A Formação Do Leitor Literário - Do Real Ao Possivel

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Revista Digital dos Programas de

Pós-Graduação do Departamento de Letras e Artes da UEFS


Feira de Santana, v. 20, n. 2, p. 145-158, outubro-dezembro de 2019

http://periodicos.uefs.br/index.php/acordasletras/index
http://dx.doi.org/ 10.13102/cl.v20i2.4922

A Formação do Leitor Literário: do real ao possível


The literary readr’s formation: from whats is real to whats is possible

Jacivan dos Santos Moraes Cordeiro*


Universidade Estadual de Feira de Santana
Feira de Santana, Bahia, Brasil

Luciene Souza Santos


Universidade Estadual de Feira de Santana
Feira de Santana, Bahia, Brasil

Resumo: Neste artigo, procuramos refletir sobre a presença da literatura nas salas de aula da educação básica,
bem como sua importância para a formação leitora, crítica e cidadã dos alunos, tomando como ponto de
partida as nossas experiências, acumuladas ao longo de anos de práticas pedagógicas com tímidos resultados
no despertamento do gosto pela leitura, numa constatação inequívoca da distândia entre o real e o possível.
Embasamos nossas reflexões em estudiosos do assunto como Cândido (2004), Cosson (2009) e Jouve (2002),
dentre outros, reconhecendo a urgente necessidade de promover o espaço escolar como meio favorável ao
desenvolvimento de competências leitoras, de escrita, de criticidade, de cidadania, de inserção cultural e
inclusão social. Para tanto, analisamos a importância do ato de ler, bem como se efetiva a presença da leitura
literária nas salas de aula, buscando encontrar meios que possibilitem práticas exitosas para a leitura literária,
consolidada no espaço escolar por adesão espontânea e espírito colaborativo. Concluímos nossas reflexões,
enfatizando o papel do professor como leitor-guia, a posição da escola como espaço favorável à promoção de
experiências leitoras exitosas e o despertar do gosto pela leitura como uma possibilidade ao alcance de nossas
propostas pedagógicas.

Palavras-chave: Formação do leitor. Literatura na escola. Leitura literária.

Abstract: In this article, we teu to reflect about the presence of literature in the basic education classrooms,
as well as its importance for the reading, critical and citizen education of students, taking, as a starting point,
our experiences accumulated over years of pedagogical practices, with shy results in the awakening of the will
for reading, an unambiguous observation of the distance between the real and the possible. We base our
reflections on theorists such as Cândido (2004), Cosson (2009) e Jouve (2002), among others, recognizing the
urgent need to promote the school space as a favorable way for the development of reading, writing,
criticality, citizenship, cultural insertion and social inclusion skills. Therefore, we analyze the importance of
the act of reading, as well as the presence of literary reading in the classroom, seeking to find ways to enable
successful practices for literary reading, consolidated in the school space by spontaneous adherence and
collaborative spirit. We conclude our reflections, emphasizing the teacher's role as a guide reader, the school's
position as a favorable space for the promotion of successful reading experiences and the awakening of the
will for reading as a possibility within the reach of our pedagogical proposals.

Keywords: Reader formation. Literature at school. Literary reading.

*Mestre em Letras, professora da Educação Básica na Rede Pública. E-mail: jacivan.pacto.em@gmail.com.



Doutora em Educação, Professora Adjunta da UEFS. E-mail: lucienesantoz@gmail.com.
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1 INTRODUÇÃO

Aqui me pego nas frustrações e desejos de professora. O dilema entre a realidade


da sala de aula e o que de fato, faz-se urgente acontecer para mudar esta realidade.
Muitas são as reflexões sobre os motivos reais que justificam a ausência e/ou a
ineficiência das experiências com a leitura no ambiente da escola.
Afinal, por que nossos alunos leem pouco, especialmente textos literários? Por
que não conseguimos despertar neles o gosto pela leitura literária? O que justifica sua
dificuldade em compreender e interpretar os textos literários?
De modo geral, costumamos atribuir esta falta de convivência do aluno com a
leitura aos atraentes e constantes apelos das mídias; às estratégias e metodologias
maçantes e ineficazes utilizadas pelo professor, principalmente com a didatização da
literatura; ao fato de o próprio professor, na maioria das vezes, não ser leitor e portanto
não dispor de grande acervo de leituras literárias que possam lhe dar condições de
argumentar e de apresentar o texto literário com o conhecimento de causa, a variedade
e o entusiasmo necessários para contagiar o aluno; ou ainda a fatores externos como
ausência ou precariedade das bibliotecas, além do preço dos livros.
Aqui, no momento, cabe olhar para as causas e propor “como” resolver a
problemática, ou pelo menos, como minimizá-la em nossa realidade. Para tanto,
importa-me refletir sobre o uso inteligente e comprometido do espaço escolar e do
contexto da sala de aula para promover o estímulo e o interesse pela leitura literária,
desconstruindo uma convicção exacerbada e compartilhada entre a maioria dos
professores de que é inútil qualquer proposta ou investimento na formação proficiente
da competência leitora dos alunos, profetizando um futuro sem perspectivas de
mudança.
Dentre os muitos fatores que nos convidam sistematicamente a reagir diante de
tão desesperançoso quadro, está o fato de ser a escola, incontestavelmente, o espaço
ideal para a promoção de contextos favoráveis à apreciação e à prática da leitura literária
e a leitura literária, por sua vez, ideal e imprescindível para a formação leitora e para a
formação cidadã e humana dos estudantes.
Este ponto da questão é muito bem defendido por Flôres (2008, p. 26), quando
esclarece que:

