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Saúde Homem

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Psicologia em Estudo

ISSN: 1413-7372
revpsi@uem.br
Universidade Estadual de Maringá
Brasil

Windmöller, Naiara; Zanello, Valeska


DEPRESSÃO E MASCULINIDADES: UMA REVISÃO SISTEMÁTICA DA LITERATURA
EM PERIÓDICOS BRASILEIROS
Psicologia em Estudo, vol. 21, núm. 3, julio-septiembre, 2016, pp. 437-449
Universidade Estadual de Maringá
Maringá, Brasil

Disponível em: http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=287148579008

Como citar este artigo


Número completo
Sistema de Informação Científica
Mais artigos Rede de Revistas Científicas da América Latina, Caribe , Espanha e Portugal
Home da revista no Redalyc Projeto acadêmico sem fins lucrativos desenvolvido no âmbito da iniciativa Acesso Aberto
Doi: 10.4025/psicolestud.v21i3.31896

DEPRESSÃO E MASCULINIDADES: UMA REVISÃO SISTEMÁTICA DA LITERATURA


EM PERIÓDICOS BRASILEIROS1

Naiara Windmöller
2
Valeska Zanello
Universidade de Brasília, Brasil.

RESUMO. O presente trabalho teve como objetivo fazer um levantamento bibliográfico e uma revisão
sistemática da literatura brasileira publicada acerca do tema "depressão masculina" entre os anos de 2003
e 2013, nas principais plataformas brasileiras LILACS e SciEL O Brasil. Buscou-se não apenas mapear
esses estudos, mas analisar se e como os estudos das masculinidades têm contribuído para esse campo.
Para tanto, foram utilizados oito descritores de gênero e nove de saúde mental/depressão. Foram
encontrados na plataforma LILACS 1.378 artigos e, na base SciELO, 386. Os trabalhos científicos que não
trataram a depressão como foco principal foram descartados, assim como aqueles que estudavam a
depressão como decorrente de doenças físicas. Apenas 17 artigos enquadraram -se nos critérios de
inclusão. Dentre eles, 15 utilizaram a metodologia quantitativa, usando testes psicométricos, e 14 destes
tiveram como objetivo fazer um levantamento epidemiológico comparativo com as mulheres. Entre os
principais fatores associados à depressão, apontados para todas as faixas etárias analisadas (jovens,
adultos e velhos), estão baixa escolaridade, classe social, desemprego e estado civil (não ter uma
companheira). De forma predominante, o fenômeno da depressão não foi analisado, levando -se em
consideração os estudos das masculinidades e de raça/etnia. Além disso, apenas duas pesquisas
realizaram entrevistas com os homens, o que aponta a invisibilidade de pesquisas qualitativas e um
incipiente número de pesquisas que os escutem. A contribuição do presente estudo é apontar justamente
essa lacuna.
Palavras-chave: Masculinidade; depressão; saúde mental.

DEPRESSION AND MASCULINITIES: A SYSTEMATIC LITERATURE REVIEW OF


BRAZILIAN JOURNALS

ABSTRACT. The aim of this study was to search for and make a systematic review of the literature
published on the issue "male depression" in the Brazilian scientific databases LILACS and SciELO Brazil,
from 2003 to 2013. It investigates whether and how the study of masculinities has contributed to this field.
We used eight gender descriptors and nine mental health/depression descriptors. LILACS returned 1378
articles and SciELO 386. The articles that have not dealt with depression as the main focus were
discarded, as well as those that studied depression as a result of physical illnesses. Only 17 articles have
fulfilled the inclusion criteria. Fifteen of those used quantitative methodology including psychometric tests;
and 14 of them aimed at comparing male and female epidemiological data. Among the main factors
associated with depression reported at all age groups analyzed (youth, adults and older populations) are
low level of education, social class, unemployment and marital status (not having a partner). Predominan tly
depression has not been analyzed taking into account the studies on masculinities and race/ethnicity.
Besides, only two of the surveys conducted interviews with men pointing, therefore, the invisibility of
qualitative research and pauper number of research that listen to men. This study contributes with pointing
out this gap.
Keywords: Masculinities; depression; mental health.

1
Apoio e financiamento: Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq)
2
E-mail: valeskazanello@uol.com.br

Psicologia em Estudo, Maringá, v. 21, n. 3, p. 437-449, jul./set. 2016


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DEPRESIÓN Y MASCULINIDADES: UNA REVISIÓN SISTEMÁTICA DE LA


LITERATURA EN PERIÓDICOS BRASILEÑOS

RESUMEN. El presente estudio tuvo como objetivo hacer una investigación y una revisión sistemática de la literatura
publicada acerca del tema “depresión masculina” en las plataformas científicas LILACS y SciELO Brasil, de 2003 a
2013. Se buscó no sólo para mapear estos estudios, analizar si y como el estudio de las masculinidades han
contribuido a este campo. Para tanto, se utilizó ocho descriptores de género y nueve de salud mental/depresión. Se
encontró en la plataforma LILACS 1378 y en la base SciELO 386. Los estudios científicos no han tratado la depresión
como el foco principal se descartaron, así como los que estudiaron la depresión como resultado de enfermedades
físicas. Sólo 17 artículos se encuadran en los criterios de inclusión. Entre ellos, 15 utilizaron la metodología cuantitativa,
incluyendo pruebas psicométricas y 14 de ellos tuvieron como objetivo hacer un levantamiento epidemiológico
comparativo con las mujeres. Entre los principales factores asociados a la depresión señalados para todos los rangos
etarios analizados (jóvenes, adultos y viejos) están la baja escolaridad, clase social, desempleo y estado civil (no tener
pareja). De forma predominante, el fenómeno de la depresión no fue analizado llevando en consideración los estudios
de las masculinidades y de la raza/etnia. Además de eso, sólo en dos investigaciones se realizaron entrevistas con
hombres, lo que apunta a invisibilidad de investigaciones cualitativas y un incipiente número de investigaciones que los
escuchen. La contribución de este estudio es precisamente apuntar esta omisión.
Palabras-clave: Masculinidad; depresión; salud mental.

