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Texto 1. A emergência do biopoder

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1

A emergência do biopoder 1
Ana Monteiro2

Foucault define esse movimento temporal no qual o poder político acaba por assumir
- -se do
momento em que os processos da vida são levados em consideração pelos procedimentos
de

passam a ser incorporados à esfera das técnicas políticas de forma tão avassaladora que já
não podemos pensar a vida humana em separado das práticas políticas que pretendem
definir seus modos de viver, pensar, agir e sentir.
Anteriormente, na formação histórica clássica, o homem e a vida não existem como
problema. Tendo suas forças agenciadas a forças de infinitude a vida é dádiva divina e sua
existência naturalizada se configura através de representações infinitas de Deus. O
problema político girando em torno do direito natural faz do sangue e da morte as figuras
que orientam e sustentam
só exerce seu direito sobre a vida, exercendo o direito de matar ou contendo -o; só marca
(Foucault, 1985: 128). Só
aos representantes divinos cabe decidir pela continuidade natural da vida: matar ou deixar
viver? Foucault relaciona essa figura jurídica, representada pelo soberano, a um tipo
histórico de sociedade, na qual o poder se confunde com o direito de apropriação e confisco
que esses, como representantes divinos, detinham naturalmente sobre os demais, os
súditos. Em suma, o poder, nessa configuração diagramática, era direito de apreensão de

im (Ibidem, idem).
Nessas sociedades, havia uma associação imediata entre medo e covardia.
Considerado um vício dos covardes, era vergonhoso entre os membros da nobreza. Estes
últimos, os guerreiros, possuíam a virtude da coragem como dád iva divina. A igreja,
ocupando um importante papel político e cultural, aliava -se à aristocracia na difusão da
idéia endereçada a reforçar a obediência dos servos aos nobres: era preciso se conformar
com a pobreza, pois era um desígnio de Deus. Havia a cre nça de que a organização social
teria se formado a partir do desejo de Deus: uns rezavam (a igreja), outros combatiam (os

1
Este artigo é parte integrante da Dissertação de Mestrado em Psicologia da autora. Universidade
Federal Fluminense, UFF, 2002. Título: Clínica, biopoder e a experiência do pânico no
contemporâneo. Orientador: Cecília Maria Bouças Coimbra.
2
ABREU, Ana Maria do Rego Monteiro.
2

nobres) e outros trabalhavam (os servos). Uma ordem assim estabelecida, onde o valor
maior era baseado na propriedade da terra condição de uns poucos privilegiados (os
nobres) aos trabalhadores, temerosos na luta pela sobrevivência, estava já destinado o

mesmo tempo. Aos nobres, ao contrário, cabia o p razer de desfrutar a vida e manter a

Nessa ordem social, o poder do soberano se exercendo em nome da divindade faz a lei de
acordo com o que lhe convém. Obedecendo apenas ao julgamento divino tudo que existe
as coisas, as palavras e os viventes fazem parte de um grande coletivo divino que a tudo
engloba: uma única identidade já sabida (Deus) que se desdobra em explicações e
representações infinitas.

enunciados ditos clássicos, funcionalmente, é a operação de desenvolvimento até ao


infinito, de formação de continuuns, de desdobramento de quadros: desdobrar,
desdobrar sempre
(Deleuze, 1987: 170).

Nesse tipo de formação histórica, a finitude constituinte é impensável; não exist e a


possibilidade de percepção de uma delimitação corporal humana que se distinga da divina.
Não existe o indivíduo. Não há, portanto, distinção entre o individual e o coletivo, nem
entre privado e público. Diante de tal poder superior, para o qual cabia o bedecer, ocupando
os lugares, exercendo as funções e aceitando vícios e virtudes correlatos, tidos como
próprios, naturais e necessários e que homem algum pode alterar, havia uma

r
A partir do séc XVII, o homem toma o lugar de Deus e a razão o lugar da fé. As
forças do homem que antes se agenciavam com as forças do infinito entram em
relacionamento com forças de finitude: a vida, o trabalho e a linguagem. Estas introduzem
a morte no homem. Uma grande ênfase é dada à consciência racional a fim de produzir as
verdades consideradas científicas. Desenvolvem-se as ciências da vida (biologia), as
ciências do trabalho e da produção (economia política) e as ciências da linguagem
(lingüística). Entramos no século das luzes, onde os temas discutidos, passando a girar em
torno das idéias de liberdade e do progresso, colocam a vida como algo a ser construído
pela mão do homem. Rejeita-se a idéia do poder divino ligado aos reis. Prega-se a

burguesia em franca ascensão, buscando consolidar uma nova ordem social com base no
poder do capital.
3

