53 - Apostila - Metodologia Do Ensino Religioso
53 - Apostila - Metodologia Do Ensino Religioso
53 - Apostila - Metodologia Do Ensino Religioso
Gilmar de Oliveira
Diretor Administrativo
Eduardo Santini
UNIFATECIE Unidade 4
BR-376 , km 102,
FICHA CATALOGRÁFICA
Saída para Nova Londrina
Paranavaí-PR
FACULDADE DE TECNOLOGIA E
CIÊNCIAS DO NORTE DO PARANÁ.
(44) 3045 9898
Núcleo de Educação a Distância;
LUPION, Marcia Regina de Oliveira.
www.fatecie.edu.br
Metodologia do Ensino Religioso.
Marcia. Regina de Oliveira Lupion.
Paranavaí - PR.: Fatecie, 2020. 108 p.
As imagens utilizadas neste
Ficha catalográfica elaborada pela bibliotecária livro foram obtidas a partir
Zineide Pereira dos Santos. do site ShutterStock
AUTORA
Bem-vindo Estudante!
UNIDADE I....................................................................................................... 6
Metodologia Científica – Os Diversos Caminhos para o Aprendizado
UNIDADE II.................................................................................................... 30
A Religião e a Humanidade
UNIDADE III................................................................................................... 61
A Reforma Protestante no Século XVI
UNIDADE IV................................................................................................... 78
Religiões e Religiosidades no Brasil
UNIDADE I
Metodologia Científica – Os Diversos
Caminhos para o Aprendizado
Professora Me. Marcia Regina de Oliveira Lupion
Plano de Estudo:
• Conceito de Metodologia Científica.
• O Positivismo: conceitos, definições e autores.
• A Fenomenologia: conceitos, definições e autores.
• O Materialismo Histórico: conceitos, definições e autores.
Objetivos de Aprendizagem:
• Conceituar Metodologia Científica.
• Estudar as escolas positivista, fenomenológica e histórico-materialista em suas
proposições metodológicas.
• Compreender a diversidade de metodologias utilizadas para o estudo das religiões e
religiosidades.
6
INTRODUÇÃO
Em primeiro lugar, cabe destacar que todo conhecimento que se propõe ser científico
pressupõe um método de trabalho, ou seja, um caminho cujo percurso realizado tenha
possibilitado alcançar o conhecimento científico desejado. Assim como um chef de cozinha
descreve a forma como o prato servido ao cliente foi elaborado, citando tanto ingredientes
quanto sua técnica de produção, também o cientista descreve os caminhos ou os meios
pelos quais alcançou os resultados de suas pesquisas.
Em alguns casos, os caminhos ou meios – ou seja, a metodologia –, tornam-se
referência para abordagens cujas temáticas inscrevem-se dentro da linha de pesquisa ou
1 Parte da lógica que trata dos métodos aplicados nas diferentes ciências.
2 Estudo dos métodos, especialmente dos métodos científicos.
3 Conjunto de regras e procedimentos para a realização de uma pesquisa.
4 Estudo e pesquisa dos componentes e do caráter subjetivo de um texto
narrativo, poético ou dramático (na literatura).
Neste tópico vamos estudar o Positivismo, uma escola de pensamento que propunha
encontrar regras que pudessem organizar e conduzir as sociedades rumo ao progresso.
Elaborada na França pós-Revolução, o modelo explicativo conhecido como positivismo
traz a marca de uma proposta que tinha, na supressão do caos em que se encontrava a
sociedade francesa, a aplicabilidade de uma teoria.
Como visto anteriormente, a partir do século XIX surgiram disciplinas especializadas
em estudar o ser humano, só ou coletivamente, de forma científica. O positivismo foi uma
construção do saber científico, que tinha por objeto de estudo exatamente as sociedades
humanas, ou seja, foi uma ciência da sociedade.
Seu criador foi o francês Isidore Auguste Marie François Xavier Comte, ou
simplesmente Auguste Comte (1798-1857). Em meio a uma conturbada vida privada, na
qual se separou de sua esposa, foi internado com perturbações mentais que o levaram a
uma tentativa de suicídio e viveu um amor platônico pela jovem Clotilde de Vaux, o pensador
desenvolveu aquela que seria sua contribuição para os estudos acerca das sociedades.
Objetivava criar leis que pudessem organizá-las de forma positiva, ou seja, para que
atingissem o progresso tão alardeado pela sociedade ocidental do século XIX (BOURDÉ;
MARTIN,1990).
Esses estudos se deram entre os anos de 1830 e 1852, quando Comte publicou
o Curso de filosofia positiva. O curso foi dividido em seis volumes, com mais de sessenta
lições que tratam da formação das ciências e da evolução das sociedades.
O método de estudo proposto por Comte partia dos mesmos princípios das
pesquisas realizadas pelas ciências da natureza e é marcado por cinco características:
1
Fonte: adaptado de Laville e Dionne (1990, p. 28).
1 Uma das maiores críticas recebidas pelo conhecimento positivo é exatamente sua ênfase na objetividade. Pois,
não raro, pesquisadores em religiões e religiosidades buscaram essa temática por fazer parte do universo que pesquisam.
Michel de Certeau, por exemplo, foi um padre jesuíta que dedicou grande parte de sua produção historiográfica ao estudo
das práticas religiosas.
Após esses estudos, Weber, citado por Tragtenberg (1997, p. 11), postula a tese de
que há uma íntima ligação entre capitalismo e protestantismo e conclui que:
[...] operação pela qual a existência efetiva do mundo exterior é “posta entre
parênteses”, para que a investigação se ocupe apenas com as operações
realizadas pela consciência sem que se pergunte se as coisas visadas por
ela existem ou não realmente (HUSSERL, 2005, p. 10).
