mesmo as de espécies, cada uma adaptada a dife- tórios Mediterrâneo afora,
mais sofisticadas, tinham em relação rentes condições de temperatura e nu- da Espanha à Ásia Menor
ao seu ambiente natural – algo que, trientes na água do mar. Bastou datar (atual Turquia). A supre-

200
num mundo de emergência climática as camadas de sedimentos e combinar macia deles se tornou tão
e pandemias como o nosso, se torna a datação com as idas e vindas das dife- incontestável que eles pas-
cada vez mais familiar. rentes espécies de dinoflagelados para saram a chamar a bacia de
saber o que estava acontecendo com Mare Nostrum: “nosso mar”.
Do ótimo ao terrível o clima italiano ao longo dos séculos. Esse processo come-
Os desastres ocorridos a partir de 166 çou quando Roma ainda
d.C. talvez tenham sido ainda mais era uma república, com
dolorosos porque vieram na esteira de eleições e algumas formas
alguns séculos de bonança, durante os modestas de participação
quais as divindades pareciam ter aben- popular no governo, e che-
çoado as vastas terras regidas por Roma. gou perto do auge quando
De fato, de acordo com vários estudos o sobrinho-neto e herdei-
paleoclimatológicos (que reconstroem ro do general Júlio César
o clima do passado), os romanos ex- tomou para si o poder
a.C. foi o ano em que o Ótimo
pandiram e consolidaram seu domínio supremo, assumindo o
Climático Romano se iniciou.
numa época extremamente favorável título de Augusto (algo
Ele acabou por volta de 130 a.C.
para a agricultura. como “majestoso”).

Fonte (1) “Climate change, society, and pandemic disease in Roman


48 super janeiro 2025 Italy between 200 BCE and 600 CE”, K Zonneveld e outros, 2024.

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A dinastia iniciada por Augusto, o
primeiro imperador romano propria-
mente dito, não durou muito: acabou
apenas cinco décadas depois da morte
dele em 14 d.C. (quando Jesus de Nazaré
ainda era apenas um jovem carpinteiro).
Mas iniciou uma tradição autocrática
forte, que se mantinha incontestável
quando o baú zicado de Apolo supos-
tamente foi aberto em Selêucia.
Na época os domínios de Roma,
que iam da fronteira entre a Inglaterra
e a Escócia até a Síria, eram gover-
nados conjuntamente por uma dupla
de imperadores, Lúcio Vero e Marco
Aurélio, ambos filhos adotivos do
chefão anterior, Antonino Pio (daí o
nome “Peste Antonina”).
A vida dentro dessas fronteiras cos-
tumava ser próspera e pacífica. Rara-
mente algum inimigo ousava desafiar o
imperador para valer. E até camponeses
livres de províncias distantes, como a
Bretanha (basicamente o território inglês
e galês de hoje), conseguiam ter acesso
a bens de consumo, como um jogo de
jantar italiano feito com cerâmica de
primeira, relata o arqueólogo britânico
Bryan Ward-Perkins, da Universidade
de Oxford. É um indício de que esse era
um mundo “globalizado”, conectado pelo
comércio de longa distância.
Para alcançar esse sucesso, é claro
que Roma podia contar com exércitos
profissionais muito bem organizados,
estradas planejadas com esmero e uma
engenharia civil de dar inveja a mui-
tas prefeituras por aí. Mas a verdadeira
base do mundo romano, assim como
a de quase qualquer outra civilização
antiga, era a produtividade agrícola. E
as condições climáticas ideais até 130
d.C., junto com o crescimento de uma
espécie de “agronegócio” (turbinado por
trabalho escravo em grandes fazendas),
favoreceram uma explosão do cultivo de
cereais, em especial o trigo e a cevada.
Era o suficiente para abastecer com
regularidade centenas de milhares de
soldados estacionados nas fronteiras do
Império, ou para oferecer de graça trigo
(mais tarde, pão, azeite e até carne de
porco) a cerca de 200 mil moradores da
“região metropolitana” de Roma.
Um feito realmente impressionante.
Mas as lavouras da Antiguidade eram
muito mais frágeis, com menos recursos
tecnológicos, do que a agricultura do
século 21. Além disso, os romanos se

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transformaram numa superpotência
dos cereais incorporando terras cada
vez mais marginais (como encostas de
morros na Itália, ou a beirada do deser-
to no Oriente Médio) em suas zonas
cultivadas. “Dia a dia eles empurram
as florestas, fazendo-as recuar mon-
tanha acima e ceder seu lugar à terra
cultivada”, escreveu o poeta Lucrécio,
que morreu por volta do ano 55 a.C.
O problema é que essas são justa-
mente as áreas mais vulneráveis a alte-
rações no clima. Bastava esfriar alguns
graus ou deixar de chover alguns dias
por ano – e, no caso do clima do Me-
diterrâneo, não é incomum que essas
coisas venham juntas – para que as
plantações “de fronteira” se tornassem
inviáveis, e até as áreas mais propícias
para o cultivo passassem a produzir
bem menos. Em suma, o lado agrícola
do império tinha bases frágeis.
Essa é a primeira parte do problema.
A segunda, relata o historiador ameri-
cano Kyle Harper (o mesmo do estudo
citado no começo deste texto) em seu
livro The Fate of Rome (“A Sina de Roma”,
não lançado no Brasil), foi consequên-
cia do próprio sucesso romano. Com
a enorme expansão do império, e sua
inserção em rotas comerciais de longa
distância, o povo de Roma passou a es-
tar em contato direto ou indireto com
quase todas as regiões do Velho Mundo.
Os navios de mercadores romanos
desembarcavam na Índia e na Etiópia
todos os anos, por exemplo. Em ambos
os lugares, arqueólogos já encontra-
ram muitas moedas cunhadas pelos
Césares. Na época de Marco Aurélio, a
corte imperial da China recebeu emis-
sários de Roma (os textos chineses
apelidaram o imperador ocidental de
“An Tun”, adaptando a última parte de
seu nome completo em latim, Marcus
Aurelius Antoninus).
E aquela mania de botar gladiadores
para brigar com leões, girafas e rino-
cerontes no Coliseu era alimentada
por contatos comerciais com a África
subsaarariana, que eram intermediados
pela Núbia (mais ou menos o atual Su-
dão) e pelos funcionários provinciais
do Egito - dominado por Roma desde
os tempos de Augusto.
Tudo isso significava um intenso e
constante deslocamento de bens, pesso-
as – e micróbios. Doenças infecciosas de
três continentes passaram a ter imensa