Habitualmente, no campo do pensamento, se faz remontar a Kant tal passagem, na

entanto, nos mostra que Foucault introduz um novíssimo elemento, ao afirmar que não se
trata de uma simples tomada de consci ência da finitude dentro de causas historicamente
determináveis. A idéia de uma tomada de consciência implica na concepção de uma
essência que se mantém, ou seja, uma filosofia do sujeito. Para Foucault não se trata do
momento em que o homem toma consciência de sua finitude, mas do engendramento
mesmo da forma-homem em ruptura com a forma com a qual o homem se reconhecia, a
forma-Deus. Trata-se, portanto, de um afrontamento com as forças do de-Fora, onde nada
está historicamente determinado, mas, ao contrár
se inventa.

finitude enquanto forças do de-Fora: é fora de si que ela tem de haver -se com a
finitude. Em seguida, e só em seguida, num segundo tempo, faz da finitude a sua

1987: 171)

Temos aí o advento de uma nova dimensão a finitude e não um novo


dobra que doravante domina, empregando a
terminologia de Foucault, segundo aspecto do pensamento operatório que se encarna na

subjetivação que se constituem a partir do afrontamento com as forças do de-Fora. Quando


o afrontamento se dá com forças de finitude as relações de poder passam a se estabelecer

são o Trabalho, são a Linguagem: tripla raiz da finitude que v ai fazer nascer a biologia, a

exercer o poder. O poder que antes se exercia pelo confisco e supressão da vida
transforma-se em um poder destinado a produzir forças mais do que barrá-las ou destruí-
las. Encarregado da gestão calculista da vida, esse poder passa a operar tanto na via das
ordenações disciplinares dos corpos como na via do controle da vida em seu conjunto.
Trata-se de um longo processo em que o homem ocidental aprende pouco a pouco o que é
ser uma espécie viva num mundo vivo: ter um corpo e construir as próprias condições de
existência a partir de forças que podem se modificar.

-se no político;
o fato de viver não é mais esse sustentáculo inacessível que só emerge de tempos
em tempos, no acaso da morte e de sua fatalidade: cai, em parte, no campo do
controle do saber e de intervenção do poder. Este não estará mais somente às
voltas com sujeitos de direito sobre os quais seu último acesso é a morte, porém
com seres vivos, e o império que poderá exercer sobre eles deverá situar -se no
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nível da própria vida; é o fato do poder encarregar -se da vida, mais do que a
ameaça de morte, que lhe dá acesso ao corp

É nesta via que Foucault faz referência à modernidade. Se antes, o poder soberano

das mais maciças transformações do direito político que, na v erdade, vem a complementar
o velho direito de soberania com outro direito, ou melhor, um poder exatamente inverso:

recoberta pela administração dos corpos e pela gestão calculista da vida. (...)
explosão, portanto, de técnicas diversas e numerosas para obterem a sujeição dos

O aprisionamento da vida na sociedad e disciplinar

A partir da década de 70, Foucault se dedica a pensar a vida em sua relação com o
poder. Em 1974, durante as conferências intituladas A Verdade e as Formas Jurídicas,
realizadas na PUC/RJ, através da análise das transformações das práticas pe nais na
passagem do século XVIII para o século XIX, nos mostra o surgimento de novos
procedimentos de poder e saber que caracterizam um novo modo de organização social,

