sábado, 5 de abril de 2025

A sede de tudo o que ambicionamos

A sede de cada um de nós
não é apenas por água,
mas por tudo o que brilha
além do que se pode tocar.

Temos sede de futuro,
de respostas,
de sentido.
Sede de um nome que ecoe,
de um abraço que dure,
de uma vida que valha.

Queremos a sede inteira,
a sede que não se sacia,
porque é ela que nos move —
feito chama que insiste
mesmo no vento contrário.

E no fim, talvez não seja a conquista
que nos define,
mas a sede que nos empurrou até ela.

sexta-feira, 4 de abril de 2025

Carta ao tempo — ou talvez, a você

Cheguei a uma fase da vida em que os dias têm outro ritmo. O silêncio pesa diferente, e a memória tem um gosto agridoce, que antes eu não compreendia. Com o passar dos anos, aprendi que há coisas que simplesmente... ficam. Mesmo quando pensamos que ficou lá para trás.

Tu foste uma dessas memórias. Especial!

A verdade é que, entre tantos rostos, sorrisos e caminhos, o teu nunca saiu do meu. O tempo passou, a vida levou-me por outras estradas, mas houve sempre um canto da alma que voltava pra ti. E é só agora, com a calma — ou a solidão — que vem com a idade, que eu consigo encarar isso de frente.

O grande amor da minha vida foste tu. E não, eu não soube aproveitar.

Na época, talvez eu estivesse ocupado demais, sendo quem achava que devia ser. Tentando controlar a vida, os sentimentos, os medos. Talvez eu tenha confundido amor com liberdade, ou pensado que haveria outras chances iguais. Fui tolo, distraído ou simplesmente covarde. E tu… tu foste tudo o que eu não soube cuidar.

Hoje, se me perguntarem do que mais me arrependo, não é de erros escancarados, nem de decisões mal tomadas. É do silêncio. Da falta de um gesto. De não ter dito com todas as letras que era amor. Que eras tu.

Não escrevo isto esperando resposta. Nem reencontro. Escrevo porque chegou a hora de admitir o que sempre esteve aqui dentro, quieto, mas vivo: que o maior amor da minha vida foi aquele que eu deixei escapar. E que, apesar de tudo, sou grato por ter vivido isso contigo, mesmo que só por um tempo.

Com carinho — e uma saudade enorme,
luis

quinta-feira, 3 de abril de 2025

SUCESSO

No dia 20/3 escrevi aqui um texto sobre O QUE É O SUCESSO. No dia 15 de Abril muito bem rodeada irei conversar sobre o mesmo tema!

 

E SE TUDO FOSSE UM EQUÍVOCO?

A vida é uma sucessão de instantes que se dissolvem no tempo. Corremos atrás deles, mas, paradoxalmente, nunca os seguramos por completo. A pressa torna-se a nossa forma de existir, um movimento incessante que nos arrasta como folhas num vendaval. É um frenesim de metas, horários, compromissos – um turbilhão onde a presença se dilui.

E se tudo fosse um grande equívoco?

Se a pressa fosse apenas o medo disfarçado de eficiência? O medo de encarar o que existe no vazio, o receio de nos vermos inteiros, sem distrações, sem justificativas, sem desculpas?

A pausa, então, não é apenas o intervalo entre dois compromissos. É um mergulho. Um convite àquilo que evitamos sentir quando corremos demais. É na pausa que o silêncio se expande, e no silêncio, que o que somos se revela. O que nos dói, o que nos falta, o que nos transborda.

A pausa exige coragem. Porque parar significa encarar os ecos do que deixamos para depois. O amor não vivido, os sonhos adiados, as palavras que engolimos por medo ou por orgulho. A pausa obriga-nos a reconhecer o que a pressa esconde: a vulnerabilidade, a impermanência, a beleza fugaz daquilo que nunca volta.

E se o sentido da vida estiver menos no avançar e mais no permanecer? No instante que pulsa agora, entre uma respiração e outra? No detalhe esquecido de um entardecer, no toque leve da brisa, no olhar demorado de quem amamos?

A verdade é que passamos a vida correndo atrás do tempo, sem perceber que ele nunca esteve fugindo. Apenas esperava que o víssemos.

E talvez seja isso: a felicidade não está em chegar primeiro, mas em aprender a permanecer.

quarta-feira, 2 de abril de 2025

DOS SONHOS QUE NUNCA SE REALIZAM

Esta frase é bela e profunda. Ela carrega a ideia de que até mesmo os sonhos que não se concretizam têm valor. Eles movem-nos, inspiram-nos, mantêm-nos de pé. É como se o simples fato de sonhar já fosse, por si só, um alicerce da nossa existência.

