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42 Estudo-Vida de Lucas Vol. 1 - To

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© 1986 Living Stream Ministry

Edição para a Língua Portuguesa


© 2009 Editora Árvore da Vida

Título do original em inglês:


Life-Study of Luke

ISBN 978-85-7304-373-0

Tradução: André R. Fonseca


Revisão de Tradução: Marco A. de Mello

1ª Edição — Agosto/2009 — 5.000 exemplares


ESTUDO-VIDA DE LUCAS

MENSAGEM UM
INTRODUÇÃO, TEMA E CONTEÚDO DO
EVANGELHO
(1)
Leitura Bíblica: Lc 1:1-4

Com esta mensagem damos início ao Estudo-


Vida do Evangelho de Lucas. Aparentemente esse
evangelho é bem simples. Pode parecer que o
Evangelho de Lucas não seja tão profundo quanto o
de Mateus ou tão misterioso quanto o de João. O
motivo disso é que Lucas nos dá um relato de nosso
Salvador, o Senhor Jesus, como Homem. Um homem,
é claro, não é profundo quando comparado com Deus.
Embora o Evangelho de Lucas não seja o mais
profundo ou misterioso dos quatro evangelhos, é o
mais doce e agradável de todos. Sim, Deus é
profundo, mas, quando se tomou homem, tomou-se
doce e agradável.
Em Mateus, vemos o Rei; em Marcos, o Servo;
em João, o próprio Deus. Em Lucas, vemos o
Homem. A narrativa de Lucas acerca do Senhor
Jesus como o Salvador-Homem é muito doce e
agradável. Tanto a narrativa como o relato em si são
doces e agradáveis.

INTRODUÇÃO
Lucas 1:1-2 dizem: “Visto que muitos têm
empreendido compor uma narração dos fatos que se
cumpriram cabalmente entre nós, conforme no-los
transmitiram os que desde o princípio foram
testemunhas oculares e ministros da palavra”. A
palavra “muitos” no versículo 1 indica que houve
mais de quatro autores que escreveram relatos da
vida terrena do Salvador. Os “fatos” nesse versículo
são eventos como o nascimento, o ministério e o
martírio de João Batista, e o nascimento, a vida, o
ministério, o ensinamento, a morte, a ressurreição e
a ascensão de Jesus, que ocorreram para a
consumação da redenção de Deus a fim de que
pecadores pudessem ser salvos pela graça.
O versículo 2 salienta que o escritor desse
evangelho não estava entre os discípulos que
acompanharam o Salvador em Sua vida terrena. Com
a frase “os que desde o princípio foram testemunhas
oculares e ministros da palavra”, Lucas denota o
primeiro grupo de crentes do Novo Testamento, que
acompanharam o Salvador em Seu ministério na
terra. Eles são chamados de ministros da Palavra. O
termo grego traduzido por “ministros” significa
servos; isto é, servos oficiais, oficiais de justiça que
assistem ou servem a um funcionário graduado ou a
uma autoridade, para levar a cabo suas ordens. A
palavra grega é usada em Lucas 4:20, Mateus 5:25,
Marcos 14:54, Atos 26:16 e 1 Coríntios 4:1. A Palavra
em 1:2 é a palavra do evangelho ministrada e pregada
ao povo (At 6:4; 8:4).

Narrativa seqüencial
Lucas 1:3-4 diz:' “Igualmente a mim me pareceu
bem, depois de haver investigado tudo
cuidadosamente desde o começo, escrevê-los a ti,
excelentíssimo Teófilo, de modo ordenado, para que
conheças plenamente a certeza das coisas em que
foste instruído”. Lucas aqui salienta que escreve uma
narrativa seqüencial com respeito à vida, ao
ministério e ao martírio de João Batista, e à vida, ao
ministério, ao ensinamento, à morte, à ressurreição e
à ascensão de Jesus, o Salvador-Homem. Esse
evangelho pode ser considerado uma biografia dessas
duas pessoas. É claro, é principalmente uma
biografia do Salvador.

Escrito por Lucas


A igreja primitiva reconhecia Lucas como o autor
tanto desse evangelho como de Atos. A autoria de
Lucas é evidente pelo estilo de composição dos dois
livros. Lucas era gentio (Cl 4:14; cf. Cl 4:11),
provavelmente grego asiático, e médico (Cl 4:14). A
partir de Trôade, juntou-se a Paulo em seu ministério
e o acompanhou em suas últimas três viagens (At
16:10-17; 20:5-21:18; 27:1-28:15). Foi companheiro
fiel de Paulo até este ser martirizado (Fm 24:2; 2Tm
4:11). Portanto seu evangelho deve representar os
pontos de vista de Paulo, assim como o de Marcos
representa os de Pedro.

Para Teófilo
Sabemos por Lucas 1:3-4 que esse evangelho foi
escrito para Teófilo. Este é um nome grego que quer
dizer amado de Deus ou amigo de Deus. Teófilo foi
provavelmente um crente gentio que ocupava alguma
posição oficial no Império Romano. Assim esse
evangelho foi escrito por um médico gentio para um
oficial gentio.

TEMA: O SALVADOR-HOMEM E SUA


SALVAÇÃO
NO MAIS ALTO PADRÃO DE MORALIDADE
Como Lucas é um dos evangelhos sinópticos
sobre a humanidade do Salvador, seu propósito é
apresentar o Salvador como Homem autêntico,
normal e perfeito, revelando Deus entre os homens
em Sua graça salvadora concedida à humanidade
caída. Ele fornece uma genealogia completa do
homem Jesus, retroativamente, desde Seus pais até
Adão, a primeira geração da humanidade. Isso
mostra que Ele é descendente genuíno do homem:
um filho do homem. O registro da vida desse homem
nos impressiona com a integridade e perfeição de Sua
humanidade. Portanto sua ênfase é o Salvador-
Homem. Ele apresenta, baseado nos princípios
morais que se aplicam a todos os homens, mensagens
do evangelho como as de 4:16-21; 7:41-43; 12:14-21 e
13:2-5; parábolas de evangelho como as de 10:30-37;
14:16-24; 15:3-32 e 18:9-14; e os casos de evangelho
como os de 7:36-50; 13:10-17; 16:19- 31; 19:1-10; e
23:39-43. Nada disso é registrado nos outros
evangelhos. Lucas não ressalta o aspecto
dispensacional ou o pano de fundo judaico, como
Mateus o faz. O evangelho de Lucas é escrito para a
humanidade em geral, anunciando as boas-novas a
todas as pessoas (2:1 O). Sua característica não é
absolutamente judaica, e sim gentia (4:25-28). É um
evangelho para todos os pecadores, tanto judeus
como gentios. Como tal, a sequência de seu relato é
segundo a moralidade, e não segundo os eventos
históricos.
O tema do Evangelho de Lucas é maravilhoso: o
Salvador-Homem e Sua salvação no mais alto padrão
de moralidade. Aqui temos 1) o Salvador-Homem, 2)
Sua salvação e 3) o mais alto padrão de moralidade.
Creio que a maioria dos leitores perceberá que esse
livro fala de um Homem que é nosso Salvador. Assim,
podemos chamá-Lo de Salvador-Homem. Também é
muito fácil perceber que esse livro nos mostra a
salvação do Salvador-Homem. Entretanto poucos
leitores percebem que o Salvador-Homem e Sua
salvação estão no mais alto padrão de moralidade.
Quando alguns ouvem que Lucas apresenta o
Salvador-Homem e Sua salvação no mais alto padrão
de moralidade, talvez digam: “Não se pode encontrar
a palavra 'moralidade' nesse livro. Nem mesmo
vemos a ideia de moralidade”. Aparentemente pode
ser assim mesmo, mas, se pesquisarmos as
profundezas desse livro, veremos que ele de fato
transmite o mais alto padrão de moralidade. De
acordo com o Evangelho de Lucas, nosso Salvador
vive, comporta-se e opera no mais alto padrão de
moralidade. Além disso, Sua salvação é realizada no
mais alto padrão de moralidade. Por isso, precisamos
manter em mente que o tema do evangelho de Lucas
é o Salvador-Homem e Sua salvação no mais alto
padrão de moralidade.

O Salvador-Homem
Concebido do Espírito Santo com a essência
divina
Precisamos ver que o Senhor Jesus é o Salvador-
Homem. Como tal, Ele foi concebido do Espírito
Santo com a essência divina. Diferentemente das
outras biografias, Lucas mostra a concepção Daquele
cuja vida ele registra. Outras biografias podem falar
do nascimento de uma pessoa, mas não de sua
concepção. Nesse aspecto, Lucas é único. Ele nos diz
como o Salvador-Homem foi concebido: não de um
homem, mas do Espírito Santo com a essência divina.
O Espírito Santo é o próprio Deus chegando até
o homem. Isso significa que, quando Deus chega até
o homem, Ele é o Espírito Santo. Com a concepção
do Salvador-Homem, o Espírito Santo entrou na
humanidade.
Já enfatizamos que o Salvador-Homem foi
concebido do Espírito Santo com a essência divina.
Aqui usamos o termo essência num sentido bem
categórico para denotar algo ainda mais intrínseco
que natureza. A essência é o elemento constituinte
intrínseco de certa substância. O Salvador-Homem
foi concebido do Espírito Santo, não só com a
natureza divina, mas com a essência divina. É
extremamente importante que vejamos isso.

Nascido de uma virgem humana com a


essência humana
O Salvador-Homem nasceu de uma virgem
humana com a essência humana. Em 1:27, 31, vemos
que uma virgem chamada Maria concebeu e deu à luz
um Filho cujo nome era Jesus.
Visto que o Salvador-Homem foi concebido do
Espírito Santo com a essência divina e nasceu de uma
virgem humana com a essência humana, Ele tem
duas essências: a divina e a humana. Nele há o
mesclar da essência divina com a essência humana.
Em contraste com o Salvador-Homem, nós
temos somente uma essência: a humana, porque
fomos concebidos de um homem e nascidos de
mulher. Nosso Salvador é diferente porque foi
concebido do Espírito Santo e nascido de uma virgem
humana. Com o Espírito Santo, há a essência divina e,
com a virgem humana, há a essência humana.
A mescla da essência divina com a essência
humana
As duas essências do Senhor não foram
meramente ajuntadas; elas foram mescladas. Na
verdade, qualquer concepção é uma mescla, e não
mera adição. O que ocorreu com o Salvador-Homem
não foi que a essência divina foi simplesmente
acrescentada à essência humana; antes, na concepção
do Salvador-Homem, a essência divina e a humana
foram mescladas.
Alguns estudiosos e até mestres da Bíblia têm
falhado em compreender a questão da mescla. Nos
tempos antigos, havia um debate sobre a mescla das
essências divina e humana na Pessoa do Senhor
Jesus. Alguns que a compreendiam diziam que isso
fez com que uma terceira natureza fosse produzida,
algo que não era nem divino nem humano. Dizer que,
com respeito ao Senhor Jesus, a mescla da essência
divina com a humana produziu uma terceira
natureza, uma natureza que não é nem plenamente
humana nem divina, é heresia. Entretanto desejamos
tornar claro que essa não é nossa compreensão da
palavra “mesclar”, ou “mescla”. N osso emprego
dessa palavra concorda com o Dicionário da Língua
Portuguesa, de Aurélio B. de Holanda: “Mistura de
elementos diversos”1. De acordo com essa definição,
quando dois ou mais elementos são mesclados, a
natureza original deles não se perde, mas permanece
distinguível.
Podemos usar o chá como ilustração de mescla.
Quando o chá é mesclado com a água, nem a essência
do chá nem a da água se perdem. Pelo contrário,
1
A palavra original inglesa é mingle, que, segundo o Dicionário Webster, significa “combinar ou unir (dois ou mais elementos)
especialmente de modo que os elementos originais sejam distinguíveis na combinação”. (N. do T.)
ambas permanecem. Essas duas essências mesclam-
se para produzir uma bebida, mas não produzem
uma terceira natureza, algo que não é nem chá nem
água.
Nosso Salvador foi concebido da essência divina
e nascido da essência humana. Por isso, Ele é uma
Pessoa com duas essências mescladas - a divina e a
humana - sem que uma terceira natureza fosse
produzida. Embora tivesse duas essências, Ele ainda
era uma só Pessoa completa, alguém que é tanto
Deus como homem.

Possui tanto a natureza divina, com os


atributos divinos,
como a natureza humana, com as virtudes
humanas
Como Salvador-Homem, o Senhor Jesus possui
tanto a natureza divina, com os atributos divinos,
como a natureza humana, com as virtudes humanas.
Os atributos divinos estão relacionados com o que
Deus é e tem. Não conseguimos falar sobre os
atributos de Deus de forma a esgotar o assunto, mas
podemos dizer que o Senhor Jesus possuía a
natureza de Deus com todos os atributos divinos.
Eu chamaria a atenção para o fato de que
estamos usando “atributos” com relação a Deus e
“virtudes” com relação ao homem. Visto que o
Senhor Jesus foi concebido do Espírito Santo com a
essência divina, Ele possui a natureza divina com os
atributos divinos. Uma vez nascido de uma virgem
humana, com a essência humana, Ele possui as
virtudes humanas. Por isso, enquanto estava na terra,
Ele viveu uma vida que era tanto humana como
divina. Ele foi um Homem vivendo a vida humana,
mas, naquela vida humana, os atributos divinos
foram expressos.
No evangelho de João vemos Deus expressando-
Se no homem. De acordo com João 1:1 e 14, no início
era o Verbo, e o Verbo era Deus, e esse Verbo, que é
Deus, tornou-se carne. Deus tornou-se carne para
viver uma vida expressando-Se na humanidade. No
Evangelho de João, a ênfase está em Deus
expressando-Se no homem, mas em Lucas a ênfase
está num homem vivendo uma vida para expressar
Deus. Parece que essas duas questões são muito
semelhantes, ainda assim há uma diferença. João
enfatiza o lado de Deus e Lucas enfatiza o lado do
homem. Em João vemos Deus expressando-Se na
humanidade; em Lucas vemos um homem
expressando Deus em Seu viver humano. Enquanto
tal homem vivia na terra, em Seu viver, os atributos
de Deus eram expressos.
Sabemos que nosso Salvador tem tanto a
essência divina como a humana. Entretanto, ao ter a
essência humana, Ele não tem nada relacionado com
a natureza caída do homem. De acordo com João 1:14,
Deus tornou-se carne. Porém, conforme a palavra de
Paulo em Romanos 8:3, vemos que o Senhor estava
na semelhança da carne do pecado. Isso indica que
Ele nasceu com todas as virtudes humanas criadas
por Deus, mas tinha somente a semelhança da carne
do pecado.
Como pessoas caídas, não conseguimos perceber
quão doce e agradável era o homem criado por Deus.
Imaginem quão doces e agradáveis eram Adão e Eva
antes da queda. Tinham todas as virtudes humanas
criadas por Deus, que depois foram danificadas por
causa da queda.
Quando o Senhor Jesus nasceu de uma virgem
humana com a essência humana, Ele tinha as
virtudes humanas. Entretanto a essência humana do
Senhor Jesus não incluía a natureza caída do homem.
Sua essência humana era aquela criada por Deus. Ele
tinha a aparência da humanidade caída, a
semelhança da carne do pecado, mas Sua essência
humana, como a que fora originalmente criada por
Deus, era pura, doce e agradável.
A feitura do ser do Salvador-Homem, Sua
constituição, é uma composição dos atributos divinos
e das virtudes humanas. Quão maravilhoso é o fato
de existir alguém no universo com essa composição!
No Salvador-Homem, o homem e Deus, Deus e
homem, estão mesclados para formar uma
composição cheia dos atributos divinos e virtudes
humanas.
Precisamos ter essa visão do Salvador-Homem
quando lemos o evangelho de Lucas. Nos primeiros
anos, eu não tinha tal visão, mas, por fim, o Senhor
abriu meus olhos e comecei a ver que na narrativa de
Lucas temos Aquele que é uma composição de Deus e
homem. Essa compreensão foi confirmada pelos
escritos de outros.
Em Lucas vemos o Homem-Deus, alguém que é
a mescla da divindade com a humanidade. Nele,
vemos todos os atributos de Deus e todas as virtudes
humanas.

Os atributos divinos fortalecem e enriquecem


as virtudes humanas
Se lermos o evangelho de Lucas com cuidado,
veremos que os atributos divinos fortalecem e
enriquecem as virtudes humanas. Por exemplo, a
Bíblia claramente revela que Deus é amor (1Jo 4:8) e
Deus ama (103:16). Ela também diz que, como
pessoas criadas por Deus, devemos amar os outros
(Rm 13:9). Deus ama, e devemos amar também.
Entretanto podemos amar sem ter o amor de Deus
para fortalecer e enriquecer nosso amor. Confúcio
disse que devemos amar os outros, mas não enfatizou
que o amor humano pode ser fortalecido e
enriquecido pelo amor divino. Em Lucas vemos um
Homem, o Salvador-Homem, que era muito amável e
ainda assim, em Seu amor, há o amor divino
fortalecendo e enriquecendo o amor humano.
O viver do Senhor era o viver de alguém que era
uma composição maravilhosa de divindade e
humanidade. Como tal, o Senhor foi constituído dos
atributos divinos e virtudes humanas.
Já salientamos que no evangelho de Lucas há
diversas mensagens, parábolas e casos de evangelho.
Se nos aprofundarmos na narrativa de Lucas,
veremos que essas três categorias de itens revelam
que o viver do Senhor Jesus na terra foi plenamente
fortalecido e enriquecido pelos atributos divinos.
Como resultado, Ele viveu no mais alto padrão de
moralidade. Na mensagem seguinte, vamos
considerar com mais detalhes o significado do mais
alto padrão de moralidade retratado no evangelho de
Lucas.

ESTUDO-VIDA DE LUCAS
MENSAGEM DOIS
INTRODUÇÃO, TEMA E CONTEÚDO DO
EVANGELHO
(2)
Leitura Bíblica: Lc 1:1-4

Na mensagem anterior, enfatizamos que o tema


do Evangelho de Lucas é o Salvador-Homem e Sua
salvação no mais alto padrão de moralidade. Vimos
que o Senhor Jesus, como o Salvador-Homem, foi
concebido do Espírito Santo com a essência divina e
nasceu de uma virgem humana com a essência
humana. Por isso, Ele possui tanto a natureza divina
com seus atributos divinos como a natureza humana
com suas virtudes humanas. Nesta mensagem,
passaremos a considerar o que significa dizer que a
salvação do Salvador-Homem é no mais alto padrão
de moralidade.

SALVAÇÃO NAS VIRTUDES HUMANAS DO


SENHOR
COM SEUS ATRIBUTOS DIVINOS
A salvação do Salvador-Homem, que está no
mais alto padrão de moralidade, é em Suas virtudes
humanas com Seus atributos divinos. Essa salvação é
ilustrada nas parábolas de evangelho e mostrada nos
casos de evangelho registrados em Lucas.

Parábolas de evangelho
A parábola do bom samaritano no capítulo dez é
um excelente exemplo. Quando chegarmos a esse
capítulo, veremos que o samaritano representa o
próprio Senhor que foi caluniado ao ser chamado de
samaritano inferior e vil (Jo 8:48; 4:9) pelos fariseus,
que se auto-exaltavam e justificavam a si mesmos.
De acordo com essa parábola, “certo homem
descia de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos de
salteadores os quais, depois de o terem despojado e
espancado, retiraram-se, deixando-o semimorto”.
Tanto um sacerdote como um levita observaram-no e,
então, passaram para o outro lado. Depois certo
samaritano desceu até ele e moveu-se de compaixão
(v. 33). “E, chegando-se, atou-lhe as feridas, deitando
nelas azeite e vinho; e, colocando-o sobre o seu
próprio animal, levou-o para uma hospedaria e
cuidou dele” (v. 34). Nessa simples história, que até
as crianças podem apreciar, vemos que o Salvador-
Homem vivia no mais alto padrão de moralidade. Ele
cuidou do homem ferido, levou-o à hospedaria e
disse ao hospedeiro: “Cuida dele; e o que quer que
gastares a mais, eu to restituirei quando voltar” (v.
35). Não se trata apenas de amor; é também um viver
no mais alto padrão de moralidade.
As três parábolas em Lucas 15 também ilustram
a salvação do Salvador-Homem no mais alto padrão
de moralidade. Elas formam um conjunto completo.
O bom pastor representa Deus Filho como nosso
pastor, a mulher representa o Espírito Santo e o pai
amoroso, é claro, representa Deus Pai. Desse modo,
nessas três parábolas temos a Trindade a trabalhar
em conjunto para buscar, salvar e acolher um
pecador arrependido. O bom pastor ama as ovelhas
perdidas, a mulher dá valor à moeda perdida e o pai
amoroso acolhe o filho pródigo quando este volta.
Alguns leitores do evangelho de Lucas podem
considerar essas parábolas como mera ilustração do
amor, mas precisamos perceber que a intenção do
autor em sua narrativa é retratar a Trindade divina
cheia dos atributos divinos mostrados em virtudes
humanas. Nas parábolas, não só vemos os atributos
divinos, em particular o amor, mas também os
atributos divinos nas virtudes humanas.

Casos de evangelho
A salvação do Salvador-Homem no mais algo
padrão de moralidade é também mostrado nos casos
de evangelho registrados em Lucas. Em 7:36-50,
temos o caso em que o Senhor Jesus perdoou uma
mulher pecadora. Ela era desprezada pelo fariseu que
convidara o Senhor Jesus para comer. Quando lemos
esse trecho, vemos que, ao lidar com ela e também
com o fariseu, o Senhor vivia de acordo com o mais
alto padrão de moralidade.
Outro caso que revela o mesmo padrão elevado é
o de Zaqueu (19:1-10). Embora Zaqueu, um cobrador
de impostos, fosse maligno, buscava o Salvador-
Homem, por isso correu “adiante, subiu a um
sicômoro a fim de vê-Lo” (v. 4). O Senhor Jesus lhe
respondeu: “Zaqueu, desce depressa, pois importa
que eu fique hoje em tua casa” (v. 5). A resposta do
Salvador-Homem deve ter excedido tudo o que
Zaqueu poderia esperar. O Salvador-Homem não foi
detido pelo fato de Zaqueu ser desprezado, rejeitado
pela sociedade. O Senhor foi com Ele e ficou em sua
casa. Ao lidar com Zaqueu, o Salvador-Homem vivia
no mais alto padrão de moralidade.
Mesmo na cruz o Salvador-Homem agiu no mais
alto padrão de moralidade com relação aos dois
criminosos crucificados com Ele. Um deles Lhe disse:
“Jesus, lembra-Te de mim quando entrares no Teu
reino” (23:42). Imediatamente o Salvador-Homem
respondeu: “Em verdade te digo: Hoje estarás
Comigo no Paraíso” (v. 43).
Nesses três casos temos um retrato do Salvador-
Homem com o mais alto padrão de moralidade. Esse
é o ponto crucial de Lucas. Esse evangelho descreve
um homem que possui a natureza divina com todas
as virtudes humanas. Nele os atributos divinos estão
mesclados com as virtudes humanas como uma só
unidade. Por isso, as virtudes humanas do Senhor,
conforme esse evangelho, são fortalecidas e
enriquecidas pelos atributos divinos.

O CRISTO QUE VIVE EM NÓS


Hoje o próprio Cristo que vive em nós ainda é
Aquele que possui as virtudes humanas fortalecidas e
enriqueci das pelos atributos divinos. Enquanto
estava na terra, Ele vivia no mais alto padrão de
moralidade. Sua vida era uma composição dos
atributos divinos e das virtudes humanas. É claro,
Ele vivia essa vida fora dos discípulos, mas, desde a
ressurreição, Ele passou a vivê-la nos crentes. Isso
quer dizer que em nós, hoje, o Salvador-Homem
ainda vive uma vida no mais alto padrão de
moralidade, uma vida que é a composição dos
atributos divinos e das virtudes humanas. Se virmos
isso, diremos como Paulo: “Já não sou eu quem vive,
mas Cristo vive em mim” (Gl 2:20).
Você alguma vez percebeu que o Cristo que vive
em você é uma composição dos atributos divinos e
das virtudes humanas? A vida que Ele viveu na terra,
Ele agora procura viver em nós.