Se a masculinidade se ensina e se constrói não há dúvida de que ela pode mudar. No século XVIII,
um homem digno deste nome podia chorar em público e ter vertigens; no final do século XIX, não o
pode mais, sob pena de comprometer sua dignidade masculina. O que constitui pode, portanto, ser
demolido para ser novamente construído (Badinter, 1993, p. 23).

Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) apontam que, em média, uma em cada 20
pessoas relatou ter um episódio de depressão no ano anterior, bem como esta afeta aproximadamente
350 milhões de pessoas; sendo que há perda de quase 1 milhão de vidas, decorrente do suicídio, o
que se traduz em 3.000 mortes todos os dias (Who, 2012).
Na maioria dos países, a depressão varia de 8% a 12%. As diferentes culturas e os diferentes
fatores de risco parecem afetar a expressão da depressão, porém alguns deles são comuns. Aspectos
como pobreza, baixa escolaridade, familiares com depressão, exposição à violência, estar separado ou
divorciado, especialmente no caso dos homens, e outras doenças crônicas estão altamente
correlacionados com a depressão. Além disso, destaca-se uma diferença epidemiológica importante: a
depressão ocorre, em média, duas a três vezes mais em mulheres do que em homens (WHO, 2012).
Segundo Zanello (2014), faz-se necessário que os dados epidemiológicos sejam tomados como
dados construídos, e não como fatos. Para tanto, deve-se levar em consideração, antes do
levantamento estatístico, a descrição sindrômica do que se denomina atualmente de "Depressão".
Autores, tais como Shear, Halmi, Widiger e Boyce (2007), Phillips e First (2008), Widiger e First
(2008) e Zanello (2014), têm apontado o gendramento da descrição desse quadro clínico. Para Lutz
(1985), o estado emocional de tristeza é visto como uma das características definidoras do estado
patológico de depressão, se não o mais central. Zanello (2014) sublinha, nesse sentido, a presença de
"choro", dado como exemplo do sintoma de tristeza em um dos principais manuais de classificação dos
transtornos mentais (DSM- Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais). Porém sua
expressão é mediada pelos valores de gênero. Na cultura ocidental, os homens são subjetivados em
um ideal hegemônico de virilidade, no qual se deve suprimir a expressão afetiva de fragilidade, o que
os leva a raramente chorar em público ou na frente de outra pessoa (Zanello, 2014).
A ausência desse sintoma poderia levar à não percepção da tristeza em muitos homens e,
consequentemente, ao não diagnóstico de depressão dentre eles. Zanello (2014) aponta, assim, a
falibilidade de se fiar em dados epidemiológicos na área de saúde mental, sem criticar sua base
epistemológica, sobretudo pelo viés de gênero. Nesse sentido, a falta de questionamento poderia levar
a um hiperdiagnóstico de depressão entre mulheres e a um subdiagnóstico no caso dos homens.

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Levando em consideração essa perspectiva, autores tais como Phillips e First (2008) e Widiger e
First (2008) propõem soluções para a manutenção dos grandes manuais de classificação diagnóstica a
partir de levantamento feito da literatura sobre esse debate. De um lado, há quem sugira que haja
descrição de sinais e sintomas de certas síndromes, de forma diferenciada para homens e mulheres;
por outro lado, há quem discorde da necessidade dessa descrição diferenciada e aponte que a
diferença deveria ocorrer no número de sintomas necessários para perfazer a síndrome, caso fosse
um homem ou uma mulher. Apesar da existência dessas críticas, realizadas, sobretudo, ao DSM IV,
não houve mudanças significativas nesses quesitos no DSM V.
A construção cultural da(s) masculinidade(s) parece, portanto, afetar a expressão do sofrimento
por parte dos homens. De acordo com Welzer-Lang (2001), as masculinidades são configurações de
práticas sociais e culturais que passam por aprendizados, atos, códigos, performances e ritos. O
aprendizado de ser homem começa na infância, espaços sociais, clube, escola e principalmente entre
os seus pares. Segundo o autor, os códigos viram rito e, depois, operadores hierárquicos. Em nossa
cultura, essa aprendizagem se faz no sofrimento, na dor de ter que competir, ser melhor, endurecer o
corpo, não expressar fragilidade. O mimetismo dos homens seria um mimetismo de violências: (1)
violência inicialmente contra si mesmo; (2) violência - guerra contra os outros. Em suma: são
construções que passam por ideais de uma virilidade fabricada, sempre no imperativo - dever de ser
homem - e no negativo - de não se assemelhar às mulheres (Badinter, 1993; Welzer-Lang, 2001).
Por consequência desses marcadores, dá-se uma aprendizagem viril que se constrói no paradigma
homofóbico. Ou seja, a discriminação contra as pessoas que mostram, ou apresentam, algumas
características atribuídas ao outro gênero. Isso garante aos “grandes homens’’ privilégios à custa das
mulheres (como todos os homens), mas também à custa dos próprios homens - “próprios pares”.
Nesse duplo poder estruturam-se as hierarquias masculinas (Welzer-Lang, 2001).
A ideia de uma hierarquia das masculinidades cresceu diretamente a partir da violência sofrida por
homens homossexuais e do preconceito dos homens heterossexuais. Apenas, talvez, uma minoria dos
homens adote a masculinidade hegemônica. Porém ela não deixa de ser normativa. Há um
descompasso entre a essencialização do conceito e a tremenda multiplicidade das construções sociais
que etnógrafos/as e historiadores/as têm documentado com o auxílio desse conceito. A característica
fundamental dessa categoria continua a ser a combinação da pluralidade e a hierarquia entre as
masculinidades, sendo a ideal/hegemônica a branca e heterossexual (Connell & Messerschmidt, 2013;
Pereira, 2014).
Diante do exposto, questiona-se como a configuração cultural das masculinidades, na cultura
ocidental, comparece e contribui para a configuração e expressão dos transtornos mentais,
especificamente da depressão em homens. Trata-se de uma questão relevante.
A saúde dos homens começou a ser estudada nos fins da década de 1970 e o processo saúde e
doença masculina, nos anos 1990 (Medrado, Lyra, & Azevedo, 2011). Apesar dos avanços na área da
saúde (geral) do homem, os estudos sobre sua saúde mental são ainda bastante incipientes.
Levando em consideração a contribuição que os estudos das masculinidades podem aportar para
o campo de saúde mental, especificamente para a compreensão da depressão em homens, o presente
estudo buscou realizar um levantamento bibliográfico e uma revisão sistemática da literatura brasileira
publicada entre os anos de 2003 e 2013 sobre o tema "depressão masculina", nas principais
plataformas brasileiras LILACS e SciELO Brasil.