[...] no momento em que busca apreender o que acontece ao seu redor, interagindo com o
Outro, o indivíduo estabelece ligações entre ele e o mundo. É quando passa a interpretar
indícios de toda sorte. Através da interpretação, portanto, o homem mistura-se ao texto-
mundo, situando-se em relação a si e aos demais, ao tempo e ao espaço, vendo, ouvindo,
enfim testando e avaliando o que pode lhe servir de orientação, informando-se sobre as
coordenadas dêiticas de pessoa, espaço e tempo, em suma, integrando-se ao ambiente em
que vive.

Vivemos numa sociedade letrada que cada vez mais exige dos indivíduos
competência para a tomada de posição e participação nas questões e relações pessoais e
sociais. Reconhecemos, pelo óbvio, que algumas ferramentas instrumentalizam estes

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indivíduos para garantirem maior êxito nestas interações e, dentre elas, a competência
leitora é, indiscutivelmente, uma grande aliada.
Podemos considerar, então, que as leituras literárias, além de serem, em muitos
casos, uma representação da realidade, fomentando discussões e debates, são também
fonte de incentivo e valorização da imaginação e da criatividade, características
importantes para lidar com mais equilíbrio e leveza com os desafios do cotidiano.
O que queremos, enfim, é que nossos alunos tenham a oportunidade, durante os
anos de educação formal, de ter acesso a uma escola que lhes ofereça condições reais de
conviver eficiente e prazerosamente com a leitura, em especial, a literária, e que estas
experiências e convivências lhes rendam sabedoria e maturidade para viverem melhor
suas relações e sua atuação na sociedade.
Afinal,

[...] o texto literário veicula uma modalidade de conhecimento particular que não se
assemelha ao saber produzido pela ciência. Sendo, ao mesmo tempo, representação e
análise, a literatura possibilita o resgate da realidade. Essa modalidade de texto, por sua
natureza, possibilita a crítica e a contradição através de uma linguagem não linear, isto é,
distinta da linguagem comum. O autor aproveita o seu conhecimento de mundo, recria essa
experiência através dos recursos de seu imaginário e a expressa por meio da linguagem
artisticamente trabalhada. Uma vez que esse texto se relaciona com a realidade e a
experiência humana, desempenha uma função muito significativa no aspecto comunicativo,
pois auxilia o sujeito a emancipar-se na medida em que pode libertá-lo do processo de
massificação a que está submetido... (ZINANI; SANTOS, 2004, p. 65).

Que seja, então, libertadora a leitura para eles e que, com a liberdade
conquistada, tornem-se pessoas fortes em seu existir e sensíveis em seu agir e em seu
sentir.

2 A IMPORTÂNCIA DO ATO DE LER

Refletir sobre todo o processo formador que circunda a vida do estudante, por
intermédio das vivências e aprendizagens escolares, no momento atual, mais do que
nunca, ultrapassa a visão reducionista da aquisição de um limitado acervo de
conhecimentos e informações e, para tanto, um relevante mecanismo de
desenvolvimento das potencialidades a serem exploradas se converge em torno das
múltiplas experiências com a leitura.
Levando em consideração que ler é exercitar o pensamento e que a prática da
leitura constitui-se numa ação educativa libertadora, ideia há muito defendida pelo
eminente Paulo Freire (1989), entendemos que a escola tem o papel primordial de
promover o contato do aluno com os livros e outras múltiplas ferramentas de leitura,
como a internet, e a literatura será então, a grande porta de entrada para desenvolver
competências leitoras, de escrita, de criticidade, de cidadania, de inserção cultural e de
inclusão social, numa perspectiva muito bem representada pela leitura, já que esta resulta
em algum tipo de reflexão, na medida em que provoca em nós questionamentos que
resultam em diálogo e discussão internos.