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vindo de mamíferos
africanos, chegou ao A expansão
império. O estrago da
pancada epidemiológica
teria sido multiplicado
do império
trouxe consigo
pela dificuldade de levar
recursos às populações
afetadas, o que impulsio-
nou a mortalidade. Era
a primeira pandemia da três epidemias:
época imperial. Mas não
seria a última.
as pestes de An-
De Cipriano
aos hunos
A Peste Antonina durou
tonino, Cipriano
até o ano 180 d.C. Após
uma década e meia de
horror, seus efeitos mais
e Justiniano.
graves começaram a se
diluir, provavelmente
porque quem sobreviveu
ganhou imunidade à doença. A dinastia parente do atual vírus Ebola, por causa
de Marco Aurélio chegou ao fim, mas da presença de sintomas hemorrágicos
uma nova família de imperadores con- severos. “Um fogo que se origina na
seguiu se instalar no poder sem muitas medula dos ossos fermenta até causar
mudanças na maneira como o império feridas na goela; os olhos, injetados de
costumava ser governado. Não foi exa- sangue, estão em chamas; em alguns
tamente fácil, mas as instituições roma- casos, os pés ou outras partes dos mem-
nas aguentaram esse primeiro tranco. bros são destruídos pelo contágio da
A coisa mudou significativamente de doença putrefata”, descreve Cipriano
figura, porém, no século seguinte. Mais em um de seus sermões.
uma vez, os sedimentos marinhos de A Peste de Cipriano durou até 262
Tarento registram uma queda abrup- d.C., e causou enorme destruição. Não
ta da temperatura e da umidade, que há dados confiáveis sobre o número
facilidade para seguir to- começa por volta do ano 245 d.C. e se de vítimas, mas estima-se que, no pior
dos os caminhos que le- prolonga por pelo menos três décadas. momento da epidemia, ela tenha matado
vavam a Roma. Do ponto Aí, no ano 249, surge outra pandemia 5.000 pessoas por dia em Roma (teria
de vista epidemiológico, o que devasta a população imperial. superado, por exemplo, o pior momento
Império Romano era uma A doença ficou conhecida como Pes- da Covid-19 no Brasil, que chegou a
bomba-relógio. Ela ex- te de Cipriano, por causa do santo de 4.211 óbitos por dia).
plodiu pela primeira vez mesmo nome, então bispo da cidade de A partir daí, o próprio corpo do Im-
com a Peste Antonina. Cartago (atual Tunísia). Cipriano foi um pério Romano parecia estar se desfa-
E isso aconteceu no dos responsáveis por registrar a che- zendo. Iniciou-se a chamada Crise do

5.000
pior momento possível. A gada da moléstia. Há grandes dúvidas Terceiro Século, na qual dezenas de
Peste Antonina estourou sobre o causador da pandemia, mas uma imperadores se revezaram no trono em
poucas décadas após o fi- possibilidade é que se tratasse de um reinados de curta duração. O território
nal do Ótimo Climático imperial se fragmentou em três partes:
Romano, numa fase que, o Império Gálico, que englobava a Bre-
segundo o estudo paleo- tanha e a Gália; o Império Palmireno,
climático de Harper, foi que correspondia ao Oriente Médio
caracterizada por diver- romano, incluindo o Egito; e um res-
sos pulsos de resfriamen- to dos domínios originais, ainda com
to e diminuição da chuva. sede na Itália.
A sociedade romana já Em mais uma correlação bastante
enfrentava uma crise na sugestiva, a Crise do Terceiro Século
foi o número de mortes diárias no
produção e distribuição só começa a se resolver mais ou menos
pior momento da Peste de Cipriano
de alimentos quando o na mesma época (a década de 270 d.C.)
– que durou de 249 a 262 d.C.
vírus da varíola, talvez em que o clima vai ficando mais ameno

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Mudanças cli- preparavam outra cilada
para o império.
passaram a ser os reis
bárbaros, e o Império
Há indícios de que, por Romano do Ocidente
máticas na Ásia volta de 350 d.C., condi-
ções climáticas desfavo-
deixou de existir em 476
d.C., quando um desses

empurraram hu-
ráveis na Ásia Central senhores da guerra de-
empurraram um grupo pôs o último imperador,
de ferozes cavaleiros para Rômulo Augústulo.

nos e godos sobre o oeste. Conhecidos co-


mo hunos e descritos por O contra-ataque
Harper como “refugiados A metade oriental do
Roma – causan- climáticos armados e a
cavalo”, eles se lançaram
império, com sede em
Constantinopla (atual Is-
contra os godos, grupos tambul), resistiu melhor
do uma guerra germânicos que mora-
vam perto da fronteira
ao avanço dos bárbaros.
Era mais rica, mais po-

definidora. romana do Danúbio. Os


godos, por sua vez, para
escapar dessa ameaça,
pulosa e com uma capital
fortemente defendida por
novas e sofisticadas mu-
pediam para ser acolhi- ralhas e pelo mar. O Im-
dos pelo império. pério Romano do Oriente
Diversas medidas de- conseguiu se recuperar
– embora nem de longe tão favorável sastradas de funcionários imperiais, tão bem que, no século
quanto no auge do império. Generais inclusive maus-tratos e tentativas de seguinte, chegou perto
oriundos de famílias modestas da atu- escravizar os godos, acabaram levando a
al Europa Oriental passam a tomar o uma batalha entre eles e os romanos em
poder e reunificam os territórios roma- Adrianópolis, na atual parte europeia
nos. Considera-se que esse processo é da Turquia, no ano de 378. Até 20 mil
concluído durante o governo de Diocle- soldados de Roma teriam morrido nessa
ciano, nascido na atual Croácia, que se derrota para os germânicos, incluindo
tornou imperador no ano 284. o imperador, Flávio Júlio Valente, que
O império de Diocleciano e seus su- governava a metade oriental do império.
cessores, porém, era bem diferente do Para aceitar um tratado de paz, os godos
de Augusto ou de Marco Aurélio. Por ganharam o direito de se instalar dentro
um lado, ele expandiu maciçamente a do território imperial de forma semi-
burocracia e o exército, aumentando -independente, como se fossem donos
o tamanho do Estado romano – que de pequenos feudos.
antes era menos do que “mínimo” para Depois disso, a parte ocidental do
os padrões contemporâneos. Para se ter território romano nunca mais conse-
uma ideia, nem funcionários para lidar guiu controlar totalmente a entrada
com coleta de impostos e obras públicas de bárbaros germânicos. Do ano 400
Roma tinha antes de Diocleciano. Era em diante, cada vez mais tribos pas-

20
quase tudo terceirizado, para as cidades saram a chegar sem ser convidadas,
e províncias dominadas ou para o setor criando seus próprios domínios, ainda
privado. Calcula-se que apenas cerca de que, no papel, dissessem ser vassa-
1.000 pessoas fossem “funcionários de las do imperador. No fim das contas,
carreira” civis do Império nos séculos I os verdadeiros senhores da região
e II d.C. (Diocleciano e seus sucessores
ampliam a burocracia civil para um total
entre 50 mil e 100 mil funcionários).
Ao mesmo tempo, o imperador se
tornou um governante ainda mais ab-
soluto, com posição muito acima dos
demais mortais. Todos tinham de se
prostrar na presença dele.
A coisa parecia estar dando certo. De
mil soldados romanos foram
Diocleciano em diante, Roma passou por
mortos em apenas uma batalha
quase um século de relativa prosperida-
contra os godos, no ano 378.
de. As mudanças ambientais, porém, já