A VISÃO DO SALVADOR-HOMEM E SUA


SALVAÇÃO
Vimos que o Senhor falou em parábolas para
ilustrar uma vida no mais alto padrão de moralidade.
Também vimos essa vida demonstrada nos vários
casos de evangelho. Suponha que você fosse o
criminoso que pediu ao Senhor que o salvasse, e Ele
imediatamente lhe desse mais do que você pediu,
sem quaisquer condições ou regras. Talvez você
dissesse: “Oh! que amor!”. Na verdade, não é
adequado chamar isso de amor. Isso é o mais alto
padrão de moralidade.
Suponha que você fosse o homem ferido pelos
salteadores e deixado para morrer sem alguém para
cuidar de você e esse bom samaritano viesse, fosse
movido de compaixão e fizesse todo o necessário
para salvá-lo. Isso também excede o amor: é o mais
alto padrão de moralidade. Espero que todos vejamos
isso.
O tema de Lucas é o Salvador-Homem e Sua
salvação no mais alto padrão de moralidade. Se
tivermos essa visão ao lê-lo, ele se tornará um livro
novo para nós. Quando o lemos capítulo por capítulo,
precisamos ter a visão do Salvador-Homem e Sua
salvação no mais alto padrão de moralidade.

CONTEÚDO
Apresenta o Salvador como homem
autêntico, moral e perfeito
Lucas apresenta o Salvador como homem
autêntico, moral e perfeito. Esse homem revelou
Deus entre os homens em Sua graça salvadora para a
humanidade caída. Gosto da expressão “graça
salvadora”. Em Lucas, Deus é revelado num homem
que salva os pecadores por Sua graça. Nesse livro
temos uma figura de alguém autêntico, moral e
perfeito, um homem que revela Deus em Sua graça
salvadora para a humanidade caída. Ele não revelou
a Si mesmo; pelo contrário, revelou Deus em Sua
graça salvadora.

Impressiona-nos com a integridade


e perfeição da humanidade do Salvador-
Homem
O conteúdo de Lucas nos impressiona com a
integridade e perfeição da humanidade do Salvador-
Homem. Quanto mais o lemos, mais somos
impressionados com o fato de ser o registro de um
homem, um homem pleno, total, completo, perfeito e
verdadeiro, no qual Deus é revelado. Portanto Ele é a
expressão de Deus. Em tudo o que fez e disse, Ele era
um homem autêntico, completo, moral e perfeito,
que revelou não a Si mesmo, mas principalmente a
Deus no aspecto de Sua graça salvadora.

Não enfatiza o aspecto dispensacional


ou o pano de fundo judaico
Em contraste com Mateus, o conteúdo desse
evangelho não enfatiza o aspecto dispensacional nem
o pano de fundo judaico.

Cheio de mensagens de evangelho,


parábolas de evangelho e casos de evangelho
O Evangelho de Lucas contém muitas
mensagens, parábolas e casos de evangelho. As
mensagens de evangelho são encontradas em 4:16-
21; 7:41-43; 12:14-21 e 13:2-5. As parábolas de
evangelho, em 10:30-37; 14:16-24; 15:3-32 e 18:9-14.
Os casos de evangelho, em 7:36-50; 13:10-17; 16:19-
31; 19:1-10 e 23:39-43. Nenhuma dessas mensagens,
parábolas ou casos está registrada nos outros
evangelhos, mas unicamente na narrativa de Lucas.
Se despendermos tempo para considerá-las, seremos
ajudados ao pregar evangelho.

Escrito para a humanidade em geral


O Evangelho de Lucas foi escrito para a humanidade
em geral. Em vez de ter sido escrito para um tipo
específico de pessoas, ele foi escrito para toda a raça
humana. Lucas 2:10 salienta isso: “O anjo, porém,
lhes disse: Não temais; porque eis que vos anuncio
boas-novas de grande alegria, que será para todo o
povo”.

Sua característica é mais gentílica do que


judaica
A característica de Lucas é mais gentílica do que
judaica. Uma clara indicação disso é 4:25-27, onde o
Senhor se refere à viúva de Sidom e depois a Naamã,
o siro.

Segundo a sequência de moralidade, e não


dos acontecimentos históricos
Em vez de ser escrito de acordo com a sequência
dos acontecimentos históricos, Lucas foi escrito de
acordo com a sequência da moralidade. Entretanto
muitos leitores do Novo Testamento não percebem
isso. Ao lê-lo, descobriremos certos casos registrados
numa sequência diferente de Marcos. O motivo disso
é que a sequência de Marcos é de acordo com os
acontecimentos históricos, mas Lucas narra as
histórias de acordo com a sequência de moralidade, e
não de história. Nesse aspecto, Lucas é semelhante a
Mateus. Mateus tem a sequência da doutrina a
respeito do reino e Lucas tem a sequência da
moralidade. Por isso, nenhum dos dois foi escrito de
acordo com a sequência dos acontecimentos
históricos.
Um caso específico que ilustra isso é o fato de
Judas ter deixado a festa da Páscoa. De acordo com
Marcos, Judas não participou da mesa do Senhor,
mas Lucas parece indicar que ele estava presente na
ceia do Senhor e saiu depois. Tem havido discussão
entre os estudiosos da Bíblia a esse respeito.
Precisamos ver perspectivas diferentes
apresentadas nos evangelhos de Mateus, Marcos e
Lucas. Em Mateus, temos a perspectiva da doutrina;
em Marcos, a dos acontecimentos históricos; em
Lucas, a da moralidade. Lucas enfatiza a moralidade
do Salvador-Homem. Meu encargo nesta mensagem
é enfatizar que o Salvador-Homem e Sua salvação
estão no mais alto padrão de moralidade.

O MAIS ALTO PADRÃO DE MORALIDADE


Um homem criado à imagem de Deus
Neste ponto, eu gostaria de explicar melhor o
que queremos dizer por mais alto padrão de
moralidade. No capítulo 1 de Gênesis, vemos que o
homem foi criado à imagem e semelhança de Deus.
Deus é amor e luz. Amor é a natureza do Seu ser e luz
é a natureza da Sua expressão. Além disso, Ele é
santo e justo; santo em natureza e justo nas ações.
Estes quatro atributos: amor, luz, santidade e justiça,
são revelados na lei de Deus. Nela temos os
princípios básicos do amor divino, da luz divina, da
santidade divina e da justiça divina.
Dizer que o homem foi criado à imagem de Deus
significa que foi criado de acordo com o que Deus é.
Ele foi criado de acordo com Deus, que é amor e luz,
e também santo e justo. Entretanto, ao ser criado, o
homem não tinha Deus em si. Por esse motivo, Deus
o colocou diante da árvore da vida. Isso indica que
era necessário que o homem criado por Deus O
recebesse como vida. Se isso tivesse ocorrido, os
atributos divinos de amor, luz, santidade e justiça
também teriam entrado no homem.
O homem criado por Deus só tinha a aparência
do amor, luz, justiça e santidade de Deus. Ele não
conseguia ter a realidade desses atributos a menos
que recebesse Deus como sua vida. Sabemos que, de
acordo com o livro de Gênesis o homem fracassou em
receber Deus como sua vida.

O viver do Senhor Jesus


Um dia, o próprio Deus se tomou um homem
chamado Jesus. Ele foi concebido da essência divina
e nasceu da essência humana, a própria essência que
Deus criou no homem. Isso significa que a essência
humana da qual o Senhor Jesus participava era a
criada por Deus de acordo com o que Ele é: a
essência humana com a aparência do amor, luz,
santidade e justiça de Deus.
Como vimos, o Senhor Jesus, o homem-Deus,
era uma composição da essência divina com todos os
atributos divinos e da essência humana com todas as
virtudes humanas. Quando esteve na terra, teve um
viver que era a composição dos atributos divinos e
virtudes humanas. Esse é o mais alto padrão de
moralidade. Tal padrão de moralidade é o viver
Daquele cuja vida era a composição de Deus com os
atributos divinos e de homem com as virtudes
humanas.
Quando falamos do mais alto padrão de
moralidade, não usamos a palavra “moral idade” de
forma tradicional, mas queremos referir-nos ao
padrão de vida que Deus requer.
Desde o início, nos primeiros dois capítulos de
Gênesis, vemos que o homem com as virtudes
humanas foi criado por Deus de acordo com o que
Ele é. Especificamente, uma vez que Deus é luz e
amor e é santo e justo, Ele criou o homem de acordo
com esses atributos. A criação do homem à imagem
de Deus é descrita em Gênesis 1.
Já enfatizamos que, na época de sua criação, o
homem não tinha a realidade do amor, luz, santidade
e justiça. A realidade desses atributos divinos é, na
verdade, o próprio Deus. Isso quer dizer que,
mediante a criação, o homem teve a imagem desses
atributos, mas não a realidade. Essa foi a razão de
Deus, em Gênesis 2, colocar o homem diante de Si
mesmo, representado pela árvore da vida, o que
indica que Deus queria que o homem O tomasse
como vida para ter a realidade do amor, luz,
santidade e justiça divinos. Isso o capacitaria a ter
um viver no mais alto padrão de moralidade.
Embora o homem criado por Deus falhasse em viver
essa vida, o Senhor Jesus, o Salvador-Homem, com a
vida e a natureza humanas, teve um viver na terra
com os atributos de Deus expressos nas virtudes do
homem. Esse tópico crucial é revelado no Evangelho
de Lucas.

ESTUDO-VIDA DE LUCAS
MENSAGEM TRÊS
A PREPARAÇÃO DO SALVADOR-HOMEM
EM SUA HUMANIDADE COM SUA
DIVINDADE
(1)
Leitura Bíblica: Lc 1:5-38

Nas duas mensagens anteriores, abordamos a


introdução ao Evangelho de Lucas (1:1-4). Com esta,
chegamos à segunda seção principal desse evangelho,
acerca da preparação do Salvador-Homem em Sua
humanidade com Sua divindade (1:5-4:13). Essa
seção aborda muitos tópicos: a concepção do
precursor do Salvador-Homem (1:5-25), a concepção
do Salvador-Homem (1:26-56), o nascimento e
juventude de Seu precursor (1:57-80), o nascimento
do Salvador-Homem '(2:1-20), Sua juventude (2:21-
52), Sua investidura (3:1-22), Sua posição (3:23-38) e
Sua prova (4:1-13). Nessa longa seção de Lucas,
temos uma figura completa mostrando-nos como o
Salvador-Homem foi preparado para o ministério.
Nesta mensagem vamos considerar primeiro a
concepção de João Batista e depois a do Salvador-
Homem.

A CONCEPÇÃO DE SEU PRECURSOR


Concebido de pai humano em mãe humana
Lucas 1:5-6 diz: “Nos dias de Herodes, rei da
Judeia, houve um sacerdote de nome Zacarias, do
turno de Abias; sua mulher era das filhas de Arão, e o
seu nome era Isabel. Ambos eram justos diante de
Deus, andando irrepreensíveis em todos os
mandamentos e ordenanças do Senhor”. Zacarias e
Isabel foram escolhidos por Deus, preservados sob
2
MENSAGEM TRÊS

custódia da lei no Antigo Testamento. Foram gerados


pela lei para ser úteis a Deus com vistas ao início do
evangelho no Novo Testamento.
Em 1:6 é-nos dito que Zacarias e Isabel eram
justos aos olhos de Deus. Isso não contradiz
Romanos 3:20. Aqui, “justo” significa ser reto,
irrepreensível aos olhos de Deus de acordo com os
mandamentos e ordenanças do Antigo Testamento
(Lc 2:25; Fp 3:6). Não quer dizer que esses justos não
fossem pecaminosos, que não tivessem pecado e nem
pecados. Eles eram irrepreensíveis, mas não sem
defeito. Ainda precisavam dos animais sem defeito,
oferecidos em prefiguração a Deus, como propiciação
pelos pecados e transgressões (Lv 4:28; 5:15), a fim
de restaurar o contato com Deus.

Não pela força natural


O precursor do Salvador-Homem, João Batista,
não foi concebido pela força natural de seus pais,
porque eram de idade avançada. Quanto a isso, 1:7
diz: “E não tinham filho, porque Isabel era estéril, e
ambos eram avançados em dias”. Essa foi a soberania
do Senhor. Assim, eles proporcionaram a Deus a
oportunidade de iniciar Seu evangelho, não pela
força natural do homem, mas pela ação divina.

Pelo poder divino de forma miraculosa


Zacarias era sacerdote do turno de Abias. Esse
era o oitavo dos vinte e quatro turnos do serviço
sacerdotal ordenado por Davi (1 Cr 24:10). “Ora,
aconteceu que, exercendo ele as funções sacerdotais
diante de Deus, na ordem do seu turno, coube-lhe
por sorte, segundo o costume do sacerdócio, entrar
no santuário do Senhor para queimar o incenso” (vs.
8-9). Zacarias queimou o incenso no altar de incenso
que ficava no Lugar Santo (1:11; Êx 30:6-8; 1Sm 2:28;
1 Cr 23:13; 2 Cr 29:11).
Lucas 1:1 O diz: “E toda a multidão do povo
estava do lado de fora, orando, à hora do incenso”. A
oração do povo de Deus proporciona-Lhe um meio de
levar a cabo Seu plano.
De acordo com 1:11-12, um anjo do Senhor lhe
apareceu. O anjo lhe disse: “Não temas, Zacarias,
porque a tua súplica foi ouvida, e Isabel, tua mulher,
te dará à luz um filho, e o chamarás pelo nome de
João” (v 13). Isso indica que Zacarias havia orado
para que sua esposa lhe gerasse um filho. Também
indica que nossa oração leva a cabo a operação de
Deus, o que implica que é preciso dar fim à nossa
força natural para que a operação de Deus comece
por Seu ato divino. Isso foi revelado no caso de
Abraão e Sara (Gn 17:15-19) e no caso de Ana (1Sm
1:5-20).
Deus interveio para fazer com que Zacarias e
Isabel gerassem um filho de forma miraculosa. Assim,
a concepção de João Batista foi pelo poder divino de
forma miraculosa (vs. 19-20). No Antigo Testamento,
Deus fez isso ao gerar Isaque e Samuel. Agora, no
caso de João Batista, nascido de pais naturalmente
incapazes de gerar, Deus interveio para capacitá-los a
ter um filho por Seu poder.
Em 1:13 vemos que o menino nascido a Zacarias
e Isabel seria chamado João. A palavra grega para
João é Ioánnes, que quer dizer Jeová é favorável,
Jeová demonstra graça, ou Jeová é o Doador cheio
de graça. Esse nome é de origem hebraica, Jeoanã,
cuja forma contrata é Joanã (2 Re 25:23; 1 Cr 3:24; 2
2
MENSAGEM TRÊS

Cr 28:12).

Separado para Deus como nazireu e cheio do


Espírito Santo
desde o ventre de sua mãe
Lucas 1:15 diz sobre João Batista: “Pois ele será
grande diante do Senhor; não beberá vinho nem
bebida forte, e será cheio do Espírito Santo já desde o
ventre de sua mãe”. Não beber vinho nem bebida
forte indica que João seria nazireu (Nm 6:1-4) Em
vez de beber vinho, ele seria cheio do Espírito Santo.
O Espírito Santo substitui o vinho (Ef5:18).
João Batista nasceu sacerdote, alguém escolhido
por Deus, mas esse sacerdote escolhido por Deus
tomou-se, além disso, nazireu. De acordo com
Números 6, um nazireu não é escolhido; antes, é
voluntário. Por isso, João Batista tinha dupla posição.
Por um lado, como sacerdote, ele fora escolhido por
Deus; por outro, como nazireu, era voluntário. João
se apresentou voluntariamente para servir a Deus.
Lucas 1:15 diz que João seria cheio do Espírito
Santo desde o ventre materno. O Espírito Santo é o
primeiro título divino atribuído ao Espírito de Deus
no Novo Testamento, um título não usado no Antigo
Testamento. (Em SI 51:11 e Is 63:10-11, “o Espírito
Santo” devia ser traduzido como “o Espírito de
santidade”.) Foi aqui, com vistas à iniciação do
evangelho de Deus, a fim de preparar o caminho para
a vinda do Salvador e preparar-Lhe um corpo
humano, que esse título divino do Espírito de Deus
foi usado. A preparação do caminho para a vinda do
Salvador requeria que Seu precursor fosse cheio do
Espírito Santo desde o ventre materno, a fim de
apartar o povo para Deus, separando-o de todas as
coisas alheias a Ele e tomando-o santo para Ele com
vistas a Seu propósito. A preparação de um corpo
humano para o Salvador requeria que o Espírito
Santo dispensasse a natureza divina à humanidade,
tomando o homem santo a fim de levar a cabo o
plano de redenção de Deus.
João Batista foi o primeiro no Novo Testamento
a ser cheio do Espírito Santo, por isso pôde cumprir
as palavras proferidas sobre ele nos versículos 16-17:
“E converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor
seu Deus. E irá adiante Dele no espírito e poder de
Elias, para converter os corações dos pais aos filhos,
e os desobedientes à prudência dos justos, para
preparar ao Senhor um povo bem disposto”. Isso foi
o cumprimento de Malaquias 4:5, versículo que
profetizava que Elias viria. Foi dito de João Batista
que ele iria diante do Senhor no espírito e poder de
Elias. Por isso, em certo sentido, João pode ser
considerado o “Elias, que estava para vir” (Mt 11:14).
Entretanto a profecia de Malaquias 4:5 na verdade
será cumprida na grande tribulação, quando o
verdadeiro Elias, uma das duas testemunhas, virá
fortalecer o povo de Deus (Ap 11:3-12).

A CONCEPÇÃO DO SALVADOR-HOMEM
Concebido do Espírito Santo numa virgem
humana
O Salvador-Homem foi concebido do Espírito
Santo com a essência divina (v. 35) numa virgem
humana com a essência humana (vs. 27-28, 31). Em
1:26-56, temos o registro de Sua concepção.
Os versículos 26-27 dizem: “No sexto mês foi o
anjo Gabriel enviado da parte de Deus para uma
cidade da Galileia, chamada Nazaré, a uma virgem
2
MENSAGEM TRÊS

desposada com um varão cujo nome era José, da casa


de Davi; e o nome da virgem era Maria”. Galileia era
uma região sem fama, e Nazaré, uma cidade
desprezada (Jo 7:52; 1:46). A virgem Maria vivia
numa cidade desprezada de uma região sem fama,
mas era descendente da família real do rei Davi (Lc
1:31-32; Mt 1:16).
De acordo com 1:28-30, o anjo disse a Maria que
ela era favoreci da, alguém dotada de graça e que
encontrara favor, graça, com Deus.
Então, no versículo 31, o anjo Gabriel
prosseguiu: “Eis que conceberás em teu ventre e dará
à luz um filho, e O chamarás pelo nome de Jesus”.
Jesus é o nome grego equivalente ao hebraico Josué
(Nm 13:16), que significa Jeová, o Salvador ou a
salvação de Jeová. Daí Jesus não só ser um homem,
mas Jeová; e não só Jeová, mas Jeová tomando-se
nossa salvação. Assim, Ele é nosso Salvador. Ele é
nosso Josué introduzindo-nos no descanso (Hb 4:8;
Mt 11:28-29), que é Ele mesmo como a boa terra para
nós.
Em 1:35 vemos claramente que o Salvador-
Homem foi concebido do Espírito Santo: “Virá sobre
ti o Espírito Santo, e o poder do Altíssimo te cobrirá
com a Sua sombra; por isso também o Ente santo que
há de nascer será chamado Filho de Deus”. Assim
como a nuvem cobriu o monte da transfiguração (Mt
17:5) e o tabernáculo (Êx 40:34, 38), o poder do
Altíssimo cobriria Maria. Parece que, de acordo com
esse versículo, o Espírito Santo estaria sobre Maria
como o poder para ela conceber o Menino Santo.
Entretanto Mateus 1:18 e 20 nos conta que Maria
“achou-se grávida, tendo concebido do Espírito Santo”
e “o que nela foi gerado é do Espírito Santo”. Isso
indica que a essência divina proveniente do Espírito
Santo foi gerada no ventre de Maria antes de ela ter
dado à luz ao Menino Jesus. A concepção do Espírito
Santo na virgem humana, realizada tanto com a
essência divina como com a humana, constitui uma
mescla da natureza divina com a humana, gerando
um homem-Deus, alguém que é o Deus completo e o
homem perfeito, com a natureza divina e a humana,
distintamente, sem o surgimento de uma terceira
natureza. Essa é a Pessoa muitíssimo maravilhosa e
excelente de Jesus: Jeová, o Salvador.
A concepção de João Batista foi, em essência,
notoriamente diferente da do Salvador; foi um
milagre de Deus, realizado com a essência humana
em idade avançada, apenas pelo poder divino, sem o
envolvimento da essência divina. Como resultado,
produziu-se um mero homem, cheio do Espírito de
Deus (1:15), mas carente de Sua natureza. A
concepção do Salvador foi a encarnação de Deus (Jo
1:14), constituída não só do poder divino, mas
também da essência divina acrescentada à humana,
produzindo assim o Homem-Deus, de duas
naturezas: divindade e humanidade. Por meio disso,
Deus uniu-Se à humanidade, para ser manifestado na
carne (1Tm 3:16) e ser um Salvador-Homem (Lc 2:11).
Já enfatizamos que o Salvador-Homem foi
concebido do Espírito Santo com a essência divina
numa virgem humana com a essência humana.
Vemos aqui a fonte das duas essências do Senhor.
Está muito claro que Sua concepção envolveu duas
fontes: o Espírito Santo e a virgem humana; e duas
essências: a divina e a humana.
A concepção do Salvador-Homem envolveu uma
mescla da essência divina com a humana. Na verdade,
2
MENSAGEM TRÊS

qualquer concepção é uma mescla. Com a concepção


do Salvador-Homem, a essência divina não foi
meramente adicionada, mas mesclada à humana.
Nos tempos antigos, havia um debate sobre a
palavra “mesclar”. Alguns que não compreendiam a
mescla da essência divina com a humana na Pessoa
do Senhor Jesus ensinavam a heresia de que isso
significava que Cristo não era Deus nem homem, mas
um terceiro ente com uma terceira natureza, alguém
que não era Deus nem homem. Que grande heresia!
Por causa desse ensinamento herético sobre a
mescla, poucos mestres da Bíblia ousavam usar essa
palavra sobre o Senhor Jesus. Não obstante, embora
o termo fosse usado erroneamente, a Bíblia revela a
verdade que Cristo, nosso Senhor, é a mescla de Deus
com homem. Essa mescla, porém, não O fez perder a
natureza divina nem a humana, e não produziu uma
terceira natureza; antes, a essência divina e a
humana permaneceram distinguíveis, e não se criou
nenhuma terceira natureza, ou terceira essência.
Alguns se têm oposto a nós e nos acusado
falsamente de ensinar heresia porque ensinamos a
verdade bíblica da mescla da essência divina com a
humana em Cristo. Essa oposição nos fez estudar
esse assunto ainda mais. Quanto mais estudávamos,
mais tínhamos a confirmação da verdade acerca
disso.
Como já enfatizamos na mensagem um deste
estudo-vida, nosso uso dessa palavra concorda com o
Dicionário da Língua Portuguesa, de Aurélio B. de
Holanda: “Mistura de elementos diversos” 2. Assim,
mesclar é combinar duas ou mais coisas de modo que
2
A palavra original inglesa é mingle, que, segundo o Dicionário Webster significa “combinar ou unir (dois ou mais elementos)
especialmente de modo que os elementos originais sejam distinguíveis na combinação”. (N. T.)
o elemento original permaneça distinguível.
Essa certamente é a situação acerca da Pessoa do
Senhor Jesus Cristo. Ele foi concebido de duas
essências: a divina e a humana. Assim, era um
mesclar de Deus e homem. Mas tanto a essência
divina como a humana permanecem e são
distinguíveis. Essas essências estão mescladas numa
só Pessoa sem produzir uma terceira natureza. O
Senhor possui duas naturezas, e pode-se distinguir
cada uma delas. Precisamos ser profundamente
impressionados com isso, pois é o elemento básico de
nosso conhecimento da Pessoa maravilhosa do
Senhor Jesus.