Esse revelar-se, no entanto, se dá de forma intencional. Por exemplo, cada vez que
compramos um celular novo precisamos aprender e apreender as funções disponíveis no
aparelho. Algumas são conhecidas, outras são parte das intensas inovações tecnológicas
que acompanham esse tipo de objeto. Se tomarmos por referência a tese de Husserl sobre
a redução, a revelação e a consciência/intencionalidade, esse processo de aprender e
apreender as novas funções presentes no celular é um fenômeno.
Nesse sentido, a consciência seria algo plástico, maleável, passível de sofrer
alterações, pois se adapta às etapas necessárias da revelação que permitem conhecer
aquilo que, em princípio, necessitava ser revelado ou desvelado para ser compreendido, o
que a torna algo que está vinculado ao seu tempo histórico.
Com esta compreensão acerca do vem a ser um fenômeno, Husserl contribuiu para
o estabelecimento de um método que fortaleceu não somente a filosofia, mas, também,
SAIBA MAIS
Mário Dionísio (1916-1993) é autor da obra que ilustra essa unidade, intitulada Sales-
man, produzida no ano de 1946. Artista português, Mário Dionísio teve uma atividade
bastante diversificada, tendo trabalhos publicados tanto na área da literatura quanto das
artes plásticas. Membro atuante do movimento literário, conhecido como Neo-realismo
português “que nos anos de 1940 e 1950, à luz do materialismo histórico, valorizou a
dimensão ideológica e social do contexto literário, enquanto instrumento de intervenção
e de conscientização” tem na obra Salesman um dos trabalhos realizados a partir da
perspectiva materialista histórica.
Fonte: Pedro Ribeiro Simões (2016).
Neste tópico vamos abordar o modelo Materialista Histórico, criado por Karl Marx
(1818-1883) com contribuições de Friedrich Engels (1820-1895), que consiste em um
método de estudo das sociedades humanas, considerando o caráter histórico e as relações
de produção existentes nelas.
O materialismo histórico foi uma corrente de pensamento que influenciou diversas
áreas de saber durante quase todo o século XX. No decorrer dos anos 1980, no entanto,
essa forma de analisar a sociedade sofreu um sensível declínio, sobretudo, com o advento
dos estudos marcados pela abordagem culturalista.
SAIBA MAIS
Atualizações acerca dos estudos realizados sobre o sagrado, as religiões, as religiosi-
dades e as práticas religiosas podem ser encontradas tanto em estudos antropológicos
quanto históricos, sociológicos ou entre cientistas da religião. Citaremos apenas dois
autores, a título de exemplo.
Atualmente, os estudos sobre as religiões e a religiosidades – no plural – têm sido rea-
lizados considerando a relevância das culturas para sua compreensão. Sem perder de
vista o fato de que as religiões e suas manifestações podem ser consideradas como
fenômenos passíveis de serem estudados de forma sistemática e por meio de metodo-
logias diversas. Autores como Roger Chartier (1945-) e Michel de Certeau (1925-1986)
trouxeram inestimáveis contribuições para essa área do saber, notadamente no campo
da história das religiões.
Chartier (2002), ao cunhar o conceito de representações, demonstrou que a apreensão
do mundo social estaria submetida à “figura” criada pelos grupos que as desenvolveram
e às quais atribuem sentido. Ou seja, o conceito de representação está intimamente
REFLITA
Ensino Religioso = Proselitismo?
“Um Ensino Religioso de caráter doutrinário, como ocorreu no Brasil Colônia e no Brasil
Império, estimula concepções de mundo excludentes e atitudes de desrespeito às dife-
renças culturais e religiosas” (PARANÁ, 2019).
● LÖWY, M. Marx e Engels como sociólogos da religião. Lua Nova, São Paulo, n.
43, 1998. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pi-
d=S0102-64451998000100009. Acesso em: 30 ago. 2019.
LIVRO
Título: Ensino religioso: diversidade cultural e religiosa
Autor: Secretaria de Estado de Educação. Superintendência de
Educação.
Editora: Secretaria de Estado de Educação - Paraná.
Sinopse: Livro que dispõe sobre a forma de trabalho com a
metodologia do ensino religioso, considerando os atuais aportes
teóricos e metodológicos propostos pelas legislações que regem
a disciplina e os autores que se debruçam sobre o estudo das
religiões.
FILME/VÍDEO
Título: O Corpo
Ano: 2000
Sinopse: Debates sobre fé e método científico se digladiam nesse
longa do ano 2000, quando uma arqueologista (Olivia Williams),
ao realizar um trabalho de campo em Jerusalém, encontra um
corpo crucificado, cujo exames apontam que ele é do primeiro
século antes de Cristo. Ao saber do corpo, o Vaticano envia um
padre (Antonio Banderas), que tem por missão investigar se o
corpo encontrado seria de Jesus Cristo, que viveu exatamente
nesta época. A ameaça de que as suspeitas estejam corretas
desestabiliza a Igreja Católica, que pode ter sua credibilidade de
séculos arruinada, já que, como Cristo ressuscitou, não pode haver
um corpo seu na Terra.
Disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=bCsqGS60Wow
Plano de Estudo:
• Conceitos e Definições de Princípios Religiosos e Religião.
• A religião ao longo da História.
Objetivos de Aprendizagem:
• Conceituar e contextualizar religião.
• Compreender o conceito de sagrado.
• Conhecer os desdobramentos das religiões ao longo da história.
30
INTRODUÇÃO
[...] ouvirmos o termo religio, devemos ter em mente mais do que uma re-
conciliação entre duas origens etimológicas possíveis; trata-se de uma com-
plementaridade: a observância escrupulosa do culto, a prática religiosa, e os
laços de piedade e amor que unem os homens ao deus único.