Nestas conferências, Foucault chama atenção para dois aspectos que vão definir o
diagrama disciplinar. O primeiro diz respeito à invenção da prisão como espaço penal, não
previsto pelos teóricos da reforma judiciária, mas que se generaliza como forma
institucionalizada de correção disciplinar no início do século XIX. O outro aspecto destacado
por Foucault refere-se à mudança nos objetivos das penalidades. Em que pese outras
transformações, em relação aos atos considerados criminosos, o aspecto destacado por
Foucault se faz n
penal, será profundamente modificado. Da guilhotina às prisões, um longo processo de

disciplinares um novo modo de exercício do poder que se articula ao deslocamento do

penalidade toma como objeto a perda da liberdade individual, isto é, a perda de um bem ou
u
punitivos testemunham um deslocamento do objeto do poder, um poder que se exerce
positivamente e primeiramente sobre a vida em sua gestão incorpórea.
5

orpo e o sangue, velhos partidários do fausto


punitivo, são substituídos. Novo personagem entra em cena mascarado. Terminada
a tragédia, começa a comédia, com sombrias silhuetas, vozes sem rosto, entidades
impalpáveis. O aparato da justiça punitiva tem que ater-se, agora, a esta nova

Mais do que uma definição formal, a mudança incide sobre a constituição do


elemento punível. Entra em cena o julgamento das paixões, dos instintos, das anomalias,
das enfermidades, das inadaptações, dos efeitos do meio ambiente ou da hereditariedade.
Busca-se identificar até que ponto a vontade do réu estava envolvida no crime. Aprecia -se
algo no crime para além do fato em si: o criminoso será examinado com vistas a conhecê -
lo, a fim de saber o que se pode esperar dele no futuro. A história pregressa do criminoso
o que se pode saber sobre as relações entre ele, seu passado e o crime permitirá um
diagnóstico e, principalmente, um prognóstico. Foucault destaca que, nesse de svio, um
novo tema ganha expressão no discurso penal. É o tema das circunstâncias atenuantes que
podem modificar, segundo a avaliação do juiz ou do júri, a aplicação da lei no julgamento
do indivíduo. Foucault vê neste procedimento, um entrecruzamento entr e as noções
veiculadas pela jurisprudência e a medicina, fazendo com que a explicação de um ato
criminoso se transforme numa maneira de qualificar um indivíduo. A partir daí, os
procedimentos terão como finalidade, mais do que sancionar a infração, neutral izar sua
periculosidade com vistas à correção, ao controle de suas vontades, a prevenção de um ato
que pode vir a acontecer e não simplesmente o julgamento do acontecido. O que se
nalidade
infratora.

sociedade que o controle e a reforma psicológica e moral das atitudes e do


comportamento dos indivíduos. (...) Toda a penalidade do século XIX passa a ser um
controle, não tanto sobre o que fizeram os indivíduos está em conformidade ou não
com a lei, mas ao nível do que podem fazer, do que são capazes de fazer, do que

Segundo a análise de Foucault, a noção de periculosidade determina que o indivíduo


será considerado pela sociedade não pela atualidade de seus atos, mas pela virtualidade de
sua condição. Trata-se de um movimento que introduz as infrações nos campos dos objetos
susceptíveis de um conhecimento científico, o qual consiste em dar ao mecanismo de
punição legal um poder justificável não mais simplesmente sobre as infrações, mas sobre
os indivíduos e suas virtualidades: não mais sobre o que eles fizeram, mas sobre aquilo
que eles são, serão ou possam ser. Decorre daí que para assegurar o controle dos
indivíduos será preciso que a instituição penal se amplie de forma a exercer o controle das
virtualidades e potencialidades dos indivíduos. Esse controle penal punitivo dos indivíduos
ao nível de suas virtualidades, segundo Foucault, será efetuado por uma série de
instituições de vigilância e correção que vão enquadrar os indivíduos ao longo de sua
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existência: a polícia e as instituições psicológicas, psiquiátricas, criminológicas, médicas e


pedagógicas. Assim, em torno da instituição judiciária e para lhe permitir assumir a função
de controle dos indivíduos ao nível de sua periculosidade, desenvolve -se uma gigantesca
es que a
justiça se atribui neste momento: função não mais de punir as infrações dos indivíduos,

Vamos ver surgir, assim, uma forma de poder que não visa mais à extração e
supressão da vida, mas, ao contrário, incita à produção da vida de acordo com um padrão
de normalidade. Segundo Foucault (1988), é neste momento, quando o corpo humano
torna-
s primeiros efeitos desse modo de exercer o poder. (Foucault,
1988: 183). Surge a forma-homem tal qual a conhecemos, ou seja, o modo indivíduo de
subjetivação.