Nascido como Filho de Deus e descendente de


Davi
Visto que o Senhor Jesus foi concebido de Deus
Espírito, Ele é o Filho de Deus. Sobre Ele, Lucas 1:32
diz: “Este será grande e será chamado Filho do
Altíssimo”. Altíssimo é um título divino; em hebraico
é Elyon (Gn 14:18), denotando o Supremo (Deus);
assim, não há artigo no texto grego. Jesus é
grandioso por ser o Filho do Altíssimo, o Deus
Supremo.
Lucas 1:35 diz que “o ente santo” nascido de
Maria seria chamado de o Filho de Deus. Visto que a
concepção foi do Espírito Santo, o que dela nasceu foi
um ente santo, algo intrinsecamente santo. É Jesus,
nosso Salvador.
A segunda parte de 1:32 fala sobre o Salvador-
Homem: “O Senhor Deus Lhe dará o trono de Davi,
Seu pai”. Jesus, concebido do Espírito Santo e
nascido duma virgem humana, seria o Filho do
Altíssimo e, ao mesmo tempo, o filho dum homem de
3
MENSAGEM TRÊS

alta posição, o rei Davi (Mt 1:1 ; 22:45). Sua posição é


divina e humana.
Lucas 1:33 ainda diz: “Ele reinará para sempre
sobre a casa de Jacó, e o Seu reino não terá fim”. O
versículo anterior desvenda a família de Jesus, e este
revela Seu reino. Jesus terá a casa de Jacó (a nação
de Israel) como centro do Seu domínio (At 1:6; 15:16),
por meio da qual reinará sobre todo o mundo como
Seu reino (Ap 11:15), primeiramente no milênio (Ap
20:4, 6) e, em seguida, no novo céu e nova terra pela
eternidade (Ap 22:3, 5).
Na breve palavra dita a Maria pelo anjo, há uma
clara revelação de que Aquele que dela havia de
nascer é Deus e homem. Uma vez concebido do
Espírito Santo, Ele é o Filho de Deus. Visto que
também foi concebido na virgem humana, é o Filho
do Homem. Do lado divino, é o Filho de Deus; do
lado humano, é o Filho do Homem. De acordo com o
lado humano, Ele era descendente de Davi para
herdar seu trono e reinar sobre a casa de Jacó para
sempre em Seu reino eterno.
Uma vez que o Senhor Jesus é o Filho de Deus e
Filho do Homem, Ele, às vezes, dava a entender que
era o Filho de Deus e, em outras ocasiões, que era o
Filho do Homem. Visto que foi concebido de duas
essências, a divina e a humana, Ele é tanto o Filho de
Deus como o Filho do Homem.

ESTUDO-VIDA DE LUCAS

MENSAGEM QUATRO

A PREPARAÇÃO DO SALVADOR-HOMEM
EM SUA HUMANIDADE COM SUA
32 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

DIVINDADE
(2)
Leitura Bíblica: Lc 1:39-56

Na mensagem anterior, começamos a considerar


a concepção de João Batista, o precursor do Senhor,
e a concepção do Salvador-Homem. Lucas 1:5-25
descreve a concepção do precursor, e 1:26-56, a do
Salvador-Homem. Nesta mensagem, consideraremos
a bênção da mãe do precursor (vs. 39-45) e o louvor
da mãe do Salvador-Homem (vs. 46-56).

A BÊNÇÃO DA MÃE DO SEU PRECURSOR


Cheia do Espírito
Lucas 1:41 diz: “E aconteceu que, quando Isabel
ouviu a saudação de Maria, a criança saltou no seu
ventre, e Isabel ficou cheia do Espírito Santo”. Isabel
era a mãe de João Batista. Esse versículo nos conta
que ela ficou cheia do Espírito. Não há indicação de
que tivesse orado ou jejuado a fim de ser cheia do
Espírito. Esse versículo apenas diz que ela ficou cheia
do Espírito Santo. Por isso, ela abençoou Maria, a
mãe do Salvador-Homem.

Abençoou a mãe do Salvador-Homem


e o fruto do seu ventre
O versículo 42 diz: “E exclamou em alta voz:
Bendita és tu entre as mulheres e bendito o fruto do
teu ventre!” A bênção de Isabel, proferida por meio
do Espírito Santo (v. 41), revelou a humanidade do
Salvador, ao usar o termo fruto, e Sua deidade, ao
usar a palavra Senhor (v. 43). Sua bênção também
confirmou a fé de Maria na palavra do Senhor (v. 45).
3
MENSAGEM QUATRO

Essa bênção indica que Isabel também era piedosa,


apta para ser usada por Deus na tarefa de realizar
Seu propósito.
A palavra grega traduzi da como “fruto” no
versículo 42, karpós, é usada para Cristo no sentido
de descendência somente aqui e em Atos 2:30. Esse
termo é usado para o fruto da árvore da vida em
Apocalipse 22:2. Cristo é o renovo de Jeová (Is 4:2) e
de Davi (Jr 23:5), e o fruto de Maria e de Davi (At
2:30), para que O comamos como árvore da vida (Ap
2:7).
É significativo que Isabel abençoasse o fruto do
ventre de Maria. Em vez de dizer “filho”, Isabel usou
a palavra “fruto”. É correto dizer que o fruto aqui se
refere a um filho, mas essa palavra também indica
que o Senhor Jesus é fruto para nós, para ser comido
como nosso suprimento de vida.
Isabel também abençoou Maria no versículo 45:
“Bem-aventurada a que creu, porque serão
cumpridas as coisas que lhe foram ditas da parte do
Senhor”. Em contraste com o descrente Zacarias (v.
20), Maria creu no que o anjo lhe dissera. Isabel disse
a Maria que se cumpririam as coisas que lhe foram
faladas da parte do Senhor. Era uma profecia pelo
Espírito Santo para confirmar as palavras do Senhor
nos versículos 30-37, ditas a Maria pelo anjo Gabriel.

Reconheceu o fruto do ventre da mãe


do Salvador-Homem como seu Senhor
No versículo 43, Isabel diz: “E de onde me
provém isto, que venha a mim a mãe do meu
Senhor?”. Isabel, cheia do Espírito Santo, reconheceu
o fruto do ventre de Maria como seu Senhor. Isso
indica que ela reconhecia a deidade do Filho que
34 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

nasceria de Maria (Sl 110:1; Mt 22:43-45).


Ao ser usada nas Escrituras para denotar filho, a
palavra fruto refere-se à humanidade. Assim, em
1:42, fruto se refere ao Senhor Jesus em Sua
humanidade. Agora vemos no versículo 43 que Isabel
prosseguiu reconhecendo esse ser humano como seu
Senhor.
Isabel e Maria eram primas. Sem dúvida, Isabel
era muito mais velha que Maria. Não obstante, essa
mulher idosa reconheceu que o filho de sua prima
mais moça era seu Senhor. Mesmo antes de o Senhor
Jesus, o Salvador-Homem, nascer, Isabel O
reconheceu como homem e como Deus. Em sua
bênção, portanto, temos uma revelação da Pessoa
divino-humana do Salvador-Homem.

A criança saltou de exultação no ventre de


Isabel
O versículo 41 diz que, quando Isabel ouviu a
saudação de Maria, a criança saltou no ventre de
Isabel. O precursor exultou ao encontrar-se com o
Salvador, mesmo estando ambos ainda no ventre
materno. Com relação a isso, Isabel diz no versículo
44: “Pois eis que, quando me chegou aos ouvidos a
voz da tua saudação, a criança saltou de exultação no
meu ventre”. Isso é maravilhoso e transcende nosso
entendimento.

O LOUVOR DA MÃE DO SALVADOR-HOMEM


Em 1:46-56, temos o louvor da mãe do Salvador-
Homem. Maria veio visitar Isabel. Quando Isabel viu
Maria, ela a abençoou. Maria não respondeu a essa
bênção com outra bênção, mas oferecendo louvor a
3
MENSAGEM QUATRO

Deus.

Cheio de citações do Antigo Testamento


O louvor poético de Maria é composto de muitas
citações do Antigo Testamento. Isso indica que ela
era piedosa, qualificada para ser o canal da
encarnação do Salvador. Também indica que o
Senhor Jesus cresceria numa família cheia do
conhecimento da santa Palavra de Deus e do amor
por ela.
Embora fosse jovem, Maria era versada no
Antigo Testamento e pôde citar versículos dele ao
louvar a Deus. Na verdade, seu louvor compunha-se
de muitas citações das Escrituras. Com certeza ela
era a pessoa certa para Deus usar a fim de conceber o
Salvador que havia de nascer.
Antes de ser visitada pelo anjo para receber a
palavra sobre a concepção do Salvador-Homem,
Maria já estava cheia do conhecimento da Palavra de
Deus. Muitos versículos das Escrituras haviam sido
absorvidos em seu ser. Por isso, na hora adequada,
ela pôde derramar o que estava nela quando ofereceu
louvor a Deus.
O louvor de Maria indica que, para ser usados
por Deus, precisamos de certas qualificações. Uma é
o conhecimento adequado da Palavra de Deus.
Espero que os jovens, em particular, aprendam com
Maria nesse ponto. Se vocês tencionam ser usados
para gerar alguma coisa do Senhor e até mesmo, num
sentido espiritual, “conceber” o Senhor Jesus e gerá-
Lo, vocês precisam estar qualificados, sendo cheios
das Escrituras, cheios da Palavra de Deus.

Seu espírito exultou em Deus, seu Salvador


36 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

Nos versículos 46-47, Maria disse: “A minha


alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito exultou
em Deus, meu Salvador”. Primeiro, seu espírito
exultou em Deus; depois, sua alma engrandeceu ao
Senhor. Seu louvor a Deus se originou no espírito e se
expressou por meio da alma. Seu espírito estava
cheio de gozo em Deus, seu Salvador, e sua alma
manifestou esse gozo para engrandecer o Senhor. Ela
vivia e agia no espírito, que lhe dirigia a alma. Seu
espírito exultou em Deus porque ela a desfrutava
como seu Salvador, e sua alma engrandeceu ao
Senhor por ter ela exaltado o Senhor, que é Jeová, o
grande Eu Sou.
O Espírito de Maria exultou em Deus. Exultar é
mais elevado que alegrar-se. É significativo que ela
dissesse que seu espírito exultava em Deus, seu
Salvador, e não Criador. Ela considerava Deus mais
do que apenas seu Criador; ela O considerava seu
Salvador. Ela percebia que era uma pessoa criada que
se tornara caída. Por isso, precisava que seu Criador
fosse seu Salvador.

Sua alma engrandeceu o Senhor


Vimos que no versículo 46 Maria disse: “A
minha alma engrandece ao Senhor”. Ela engrandeceu
ao Senhor com seu louvor com base na experiência
de Deus como seu Salvador, em Sua misericórdia
perpétua (vs. 47-50), e na observação da experiência
que os outros tiveram dos feitos misericordiosos e
fiéis de Deus (vs. 51-55). Em conteúdo e padrão, seu
louvor é como alguns dos salmos do Antigo
Testamento. No entanto, nele não se diz nada a
respeito de Cristo, ao contrário da bênção de Isabel
(vs. 41-43), e da profecia de Zacarias (vs. 67-71, 76-
3
MENSAGEM QUATRO

79), ambas proferidas por meio do Espírito Santo.


Primeiro o espírito de Maria exultou em Deus,
seu Salvador; depois sua alma engrandeceu ao
Senhor. Nesses versículos vemos que Maria
considerava Deus seu Salvador e Senhor. Todos
precisamos experimentar o que ela experimentou ao
conhecer Deus como Salvador e Senhor. Quando
desfrutamos Deus como nosso Salvador, exultando
Nele, nós O engrandecemos como nosso Senhor.
Ao engrandecer a Deus como nosso Senhor, nós
O servimos. Na verdade, engrandecê-Lo é servi-Lo
como Senhor. Precisa impressionar-nos o fato de que
servir o Senhor não é principalmente fazer coisas
para Ele; antes, o aspecto mais importante é
engrandecê-Lo. Precisamos ter um viver não só de
fazer coisas para Deus, mas de engrandecê-Lo.
É nossa alma que engrandece o Senhor, e não
nosso espírito. Isso quer dizer que engrandecê-Lo
envolve nossa mente, emoção e vontade. Envolve
nossos pensamentos, aquilo de que gostamos e não
gostamos, e nossas decisões. Em tudo isso, o Senhor
deve ser engrandecido. Ele deve ser engrandecido em
nossos pensamentos, naquilo de que gostamos e não
gostamos, e nas decisões sobre que rumo tomar.
Maria desfrutou Deus em seu espírito como seu
Salvador. Então sua alma, seu ser, com sua mente,
emoção e vontade, engrandeceu ao Senhor. Quando
proferiu essas palavras, ela ainda vivia no término do
Antigo Testamento; ainda não havia sido totalmente
introduzida na era do Novo Testamento. Entretanto
era uma pessoa cujo espírito exultava em Deus, seu
Salvador, e cuja alma engrandecia o Senhor.
Certamente precisamos aprender dela a exultar no
Senhor com nosso espírito e engrandecê-Lo com
38 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

nossa alma.

Louvou a misericórdia de Deus e Seus feitos


poderosos
Em 1:48-50, Maria diz: “Porque atentou na
condição humilde de Sua serva. Pois eis que desde
agora todas as gerações me considerarão bem-
aventurada, porque o Poderoso me fez grandes
coisas; santo é o Seu nome. A Sua misericórdia vai de
geração em geração sobre os que O temem”. Maria e
Zacarias ressaltaram a misericórdia de Deus (vs. 54,
58, 72, 78), percebendo sua condição inferior (v. 48)
e humilde (v. 52) e reconhecendo que não eram
dignos de ser favorecidos por Deus. Tanto a
misericórdia como a graça de Deus são a expressão
do Seu amor. Quando estamos numa condição
lamentável, Sua misericórdia primeiro nos alcança e
nos introduz numa situação em que Deus é capaz de
nos favorecer com graça. Por exemplo, 15:20-24 nos
diz que, quando o pai viu o filho pródigo retomando,
teve compaixão dele. Isso foi misericórdia,
expressando o amor do pai. Então, o pai o vestiu com
a melhor roupa e o alimentou com o novilho cevado.
Isso é graça, que também manifesta o amor do pai. A
misericórdia de Deus alcança mais longe e preenche
a lacuna entre nós e a graça de Deus.
Em certo sentido, Maria era muito mais versada
em Deus do que muitos crentes hoje. Em seu louvor,
ela fala da misericórdia de Deus, mas não menciona
Sua graça. A fim de receber a graça divina,
precisamos estar numa condição adequada e
conveniente. Maria, porém, percebeu que ela e todos
naquela época estavam numa condição lamentável,
por isso precisavam da misericórdia divina.
3
MENSAGEM QUATRO

Maria louvou a Deus por Sua misericórdia e Seu


feitos poderosos. Nos versículos 51-52, ela diz: “Com
o Seu braço exerceu poder; dispersou os que são
soberbos no pensamento de seus corações. Derrubou
dos tronos os potentados e exaltou os humildes”.
Deus fez coisas poderosas ao cuidar dos Seus em
situação humilde. Pelo fato de sua situação ser tão
humilde, eles precisavam que a misericórdia de Deus
os alcançasse, para que ela se estendesse mais longe
que Sua graça.
Em 1:53-55 Maria diz: “Encheu de bens os
famintos e despediu vazios os ricos. Amparou a Israel,
Seu servo, a fim de lembrar-se de Sua misericórdia,
(como falara a nossos pais) para com Abraão e sua
descendência para sempre”. O versículo 55 se refere à
fidelidade de Deus em guardar Sua palavra. Maria e
Zacarias ressaltaram não somente a misericórdia de
Deus, como também Sua fidelidade (vs. 70, 72). A
misericórdia de Deus dizia respeito à condição deles
e a fidelidade de Deus, à Sua posição, para poder
favorecê-los com Seus feitos benevolentes.
As promessas de Deus a Abraão, Isaque e Jacó
eram Sua palavra fiel. Agora Deus estava visitando
Seu povo de acordo com tais promessas.
Devemos apreciar o louvor de Maria. Quando o
proferiu, ela era jovem, provavelmente ainda na casa
dos vinte anos. Embora tão jovem, ela pôde oferecer
um louvor que se compunha de citações do Antigo
Testamento relacionadas com sua experiência de
Deus como Salvador e Senhor. Ela pôde falar sobre a
misericórdia de Deus e Seus feitos poderosos ao
cuidar de Seu povo, segundo as fiéis promessas dadas
aos pais.
Ao considerar o louvor de Maria, podemos ver
40 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

um motivo de ela ter sido escolhida por Deus para


conceber o Salvador-Homem. Sem dúvida, ela
também ensinou ao Senhor Jesus muitas passagens
das Escrituras à medida que Ele crescia.
O louvor de Maria não é doutrinário; pelo
contrário, é cheio de experiências. Ela louvou a Deus
conforme sua experiência. Disse que seu espírito
exultava em Deus, seu Salvador, e sua alma
engrandecia o Senhor. Isso se baseou em experiência.
Depois ainda O louvou por Sua misericórdia e por
Seus feitos fiéis ao cuidar do povo, que estava em
condição humilde. Os feitos de Deus estavam de
acordo com Sua promessa, com Sua fiel palavra dada
aos pais.

ESTUDO-VIDA DE LUCAS

MENSAGEM CINCO
A PREPARAÇÃO DO SALVADOR-HOMEM
EM SUA HUMANIDADE COM SUA
DIVINDADE
(3)

Leitura Bíblica: Lc 1:57-80

Lucas 1:5-4:13 constitui uma seção sobre a


preparação do Salvador-Homem em Sua
humanidade com Sua divindade. Nessa seção, já
abordamos a concepção de João Batista, o precursor
do Senhor (1:5-25), e a concepção do Salvador-
Homem (1:26-56). Agora passamos a considerar o
nascimento e a juventude do precursor (1:57-80).
Como já começamos a ver, a preparação do
Salvador-Homem ocorre em Sua humanidade com
4
MENSAGEM CINCO

Sua divindade. Em princípio, Sua preparação é igual


à Sua concepção, porque em ambas temos a essência
divina e a humana. A concepção do Salvador-Homem
foi do Espírito Santo com a essência divina no ventre
duma virgem humana com a essência humana. Em
outras palavras, foi da essência divina na essência
humana. De modo semelhante, Sua preparação foi
em Sua humanidade com Sua divindade. Quão
excelente, maravilhosa e extraordinária foi essa
preparação!
Em 1:5-2:52, temos a concepção, o nascimento e
juventude de João Batista e do Salvador-Homem. Já
ressaltamos que a concepção de João Batista e a do
Salvador Jesus diferem em essência. A de João foi
um milagre de Deus, realizada com a essência
humana em idade avançada, simplesmente pelo
poder divino sem que a essência divina estivesse
envolvida. Por isso, o resultado dessa concepção foi
apenas um homem, alguém cheio do Espírito de
Deus (1:15), mas carente da natureza divina. A
concepção do Salvador-Homem foi a encarnação de
Deus, constituída não só do poder divino, mas
também da essência divina adicionada à essência
humana. Por isso, essa concepção produziu o
Homem-Deus, alguém com duas naturezas:
divindade e humanidade.

O NASCIMENTO DO SEU PRECURSOR


Nascido miraculosamente
João Batista nasceu miraculosamente. Sobre
esse nascimento miraculoso, 1:57-58 diz: “A Isabel
cumpriu-se o tempo de dar à luz, e teve um filho.
Ouviram os seus vizinhos e parentes que o Senhor
usara de grande misericórdia para com ela, e se
42 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

alegravam com ela”.

Circuncidado no oitavo dia


O precursor do Salvador-Homem foi
circuncidado no oitavo dia. “Sucedeu que, no oitavo
dia, vieram circuncidar o menino” (v. 59). Isso era
conforme a exigência de Levítico 12:3.

Miraculosamente chamado João


Quando alguns estavam para chamar o
precursor do Salvador-Homem “pelo nome de seu
pai, Zacarias”, sua mãe respondeu e disse: “Não, mas
será chamado João” (1:59-60). Então alguns ainda
disseram: “Ninguém há na tua parentela que se
chame por esse nome” (v. 61). Quando gesticularam
para Zacarias sobre como devia ser chamado o
menino, ele escreveu numa tabuinha: “João é o seu
nome” (v. 63).
Em 1:13, o anjo disse a Zacarias que Isabel teria
um filho e ele lhe daria o nome de João. O nome
grego traduzido por João é Ioánnes, que significa
Jeová é favorável, Jeová demonstra graça, ou Jeová é
o Doador cheio de graça.
As pessoas estavam certas em dizer que nenhum
dos parentes de Isabel era chamado João. Ao
precursor do Senhor foi dado esse nome porque ele
seria alguém que não guardaria as tradições. Por esse
motivo, não recebeu um nome tradicional, mas um
novo nome.

A profecia de seu pai


Cheio do Espírito
Depois que Zacarias escreveu o nome de João na
4
MENSAGEM CINCO

tabuinha, “imediatamente a boca se lhe abriu e se lhe


soltou a língua, e falava, bendizendo a Deus” (v. 64).
Em 1:67-79, temos um registro da profecia de
Zacarias. De acordo com o versículo 67, ao profetizar,
ele ficou cheio do Espírito Santo.