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de reconquistar boa parte do terreno
perdido para os bárbaros no Mediter-
râneo ocidental.
O arquiteto do contra-ataque aten-
dia pelo nome de Justiniano e era mais
um membro daquelas famílias milita-
res da periferia imperial (ele nasceu na
atual Macedônia do Norte). A partir
do ano 533, os generais de Justiniano
reconquistaram boa parte dos antigos
territórios romanos no norte da Áfri-
ca (com exceção do Egito, que nunca
chegou a sair das mãos do império).
Derrotaram ainda os godos, que ti-
nham transformado a Itália em seu
reino, e chegaram até a estabelecer uma
província no sul da Espanha.
Na esteira dos sucessos militares, po-
rém, as últimas desgraças ambientais
e epidemiológicas a afetar o império
estavam chegando a galope. Primeiro
foi o “ano sem verão” de 536, provavel-
mente causado por diversas erupções
vulcânicas maciças simultâneas que es-
cureceram os céus e ajudaram a resfriar
a temperatura do planeta. Esse processo
deflagrou o que se costuma chamar de
Pequena Idade do Gelo da Antiguidade
Tardia, que durou até o fim do século,
com duros efeitos sobre as colheitas e
a alimentação na Eurásia.
Mas a maior pancada veio poucos
anos depois. Tudo indica que o resfria-
mento afetou populações de roedores
selvagens asiáticos que eram o reserva-
tório natural da bactéria Yersinia pestis.
Trata-se da causadora da peste bubô-
nica, o mesmo micróbio que causaria a
Peste Negra séculos mais tarde.
Mas antes ela provocou a Peste de
Justiniano, que devastou boa parte do
Velho Mundo entre os anos de 541 e
549. Calcula-se que metade dos cerca de
700 mil habitantes de Constantinopla
morreram da doença, e o micróbio che-
gou até mesmo a vilarejos isolados do
interior da Inglaterra (que, ocupada por
invasores germânicos, já tinha deixado
de ser “Bretanha”).
Essa devastação, e não a queda do
Império Romano do Ocidente, talvez
seja o melhor marco para o início do que
costumamos chamar de Idade Média.
Justiniano sobreviveu à peste, mas ele e
seus sucessores tiveram de recuar, em
grande parte, do projeto de retomada
imperial, e Constantinopla nunca mais
foi tão poderosa. Era o fim do sonho
romano de dominação global. S

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gastronomia

Uma
rodada
de

HISTÓRIAS
Texto Rafael Battaglia Design Luana Pillmann

Edição Bruno Vaiano

Do Negroni ao Moscow Mule,


conheça a origem de alguns dos
coquetéis mais famosos do mundo.
De quebra, aprenda a prepará-los
e faça bonito na frente dos seus
amigos – com moderação, é claro.

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Bebida
de caubói
Do Velho Oeste à Lei Seca, como os EUA
ajudaram a popularizar os coquetéis
Até o século 14, a hu- receitas de coquetéis. Nas
manidade só conhecia décadas seguintes, a ex-
bebidas fermentadas. A pertise ianque foi expor-
destilação mudou isso, tada para hotéis de luxo
e possibilitou preparos ao redor do mundo.
menos perecíveis e de O glamour, porém,
alto teor alcoólico. De iní- era exceção. Na maioria
cio, eram receitas usadas dos botecos do interior
como remédio, mas que dos EUA (os saloons),
com o tempo se dissemi- o ambiente era sujo e
naram para encher a cara. violento. Bebia-se prin-
Os destilados eram cipalmente uísque de
consumidos puros, mes- milho – cujo teor alcoó-
mo. A coquetelaria mo-
derna só tomou forma a
partir do século 19, nos
lico, na época, chegava a
80%. No final do século
19, a Liga Anti-Saloon
cosmopolitan
EUA. Na época, milhões (formada majoritaria- Encha uma coqueteleira com gelo. Adicione de 40 ml a 50 ml de vodca, 15 ml
de pessoas ocuparam o mente por mulheres), 01 de Cointreau (um licor de laranja), 30 ml de suco de cranberry e 15 ml de suco
meio-oeste americano em liderou manifestações de limão taiti. Agite até sua mão começar a gelar.
busca de ouro, e os des- que pediam pelo fim dos
tilados eram os queridi- bares. A pressão funcio- Coe a mistura em um copo previamente gelado (de preferência, uma taça
nhos dos migrantes – não nou: em 1920, o governo 02 de martini). Finalize com uma tira fina da casca de um limão-siciliano ou de
laranja bahia (sem a parte branca para não amargar).
apodreciam e entregavam baixou a Lei Seca, que
mais álcool num volume proibia a venda de álcool
menor em comparação em todo o país.
com vinho e cerveja. Foi A partir daí, o jeito era começou a fazer coquetéis (antes, uma recriaram a atmosfera
no século 19 também que conseguir birita via con- técnica restrita aos profissionais). Algu- intimista e pouco ilumi-
métodos de refrigeração trabando (alô, Al Capone), mas das misturas mais certeiras existem nada dos salões dos spe-
mais eficientes populari- com destilarias ilegais ou até hoje, caso do Bee’s Knees, que leva akeasies e aprimoraram
zaram o uso de um ingre- modificando álcool in- gim, mel e limão-siciliano. os coquetéis da Lei Seca.
diente essencial para um dustrial, impróprio para A Lei Seca durou até 1933. Mas a A pegada nostálgica,
drink: o gelo. consumo. O resultado preferência por bebidas mais doces, sem aliada a novas técnicas
A expansão pelo oeste final, claro, era péssimo: gosto de álcool, continuou por déca- e ingredientes, fez su-
rendeu fortunas a donos algumas pessoas usavam das: a oferta de bebidas de qualidade cesso e transformou
de ferrovias e minerado- carne podre e alcatrão de voltou a minguar na 2ª Guerra. Além muitos bartenders em
ras. Na esteira, surgiram madeira para emular o disso, a indústria alimentícia inundou celebridades. Um deles
clubes e hotéis para abri- gosto defumado de um o mercado com misturas pré-prontas foi Toby Cecchini, que
gar os novos milionários uísque envelhecido. Ugh. para drinks repletas de açúcar. Anos atualizou uma receita
– e os bares desses esta- Para mascarar o gos- ingratos para a coquetelaria. dos anos 1930 e criou
belecimentos acompa- to do álcool, era preciso O renascimento dos drinks só veio o Cosmopolitan – um
nharam o requinte. Em misturá-lo com outros no final da década de 1980, quando drink alçado à fama no
1862, o americano Jerry ingredientes. Foi assim alguns bares de Nova York ressusci- fim dos anos 1990 gra-
Thomas publicou o Guia que, em casa e nos spe- taram clássicos do século 19, caso do ças à série Sex and the
do bartender, considerado akeasies (os bares clan- Manhattan e do Old Fashioned (ambos City. Acima você confe-
o primeiro livro a reunir destinos), muita gente à base de uísque). De quebra, também re como ele é feito.