só funciona em cadeia. (...) O poder funciona e se exerce em rede. (...) Em outros


termos, o poder não se aplica aos indivíduos, passa por eles. Não se trata de
conceber o indivíduo como uma espécie de núcleo elementar, átomo primitivo,
matéria múltipla e inerte que o poder golpearia e sobre o qual se aplicaria,
submetendo os indivíduos ou estraçalhando -os. Efetivamente, aquilo que faz com
que um corpo, gestos, discursos e desejos sejam identificados e constituídos
enquanto indivíduos é um dos primeiros efeitos de poder. O ind ivíduo é um efeito do
poder e simultaneamente, ou pelo próprio fato de ser um efeito, é seu centro de

idem).

O modelo que emerge é o de gerir a vida de forma ordenada, através da regulação


do tempo e da fixação de limites espaciais, com vistas à produção de um corpo individual
normatizado, que não ofereça resistência, mas ao contrário que funcione como centro de
ligação e transmissão de poder. Assim, as instituições disciplinares não se caracterizam por
excluir os indivíduos, mas sim por ligá-
correção dos produtores. Trata-se de garantir a produção ou os produtores em função de

s assim na idade do que eu chamaria de ortopedia social. Trata -se


de uma forma de poder, de um tipo de sociedade que classifico de disciplinar por
oposição às sociedades propriamente penais que conhecíamos anteriormente. É a
cault, 2001: 86).

que programou, definiu e descreveu da maneira mais precisa as formas de poder em que
vivemos e que apresentou um maravilhoso e célebre modelo desta socieda de da ortopedia
7
3
generalizada: o famoso Panopticum

mais que um modelo arquitetônico, o panóptico funciona co

(Ibidem, idem). Olhar que tudo olha e não é visível, eis a vigilância disciplinar descrita por
Foucault. Olhares hierarquizados fa cilitados não só pela arquitetura das instituições, mas
também por uma arquitetura de olhares escalonados em chefes, subchefes, mestres,
contramestres e monitores em cada instituição.
scrita por
Foucault em Vigiar e Punir (1977): o panoptismo - um olho que ninguém vê, mas que tudo
vê, produzindo efeitos de poder pela função do olhar.

define o panóptico pela pura função de impor


uma tarefa ou uma conduta quaisquer a uma qualquer multiplicidade de indivíduos,
sob a condição única de a multiplicidade ser pouco numerosa e o espaço limitado,
pouco extenso. (...) o Panóptico atravessa todas essas formas e aplica -se a todas
essas substâncias: é nesse sentido que ele é uma categoria de poder, uma pura

Há aí uma clara tendência à invisibilização do exercício do poder. Este se capilariza


formando um tecido microfísico onde a verticalidade do exercício do poder é substituída p or
uma horizontalidade ou lateralidade de suas práticas. Entre essas práticas, uma mesma
função: vigilância, correção/produção e controle das virtualidades. Passagem importante da
visibilidade do rosto do poder de um soberano para o poder que se exerce pel a função
olhar. O panoptismo amplia infinitamente a força deste poder sem rosto que se infiltra em
todo o corpo social. Saber-se olhado, vigiado, controlado, sem que se possa identificar a
figura, o rosto que possui o poder, acaba por intensificar os efeit os deste poder: o olho que
nada vê, mas que se sabe olhado, vai aos poucos internalizando a vigilância sobre si e
sobre os outros. O efeito deste modo de exercer o poder passa a se expressar numa forma
de auto-vigilância constante. O rosto invisível do pod er se inscreve no corpo de cada
indivíduo, colando em si mesmo a ação e o efeito da vigilância.

O Panopticon é a utopia de uma sociedade e de um tipo de poder que é, no


fundo, a sociedade que atualmente conhecemos utopia que efetivamente se
realizou. Este tipo de poder pode perfeitamente receber o nome de panoptismo.