A teoria criada por Bourdieu observa a forma de organização usada pela religião
para se estabelecer junto a um determinado grupo social. A partir dessa observação, ele
elabora sua teoria a partir de questões como: 1. a formação de um corpo de especialistas que
monopolizam e manipulam o saber e os bens sagrados; 2. a desqualificação dos saberes
e das simbologias sobre as quais as culturas ou grupos sociais invadidos constituem sua
religiosidade e, acima de tudo, 3. considerando a questão relativa à práxis, ou prática, como
método de manutenção de novos clientes ou fiéis.
Em conjunto, os três elementos organizacionais citados formam o que o autor
denominou de “campo religioso”.
Com relação à formação do grupo de especialistas, podemos tomar, por exemplo,
os seminários formadores de padres, as faculdades que formam teólogos-pastores e os
ritos de iniciação que permitem a ascensão na Umbanda:
As religiões com frequência não fazem distinção entre o plano ético e o plano
religioso. Os costumes da tribo, as regras ou os princípios morais da casta
são tão religiosos quanto os sacrifícios e as orações. Entre os dez manda-
mentos que Moisés deu aos judeus havia os que tratavam a religião – “Não
terás outros deuses diante de mim” – e os relativos à ética – “Não matarás”.
Incluem-se nos cinco pilares do muçulmano tanto o orar a Deus como o dar
esmolas aos pobres. Não há aqui distinção entre ética e religião. A noção de
ser humano como uma criação divina implica que ele é responsável perante
Deus por tudo o que faz, ritual, moral, social e politicamente.
Outro exemplo que nos permite compreender como os princípios religiosos buscam
ordenar não somente a retomada e manutenção da ordem no mundo a partir das ações e
condutas de seus praticantes é o Taoísmo.
Os princípios do taoísmo estão ligados ao próprio sentido da palavra Tao que seria
a suprema ordem do universo, que deve ser seguida pelo praticante dessa religião.
Como aspecto harmônico do mundo, o Tao é tido como a “verdadeira base da qual
todas as coisas são criadas, ou delas jorram” (GAARDER; HELLERN; NOTAKER, 2005, p.
89). Mas não se deve confundir o Tao (criador de tudo) com o Deus das religiões monoteístas,
por exemplo, pois, embora o Tao remeta à origem do cosmos, sua representação não
encontra expressão na realidade humana, de forma que
SAIBA MAIS
Houve uma época em que período da Pré-História estava limitado ao momento em que
a escrita começou a ser utilizada pelos homens. Contudo estudos na área da linguís-
tica demonstraram que são diversas as formas de comunicação utilizada pelos seres
humanos e, por isso, o conceito tornou-se mais abrangente. Na atualidade, é consenso
entre os pesquisadores que o termo Pré-História é definidor do período que vai desde a
existência dos primeiros hominídeos até o Neolítico.
Para saber mais, você pode ler: FUNARI, P. P.; NOELLI, F. S. Pré-História do Brasil.
São Paulo: Contexto, 2009.
1 Todas as informações presentes nos próximos parágrafos são parte do resumo feito da obra HESÍOSO. Teogonia:
a origem dos deuses. 3. ed. São Paulo: Iluminuras, 1995.
No início do século XX, porém, havia mais de três mil castas na Índia, o que
demonstra a volatilidade do termo ao longo do tempo.
A base religiosa desse sistema é a noção de pureza e impureza. Pode-se nascer
impuro se tiver vindo de uma família cujo trabalho, passado de geração a geração, seja
um trabalho considerado impuro, de acordo com o sistema de castas. Manter contato com
um indivíduo de casta inferior ou mesmo sem casta, ou seja, um párea, é outro motivo que
torna alguém impuro. O método tradicionalmente utilizado para tornar o impuro puro é a
imersão em rios sagrados, como o Ganges, por exemplo.
Cristãos e muçulmanos não fazem parte do sistema de castas.
Com base no fato de que as vacas são essenciais para o sustento da vida é
que muitos hinduístas se tornam vegetarianos, pois, além da vaca, também o macaco, o
crocodilo e a cobra. De um modo geral, os hinduístas preferem não tirar uma vida. Segundo
Gaarder, Hollern e Notaker (2005), esse comportamento fomentou a ideia da não-violência
2.5 Budismo
O budismo foi criado na Índia, por Sidarta Gautama. entre os anos de 560 a 480 a.
C., mas se difundiu, sobretudo, em países da Ásia.
O princípio do Budismo está em compreender que o homem deve libertar-se do
eterno círculo vicioso de renascimentos a que está submetido pelo carma. Assim como os
hinduístas, os budistas acreditam em carma e na reencarnação. Ao contrário daqueles, no
entanto, os budistas negam a existência da alma e a existência de um ser universal, sendo
que a alma é vista como algo fugaz como tudo o mais no mundo (GAARDER; HELLERN;
NOTAKER, 2010, p. 61).
Por isso, cabe ao indivíduo desapegar-se dessa alma/eu que o aprisiona na
ignorância que cria o carma.
“De nada mais posso dizer: ‘Isto é meu’”, ensinava Buda, “e de nada posso
dizer: ‘Isto sou eu’”. Ambas as coisas são ilusões. Não há núcleo imutável
da personalidade, não existe um “eu”, um ego. Tudo é constituído de fatores
existenciais impessoais eu formam combinações fadadas a decair. Tudo é
transitório (GAARDER; HELLERN; NOTAKER, 2010, p. 61; grifos do autor).
2.6.1 Judaísmo
A primeira dessas três religiões monoteístas a propor a crença num só Deus foi
o judaísmo. As primeiras percepções que se tem dessa religião datam do século IV a. C.,
embora sua história remonte ao já citado patriarca Abraão, que teria vivido algo em torno de
1800 a. C. (DURAND, 2003, p. 11) na cidade Ur, Suméria, hoje Iraque.