Metodologia

Neste artigo, foram realizados um levantamento bibliográfico e uma revisão sistemática da


literatura sobre o tema "depressão em homens", em duas grandes plataformas científicas brasileiras
LILACS (Base de dados da Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde) e SciELO
Brasil (biblioteca eletrônica que integra periódicos científicos do Brasil, da América Latina e do Caribe).
A revisão sistemática consiste em fazer um levantamento de estudos já publicados sobre um tema
específico com o intuito de buscar respostas a determinadas questões, o que exige a definição de um

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problema de pesquisa, uma estratégia de busca de estudos, estabelecimento de critérios de inclusão e


exclusão dos artigos, a fim de que seja feita uma análise criteriosa acerca da qualidade da literatura
selecionada (Costa & Zoltowski, 2014; Petticrew & Roberts, 2006).
Essas plataformas científicas foram escolhidas por agregarem grande parte dos periódicos
brasileiros qualificados. LILACS é um índice bibliográfico da literatura relativa às ciências da saúde a
partir de 1982 (congrega aproximadamente 1.500 periódicos, indexados e não indexados). Já a
plataforma SciELO é uma biblioteca eletrônica que abrange uma coleção de periódicos científicos e
disponibiliza, gratuitamente, os textos completos de artigos de inúmeras revistas científicas. Dentro das
suas ferramentas de busca, é possível selecionar uma pesquisa restrita ao SciELO Brasil, que está
vinculada somente a periódicos brasileiros. A pesquisa foi realizada nessa plataforma, visto que o
objetivo deste trabalho era fazer um levantamento das produções brasileiras acerca do tema.
O período recortado foi o intervalo entre os anos 2003 a 2013. A busca foi realizada nos meses de
agosto e setembro de 2014. Já a análise foi realizada de agosto de 2014 a agosto de 2015. O
levantamento foi dividido em seis etapas: a) levantamento numérico de publicações e exclusão dos
repetidos; b) levantamento dos resumos dos artigos; c) classificação por tema; d) leitura do artigo; e)
categorização; f) análise. O processo foi realizado por duas pessoas. Não houve conflito de interesses.
Foram utilizados dois grupos de descritores. O primeiro relacionado a homem com oito descritores:
homem; homens; gênero; masculinidade; masculinidades; virilidade; masculina; masculino. O segundo
relacionado à depressão com nove descritores: depressão; quadro depressivo; transtorno depressivo;
transtorno depressivo maior; transtorno de humor; loucura; sofrimento mental; sofrimento psíquico;
saúde mental, totalizando 72 combinações.
Para a pesquisa nas plataformas, os descritores foram utilizados com operadores booleanos
(AND), bem como o truncamento (asterisco) para as variações da palavra. Foram encontrados
inicialmente na base LILACS e SciELO Brasil, respectivamente, 1.378 e 386 artigos.
Todos os resumos foram lidos e analisados. Foram retirados os repetidos. Os critérios de inclusão
foram os seguintes: a) tratar da depressão seja como fenômeno sociocultural, doença, síndrome,
transtorno e/ou por um conjunto de sintomas; b) ter homens ou homens e mulheres como sujeitos da
pesquisa; c) pesquisas referentes ao público brasileiro, realizadas sob qualquer filiação institucional
nacional ou global; d) desconsideração das dissertações e das teses; e) foram levadas em
consideração todas as faixas etárias, exceto menores de 16 anos.
Importante destacar que nem sempre esses dados ficavam evidentes no resumo. Nesses casos,
os artigos foram inclusos para análise minuciosa posterior. Aplicados os critérios de inclusão, restaram,
nas bases LILACS e SciELO Brasil, 60 e 80 artigos, respectivamente. Esses artigos foram lidos na
íntegra e submetidos a uma análise a partir da seguinte classificação: foco (depressão como assunto
central), fundo (depressão dentro de um conjunto de “transtornos” e/ou “patologias”), primária
(depressão não decorrente de doenças físicas) e secundária (depressão decorrente de alguma
alteração de cunho biomédico, intervenção cirúrgica e/ou outras intercorrências).
Após a leitura minuciosa de todos os artigos, mais 45 foram descartados (das duas plataformas)
por diversos motivos, tais como tratarem de depressão bipolar; não se ocuparem efetivamente da
depressão; pesquisas anteriores a 2003 ou posteriores a 2013; e por fim não se referirem ao público
masculino.
Finalmente, restaram em cada grupo os seguintes: foco primário (10 artigos no LILACS e 7 no
SciELO Brasil); foco secundário (4 artigos no LILACS e 15 no SciELO Brasil); fundo primário (9 artigos
no LILACS e 27 no SciELO Brasil); fundo secundário (5 artigos no LILACS e 18 no SciELO Brasil).
Após a classificação nas duas bases científicas, foram selecionados somente os 17 artigos que
tratavam da depressão como foco total (depressão como assunto central e excluídos os artigos que
levavam em consideração outras psicopatologias) e primário (depressão não decorrente de doenças
físicas).