3
Panopticon era um edifício em forma de anel, no meio do qual havia um pátio com uma torre no
centro. O anel se dividia em pequenas celas que davam tanto para o interior como para o exterior.
Em cada uma dessas pequenas celas, havia segundo o objetivo da instituição, uma criança
aprendendo a escrever, um operário trabalhando, um prisioneiro se corrigindo, um louco atualizando
sua loucura, etc. Na torre central havia um vigilante. Como cada cela dava ao mesmo tempo para o
interior e o exterior, o olhar d o vigilante podia atravessar toda a cela; não havia nela nenhum ponto
de sombra e, por conseguinte, tudo o que fazia o indivíduo estava exposto ao olhar de um vigilante
que observava através de venezianas, de postigos semi -cerrados de modo a poder ver tudo sem que
ningémao contrário pudesse vê-lo. Para Bentham esta pequena e maravilhosa astúcia arquitetônica
8

Foucault descreve o panoptismo como um modo de exercer o poder, no qual as


práticas se assentam não mais sobre o inquérito, mas sobre a vigilância e o exame: não se
trata de reconstituir um acontecimento, mas antes da vigilância ininterrupta e total sobre a
vida dos indivíduos. A produção disciplinar estabelece -se assim pela função desse olhar que
vigia, examina e a partir daí torna possível a constituição de um saber que emerge como
conhecimento de si. Tal saber orienta-se não mais em torno dos acontecimentos, da
dinâmica das relações, mas em torno da constituição do indivíduo normal. Surge um novo
enfoque e novas questões. Não se trata mais da constituição de um saber sobre os atos
realizados por alguém. Não importa a presença ou ausência; a existência ou inexistência.
Importa a possibilidade, isto é, a virtualidade dos acontecimentos que deve ser controlada,
com vistas
estabelecidas. O poder de normalização incita à produção de uma nova ordem através da
regulação dos comportamentos, atitudes e discursos, de acordo com um padrão de

-poder que vai dar lugar não às


grandes ciências de observação como no caso do inquérito, mas ao que chamamos

Enquanto nas sociedades de soberania o poder tinha por função destacar, separar,
excluir, na sociedade disciplinar o poder é exercido por me io da operação de combinação,
composição, detalhamento com vistas a produção de indivíduos enredados ao poder que os
constitui. Não se trata mais, essencialmente, de punir, mas de produzir a vida regrada,
normatizada, higienizada, moralizada, onde as verdades produzidas emergem como códigos
morais prescritivos. A produção da verdade sobre o corpo e a mente do homem emerge
como prática disciplinar. Surgindo na aurora da industrialização da sociedade ocidental, a
psiquiatria deveria realizar uma atividade de higiene do espaço social, higiene das paixões
desenfreadas, a fim de instituir a perspectiva de uma moral regulada. Enquanto higiene
moral, a medicina mental surge estreitamente vinculada com a nova medicina,
caracterizada como medicina do espaço social. O objetivo é a higiene das coisas, dos
espaços sociais, dos corpos, que se iniciou procurando solucionar o problema das
epidemias, prosseguindo em sua constituição pela reflexão a respeito da higiene pública, a
fim de manter e gerir a saúde nas cidades.

A medicina como estratégia biopolítica

Uma vez que o saber e as práticas médicas estão fundados numa divisão essencial
entre o normal e o anormal, o estudo deste saber e destas práticas se tornou uma das
9

grandes referências para Foucault, na análise da pa ssagem do poder de soberania, como


modo centralizado de exercício do poder, a um tipo de poder que multiplica suas
articulações, intervenções e efeitos. Este se amplia, se ramifica, num movimento de
capilarização contínua, onde a própria realidade passa a ser produzida, e continuamente
controlada na sua produção. Não se trata mais de colocar questões sobre o poder partindo
de um modelo jurídico que divide o legítimo e o ilegítimo, mas de pensar nesse tema a
partir das noções de estratégias, de mecanismos e de relações de forças produtivas.
É nesta perspectiva que, em diversos momentos de sua obra, Foucault vai fazer
referência à Medicina. Trata-se de considerá-la não como um saber unitário, mas um saber
que se produz no atravessamento de procedimentos os ma is variados que funcionam como
dispositivos de poder que, a partir do século XVIII, investem sobre o corpo do homem e
das populações, produzindo-os na delimitação espacial que engendra o indivíduo e o social.

specialistas do espaço. (...)