O judaísmo pode ser explicado a partir de dois pontos:
A. Características tradicionais da religião;
B. O Estado de Israel.
2.6.2 Cristianismo
O cristianismo surgiu no século I da atual era e tornou-se não só uma das religiões
mais praticadas, sobretudo no ocidente, como também um divisor do tempo histórico dessas
sociedades. Sua gênese deriva da crença gerada a partir da vida, morte e ressurreição de
um jovem judeu chamado Jesus que, nascido de forma espetacular na cidade de Belém,
na Judeia, tornou-se pregador antes de ser crucificado e morto sob o domínio do governo
do império romano.
Com uma filosofia de vida baseada no amor ao próximo, o jovem Jesus atraía
pessoas de todas as idades, gêneros e grupos sociais. Tendo ao seu lado doze homens de
sua confiança, com os quais compartilhou detalhes preciosos acerca do Reino de Deus,
a quem chamava de pai, Jesus acabou sendo visto pelas autoridades romanas e por
religiosos judeus como um elemento subversivo e, por esse motivo, teria sido condenado
à morte na cruz.
Devido a certos acontecimentos relativos aos suplícios vividos antes de sua morte
e pela própria forma como morreu, Jesus ficou conhecido como o cristo, palavra que pode
significar pessoas que sofreram violência ou zombarias em nome de outros, ou ainda,
pessoa que foi crucificada. Em qualquer um dos sentidos, a palavra lembra o que aconteceu
com Jesus.
Os evangelistas registraram que, após a morte de Jesus e sua ressurreição
no terceiro dia, muitos de seus seguidores continuaram a manter sua prática religiosa,
que se tornou proibida durante o Império Romano, em catacumbas e cavernas. Quando
descobertos, porém, muitos cristãos, ou seja, seguidores do cristo (Jesus), foram torturados
e mortos sob aquele governo.
A perseguição aos cristãos sofreu uma reviravolta com a ascensão do imperador
Constantino ao governo de Roma em 306 d. C. O cristianismo passa a receber apoio
do imperador primeiro por meio do Édito de Milão de 313 d. C. e, posteriormente, com o
Concílio de Nicéia, em 326 d. C. Data desses eventos a institucionalização do cristianismo,
A religião católica tornou-se uma das instituições religiosas mais antigas da história.
Parte de sua perenidade histórica se deve à estrutura de seu campo religioso baseado na
hierarquia, na manutenção de espaços sagrados, de rituais e de mudanças estratégicas
que acomodaram o catolicismo ao mundo moderno.
Maomé tornou-se líder religioso e político. Sua atuação é vista como um dos motivos
que levou a integração dos povos que habitavam a península arábica.
A Caaba, prédio que pode ser visualizado ao centro da imagem, coberto por um
tecido negro, representa o santuário muçulmano. Para os crentes islâmicos, Meca e a
Caaba são o centro do mundo e para lá devem ser voltadas todas as orações e mesquitas
de todo o mundo. De acordo com Gaarder, Hellern e Notaker (2005, p. 140),
SAIBA MAIS
LO BIANCO, A. C.; VIDAL, N. Novas expressões da religiosidade: o que elas dizem
sobre o sujeito em sociedade hoje. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?scrip-
t=sci_arttext&pid=S1516-14982014000200001. Acesso em: 05 set. 2019.
ARMSTRONG, K. A Bíblia: uma biografia. Rio de Janeiro: Zahar, 2007. Disponível em: ht-
tps://elivros.info/ler-online/baixar-a-biblia-karen-armstrong-epub-pdf-mobi-ou-ler-online#e-
pubcfi(/6/12[body007]!/4/2/6/1:0). Acesso em: 16 set. 2019.
ARMSTRONG, K. Maomé: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. Dispo-
nível em: http://lelivros.love/book/baixar-livro-maome-karen-armstrong-em-pdf-epub-e-mo-
bi-ou-ler-online/. Acesso em: 16 set. 2019.
LIVRO
Título: Laicidade e ensino religioso no Brasil
Autor: Débora Diniz, Tatiana Lionco e Vanessa Carrião.
Editora: Brasília: UNESCO, Editora Letras Livres, Editora UnB.
Sinopse: O Brasil é um país rico em expressões culturais e
tradições religiosas. A escola é um espaço de apresentação
desse fabuloso horizonte de crenças, valores e práticas sociais.
Um importante desafio de direitos humanos é como representar
a diversidade brasileira nas ações e políticas educacionais. Este
livro enfrenta uma das facetas mais inquietantes do encontro
entre as religiões e o dispositivo da laicidade – a oferta do ensino
religioso nas escolas públicas brasileiras. De uma forma original
e sistemática, as autoras percorrem leis e livros didáticos a fim de
responder à pergunta sobre o significado do ensino religioso nas
escolas públicas brasileiras.
FILME/VÍDEO
Título: O Gato do Rabino
Ano: 2011
Sinopse: A animação francesa inspirada na graphic novel de
Joann Sfar ensina fundamentos do judaísmo com leveza e bom
humor. Nos anos 20, na Argélia, um gato come um papagaio e
ganha a habilidade de falar (pelos cotovelos!). Apaixonado por sua
dona, filha de um rabino, ele decide se converter e sonha com
seu próprio Bar Mitzvah, mas também não facilita o processo,
questionando a religião a todo o tempo. Enquanto isso, a chegada
de um artista estrangeiro leva o gato e o rabino a viajarem pela
África e encontrarem outras crenças.
Disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=xBZPv8lPID0
Plano de Estudo:
• Conceitos e Definições de Igrejas Protestantes.
• História do surgimento do Protestantismo.
• Breve histórico dos primórdios do Protestantismo no Brasil.
• O Neopentecostalismo.
Objetivos de Aprendizagem:
• Conceituar e contextualizar a Reforma Protestante ocorrida no século XVI.
• Compreender os motivos que levaram ao rompimento com a Igreja Católica.