 Os sonhos têm esse poder silencioso de nos guiar, mesmo quando parecem distantes. Alguns sonhos nunca se realizam. E, por muito tempo, isso dói-nos. Julgávamos que sonhar sem alcançar, era tempo perdido, força desperdiçada. Mas hoje vejo diferente.

Há sonhos que carregamos como abrigo. Eles não se tornam reais no mundo lá fora, mas criam raízes dentro de nós. São eles que nos fazem seguir, mesmo quando tudo parece parado.

Às vezes, só a circunstância de imaginar já é suficiente pra dar sentido ao dia. Sonhar é respirar um pouco mais fundo, é ter um motivo para tentar de novo. Eu, por exemplo, percebi que mesmo os sonhos que não aconteceram... acabaram por me sustentar.

Eles me fizeram quem sou. Moldaram as minhas escolhas, a minha sensibilidade, os meus silêncios. Não precisei vivê-los para entender seu valor. Eles me ensinaram a esperar, a acreditar, a continuar.

Talvez seja verdade que alguns sonhos existem só para isto mesmo. Para nos manter de pé, mesmo quando tudo parece incerto…

terça-feira, 1 de abril de 2025

UMA AMBIÇÃO ESPECIAL

A ambição é um daqueles temas que mexem connosco. Pode ser força propulsora ou armadilha, dependendo da forma como se lida com ela.

No sentido positivo, ambição é o que nos faz querer mais da vida — crescer, conquistar, realizar sonhos. É aquela faísca interna que nos move, que não nos deixa acomodar. Mas, quando vira obsessão, ou quando vem sem propósito, pode cegar. Pode faze atropelar valores, relações ou até a própria saúde.

No aspeto pessoal, a ambição costuma nascer do desejo de ser mais do que se é hoje. Às vezes vem da falta, às vezes do excesso. Pode vir da infância, de traumas, de querer provar algo para o mundo (ou para si mesmo). Em muitos casos, ela é um espelho: mostra o que valorizamos, o que tememos e até onde estamos dispostos a ir por um ideal.

Quando Fernando Pessoa diz: "Tenho em mim todos os sonhos do mundo." , está a referir-se a uma ambição poética, quase dolorosa, de quem sente que carrega o peso de possibilidades infinitas e, ao mesmo tempo, a angústia de nunca realizar tudo.

Na literatura, a ambição é um motor dramático fortíssimo. Dá origem a heróis, vilões, tragédias e epifanias como Macbeth, de Shakespeare, um estudo brilhante sobre ambição desmedida.  Ou a O Grande Gatsby, de Fitzgerald onde temos uma ambição romântica. Já em Dom Casmurro, a ambição de  controle, certeza, pureza e o que ele perde no caminho, é justamente o que ele mais amava (ou julgava que amava).

A literatura mostra que a ambição, quando escrita com profundidade, revela mais sobre o humano do que qualquer outro sentimento, porque envolve desejo, ego, medo, esperança, identidade.

segunda-feira, 31 de março de 2025

Porque é que hoje não há heróis?

Vivemos num tempo em que a palavra “herói” perdeu o brilho de outrora. Antigamente, os heróis eram figuras quase míticas, moldadas por atos de coragem, altruísmo e sacrifício. Eram líderes, visionários, ou até simples desconhecidos que, em momentos decisivos, se erguiam acima do comum. Hoje, porém, os heróis parecem ter desaparecido, ou, pelo menos, deixado de ser reconhecidos como tal.

Mas será que realmente deixaram de existir? Ou será que a nossa perceção mudou?

Na era digital, tudo é imediato, filtrado e, por vezes, distorcido. As qualidades heroicas, como humildade, resiliência silenciosa e compromisso com o bem comum, não geram "likes", nem se tornam virais. A fama é confundida com grandeza, e os feitos de muitos deles passam despercebidos. Os heróis de hoje não usam capas, nem espadas. Trabalham em silêncio, longe dos holofotes, muitas vezes invisíveis a um mundo lamentavelmente distraído.

Além disso, vivemos tempos de cinismo. A desconfiança nas instituições, o desencanto com os líderes e a constante exposição de falhas humanas, tornam difícil acreditar em figuras verdadeiramente heroicas. Espera-se a queda antes mesmo da ascensão. O pedestal foi substituído pela lupa.

Contudo, talvez a pergunta devesse ser outra: estamos a olhar nos sítios certos? Talvez os heróis estejam ao nosso lado — professores que moldam vidas, médicos que não desistem, pais e mães que fazem milagres com pouco, jovens que lutam por um futuro melhor. Talvez hoje o heroísmo não esteja na grandiosidade, mas na persistência do bem.

Portanto, talvez não seja verdade que hoje não haja heróis. Talvez tenhamos apenas esquecido ou alterado a forma como reconhecê-los. O que, pessoalmente, eu lamento, porque deixámos de ter à nossa volta figuras que nos inspirem a sermos melhores.