Imagens Getty Images. janeiro 2025 super 55

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Vai pra Cuba
Do Mojito aos liquidificadores,
a contribuição da ilha para
a coquetelaria mundial
Quando a Lei Seca en- publicação especializada
trou em vigor nos EUA, Punch Drink. A coquete-
em 1920, muitos barten- laria de Cuba tem raízes
ders deixaram o país em anteriores à chegada dos
busca de trabalho. Alguns americanos. O Mojito,
foram para a Europa. Ou- por exemplo, apareceu
tros partiram para Cuba. nos bares de Havana ain-
A ilha era um tradicio- da nos anos 1850. Ele vem
nal destino turístico dos de um preparo medicinal
americanos endinheira- dos nativos da ilha à base
dos. Não à toa, boa parte de hortelã, limão e aguar-
desses profissionais ar- dente (era uma versão
ranjou emprego em ho- rudimentar do rum, que
téis e bares recém-com- assim como a cachaça é
prados por empresários feito com cana-de-açúcar).
dos EUA. As aquisições
rolaram quando o veto
O Daiquiri é creditado
ao engenheiro america-
mojito
estava para começar, já na no Jennings Cox, que Leve ao fogo partes iguais de água e açúcar e mexa até dissolver. Reserve
expectativa de que muita trabalhava em minas de 01 10 ml desse xarope, bastante usado na coquetelaria, e coloque-o num copo
gente desceria até o Ca- ferro em Cuba durante a alto. Se não quiser esse trabalho, use duas colheres de sopa rasas de açúcar.
ribe atrás de um pileque. Guerra de Independência
Esse período ficou do país contra a Espanha, Junte uma dose (de 45 ml a 60 ml) de rum branco, 20 ml de suco de limão
conhecido como a era no final do século 19 (os 02 taiti e folhas de hortelã a gosto. Misture, tomando cuidado para não
macerar as folhas.
de ouro da coquetelaria EUA ajudaram os cuba-
do país e durou até a nos e, em troca, puderam Adicione gelo triturado em dois terços do copo e complete com água com
Revolução Cubana, em intervir na política e na 03 gás. Finalize com uma rodela de limão e mais hortelã.
1959. Não à toa, o No- economia locais). É bem
bel de Literatura Ernest provável, contudo, que
Hemingway morou por Cox tenha apenas se clássicos e ao menos 60 inéditos. Guerra da Indepen-
mais de 20 anos em um apropriado de uma mis- Eram receitas diversas; muitas nem dência, mas ganhou o
rancho nos arredores tura comum da região. sequer tinham rum. mundo após a 2ª Guerra
de Havana. Notório be- O drink, afinal, consiste É o caso do Adalor, que leva cham- Mundial: em um acordo
berrão, ele batia ponto apenas de rum, limão e panhe e pêssego macerado com um com os britânicos, a ma-
no bar Floridita – foi lá acúçar batidos. garfo. Ele nasceu anos antes do Belli- rinha dos EUA montou
que nasceu uma bebida Em 1924, nasceu o ni, drink italiano mais conhecido e uma linha de defesa no
em sua homenagem, o Club de Cantineiros que leva os mesmos ingredientes. Os Caribe, o que fez com
Hemingway Daiquiri, (“clube dos barmen”), cubanos também foram responsáveis que milhares de solda-
versão mais potente do associação que capa- por popularizar o uso do liquidifica- dos se instalassem nas
Daiquiri, um clássico citava e dava aulas de dor e de diferentes formatos de gelo ilhas. Ao chegarem lá,
drink cubano. inglês para bartenders no preparo de coquetéis, o que possi- ficaram deslumbrados
Legal, mas tem um pro- cubanos – um jeito de bilitou a criação de bebidas com várias com o destilado de cana
blema nessa história – ela fortalecer a mão de obra texturas. Se você gosta de frappés e (que era mais barato que
está incompleta. “Os cuba- local ante os profissio- frozens alcoólicos, agradeça a eles. cerveja) e beberam em
nos estão ausentes dos nais gringos. Em 1930, Talvez a única grande contribuição doses cavalares junto com
contos de sua própria era o Club publicou o seu realmente americana nessa história o refri, na época vendido
de ouro”, defende o es- primeiro manual, com tenha sido o Cuba Libre. O drink com ao exército por módicos
critor François Monti na centenas de preparos rum e Coca-Cola nasceu durante a cinco centavos a garrafa.

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prata
São Paulo, 1954. No ano do quarto centenário
da cidade, e no auge da sua expansão urbana e
industrial, a capital paulista recebeu a primeira
fábrica brasileira da Cinzano, uma empresa ita-

da casa liana de vermutes fundada em 1757. Vermute é


um vinho fortificado e aromatizado. Para fazê-lo,
adiciona-se mais álcool a um vinho convencional,
além de ervas e especiarias (a planta mais usada
A história e a glória do Rabo de Galo, costuma ser absinto). Açúcar e corante também
podem entrar na receita. Dá para beber puro, com
um drink tão brasileiro gelo e, principalmente, misturado em coquetéis.
É uma receita milenar, criada para fins medicinais.
quanto a caipirinha Na Grécia Antiga, por exemplo, uma infusão de ab-
sinto no vinho servia contra parasitas e problemas
intestinais. O uso como remédio se manteve popular
na Europa até o século 18 (“vermute” vem de wermut,
que é “absinto” em alemão) – depois disso, a bebida
passou a ser consumida antes das refeições, espe-
cialmente na Itália e na França.
Na Itália, a produção se desenvolveu em Turim,
norte do país. Era comum que boticários vendessem
concentrados de absinto e outras ervas para que as
pessoas fizessem o próprio vermute em casa – em
geral, com vinhos mequetrefes. Com o tempo, sur-
giram empresas que comercializavam a bebida já
engarrafada, feita com bons ingredientes.
Nascida em Turim, a Cinzano já exportava para
o Brasil desde o começo do século 20, mirando na
multidão de imigrantes que vieram para cá – naquela
época, mais de um terço da população da cidade de
São Paulo era italiana. Com a fábrica local, o objetivo
era conquistar também o público brasileiro. E, para
isso, a empresa decidiu se associar à bebida símbolo
do país: a cachaça.
A Cinzano, então, desenvolveu um copo de shot
com uma marca próxima da base, que servia de me-
didor: até o primeiro terço, vermute; o resto, cachaça.
A invenção foi batizada de “Rabo de Galo”, uma
tradução literal de cocktail em inglês (de onde vem a
grafia aportuguesada “coquetel”). A bebida pegou e,
com o tempo, ganhou variações Brasil afora: a mais
comum leva Cynar, licor italiano à base de alcachofra.
Por décadas, o Rabo de Galo foi encarado como
um drink simplório, relegado a bares pés-sujos. Isso

rabo de galo começou a mudar nos últimos anos, num esforço


de bartenders para valorizar preparos nacionais.
Em 2017, aconteceu a primeira edição do Concurso
Nacional de Rabo de Galo, organizado por Derivan
Misture 60 ml de cachaça branca, 15 ml de vermute tinto e 15 ml Souza, pioneiro da coquetelaria brasileira. O objetivo
01 de Cynar em um copo (já gelado, de preferência). era dar visibilidade a várias versões do drink, feitas
com ingredientes de primeira. O prêmio segue até
Se quiser, adicione também duas gotas de Angostura, um concentrado hoje, inclusive com uma edição em Portugal.
02 aromático bastante usado na coquetelaria. Não é barato, mas dura muito O esforço de Derivan e cia. deu certo: em julho
e dá um tchan aos coquetéis. Vale ter em casa. de 2023, a IBA (Associação Internacional de Barten-
ders) incluiu o Rabo de Galo na sua seleta carta de
Encha o copo com gelo e mexa suavemente. Finalize com uma tira fina coquetéis, que tem 102 drinks e é uma das principais
03 de casca de laranja, mas sem a parte branca – esse já é um drink amargo,
referências da área. Junto à caipirinha, são os dois
você não vai querer amargá-lo ainda mais.
únicos representantes brasileiros na lista. É da IBA,
aliás, a receita que você confere ao lado. Saúde!