A respeito do mover redentor de Deus


em favor de Seu povo com vistas à salvação
No versículo 68 temos o início da profecia de
Zacarias: “Bendito seja o Senhor Deus de Israel,
porque visitou e redimiu o Seu povo”. Aqui vemos
que sua profecia dizia respeito ao mover redentor de
Deus em favor de Seu povo com vistas à salvação,
efetuada quando Cristo surgiu, em Sua humanidade,
como chifre de salvação na casa de Davi e, em Sua
divindade, como o sol nascente proveniente do alto,
por meio da rica misericórdia de Deus segundo a
santa aliança (vs. 68-73, 76-79). Com relação à
Pessoa divino-humana e à obra salvadora do
Salvador-Homem, a profecia de Zacarias traz mais
luz do que a bênção de Isabel; contudo ainda tem
matizes do Antigo Testamento, em estilo e sabor,
como o louvor de Maria e a bênção de Isabel.
A profecia de Zacarias diz respeito ao mover de
Deus. Esse é o mover da redenção de Deus em favor
dos Seus resultando em salvação. Ao levantar Cristo
como chifre de salvação e como sol nascente, a obra
redentora de Deus resulta na salvação de Seu povo.
Em 1:69, Zacarias diz: “E nos suscitou um chifre
de salvação na casa de Davi, Seu servo”. Esse chifre
de salvação é o Salvador Jesus, que procedeu da casa
de Davi (Jr 23:5-6). Um chifre representa poder para
lutar. Daí, o chifre de salvação é o poder de luta da
salvação de Deus na casa de Davi. A frase “a casa de
44 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

Davi” indica que a salvação está na humanidade do


Salvador-Homem.
No versículo 70 vemos que o ato de suscitar o
chifre de salvação estava de acordo com o que Deus
falara “desde a antiguidade, por boca dos Seus santos
profetas”. Isso se refere à fidelidade de Deus em
guardar Sua palavra.
Depois de falar de Cristo em Sua humanidade,
Zacarias também fala Dele em Sua deidade: “Por
causa da entranhável misericórdia de nosso Deus,
pela qual nos visitará do alto o sol nascente, para
iluminar os que estão sentados nas trevas e na
sombra da morte, para dirigir os nossos pés ao
caminho da paz” (vs. 78-79). O Salvador Jesus era o
sol nascente para a era tenebrosa. Sua vinda pôs fim
à noite do Antigo Testamento e deu início ao dia do
Novo Testamento. Como o fruto mencionado na
bênção de Isabel (v. 42), Ele é vida para nós (Jo
14:6); como o sol citado na profecia de Zacarias, Ele é
luz para nós (Jo 9:5; Mt 4:16). Como tal, Ele é o
Realizador e o centro da redenção de Deus, para Seu
povo obter salvação.
Em 1:78, Zacarias fala do Senhor como o sol
nascente do alto. Enquanto o chifre da salvação é da
casa de Davi, o sol nascente é do alto, isto é, de Deus.
Isso significa que é em Sua deidade que o Senhor é o
sol nascente do alto.
Quando comparamos a palavra de Zacarias no
versículo 69 com a do versículo 78, vemos que ele
fala sobre a duplicidade da Pessoa de Cristo. Fala
sobre Sua humanidade e Sua deidade. Em Sua
humanidade, Cristo é o chifre de salvação levantado
por Deus numa casa humana, a casa de Davi. Em Sua
deidade, Ele é o sol nascente do alto. O Senhor,
4
MENSAGEM CINCO

portanto, é homem e Deus. Como homem, Ele é o


chifre de salvação; como Deus, é o sol nascente. A
obra redentora de Deus a favor da salvação de Seu
povo é cumprida levantando Cristo nos dois aspectos
de chifre de salvação e sol nascente.
A obra redentora de Deus é também mediante
Sua misericórdia segundo Sua santa aliança. Sobre
isso, Zacarias diz: “Para usar de misericórdia com os
nossos pais e lembrar-se da Sua santa aliança, do
juramento que fez ao nosso pai Abraão” (vs. 72-73).
Ele aqui diz que Deus lembrou-se de Sua aliança. Isso
se refere à fidelidade divina ao guardar Sua palavra,
que por meio de juramento tornou- se aliança.
A aliança de Deus é promulgada com base em
Sua promessa (Hb 8:6). Uma promessa é uma
palavra comum, sem confirmação. No Antigo
Testamento, depois de fazer uma promessa, Deus a
selava com juramento. Ele jurava por Sua Divindade
para confirmar a promessa, por meio de juramento,
tornando, assim, a promessa em aliança.
Nos versículos 74-75, Zacarias também diz: “De
conceder-nos que, livres da mão do inimigo, O
servíssemos sem temor, em santidade e justiça
perante Ele, todos os nossos dias”. Literalmente, o
verbo “servir” no versículo 74 significa servir como
sacerdote. Esse serviço será em santidade e justiça.
Santidade é principalmente para com Deus, e justiça
é principalmente para com os homens. Lucas enfatiza
a humanidade de Jesus. Assim, ele escolhe aqui
santidade e justiça como as características principais
do comportamento humano para com Deus.
Nos versículos 76-77, Zacarias profetiza sobre o
próprio filho, o precursor do Salvador-Homem: “E tu,
menino, será chamado profeta do Altíssimo, porque
46 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

irás adiante do Senhor, para preparar-Lhe os


caminhos, para dar ao Seu povo conhecimento da
salvação, no perdão dos seus pecados”. O “Senhor”
no versículo 76 é o Salvador Jesus (1:17; Ml3:1).
Zacarias profetizou que o precursor iria diante
do Senhor para preparar-Lhe os caminhos. O anjo
lhe dissera que seu filho iria converter muitos dos
filhos de Israel ao Senhor, seu Deus, e “preparar ao
Senhor um povo bem disposto” (Lc 1:16-17). Ele
prepararia o caminho do Senhor mudando a mente
dos homens, convertendo-a ao Senhor e tornando
reto seu coração, fazendo, assim, com que cada parte
de seu coração fosse endireitada pelo Senhor
mediante o arrependimento, para que o Salvador-
Homem entrasse neles para ser sua vida e tomar
posse deles.

Introduziu mais luz sobre a Pessoa divino-


humana
e a obra salvadora do Salvador-Homem
A profecia de Zacarias introduz mais luz sobre a
Pessoa divino-humana e a obra salvadora do
Salvador-Homem do que a bênção de Isabel ou o
louvor de Maria. Se compararmos a bênção de Isabel,
o louvor de Maria e a profecia de Zacarias, veremos
que a última derrama mais luz sobre o mover de
Deus na terra do que as outras duas. Nessa profecia
temos uma revelação de Cristo em Sua Pessoa divino-
humana e Sua obra salvadora.

A JUVENTUDE DO SEU PRECURSOR


Lucas 1:80 fala sobre a juventude do precursor
do Salvador-Homem: “O menino crescia e se
4
MENSAGEM CINCO

fortalecia em espírito. E habitava nos desertos até o


dia da sua manifestação a Israel”. Esse versículo
menciona duas coisas: o precursor seria forte de
espírito e esteve no deserto até o dia em que foi
apresentado a Israel.
A mãe e o pai do precursor eram cheios do
Espírito Santo e (vs. 41, 67). Por isso, foi fácil seu
filho crescer e fortalecer-se em espírito, e, desse
modo, viver no deserto. O fato de João Batista
crescer e fortalecer-se no espírito quer dizer que
estava com Deus e era para Deus, e o fato de viver no
deserto significa que estava separado da cultura e
religião do homem, para que Deus tivesse caminho
livre e desimpedido para usá-lo como precursor do
Salvador.
Como alguém nascido sacerdote, João, assim
como Samuel, devia ter gasto muito tempo no templo.
Entretanto, como nazireu do Novo Testamento, João
viveu no deserto, e não no templo. O deserto é um
lugar sem cultura, tradição ou religião. Vivendo no
deserto, João isolou-se de seus antecedentes, seu
passado. Ele era judeu, mas não vivia como tal. Era
sacerdote, mas não vivia como tal. Antes, o precursor
do Senhor vivia como alguém inculto.
Sabemos por meio de Mateus 3:3 que o
precursor do Salvador-Homem começou seu
ministério no deserto. Isso implica que Deus
tencionava que Sua economia neotestamentária
começasse de forma totalmente nova. Por isso, João
Batista veio, pregando no deserto da Judeia (Mt 3:1).
Como início da economia neotestamentária de
Deus, essa pregação não foi feita no templo santo na
cidade santa, onde as pessoas religiosas e cultas
adoravam a Deus de acordo com suas ordenanças
48 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

bíblicas. Antes, começou no deserto, de forma inculta,


não guardando quaisquer regulamentos segundo a
antiga maneira. Isso indica que a antiga maneira de
adoração a Deus conforme o Antigo Testamento fora
repudiada, e uma nova maneira estava para ser
introduzida.
A palavra “deserto”, em Lucas 1:80 e Mateus 3:1
e 3, indica que a nova maneira da economia
neotestamentária de Deus é contrária à religião e à
cultura. Também indica que nada velho foi deixado e
algo novo seria estabelecido.

ESTUDO-VIDA DE LUCAS

MENSAGEM SEIS

A PREPARAÇÃO DO SALVADOR-HOMEM
EM SUA HUMANIDADE COM SUA
DIVINDADE
(4)
Leitura Bíblica: Lc 2:1-52

Nesta mensagem vamos abordar o nascimento e


a juventude do Salvador-Homem. Seu nascimento é
descrito em 2:1-20, e Sua juventude, em 2:21-52.

SEU NASCIMENTO
No reinado de César Augusto
Lucas 2:1-3 diz: “E sucedeu naqueles dias que
saiu um decreto da parte de César Augusto, para que
se recenseasse toda a terra habitada. Esse primeiro
recenseamento foi feito quando Quirino era
governador da Síria. Todos iam alistar-se, cada um à
4
MENSAGEM SEIS

sua própria cidade”. César Augusto, o segundo dos


Césares, foi o sucessor de Júlio César. Foi em seu
reinado que o Senhor Jesus nasceu.
Houve um decreto de César Augusto para que
toda a terra habitada se alistasse. Isso ocorreu pela
vontade soberana de Deus, mencionada em
Provérbios 21:1. Por meio desse recenseamento,
Maria e José foram trazidos de Nazaré para Belém,
para que o Salvador nascesse ali, a fim de cumprir a
profecia com relação ao lugar do Seu nascimento (Mq
5:2; Jo 7:41-42).

Em Belém
Lucas 2:4-6 diz: “José também subiu da Galileia,
da cidade de Nazaré, para a Judeia, à cidade de Davi,
que se chama Belém, por ser ele da casa e família de
Davi, a fim de alistar-se com Maria, que estava
desposada com ele e estava grávida”. A casa e família
de Davi era a casa e família real na linha de sucessão
ao trono de Davi (3:23-31; 1:32; ver Mt 1:6-16). Sem o
decreto de César Augusto, não teria sido possível que
José e Maria fossem de Nazaré a Belém. Isso foi
necessário a fim de que Cristo nascesse em Belém
para cumprir a profecia do Antigo Testamento.

Deitado numa manjedoura


O versículo 7 diz: “E deu à luz o seu filho
primogênito; envolveu-O em faixas e O deitou numa
manjedoura, porque não havia lugar para eles na
hospedaria”. A vida do Salvador-Homem começou
numa manjedoura, na mais humilde condição. Esse
início foi devido ao fato de a humanidade caída estar
totalmente ocupada com as próprias atividades
50 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

caídas. Podemos dizer que a manjedoura é um


símbolo do viver humano do Salvador.
Lucas apresenta um Salvador-Homem. Após da
narrativa de Sua concepção, ele nos dá nesse capítulo
um excelente registro sobre certos aspectos da vida
humana do Salvador. Descreve Seu autêntico
nascimento humano de acordo com a lei da criação
do homem por Deus, a fim de que fosse um Salvador-
Homem para a salvação da humanidade. Ele faz uma
narrativa de Sua circuncisão segundo a lei da
ordenação de Deus (2:21-24), para ser o descendente
legal de Abraão (Gn 17:9-14), para se tornar Aquele
em quem se cumpriria, em favor de todos os gentios
(Gl 3:14), a promessa que Deus anunciou a Abraão
como evangelho (G13:8): “Em ti serão benditas todas
as famílias da terra” (Gn 12:3). Nesse capítulo vemos
o crescimento humano do Salvador-Homem
conforme a lei da vida humana (v. 40), para que Ele
pudesse ser um homem perfeito a fim de expressar
Deus para o cumprimento de Seu plano redentor. Por
fim, Lucas registra a infância normal do Senhor, a
infância de quem crescia no interesse de Deus com
relação à Sua deidade como o Filho do Pai (vs. 40-52),
para ter a plena medida de sabedoria, estatura e
graça diante de Deus e dos homens.
O relato do nascimento e infância do Salvador
nesse capítulo é completamente diferente do de
Mateus 2. O que Mateus registra dos eventos que
ocorreram por ocasião do nascimento do Salvador e
em Sua infância constituem evidências contundentes
da realeza legítima de Cristo. Lucas também
registrou o nascimento e a infância do Salvador mas
foram eventos de categoria diferente, eventos que
oferecem provas convincentes da autêntica
5
MENSAGEM SEIS

humanidade de Jesus. Os dois relatos abrangem


somente dois dos vários aspectos da maravilhosa
posição do Salvador. Enquanto o registro de Mateus
testifica que Cristo é o Rei adequado, profetizado nas
Escrituras, o de Lucas sobre a infância de Jesus prova
que Ele é um homem típico. Os dois são totalmente
diferentes.
Anunciado aos pastores por um anjo
O nascimento do Salvador-Homem foi
anunciado aos pastores por um anjo como boas-
novas de grande alegna para todo o povo (2:8-10). O
versículo 8 diz:
“Havia na mesma região pastores que viviam nos
campos e guardavam o seu rebanho durante as
vigílias da noite”. Seu trabalho de pastorear o
rebanho (o que provia não somente alimento para o
homem, como também ofertas para Deus) e sua
diligência em guardar as vigílias da noite
qualificaram-nos a ser os primeiros a receber as
boas-novas do maravilhoso nascimento do Salvador,
anunciadas pelo anjo. Quando o anjo do Senhor se
pôs ao lado deles e a glória do Senhor brilhou ao seu
redor, eles temeram muito (2:9). Literalmente, a
expressão “ficaram tomados de grande temor” em
grego significa temeram com grande temor.
Nos versículos 10-11, o anjo disse aos pastores:
“Não temais, porque eis que vos anuncio boas-novas
de grande alegria, que será para todo o povo, pois
hoje vos nasceu, na cidade de Davi, um Salvador, que
é o Cristo, o Senhor”. Essas boas-novas de grande
alegria foram anunciadas a todo o povo. Isso significa
que foram anunciadas não só aos judeus, mas a toda
a humanidade.
52 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

No versículo 12, o anjo prosseguiu: “E isto vos


servirá de sinal: encontrareis uma criança envolta em
faixas e deitada numa manjedoura”. Uma criança
numa manjedoura, o que demonstra pequenez e
humildade, era sinal da vida do Salvador-Homem.
Essa criancinha é chamada de Deus forte na profecia
acerca do Salvador-Homem (Is 9:6).

Uma multidão do exército celestial


juntou-se ao anjo e louvou a Deus
Lucas 2:13-14 dizem: “E de repente apareceu
com o anjo uma multidão do exército celestial
louvando a Deus e dizendo: Glória a Deus nas
maiores alturas, e paz na terra entre os homens de
Seu agrado”. O resultado da exultação dos anjos,
emocionados com o nascimento do Salvador, que
trazia a salvação para o homem (cf. 15:7), foi que eles
louvaram a Deus. De acordo com o versículo 14, a
vinda do Salvador rendeu glória a Deus nos céus e
trouxe paz aos homens na terra. No versículo 14,
“homens de Seu agrado” são homens por Ele
escolhidos segundo Seu beneplácito (Ef 1:5).
O louvor do exército celestial tem dois aspectos:
glória a Deus nas maiores alturas e paz na terra entre
os homens. A salvação do Salvador-Homem foi
cumprida nesses dois pontos. Ela trouxe glória a
Deus nas maiores alturas e paz na terra aos homens.
Cristo é para a glória de Deus e paz do homem.

Testemunhado pelos pastores e por eles


contado a outros
Em 2:15-20, é-nos dito que os pastores foram até
Belém e “acharam Maria e José, e a criança deitada
5
MENSAGEM SEIS

na manjedoura” (v. 16). As boas-novas acerca do


nascimento do Salvador-Homem foram primeiro
anunciadas por um anjo aos pastores. Podemos dizer
que ele lhes pregou o evangelho. Então os pastores,
após ouvir a pregação do anjo e ver o menino,
começaram a pregar a outros. O versículo 18 diz:
“Todos os que ouviram se admiraram do que lhes
diziam os pastores”. Depois de ver o menino Jesus,
“voltaram os pastores, glorificando e louvando a
Deus por tudo o que tinham ouvido e visto, como
lhes fora dito” (v. 20).

SUA INFÂNCIA
Foi circuncidado e recebeu um nome
Lucas 2:21 fala da circuncisão do Senhor Jesus e
do nome que recebeu: “Quando se completaram os
oito dias para circuncidar o menino, foi-Lhe dado o
nome de Jesus que pelo anjo Lhe fora posto antes de
ser concebido”. De acordo com a lei, todo filho do
sexo masculino devia ser circuncidado no oitavo dia e
receber um nome. O Senhor Jesus foi circuncidado e
recebeu o nome no oitavo dia.

Apresentado e adorado
Em 2:22-39, temos uma narrativa do Salvador-
Homem sendo apresentado e adorado. Como criança,
Ele foi apresentado, oferecido a Deus; ao mesmo
tempo foi adorado, louvado e venerado pelo homem.
Sobre a apresentação do Salvador-Homem,
2:22-24 diz: “Quando se completaram os dias da
purificação dele segundo a lei de Moisés, levaram-No
a Jerusalém para apresentá-Lo ao Senhor (conforme
está escrito na lei do Senhor: Todo macho que abrir a
54 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

madre será chamado santo ao Senhor), e para


oferecer um sacrifício, segundo o que está dito na lei
do Senhor: Um par de rolas ou dois pombinhos”.
Para que o Salvador-Homem fosse um verdadeiro
israelita, como homem correto diante de Deus e dos
homens, tudo o que a lei exigia foi totalmente
cumprido nos versículos 21-24.
O versículo 24 fala de um par de rolas ou dois
pombinhos. Esse sacrifício indica a pobreza dos
ofertantes (Lv 12:8), que foi também uma
característica da vida do Salvador-Homem.

Adorado por Simeão


Em 2:25-35, o menino Jesus foi adorado por
Simeão. O versículo 25 diz: “E eis que havia em
Jerusalém um homem cujo nome era Simeão,
homem este justo e piedoso, que esperava a
consolação de Israel; e o Espírito Santo estava sobre
ele”. Simeão era justo principalmente para com os
homens e piedoso para com Deus. Como tal, ele
esperava pela consolação de Israel. O Salvador-
Homem é a consolação do povo escolhido de Deus.
Simeão adorou Jesus no Espírito Santo. O
Espírito Santo estava sobre ele (v. 25), e comunicou-
lhe que ele não veria a morte antes de ver o Cristo do
Senhor (v. 26) então, no Espírito, ele entrou no
templo (v. 27).
Quando José e Maria “trouxeram o menino
Jesus para fazerem com Ele segundo o costume da lei”
(v. 27), Simeão tomou-O nos braços e bendisse a
Deus, dizendo: “Agora, Senhor, despedes em paz o
Teu servo, segundo a Tua palavra; porque os meus
olhos já viram a Tua salvação, a qual preparaste ante
5
MENSAGEM SEIS

a face de todos os povos; luz para revelação aos


gentios, e glória do Teu povo, Israel” (vs. 29-32). Nos
versículos 30-32, Simeão fala de salvação e luz. O
Salvador-Homem é a salvação de Deus para Seu povo
e também luz para os gentios e glória para Israel.
Em 2:34-35, Simeão diz a Maria: “Eis que este
menino é posto para queda e para levantamento de
muitos em Israel, e para sinal de contradição
(também uma espada traspassará a tua própria alma),
para que se revelem os pensamentos de muitos
corações”. Aqui vemos que o Salvador-Homem foi
designado por Deus para provar os filhos de Israel,
para que muitos tropeçassem por Sua causa e muitos
fossem por Ele . levantados (Rm 9:33).
O Salvador-Homem é também um sinal, um
símbolo, contraditado, contestado e impugnado pelos
que tomam o partido de Seu inimigo, para que se
revelem os pensamentos de muitos corações.
Nas palavras proferidas por Simeão, o Salvador-
Homem foi revelado como consolação de Israel,
salvação de Deus, luz para os gentios, glória de Israel,
teste para Israel e sinal impugnado.
No versículo 35, Simeão disse a Maria que uma
espada lhe traspassaria a alma. Isso indica que,
enquanto o Salvador-Homem, como sinal, é
contraditado, o sofrimento também traspassa o
íntimo da que O deu à luz. Isso é experimentar
pessoalmente os sofrimentos do Senhor.
Em 2:35, Simeão também fala que o
arrazoamentos de muitos corações seriam revelados.
O que está no coração do homem é facilmente
revelado em sua atitude para com Cristo.

Adorado por Ana


56 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

Em 2:36-39, temos a adoração de Ana ao


menino Jesus. O versículo 36 diz: “Havia uma
profetisa, chamada Ana, filha de Fanuel, da tribo de
Aser. Ela era muito avançada em dias, tendo vivido
com seu marido sete anos desde a sua virgindade”.
Ana era viúva, de “oitenta e quatro anos. Esta não
deixava o templo, servindo a Deus noite e dia em
jejuns e súplicas” (v. 37). O versículo 38 diz: “E,
chegando naquela mesma hora, dava graças a Deus, e
falava a respeito do menino a todos os que
esperavam a redenção de Jerusalém”. Aqui, a palavra
redenção indica que o Salvador-Homem é a redenção
do povo de Deus. Ana deu graças a Deus pelo
Salvador-Homem e falou sobre Ele como redenção
do povo de Deus.
Em 2:21-38, vemos que o Salvador-Homem, a
fim de ser um israelita adequado segundo a lei, foi
circuncidado, recebeu um nome e foi oferecido a
Deus. Lucas 2:39 diz:
“Quando cumpriram todas as coisas segundo a lei do
Senhor, voltaram para a Galileia, para a sua própria
cidade, Nazaré”. O Salvador-Homem nasceu em
Belém, a cidade de Davi, onde permaneceu pouco
tempo apenas, mas foi criado em Nazaré, cidade
desprezada, situada na Galileia, região desprezada.
Ser desprezado foi outra característica de Sua vida
humana.

Cresceu em estatura de corpo, tornou-se


forte no espírito,
foi cheio de sabedoria, e a graça de Deus
estava sobre Ele
Lucas 2:40 diz: “Crescia o menino e se fortalecia,
enchendo-se de sabedoria; e a graça de Deus estava
5
MENSAGEM SEIS

sobre Ele”. Ele cresceu em estatura de corpo (v. 52), e


tornou-se forte em espírito (ver 1:80).
O versículo 40 diz que, enquanto crescia, o
Salvador-Homem era enchido de sabedoria. Essa
sabedoria, que veio da deidade do Salvador (CI2:2-3),
foi revelada na proporção da medida de Seu
crescimento físico.
Em 2:40 também lemos que a graça de Deus
estava sobre Ele. Como homem, até Jesus precisava
da graça de Deus para viver. Ele estava cheio da
sabedoria de Sua deidade e precisava da graça de
Deus para Sua humanidade.
Como Deus, o Salvador-Homem não precisava
de graça; mas, como homem, precisava da graça
divina. Por isso, é-nos dito no versículo 40 que a
graça de Deus estava sobre Ele.
Como seres humanos, todos precisamos da
sabedoria e da graça de Deus. A sabedoria está
relacionada com o modo de se fazer as coisas, e graça,
com o poder, a habilidade de levar a cabo essas coisas.
Em nosso viver, primeiro precisamos do modo de
fazer algo; depois, precisamos do poder para fazê-lo.
Sabedoria é o modo, e graça é o poder. Precisamos de
sabedoria a fim de ter o modo adequado. Entretanto
a sabedoria por si só não basta. Também precisamos
de graça. Sem graça, não temos o poder, a força ou a
energia para levar a cabo certas questões de forma
adequada. Se tivermos sabedoria sem a graça,
seremos decepcionados porque não seremos capazes
de cumprir nossa responsabilidade, mas podemos ter
a sabedoria de Deus para nosso caminho e Sua graça
para nosso poder, força e energia. O homem Jesus
vivia na sabedoria e graça de Deus.
58 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

Cuidou dos interesses de Deus na idade de


doze anos
e sujeitou-se a Seus pais
Em 2:41-51, vemos que o Senhor Jesus cuidava
dos interesses de Deus e também se sujeitava aos
pais. O versículo 42 diz: “Quando Ele completou doze
anos, subiram, segundo o costume da festa”. Na
idade de doze anos, um menino passava a ser
chamado pelos judeus de “filho da lei” e, pela
primeira vez, ficava sujeito à obrigação legal (Alford).
O número doze representa a perfeição eterna na
administração de Deus. Assim, a frase “doze anos”
indica que o que o Senhor fez aqui estava
perfeitamente relacionado com a administração
divina.
Esse versículo diz que eles subiram “segundo o
costume da festa”. Esse costume era ordenado por
Deus para que alguém fosse legalmente varão em
Israel (Dt 16:16).
De acordo com os versículos 43-48, o menino
Jesus ficou para trás em Jerusalém, e Seus pais não o
souberam. Quando perceberam que Ele não estava
com eles na caravana, voltaram para Jerusalém a
procurá-Lo, Quando O encontraram, Sua mãe Lhe
disse: “Filho, por que fizeste assim conosco? Eis que
Teu pai e eu, aflitos, Te procurávamos” (v. 48). O
Senhor replicou: “Por que é que Me procuráveis? Não
sabíeis que devo ocupar-Me das coisas de Meu Pai?”
(v. 49). Isso indica que Ele estava cuidando dos
interesses de Deus. As palavras “Meu Pai” no
versículo 49 enfatizam Sua deidade (Jo 5:18). Em
Sua humanidade, Ele era o filho de Seus pais; em Sua
deidade, era o Filho de Deus Pai.
5
MENSAGEM SEIS

O versículo 51 diz que o Senhor Jesus “desceu


com eles, e veio para Nazaré; e era-lhes submisso”.
Aqui vemos a sujeição de Sua humanidade aos pais
humanos.
Em 2:41-51, vemos de novo a posição dupla do
Senhor: Sua posição como Filho de Deus e como
Filho do homem. Como Filho de Deus, Ele cuidava
dos interesses de Deus. Como Filho do homem, era
obediente em Sua humanidade aos pais humanos.