Eles foram, juntamente com os militares, os primeiros administradores do espaço
coletivo. (...) O saber sociológico se constitui sobretudo em práticas como a dos

Utilizando técnicas de sujeição como a disciplina (caracterizada pela vigilância


hierárquica, controle do tempo, das atividades); a sanção normalizadora (que qualifica uma
identidade normal/anormal, determinando comportamentos) e o exame -confissão (que
permite classificar, punir, rotular), este conjunto de saberes e práticas não discursivas, a
que se chama medicina, contribui significativamente para o modo de exercício do poder
caracterizado por Foucault como bio-poder. Trata-se de mostrar que a medicina moderna,
não resulta do progresso ou da evolução do saber médico em si, mas tem o sentido de uma
invenção histórica articulada às transformações econômicas, políticas e sociais da época. As
análises sobre as práticas médicas integram o esforço de Foucault em fazer uma análise da
formação de um saber e de um poder de normalização característicos da sociedade
moderna.

pela consciência ou pela ideologia, mas começa no corpo, com o corpo. Foi no
biológico, no somático, no corporal, que antes de tudo, investiu a sociedade
capitalista. O corpo é uma realidade bio -política. A medicina uma estratégia bio -

Recorrendo à história, Foucault desmonta as hipóteses geralmente aceitas, de que a


medicina teria investido logo de início o corpo do proletário, o corpo como força de

As reflexões de Foucault sobre as condições de aparição da medicina clínica no final do


século XVIII mostram como essa medicina foi possível, em função de acontecimentos, como
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as epidemias no final do século XVIII na Europa e de situações político -institucionais


precisas. Vemos organizar-se, então, um novo espaço, isto é, a clínica moderna, que vai
reunir a observação, a prática e a aprendizagem médicas, dada a urgência em responder a
essa situação específica.
Neste processo, Foucault chama a atenção para o surgimento da noção de
Medizinichepolizei, que literalmente significa polícia médica e que consiste em um sistema
completo de vigilância, controle e observação da morbidade, aliado a um outro fenômeno
importante de normalização da prática e do saber médico :

controle pelo Estado, dos programas de ensino e de atribuição dos diplomas. A


medicina e o médico são, portanto, o primeiro objeto da normalização. Antes de
aplicar a noção de normal ao doente, se começa por aplicá -lo ao médico. O médico

Decorre daí o desenvolvimento, entre 1750 e 1770, de programas voltados para a

(Foucault, 1988: 82). Num primeiro momento, não é ao corpo que trabalha, ao corpo do
proletário que se dirige a administração estatal da saúde, mas para o próprio corpo dos
indivíduos enquanto constituem globalmente o E
estatal, a força do Estado em seus conflitos, econômicos, certamente, mas igualmente
políticos, com seus vizinhos. É essa força estatal que a medicina deve aperfeiçoar e

A segunda direção do desenvolvimento da medicina é o da medicina urbana, que


aparece na França, em fins do século XVIII, que tem como suporte não o Estado, mas as
questões econômicas, políticas e demográficas resultantes do processo de urbanização.
Com o início da industrialização, a partir do século XVIII, as cidades passando a funcionar
como principal lugar de mercado e produção, coloca -se a necessidade de organização
destes espaços como corpo urbano integrado, capaz de unificar as relações comerciais. Por
outro lado, com o desenvolvimento industrial, vai surgindo uma população operária que faz
aumentar as tensões políticas no interior das cidades, exigindo dos poderes constituídos
mecanismos de regulação mais rigorosos.
A aglomeração urbana, passando a provocar pequ enos pânicos nas grandes cidades
do século XVIII, especialmente em Paris, se torna, segundo Foucault, um fator
determinante para o desenvolvimento da medicina social. (Ibidem, idem: 85). A título de
exemplo, Foucault faz referência ao "Cemitério dos Inocentes", localizado no centro de
Paris, onde aqueles que não eram notáveis ou não podiam pagar por um túmulo individual
tinham seus corpos jogados uns sobre os outros. Em certo momento, a pressão do
amontoado foi tão grande que as casas vizinhas desmoronaram e os esqueletos se
).
11

idem)

sobretudo, à burguesia emergente. Configura-se assim o primeiro objetivo da medicina