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passado
Filho de fazendeiros, Gaspare Campari trocou o
campo pela cidade aos 14 anos, quando foi trabalhar em
um bar em Cassolnovo, norte da Itália. Ele era garçom,
mas não demorou para que ele ajudasse também a pre-
embaralhado parar as bebidas do estabelecimento – licores e bitters.
Bitter (“amargo”, em inglês) é uma bebida alcoólica
saborizada com um caminhão de ervas e outros tem-
peros. Assim como o vermute, descende de antigas
É fácil contar a história do Campari. infusões medicinais. As versões modernas se desen-
volveram sobretudo no norte da Itália para serem
Já a do Negroni, nem tanto. consumidas antes ou depois das refeições (não à toa,
também são chamadas de aperitivos ou digestivos).
Nos anos 1840, Gaspare abriu um bar em Milão. Lá,
em 1860, criou um bitter batizado com o sobrenome
da família. O Campari foi um sucesso instantâneo. O
primeiro coquetel com ele foi o Milano-Torino: partes
iguais do bitter e de vermute, bebida comum da região
de Turim (daí o nome). Depois veio o Americano:
Campari, vermute e club soda, um tipo de água com
gás – uma adição que teria partido de um americano
de passagem pela cidade. É o primeiro drink que
James Bond toma nos livros de Ian Fleming.
Gaspare morreu em 1882. Seu filho, Davide, expan-
diu os negócios e, em 1904, abriu a primeira fábrica
da empresa. Anos depois, extinguiu a produção das
várias bebidas desenvolvidas pelo pai para focar ape-
nas no Campari e seus derivados, caso do Campari
Soda, vendido numa garrafinha, pronto para beber.
O Negroni, drink mais famoso associado ao Cam-
pari, teria nascido em 1919. A história mais difundida
é a do conde Camillo Negroni, um aristocrata italiano
que teria pedido uma versão mais forte do Americano
em um bar de Florença. Para atendê-lo, o bartender
trocou o club soda por gim. O público curtiu e logo
passou a procurar pela “bebida do Negroni”.
É uma história bacana, mas bastante inconsistente.
Não há registros de que o tal Camillo tenha existido. O
seu visual à la velhinho do Monopoly de bigode e cartola,
consagrado pelas propagandas da Campari, provavel-
mente foi inspirado no pintor Arnold Henry Savage
Landor, um famosinho da época nascido em Florença
que frequentava a corte da rainha britânica Vitória.
Outra versão da história diz que o drink foi ideia
do general francês Pascal-Oliver de Negroni – este
negroni sim, um conde. Ele teria criado um coquetel à base
de vermute (provavelmente, sem Campari) nos anos
1870 enquanto estava no Senegal, na África. Uma
Encha um copo com gelo (de preferência cubos grandes, que demoram mais outra hipótese defende ainda que o drink nasceu nos
01 para derreter). Adicione 30 ml de Campari, 30 ml de gim e 30 ml de vermute tinto. EUA no início do século 20, depois que a Campari
passou a produzir o bitter em larga escala. Seria uma
Mexa por pelo menos 20 segundos, até você sentir o copo bem gelado. adaptação do Martini (que leva gim e vermute).
02 Finalize com uma tira da casca de laranja bahia (antes de colocar, Faltam pesquisas para rastrear a verdadeira ori-
torça-a em cima do copo para liberar os aromas da fruta).
gem da bebida. Mas elas provavelmente não virão da
Campari, que endossa a versão do Camillo, condizente
O Negroni é um drink com um sem-fim de variações. Substitua o gim
com a ideia de sofisticação que a marca reforça em
03 por uísque bourbon e você terá um Boulevardier. Troque por 60 ml
suas propagandas. A Campari, hoje, é o sexto maior
de espumante prosecco e nascerá o famoso Negroni Sbagliato.
grupo de destilados do mundo, dona de rótulos co-
mo Aperol, Cynar e Cinzano. Se você já reclamou
de alguma bebida mais amarguinha, a culpa é dela.

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Certidão
falsa
O Moscow Mule não é
russo – é americano
Em 1864, Pyotr Smirnov à bebida russa de gosto
abriu uma fábrica de vod- neutro. No primeiro ano,
ca em Moscou. Ele inves- Kunett vendeu só 1.200
tiu pesado na propaganda garrafas, quase todas para
em jornais e fazia doações outros imigrantes russos.
à Igreja, ferrenha oposi- Falido, Kunett ofereceu
tora da bebedeira russa, a operação da Smirnoff
para amenizar críticas para a Heublein, uma dis-
diretas ao seu produto. tribuidora de alimentos
A estratégia funcionou: e bebidas. John Martin,
20 anos depois, Pyotr já presidente da empresa, se
detinha mais da metade interessou pela vodca pelo
do mercado da cidade, e a seu baixo custo de pro-
vodca Smirnov tornou-se dução (a matéria-prima
a predileta da corte.
Quando a Revolução
da fermentação costuma
ser batata, mas misturas
moscow mule
Russa estourou, em 1917, com quase todo tipo de
muitos aristocratas e em- grão também servem). Em uma caneca de cobre ou copo previamente gelados, misture um shot
presários fugiram do pa- Faltava, porém, fisgar o 01 (de 45 ml a 60 ml) de vodca, 15 ml de suco de limão taiti e 10 ml de xarope
de açúcar (ver p. 56).
ís. Pertencer à burguesia, paladar americano.
afinal, poderia garantir o Na Carolina do Sul, um Preencha dois terços do copo com gelo e ponha 90 ml de cerveja de gengibre
camarote nas execuções comerciante aumentou as 02 (ou tônica sabor gengibre, mais fácil de encontrar). Adicione com cuidado
na guilhotina: bem em- vendas de vodca ao anun- para não perder o gás.
baixo dela. Um dos que ciá-la como um “uísque Finalize com uma rodela de limão e folhas de hortelã. Você também pode
escaparam foi Vladimir branco”, que não deixava 03 colocar espuma de gengibre por cima (dá para comprá-la pronta), mas esse
Smirnov, filho de Pyotr. mau hálito. A Heublein não é um ingrediente da receita original.
Ele abriu algumas destila- embarcou: reformulou as
rias pela Europa e voltou propagandas da Smirnoff,
a fazer vodca, agora com o transformando a falta de 99% do mercado americano até os anos Morgan, Ozeline Schmidt,
nome grafado “Smirnoff”. sabor do produto no seu 1970, quando outras concorrentes (caso herdeira de uma fábrica de
As vendas eram fracas, principal chamariz. da sueca Absolut) apareceram. cobre que também queria
mas dava para sobreviver. O sucesso, porém, não O Moscow Mule nasceu como parte alavancar suas vendas. A
Em 1925, Vladimir se deve só aos inimigos do do marketing da Smirnoff. O drink peça virou estrela de
reencontrou o russo Ru- bafo de cerveja. Nos EUA surgiu nos anos 1940, quando Mar- uma campanha que aju-
dolph Kunett, um antigo pós-2ª Guerra, dois tipos tin e Kunett (que passara a trabalhar dou a disseminar o Mule:
parceiro de negócios que de coquetéis se popula- para a Heublein) se encontraram com Martin ia de bar em bar
havia fugido para os EUA. rizaram: os tiki (drinks Jack Morgan, um dono de restauran- com uma câmera Polaroid
Kunett apostava no fim com inspiração tropical, tes que queria aumentar as vendas da (criada em 1948) e pedia
da Lei Seca e comprou como a Pinã Colada) e cerveja de gengibre que produzia. O aos bartenders que pre-
de Vladimir os direitos aqueles feitos com mis- plano, então, foi criar um coquetel que parassem o drink: quem
para produzir Smirnoff turas industrializadas. promovesse ambas as bebidas. O nome posasse com a caneca
em solo ianque. Quan- Eram bebidas doces, que faz menção à origem russa da vodca e poderia ficar com a foto
do a lei caiu, em 1933, os mascaravam o gosto do ao sabor do fermentado de gengibre instantânea, então uma
americanos se entupi- álcool, e a neutralidade da (forte como o “coice de uma mula”). novidade. E assim nasceu
ram de cerveja, uísque e vodca era ideal para esse A caneca típica do drink, por sua vez, a primeira bebida insta-
gim – mas não aderiram fim. A Smirnoff controlou é uma contribuição da namorada de gramável da História. S

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oráculo ilustração Joanna Maciel design Cris luise
5minutos. É o tempo que a tecno-
logia 320W SuperSonic Charge,
da empresa chinesa Realme, leva
para carregar um smartphone.