Crescia em sabedoria e estatura e em graça


diante de Deus e dos homens
Em 2:52, temos a conclusão da seção a respeito
da juventude do Salvador-Homem: “E crescia Jesus
em sabedoria e estatura, e em graça diante de Deus e
dos homens”. Como no versículo 40, essa sabedoria
da deidade do Salvador foi revelada na proporção da
medida de Seu crescimento. A palavra grega para
“estatura” denota não só estatura como em 19:3, mas
também idade.
É-nos dito no versículo 52 que o Salvador-
Homem crescia em graça diante de Deus e dos
homens. Ele crescia em graça diante de Deus porque
crescia na expressão de Deus, de acordo com o desejo
divino; e em graça diante dos homens porque crescia
nos atributos divinos, manifestados nas virtudes
humanas, que eram atraentes aos homens. Crescia
como Homem-Deus diante de Deus e dos homens.
Deus e os homens estavam contentes e felizes com
Jesus.
Como já enfatizamos, todos os incidentes
narrados por Lucas no capítulo dois de seu evangelho
são evidências categóricas de que o Senhor Jesus era
60 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

um homem real, autêntico, adequado e perfeito.


Entretanto no capítulo dois de Mateus temos outra
categoria de acontecimentos, que provam que Ele foi
um Rei, verdadeiro descendente de Davi para herdar
o trono e o reino. Por isso, Mateus 2 e Lucas 2 falam
sobre a juventude de Cristo, mas revelam aspectos
diferentes de Sua posição: de Rei e de verdadeiro
homem. A fim de ser Rei, havia necessidade de que
certos acontecimentos provassem que Ele era o
herdeiro autêntico e sucessor ao trono de Davi. Para
ser revelado como homem verdadeiro, havia a
necessidade de evidências para provar a
autenticidade de Sua humanidade. Assim, em Lucas
2 temos prova categórica e clara de que o Senhor
Jesus era um homem típico e autêntico.

ESTUDO-VIDA DE LUCAS
MENSAGEM SETE

A PREPARAÇÃO DO SALVADOR-HOMEM
EM SUA HUMANIDADE COM SUA
DIVINDADE
(5)
Leitura Bíblica: Lc 3:1-22

Nesta mensagem, vamos considerar a


investidura do Salvador-Homem (3:1-22). Primeiro
Ele foi apresentado por João Batista (vs. 1-20) e
depois foi batizado (v. 21) e ungido (v. 22).
Como veremos, a investi dura do Salvador-
Homem envolve principalmente ser batizado por
João Batista e ungido pelo Pai. Na verdade, essa
6
MENSAGEM SETE

investi dura é uma apresentação, mas também é mais


do que isso. Apresentar alguém não significa
empossá-lo oficialmente; ser investido não é apenas
ser apresentado, mas também empossado
oficialmente.
Nos capítulos anteriores, o Salvador-Homem foi
concebido do Espírito Santo e nasceu de uma virgem.
Mediante a concepção, nascimento e juventude, Ele
foi preparado como uma Pessoa completa para ser
nosso Salvador em Sua humanidade com Sua
divindade. Agora, no capítulo três, é necessário que
seja apresentado e conduzido a Seu ministério. Por
isso, em 3:1-22, temos um registro da investi dura do
Salvador-Homem. Nessa investidura, João Batista e
Deus Pai desempenharam uma parte: João fez algo
do lado do homem, e o Pai, do lado de Deus.

APRESENTADO POR JOÃO BATISTA


Pregou o batismo de arrependimento
Em 3:3-14, vemos que João Batista veio
pregando o batismo de arrependimento. O versículo
3 diz que “ele percorreu por toda a circunvizinhança
do Jordão, pregando batismo de arrependimento
para perdão de pecados”. Arrependimento é
mudança de parecer, é converter a mente para o
Salvador-Homem. Batismo é sepultar as pessoas
arrependi das, dando-lhes um fim para que o
Salvador-Homem possa fazê-las germinar pela
regeneração (Jo 3:3, 5-6).
De acordo com 3:3, o batismo de
arrependimento visava o perdão de pecados. A
preposição grega traduzi da por para também
significa resultante em. Arrependimento com
batismo é para perdão de pecados e resulta nisso,
62 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

para que o obstáculo da queda do homem seja


removido e ele seja reconciliado com Deus.
Lucas 3:4-6 diz: “Conforme está escrito no livro
das palavras do profeta Isaías: Voz do que clama no
deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as
Suas veredas. Todo vale será aterrado, e nivelado
todo monte e outeiro; os lugares tortuosos se
tomarão retos, e os caminhos escabrosos, planos; e
toda carne verá a salvação de Deus”. Em 3:4,
preparar o caminho do Senhor e endireitar Suas
veredas significa mudar a mente das pessoas,
convertendo-as para o Salvador-Homem. Também
significa tomar seus corações retos, endireitar cada
parte deles pelo arrependimento, para que o
Salvador-Homem entre neles a fim de ser sua vida e
tomar posse deles.
Em 3:5, vale, monte, lugar tortuoso e caminho
escabroso são figuras de linguagem que descrevem a
condição do coração dos homens para com Deus e de
uns para com os outros, e os relacionamentos entre
os homens (1:16-17). É preciso lidar com a condição
do coração dos homens e com seus relacionamentos
para preparar o caminho para a vinda do Salvador.
O versículo 6 diz que toda carne verá a salvação
de Deus. “Carne” aqui se refere aos homens caídos, e
“salvação” denota o Salvador como a salvação de
Deus.

As palavras de João às multidões


Em 3:7-9, João disse às multidões que iam ser
por ele batizadas: “Raça de víboras, quem vos
ensinou a fugir da ira vindoura? Produzi, pois, frutos
dignos do arrependimento, e não comeceis a dizer
dentro de vós mesmos: Temos por pai a Abraão;
6
MENSAGEM SETE

porque eu vos afirmo que destas pedras Deus pode


suscitar filhos a Abraão. Também já está posto o
machado à raiz das árvores; toda árvore, pois, que
não produz bom fruto é cortada e lançada ao fogo”.
“Raça de víboras” no versículo 7 equivale a “filhos do
diabo” em 1João 3:10.
No versículo 8, João Batista disse ao povo que
Deus podia, de pedras, suscitar filhos a Abraão. Por
causa da impenitência dos judeus, tanto essa palavra
como a do versículo 9 foram cumpridas. Deus os
cortou e levantou os gentios crentes como filhos a
Abraão na fé (Rm 11:15, 19-20,22; 01 3:7, 28-29).
Isso também indica que o reino de Deus não é
constituído de filhos de Abraão por nascimento, mas
por fé.
No versículo 9 João diz que toda árvore que não
produz bom fruto será cortada e lançada ao fogo.
Esse é o fogo no lago de fogo (Ap 20:15), onde os
incrédulos sofrerão perdição eterna.
Em 3:10-14 temos um registro da palavra de
João às multidões, aos cobradores de impostos e a
alguns que serviam no exército. À multidão que lhe
perguntara o que fazer, João disse: “Quem tiver duas
túnicas, reparta com quem não tem; e quem tiver
comi da, faça o mesmo” (v. 11). Aos cobradores de
impostos que vinham para ser batizados, João dizia:
“Não cobreis mais do que vos foi prescrito” (v. 13).
Aos que serviam no exército, ele disse: “A ninguém
façais extorsão, nem tomeis coisa alguma mediante
falsa denúncia, e contentai-vos com o vosso soldo” (v.
14). O que João diz aqui se relaciona com a
moralidade. Com isso vemos que em seu evangelho
Lucas enfatiza a moralidade porque sua intenção é
apresentar o Salvador-Homem no mais alto padrão
64 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

de moralidade.

Recomendou o Salvador-Homem
Em 3:15-17 João Batista recomenda o Salvador-
Homem. O versículo 15 diz: “Estando o povo na
expectativa, e arrazoando todos em seus corações a
respeito de João, se porventura seria ele o Cristo”.
Aqui vemos que o povo esperava para saber se João
poderia ser o Cristo, o Messias (Jo 1:19-27).
Nos versículos 16-17 João disse: “Eu vos batizo
em água, mas vem Aquele que é mais forte do que eu,
do qual não sou digno de desatar-Lhe a correia das
sandálias, Ele vos batizará no Espírito Santo e em
fogo. A Sua pá Ele a tem na mão para limpar
completamente a Sua eira e recolher o trigo no Seu
celeiro; mas queimará a palha com fogo
inextinguível”. Embora João pregasse um batismo de
arrependimento, o alvo de seu ministério era uma
Pessoa maravilhosa: Jesus Cristo, o Filho de Deus.
Ele não fez de si mesmo o centro de seu ministério,
como um ímã atraindo os outros. Ele percebeu que
era somente um mensageiro enviado por Jeová dos
exércitos para conduzir as pessoas a Jesus Cristo e
exaltá-Lo como objetivo de seu ministério.
No versículo 16 João disse que batizava com
água, mas Aquele que viria, o Salvador-Homem,
batizaria no Espírito Santo e em fogo. Água simboliza
morte e sepultamento para o fim das pessoas
arrependidas; o Espírito Santo é o Espírito da vida e
ressurreição para fazer germinar as pessoas que
tiveram fim. Água era um sinal do ministério de
arrependimento de João; Espírito é um sinal do
ministério de vida do Salvador-Homem. João
sepultava as pessoas arrependidas na água de morte;
6
MENSAGEM SETE

o Salvador-Homem as ressuscitava para a


regeneração no Espírito mediante Sua vida de
ressurreição.
A água de morte, enfatizando e representando a
morte todo-inclusiva de Cristo, na qual Seus crentes
são batizados (Rm 6:3), sepultava não só as pessoas,
mas também seus pecados, o mundo, sua vida e
história passadas (assim como o mar Vermelho
sepultou Faraó e o exército egípcio para os filhos de
Israel- Êx 14:26-28; 1Co 10:2), e separou-os do
mundo que abandonou Deus e de sua respectiva
corrupção (assim como o dilúvio separou Noé e sua
família do mundo - 1Pe 3:20-21).
O Espírito Santo, no qual o Salvador-Homem
batiza os que creem Nele, é o Espírito de Cristo e o
Espírito de Deus (Rm 8:9). Desse modo, ser batizado
no Espírito Santo é corresponde a ser batizado em
Cristo (Gl 3:27; Rm 6:3), no Deus Triúno (Mt 28:19)
e até mesmo no Corpo de Cristo (1Co ~2:13), que é
unido a Cristo em um só Espírito (1Co 6:17). E por
meio do batismo nessa água e nesse Espírito que os
crentes em Cristo são regenerados e introduzidos no
reino de Deus, no âmbito da vida e governo divinos
(Jo 3:3, 5), para viver pela vida eterna de Deus em
Seu reino eterno.
De acordo com o contexto, “fogo” em 3:16-17 não
é o fogo de Atos 2:3, relacionado com o Espírito
Santo; antes, é o fogo do lago de fogo (Ap 20:15). A
palavra falada por João Batista aqui significa que, se
as pessoas de fato se arrependerem e crerem no
Senhor Jesus, Ele as batizará no Espírito Santo para
que tenham a vida eterna. Senão, o Senhor as
batizará com fogo, colocando-as no lago de fogo para
punição eterna. O batismo de João foi somente para
66 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

arrependimento, para conduzir as pessoas à fé no


Senhor. O batismo do Senhor é para vida eterna no
Espírito Santo, ou para a perdição eterna no fogo.
Nesses versículos, há três batismos: em água, no
Espírito Santo e em fogo. O batismo em água é para
arrependimento, o batismo no Espírito Santo é para
vida e o batismo em fogo é para perdição.
Lucas 3:1 7 indica que o Senhor ajuntará o trigo
em Seus celeiros, mas queimará a palha em fogo
inextinguível. Os que são tipificados pelo trigo têm
vida interior. O Senhor irá batizá-los no Espírito
Santo e os ajuntará em Seu “celeiro” no céu pelo
arrebatamento. Os que são tipificados pela palha,
como o joio em Mateus 13:24-30, não têm vida. O
Senhor os batizará com fogo, colocando-os no lago de
fogo. “Palha” em 3:17 refere-se aos judeus
impenitentes, ao passo que joio em Mateus 13 refere-
se aos cristãos nominais. O destino eterno de ambos
será o mesmo: a perdição no lago de fogo (Mt 13:40-
42).

Exortou e trouxe as boas-novas


Lucas 3:18 diz: “Assim, pois, com muitas outras
exortações ainda, anunciava o evangelho ao povo”. A
palavra grega traduzida por “anunciar o evangelho” é
euangelízo. Essa palavra significa evangelizar,
anunciar as boas-novas, proclamar ou trazer boas
novidades, pregar o evangelho. Trazer as boas-novas
do reino de Deus (4:43) é pregar o reino de Deus
como evangelho, as boas-novas.

O BATISMO E A UNÇÃO DO SALVADOR-


HOMEM
6
MENSAGEM SETE

Em 3:21-22, temos o batismo e a unção do


Salvador-Homem. “E aconteceu que, ao ser todo o
povo batizado, tendo sido Jesus também batizado, e
estando Ele a orar, o céu se abriu, e o Espírito Santo
desceu sobre Ele em forma corpórea como pomba; e
ouviu-se uma voz do céu: Tu és o Meu Filho amado,
em Ti Me comprazo”. O Senhor Jesus foi batizado
não só para cumprir a justiça de acordo com a
ordenação de Deus (Mt 3:16), mas também para
permitir que Ele mesmo fosse levado à morte e
ressurreição a fim de ministrar, não de maneira
natural, mas em ressurreição. Ao ser batizado, Ele
viveu e ministrou em ressurreição até mesmo antes
de morrer e ressuscitar, de fato, três anos e meio
mais tarde.
O fato de o Senhor ser batizado para cumprir a
justiça de Deus e ser levado à morte e ressurreição,
trouxe-Lhe três coisas: o céu aberto, a descida do
Espírito de Deus e o falar do Pai. Deve ocorrer o
mesmo conosco hoje em nossa experiência.
Lucas 3:22 diz que o Espírito Santo desceu sobre
o Salvador-Homem na forma corpórea como uma
pomba. Antes disso, o Senhor Jesus foi concebido e
nasceu do Espírito (Lc 1:35). Isso prova que Ele já
tinha o Espírito de Deus Nele para o nascimento.
Agora, para o ministério o Espírito de Deus desceu
sobre Ele. Isso foi o cumprimento de Isaías 61:1; 42:1
e Salmo 45:7, quanto a ungir o Salvador-Homem e
apresentá-Lo ao Seu povo.
Lucas 3:22 diz que o Espírito Santo desceu em
forma corpórea como pomba. Uma pomba é gentil e
seus olhos podem ver somente uma coisa de cada vez.
Assim, ela representa delicadeza e singeleza de visão
e propósito. Pelo fato de o Espírito de Deus descer
68 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

sobre Ele como pomba, o Senhor Jesus ministrou


com delicadeza e singeleza, enfocando somente a
vontade de Deus.
Em 3:22, é-nos dito que uma voz veio dos céus,
dizendo: “Tu és o Meu Filho amado, em Ti Me
comprazo”. Enquanto a descida do Espírito constitui
a unção de Cristo, o falar do Pai é um testemunho
para Ele como o Filho amado. Aqui temos um quadro
da Trindade divina: o Filho em pé na terra, o Espírito
descendo sobre o Filho e o Pai falando acerca do
Filho. Isso prova que o Pai, o Filho e o Espírito
existem simultaneamente. Isso visa o cumprimento
da economia de Deus.

ESTUDO-VIDA DE LUCAS

MENSAGEM OITO

A PREPARAÇÃO DO SALVADOR-HOMEM
EM SUA HUMANIDADE COM SUA
DIVINDADE
(6)
Leitura Bíblica: Lc 3:21-22

Nesta mensagem, vamos continuar a considerar


a investidura do Salvador-Homem (3:1-22). Em Sua
investidura no ministério, Ele foi apresentado por
João Batista (3:1-20), a seguir foi batizado (v. 21) e
ungido (v. 22). Precisamos prestar atenção especial
ao significado do batismo e unção do Salvador-
Homem.

O BATISMO DO SALVADOR-HOMEM
6
MENSAGEM OITO

Colocou a Si mesmo à parte para expressar


Deus
O fato de o Salvador-Homem ser batizado na
água por João Batista indica que até Ele precisava ser
batizado. O fato de o Senhor Jesus ser batizado
significa que Ele Se colocou à parte. Ele se permitiu
ser levado à morte para ministrar, não de forma
natural, mas em ressurreição. Por isso, como homem,
era necessário que Ele Se colocasse à parte a fim de
viver Deus.
Se quisermos ter compreensão adequada do
significado do batismo do Salvador-Homem,
precisamos considerar mais a fundo o que é o mais
alto padrão de moralidade. Esse padrão é, na verdade,
o resultado do homem criado por Deus (Gn 1), com
as virtudes humanas por Ele criadas, mais a árvore
da vida (Gn 2); uma árvore que representa Deus
como vida para nós com todos os atributos divinos.
Que é o mais alto padrão de moralidade? É o
resultado do homem criado por Deus mais a árvore
da vida.
No homem que Deus criou já havia as virtudes
humanas, que são segundo a imagem de Deus e de
acordo com a Sua semelhança. Em particular, essas
virtudes estão de acordo com o amor, a luz, a
santidade e a justiça de Deus. De acordo com Gênesis
2, o homem com suas virtudes humanas foi colocado
diante da árvore da vida, que representa Deus como
vida com Seus atributos divinos. Quando a árvore da
vida é acrescentada ao homem criado por Deus, o
resultado é um viver no mais alto padrão de
moralidade.
O Senhor Jesus foi batizado a fim de ter um viver
70 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

que expressasse os atributos divinos. Se virmos isso,


perceberemos que não só o homem caído precisa ser
posto de lado, mas até mesmo o homem criado por
Deus à Sua imagem precisa ser posto de lado para ter
um viver que expressa Deus. Por isso, não importa
que tipo de pessoa sejamos, se quisermos ter um
viver para expressar Deus, precisamos ser postos de
lado.
Embora o Senhor Jesus fosse um homem
completo e perfeito, Ele precisava ser posto de lado a
fim de expressar Deus em Seu viver. Ser batizado
simplesmente significa ser posto de lado, aniquilado
e sepultado de modo que não vivamos por nós
mesmos, mas por Deus. Se formos postos de lado
dessa forma, seremos capazes de ter um viver
humano com os atributos divinos expressados nas
virtudes humanas.

À semelhança da carne do pecado


O Senhor Jesus era um homem perfeito, um
homem com todas as virtudes humanas; contudo, à
semelhança da carne do pecado. É claro, Ele não
tinha a natureza da humanidade caída; entretanto
tinha a semelhança, a forma exterior ou aparência,
da humanidade caída. Em Romanos 8:3, Paulo diz
que Cristo veio em semelhança da carne do pecado.
Ele não tinha a natureza do pecado, mas tinha a
semelhança, a aparência, a forma, da carne do
pecado. Era necessário que essa semelhança da carne
pecaminosa fosse julgada, aniquilada e sepultada.
Esse foi outro motivo para o batismo do Salvador-
Homem.

O representante da humanidade
7
MENSAGEM OITO

Ao sair para ministrar, na idade de trinta anos, o


Senhor Jesus era o representante da humanidade em
dois aspectos. Por um lado, representava o homem
criado por Deus; por outro, em aparência,
representava o homem caído. Você já alguma vez
percebeu que, ao ser batizado por João, o Senhor
Jesus representava o homem criado por Deus e, na
aparência externa, o homem caído? Queremos
enfatizar que Ele não tinha a real natureza de homem
caído, mas a aparência. Por isso, na verdadeira
natureza, Ele representava o homem criado por Deus
e, em aparência, ou semelhança, mas não em
natureza, também representava o homem caído. Em
Sua natureza humana real, Ele representava o
homem criado por Deus; em aparência, Ele
representava o homem que se tornara caído.
Vimos que o homem caído certamente precisa
ser julgado, aniquilado e sepultado. Também vimos
que até mesmo o homem criado por Deus tem de ser
posto de lado a fim de ter um viver no qual as
virtudes humanas expressem os atributos divinos.
Por isso, até mesmo um homem criado por Deus,
bom, completo e perfeito, tem de ser posto de lado.
Esse é o motivo de o Senhor Jesus, como o Homem-
Deus, ter dito no evangelho de João que Ele nada
fazia por Si mesmo. Em João 5:19 Ele disse: “O Filho
nada pode fazer de Si mesmo, senão aquilo que vê o
Pai fazer”. Em 5:30 Ele disse novamente: “Eu nada
posso fazer de Mim mesmo”. Em 8:28 Ele declarou:
“Nada faço de Mim mesmo”.
A fim de expressar Deus em Seu viver humano,
no início de Seu ministério, o Senhor Se pôs de lado
pelo batismo. Ele era um homem perfeito e completo,
mas não vivia por Si mesmo. Pelo contrário, vivia por
72 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

Deus Pai, que estava Nele. Isso é crucial e todos


precisamos vê-lo.

Nossa necessidade de ser aniquilados e


sepultados
O primeiro aspecto da investidura do Senhor foi
Ele ser posto de lado. Esse princípio se aplica a todos
no serviço a Deus. Se quisermos entrar em
determinado serviço a Deus, precisamos ser postos
de lado; isto é, ser aniquilados e sepultados. Como
homens criados por Deus e como seres humanos
caídos, precisamos ser aniquilados. O primeiro
aspecto da investidura do Salvador-Homem no
ministério a Deus foi ser posto de lado. Também
precisamos ser aniquilados e sepultados nas águas da
morte.

A UNÇÃO DO SALVADOR-HOMEM
Logo após ser batizado, o Senhor Jesus foi
ungido por Deus “e o Espírito Santo desceu sobre Ele
em forma corpórea como pomba; e ouviu-se uma voz
do céu: Tu és o Meu Filho amado, em Ti me
comprazo”. Depois que João Batista batizou o Senhor
Jesus, Deus Pai enviou Seu Espírito Santo sobre esse
homem batizado. Assim, o Espírito de Deus desceu
sobre um homem aniquilado e sepultado para
investi-Lo em Seu ministério vivo para Deus.