Figura 1. Passos utilizados no método de seleção de artigos da revisão sistemática realizada.

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Primeira Etapa: levantamento Segunda Etapa: leitura dos


numérico, excluídos os artigos resumos (1378 artigos da base
repetidos (1378 da base LILACS LILACS e 386 da base SciELO
e 386 da base SciELO Brasil). Brasil).

Quarta etapa: leitura na íntegra Terceira Etapa: atendidos os


de 140 artigos (60 da base critérios de inclusão (restaram
LILACS e 80 da base SciELO 140 artigos: 60 da base LILACS
Brasil) em que foram e 80 da base ScIELO Brasil) foi
descartados mais 45 artigos realizada uma classificação
(que não atenderam os critérios temática.
de inclusão) totalizando 95
artigos.

Quinta Etapa: Dos 95 artigos foi Sexta etapa: Foi realizada uma
realizada uma categorização análise dos 17 artigos com
(foco, fundo, primário e depressão foco primário (10 da
secundário). base LILACS e 7 da base
SciELO Brasil).

Esses artigos foram minuciosamente analisados no que diz respeito aos seguintes fatores: como
surgiu o tema (pesquisa por demanda institucional e/ou motivações de pesquisa); ano de publicação;
campo teórico-metodológico do/a pesquisador/a; sexo do/a pesquisador/a; faixa etária do público
masculino estudado; sexo dos sujeitos de pesquisa (se apenas homens ou homens e mulheres);
presença ou não de teoria explícita e implícita de depressão; presença/ausência de teorias de gênero
e masculinidades; e, por fim, raça/etnia.

Resultados e discussão

Dos 17 artigos, 163 tinham como foco uma comparação entre homens e mulheres, apenas um teve
como foco exclusivamente os homens (Botti et al., 2010). Houve predominância de estudos sobre a
prevalência de depressão.
Dos 17 artigos analisados, 15 tratavam da incidência de sintomas ou da própria depressão como
síndrome/transtorno. Para o diagnóstico foram utilizados diversos instrumentos. Entre eles, as
seguintes escalas, questionários, testes e manuais diagnósticos: Escala de Depressão de Yesavage -
dois artigos (Gonçalves & Andrade, 2010; Siqueira et al., 2009); Escala de Depressão do Centro de
Estudos Epidemiológicos - Center for Epidemiologic Studies Depression Scale - um artigo (Coelho et
al., 2013); Escala de Depressão Geriátrica Breve - um artigo (Oliveira et al., 2012); Escala de
Depressão Pós-Natal de Edimburgo - um artigo (Cunha et al., 2012); Escala Patient Healht
Questionnaire - dois artigos (Zinn-Souza et al., 2008; César et al., 2013); Geriatric Depression Scale -
um artigo (Lima et al., 2009); Escala de Cornell - um artigo (César et al., 2013); Inventário de Beck -
dois artigos (Botti et al., 2010; Rocha et al., 2006); Escala Center for Epidemiological Studies -

3
(Avanci, Assis, & Oliveira, 2008; Batistoni, Neri, & Cupertino, 2010; Borges, Benedetti, Xavier, & D'Orsi (2013); César
et al., 2013; Coelho et al., 2013; Cunha, Bastos, & Duca, 2012; Damião, Coutinho, Carolino, & Ribeiro, 2011; Ferreira &
Tavares, 2013; Gonçalves & Andrade, 2010; Justo & Calil, 2006; Leite, Carvalho, Barreto, & Falcão, 2006; Lima, Silva, &
Ramos, 2009; Oliveira et al., 2012; Rocha, Ribeiro, Pereira, Aveiro, & Silva, 2006; Siqueira et al., 2009; Zinn-Souza et
al., 2008).