O que o
modo de baixa
As mudanças exatas variam conforme a mar-
ca e o modelo. Vamos citar, para fins ilustrativos,
algumas das coisas que rolam com um iPhone 13
– já que o usuário gatormaniac, no Reddit, fez um

energia do
levantamento detalhado desse aparelho. No que
diz respeito à tela, ela se apaga após meros 30 se-
gundos de inatividade e segue parâmetros mais
conservadores na regulação automática de brilho.
Enquanto isso, nos bastidores, os dois núcleos de
performance – processadores que cuidam de ta-

celular faz
refas barra-pesada – são desativados. Por sua vez,
os núcleos de eficiência, responsáveis pelas tarefas
do dia a dia, vão de 1,8 GHz a 1,38 GHz (ciclos por
segundo, medidos em GHz, são uma unidade de
medida de velocidade de uma CPU). O iOS também

de diferente?
desabilita efeitos visuais bonitinhos que não têm
função prática e diminui (ou cessa completamente)
o ritmo de atualizações e de outras atividades dos
aplicativos que estão rodando em segundo plano. 1
@nham_nham, via Instagram

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Edição Bruno Vaiano

Aves ficam grisalhas?


Isabela Lobato, repórter da Super

Não. Mamíferos ganham madeixas prateadas porque as células produtoras do


pigmento melanina vão se tornando menos eficazes e numerosas com a idade.
Já as cores de diferentes espécies de aves dependem de um número muito maior
de mecanismos, vários dos quais não são afetados pelo envelhecimento. É fato
que as aves também produzem pigmentos, como a própria melanina e as psita-
cofulvinas que dão cor a papagaios e araras. Mas algumas espécies dependem de
carotenoides presentes na comida: os flamingos, por exemplo, só ficam rosa por
sua dieta de camarões e algas. Basta comê-los para manter a cor. Além disso, as
cores desses pigmentos podem ser modificadas por um fenômeno óptico chamado
iridescência: as penas são revestidas com estruturas de queratina esponjosas que
refletem seletivamente a luz. O azul, por exemplo, é gerado assim, e o verde dos
papagaios é a combinação de pigmento amarelo com iridescência azul. Penas de
pássaros mais velhos, ao que parece, exibem essa propriedade sem problemas. 1

A quem pertence o direito intelec- Existe solução cientificamente


pá pum tual sobre um personagem de uma comprovada contra soluços?
série? O ator pode interpretá-lo José Palhares, de Alto do Paraíso (GO)
em um vídeo no YouTube?
@pietrogasparetto, via Instagram Mais ou menos. Algumas drogas comumente
Outros animais prescritas para outros problemas parecem funcio-
adotam o celibato? Os direitos são do criador da nar também contra soluços crônicos, que exigem
@maismatematica- obra. O ator pode até representar o intervenção médica, mas não há um grande estudo
criativa, via seu personagem de forma pontual – publicado sobre o assunto: apenas relatos de caso
Instagram mas, sem um contrato específico, não (que dizem respeito a um único paciente) e ensaios
pode ganhar dinheiro com ele. Imagine clínicos com alguns poucos voluntários, que não
Mais ou menos: há
que um apresentador de TV peça para têm representatividade estatística. Uma revisão
animais que se repro-
duzem por clonagem, a atriz Millie Bobbie Brown, de Stranger da literatura especializada publicada em 2015
sem fazer sexo. Things, interpretar a Eleven durante uma encontrou 15 publicações sobre soluço com 341 vo-
2 entrevista. Até aí, tudo bem. “Dar uma luntários e pacientes ao todo. Dentre esses artigos,
número incrível palhinha” não configura violação de di- os mais corretos do ponto de vista metodológico

48
reitos autorais. Mas e se Millie decidisse testaram as drogas metoclopramida (o Plasil) e
rodar os EUA com um espetáculo sobre baclofen, e tiveram resultados promissores, ainda
a Eleven, ou produzisse um especial para que com amostras pequenas – de 36 e 30 pessoas,
o YouTube, onde os vídeos podem ser respectivamente. O único fármaco aprovado contra
É o maior número de monetizados? Aí não. A performance soluços pela FDA (a agência americana equivalente
personagens já interpre- dos atores é protegida por um outro dis- à Anvisa) é a clorpromazina – um estabilizador do
tados por um só ator em positivo, os chamados direitos conexos, sistema nervoso central em pessoas esquizofrêni-
um só filme. 3 o que garante que eles embolsem uma cas. Quanto às soluções populares, é impossível dar
grana com reprises e afins. 5 um veredicto: não há testes confiáveis. 6
OUTRO DADO
RELEVANTE SEM
NENHUMA LIGAÇÃO
Se uma fruta está Não. Acontece que as frutas verdes armazenam carboidrato na forma de

48%
madura e doce, ela polissacarídeos, que são moléculas longas. E o principal polissacarídeo das
tem mais açúcar – e, frutas verdes é o amido, que não tem gosto. À medida que a fruta amadure-
portanto, mais calo- ce, o amido se quebra em açúcares menores e mais simples, como a frutose
rias – que uma fruta e a glicose, que dão o sabor doce. Carboidratos longos ou curtinhos, porém,
das famílias brasileiras verde? são iguais em termos calóricos. A diferença é que os açúcares menores são
têm dívidas. (Excluindo-se Jonas Kobayashi, de digeridos e absorvidos mais rápido. A coisa só muda de figura na celulose,
financiamento imobiliário, Mogi das Cruzes (SP), ainda mais resistente que o amido, que é durona o suficiente para passar
são 30%.) 4 via e-mail incólume pelo sistema digestório: não aproveitamos suas calorias. 7
Reportagem Bruno Carbinatto, Bruno Vaiano, Eduardo Lima, Isabela Lobato, Manuela Mourão, Maria Clara Rossini e Rafael Battaglia. Fontes (1) Vitor Piacentini, ornitólogo, UFMT; artigo “Um
mecanismo molecular para variação de cores brilhantes em papagaios”; (2) texto “We still don’t know how strange celibate animals evolve”, do Imperial College London; (3) O filme é Dr. San-
der’s Sleep Cure, de Mart Sander, da Estônia, e está no Guinness World Records; (4) Banco Central; (5) Marcos Blasi e Mariana Zanardo Dessotti, da Lobo de Rizzo Advogados; (6) artigos “Managing
hiccups”, por Cornelius J. Woelk, e “Systemic review: the pathogenesis and pharmacological treatment of hiccups”, por M. Steger e outros; (7) artigo “Fisiologia pós-colheita em fruticultura”. janeiro 2025 super 61

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oráculo

O que é o teorema da calvície?