• Conhecer as igrejas saídas da Reforma cristã no século XVI.
• Contextualizar os movimentos de inserção do Protestantismo no Brasil.
• Estudar as origens do Neopentecostalismo.
61
INTRODUÇÃO
SAIBA MAIS
As Igrejas Presbiterianas surgiram quando reformadores como Calvino e Zuínglio de-
fendiam o rompimento total com os católicos. Por defenderem que a igreja fosse dirigida
por um conselho de anciãos (os presbíteros) eleitos no seio de uma Assembleia geral de
leigos, a igreja reformada que se estabeleceu na Holanda, Suíça e Escócia passou a ser
chamada também de presbiteriana (GAARDER; HELLERN; NOTAKER, 2005, p. 209).
SAIBA MAIS
O Protestantismo, enquanto um fenômeno religioso, provocou profundas mudanças no
universo cristão, desde sua origem no século XVI até os dias atuais.
Como um movimento contestatório, apresentou igrejas, doutrinas e práticas religiosas
alternativas ao catolicismo e levou essa instituição a repensar suas ações e valores. O
maior exemplo desse repensar foi nomeado como Contra-Reforma e se caracterizou por
uma série de esforços que visavam retomar o poder temporal da Igreja Católica, recon-
verter cristãos ou comunidades inteiras que se tornaram protestantes.
Um desses esforços foi a criação do Oratório do Amor Divino, mais ou menos em 1517,
órgão responsável por criar as ordens monásticas baseadas no ascetismo e na caridade
de seus membros. Monges teatinos e capuchinhos são exemplos de ordens que busca-
ram colocar em prática o ideal do Oratório. Outras criações da Contra-Reforma foram o
Concílio de Trento, ocorrido entre os anos de 1545 e 1563, a criação da Companhia de
Jesus e do Tribunal da Inquisição. Três instituições cujos objetivos eram, dentre outros,
recuperar o poder temporal e espiritual perdidos pela Igreja Católica frente à alternativa
Protestante (CAIRNS, 1995, passim).
LIVRO
Título: Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no
Brasil
Autor: Ricardo Mariano
Editora: Loyola
Sinopse: Este livro analisa o neopentecostalismo, vertente
pentecostal responsável pelas principais transformações
teológicas, estéticas e comportamentais que vem passando o
movimento pentecostal. Elaborado e escrito em uma perspectiva
sociológica e baseado em extensa pesquisa empírica, almeja, além
de familiarizar o leitor com a história das crenças, das práticas e
do funcionamento das igrejas neopentecostais, atestar a ruptura
como o ascetismo contracultural e a progressiva acomodação
desses religiosos e suas denominações à sociedade e à cultura
de consumo. Mudanças consideráveis, de caráter secularizante,
cujos efeitos mais visíveis têm consistido em torná-los cada vez
menos distintos e, por consequência, cada vez menos um retrato
negativo dos símbolos de nossa brasilidade.
FILME/VÍDEO
Título: Lutero: gênio, rebelde, libertador
Ano: 2003
Sinopse: Após quase ser atingido por um raio, Martim Lutero
(Joseph Fiennes) acredita ter recebido um chamado. Ele se
junta ao monastério, mas logo fica atormentado com as práticas
adotadas pela Igreja Católica na época. Após pregar em uma
igreja suas 95 teses, Lutero passa a ser perseguido. Pressionado
para que se redima publicamente, Lutero se recusa a negar suas
teses e desafia a Igreja Católica a provar que elas estejam erradas
e contradigam o que prega a Bíblia. Excomungado, Lutero foge e
inicia sua batalha para mostrar que seus ideais estão corretos e
que eles permitem o acesso de todas as pessoas a Deus.
Disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=PlP-Xt4LLNg
Plano de Estudo:
• Conceito e Definição de religiosidade.
• Panorama das religiões e religiosidades no Brasil.
• Garantia do Estado brasileiro à pluralidade religiosa.
Objetivos de Aprendizagem:
• Compreender a diversidade, pluralidade e complexidade do campo religioso brasileiro.
• Problematizar a questão da intolerância religiosa no Brasil.
• Estabelecer a relevância da disciplina de Ensino Religioso para a promoção do respeito
à pluralidade religiosa.
78
INTRODUÇÃO
Olá!
Estamos chegando ao final do nosso curso introdutório à metodologia do Ensino
religioso.
Nessa última unidade o estudo recairá sobre a religião e as religiosidades praticadas
no Brasil, desde antes da chegada dos portugueses até os dias atuais.
Assim, nossa caminhada se iniciará com o estudo do conceito de religiosidade,
visto a partir da perspectiva da ideia de sagrado, já estudada na Unidade II. Afinal, estudar o
sagrado e suas manifestações nos dá uma dimensão mais precisa sobre como o fenômeno
religioso é visto e vivido pelos mais diferentes grupos.
Dada a diversidade de religiões e religiosidades presentes na sociedade brasileira,
no segundo tópico faremos um levantamento dos dados relativos a essas manifestações,
considerando os dados do censo demográfico do IGBE para o ano de 2010, quando a
instituição comparou o número de praticantes das mais diversas denominações para o ano
de 2010 com os números de praticantes do ano 2000. Por meio dessa visão panorâmica
teremos acesso à dimensão múltipla de nossa religiosidade.
No terceiro tópico você irá estudar alguns elementos da religiosidade indígena,
considerando dois momentos: um imediato à chegada dos europeus, no século XVI, e outro
mais atual, pertinente ao universo religioso e cosmogônico da Nação Kaingang.
No quarto tópico nossa discussão será realizada a partir do Relatório sobre
Intolerância e Violência Religiosa no Brasil (RIVIR), que é resultado da pesquisa realizada
por diversas pastas governamentais voltadas para a promoção dos Direitos Humanos na
sociedade Brasileira. Nesse tópico, ainda, serão vistos os porquês da escolha do dia 21 de
janeiro como a data em comemoração ao Dia Nacional do Combate à Intolerância Religiosa
no país.