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É dever da escola, então, oferecer aos estudantes, ações educacionais pensadas e


realizadas por e para sujeitos que primam por atuações libertadoras, que interagem em
contextos diversos, que participam das situações propostas com espírito colaborativo e
que como dizia Freire (1989) tenham uma “compreensão crítica do ato de ler, que não
se esgota na decodificação pura da palavra escrita ou da linguagem escrita, mas que se
antecipa e se alonga na inteligência do mundo.”
Toda esta preocupação se esbarra, significativamente, na importância da leitura,
quando entendemos que ler é fortalecer diálogos e que dialogismo e interação são
indissociáveis, principalmente considerando o papel da linguagem na vida dos seres
sociais que somos, realizando atividades num mundo social e com objetivos sociais que
se constituem pela interrelação entre os sujeitos. Daí a necessidade imperativa de fazer
uso proficiente da linguagem a fim de sermos capazes de agir efetivamente na sociedade.
E sendo a leitura um evento de interação, exigindo e envolvendo diálogos, promove
atitudes críticas, favorece a conquista da autonomia e da liberdade de pensar e agir.
Esta discussão, portanto, apoia-se numa concepção de linguagem que tenha como
lócus a interação. Desta forma, consideramos a concepção de língua defendida por
Bakhtin/Voloshinov (1992), que se configura como um mecanismo de interação entre
os interlocutores, constituindo-se em um processo contínuo, no qual os sujeitos são
agentes sociais, em cujos diálogos se efetivam as trocas de conhecimentos e
experiências.
Por isso Antunes (2009) afirma que sem o outro, do outro lado da linha, não há
linguagem. Quando alguém escreve, escreve para outro ler e consequentemente ao ler,
estabelecemos um diálogo com o texto e, portanto, com quem o escreveu. De tal forma,
é fantástico este processo que nos chama a repensar a importância do outro, que se
exemplifica no ato de ler, mas se constitui realidade indissociável do ser social que
somos em quaisquer circunstâncias da vida.
Como afirmou Bakhtin, (1995, p. 113, apud ANTUNES 2009, p. 47):

Na realidade, toda palavra comporta duas faces. Ela é determinada tanto pelo fato de que
procede de alguém como pelo fato de que se dirige para alguém. (...) A palavra é uma
espécie de ponte lançada entre mim e os outros. Se ela se apoia sobre mim numa
extremidade, na outra apoia-se sobre o meu interlocutor. A palavra é o território comum
entre o locutor e o interlocutor.

Fez-se necessário, então, revisitar as concepções de língua apresentadas ao longo


dos tempos, a fim de identificar a que melhor atende aos anseios das propostas de
ensino e aprendizagem vigentes. Assim, constatamos que, sendo a língua um organismo
vivo e flexível, a linguagem igualmente foi, aos poucos, sendo compreendida em sua
dinamicidade, principalmente do ponto de vista histórico-social, por absorver e refletir
as influências do contexto ideológico.
Bakhtin (2003) traz, portanto, com a concepção dialógica da linguagem, uma
abordagem mais ampla e mais coerente, mostrando que esta é concebida conforme cada
momento histórico e social e do ponto de vista do ensino da língua, vai muito além da
expressão do pensamento e da transmissão do conhecimento, sendo também um

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importante instrumento de ação sobre os demais sujeitos e sobre o mundo,


preocupando-se em levar o aluno a desenvolver sua capacidade de utilizar a língua como
ferramenta desta interação social.
Tal concepção de língua é corroborada por Travaglia (1996, p. 23) quando diz que
“A linguagem é, pois, um lugar de interação humana, de interação comunicativa pela
produção de efeitos de sentidos entre seus interlocutores em uma dada situação de
comunicação e em um contexto sócio histórico e ideológico.”
O entendimento se fortalece, com Antunes, ao afirmar que:

[...] a evidência de que as línguas só existem para promover a interação entre as pessoas me
leva a admitir que somente uma concepção interacionista da linguagem, eminentemente
funcional e contextualizada, pode, de forma ampla e legítima, fundamentar um ensino de
língua que seja, individual e socialmente, produtivo e relevante. (ANTUNES, 2009, p. 41)

A tarefa do professor, e por extensão da escola, é favorecer oportunidades de uso


e aperfeiçoamento da linguagem, oportunidades de construção de aprendizagens e de
aquisição de conhecimentos que tragam sentido para a prática cotidiana, que promovam
o desenvolvimento de competências e habilidades e que deleguem importância à
linguagem para uma atuação responsável e comprometida em todas as situações,
pessoais e sociais.
Para Araújo (2006, p. 45), “a falência da linguagem representa a falência de nosso
pequeno ou grande mundo, pois a linguagem é o que funda, inventa e reinterpreta esse
mesmo mundo.” e por isso, segundo ele, a necessidade de revigorar a linguagem para
cumprir o nosso projeto de uma vida social mais humana.
Neste ponto, a concepção de linguagem e de língua aqui abordadas primam pela
leitura como um mecanismo do uso destas, para fins de acesso e compreensão dos
diversos contextos apresentados, favorecendo reagir com atitude crítica, participar da
discussão e da resolução de problemas abordados, lançar questionamentos e produzir
respostas aos textos e desta forma aos contextos em situações cotidianas e particulares,
mas também públicas e de interesse comum.
Segundo Araújo (2006, p. 18) “a leitura é, portanto, matéria de urgência,
complexidade e preocupação nacionais, gerando deveres no corpo da sociedade que se
deve empenhar no desenvolvimento e na superação de nossos problemas, graves no
presente e mais graves ainda no futuro.”
Entendemos que a preocupação com o nível de leitura dos nossos alunos deve
passar pela formação do bom leitor, aquele que encontra prazer na leitura, é capaz de
vencer os desafios propostos pela mesma e sabe fazer uso do cabedal de conhecimentos
prévios, conseguindo atribuir sentidos e significados ao texto.
Kleiman (2011) engrossa o número de pesquisadores que pensam a respeito dos
variados níveis de conhecimento que são acionados durante uma leitura. Para esta
pesquisadora:

A compreensão de um texto é um processo que se caracteriza pela utilização de


conhecimento prévio: o leitor utiliza na leitura o que ele já sabe, o conhecimento adquirido
ao longo de sua vida. É mediante a interação de diversos níveis de conhecimento, como o

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linguístico, o textual, o conhecimento de mundo, que o leitor consegue construir o sentido


do texto. É porque o leitor utiliza justamente diversos níveis de conhecimento que
interagem entre si, a leitura é considerada um processo interativo. (KLEIMAN, 2011, p. 13)

Percebemos, então, o sentido de se considerar a leitura como uma experiência,


justamente porque ela pode exercer influência sobre o leitor, agir sobre ele, seja do
ponto de vista da fruição, da diversão, do prazer, seja de forma mais concreta que é
modificando ou fortalecendo atitudes e práticas no campo da vida pessoal ou das
relações sociais. Para Jouve (2002, p. 123):

Se a leitura é uma experiência, é porque, de um modo ou de outro, o texto age


sobre o leitor. Globalmente, podem-se distinguir as leituras que exercem uma
influência concreta (confirmando ou modificando as atitudes e práticas imediatas
do leitor) e as que se contentam a recrear e divertir. Para isso, não se pode
negligenciar a dimensão estratégica de numerosos textos que, por trás dos desafios
de prazer explícitos (emocionar e distrair), escondem verdadeiros desafios
performativos (informar e convencer).

Então, de uma forma ou de outra, a leitura oferece uma pluralidade de sentidos e


de funcionalidade de acordo com os conhecimentos prévios, objetivos e interesses de
cada leitor e, por isso mesmo, como bem disseram (KOCH; ELIAS, 2010, p. 21)
“considerar o leitor e seus conhecimentos e que esses conhecimentos são diferentes de
um leitor para outro implica aceitar uma pluralidade de leituras e de sentidos a um
mesmo texto”.
Solé (1998), por sua vez, esclarece a importância de utilizar a leitura para fins de
aquisição de conhecimento e aprendizagem e ressalta a necessidade de se fazer
conjecturas, questionar, inferir, selecionar e emitir opiniões próprias sobre o que lê. A
autora defende que a leitura deve assumir, dentro da sala de aula, duas importantes
metas: primeiro os alunos melhorarem sua habilidade, progredindo para a familiaridade
com a leitura, associando-a ao hábito de ler e segundo, utilizarem esta habilidade para
acessar outros conteúdos de aprendizagens nas diferentes áreas do conhecimento.
E se assim pode ser, encerro esta reflexão, por hora, com a sabedoria e a
experiência leitora e científica de duas grandes escritoras, estudiosas do poder e da
imprescindibilidade da leitura para a formação do ser que somos, pelo
compartilhamento de saberes, pela riqueza de informações, pela beleza da criatividade,
pelo acesso ao que mesmo estando longe, física ou intelectualmente, se torna nosso
porque a nós pertence, não apenas ali, no texto, mas também na mente. Afinal, (SOLÉ,
1998, p. 172) “aprender a ler significa aprender a encontrar sentido e interesse na leitura.
Significa aprender a se considerar competente para a realização das tarefas de leitura e a
sentir a experiência emocional gratificante da aprendizagem”.
E segundo (Maria, 2002, p.53), “para que alguém se torne leitor parece necessário
que haja uma experiência de prazer do texto: que em algum momento da vida um certo
texto corresponda a uma necessidade ou carência, a uma busca ou desejo...”

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Esse, o nosso maior ensejo, essa, nossa incansável busca em meio aos encontros e
reencontros com a palavra, com o texto, com a pessoa humana representada, em cada
emoção e em cada rejeição, em cada adesão e em cada ausência que a leitura nos faz
sentir. Muito bom, muito rico.