Maria Clara Rossini, repórter da Super

Ele não tem a ver com carecas – ainda que John Wheeler, pai do teorema,
tenha uma quantidade modesta de cabelo. Esse teorema demonstra que
é possível descrever matematicamente um buraco negro com apenas três
dados: massa, momento angular e carga elétrica. Ou seja: esses astros são
objetos simples – ao contrário de muitas outras coisas na astrofísica que são
cabeludas, complexas. Daí a piada. Isso acontece porque um buraco negro
é um sumidouro de informação: quando ele engole uma nuvem de gás, um
planeta ou uma estrela, todos os dados sobre os átomos que formavam essas
coisas se perdem definitivamente atrás do horizonte de eventos – um ponto de
não retorno gravitacional do qual nada pode escapar, nem a luz. Por exemplo:
se duas estrelas com composições químicas diferentes, mas massas iguais,
entrarem em colapso e derem origem a buracos, eles serão indiferenciáveis.
Isso é um problema porque, teoricamente, informação é algo que não se pode
perder. Caso ela só ficasse oculta detrás do horizonte de eventos, e não perdida
de vez, tudo estaria bem. Mas não é o caso: Stephen Hawking demonstrou em
1974 que buracos negros se desfazem em radiação com o passar do tempo, e
que essa radiação não carrega qualquer dado sobre a matéria-prima original
do buraco. Esse problema é conhecido como “paradoxo da informação”. 1

Quando dois times de cores parecidas jogam, Por que cachorro não
como eles combinam quem vai usar qual cor?
Lia Hofstadter, de Criciúma (SC), via e-mail
pode comer cebola?
Dayanne Lima, de São Paulo
lista
(SP), via e-mail Países com mais
Em geral, o time que está jogando em casa fica com o bebês nascendo
uniforme principal, enquanto o visitante usa peças contras- A cebola faz parte do gêne- a cada hora
tantes. Às vezes, as equipes dão sorte e podem ambas vestir ro Allium, ao qual também
suas cores icônicas – é o caso de um embate entre Palmeiras pertencem alho, cebolinha e
e Flamengo, por exemplo, em que o verdão não se confunde alho-poró. Todos eles contêm,
com o rubro-negro. A roupa do juiz também é pensada para em diferentes concentra-
diferenciá-lo dos dois adversários. Se não houver contraste, ções, compostos chamados A Índia superou a China em
porém, o visitante precisa se relegar a outra versão do uni- organossulfóxidos, que são população em abril de 2023,
forme. Foi o que aconteceu em Brasil x Camarões na Copa de responsáveis pelo odor e sa- e cresce muito mais rápido.
2022, quando jogamos de azul – e eles, que eram mandantes,
4
bor característicos. Ao serem
de verde e amarelo. Por aqui, a CBF usa um sistema online absorvidos pelo trato gas- Índia
em que os clubes registram suas escolhas antes das partidas. trointestinal de alguns ani- 1 2.651 bebês/hora
A decisão é revisada e aprovada pelo órgão. Nem sempre dá mais, como cães e gatos, eles
certo: Botafogo e Corinthians entraram em campo ambos de desencadeiam um problema
preto em branco em 15 de setembro de 2024 – no intervalo, chamado anemia hemolítica. China
2 1.016 bebês/hora
as equipes acabaram concordando em trocar de roupa. 2 Nela, a hemoglobina oxida e
dá origem à metemoglobina,
incapaz de transportar oxigê- Nigéria
nio adequadamente no san- 3 857 bebês/hora
pergunte gue. Além disso, a oxidação
forma corpúsculos de Heinz,
ao oráculo agregados de hemoglobina
desnaturada que danificam
4
Paquistão
786 bebês/hora
Escreva para
bruno.vaiano@abril.com.br a membrana dos glóbulos
mencionando sua cidade e vermelhos, tornando-os
estado – ou mande a pergunta Indonésia
mais frágeis. 3 5 512 bebês/hora
via direct no Instagram.

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Só acredito E se os adultos man- A cabeça de um adulto de 80 kg pesaria 20 kg,
três vezes uma bola de boliche. E as pernas,

vendo tivessem as propor- que são 50% da altura de uma pessoa cres-
cida, equivalem a só 37% da criança – nela,
ções de bebês? os braços são mais longos. Veja o gráfico:
5

recém-nascido 1 ano 3 anos 5 anos 12 anos 25 anos

o
Tá na cara
Bebês têm um rosto bem pequeno em
comparação ao resto da cabeça, em uma
proporção de 1 para 8. Em adultos, essa
proporção é de 1 para 2,5. Os recém-nascidos
ainda não têm os dentes, a mandíbula e o
trato respiratório amadurecidos.

Por que personagens de desenho animado têm


só quatro dedos nas mãos?
Elias Isaque, de Manaus (AM), via e-mail

Porque é mais fácil de desenhar. Quatro dedos são sufi-


cientes para a mão parecer realista, e economizam tempo dos
ilustradores. O corte de dígitos era especialmente relevante na No desenho Os Em Gravity Falls, No filme Branca de
época em que as animações eram feitas à mão e exigiam até 24 Simpsons, todos os da Disney, as crianças Neve, a princesa e a
desenhos por segundo. Um curta de 10 minutos, então, precisa personagens têm têm apenas quatro rainha má são retra-
quatro dedos em cada dedos, enquanto os tadas com cinco dedos.
de 14 mil frames de Mickey, Pica-Pau ou Frajola em poses diferen-
mão. O único com o adultos têm cinco. Já os anões, com fei-
tes. Ajuda o fato de que todos são animais antropomorfizados, privilégio de ter o Co m q u e i d a d e o ções cartunescas, têm
e nós não costumamos imaginar animais com cinco dedos. 6 quinto dedo é Deus. mindinho nasce? apenas quatro.
Ícones

Fontes (1) livro The black hole war, de Leonard Susskind; texto “Information loss paradox”, por Simon Saunders, da Universidade Oxford; (2) FIFA, reportagem “Definição da CBF
não impede confusão de uniformes em jogos do Brasileirão”, no UOL; (3) “Allium species poisoning in dogs and cats” e “Heinz body formation in cats fed baby food containing onion
powder artigo”; (4) ONU; (5) “An overview of anatomical considerations of infants and children in the adult world of automobile safety design”; (6) Channel Frederator Network. janeiro 2025 super 63

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oráculo

Por que Carlos tem “s” Existe diferença entre


no final, mas o feminino divórcio e separação?
Carla não? Leonardo Caparroz, de São
Liana Costa, de São Paulo José dos Campos (SP)
(SP), via e-mail
Sim. A separação é o instante
Longa História. Carlos se em que os cônjuges deixam de
popularizou por causa de Carlos morar juntos e de cumprir seus
Magno, um célebre rei medieval. deveres matrimoniais. Os bens
E seu nome em latim, que é adquiridos dessa data em dian-
Carolus Magnus, não está no te também deixam de ser com-
plural. Pelo contrário: na língua partilhados automaticamente
dos romanos, quando um subs- entre os dois no caso de uma
tantivo masculino é sujeito da comunhão parcial ou total de
frase, a terminação “-us” indica bens. Nesse momento, porém,
singular. Por exemplo: Amicus o matrimônio tecnicamente
é “amigo”, enquanto amici é ainda existe – os separados não
“amigos”. Ou seja: o “s” é uma podem se casar oficialmente
herança latina, não um plural com outras pessoas. Só é possí-
português. No italiano, porém, vel assinar os papéis novamente
não é comum que palavras ter- após o divórcio em si, que é um

O que impede o queijo gor- minem em “s”, nem mesmo no segundo processo. Em 2010, o
plural – por exemplo, ragazzo é conceito de separação se tor-

gonzola de ser completa- “menino” e ragazzi é “meninos”. nou obsoleto, porque passou a
“Carolus”, então, soava estranho, ser possível partir diretamente
e virou só Carlo. Daí veio o femi- para o divórcio. A separação,

mente tomado pelo mofo?