Com esses temas e conteúdos a pretensão é a de que você, estudante e futuro
professor(a) da disciplina de Ensino Religioso, tenha uma visão do atual campo religioso
brasileiro de forma problematizada. Isto é, que compreenda que na contemporaneidade
não só persistem os conflitos entre as diversas religiões presentes, como também perceba
que a disciplina, que ora finalizamos, pode ser um instrumento de promoção de respeito
entre as diversas manifestações do sagrado em nossa sociedade.
Vamos lá?
O Brasil é construído por diversos povos, etnias, culturas e histórias e mostra sua
diversidade em diferentes aspectos de sua cultura, como a culinária, a linguagem regional,
os sotaques, o modo de vestir, de cantar, de contar, de relação com o sagrado etc. Todos
esses aspectos, por sua vez, foram sendo construídos, transformados e traduzidos ao
longo de nossa história, de forma que não é possível pensá-la sem ter em mente essa
constituição multiétnica e multicultural.
Portanto, estudar as religiões e religiosidades no Brasil na atualidade consiste em
compreender que nossa organização social é plural em sua essência e em sua prática.
Tendo em vista essa premissa, neste tópico nosso foco será o estudo das religiões
e religiosidades cujas práticas ocorrem no Brasil, considerando os dados do IBGE para o
censo populacional por religiões, no qual foram comparados os dados dos anos 2000 e
2010. Iniciemos observando o gráfico e a tabela a seguir.
Quadro 1 - Campos que compuseram o censo populacional por religiões 2000-2010 pelo
IBGE
Católica Apostólica Ro- Evangélicas de Missão Evangélicas de Outras declara- Tradições indígenas
mana – outras origem pentecostal ções de religiosi-
– Igreja Maranata dades afro-brasi-
leira
Católica Romana Evangélicas de origem Evangélicas – ou- Judaica Outras religiosidades
pentecostal tras religiões evan-
gélicas
Católica Apostólica Bra- Evangélicas de origem Evangélica não Judaísmo Outras
sileira pentecostal – Igreja As- determinada
sembleia de Deus
Católica Ortodoxa Evangélicas de origem Evangélica tradi- Hinduísmo Sem religião
pentecostal – Igreja cional
Congregação Crista do
Brasil
Evangélicas Evangélicas de origem Outra cristã - Ou- Judaica ou Israe- Sem Religião – sem
pentecostal – Igreja o tras religiosidades lita religião
Brasil para Cristo cristãs tradicional
Evangélicas de Missão Evangélicas de origem Igreja de Jesus Religiões orien- Sem religião – Ateu
pentecostal – Igreja Cristo dos Santos tais
Evangelho Quadrangu- dos Últimos Dias
lar
Evangélicas de Missão Evangélicas de origem Evangélica Pente- Budismo Sem religião – Ag-
Adventistas do Sétimo Dia pentecostal – Igreja Uni- costal nóstico
versal Reino de Deus
Evangélicas de Missão Evangélicas de origem Cristã Reformada Islâmica Não determinada –
– Igreja Evangélica Lute- pentecostal – Evangelho não determinada múltiplo pertencimen-
rana Quadrangular to
Mesquita Brasil, na Avenida do Estado, cidade de Odu Irosun, Merindilogun, quatro búzios abertos,
São Paulo, Brasil Candomblé, Salvador, Bahia, Brasil
Fonte: Moraes (2007). Fonte: Toluaye (2008).
Sinagoga Kahal Zur Israel - Recife, Pernambuco, Molhe de Iemanjá na Praia do Canto, Vitória, ES
Brasil Fonte: Santo (2015).
Fonte: Abdias Junior (2013).
Inclusive, a visitação aos edifícios e instalações religiosas tem sido uma das
atrações mais procuradas em viagens turísticas, quer seja por meio de guias ou em
viagens particulares. Além disso, os estudos acadêmicos sobre as religiões e religiosidades
brasileiras têm aumentado, sobremaneira a partir dos anos 1980, quando a História Cultural
Não que a Umbanda negue que tenha sofrido influência africana, ela apenas prefere
ser identificada com características afro-brasileiras, mas, como dito anteriormente, com
raízes na cultura brasileira. Além disso, desde suas origens, a Umbanda abriu suas portas
para todos os brasileiros, não somente para os afro-brasileiros, tornando-se, desde seus
primórdios, numa religião “visivelmente multiétnica, com uma forte presença de brancos
em seus quadros, mesmo entre pais-de-santo” (GAARDER; HELLERN; NOTAKER, 2005,
p. 319).
Já o Candomblé se apresenta como uma religião de matriz africana.
O Candomblé é uma religião que se organiza a partir do culto aos Orixás, In-
quices e Voduns, divindades originárias do panteão africano, mas também in-
cluem as Entidades do universo mítico-religioso do Brasil, tais como Caboclos
e Marujos, considerados, por alguns, espíritos de antepassados e geralmente
subordinados àquelas outras divindades supracitadas. A divindade suprema
é Olorum, o criador do mundo que designou a criação e a sua manutenção às
divindades acima. Olorum não tem culto direto. Seu culto é feito através das
divindades que ordenam o mundo e a vida das pessoas (GÓIS, 2013, p. 323).
Relevante registrar que o Candomblé não se caracteriza por ser uma religião ética,
como o são as religiões de matriz cristã. Isso quer dizer que no Candomblé, por exemplo, não
existe a noção de pecado, como acreditam os cristãos. Como as divindades do Candomblé
são muitas, o que o caracteriza como uma religião politeísta,, torna-se impossível traçar
um código de conduta que possa ser aplicado a todos os indivíduos e muito menos a todos
os seres humanos “uma vez que (os orixás) são muitos e a distinção entre o bem e o mal
depende basicamente da relação entre cada seguidor e seu deus pessoal” (GAARDER;
HELLERN; NOTAKER, 2005, p. 313).