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Depression - um artigo (Batistoni et al., 2010); Miniexame do Estado Mental - MEEM - um artigo
(Ferreira & Tavares, 2013); Self-Reported - SRQ-20 - um artigo (Avanci et al., 2008); Questionário
“Brasil Old Age Schedule” - BOAS - um artigo (Leite et al., 2006); Questionário BOMFAQ -
rastreamento da depressão - um artigo (Borges et al., 2013). Esses foram os principais instrumentos
utilizados na própria detecção da depressão, ou seja, na seleção do público estudado, ainda que
houvesse, em algumas pesquisas, outros instrumentos de avaliação mais qualitativos.
Três estudos (Zinn-Souza et al., 2008; Avanci et al., 2008; Rocha et al., 2006) tiveram como foco
levantar a prevalência da depressão entre adolescentes e encontraram as seguintes incidências: 7,5%,
10% e 45,7%. A maior foi entre as meninas em todos os estudos. Nas pesquisas cujo foco foi os/as
idosos/as (em 9 artigos4), a incidência foi maior entre as mulheres (em 8 artigos, variando entre 14,2%,
chegando até 58%). E na única pesquisa que tratou do público adulto (Botti et al., 2010) a prevalência
foi de 56,3%. E, por fim, nos estudos realizados com todas as faixas etárias - em três artigos (Botti et
al., 2010; Coelho et al., 2013; Cunha et al., 2012), exceto adolescentes, ou seja, com adultos/as e
idosos/as, a prevalência foi de 16,1%, 28,7% e 56,3% e foi maior nos dois estudos que compararam
homens e mulheres.
Das 15 pesquisas de prevalência, somente em duas houve a realização de entrevistas (Batistoni et
al., 2010; Coelho et al., 2013). No entanto estas foram utilizadas nas entrevistas-questionários e
escalas diagnósticas. Ou seja, a fala do sujeito não apareceu como importante, sendo o objetivo das
entrevistas apenas a confirmação da presença ou não de sintomas depressivos já previamente
estabelecidos nos manuais, caracterizando-se por uma lógica binária, típica do fazer psiquiátrico
(Zanello, Macedo, & Romero, 2012). Nesse sentido, a pesquisa de Batistoni et al. (2010) menciona
que foram realizadas entrevistas com os/as idosos/as, mas não aponta o que eles/as disseram,
somente destaca em suas falas a manifestação de sintomas depressivos.
Na pesquisa de Coelho et al. (2013), do mesmo modo que na de Batistoni et al. (2010), embora
3.007 pessoas tenham sido entrevistadas, é apenas reportado o tempo de duração da entrevista, mas
não há referência aos relatos dessas pessoas e quais foram de fato as suas contribuições para o
estudo, o que leva a concluir que não houve análise qualitativa desse material. A ênfase recaiu sobre o
material estatístico e descritivo de sintomas depressivos, confirmados por testes e escalas
diagnósticas.
Destacam-se a quase inexistência de pesquisas qualitativas, bem como a preponderância de
estudos comparativos de ocorrência da depressão entre homens e mulheres, por meio de uso de
testes psicológicos e da classificação pelos manuais diagnósticos (DSM- Manual Diagnóstico e
Estatístico de Transtornos Mentais - e o CID- Classificação Internacional de Doenças). Para se
compreender o sofrimento psíquico, que é mediado pela cultura, é necessário escutar o que essas
pessoas têm a dizer (Maluf & Tornquist, 2010; Zanello, 2014).
Apenas dois artigos não realizaram estudo de prevalência. O estudo de Justo e Calil (2006) teve
por objetivo apontar diferenças na depressão entre homens e mulheres com base na revisão de
literatura. A prevalência predominante no sexo feminino foi justificada, de um lado, por especificidades
genéticas e hormonais e, por outro, por aspectos psicossociais, tais como maior vulnerabilidade em
função da sobrecarga nas tarefas domésticas; abuso sexual na infância, dentre outros fatores. Não
houve questionamento sobre os critérios que poderiam subdiagnosticar casos de depressão em
homens, por exemplo.
Na outra pesquisa, segundo Damião et al. (2011), os objetivos foram identificar os fatores
psicossociais que interferem na etiologia da depressão e apreender as representações sociais acerca
da depressão dentre adolescentes. Tratou-se de um estudo descritivo exploratório, de caráter
qualitativo e quantitativo. Participaram do estudo 505 sujeitos, entre os quais, 269 eram da cidade de
Teresina e 236, de Natal. De forma geral, os adolescentes apresentaram traços depressivos mais
relacionados a problemas de conduta e obediência, enquanto as adolescentes desenvolveram traços
mais subjetivos, que foram lidos pelos/as autores/as como sentimentos de tristeza.

4
(Batistoni et al., 2010; Borges et al., 2013; César et al., 2013; Ferreira & Tavares, 2013; Gonçalves & Andrade, 2010;
Leite et al., 2006; Lima et al., 2009; Oliveira et al., 2012; Siqueira et al., 2009).

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Depressão e masculinidades 443