O Espírito Santo em essência e em poder


A concepção de Jesus pelo Espírito Santo em
1:35 se deu no aspecto essencial e se relaciona com
Seu ser divino, Sua pessoa divina. A essência do
elemento divino do Espírito Santo na concepção de
7
MENSAGEM OITO

Jesus era imutável e irremovível. Todavia a descida


do Espírito Santo sobre Ele aqui se deu no aspecto
econômico e se relaciona com Seu ministério, Sua
obra. O poder do Espírito Santo para o ministério de
Jesus (4:1, 14, 18; Mt 12:28) podia ser removido Dele,
dependendo da necessidade. Foi no aspecto
econômico que Deus O desamparou e deixou,
enquanto Ele carregava os pecados dos pecadores ao
morrer por eles na cruz (Mt 27:46). O Espírito Santo
em poder desceu sobre Jesus aqui, mas Ele já O
possuía em essência desde o nascimento. Enquanto o
Espírito Santo em poder descia sobre Jesus, Ele
subsistia com o Espírito Santo em essência.

O Espírito Santo em relação à Pessoa e obra


do Senhor
Neste ponto, gostaria de dizer uma palavra
adicional sobre a Pessoa e obra do Senhor Jesus. A
Pessoa do Senhor é o Seu ser ou existência e Sua obra
é o Seu ministério ou ofício. Por isso, Ele tem o
aspecto da Pessoa e o do ministério. Para Sua Pessoa,
Ele tinha o Espírito Santo como essência intrínseca
desde a concepção: é o Espírito para Seu ser e
existência. Ele foi constituído do Espírito Santo como
a essência intrínseca de Seu ser quando foi concebido
no ventre da virgem Maria. Assim, Ele nasceu com o
Espírito Santo como Sua essência. Em outras
palavras, nasceu com o Espírito essencial para Sua
Pessoa, ser e existência.
Por trinta anos, o Senhor Jesus viveu na terra
pelo Espírito Santo como a essência intrínseca de Sua
pessoa. Então, aos trinta anos, Ele saiu para
trabalhar, ministrar, executar Seu ofício. Para Seu
ministério, Ele precisava do Espírito Santo de
74 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

maneira adicional, não essencial, mas


economicamente. Depois de ser batizado, o Espírito
Santo desceu sobre Ele em forma corpórea como
pomba, ou seja, desceu sobre Ele economicamente
para levar a cabo a economia de Deus mediante Seu
ministério.

Dois aspectos do Espírito Santo


Com o Senhor Jesus
É muito importante ver esses dois aspectos do
Espírito Santo: o essencial e o econômico. O aspecto
essencial é para a Pessoa, o ser, a existência do
Senhor Jesus. O aspecto econômico é para Sua obra,
ministério e ofício.
Posso testificar que por mais de cinquênta anos
tenho estudado a Bíblia com o objetivo de
compreender esses aspectos do Espírito Santo. Em
1934, deram-me a responsabilidade de editar um
jornal chamado O Cristão. Para aquele Jornal,
escrevi alguns artigos sobre os dois aspectos do
Espírito Santo: o interior para vida e o exterior para
obra. Porém somente em anos mais recentes vi com
clareza que o aspecto interior do Espírito Santo, que
podemos chamar de Seu habitar interior, é questão
do Espírito essencial, o Espírito para a essência, ser,
existência, e que Seu aspecto exterior, o Espírito
vindo sobre nós é o Espírito econômico para a obra,
para o serviço. O aspecto exterior não é questão de
essência para existência, mas de economia
relacionada com a obra e ministério que executamos
para Deus e o oficio que desempenhamos.

Com os crentes
7
MENSAGEM OITO

Em princípio, os dois aspectos do Espírito Santo


são iguais conosco, como foram com o Senhor Jesus.
Com Ele havia o aspecto essencial para Sua Pessoa e
o econômico para Seu ministério. Conosco há
também o aspecto essencial do Espírito para nossa
existência como crentes regenerados, e Seu aspecto
exterior para a obra cristã.
Por muitos anos não fui capaz de compreender
ou explicar adequadamente por que o Senhor Jesus,
que foi concebido do Espírito Santo e por Ele viveu
trinta anos, ainda precisava que o Espírito descesse
sobre Ele no batismo. Quando foi batizado, Ele já não
tinha o Espírito em Si? Certamente, sim. Por que,
então, o Espírito desceu sobre Ele? Isso
definitivamente não indica que há dois Espíritos, um
que habitava no Senhor Jesus e outro que desceu
sobre Ele. Uma vez que há somente um Espírito (Ef
4:4), como poderia Ele habitar no Senhor Jesus e
descer sobre Ele? A resposta a essa pergunta está na
compreensão de que o único Espírito tem dois
aspectos: o essencial e o econômico.

Para existência e para ministério


Em anos de estudo, não só da Bíblia, mas
também de outros escritos, fomos iluminados para
ver os aspectos essencial e econômico do Espírito
Santo. Por isso, temos confiança em dizer que o
Espírito que habita em nós é essencial; trata-se de
essência para nosso ser, para nossa existência. Seu
aspecto exterior é econômico; visa ao cumprimento
de um oficio e à execução do ministério que cumpre a
economia de Deus. O aspecto econômico não visa à
existência, o ser; antes, visa à obra, ao ministério.
Louvado seja o Senhor por esses dois aspectos do
76 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

Espírito Santo!
Em Lucas 3:21-22, vemos que o Senhor Jesus,
como o Salvador-Homem foi investido em Seu ofício
e ministério em duas etapas: no batismo em água e
na unção do Espírito Santo. Depois que o Senhor
Jesus foi batizado por João Batista, Deus Pai enviou
o Espírito Santo sobre Ele economicamente para Seu
ministério. Foi dessa forma que o Salvador-Homem
foi investido.

ESTUDO-VIDA DE LUCAS

MENSAGEM NOVE

A PREPARAÇÃO DO SALVADOR-HOMEM
EM SUA HUMANIDADE COM SUA
DIVINDADE (7)
Leitura Bíblica: Lc 3:23-4:13

N esta mensagem vamos considerar a posição e a


prova do Salvador-Homem (3:23-4:13).

SUA POSIÇÃO
Em 3:23-38, vemos a posição do Salvador-
Homem. O versículo 23 diz: “Tinha Jesus cerca de
trinta anos ao começar o Seu ministério. Era, como
se cuidava, filho de José, filho de Eli”. Trinta anos'
era a idade plena para o serviço de Deus (Nm
4:3,35,39,43,47).

Quatro aspectos do
Cristo todo-inclusivo
7
MENSAGEM NOVE

O registro de João, o evangelho do Salvador-


Deus, começa com Deus e chega ao homem (Jo 1:1,
14). Ele enfatiza Sua divindade a fim de atestar Sua
posição divino-humana. A genealogia em Lucas, o
evangelho do Salvador-Homem, começa com o
homem e remonta a Deus (vs. 23, 38). Esse
evangelho enfatiza Sua humanidade para afirmar Sua
posição humano-divina.
Cristo, o centro maravilhoso da Bíblia, é todo-
inclusivo, com muitos aspectos. O início do Novo
Testamento apresenta quatro biografias para retratar
os quatro aspectos principais desse Cristo todo-
inclusivo. Mateus testifica que Ele é o Rei, o Cristo de
Deus de acordo com as profecias do Antigo
Testamento, Aquele que traz o reino dos céus à terra.
Marcos apresenta-O como Servo do Senhor, Aquele
que labora fielmente para Deus. A narrativa de
Marcos é mais simples porque um servo não precisa
de registro detalhado. Lucas apresenta um quadro
pleno de Cristo como o único homem adequado e
normal que já viveu na terra, e assim, o Salvador da
humanidade. João desvenda-O como o Filho de Deus,
o próprio Deus, para ser vida para os Seus. Entre os
quatro evangelhos, Mateus e Lucas apresentam
genealogias; Marcos e João não. Para testificar que
Jesus é o Rei, o Cristo de Deus profetizado no Antigo
Testamento, Mateus precisa mostrar-nos os
antecedentes e a posição desse Rei, provando que Ele
é o sucessor apropriado ao trono de Davi. Para
provar que Jesus é um homem adequado e normal,
Lucas precisa mostrar Suas gerações, atestando que
Ele está qualificado para ser o Salvador da
humanidade. Para o registro de um servo, Marcos
não precisa contar-nos Sua origem. Para desvendar
78 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

que Jesus é o próprio Deus, João também não


precisa dar-nos uma genealogia humana. Antes, João
declara que como o Verbo de Deus, Ele é o próprio
Deus no princípio.

Duas genealogias
Em 3:23-38 a genealogia do Salvador-Homem
remonta de Jesus a Adão. O versículo 38 diz: “Filho
de Erros, filho de Sete, filho de Adão, filho de Deus”.
O reino, do qual Cristo é o Rei, é composto dos
descendentes de Abraão, que incluem os da carne e
os da fé. Por esse motivo, a genealogia de Cristo em
Mateus começa com Abraão, pai da raça chamada, e
não com Adão, pai da raça criada. O reino de Deus
não é edificado com a raça criada de Adão, mas com a
raça chamada de Abraão, que inclui tanto os
verdadeiros israelitas (Rm 9:6-8) como os crentes em
Cristo (Gl 3:7, 9, 29). A fim de provar que Jesus é um
homem típico para ser o Salvador da humanidade, ao
citar Sua genealogia, Lucas remonta até Adão, a
primeira geração da humanidade.
A frase “filho de Deus” usada com respeito a
Adão, em Lucas 3:38, não quer dizer que ele nasceu
de Deus e possuía a vida divina, assim como “filho de
José” não quer dizer que Jesus nasceu de José, mas
que se supunha ser filho de José (v. 23). Adão foi
criado por Deus (Gn 5:1-2), e Deus foi sua origem.
Com base nisso, pode-se dizer que ele era filho de
Deus, assim como os poetas pagãos consideravam
toda a humanidade como descendência de Deus (At
17:28). A humanidade foi somente criada por Deus, e
não regenerada por Ele. Isso é absoluta e
intrinsecamente diferente de os crentes em Cristo
serem os filhos de Deus, os quais nasceram de Deus,
7
MENSAGEM NOVE

foram por Ele regenerados e possuem Sua vida e


natureza (101:12-13; 3:16; 2Pe 1:4).

Deus, Adão, Abraão e Jesus


De Jesus (Lc 3:23) remontando até Deus, são
setenta e sete gerações, nas quais se vê a história da
criação de Deus, da queda do homem, da promessa
de Deus e da salvação do homem: de Deus, o homem
foi criado (v. 38; Gn 1:26-27; 2:7); em Adão, ele caiu
(v. 38; Gn 3); por meio de Abraão, ele recebeu a
promessa divina (v. 34; Gn 12:1-3); e, em Jesus, ele é
salvo (v. 23; 2:10-11).
Precisamos ficar impressionados com o fato de
que a genealogia do Senhor Jesus em Mateus começa
com Abraão e chega a Cristo, ao passo que a
genealogia em Lucas remonta de Jesus a Deus. Na
genealogia de Lucas, quatro nomes são
especialmente notáveis: Deus, Adão, Abraão e Jesus.
Fomos criados por Deus, caímos em Adão,
recebemos a promessa de Deus em Abraão e fomos
salvos em Jesus, que é Cristo. Assim, fomos criados,
caímos, recebemos a promessa e fomos salvos.
Podemos louvar o Senhor por Deus, Abraão e Jesus.
Depois de criados por Deus e caídos em Adão,
recebemos a promessa da salvação de Deus em
Abraão. Então, em Jesus, que é Cristo, fomos salvos.
Eis um resumo da genealogia do Salvador-Homem.
Nosso Salvador-Homem não veio salvar-nos
meramente de forma objetiva; antes, veio salvar-nos,
unindo-Se a nós. Nele temos Deus unindo-Se ao
homem. Essa genealogia começa com um homem e
termina com Deus. Quão maravilhoso! Visto que a
genealogia do Senhor começa com o homem e
termina com Deus, passando por Abraão e Adão, ela
80 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

é de fato única.
Podemos dizer que a genealogia e a posição do
Senhor são também as nossas. Fomos criados por
Deus, caímos em Adão, recebemos a promessa em
Abraão e fomos salvos em Jesus, o Cristo. O Senhor
estava em Deus, em Adão e em Abraão, e em nós
também, e agora estamos em Jesus, nosso Salvador-
Homem.

SUA PROVA
Guiado pelo Espírito
Em 4:1-13 temos a prova do Salvador-Homem.
Lucas 4:1 diz: “Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou
do Jordão, e era guiado pelo Espírito no deserto,
sendo tentado por quarenta dias pelo diabo”. Mateus
4:1 nos diz que o Senhor Jesus foi guiado pelo
Espírito deserto adentro para ser tentado. Depois
batizado em água e ungido com o Espírito de Deus,
Jesus, como homem, moveu-se segundo a orientação
do Espírito. Primeiro de tudo, o Espírito guiou o
Salvador-Homem ungido para ser tentado pelo diabo.
Essa tentação foi para provar que Ele estava
qualificado para ser o Salvador-Homem.
A palavra grega traduzida por “diabo” é diábolos,
que significa acusador, caluniador (Ap 12:9-10). O
diabo, que é Satanás, nos acusa diante de Deus e nos
calunia perante os homens.
Em Mateus 6:13 o Senhor Jesus ensinou os
discípulos a orar: “Não nos leves a entrar tentação”
(lit.). O Senhor, entretanto, foi conduzido pelo
Espírito Santo ao deserto a fim de ser tentado pelo
diabo. Ele era forte e pôde resistir à tentação. Nós,
pelo contrário, não somos de forma alguma capazes
de resistir. Não devemos ser orgulhosos, pensando
8
MENSAGEM NOVE

que, já que temos o Espírito essencial e econômico,


somos agora capazes de resistir às tentações. Esse
conceito indica que não nos conhecemos.
O Senhor Jesus é o único que consegue resistir à
tentação do inimigo de Deus. Quando estava na terra,
Ele era perfeito e forte. Por isso, o Espírito Santo, que
é Deus alcançando o homem, guiou esse homem
perfeito à tentação a fim de derrotar o Seu inimigo.
Mediante a prova do Salvador-Homem, Deus foi
capaz de mostrar ao inimigo, Satanás, o diabo, que
há um homem que consegue resistir à tentação.
O Espírito Santo nunca nos levará a ser tentados
pelo diabo porque não somos capazes de resistir à
tentação de Satanás. Embora tenhamos sido
regenerados e, até certo ponto, santificados e
transformados, não somos capazes de resistir à
tentação do maligno. Por isso, precisamos orar: “O
Pai, não me leves a cair em tentação”. Não importa
quão forte nos sintamos, na verdade somos fracos e
não conseguimos resistir à tentação de Satanás. O
único no universo, com humanidade, que consegue
resistir à tentação do inimigo de Deus é o Senhor
Jesus, nosso Salvador-Homem.

Posicionou-Se como homem diante do diabo


De acordo com Lucas 4:3, o diabo disse ao
Senhor Jesus:
“Se és Filho de Deus, dize a esta pedra que se
transforme em pão”. Jesus replicou: “Está escrito:
Não só de pão viverá o homem”. O recém-ungido
Salvador-Homem não havia comido nada por
quarenta dias (vs. 1-2). Embora estivesse na posição
de homem, Ele também era o Filho de Deus, como
declarara Deus Pai em Seu batismo (3:21-22). Para
82 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

levar a cabo Seu ministério, o Senhor precisava


derrotar o inimigo de Deus, o diabo, Satanás. Isso Ele
teve de fazer como homem. Assim, Ele tomou a
posição de homem para confrontar o inimigo de Deus.
O diabo, sabendo disso, tentou-O a abandonar a
posição de homem e assumir a posição de Filho de
Deus. Quarenta dias antes, Deus Pai declarara dos
céus que Jesus era Seu Filho amado. O tentador sutil
tomou essa declaração como base para tentá-Lo. Se
assumisse a posição de Filho de Deus diante do
inimigo, o Senhor perderia a base para derrotá-lo.
Fazer uma pedra transformar-se em pão com
certeza seria um milagre. Isso foi proposto pelo diabo
como tentação. Muitas vezes, a ideia de ter um
milagre em certas situações é uma tentação do diabo.
A tentação do diabo ao primeiro homem, Adão, dizia
respeito a comer (Gn 3:1-6). Agora, sua tentação ao
segundo homem, Cristo, também dizia respeito a isso.
Comer é uma armadilha usada pelo diabo para
enganar o homem.
O diabo tentou o Salvador-Homem a assumir a
posição de Filho de Deus, mas o Senhor Jesus
respondeu dizendo. “Não só de pão viverá o homem”.
Isso indica que Ele permaneceu na posição de
homem para lidar com o inimigo. Os demônios, ou
espíritos malignos, se dirigiam a Jesus como o Filho
de Deus (Mt 8:29), mas não confessavam que Jesus
Cristo tinha vindo em carne (1Jo 4:3), porque, ao
confessá-Lo como homem, admitiriam que foram
derrotados. Embora os demônios confessassem Jesus
como Filho de Deus, o diabo não queria que as
pessoas cressem que Ele o é, porque, ao crerem,
seriam salvas (Jo 20:31).
8
MENSAGEM NOVE

Adorar e servir a Deus somente


Lucas 4:5-7 diz: “E, levando-O para o alto,
mostrou- Lhe num momento todos os reinos da terra.
Disse-Lhe o diabo: A Ti darei toda esta autoridade e a
glória destes reinos, porque a mim me foi entregue, e
a dou a quem eu quiser. Portanto, se Te prostrares
diante de mim, será toda Tua”. O diabo disse ao
Senhor Jesus que os reinos da terra habitada lhe
haviam sido entregues. Isso deve ter ocorrido na era
pré-adâmica. A palavra do diabo aqui indica que,
quando Deus ungiu o arcanjo para ser o cabeça da
era pré-adâmica (Ez 28:13-14), a autoridade e glória
do reino da terra lhe devem ter sido dadas. O que o
Senhor disse em João 12:31Confirma isso. Após ter-
se rebelado contra Deus e ter-se tornado Seu inimigo,
Satanás foi julgado por Deus (Is 14:12-15), mas a
execução plena da sentença só se completará no final
do milênio (Ap 20:7-10). Assim, até lá, ele tem
autoridade sobre os reinos da terra. Ele tentou o
Senhor Jesus, oferecendo-Lhe essa autoridade e sua
glória. Sua oferta maligna foi rejeitada pelo Cristo de
Deus, mas será aceita pelo anticristo, o homem da
iniquidade (2Ts 2:3-4), no final desta era (Ap 13:4),
para executar a estratégia maligna de Satanás contra
Deus.
Em Lucas 4:8, temos a resposta do Senhor à
tentação do diabo: “Está escrito: Ao Senhor teu Deus
adorarás, e só a Ele servirás”. O Salvador-Homem
derrotou o diabo posicionando-se na base de homem
para adorar e servir a Deus somente. Adorar ou servir
qualquer outro além de Deus visando algum ganho é
sempre a tentação do diabo para garantir adoração.

Recusou-se a demonstrar ser o Filho de Deus


84 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

Em Lucas 4:9-11, temos a terceira tentação do


diabo ao Salvador-Homem: “Então O levou a
Jerusalém e O colocou sobre o pináculo do templo e
Lhe disse: Se és Filho de Deus, atira-Te daqui abaixo;
porque está escrito: Aos Seus anjos ordenará a Teu
respeito que Te guardem, e eles Te susterão nas mãos,
para não tropeçares em alguma pedra”. Jesus, porém,
respondeu: “Dito está: Não tentarás o Senhor teu
Deus” (v. 12).
Essa tentação relaciona-se com religião. O diabo
tentou o Salvador-Homem a demonstrar, no pináculo
do templo, que era o Filho de Deus, mas não houve
necessidade de o Senhor fazer isso. Isso foi uma
tentação para mostrar que, como Filho de Deus, Ele
era capaz de agir miraculosamente. O conceito de
fazer coisas miraculosas na religião é uma tentação
do diabo.

Uma indicação do mais alto padrão de


moralidade
Em Lucas, a sequência das tentações é diferente
da de Mateus, pois se relaciona com o mais alto
padrão de moralidade. Além disso, em Lucas, a
tentação de adorar o diabo em troca dos reinos da
terra é dada em mais detalhes. Isso também indica o
mais alto padrão de moralidade.
Suponha que lhe fossem oferecidos todos os
reinos da terra, com sua autoridade e glória. Que
você faria? Não creio que nenhum de nós seria capaz
de resistir a essa tentação. Entretanto o Salvador-
Homem, que viveu no mais alto padrão de
moralidade, não pôde ser seduzido ou sensibilizado
por coisa alguma. Somente uma vida no mais alto
padrão de moralidade, isto é, uma vida na qual os
8
MENSAGEM NOVE

atributos divinos são expressos nas virtudes


humanas, pode resistir a tal tentação. Menciono isso
para enfatizar outra vez que o registro de Lucas
sempre enfatiza o mais alto padrão de moralidade.

O diabo deixou o Salvador-Homem


Em 4:1-13 o Salvador-Homem resistiu ao
tentador e ganhou a vitória. O tentador foi derrotado
e O deixou. Quanto a isso, 4:13 diz: “Tendo o diabo
acabado toda sorte de tentação, apartou-se Dele até
momento oportuno”. Isso indica que o diabo buscaria
outra ocasião e voltaria a tentá-Lo repetidas vezes,
sempre que achasse oportuno (Mt 16:22- 23; Jo
8:40; Lc 22:53; Jo 6:70-71). O diabo se apartou do
Senhor Jesus, mas não O deixou permanentemente;
pelo contrário, apartou-se até ocasião oportuna.

ESTUDO-VIDA DE LUCAS

MENSAGEM DEZ

A PREPARAÇÃO DO SALVADOR-HOMEM
EM SUA HUMANIDADE COM SUA
DIVINDADE (8)

Leitura Bíblica: Lc 3:21-22; 4:1-13

ALGUNS DOS ENVOLVIDOS NA


PREPARAÇÃO DO
SALVADOR-HOMEM
O arcanjo Gabriel
Nos primeiros três capítulos e meio de Lucas,
vemos que dois anjos e muitos seres humanos foram
envolvidos na preparação do Salvador-Homem. Em
86 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

1:30-35 temos a profecia do arcanjo Gabriel, que veio


a Maria e disse-lhe que Deus tencionava que ela
concebesse o Salvador-Homem. Naquela profecia,
Gabriel falou de quatro coisas acerca do Salvador-
homem que viria. Primeiro, disse que Ele seria
chamado Jesus (1:31), que quer dizer Jeová Salvador,
ou a salvação de Jeová. Segundo, indicou que o
Salvador-Homem que viria seria chamado de Filho
do Altíssimo (v. 32), título que se refere à Sua
deidade. Terceiro, disse:
“O Senhor Deus Lhe dará o trono de Davi, Seu pai” (v.
32). Aqui vemos que, em Sua humanidade, o
Salvador que viria seria um descendente de Davi.
Quarto, referiu-se ao Salvador que viria como “o ente
santo”, que nasceria e seria chamado Filho de Deus
(v. 35). Por isso, segundo a palavra de Gabriel, o
Salvador-Homem é Jesus, o Filho de Altíssimo, um
descendente de Davi e o ente santo.

Isabel
Em 1:42-43, temos parte da bênção de Isabel,
proferida mediante o Espírito Santo. Nesse trecho,
Isabel diz: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito
o fruto do teu ventre! E de onde me provém isto, que
venha a mim a mãe do meu Senhor?”. Isabel fala do
Salvador-Homem como fruto do ventre de Maria e
como Senhor. O “fruto” se refere à Sua humanidade,
e “Senhor” se refere à Sua deidade.