3 A LEITURA LITERÁRIA NAS SALAS DE AULA DA EDUCAÇÃO BÁSICA

Houve um tempo, e não muito distante, em que deixei de acreditar que


conseguiríamos, na escola, formar bons leitores. Achava mesmo, frente aos tímidos
resultados conquistados ao longo de anos, que o bom leitor, era nato, porque fruto de
um interesse muito particular, de uma vontade própria e esta constatação equivocada se
estendia de forma ainda mais contundente à Leitura Literária. Formar leitores se
apresentava para mim, assim como para a maioria dos professores com quem dividia
estas minhas angústias, como uma batalha quase perdida e embora buscasse promover
práticas pedagógicas que visassem estimular o interesse pela Literatura, ainda me perdia
nas estratégias engessadas que oferecia aos meus alunos, fruto de uma formação
igualmente engessada e que só foi se dissolvendo com as experiências, algumas
fracassadas e outras exitosas ao longo de muitos anos de profissão.
Hoje, este despertamento começa, para mim, pelo contato direto com o aluno,
pela observação do mundo que o cerca, os interesses que demonstra, pela necessidade,
enfim, de considerar o que ele conhece e conseguir fazê-lo interagir com estes
conhecimentos de forma crítica, significativa e por que não dizer, prazerosa. E, sendo
assim, a literatura se mostra como um bom caminho para entender como vai se
formando o ser, as relações, a sociedade, a cultura, a história. Logo, a escola configura-se
como o espaço ideal para o fortalecimento deste vínculo, leitura-leitor, abusando de
contextos de leitura, trazendo, além dos cânones, outros textos, interagindo com outras
manifestações artísticas, provocando outras formas de produzir sentido e conhecer a
vida.
Todos estes conceitos vão, dentro de suas especificidades e dadas as devidas
relevâncias de cada um, comungando com o conceito de leitura e, mais especificamente
ainda, Leitura Literária, entendida como uma prática social que deve ser exercida na
escola, assumindo, por isso mesmo, a Leitura Literária, papel de grande relevância em
todo o contexto de formação do aluno, favorecendo seu progresso nas experiências
linguísticas e nas experiências de interação social, conforme defende Cosson:

E por possuir uma função maior de tornar o mundo compreensível,


transformando sua materialidade em palavras, cores, odores, saberes e formas
intensamente humanos que a literatura tem e precisa manter um lugar especial nas
escolas. (COSSON, 2009, p. 17)

Frente à resistência de considerável parte dos alunos pela leitura e preocupada


com sua dificuldade em compreender os textos literários, usufruindo das leituras numa
perspectiva de aprendizagem e entretenimento, consideramos ser necessário pensar em
como rediscutir a Leitura Literária na escola, promovendo não apenas o acesso destes

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alunos aos textos literários, mas também a sua adesão voluntária às múltiplas leituras,
uma vez que o permanente contato com estas práticas poderá contribuir, e muito, para o
seu amadurecimento diante das experiências da vida, fazendo a ponte entre o seu e o
mundo dos outros.
Partiremos, então, da Leitura Literária, aqui referindo-nos a todas as práticas que
envolvem a escrita literária, mais precisamente os textos ficcionais, para a formação do
leitor proficiente, com vistas à conquista da capacidade de compreender e interpretar de
forma autônoma os textos de modo geral. Para alcançar este intento, tomaremos como
inspiração basilar, os estudos de Isabel Solé (1999), que chamam a atenção para a
problemática de duas questões: o analfabetismo funcional e o baixo número de leitores
aficionados, no Brasil.
Segundo Solé (1999, p. 29):

[...] as frequentes referências da mídia aos poucos aficionados pela leitura existentes
em nosso país e a publicação de estatística de venda de livros e de jornais também
constituem um claro expoente de que não utilizamos a leitura tanto quanto
poderíamos e que, de qualquer forma, não lemos muito.

O analfabetismo funcional é a realidade de um bom número dos nossos


estudantes. A baixa procura pelos livros e a consequente pouca leitura, também é uma
outra constatação acerca da realidade dos nossos alunos. Este fato pode ser ratificado
pelo Instituto Paulo Montenegro que, em parceria com a ONG Ação Educativa, ambos
de São Paulo, em análises realizadas entre os anos 2012 a 2015, por especialistas de
diversas áreas do conhecimento, constatou que apenas 8% dos brasileiros entre 15 e 64
anos atingiram nível proficiente de letramento, enquanto 27% foram classificados como
analfabetos funcionais. Pensamos, então, no papel social da escola em promover a
Leitura Literária e em proporcionar experiências leitoras que promovam a autonomia
que o aluno precisa conquistar para interagir crítica e colaborativamente na sociedade, e
encontramos em Solé (1999), o discurso que corrobora nossa preocupação em
promover este espaço escolar de convivência eficiente e transformadora com a leitura,
quando ela diz que:

Um dos muitos desafios a ser enfrentado pela escola é o de fazer com que os
alunos aprendam a ler corretamente. Isso é lógico porque a aquisição da leitura é
imprescindível para agir com autonomia nas sociedades letradas, e ela provoca uma
desvantagem profunda nas pessoas que não conseguiram realizar esta
aprendizagem. (SOLÉ, 1999, p. 38)

Infelizmente sempre existiu uma distância significativa entre o leitor e o livro aqui
no Brasil. Muitas são as causas desta triste realidade. As nossas crianças crescem, em sua
maioria, sem nenhum ou com pouquíssimo contato com o livro, salvo raras exceções
para quem teve o privilégio de pertencer a uma família, não diria de médio ou alto poder
aquisitivo, mas, principalmente, que tenha motivado o hábito de ler ou proporcionado
condições de acesso à leitura.