Anton Ego, Paris, França
nino Carla, que depois acabou antes imaginada como um
exportado para o português, já “tempo para pensar”, se tornou
sem o “s”. 2 um fardo custoso na lei. 3
Para crescer, os fungos azulados e seguros que dão sabor
a esse tipo de queijo precisam de oxigênio. Por isso, durante
o período de envelhecimento (para uma peça de gorgonzola,
de dois a quatro meses) os produtores fazem buracos com
agulhas de aço inoxidável na peça, permitindo que o ar Lost in
circule e que o mofo se reproduza lá dentro. É por isso que
o crescimento é pontual – o fungo só consegue crescer ao Translation Haalarit
redor dos buracos que o queijeiro fez, onde há fácil acesso Origem Finlândia
ao ar. Para que esses serezinhos azuis não saiam de controle, “Macacão universitário”
o resfriamento e a adição de sal também são importantes. O
fungo em questão é chamado Penicillium roqueforti, o que
denuncia seu parentesco com o Penicillium rubens, mofo de Quando os finlandeses entram na faculdade, eles compram um
onde Alexander Flemming extraiu o antibiótico benzilpeni- macacão com a cor do curso (Biologia, por exemplo, é verde) – e
cilina em 1928, em uma revolução para a saúde pública. 1 vão costurando patches, retalhos e outras memórias têxteis à peça .

Beatniks Allan Ginsberg


conexões Movimento artístico que
floresceu nos EUA nos anos
Poeta e ativista pioneiro do
movimento LGBTQIA+. Em
Dos Beatniks
aos Beats 1950. Seus membros, abertos 1969, em uma lanchonete
a religões orientais, drogas pé-sujo de Nova York, ele
por Bruno
Vaiano ilegais e à vanguarda do jazz, confundiu uma moça de
eram chamados de hipsters penteado andrógino com
na época, e influenciaram os um rapaz – e lhe pagou um
hippies que vieram depois. Um sanduíche com a intenção de
dos figurões beatniks foi... flertar. Essa moça era...

64 super janeiro 2025

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manual Como fazer estampas de
camiseta com serigrafia
por Isabela
Lobato

1. O fotolito 2. A tela
Você precisará ir a uma A tela é uma armação retan-
gular com tecido poliéster
loja especializada em artes
esticado por cima. Lave-a
plásticas. Tudo começa com
com água e detergente e
uma folha transparente de
deixe-a secar. Então, use um
acetato, o fotolito. É nela que objeto chamado calha para
você vai desenhar sua arte ou revestir a frente e o verso
imprimi-la (uma impressora da tela com uma camada
doméstica serve). A tinta fina e uniforme de emulsão
precisa ser preta e opaca. Se fotossensível, que endurece
você quiser mais de uma cor, em contato com a luz. Deixe
precisará de um fotolito para a tela descansar na horizon-
cada uma. Sobrepostos, eles tal, em um lugar escuro.
formarão a ilustração final.

3. A revelação 4. A hora da verdade


Agora, ponha o fotolito Aplique uma fina camada
em cima da tela, cole com de tinta para serigrafia no
fita e exponha tudo ao verso da tela e apoie a tela
Sol ou à luz artificial. O contra a camiseta, esticada
desenho preto opaco vai e fixada em uma superfície
impedir a luz de passar. O lisa e firme. Então, passe
resultado é que a emulsão um rodo especial para se-
ficará líquida onde tem rigrafia (a lista de compras
desenho e sólida onde não é longa, rs). A tinta só vai
tem. Então você lava o que passar da tela para o tecido
está líquido com água e nos lugares em que não há
voilà: surge um negativo emulsão, e é por isso que o
do desenho. Um stêncil. desenho se forma.

Para saber mais Seja um monstro sagrado do silk-screen

Mesmo que você queira cores, As telas têm diferentes lineaturas A serigrafia profissional usa Tintas coloridas são caras, melhor
o fotolito que contém as partes – o tamanho dos buraquinhos na uma prensa térmica e tintas comprar branca e tingi-la com
do desenho que serão coloridas trama do poliéster por onde a tinta que se fixam a temperaturas pigmentos. Uma vez pronta a
precisa ser preto. A cor só entra passará. Para camisetas básicas, altíssimas. Mas existem tintas camiseta, passe a ferro e deixe-a
depois, na quarta etapa. 55 fios por cm está ótimo. que não exigem calor. descansar por três dias, sem lavar.

Patti Smith Jimmy Iovine Beats


Cantora-compositora e Na década de 1970, dentre Fabricante americana de he-
madrinha do punk. Em tantos outros trabalhos, foi adphones comprada em 2013
1974, recebeu uma fita engenheiro de gravação de pela Apple. Beat (“batida”)
com uma canção incom- Springsteen e produtor de é a música instrumental que
pleta de Bruce Springste- Patti. Nos anos 2000, se serve de fundo a um rap. Foi
en e decidiu terminá-la. associou a outro figurão da outra batida, a do jazz, que
Era “Because the Night”, música, o rapper e produtor inspirou Jack Kerouak a batizar
seu maior hit. O remeten- Dr. Dre. Juntos, eles sua geração, em 1948, de beat.
te da fita mágica foi... fundaram a... A geração dos beatniks.

Fontes (1) Universidade Federal de Lavras; Universidade Federal de Viçosa; (2) Dicionário onomástico etimológico da língua
portuguesa e Marco Neves, linguista e professor da Universidade Nova de Lisboa; (3) artigo “Diferença entre separação judicial
e divórcio”, por Lorena Lucena Tôrres no JusBrasil. Manual Letícia Bezamat, artista gráfica do Ateliê Artes Sapas (@artesapas). janeiro 2025 super 65

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última página desculpa qualquer coisa e até logo

O futuro chegou
Os cenários imaginados pela ficção científica estão mais próximos
do que você imagina. Abaixo, veja os anos em que se passam alguns
filmes (e uma série) desse gênero. Infográfico Juliana Krauss e Maria Clara

Ano de lançamento
Ano em que o filme se passa Ano em que se passa

2000 1
1. 2001 - (2) (3) 2. Robocop - 3. De Volta
Uma Odisseia 4 O Policial para o
(5) (6) do Futuro Futuro 2
no Espaço 7 (8)
1968 (9) 10 1987 1989
11
2001. 12 2015 2015
2050 13
14
4. Blade Runner 1982 2013 5. Ela Você
15 está aqui
- O Caçador 2025.
2019
de Androides
16
1995 7. Os 12
6. metrópolis 1927 2028. Macacos
2026 2100
17
2004 9. Eu, robô
8. O Exterminador 1984 2035.
do Futuro 2029 18

2018 11. Ilha dos


10. V de 2005
2038. Cachorros
Vingança 2036* 2150
19
2015 13. Mad Max:
12. Blade Estrada da Fúria
2050.
Runner
2049
2014 15. Interestelar
2017
2067.
2049. 2200 20
21
17. A.I. -
14. Minority Report - 2002 Inteligência
A Nova Lei 2054 Artificial
2001
16. O Vingador 1990 2101.
do Futuro 2084 2250
2009 19. Avatar
18. Alien - O 8º 1979 22 2154.
Passageiro 2122
1956 21. Planeta
20. Matrix 1999 2201. Proibido
2199 2300
1995 23. Waterworld -
22. Star Trek 1966 2500. O Segredo das Águas
23
(série original) 2266.
1968 25. Planeta
24. Wall-E 2008 3978. dos Macacos
2805
24
2021 27. Duna
26. Barbarella 1968 10191.
4000 3000

4000 25
26
Imagens Reprodução
66 super janeiro 2025 *O filme não deixa claro o ano em que se passa, mas algumas referências indicam para os anos 2025 a 2028 ou 2034 a 2036.

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