Zacarias
Na profecia de Zacarias, pai de João Batista,
temos três tópicos concernentes ao Salvador-Homem.
Em 1:69, Ele O cita como o “chifre da salvação na
8
MENSAGEM DEZ

casa de Davi”. Então, em 1:78, diz: “Nos visitará do


alto o sol nascente”. No versículo 76, ele também se
refere ao Salvador-Homem como Senhor. a chifre da
salvação se refere à humanidade do Senhor; o sol
nascente do alto denota Sua divindade. Zacarias
sabia que seu filho, João, prepararia o caminho para
o Senhor.

Outro anjo
Em 2:11, temos o anúncio do anjo no nascimento
do Salvador-Homem: “Pois hoje vos nasceu, na
cidade de Davi, um Salvador, que é o Cristo, o
Senhor”. Nesse anúncio o Salvador-Homem é
mencionado como Salvador, Cristo e Senhor.

Simeão
Mais aspectos do Salvador-Homem são
revelados na adoração que Simeão Lhe rendeu. Em
2:25, 30-32 e 34, vemos que o Salvador-Homem é
revelado como consolação de Israel, salvação de Deus
a todos os povos, luz para os gentios, glória de Israel,
teste para Israel e sinal de contradição.

Ana
Por fim, temos a adoração de Ana, em que há a
menção do Salvador-Homem como a redenção do
povo de Deus (2:38).

Tópicos relacionados com o Salvador-Homem


Nas palavras proferidas pelo arcanjo Gabriel,
Isabel, Zacarias, o anjo que anunciou o nascimento
do Senhor, Simeão e Ana, temos dezessete tópicos
relacionados com o Salvador-Homem: Jesus, o Filho
88 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

do Altíssimo, o descendente de Davi, o ente santo, o


fruto do ventre, o Senhor, o chifre da salvação, o sol
nascente, o Salvador, Cristo, a consolação de Israel, a
salvação de Deus, luz para os gentios, a glória de
Israel, teste para Israel, sinal de contradição e a
redenção do povo de Deus. Quando consideramos
todos esses aspectos do Salvador-Homem, vemos que
Ele não é somente Deus e homem, mas também tudo
o que Deus tencionava dar aos Seus e fazer por eles.
Se lermos cuidadosamente os primeiros três
capítulos e meio de Lucas, veremos que a preparação
do Salvador-Homem envolveu dois anjos e pelo
menos cinco seres humanos. O primeiro dos anjos foi
o arcanjo Gabriel. Gabriel é conhecido por trazer
boas-novas ao povo de Deus. Ele trouxe as boas-
novas não só em Lucas, mas também em Daniel,
quando falou sobre as setenta semanas (Dn 9:24- 27).
a segundo foi o anjo que fez o anúncio aos pastores
sobre o nascimento do Salvador-Homem. É possível
que fosse também Gabriel; mas creio que foi outro
anjo.

José
As cinco pessoas envolvidas na preparação do
Salvador-Homem foram: Zacarias, Maria, Isabel,
Simeão e Ana. Podemos também mencionar José,
que desempenhou parte da preparação do Salvador-
Homem. Foi ele quem trouxe Maria de Nazaré a
Belém.
Todas essas pessoas foram justas e santas,
vivendo de acordo com a Palavra escrita de Deus.
Maria e José eram jovens e Zacarias, Isabel, Simeão e
Ana eram idosos. Aqui vemos que várias pessoas
8
MENSAGEM DEZ

foram envolvidas na preparação do Salvador-Homem.


Encorajo-o a estudar esses três capítulos e meio de
Lucas novamente e atentar para os diferentes
aspectos do Salvador-Homem revelados neles.

A INTENÇÃO DE DEUS EM TER UM


HOMEM-DEUS
O homem criado por Deus
No evangelho de Lucas vemos o homem que
Deus tencionava ter em Gênesis 1-2. Isso quer dizer
que Sua intenção era ter um homem-Deus. Em
Gênesis 1 temos o homem criado por Deus à Sua
imagem, o que significa que foi criado segundo os
atributos divinos. Deus é amor e luz, e também santo
e justo. Amor, luz, santidade e justiça são atributos
divinos, segundo os quais Deus criou o homem.
Contudo o homem criado por Deus em Gênesis 1,
tinha apenas a imagem divina; não tinha Deus nele.
Assim, era um mero homem criado por Deus; não era
ainda um homem-Deus.

A árvore da vida
Visto que Deus queria que o homem que Ele
criara se tornasse um homem-Deus, depois de criá-lo
Ele o colocou diante da árvore da vida, que denota
Deus. Sua intenção era que o homem que Ele criara
O recebesse, uma vez que Ele tipifica a árvore da vida,
e dessa forma se tornasse um homem-Deus.
Em Gênesis 1 vemos o homem que Deus criara.
Em Gênesis 2 há a indicação de que Deus queria que
esse homem O recebesse, usufruindo o fruto da
árvore da vida. Porém o homem fracassou ao não
tomar da árvore da vida, por isso permaneceu apenas
90 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

um homem criado por Deus.

O fracasso do homem criado por Deus


Em Gênesis 3 o inimigo, o tentador, entrou para
tentar o homem que Deus havia criado. Visto que o
homem não se tornara um homem-Deus nem tinha
de fato Deus em si ele não foi capaz de resistir à
tentação do inimigo. O motivo de Adão não poder
resistir à tentação foi que ele era um mero homem
criado por Deus, e não um homem-Deus. É muito
importante que vejamos isso.

O homem equipado por Deus e com Deus


Em Gênesis 1-2 temos um homem criado por
Deus, incapaz de resistir à tentação do inimigo de
Deus. Se fôssemos Adão e soubéssemos o que
sabemos hoje, pode ser que tivéssemos usufruído da
árvore da vida imediatamente, a fim de nos equipar
com o Deus Triúno. O próprio Deus é o equipamento
do homem. Uma vez equipados com o Deus Triúno,
usufruindo da árvore da vida, tornamo-nos homens-
Deus.
Como homem-Deus, o Senhor Jesus não esperou
o tentador chegar a Ele; antes, guiado pelo Espírito,
saiu a seu encontro. Em Gênesis 3 o tentador foi até o
homem desequipado, mas em Lucas 4 o homem
equipado saiu ao encontro do tentador.
Em Gênesis 3 o homem criado por Deus não
estava equipado por Deus e com Deus. Pelo contrário,
era um homem sem Deus como seu equipamento.
Neste ponto, quero citar -lhes a palavra de Paulo
sobre a armadura de Deus: “Revesti-vos de toda a
armadura de Deus, para poderdes ficar firmes contra
9
MENSAGEM DEZ

as ciladas do diabo” (Ef 6:11). Revestir a armadura de


Deus simplesmente significa revestir-se de Deus
como nossa armadura, isto é, equipar-nos com Deus.
Em Efésios 6 a igreja como novo homem corporativo
é equipada com Deus como sua armadura. Cada peça
da armadura é um atributo divino.
Em contraste com Adão, que não se equipou com
Deus, o Senhor Jesus nasceu Homem-Deus. Uma vez
concebido do Espírito Santo, Ele tinha a essência de
Deus. Em Seu ser, Ele tinha a essência divina como
Seu elemento, na qual viveu por trinta anos. Ele foi
concebido dela, nasceu dela, cresceu nela e viveu por
ela. Quão maravilhoso! O Senhor não era apenas
cheio de Deus; Ele era Deus. Visto que era Deus no
homem, Ele era o Homem-Deus.
Quando saiu para ministrar na idade de trinta
anos, o Senhor Jesus Se negou e foi batizado. Quando
Adão estava no jardim, ele não se negou. Ele não se
colocou de lado. Esse foi um motivo de ter falhado.
Quando o Senhor Jesus Se colocou de lado no
batismo, o Espírito econômico desceu sobre Ele para
ungi-Lo. Como resultado, Ele era essencialmente de
Deus e economicamente para Deus. Era alguém
saturado do próprio Deus em essência e ungido com
Deus economicamente. Por dentro Ele tinha Deus
como Seu elemento intrínseco e, por fora, foi coberto
com Deus como Seu poder. O Salvador-Homem era
cheio de Deus no interior e revestido de Deus no
exterior. Como tal, estava equipado e pronto para
lutar com o inimigo de Deus e derrotá-la.
Em vez de aguardar que o inimigo fosse a Ele, o
Senhor Jesus, guiado pelo Espírito, foi ao o inimigo.
O inimigo foi ao jardim atacar Adão, mas Jesus foi ao
deserto atacar o inimigo. Quando foi guiado pelo
92 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

Espírito ao deserto, Ele estava cheio de Deus


essencial e economicamente. Assim, estava pronto e
equipado para lidar com o inimigo. Ele foi para o
deserto como guerreiro e no mais alto padrão de
moralidade derrotou Satanás.
Quando foi ao deserto para ser tentado pelo
diabo, o Senhor era o tipo mais elevado de homem.
Não só era um homem criado por Deus, mas também
equipado por Deus. Ele era um Homem-Deus,
alguém no mais alto padrão de moralidade.

Alguém no mais alto padrão de moralidade


Essa moralidade é ter as virtudes humanas
fortaleci das e enriquecidas pelos atributos divinos.
Quando as virtudes humanas criadas por Deus são
fortalecidas e enriqueci das pelos atributos divinos,
isso constitui o mais alto padrão de moralidade. Deus
é expresso no viver que está de acordo com o mais
alto padrão de moralidade. Se compreendermos isso,
compreenderemos o princípio básico e crucial
seguido por Lucas ao escrever seu evangelho.
Viver no mais alto padrão de moralidade é o
princípio subjacente em Lucas. Nesse evangelho
vemos o Senhor Jesus como o homem equipado por
Deus vivendo para expressá-Lo. Visto que expressava
Deus, Ele viveu no mais alto padrão de moralidade.
O mais alto padrão de moralidade revelado em
Lucas é muito mais elevado do que a moralidade
ensinada por qualquer filosofia. Confúcio, por
exemplo, ensinava moralidade, mas o que ensinava
não era o mais alto padrão. Pelo contrário, no
máximo, tratava-se de desenvolver as virtudes
humanas. Não houve fortalecimento ou
9
MENSAGEM DEZ

enriquecimento das virtudes humanas com os


atributos divinos.
Para fortalecer e enriquecer as virtudes humanas
com os atributos divinos, precisamos ter Deus em
nós essencialmente e sobre nós economicamente.
Isso quer dizer que precisamos nascer Dele a fim de
possuir a essência divina e ser ungidos com Ele para
tê-Lo como nosso poder. Quando nascemos de Deus
para ter Sua essência e fomos ungidos por Ele para
tê-Lo como nosso poder, tomamo-nos homens-Deus,
prontos para viver no mais alto padrão de
moralidade. Nesse viver as virtudes humanas são
fortaleci das e enriquecidas pelos atributos divinos.

Qualificado para realizar Seu ministério dado


por Deus
Em 4:1-13 vemos que o Salvador-Homem
totalmente equipado foi guiado pelo Espírito ao
deserto onde enfrentou o tentador e o derrotou. Sua
vitória O qualificou para realizar Seu ministério dado
por Deus. Por esse motivo, a partir de 4:14 Ele
começou a ministrar. A preparação do Salvador-
Homem, portanto, foi completada ao ser Ele testado.
Depois de obter a vitória sobre a tentação do diabo,
Ele estava plenamente preparado e equipado para
realizar o ministério que Deus Lhe entregara.

ESTUDO-VIDA DE LUCAS

MENSAGEM ONZE

O MINISTÉRIO DO SALVADOR-HOMEM
EM SUAS VIRTUDES HUMANAS
COM SEUS ATRIBUTOS DIVINOS NA
94 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

GALILEIA
(1)
Leitura Bíblica: Lc 4:14-44

Nesta mensagem vamos considerar 4:14-44.


Esses versículos dão início à terceira seção de Lucas.
A primeira seção é a introdução (1:1-4) e a segunda
diz respeito à preparação do Salvador-Homem em
Sua humanidade com Sua divindade (1:5-4:13). A
terceira seção, que é bem longa, aborda o ministério
do Salvador-Homem em Suas virtudes humanas com
Seus atributos divinos (4:14-19:27). Em 4:14-9:50,
temos Seu ministério na Galileia e, em 9:51-19:27,
Seu ministério da Galileia até Jerusalém.

AS VIRTUDES HUMANAS
E OS ATRIBUTOS DIVINOS DO SALVADOR-
HOMEM
O ministério do Salvador-Homem baseava-se em
Suas virtudes humanas com Seus atributos divinos.
Vimos que Sua preparação baseava-se em Sua
humanidade com Sua divindade. Sua concepção,
nascimento e crescimento estavam todos em Sua
humanidade com Sua divindade. Depois de
submeter-se a uma preparação completa, Ele
começou a ministrar, Assim como Sua preparação,
Seu ministério estava em Sua humanidade com Sua
divindade. Em particular, Seu ministério não estava
somente em Sua humanidade, mas em Suas virtudes
humanas, e não só com Sua divindade, mas também
com Seus atributos divinos. O Salvador-Homem
ministrava em Suas virtudes humanas com Seus
atributos divinos.
9
MENSAGEM ONZE

O caso de uma pecadora


Como auxílio para compreender a expressão “em
Suas virtudes humanas com Seus atributos divinos”,
vamos usar alguns casos em Lucas como ilustrações.
Em 7:36- 50 uma pecadora entrou na casa de um
fariseu que havia convidado o Senhor Jesus para
comer. Ao ler a narrativa desse incidente, vemos que
Jesus, o Salvador-Homem, agiu em Suas virtudes
humanas. Ele não ficou nem um pouco perturbado
pela pecadora, nem mesmo quando “começou a
regar-Lhe os pés com as lágrimas, e os enxugava com
os cabelos da sua cabeça” e quando “beijava-Lhe os
pés afetuosamente, e os ungia com o unguento” (v.
38). Se fôssemos o Senhor, é provável que tivéssemos
ficado aborrecidos com o comportamento dela.
Poderíamos ter-lhe dito: “Você não sabe que sou
hóspede nesta casa? Não vê que estou comendo?”.
Todavia agir dessa maneira seria deixar de agir nas
virtudes humanas adequadas. Nessa situação o
Salvador-Homem foi muito gentil e paciente,
percebendo que a mulher fora convencida de seus
pecados.
Ele também foi misericordioso. As pessoas
sempre falam de amor, mas raramente de
misericórdia. A misericórdia, porém, é mais terna do
que o amor. Ser misericordioso é solidarizar-se com
outrem em sua condição miserável e estado humilde.
Além de exercitar bondade, paciência e
misericórdia para com a mulher, o Senhor Jesus
também exercitou compreensão. Sempre falhamos
em compreender os outros, mas o Senhor foi muito
compreensivo no caso dessa mulher. Além do mais,
Ele foi sábio e amoroso.
Talvez você esteja a imaginar que atributos
96 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

divinos foram expressados em 7:36-50. Primeiro,


vemos o perdão divino (7:47-48). Deus é o único que
pode conceder perdão de pecados. Somente Ele está
qualificado para perdoar pecados. Por isso, o perdão
é um atributo divino.
No versículo 50 o Senhor Jesus disse à mulher:
“A tua fé te salvou; vai-te em paz”. Dar paz também-
é atributo divino. Deus é o único que pode dar paz
interior.
Em 7:36-50 vemos o Salvador-Homem na casa
de um fariseu, agindo em Suas virtudes humanas
com Seus atributos divinos. Ele pôde comportar-se
dessa maneira porque era o Homem-Deus. Podemos
dizer que era um homem equipado por Deus e com
Deus. Ele tinha todas as virtudes humanas criadas
por Deus e também tinha os atributos divinos. Assim,
Ele agia no mais alto padrão de moralidade porque
Suas virtudes humanas expressavam Seus atributos
divinos.

A parábola do bom samaritano


As virtudes humanas e os atributos divinos do
Salvador-Homem são também revelados na parábola
do bom samaritano (10:25-37). O bom samaritano O
tipifica. É fácil ver as virtudes humanas do
samaritano, mas onde estão os atributos divinos?
Eles são vistos no fato de o samaritano levar o ferido
para uma hospedaria. “No dia seguinte tirou dois
denários e os entregou ao hospedeiro, e disse: Cuida
dele; e o que quer que gastares a mais, eu to
restituirei quando voltar” (10:35). Aqui vemos alguns
dos atributos divinos do Senhor. Quem, senão Deus,
pode fazer coisas dessa forma inesperada,
imprevisível? Se Ele não fosse Deus, como poderia
9
MENSAGEM ONZE

ter dito essas palavras ao hospedeiro? O fato de o


Senhor fazer o inesperado pode ser considerado
como expressão de Seus atributos divinos.

A palavra do Senhor ao ladrão


O Senhor também agiu em Suas virtudes
humanas com Seus atributos divinos quando estava
na cruz. O ladrão Lhe disse: “Jesus, lembra-Te de
mim quando entrares no Teu reino” (23:42). O
Senhor replicou: “Em verdade te digo: Hoje estarás
Comigo no Paraíso” (v. 43). Aqui vemos as virtudes
humanas expressando os atributos divinos. N a
palavra do Senhor ao ladrão não vemos somente as
virtudes humanas, mas também os atributos divinos
manifestados nas virtudes humanas. Embora fosse
homem, Ele estava cheio dos atributos divinos. Por
isso pôde agir em Suas virtudes humanas com Seus
atributos divinos. Essas ilustrações devem ajudar-nos
a compreender como o Senhor ministrava em Suas
virtudes humanas com Seus atributos divinos.

PROCLAMOU O JUBILEU DA GRAÇA


Lucas 4:14-15 diz: “Então regressou Jesus para a
Galileia no poder do Espírito, e a Sua fama correu
por toda a circunvizinhança. E ensinava nas
sinagogas deles, sendo glorificado por todos”. O
Espírito no versículo 14 é o Espírito Santo que desceu
sobre o Senhor Jesus quando Ele foi batizado para
cumprir Seu ministério. Por isso Ele tinha o Espírito
Santo essencialmente para Seu ser e
economicamente para Seu ministério.

Ensinava nas sinagogas


98 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

De acordo com o versículo 15, o Senhor ensinava


nas sinagogas. Uma sinagoga é um lugar de reunião
onde os judeus liam e aprendiam as Escrituras
sagradas (At 13:14-15).
A queda do homem em pecado quebrou sua
comunhão com Deus, tomando-o ignorante do
conhecimento de Deus. Essa ignorância resultou em
trevas e depois em morte. O Salvador-Homem, como
luz do mundo (Jo 8:12; 9:5), foi à Galileia, a terra de
trevas, onde as pessoas estavam assentadas na
sombra da morte, como grande luz para brilhar sobre
elas (Mt 4:12-16). Seu ensinamento liberou a palavra
de luz para iluminar os que estavam nas trevas da
morte, de modo que recebessem a luz da vida (Jo 1:4).
O ensinamento do Salvador-Homem foi tirar as
pessoas das trevas satânicas e levá-Ias à luz divina
(At 26:18).

O Espírito do Senhor sobre o Salvador-


Homem
O Salvador-Homem foi a Nazaré, onde fora
criado. De acordo com Seu hábito, Ele entrou na
sinagoga no sábado e ficou em pé para ler. O livro, o
rolo do profeta Isaías, foi- Lhe entregue. Ele o abriu e
encontrou o lugar onde estava escrito: “O Espírito do
Senhor está sobre Mim, pelo que Me ungiu para
anunciar o evangelho aos pobres; enviou- Me para
proclamar libertação aos cativos, e restauração da
vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos,
para proclamar o ano aceitável do Senhor” (4:18-19).
Depois que fechou o livro e o devolveu ao assistente,
o Senhor se sentou e disse às pessoas: “Hoje se
cumpriu essa escritura em vossos ouvidos” (v. 21).
9
MENSAGEM ONZE

Aqui vemos que o Espírito do Senhor estava


sobre o Salvador-Homem porque Deus O ungira para
levar as boas- novas aos pobres. A palavra grega
traduzi da por “anunciar o evangelho” é euangelízo,
que quer dizer evangelizar, anunciar boas-novas.
Pregar o evangelho foi a primeira comissão do
Salvador como Ungido de Deus, ou Messias. As boas-
novas eram para ser pregadas aos pobres, isto é, aos
pobres em coisas celestiais, espirituais e divinas
(12:21; Ap 3:17; ver Mt 5:3).
Lucas 4:18 fala de cativos, cegos e oprimidos. Os
cativos são prisioneiros de guerra, como exilados e
reféns do cativeiro de Satanás (Is 42:7). Os cegos
incluem todos os cegos física e espiritualmente (Sf
1:17; Jo 9:39-41; 1Jo 2:11; Ap 3:17). A restauração de
visão relaciona-se com ser liberto do poder de
Satanás (At 26:18). A palavra grega traduzida por
“oprimidos” vem de um verbo que quer dizer
quebrar em pedaços (Mt 12:20). Os oprimidos estão
sob Satanás em doença ou pecado (Lc 13:11-13; Jo
8:34).

O ano aceitável do Senhor


Em Lucas 4:19 vemos que o Salvador-Homem
foi ungido para “proclamar o ano aceitável do
Senhor”. Esse ano aceitável é a era do Novo
Testamento tipificada pelo ano do jubileu (Lv 25:8-
17), em que Deus recepcionaria os cativos retomados
do pecado (Is 49:8; 2Co 6:2) e os oprimidos sob o
cativeiro do pecado desfrutariam a salvação de Deus.
Em 4:18-19, o Salvador-Homem proclama o
jubileu da graça, o que indica que foi assim que ele
começou Seu ministério. O termo “o ano aceitável do
Senhor” denota o jubileu descrito em Levítico 25. De
100 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

acordo com esse capítulo, o ano do jubileu era o


período em que os escravos eram libertados e a
propriedade era devolvida aos legítimos donos. Desse
modo, o jubileu é um ano de libertação, liberdade e
devolução da propriedade perdida. Os que haviam
sido vendidos como escravos eram libertados nesse
ano.
Palavras de graça
Lucas 4:22 diz: “Todos Lhe davam testemunho, e
se maravilhavam das palavras de graça que saíam da
Sua boca, e diziam: Não é este o filho de José?”. As
palavras de graça se referem às palavras no versículo
21, incluindo as dos versículos 18-19, que são as
palavras do evangelho. O versículo 22 indica que as
pessoas na sinagoga conheciam o Salvador segundo a
carne (2Co 5:16), e não segundo o Espírito (Rm 1:4).
Embora se maravilhassem com as palavras de
graça que procediam da boca do Senhor, não é
provável que as pessoas as tivessem compreendido.
Esse foi o verdadeiro início da dispensação da graça.
A dispensação anterior era a da lei, mas, em Lucas 4,
o jubileu divino, o jubileu da graça, foi proclamado
pelo Salvador-Homem.
Em 4:23-27, o Senhor Jesus advertiu as pessoas
usando o caso da viúva de Sarepta, um caso de
alimentação, e o de Naamã da Síria, um caso de
purificação. O caso da viúva de Sarepta foi de
alimentação, tipificando o Senhor a alimentar os
famintos (Jo 6:33, 35). O caso de Naamã foi de
purificação, tipificando o Senhor a purificar os
pecadores (1Co 6:11). A menção desses dois casos
pelo Senhor implica que Seu evangelho se voltaria
para os gentios (At 13:45- 48). Isso não quer dizer
10
MENSAGEM ONZE

que Seu padrão de moralidade era incapaz de ser


aplicado aos judeus; pelo contrário, indica que eles O
rejeitaram por sua dureza de coração.
Lucas 4:28-30 diz: “Todos na sinagoga, ouvindo
essas coisas, se encheram de furor, e, levantando-se,
expulsaram- No da cidade e O levaram até o cume do
monte sobre o qual a cidade estava edificada, para de
lá O precipitarem. Ele, porém, passando pelo meio
deles, retirou-se”. A fúria dos homens na sinagoga
com certeza não foi razoável. Embora ficassem
maravilhados com as palavras de graça que
procediam da boca do Senhor, encheram-se de furor,
levantaram-se, expulsaram-No da cidade e O levaram
ao cume do monte. Mas Ele passou pelo meio deles e
se retirou. Isso mostra Sua firmeza sob a ameaça dos
opositores.