Nesse sentido, o Candomblé apresenta uma forma particular de prática entre seus
seguidores, que agem de acordo com os tabus relativos ao seu orixá. Por meio do jogo de
búzios fica-se sabendo qual é o seu orixá e essa é uma premissa essencial para os devotos
e aspirantes a devoto. Após feito o reconhecimento da divindade que é o senhor de sua
“cabeça”, o devoto passa a agir conforme seu orixá, tanto suas qualidades quanto seus
defeitos (GAARDER; HELLERN; NOTAKER, 2005, passim).
Outra religião que cresceu nos últimos anos foram as denominações evangélicas.
Termo polissêmico e certamente impreciso para definir as pentecostais, sobretudo quando
se observa no Quadro 1 que foram classificadas sobre essa denominação um total de 31
igrejas, num universo de 68 religiões e religiosidades presentes na listagem do IBGE.
1 Para mais detalhes sobre a religiosidade neopentecostal ver a Unidade III desta apostila.
Flores (2003) informa que a religiosidade indígena prima pelo silêncio e pelo rito,
porque as palavras são incapazes de expressar todas as experiências de mergulho no
sagrado vivenciadas por aqueles povos, não havendo a sobrecarga de um olhar divino
punitivo, numa comparação com o universo cristão, marcado pela ideia de pecado e de
salvação.
Dessa comparação e numa referência ao encontro ocorrido com os europeus
cristãos, Flores (2003, p. 14) destaca que o perfil das comunidades indígenas no Brasil diz
respeito à própria vida do índio, em sua cotidianidade que é impregnada de religiosidade
[...] uma numerosa população indígena que se encontrava no litoral não fazia
muito tempo. Tinha se estabelecido ali, perto da praia, graças à destreza
de seus guerreiros e ao incentivo de certos homens. Homens considerados
especiais, que tinham o poder de conversar com os mortos, os espíritos dos
ancestrais. A esses homens chamavam de caraíbas (VAINFAS, 1995, p. 13).
Aspectos culturais desses povos podem ser observados a partir do Ritual do Kiki,
momento em que a população rememora seu mito cosmogônico, de forma a garantir a
ordem da sociedade e o contato com os elementos sagrados dessa relação.
Para a compreensão do Ritual do Kiki, portanto, é necessário conhecer o mito de
criação desse povo, que é contado através dos heróis ancestrais Kamé e Kairu. De acordo
com a cosmogonia Kaingang, Kamé e Kairu teriam sido os primeiros indivíduos a saírem
da Terra, cada um tendo trazido consigo um número de integrantes e dado origem à Nação
Kaingang. Por esse motivo, os Kaingang costumam dividir os membros de sua Nação em
Kamé e Kairu, como uma forma de manter a organização de sua sociedade, ou seja, da
unidade e a harmonia cosmogônica de seu povo (VEIGA, 2006).
COSMOGONIA KAINGANG
Gêmeos civilizadores
Kamé Kairu
Oeste Leste
O quarto tópico dessa unidade traz uma discussão vinculada aos atos de violência
e intolerância religiosa praticados em nossa sociedade e que tem sido alvo de estratégias
por parte do governo no sentido de coibi-las, sobretudo, por meio de documentos e
relatórios pertinentes ao tema. Esse debate será realizado considerando artigos presentes
na Constituição Brasileira de 1988 e no Relatório sobre a violência e intolerância no Brasil
(RIVIR) publicado no ano de 2016 pelo governo federal.
Em 15 de novembro de 1889, o Brasil tornou-se um Estado laico, de forma que em
nossa sociedade inexiste uma religião oficial. Ainda que nossa história remeta a um vínculo
acentuado entre a Igreja Católica e o governo, com o advento da República, o Estado passou
a reconhecer a igualdade e a liberdade de culto para as demais religiões aqui estabelecidas,
cujas atividades, quando comparadas ao catolicismo, eram sistematicamente limitadas.
Não foi um processo rápido e isento de conflitos, mas os pouco mais de cem anos que
nos separam do evento republicano fortaleceram a existência de diferentes manifestações
religiosas, não excluindo a intolerância.
A existência de organismos e de artigos presentes na própria Constituição voltados
para a proteção do direito à liberdade de culto denuncia que, embora o Estado seja laico,
ainda existem práticas de violência e intolerância religiosa, inclusive com atentados à vida
de cidadãos e cidadãs, que precisam ser conhecidos para que estratégias e diretrizes sejam
criadas de forma a inibir ou mesmo punir tais ações (BRASIL, 2016).
A tentativa e posicionamento do Estado em fortalecer a tolerância religiosa presente
na Constituição Federal, por exemplo, pode ser verificada através do Artigo 5º e dos incisos
VI, VII e VIII:
Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, ga-
rantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabili-
Vistos como iguais perante a lei, todos os cidadãos e cidadãs brasileiros carregam
consigo o direito de expressar sua religiosidade, tendo inclusive garantida a liberdade e
proteção de seu culto e locais sagrados, algo que havia sido suprimido dos protestantes,
por exemplo, durante o Império do Brasil.
Entretanto, embora a Carta Magna seja explícita em relação à liberdade religiosa
no país, a publicação, no ano de 2016, do RIVIR mostra que, na prática, alguns cidadãos
e cidadãs têm fomentado o inverso do proposto do documento. Com o RIVIR, o governo
federal pretendeu identificar a presença de atos de violência e intolerância religiosa na sociedade
brasileira e, com essas informações, estabelecer diretrizes e estratégias para a promoção do
respeito à diversidade religiosa (BRASIL, 2016).