Com base no CDI (Children´s Depression Inventory), que constitui uma adaptação do BDI
(Inventário de Depressão de Beck), na cidade de Natal, dos 236 sujeitos (misto: escola pública e
privada), 5% apresentaram indicativo de sintomatologia depressiva; e em Teresina o índice foi de
11,1%. Entre todos os fatores pesquisados no CDI, foram os sujeitos do sexo feminino que obtiveram
as maiores médias. Entre esses fatores, podem-se citar sentimentos de tristeza, ideação suicida e
choro. Essa prevalência foi explicada à luz do funcionamento neuro-hormonal feminino. Isto é, mesmo
quando os sujeitos são ouvidos, a explicação continua a recair sobre causas biologizantes, sem se
analisar aspectos sociais de gênero e raça. Além disso, os/as pesquisadores/as utilizaram de forma
acrítica os sistemas diagnósticos.
Grande parte das 17 pesquisas foi publicada na região Sudeste (10), seguida pela região Nordeste
(5) e, por último, pela região Sul (2). Treze das 17 pesquisas foram publicadas entre 2008 e 2013. Isso
pode ter acontecido pela implementação da Política Nacional de Saúde Integral do Homem em 2008
(Ministério da Saúde, 2008).
No que diz respeito ao sexo dos sujeitos pesquisados, destaca-se que somente uma pesquisa
(Botti et al., 2010) tratou especificamente dos homens, as demais foram mistas, comparando homens e
mulheres. A prevalência de depressão foi de 56,3% em homens que vivem em situação de rua na
cidade de Belo Horizonte. A maior frequência da depressão grave se deu com jovens adultos e de
depressão leve, moderada e grave entre os homens que se encontram entre um e seis meses
morando na rua.
Quanto ao sexo dos/as pesquisadores/as, todas as pesquisas foram de coautoria, variando de dois
a sete-oito coautores/as, mistos (homens e mulheres). O campo teórico/metodológico dos/as
pesquisadores/as foi variado: educação física, enfermagem, fisioterapia, medicina, psiquiatria, saúde
coletiva, saúde pública, terapia ocupacional. Ressalta-se que somente uma pesquisa foi realizada por
pesquisadores/as psicólogos/as (Rocha et al., 2006), apesar de a psicologia ter papel importante
dentro da reforma psiquiátrica e das discussões em saúde mental no Brasil.
A grande maioria dos artigos científicos não explicita como se chegou ao tema de pesquisa
“depressão masculina”. Supõe-se que a maior parte tenha surgido de pesquisa universitária. As
demandas governamentais que apareceram foram as seguintes: Projeto EPIDOSO da Unifesp (Lima et
al., 2009); Projeto tecnologias assistidas para idosos atendidos em Unidades de Saúde da Família
(Oliveira et al., 2012); Inquérito EpiFloripa Idoso (Borges et al., 2013); Demanda da Secretaria Nacional
Antidrogas - SENAD (Coelho et al., 2013).
De modo prevalente, nove pesquisas tratavam somente da velhice; quatro, de adolescentes; três,
de todas as faixas etárias (exceto crianças); e uma, apenas de adultos homens. E, por fim, não foi
encontrada nenhuma pesquisa com crianças (dentro do recorte metodológico que abarca somente
depressão primária). Destaca-se que somente a pesquisa de Botti et al. (2010) tratou do público
masculino adulto, mesmo com a implantação da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do
Homem em 2008, cujo foco principal é a população de homens adultos, na faixa de 20 a 59 anos.
Conforme apontado anteriormente, a maioria das demandas públicas que originaram os estudos
referia-se à velhice e, não coincidentemente, essa foi a fase da vida mais enfocada nos estudos
encontrados. Esse pode ser um possível sintoma, gendrado em nossa cultura, no qual ser velho e
estar fora do “mercado” laboral e sexual (ideais hegemônicos de masculinidade) podem criar quebra
psíquica e rupturas (Zanello, Silva, & Henderson, 2015).
Nenhum dos artigos levou em consideração os estudos de gênero em geral e, muito menos,
remeteu-se aos estudos das masculinidades. Mesmo os/as autores/as que compararam os sexos ou
aspectos sociais relacionados aos sexos não se utilizaram desses estudos, embora esse campo
epistemológico tenha se expandido e fortalecido desde as décadas de 1960/1970. Além disso,
somente duas pesquisas (Gonçalves & Andrade, 2010; Borges et al., 2013) levaram em consideração
os aspectos raciais/étnicos, apesar de que existam estudos que apontam ser a identidade racial e o
racismo fatores de sofrimento e risco para a saúde mental (Fanon, 2008; Amantino & Freire, 2013;
Pinho, 2014; Zanello & Gouveia, no prelo).

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444 Windmöller & Zanello

Tabela 1. Classificação dos artigos sobre depressão (17) analisados por fase da vida, método e campo teórico
em periódicos indexados no LILACS e SciELO Brasil.

Autores/as Título do Base Fase da Método Prevalênci Instrumento Campo


artigo científic vida a diagnóstico teórico
a (sim/não) pesquisado
r/a
Siqueira et Análise da SciELO Idosos/as Quantitativa Sim Escala de Fisioterapia
al. (2009) sintomatologia Brasil Depressão de
depressiva nos Yesavage
moradores do
Abrigo Cristo
Redentor
através da
Escala de
Depressão
Geriátrica
(EDG)
Leite et al. Depressão e SciELO Idosos/as Quantitativa Sim Questionário Terapia
(2006) envelhecimento: Brasil "Brasil Old Age Ocupacional e
estudo nos Schedule" - Saúde
participantes do BOAS coletiva
Programa
Universidade
Aberta à
Terceira Idade
Justo & Calil Depressão - o SciELO Adultos Revisão Não Psiquiatria
(2006) mesmo Brasil Narrativa da
acometimento Literatura
para homens e
mulheres?
Zinn-Souza Factors LILACS Adolescen Quantitativa Sim Escala Patient
et al. (2008) associated with tes Healht
depression Questionnaire Saúde pública
symptoms in e Saúde
high school ambiental
students in São
Paulo, Brazil
Lima et al. Fatores LILACS Idosos/as Quantitativa Sim Geriatric Medicina
(2009) associados à Depression
sintomatologia Scale
depressiva
numa coorte
urbana de
idosos
Borges et al. Fatores LILACS Idosos/as Quantitativa Sim Questionário Educação
(2013) associados aos BOMFAQ - Física e
sintomas rastreamento da Saúde
depressivos em depressão Coletiva
idosos: estudo
EpiFloripa

Coelho et al. Higher LILACS Adolescen Quantitativa Sim Escala de Psiquiatria,


(2013) prevalence of tes, Depressão do Neurociência,
major adultos e Centro de Medicina
depressive idosos/as Estudos Social
symptoms in epidemiológicos
Brazilians aged
14 and older

