de João Gollo
Sentada em frente às fotografias da família, Ana Vitória almoçava só.
Nunca fazia sua refeição ali, mas por sentir que aquele era o canto mais fresco da casa àquela hora, abriu exceção empurrando três fotografias: uma dela, uma de seus bisavós e outra da mamãe, e se preparou para consumir o ato. Soprou seu macarrão e olhou diretamente a foto de seus bisavós. Nesta se via o casal sentado lado a lado, em cadeiras diferentes onde a bisa sorria satisfeita, como quem posa para a bisneta. O biso e sua postura relaxada, exibia um sorriso de Monalisa. Ao fundo, um televisor coberto por um pano de prato. Vai ver que não se deixava mais ver nem escutar! Ou talvez este fosse o prêmio do casal por já ter vivido tanto. Ainda mais por haver, em frente ao televisor, uma planta folhosa e espirituosa. Já atrás da bondosa senhora figurava uma cristaleira antiga digna de casa de novela das seis.
Largando mão dessa, passou a admirar a foto de si própria. Fitou-se como sendo outra pessoa. Olhou as rugas que faltavam, os olhos que ainda brilhavam, os cabelos que viviam vorazes, e comparou aos da mãe, que sorria em outra moldura ao lado. Não conseguiu mirar seus olhos por muito tempo. Passou a observar outros retratos que a observavam. Difícil tarefa essa de fazer uma refeição em frente a tanta gente (repetida ou não) que nem sequer pisca - pensou.
Ou que não piscava, pois Ana Vitória assustou-se ao reparar, de rabo de olho, o movimento de uma das imagens até então, inerte. E a imagem era a dela própria! Uma pequena foto de aniversário onde aparecia acompanhada de uma amiga. Nesse relance a amiga havia escapado para uma foto ao lado, onde seu irmão mais velho, então adolescente, posava desavisado na mureta da varanda. Não podendo acreditar no que via, Ana Vitória tirou os óculos, esfregou os olhos com força e voltou a ocular-se quando, para surpresa maior, não mais se viu na foto. Agora o que era uma foto dela com a amiga na festa de aniversário de nove anos, se tornara apenas um cenário vazio. Atentou-se para uma movimentação formigosa no centro da mesa. Um palco povoado de docinhos e um enorme bolo de chocolate com cobertura de suspiro. Parecia claramente ser a peregrinação a um templo monumental onde alguns tinham seus cabelos granulados e vestes azuis, outros, mais mulatos, pareciam ter feito um coque especial para o dia. E as mais branquinhas, andavam com uma espécie de rabo de cavalo muito preso às suas cabecinhas.
No lapso de tentar encontrar-se nas muitas molduras ali presentes, notou a ausência dos bisavós que, há pouco, sorriam hipinoticamente. Foi aí que notou, nesta foto, um objeto que, até então, passara desapercebido: uma geladeira. Uma geladeira azul celeste, modelo antiga, difícil de não ser notada, daquelas que tem uma alavanca tipo freezer de açougue. E estava aberta. “Provavelmente alguém andou mexendo onde não devia. Com certeza, não foram meus bisavós. Quantas e quantas broncas não recebi na infância, quando abria essa geladeira por nada. Ainda mais deixá-la aberta... com certeza não foram eles!” – pensou deixando a comida de lado e debruçando-se, intrigada, sobre a mesa com apoio dos cotovelos.
Abstendo-se do absorto consciente, abismou-se ao ver que nenhuma fotografia estava pessoalizada. Todas as repetidas imagens do primogênito e do caçula, todas as mamães, os papais, as “Ana Vitórias”, todos haviam desaparecido. O único movimento persistente ocorrendo nas imediações dos retângulos era dos doces rumo ao bolo, na fotografia do aniversário. Tentando cientificar a coisa, pensou que tudo havia se originado a partir de seus sentimentos. Deixou o prato de lado. Recuperando novamente a consciência, notou o crescimento exagerado do carismático templo (bolo). E era tão rápida a progressividade da massa que logo já passava de sua altura. Foi quando um rasgo surgiu ali, outro aqui até que, ao deflorar o bolo, Ana Vitória se viu diante das imagens das pessoas que deveriam estar presas às duas dimensões. Todos estavam logo a sua frente. Não concebia que tudo aquilo fosse real, mas, ao mesmo tempo, não podia contrariar o que seus próprios olhos assistiam. A de nove anos encarou-a seriamente e disse:
_ Mais parece que depois de tanto tempo não conhece a si mesma!? – e voltando-se para uma mãe - ou o que foi dela.
_ Como pode ser... isso não é possível! – questionou abismada.
Surgindo por detrás da menina, exclamou um avô jamesdeano:
_ Rodar, rodar, rodar... Se prestar atenção, tudo se repete.
_ Enquanto vocês continuam, nós só observamos – completou a menina.
Ana Vitória não assimilava aquilo. Sentia-se num episódio de Além da Imaginação, com o pânico gelando-lhe o rosto, secando-lhe o estômago, a petrificação consumindo-lhe os braços, a nuca espinhando-se feito gato assombrado, os joelhos trêmulos como vara verde, quando a aterrorizante pressão que esmagava seu corpo se fez completa e a desmaiou.
Acordou só e debilitada. Levantou-se e viu todas as fotografias intactas. Seu prato também. Passou a vida inteira sobre a incerteza do ocorrido. E morreu sem saber se desmaiara naquela ocasião por não suportar a explosão do medo ou se pela incapacidade de olhar pro passado.