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Esta deveria ser, então, também função da escola, o que durante muito tempo não
correspondeu à realidade, tanto pelo descaso de políticas públicas de acesso aos livros,
como de formação do professor-leitor, já que este, geralmente, também não cultiva o
hábito da leitura, não cabendo aqui refletir sobre as causas.
De toda sorte, os especialistas reconhecem a importância do professor e por
extensão da escola na formação leitora, especialmente das crianças, quando o contato
inicial se dá em situações de diversão e prazer, porque:

Quando o professor possibilita a fruição dos seus alunos, ele está dando reais
condições para que estas crianças possam se desenvolver, baseados na liberdade de
expressão, independentemente do livro que lhes foi apresentado, pois a justificativa
que legitima o uso do livro na escola nasce, de um lado, da relação que estabelece
com seu leitor, convertendo-o num ser crítico perante sua circunstância; e, de
outro, do papel transformador que pode exercer dentro do ensino, trazendo-o para
a realidade do estudante e não submetendo este último a um ambiente rarefeito do
qual foi suprida toda a referência concreta. (ZILBERMAN, 2003, p. 18).

Quando Filipouski (2005, p.227) defende que a leitura literária permite ampliar o
horizonte de expectativas do aluno, tornando-o autônomo, ajudando-o a conviver com
respeito e solidariedade, dentre outros benefícios, ressalta que a “mediação de um
professor-leitor, dá consistência e continuidade a esse processo, daí ser importante
compromisso de formação e atualíssimo instrumento de humanização e convivência
social.”
Infelizmente observamos, a cada ano, o crescimento do número de alunos
desinteressados pela leitura, causado por motivos vários: equívocos na iniciação leitora,
inexistência ou inoperância de bibliotecas escolares e públicas, posição do livro na escala
de valores da sociedades e da tradição cultural, fácil acesso e massiva presença dos meios
de comunicação, e em especial, a didatização da Leitura Literária que tem favorecido
situações leitoras obsoletas, tediosas e autoritárias, já que impostas e sem primar pela
relevância do sentido que tem para além do conteúdo. Uma Leitura Literária que
privilegia a história da literatura, a interpretação textual e gramatical lógica e pontual não
corresponde ao que representa a rica experiência de ler.
Constata-se assim que, apesar da importância da prática da leitura na escola,
especialmente das propostas voltadas para a Leitura Literária, este espaço de ensino e
aprendizagem ainda busca encontrar, com a necessária eficiência, caminhos que
conduzam a experiências de leitura efetivamente exitosas, haja vista a falta de adesão da
maioria dos alunos, quando lhes apresentamos oportunidades de acesso à literatura, tida
muitas vezes, como um saber dispensável.
A Leitura Literária na escola sempre foi programada com vistas à avaliação de
conteúdos ou ao cumprimento da obrigatoriedade de sua presença, quase que
exclusivamente nas aulas de Língua Portuguesa, como pretexto para o exercício da
escrita ou para a apresentação de elementos de textualidade, de autores e de estéticas
literárias, sem de fato serem entendidas – leitura e escrita – em suas múltiplas práticas
escolares e sociais.

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Entender a Leitura Literária, no espaço de ensino e aprendizagem, com a


importância que lhe é devida, ainda é algo distante da compreensão, do discurso e das
reflexões da maioria dos professores que, por extensão, muitas vezes desconsideram o
real lugar da literatura na escola, desvalorizam seu papel humanizador e interacionista e
desconhecem a sua importância num mundo feito de palavras, reduzindo assim, a
experiência com a literatura, a simples leituras, sem maiores significados. Segundo
Cosson:

Na escola, a leitura literária tem a função de nos ajudar a ler melhor, não apenas
porque possibilita a criação dos hábitos de leitura ou porque seja prazerosa, mas
sim, e sobretudo, porque nos fornece, como nenhum outro tipo de leitura faz, os
instrumentos necessários para conhecer e articular com proficiência o mundo feito
de linguagem. (COSSON, 2009, p. 30)