urbana

da circulação dos indivíduos, mas das coisas ou dos elementos, essencialmente a água e o
(Ibidem, idem). Considerados grandes fatores patogênicos coloca -se a necessidade de
arejamento das cidades. Para tanto, solicita- 'Academia de Ciências', de
médicos, de químicos etc., para opinar sobre os melhores métodos de arejamento d as
.(Ibidem, idem). Uma série de avenidas são abertas no espaço urbano,
justificando-se, dessa maneira, a destruição violenta de inúmeras casas populares no
centro de Paris que, segundo análise científica, impediam a circulação do ar. O mesmo
procedimento deu-
começa a Revolução Francesa, a cidade de Paris já tinha sido esquadrinhada por uma
polícia médica urbana que tinha estabelecido o fio diretor do que uma verdadeira
organização
noção de salubridade.

meio e seus elementos constitutivos, que permitem a melhor saúde possível.


Salubridade é a base material e social capaz de assegurar a melhor saúde possível
dos indivíduos. E é correlativamente a ela que aparece a noção de higiene pública,
técnica de controle e de modificação dos elementos materiais do meio que são
suscetíveis de favorecer ou, ao contrário, prejudicar a saúde. Salubridade e
insalubridade são o estado das coisas e do meio enquanto afetam a saúde; a higiene
pública - no séc. XIX, a noção essencial da medicina social francesa - é o controle
político- bidem, idem: 93)

É uma medicina da vigilância, controle e observação dos detalhes: dos pequenos, das
pequenas comunidades, dos bairros, das cidades, dos corpos. É dela que surge parte
significativa da medicina científica do século XIX: a medicina como té cnica de poder. Tendo
como alvo a população, seus procedimentos deslocam -se da arte da cura, para a gestão e
produção da saúde, ou seja, tomam como objeto privilegiado a produção do que
consideram ser uma vida saudável. Começa a se formar um saber médico -administrativo
acerca da sociedade, de sua saúde e suas doenças, de sua condição de vida, de sua
12

e conselheiro e o grande perito, se não na arte de


-lo

Com o desenvolvimento industrial no século XIX, principalmente na Inglaterra, surge

então, não existe ainda a figura do pobre, da plebe, do povo como elemento perigoso para
a saúde. A população pobre fazia parte da paisagem urbana e exceto por se constituírem
eventualmente como força política de revolta, eram muito úteis e imprescindíveis para a
realização de uma série de serviços na vida urbana. No entanto, a partir da epidemia de
cólera de 1832, que começou em Paris e se propagou por toda a Europa, cristaliza -se em
torno da população proletária uma série de medos políticos e sanitários. Esta passa a ser
considerada potencialmente perigosa não por sua força de revolta, mas por serem
considerados portadores de agentes infecciosos.

um perigo sanitário e político para a cidade, o que ocasionou a organização de


bairros pobres e ricos, de habitações ricas e pobres, O poder político começou então

autoritário é estendido no interior das cidades entre ricos e pobres: os pobres


encontrando a possibilidade de se tratarem gratuitamente ou sem grande despesa e
os ricos garantindo não serem vítimas de fenômenos epidêmicos originários da
classe pobre. (ibidem, idem: 95)

Segundo Foucault, é aí que aparece a medicina da força de trabalho, caracterizada


como uma medicina de controle da saúde das classes pobres, para sujeitá -las enquanto
classe, visando a saúde das classes ricas. A criação de todo um sistema de assistência
médica aos pobres aparece como tentativa de resolução do grande problema político da
bur

prática de poder que investindo sobre alvos diversos Estado, cidade e trabalhadores -
paulatinamente se produz, ao mesmo tempo em que produz novas configurações sociais.
Segundo Foucault, é dessa maneira que ao final do séc XIX, esta medicina estava
instrumentalizada para regular a própria força de trabalho, possibilitadora de novos
desenvolvimentos industriais. Trata-se da constituição de um saber prescritivo que tendo
por objetivo a produção e inserção moral das individualidades no espaço, esteve sempre
articulado às demais instituições disciplinares, tendo na produção da família nuclear a sua
maior conexão.