Batistoni et Medidas SciELO Idosos/as Quantitativa Sim Escala Center Humanas


al. (2010) prospectivas de Brasil for
sintomas Epidemiological
depressivos Studies -
entre idosos Depression
residentes na
comunidade

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Depressão e masculinidades 445

Autores/as Título do Base Fase da Método Prevalênci Instrumento Campo


artigo científic vida a diagnósti-cos teórico
a (sim/não) pesquisado
r/a
Cunha et al. Prevalência de LILACS Adultos e Quantitativa Sim Escala de Saúde
(2012) depressão e idosos/as Depressão Pós- coletiva e da
fatores Natal de Família
associados em Edimburgo
comunidade de
baixa renda de
Porto Alegre,
Rio Grande do
Sul
Gonçalves & Prevalência de LILACS Idosos/as Quantitativa Sim Escala de Medicina
Andrade depressão em Depressão de
(2010) idosos Yesavage
atendidos em
ambulatório de
geriatria da
região nordeste
do Brasil
Botti et al. Prevalência de SciELO Adultos Quantitativa Sim Inventário de Enfermagem
(2010) depressão entre Brasil (somente Beck
homens adultos em
em situação de homens)
rua em Belo
Horizonte
Ferreira & Prevalência e LILACS Idosos/as Quantitativa Sim Mini Exame do Enfermagem
Tavares fatores Estado Mental -
(2013) associados ao MEEM
indicativo de
depressão entre
idosos
residentes na
zona rural
Rocha et al. Sintomas SciELO Adolescen Quantitativa Sim Inventário de Psicologia,
(2006) depressivos em Brasil tes Beck Estatística e
adolescentes de Medicina
um colégio
particular
Avanci et al. Sintomas LILACS Adolescen Quantitativa Sim Self-Reported - Saúde pública
(2008) depressivos na tes SRQ 20
adolescência:
estudo sobre
fatores
psicossociais
em amostra de
escolares de um
município do
Rio de Janeiro,
Brasil
Oliveira et al. Sintomatologia SciELO Idosos/as Quantitativa Sim Escala de Enfermagem
(2012) de depressão Brasil Depressão e Saúde
autorreferida por Geriátrica Breve Coletiva
idosos que
vivem em
comunidade
César et al. Prevalence of LILACS Idosos/as Quantitativa Sim Escalas de Medicina
(2013) depressive Cornell;
symptoms Questionário
among elderly in Patient Health
the city of Questionnaire
Tremembé,
Brazil
Damião et Representações LILACS Adolescen Qualitativa Não Psicologia
sociais da

Psicologia em Estudo, Maringá, v. 21, n. 3, p. 437-449, jul./set. 2016


446 Windmöller & Zanello

al. (2011) depressão no tes


ensino médio:
um estudo
sobre duas
capitais

A pesquisa de Gonçalves e Andrade (2010) retrata a prevalência de depressão, afetando homens


negros e sedentários, com agravamento conforme avanço da idade e influenciando na piora da
qualidade de vida. Dos/as 16 negros/as5 estudados, 15 apresentaram sintomas depressivos (93,8%).
Já dos 22 mulatos/as, em 11 foram encontrados sintomas depressivos (50%). E dos 64 brancos/as, em
25 foram identificados sintomas depressivos (39,1%). Na pesquisa de Borges et al. (2013), os/as
autores/as identificaram a raça, porém não realizaram a análise racial, pois, segundo eles, o teste
estatístico não revelou diferença significativa entre quantidade de manifestações depressivas.
Foram apontados os seguintes fatores associados à depressão em homens, levando-se em
consideração todas as faixas etárias analisadas: pertencer às classes sociais mais baixas (Borges et
al., 2013; Justo & Calil, 2006; Oliveira et al., 2012); apresentar baixa escolaridade (Batistoni et al.,
2010; Borges, et al., 2013; César et. al., 2013; Cunha et al., 2012; Justo & Calil, 2006; Leite et al.,
2006; Oliveira et al., 2012); estar na linha da extrema pobreza (Botti et al., 2010); estar desempregado
(Botti et al., 2010); consumir substâncias psicoativas (Avanci et al., 2008; Zinn-Souza et al., 2008);
estar solteiro, separado, divorciado ou viúvo (Borges et al., 2013; Cunha et al., 2012; Gonçalves &
Andrade, 2010; Justo & Calil, 2006; Leite et al., 2006; Oliveira et al., 2012; Lima et al., 2009); ser
jovem e trabalhador de classes mais baixas (Zinn-Souza et al., 2008); viver na região Norte do Brasil
(Coelho et al., 2013); viver em zona rural (Ferreira & Tavares, 2013); ser negro (Gonçalves & Andrade,
2010).
Ao se falar de saúde mental masculina nos estudos de prevalência, é importante ressaltar que os
fatores correlacionados à depressão referem-se aos homens como também às mulheres, uma vez que
somente um estudo focou-se no público masculino, ou seja, nos demais não houve análise específica
para cada sexo.
No que tange à ocorrência de depressão na adolescência, os estudos indicaram os seguintes
fatores associados: insatisfação com a vida; violências físicas e sexuais cometidas contra o
adolescente pelos/as cuidadores/as - no caso em questão - mãe e pai (Avanci et al., 2008); quanto
mais velho for o adolescente, maior a chance de sentir-se deprimido pelo insucesso escolar por conta
do exame do vestibular (Rocha et al., 2006); consumo pessoal de substâncias psicoativas (Avanci et
al., 2008; Zinn-Souza et al., 2008); trabalhar e estudar ao mesmo tempo, no caso de alunos/as da
pesquisa realizada em escola pública (Zinn-Souza et al., 2008).
Já na velhice, os estudos assinalaram a alta prevalência de depressão, sendo este o “transtorno”
mais comum nessa fase da vida por prioritariamente a comorbidade e a incapacidade funcional
(Batistoni et al., 2010; Borges et al., 2013; Ferreira & Tavares, 2013; Leite et al., 2006; Oliveira et al.,
2012; Siqueira et al., 2009), aumentando a partir dos 70 anos (Gonçalves & Andrade, 2010; Leite et al.,
2006; Lima et al., 2009; Oliveira et al., 2012).
Mesmo que fatores associados à depressão tenham sido ressaltados para cada fase de vida, não
se questionou como e por que tais fatores constituem-se em vulnerabilidades para os homens.
Conforme aponta Welzer-Lang (2001), as masculinidades passam por aprendizados, atos, códigos,
performances e ritos. Nesse sentido, a aprendizagem de “tornar-se homem” por meios performáticos,
marcados pela masculinidade hegemônica, pode diferir entre um adolescente, um adulto e um idoso.
A velhice, por exemplo, pode ser vivida pela perda de traços identitários, marcada pelo luto de uma
virilidade sexual e laborativa, exercida na juventude e na vida adulta (Zanello et al., 2015). Já na
adolescência, o fracasso escolar coloca em questão a cobrança de ser eficiente e produtivo e,
portanto, a possibilidade de sucesso de certa performance hegemônica do ser "homem”. Em suma, é
necessário que haja mais pesquisas qualitativas em que se crie espaço para se ouvir essas pessoas,
suas histórias de vida, pois tais pesquisas, em que a idade ou a fase da vida é um marcador