A citação a seguir sintetiza a premissa sobre a qual o Relatório foi criado:
Pela citação é possível observar que não só o proposto no RIVIR, mas também
na Constituição remetem a um documento de origem internacional, que é a Declaração
Universal dos Direitos Humanos (DUDH). Publicada em 1948, a DUDH representa o intento
da sociedade ocidental em inibir acontecimentos como os ocorridos durante a Segunda
Grande Guerra, quando populações inteiras foram mortas e pessoas violentadas em seus
corpos, mentes, cultura, sexualidade e religião.
Na obra publicada em 2009, intitulada A invenção dos Direitos Humanos, uma
história, a historiadora Lynn Hunt convida o leitor a buscar os parâmetros sobre os quais
a Declaração Universal dos Direitos Humanos foi escrita, considerando tanto elementos
de ordem histórica quanto culturais. Nessa busca pela história da escrita da Carta Magna,
Hunt viaja até o ano de 1776, quando Thomas Jefferson resenhou aquela que viria a ser
a Declaração de Independência norte americana; passa pela Revolução Francesa e a
1) Agressões físicas;
2) Ataques a imóveis e/ou de objetos simbólico-sagrados;
3) Nas Mídias e Redes Sociais;
4) No Cotidiano;
5) Racismo;
6) Nas Escolas;
7) Conflitos no ambiente de trabalho;
8) Questões fundiárias, terra e propriedade;
9) Laicidade, ateísmo (BRASIL, 2016, p. 37).
SAIBA MAIS
Você sabia que o Tribunal da Inquisição esteve presente no Brasil? Um exemplo dessa
presença é dado pela ação dessa instituição sobre um movimento religioso que ficou co-
nhecido como a Santidade de Jaguaripe. Essa Santidade ocorreu provavelmente entre
os anos de 1580 e 1585, no Recôncavo Baiano, e as evidências sobre esse fenômeno
são parte de um processo promovido pela Santa Inquisição por ocasião de sua primeira
visita ao Brasil, em 1590, não havendo informações precisas sobre a data exata de sua
ocorrência. Faziam parte da Santidade de Jaguaripe índios tupinambás, geralmente
egressos de fazendas ou reduções jesuítas, ou seja, índios que já haviam sofrido o
processo de infiltração da cultura cristã católica em seu universo cosmológico. Além dos
índios, a santidade também acolhia negros fugitivos de fazendas de cana-de-açúcar e
mamelucos, homens que “desde o nascimento eram cultural e religiosamente híbridos”
(VAINFAS, 2005, p. 181), dominavam tanto a língua geral como o português e, por isso,
sabiam sempre a que melhor se adaptava aos seus interesses. Reprimida, a Santidade
deixou de existir, sendo que seu líder, o caraíba Antônio Tamandaré, homem que já ha-
via passado pelos conhecimentos jesuítas, perdeu-se na mata de forma que dele não
se tem notícia.
LIVRO
Título: Tolerância e intolerância nas manifestações religiosas.
Autor: Ivan A. Manoel e Solange Ramos Andrade
Editora: UNESP
Sinopse: “Segundo Encontro Nacional do GT História das
Religiões e das Religiosidades”, realizado na FHDSS / UNESP –
Franca, 13 a 16 de outubro de 2008, dedicado à discussão do
tema da tolerância e da intolerância nas manifestações religiosas,
abrangendo, em suas palestras e conferências, mesas-redondas
e simpósios, contribuições de alguns dos mais importantes
pesquisadores que se debruçam sobre o tema nas mais diversas
áreas de intersecção das religiões com as esferas científicas,
literárias, artísticas, jurídicas e pedagógicas desenvolvidas ao
longo do tempo histórico.
LIVRO
Título: Relatório de Intolerância e Violência Religiosa - RIVIR
(2011-2015)
Autor: Brasil. Ministério da Mulher, da Igualdade Racial, do Jovem
e dos Direitos Humanos.
Editora: Brasília: Secretaria Especial de Direitos Humanos.
Sinopse: O presente Relatório sobre Intolerância e Violência
Religiosa (RIVIR) reúne dados de abrangência nacional, cobrindo
o período de 2011 a 2015, que foram preparados por uma equipe
de pesquisadores que atuaram no âmbito da Secretaria Especial de
Direitos Humanos, de dezembro de 2015 a maio de 2016, dentro de
projeto desenvolvido em parceria com a Organização dos Estados
Ibero-americanos (OEI) e tendo apoio da Escola Superior de
Teologia (EST). Esta iniciativa se insere num contexto mais amplo
de esforços do governo federal no sentido de melhor identificar a
presença de atos de violência e intolerância religiosa na sociedade
brasileira, para diante destas informações estabelecerem diretrizes
e estratégias mais adequadas para a promoção do respeito à
diversidade religiosa.
Disponível em:
https://www.mdh.gov.br/informacao-ao-cidadao/participacao-
social/cnrdr/pdfs/relatorio-de-intolerancia-e-violencia-religiosa-
rivir-2015/view
Disponível em:
http://www.ufrgs.br/ner/index.php/estante/arquivo-a-campo/63-
documentarios-sobre-religioes-afro-brasileiras
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disciplina de Ensino Religioso, que é parte da grade curricular das escolas brasileiras.
Nesse sentido, busquei elaborar uma narrativa na qual a reflexão científica sobre
sociedade. Assim, vimos que uma vivência religiosa não pressupõe apenas a participação
em uma igreja institucionalizada e sim, uma prática envolvida com a ideia de sagrado.
sociedade de forma que sua existência e direito de manifestação é garantida desde de que
nosso país tornou-se um governo laico, o que foi reforçado pela Carta Magna de 1988.
Mas, vimos também que a intolerância religiosa é uma realidade presente no Brasil
com ações envolvendo violência física e psicológica cujo teor de gravidade foi medido pelo
nossa sociedade!