Europa, tem como reflexo a organização da família, ou melhor, do complexo família -


filhos, como instância primeira e imediata de medicalização dos indivíduos;(...)Os
direitos e os deveres dos indivíduos concernindo à sua saúde e à dos outros, o
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mercado onde coincidem as demandas e as ofertas de cuidados médicos, as


intervenções autoritárias do poder na ordem da higiene e das doenças, a
institucionalização e a defesa da relação privada com o médico, tudo isto, em sua
multiplicidade e coerência, marca o funcionamento global da política de saúde do
século XIX, que entretanto não se pode compreender abstraindo -se este elemento
central, formado no século XVIII: a família medic alizada-
1988: 200).

Surge assim a família no papel de articulação dos objetivos gerais relativos à boa
saúde do corpo social com o desejo ou a necessidade de cuidados dos indivíduos. Segundo

recíproco de pais e filhos) com um controle coletivo da higiene e uma técnica científica da
cura, assegurada pela demanda dos indivíduos e das famílias, por um corpo profissional de
médicos qualificados e como
O certo é que no final do século XVIII, na Europa, a população surgia como um
problema político, econômico, demográfico e sanitário, sendo necessário o controle sobre
ela, sobre seu sexo, sua saúde, sua doen ça, sua alimentação, sua moradia. Os fenômenos
próprios à vida dos seres humanos entram no campo das técnicas políticas. Surgem uma
série de dispositivos que passam a investir sobre os processos vitais dos viventes, a fim de
controlá-los, modificá-los e produzi-los como matéria prima de toda produção. Se antes as
preocupações com a vida giravam em torno da gestão da morte, com o desenvolvimento
econômico, social e político, observado a partir deste período, o foco da preocupação passa
a ser a organização dos viventes.

-riqueza,
população mão-de-obra ou capacidade de trabalho, população em equilíbrio entre
seu crescimento próprio e as fontes de que dispõe. Os governos percebem que não

natalidade, morbidade, esperança de vida, fecundidade, estado de saúde, incidência

A partir da apresentação do surgimento da medicina social como estratégia


biopolítica Foucault desenvolve uma série de novas análises sob re o sexo, a espécie e a
raça que se entremeiam e abrem novas perspectivas de análise em relação aos trabalhos
dedicados às disciplinas dos corpos. Nessa passagem de uma análise da ampliação do bio -
poder, da normalização disciplinar ao poder de regulamenta ção, a referência ao
pensamento médico também ocupa um lugar importante. Nos cursos do Collège de France,
entre 1975 e 1976, especialmente nas publicações Em defesa da sociedade (2000b) e na
Vontade de saber (1985), nos deparamos com uma série de análises em torno das práticas
médicas que vão permitindo o deslocamento da idéia de normalização dos limites precisos
dos corpos e dos espaços individuais para o campo amplificado das populações e de seus
processos vitais. Nestes, a formulação do conceito de biopo lítica parece ampliar a
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proposição investigativa da relação entre os mecanismos de poder -saber e os fenômenos


ligados à vida. Tomando a gestão desses fenômenos como o que caracteriza a biopolítica,
os processos de medicalização dos comportamentos, das cond utas e dos desejos, apoiados
na suposição da neutralidade de um discurso mantido como científico por excelência, estão
no cruzamento entre a normalização e a gestão da vida.
Queiroz (1999), ao colocar em discussão a passagem dessa ampliação do bio -poder,
da disciplina dos corpos para o controle das populações, faz referência às conferências
proferidas por Michel Foucault, no Instituto de Medicina Social da UERJ, em 1974, nas quais
der ao

1999: 101). Nestas, o autor destaca o anúncio de Foucault, já no inicio da década de 70,
do investimento prioritário das práticas governamentais mais especificame nte com a saúde,
isto é, com a produção de uma vida saudável.

poder refaz as conexões temporais dos acontecimentos redefinindo a natureza. (...)


Transformar os códigos de transmissão dos genes, extirpar o patológico não no
tempo de sua manifestação por meio de uma ortopedia eficaz ou dos rituais de
exclusão no modelo da lepra. Nem lepra, nem peste. Elimina -se a mínima
propensão. Combate-se as possibilidades. O alvo dos controles desta r ede é, sem
dúvida, o acaso, a possibilidade de ser, o devir, o virtual desvio, qualquer vislumbre

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