É preciso, então, discutir com os professores da Educação Básica todo o processo


que se efetiva quando da leitura de um texto literário: a racionalidade, a coerência, a
técnica, a teoria e a prática que envolvem a leitura do texto narrativo na perspectiva de
sua aplicação pedagógica. Entender o processo cerebral, o trabalho de cognição, a
intencionalidade persuasiva, a repercussão afetiva e emocional, o desvendamento
simbólico, enfim, todo o complexo e implícito processo que antecede a leitura, que a
acompanha enquanto se realiza e que repercute nas vivências e trocas que o leitor
experimenta pós-leitura.
Assim, caberá à escola reconhecer não apenas a importância da literatura como
fruição, mas também e, em alguns casos, como uma estratégia de desenvolvimento do
intelecto e, ainda mais, segundo Cândido (2011, p. 177), como “um fator indispensável
de humanização, [...] inclusive porque atua em grande parte no consciente e no
subconsciente”, além de ser um meio de, dentro de diferentes contextos, problematizar
a realidade, uma vez que o bom leitor é aquele capaz de dialogar com os textos os
sentidos, a simbologia e os desafios do mundo.
A leitura, portanto, não é apenas uma atividade mental associada à fruição ou à
análise de elementos preestabelecidos e aplicados a qualquer texto. Não cabe mais à
escola preocupar-se somente com a mera leitura técnica que, muitas vezes, resulta no
simples preenchimento de fichas ou na identificação de elementos textuais; não mais,
portanto, meras contextualizações que situam o texto num tempo e num espaço, ou que
se restringem ao levantamento de temáticas que se arrastam por décadas em elaborações
repetidas acerca de determinadas obras; não mais o equívoco do que denominamos
interpretação: um roteiro pronto e direcionado, realizado a partir de interrogativas
antecipadas que, com resposta prontas, retiradas do texto, nada interpretam no sentido
de dizerem do que o leitor captou, colheu, descobriu, inferiu.
Precisamos, então, nós, professores de Língua Portuguesa, portanto, de Literatura,
alargar nossos horizontes de percepção acerca das diversas possibilidades de dar
significado às experiências com a leitura, investindo maior atenção à Leitura Literária,
que consiste em experiências de leitura que, embora possam ser iniciadas na escola,

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extrapolam seus muros, permitem romper limites de tempo e espaço, repletas de saberes
sobre o homem e sobre o mundo.
Surge, então, a presença na escola do professor que, sendo um leitor guia, investe
em estratégias de formação do aluno-leitor, um professor que de fato reconheça que a
leitura proficiente de textos literários pode e deve ser ensinada na escola, evoluindo este
aluno-leitor da leitura inocente para a leitura experiente, conforme preconiza Jouve
(2002).
Estas reflexões reforçaram em mim o desejo de fazer valer o meu papel como
mediadora no surgimento, podemos mesmo assim dizer, de leitores literariamente
letrados e de percebermos – eu e eles – a literatura, como um bem incompressível, assim
como são incompressíveis “[...]a alimentação, a moradia, o vestuário, a saúde [...]”
(CÂNDIDO, Op. Cit., 177), portanto, um direito, “[...] uma necessidade universal, que
deve ser satisfeita sob pena de mutilar a personalidade, porque pelo fato de dar forma
aos sentimentos e à visão do mundo ela nos organiza, nos liberta do caos e portanto nos
humaniza”. (CÂNDIDO, Op. cit., p. 188).
Filipouski (2005, p.227) chama a atenção para a riqueza da leitura como um
processo que contribui significativamente para o desenvolvimento da percepção da vida
e do reconhecimento do outro. A autora, então, reforça que a leitura literária aprimora a
aquisição de conhecimentos e saberes objetivos, mas acima de tudo torna o leitor mais
capaz de pensar e sentir.
Face a estas constatações fui provocada por inúmeros questionamentos, na
condição de professora de Língua Portuguesa, responsável por tornar o espaço da escola
um convite ao despertamento acerca da imprescindibilidade da Literatura na vida, lugar
onde esta evidenciação se manifesta mais sistematicamente.
Cândido, (Op. Cit, p.177) defende que:

Os valores que a sociedade preconiza, ou os que considera prejudiciais, estão


presentes nas diversas manifestações da ficção, da poesia e da ação dramática. A
literatura confirma e nega, propõe e denuncia, apoia e combate, fornecendo a
possibilidade de viver mais dialeticamente os problemas. Por isso é indispensável
tanto a literatura sancionada quanto a literatura proscrita; a que os poderes sugerem
e a que nasce dos movimentos de negação do estado de coisas predominante.”

Pensemos, então, na escola como o lugar onde se associa o ensino à realidade, o


texto ao contexto, a informação às vivências cotidianas; pensemos, por sua vez, o texto
literário, onde estes contextos diversos, retratando e discutindo o passado, o presente e
o futuro são simbolicamente representados e refletidos e, pensemos o professor, como
o mediador de situações e circunstâncias onde estas discussões ganham sentido e
produzem não apenas conhecimento, mas acima de tudo podem preparar o leitor para
resolver problemas, tomar decisões, posicionar-se criticamente, agir e reagir diante desta
ou daquela situação.
E no andar natural dos aprendizados e das adesões que vamos juntando na vida, o
bom contato com a leitura vai nos tornando leitores do mundo e as memórias do tempo
da escola vão se revelando no dia a dia, em pequenos, como em intensos momentos do

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agora. Daí o nosso desejo de que enterremos a escola que inibe e impõe a leitura, que
castra escolhas e define fria e tecnicamente o que, como e por que ler. O exercício
dialógico do texto não pode ser sufocado pela pura sistematização do ensino, o
dinamismo da literatura não pode ser abortado pelo marasmo do formalismo e a palavra
livremente tomada pelo texto não pode ser empobrecida pela ditadura do entendimento
previamente construído para ser aceito sem questionar, afinal:

Como dizia Drummond, a lógica primeira da literatura é retirar as palavras de seu


estado dicionário, abstrair da palavra seu sentido de natureza, de nomenclatura
cristalizada. A palavra, para a literatura, terá assim uma dinâmica própria e exigirá
de nós o estabelecimento de uma parceria, uma cumplicidade, uma coparticipação,
uma coautoria. Daí porque a palavra terá uma significação para o dicionário e para
a literatura sofrerá uma ampliação de sentidos. Nessa trajetória de educar os
sentidos é que a literatura se torna autônoma e plural. (ARAÚJO, 2006, p. 56)

Foi com esse desejo de sentir no olhar e de perceber na fala ou no silêncio dos
meus alunos o encantamento que a leitura literária pode dar de presente a quem se deixa
por ela seduzir, que dediquei um tempo do meu fazer e do meu pensar a estas reflexões.
Foi por acreditar que os meus alunos merecem e, acima de tudo, têm o direito de
conhecer a magia e a importância da leitura, aqui consubstanciada na literatura, que me
debruço sobre cada planejamento com compromisso e que a eles me dirijo, a cada
encontro, motivada por um afeto que ultrapassou os limites das atribuições profissionais
para se estender à minha entrega humana e essencial.
Gostaria que todos pudessem sentir o que sinto quando tomada por um texto, a
absorção, a reverência ou rejeição, o que fica e o que preferimos descartar, a graça ou o
temor, o arrepio ou o calor, enfim, gostaria que meus meninos e meninas
definitivamente compreendessem que:

A poesia de ler é imprescindível à vida humana e soma-se no bom contágio que


reúne pessoas em tribo, de que não é possível recuar. Mesmo quando a leitura
assuma o discurso não explícito, interessado pelo desejo, pela sutileza da fenda.
Porque ler assim será uma subversão dos sentidos, resistência ao aniquilamento do
ser na era das atrocidades. Por isso que ler é estabelecer compromissos com o
humano, partilhar signos, firmar cumplicidades à base do que diz Drummond:
Tudo o que é humano me interessa. [...] A leitura torna-se processo social histórica e
inconscientemente dependente da memória social e crítica do leitor, ainda que seja
no fortuito esquecer para lembrar. (ARAÚJO, 2006, p. 76)

Sem mais, porque daqui para frente será com cada um que conseguirmos
despertar para o mundo desafiador da leitura e sua relação íntima e única com o texto,
seja ele qual for.

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4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Compreendemos com esse estudo que a presença da literatura nas salas de aula da
educação básica é imprescindível para que os sujeitos em formação desenvolvam
aspectos importantes da linguagem. Para isso, questões como a importância da
formação leitora, crítica e cidadã dos estudantes em comparação com os saberes
docentes profissionais constituídos ao longo de anos de experiência, são essenciais. O
professor e a professora de Língua Portuguesa precisam atentar para a necessidade de
mediar no espaço escolar o desenvolvimento de competências leitoras, de práticas de
escrita, de inserção cultural e inclusão social. Para tanto, é preciso atentar para as formas
como se efetiva a presença da leitura literária nas salas de aula, promovendo práticas
exitosas de leitura literária, consolidada, como já dito, no espaço escolar por adesão
espontânea e espírito colaborativo.
Observamos que, mesmo com toda evolução nos estudos da área de linguagem e
da própria transformação nas práticas pedagógicas relacionadas ao ensino de língua
materna, ainda carecemos de resultados mais significativos quando estamos tratando do
gosto pela leitura, atestando com isso, a máxima de que há uma distância entre o real e o
possível no que tange a esse gosto.
Mas acreditamos que, se refletirmos sobre a importância do ato de ler sob
diversos prismas, desde o seu papel no aperfeiçoamento de competências linguísticas e
comunicativas, até sua participação na formação do ser e do cidadão que se educa para a
vida e para a sociedade, conseguiremos aproximar a formação do Leitor Literário crítico
e reflexivo até um ideal possível. Para isso, é preciso aprofundar estudos no campo da
importância do ato de ler, discutir a presença da leitura literária nas salas de aula da
educação básica e refletir sobre estratégias podem se apresentar como possibilidades de
formação do leitor literário.
Concluímos nossas reflexões, enfatizando o papel do professor como leitor-guia, a
posição da escola como espaço favorável à promoção de experiências leitoras exitosas e
o despertar do gosto pela leitura como uma possibilidade ao alcance de nossas propostas
pedagógicas.

REFERÊNCIAS

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sobre Azul. São Paulo, Rio de Janeiro, 2004.
COSSON, R. Letramento Literário: teoria e prática. São Paulo: Contexto, 2009.
FILIPOUSKI, A. M. R. Para que ler literatura na escola? In:_____ SHAFFER N.;
MARCHI, D. (org.). Teorias e fazeres na escola em mudança. Porto Alegre: Editora da
UFRGS, 2005. p. 223-229.

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entrelinhas: leitura na sala de aula. Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 2008. p. 26-48.
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escolar. Belo horizonte: Faculdade de Letras da UFMG, 2004. p. 63-73.

Recebido em: 10/10/2019


Aprovado em: 07/12/2019
Publicado em: 19/12/2019

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