Vita
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de ruim (p. 124), não sendo nunca tratada, menos ainda inquirida sobre sua
doença. Etnograficamente, o trajeto de Biehl apresenta-se como um desafio
que foi capaz de entrever estas diferentes relações, atores e marcos de história
e de memória, sem perder a voz e vivência de Catarina e, ainda, incorporar as
falas dos outros atores envolvidos, numa interessante proposta dialógica. Há
uma escolha pela visibilidade antes de mais nada, uma visibilidade-denúncia.
Antropologicamente, as riquezas destas relações, como conceitualização,
problematização e teorização não foram ainda profundamente abordadas ou
confrontadas. O autor se apóia nos trabalhos de Veena Das para elaborar a
idéia de corporificação de diferentes processos políticos em Catarina, mas
também de como a dor e a emoção podem falar, permitindo, ao mesmo tempo,
distinguir as diferentes relações e interligações entre espaços (locais, estaduais,
nacionais), políticas, instituições e atores. Por outro lado, a releitura da idéia
de pharmakos, de um moderno pharmakos, teria para Biehl a possibilidade
de ilustrar como operaria, nas formas de exclusão, uma conjunção, implícita
ou não, de instituições e moralidades na sociedade e na cultura. Nesta
dramaturgia do real são utilizadas formas legítimas para distanciar as pessoas,
confinando-as para uma morte social e transformando-as, consequentemente,
em ex-humanos. Por último, o outro conceito que pretendeu transcender a obra
transversalmente é o de psicosis social. Biehl aborda a doença vivenciada por
Catarina - e pelo seu grupo familiar - ligada a um diagnóstico obtido a partir
da conjunção de forças sociais, econômicas e políticas (p. 316), caracterizando
uma doença que é imposta. O grande problema do autor é conseguir uma
amarração conceitual, tornando-se difícil compatibilizar a proposta de
apresentar uma etnografia do descobrimento, na medida em que aparecem, no
decorrer do texto, novos elementos que podem ser olhados sob outro prisma.
Em relação ao problema do ensamble, a constante repetição de personagens e
suas po-sições na historia de Vita e Catarina aborrece. O autor bem poderia ter
colocado um quadro de parentesco para facilitar a sua narrativa.
Os arquivos médicos, e consequentemente a corporificação de doenças
por Catarina, apresentam-nos diferentes momentos, formas de políticas
my pain… “ (Biehl, 2005, p. 87). “The doctors listened only to him. I think that this is
wrong. They have to listen to the patient. They gave me pills…” (p. 94).
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76 Permito-me citar uma referência de Franco Basaglia, que pode ser ilustradora
no que diz respeito às consequências de diagnosticar: “... desde el momento en que
usted hace un diagnóstico, la etiqueta es inmediata, cuando usted dice esquizofrenia,
en realidad quiere decir una cosa que no es la esquizofrenia sino lo que el médico
entiende por ella, y lo que este entiende es un juicio de valor: bueno o malo (Basaglia
et all 1979, p. 20, grifos meus)”.
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