5
Esta identificação de raça/etnia foi feita pelos/as pesquisadores/as em tela.

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Depressão e masculinidades 447

importante, poderiam identificar configurações culturais significativas na construção das


masculinidades, bem como dos fatores que as colocam em xeque.

Considerações finais

O objetivo deste artigo foi fazer um levantamento da produção bibliográfica brasileira, publicada
entre os anos de 2003 a 2013 nas duas principais plataformas científicas brasileiras, LILACS e SciELO
Brasil, sobre o tema da depressão masculina, levando em consideração a contribuição que os estudos
das masculinidades pode apontar para o campo da saúde mental.
Quatorze dos 17 artigos encontrados tiveram como foco a comparação epidemiológica da
ocorrência de depressão entre homens e mulheres por meio de testagem e somente em dois estudos
as pessoas foram escutadas por intermédio de entrevistas. A maioria dos artigos tratou da população
idosa: 11 dos 17 artigos abordaram os/as velhos/as, em que nove deles focaram somente nessa
população e dois deles incluíram todas as faixas etárias, exceto crianças. Por fim, nenhum se utilizou
das teorias de gênero e das masculinidades para a análise teórica e metodológica.
Como apontado, os sintomas descritos nos manuais de classificação diagnóstica têm sido
questionados por seu enviesamento de gênero. O exemplo mais claro, nesse caso, seria a detecção
da tristeza pelo choro, a qual ocorre com mais frequência em mulheres. Isso coloca em evidência a
necessidade de se questionar a variabilidade de suas expressões, mediadas em nossa cultura, pelos
valores e ideais de gênero. Como foi visto, pela imposição de uma masculinidade hegemônica,
garantida pela violência entre os pares, a maior parte dos homens desaprende cedo a chorar na frente
de outras pessoas, ou a demonstrar qualquer fragilidade. Isso já levantaria a questão sobre quais
seriam as formações sintomáticas privilegiadas nos casos de depressão masculina e se elas são
contempladas nas listas dos manuais de classificação diagnóstica.
Os fatores correlacionados nos artigos com os casos de depressão masculina sugerem a
participação dos valores e ideais de masculinidade, tais como: estar solteiro, separado, divorciado ou
viúvo; classe social e idade. Possivelmente há razões gendradas que levam a maioria dos homens que
estão solteiros, separados, viúvos ou divorciados, bem como com a idade avançada na velhice (em
que há maior perda laboral e sexual) e de classe social mais baixa, a apresentarem sintomas
depressivos.
Antes de finalizar, faz-se necessário apontar dois limites da presente pesquisa: o primeiro deles
trata-se da existência de artigos sobre o tema que podem não ter aparecido nessas plataformas por
terem sido publicados em revistas a elas não indexadas; e o segundo limite se deve à possibilidade do
uso de outros descritores que não foram considerados neste estudo. Assim, apesar de o levantamento
ter utilizado 72 combinações possíveis de descritores, pode ocorrer que algum artigo tenha escapado,
pelo fato de o/a autor/a ter escolhido outros descritores.
Sugere-se, a partir dos artigos encontrados, que, para se compreender o sentido das correlações
da depressão com fatores associados, faz-se necessário que se realizem mais pesquisas qualitativas,
com a criação de um espaço de escuta clínica, na qual sejam considerados os aspectos subjetivos das
masculinidades e suas diferentes interpelações nas diferentes fases da vida dos homens.

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Naiara Windmöller: psicóloga, mestra pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica e Cultura da
Universidade de Brasília.
Valeska Zanello: professora adjunta do Departamento de Psicologia Clínica, na Universidade de Brasília. Orientadora
do Programa de Pós-graduação em Psicologia Clínica e Cultura/UnB.

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