REALIZOU SEU COMISSIONAMENTO


QUÁDRUPLO
Em 4:31-44, o Salvador-Homem realizou Seu
comissionamento quádruplo: ensinar (vs. 31-32),
expulsar demônios (vs. 33-37,41), curar
enfermidades (vs. 38-40) e pregar as boas-novas do
reino de Deus (vs. 42-44). Quando as multidões
tentaram detê-Lo, Ele disse: “É necessário que Eu
anuncie o evangelho do reino de Deus também às
outras cidades, pois para isso é que fui enviado” (v.
43). Como no versículo 18, a palavra grega traduzida
por “anuncie o evangelho” é evangelizo, que significa
evangelizar, anunciar as boas-novas, declarar
(trazer) notícias de grande alegria, pregar o
evangelho. Portanto anunciar o evangelho do reino
de Deus é pregar o reino de Deus como evangelho,
102 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

como boas-novas.
O reino de Deus é o Salvador (17:21) como a
semente de vida plantada nos crentes, os escolhidos
de Deus (Me 4:3, 26), que se desenvolve até tornar-se
uma esfera, isto é, Seu reino, em que Deus pode
reinar em Sua vida divina. A porta de entrada ao
reino é a regeneração (Jo 3:5) e o desenvolvimento é
o crescimento dos crentes na vida divina (2Pe 1:3-11).
O reino é a vida da igreja hoje, na qual vivem os
crentes fiéis (Rm 14:17), e se desenvolverá até tornar-
se o reino vindouro como galardão a ser herdado (Gl
5:21; Ef 5:5) pelos santos vencedores no milênio (Ap
20:4, 6). Por fim, culminará na Nova Jerusalém
como reino eterno de Deus, esfera eterna da bênção
eterna da vida divina eterna, que todos os Seus
remidos desfrutarão no novo céu e nova terra pela
eternidade (Ap 21:1-4; 22:1-5, 14). Esse reino, o reino
de Deus, é o que o Salvador pregou em Lucas 4 como
evangelho, as boas-novas.

ESTUDO-VIDA DE LUCAS

MENSAGEM DOZE
O MINISTÉRIO DO SALVADOR-HOMEM
EM SUAS VIRTUDES HUMANAS
COM SEUS ATRIBUTOS DIVINOS NA
GALILEIA
(2)
Leitura Bíblica: Lc 4:14-21,31-44; 5:1-11

A PROCLAMAÇÃO DO ANO ACEITÁVEL DO


SENHOR
Na mensagem anterior, enfatizamos que o
10
MENSAGEM DOZE

Senhor Jesus começou Seu ministério proclamando o


jubileu da graça. Nas palavras de 4:19, Ele proclamou
o ano aceitável do Senhor, que é a era do Novo
Testamento, tipificada pela ano do jubileu (Lv 25:8-
17). O ano do jubileu era o quinquagésimo ano, a
conclusão de meio século. Assim, de acordo com o
livro de Levítico, depois de cada meio século havia o
ano do jubileu, também chamado de ano aceitável. O
ano aceitável representa o ano em que o Senhor
aceitava as pessoas. Em Isaías 61 há uma profecia a
respeito do cumprimento desse jubileu.
Não é provável que, antes de Lucas 4, os judeus
compreendessem a palavra de Isaías sobre o ano
aceitável do Senhor. Um dia o Senhor Jesus entrou
na sinagoga e leu Isaías 61, sobre esse ano. O ano
aceitável é o jubileu de Jeová.

O comprimento da vida humana caída


Meio século representa o comprimento da vida
humana caída. Cinquenta anos é o comprimento de
toda a vida de uma pessoa caída. No Salmo 90:10
Moisés disse que os dias de nossos anos são setenta
anos e, devido ao vigor, podem chegar a oitenta. De
acordo com Moisés, o comprimento da vida humana
é setenta anos. Se alguém for vigoroso, pode viver até
a idade de oitenta. De acordo com a Bíblia, em certo
sentido, pode-se considerar que a vida de uma pessoa
inicia aos trinta anos, idade na qual um sacerdote
começava a oficiar. Até mesmo o Senhor Jesus tinha
trinta anos quando começou a ministrar (3:23).
Trinta mais cinquenta são oitenta. Assim, meio
século, cinquenta anos, representa o comprimento da
vida de uma pessoa na natureza caída. Como
quinquagésimo ano, o ano do jubileu é a conclusão
104 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

de nossa vida caída.


Que nos aconteceu em nossa vida caída?
Perdemos nosso direito de primogenitura, vendemo-
nos para o cativeiro e nos tomamos escravos.
Perdemos tudo, inclusive o direito de primogenitura
e posição.
Quem não perdesse algo não iria aguardar
ansiosamente o ano do jubileu. De fato, para ele, o
jubileu poderia ser um sofrimento. Mas para quem
perdeu tudo, inclusive a terra e a si próprio, com
certeza aguardaria ansiosamente o ano do jubileu.
Quando vem o ano do jubileu, ele se alegra por ser
libertado e restaurar o direito a seu quinhão de terra.
A todo israelita era dado um quinhão da boa
terra, que tipifica Cristo. Por isso perder o direito à
boa terra significa perder o direito de desfrutar Cristo.
Todo ser humano caído perdeu o direito de desfrutar
Deus como a árvore da vida e de desfrutar Cristo
como a boa terra. Além disso, todo homem caído se
vendeu ao pecado, ao mundo e a Satanás. Em
Romanos 7:14 Paulo disse de si mesmo: “Sou carnal,
vendido à escravidão do pecado”. Até mesmo Paulo
se tomou escravo do pecado.
Todas as pessoas caídas perderam o direito de
desfrutar Cristo e se venderam às coisas negativas,
mas o ano do jubileu indica que podemos ser
libertados do cativeiro e recuperar o direito de
desfrutar Cristo como nosso quinhão.
Depois de posto à prova, o Senhor Jesus, o
Salvador-Homem, começou a ministrar. No início de
Seu ministério, Ele proclamou o jubileu, o ano
aceitável do Senhor. Isso indica que toda a era do
Novo Testamento é na verdade um ano singular, o
ano do jubileu, o ano em que Jeová aceita os seres
10
MENSAGEM DOZE

humanos caídos.

O verdadeiro evangelho
A proclamação do jubileu é o verdadeiro
evangelho, o evangelho rico e integral. Um evangelho
parcial diz às pessoas que elas são pecadoras
destinadas ao inferno, mas Jesus as amava e morreu
por elas na cruz, e, se crerem Nele, terão a vida
eterna. Isso é somente parte do jubileu. O jubileu é
uma proclamação da libertação da escravidão e da
restauração do direito de primogenitura espiritual.
Esse jubileu é o ano aceitável do Senhor.
De acordo com Lucas 4, o Senhor Jesus
proclamou o jubileu num dia específico de sábado na
Galileia, porém, nos séculos que se seguiram, o
jubileu foi negligenciado. Por isso precisamos de uma
restauração no jubileu do Novo Testamento.

A restauração de nosso quinhão


Fomos restaurados para o desfrute do Deus
Triúno corno árvore da vida e de Cristo como nossa
terra, nosso quinhão. A boa terra é, na verdade, mais
misteriosa do que a árvore da vida porque é o
cumprimento dessa árvore. Adão não comeu do fruto
da árvore da vida, mas os filhos de Israel
participaram das riquezas da boa terra. Hoje
desfrutamos o Deus Triúno como árvore da vida e,
ainda mais, desfrutamos Cristo como boa terra.
Louvado seja o Senhor porque temos um quinhão
dessa boa terra! De acordo com Colossenses 1:12,
esse quinhão é a porção dos santos. Isso prova que
nosso direito de primogenitura, antes perdido, foi
recuperado no jubileu do Novo Testamento.
106 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

Libertados do cativeiro
No jubileu também fomos libertados do cativeiro.
Éramos cativos, mas fomos libertados da escravidão
e trazidos de volta à liberdade da glória dos filhos de
Deus. Essa é outra indicação de que estamos no
jubileu do Novo Testamento.

Restaurados à condição original


De acordo com Levítico 25, no ano do jubileu
todos foram restaurados à condição original. Uma
vez que a era do Novo Testamento é o verdadeiro ano
do jubileu, isso quer dizer que Deus nos restaurará à
condição original. Em Adão tornamo-nos perdidos e
nos vendemos ao pecado como escravos, mas agora
Jesus, o Salvador-Homem, veio e trouxe o ano
aceitável do Senhor, que no Novo Testamento é o
cumprimento do jubileu do Antigo Testamento.
Nesse ano somos libertados e nosso direito de
primogenitura perdido é restaurado, redimido e
recobrado.

O COMISSIONAMENTO QUÁDRUPLO DO
SALVADOR-HOMEM
Ressaltamos que Lucas apresenta o Salvador-
Homem no mais alto padrão de moralidade. Os casos
registrados nesse evangelho mostram vários aspectos
do mais alto padrão de moralidade. A narrativa dos
exemplos em 4:38-41,5:12-14 e 7:1-10 está de acordo
com a ordem de moralidade. Por esse motivo, a
narrativa em Lucas é diferente da que está em
Mateus 8:2-16 e Marcos 1:29-2:1. A ordem do
registro de Marcos, que mostra que Jesus é o Servo
de Deus, está de acordo com a história. A ordem do
10
MENSAGEM DOZE

registro de Mateus, que prova que Cristo é o Rei do


reino dos céus, está de acordo com a doutrina, com
certos exemplos organizados para apresentar uma
doutrina. A ordem do registro de Lucas, que revela
que Jesus é o homem adequado para ser nosso
Salvador, está de acordo com a moralidade.

Ensinar
Em Lucas 4:31-44 o Salvador-Homem leva a
cabo Seu comissionamento quádruplo: ensinar,
expulsar demônios, curar e pregar. O versículo 31 diz
que Ele desceu a Cafarnaum e ensinava no sábado.
Como já enfatizamos, Seu ensinamento liberava a
palavra de luz para iluminar os que estavam nas
trevas da morte (Mt 4:12-16), de modo que
recebessem a luz da vida (Jo 1:4).
Lucas 4:32 diz que as pessoas “estavam atônitas
do Seu ensinamento, porque a Sua palavra era com
autoridade”. Como quem foi autorizado por Deus, o
Senhor Jesus ensinava realidades, enquanto os
escribas ensinavam conhecimentos vãos sem
autoridade ou poder. O Salvador-Homem tinha não
só o poder espiritual para subjugar as pessoas, mas
também autoridade divina para submetê-las ao
governo divino.

Expulsar demônios
Em 4:33-36 temos uma narrativa do Senhor
expulsando um demônio. No versículo 33 é-nos dito
que um homem na sinagoga tinha um espírito. de
demônio. imundo. Esse espírito. é diferente de um
anjo. caído. Um demônio. é o. espírito. das criaturas
que viveram na era pré-adâmica e foram julgadas por
108 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

Deus quando. se juntaram à rebelião. de Satanás (ver


Estudo- Vida de Gênesis, mens. 2). Os anjos caídos
operam com Satanás no. ar (Ef 3:2; 6:11-12) e o.S
demônios, ou espíritos imundos, movem-se com ele
na terra. Ambos agem malignamente sobre o. homem
para o. reino. de Satanás. O fato. de um demônio.
possuir alguém representa a usurpação de Satanás
sobre o. homem que Deus criou para Seu propósito.
Em Seu ministério, o. Salvador-Homem expulsava
demônios de pessoas para que se vissem livres do.
cativeiro. de Satanás (Lc 13:16), tiradas da autoridade
das trevas de Satanás (At 26:18; Cl 1:13) e
introduzidas no. reino. de Deus.
Em 4:34 o. demônio disse: “Ah! Que temos nós
Contigo, Jesus Nazareno? Vieste para destruir-nos?
Sei quem és: o. Santo. de Deus”. “Ah” é uma
interjeição. de raiva ou consternação. A palavra grega
pode ser traduzida como: “Deixa-nos em paz”. As
palavras gregas traduzidas como “Que temos nós
Contigo?”, literalmente significam: “Que a nós e a
Ti?”. É uma expressão. idiomática hebraica.
O versículo 35 diz: “Mas Jesus o. repreendeu,
dizendo:
Cala-te, e sai dele. E o. demônio. lançando-o por
terra no. meio. de todos, saiu dele sem lhe fazer mal
algum”. Literalmente, a palavra grega traduzida por
“cala-te” significa amordaçar, pôr focinheira em.
Depois que o. Senhor expulsou o. demônio, “veio.
espanto. sobre todos e falavam uns com os outros,
dizendo: Que palavra é essa, pois, com autoridade e
poder, Ele dá ordens aos espíritos imundos, e eles
saem?” (v. 36). Aqui vemos que o. Salvador-Homem
tem autoridade e poder para expulsar demônios,
Para Seu ministério, Ele tinha autoridade divina não.
10
MENSAGEM DOZE

só para ensinar pessoas, mas também para expulsar


demônios.

Curar
Em 4:38-39 temos o. registro do. Senhor
curando. a sogra de Pedro, que estava com febre alta.
Essa febre pode representar alguém com
temperatura descontrolada, anormal e inclemente.
Lucas 4:40 diz: “Ao. pôr do. sol, todos quantos
tinham enfermos de diversas doenças, Lhos traziam;
e Ele, impondo as mãos sobre cada um deles, curava-
os”, Enfermidade é resultado. de pecado. e sinal da
condição anormal do. homem diante de Deus por
causa do. pecado. Por isso, em Seu ministério, o.
Salvador-Homem curava a condição doente das
pessoas fisica e espiritualmente a fim de que
voltassem ao. normal para servi-Lo.

Pregar
Além de ensinar, expulsar demônios e curar os
enfermos, o. Senhor também “pregava nas sinagogas
da Judeia” (4:44). A pregação. do. Salvador-Homem
era anunciar as boas-novas de Deus aos miseráveis
em
. cativeiro (v. 43). Sua pregação. iluminava os
ignorantes em trevas com a luz divina da verdade. A
pregação. implicava ensino, e o. ensino. implicava
pregação.

ATRAIR OS OCUPADOS
No. restante desta mensagem, vamos considerar
5:1-11, em que o. Salvador-Homem atrai os ocupados.
Lucas 5:1 diz: “Aconteceu que, ao. apertá-Lo a
110 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

multidão. para ouvir a palavra de Deus, estava Ele


em pé junto. ao. Lago de Genesaré”. “Genesaré” era
um nome comum para o mar da Galileia (Mt 4:18;
Mc 1:16).

O homem caído ocupado em ganhar a vida


O chamamento dos primeiros quatro discípulos
foi o chamado que atraiu pessoas ocupadas. Os seres
humanos não percebem quanto são caídos não só em
pecado, mas também em sua ocupação. Nossa
ocupação é nosso negócio ou emprego, isto é, o meio
de vida. Hoje os seres humanos caídos estão
ocupados em ganhar a vida. Podemos dizer que são
tomados por sua ocupação.
Naturalmente é necessário trabalhar. Paulo
instava com os crentes a que trabalhassem para
ganhar a vida (2Ts 3:1 0- 12). Não devemos confiar
nos outros para prover um meio de vida para nós.
Isso significa que não devemos ter uma fé que exija
que os outros exercitem seu amor e cuidado por nós.
Precisamos de emprego; o problema, porém, é que
nossa profissão nos ocupa e separa de Deus.
Os seres humanos foram criados por Deus para
Ele mesmo, mas estão ocupados e separados Dele por
causa de ganhar a vida. Nada separa tanto as pessoas
de Deus quanto suas ocupações. Considere o mundo
de hoje. Quem não está ocupado com o emprego ou
educação em preparação para o trabalho? Embora a
maioria das pessoas esteja ocupada, dificilmente
alguém está ocupado com Deus. Pelo contrário,
praticamente todos estão ocupados com algo em
lugar de Deus. Os primeiros discípulos foram
chamados e atraídos pelo Senhor, não da vida
pecaminosa, mas das ocupações. Especificamente,
11
MENSAGEM DOZE

Pedro, André, Tiago e João estavam ocupados em


pescar.
Os que estão ocupados em ganhar a vida
normalmente dão desculpas quando são convidados
para ouvir o evangelho ou ir a uma reunião. Se você
os convidar para ouvir o evangelho, eles talvez digam
que não têm tempo. Se convidar uma pessoa ocupada
para ir às reuniões da igreja, ela poderá dizer que
está muito atarefada. Essa foi a razão pela qual, logo
depois de levar a cabo Seu comissionamento
quádruplo, o Salvador-Homem em 5:1-11 fez algo
para atrair certas pessoas ocupadas.
O desejo de Satanás é manter as pessoas
ocupadas em ganhar a vida. Isso é ilustrado pelo que
Faraó fez aos filhos de Israel. Quando Moisés lhe
disse que deixasse o povo de Deus partir, Faraó fez o
máximo para mantê-los ocupados com seus labores.
De modo semelhante, Pedro, André, Tiago e João
estavam ocupados e atarefados. Todavia o Senhor
Jesus foi a eles, atraiu-os e chamou-os.

Milagres relacionados com a pesca


Em 5:2-10a temos um registro do Salvador-
Homem atraindo alguns que estavam ocupados em
ganhar a vida. Esse registro não é encontrado nem
em Mateus 4:18-22 nem em Marcos 1:16-20. Quando
lemos Mateus e Marcos, podemos imaginar por que
Pedro e os outros seguiram o Senhor quando Ele lhes
disse que fossem e O seguissem. Em Lucas 5 temos
um registro a mais a indicar que, quando chamou
Pedro, o Senhor Jesus realizou um milagre
relacionado com a pesca. Houve um milagre
semelhante em João 21, depois da ressurreição. Em
Lucas 5, o milagre foi parte da ação do Senhor em
112 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

atrair as pessoas ocupadas. Esse milagre atraiu Pedro


ao Salvador-Homem.
Anos mais tarde, depois da ressurreição do
Senhor, parecia que Pedro não tinha nada para fazer
e anunciou que ia pescar (Jo 21:3). Muitos o
seguiram. Visto que retomaram à antiga ocupação, o
Senhor Jesus voltou, em ressurreição, para realizar
um segundo milagre relacionado com pesca a:fim de
atrair Pedro novamente. Por isso, por duas vezes, por
amor a Pedro, o Senhor fez um milagre relacionado
com a pesca.
O chamamento de Pedro em Lucas 5:1-11 está
relacionado com o mais alto padrão de moralidade. O
versículo 2 diz: “E viu dois barcos parados junto ao
lago; e os pescadores, havendo desembarcado deles,
lavavam as redes”. O Senhor, então, entrou no barco
de Simão e pediu- lhe que o afastasse um pouco da
terra (v. 3). Ele ensinou as multidões do barco e,
quando parou de falar, disse a Simão: “Faze-te ao
largo, e baixai as vossas redes para a pesca” (v. 4).
Simão respondeu: “Mestre, havendo labutado a noite
inteira, nada apanhamos; mas sobre a Tua palavra
baixarei as redes” (v. 5). Antes disso, Simão havia
sido conduzido ao Senhor por seu irmão André (Jo
1:40-42).
No versículo 5 Simão dirigiu-se ao Senhor como
Mestre. A palavra grega, diferente daquela traduzida
por Mestre em 2:29, denota alguém que exerce certa
supervisão.
Pedro era pescador profissional, o lago tinha
abundância de peixes e a noite era a hora apropriada
para pescar. Eles, porém, não pegaram nada. Deve
ter sido porque o Senhor exerceu Sua soberania
mantendo os peixes longe. Foi um exercício não de
11
MENSAGEM DOZE

Suas virtudes humanas, mas de Seus atributos


divinos.
O motivo de o Senhor ter exercido Sua soberania
dessa forma foi que Sua intenção era atrair Simão e
seu irmão. Por isso, na hora adequada, o Senhor
ordenou aos peixes para se aproximarem. Como
resultado, “apanharam grande quantidade de peixes;
e rompiam-se-lhes as redes” (v. 6). Os dois barcos
ficaram cheios a ponto de afundar (v. 7). “Vendo isso
Simão Pedro, prostrou-se aos pés de Jesus, dizendo:
Retira-te de mim, Senhor, porque sou homem
pecador” (v. 8). É-nos dito que “por causa da pesca,
espanto se apoderou dele e de todos os que com ele
estavam” (v. 9).
O importante aqui é que nesse milagre podemos
ver as virtudes humanas e os atributos divinos do
Senhor. As virtudes humanas expressam os atributos
divinos. Isso quer dizer que o Salvador-Homem tinha
um viver cheio das virtudes humanas, que
expressavam os atributos divinos. Visto que o
Salvador-Homem vivia dessa forma, Pedro e os
outros foram atraídos a Ele e O seguiram.

Pescadores de homens
Em 5:10 o Senhor Jesus disse a Simão: “Não
temas; doravante estarás apanhando vivos os
homens”. Aqui o Senhor chamou a Pedro por meio de
um milagre realizado na pesca. A palavra para
“apanhar” é zogréo, composta de zoós, vivo, e agreúo,
apanhar; assim, quer dizer capturar vivo (numa
guerra), em vez de matar. Os pescadores comuns
apanham peixes para em seguida matá-los. Mas
Pedro foi chamado pelo Senhor para ser pescador de
homens (Mt 4:19), para apanhar homens e conduzi-
114 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

los à vida (At 2:38; 11:18).


Lucas 5:11 diz: “E, trazendo eles os barcos para a
terra, deixando tudo, O seguiram”. Eles foram
atraídos pelo que o Senhor fez em Suas virtudes
humanas com Seus atributos divinos.
A intenção de Lucas em 5:1-11 é mostrar como o
Salvador-Homem agiu em Seu ministério em Suas
virtudes humanas com Seus atributos divinos. Isso
atrai as pessoas e as ganha. Essa é a maneira de o
Salvador-Homem levar a cabo Seu ministério.

ESTUDO-VIDA DE LUCAS

MENSAGEM TREZE
O MINISTÉRIO DO SALVADOR-HOMEM
EM SUAS VIRTUDES HUMANAS
COM SEUS ATRIBUTOS DIVINOS NA
GALILEIA
(3)
Leitura Bíblica: Lc 5:1-6:11

A CONDIÇÃO ESPIRITUAL
DE TODO SER HUMANO CAÍDO
Em 5:1-6:11, temos um registro de cinco casos: O
Senhor atraiu os ocupados (5:1-11), purificou os
contaminados (5:12-16), curou o paralítico (5:17-26),
chamou o desprezado (5:27-39) e quebrou o
regulamento sabático distorcido para a satisfação e
liberação das pessoas (6:1-11 ). Não devemos
considerá-los meros registros do que aconteceu a
várias pessoas. Na verdade, todos eles retratam uma
11
MENSAGEM TREZE

pessoa só.
Depois que o Senhor Jesus realizou o milagre
relacionado com a pesca, Pedro Lhe disse: “Retira-te
de mim, Senhor, porque sou homem pecador” (5:8).
Logo em seguida, temos o caso da purificação do
homem cheio de lepra, alguém contaminado. Pedro
não apenas era ocupado, mas também contaminado.
Espiritualmente falando, o mesmo ocorre com todos
nós. Ademais, além de ocupados e contaminados,
somos paralíticos, desprezados e estamos sob o
cativeiro de regulamentos distorcidos.
Os casos registrados em 5:1-6:11 retratam a
condição espiritual de todo ser humano caído. Antes
de ser salvos, estávamos ocupados. Éramos também
leprosos, pecaminosos, necessitando de purificação.
Além disso, éramos paralíticos, incapazes de andar
ou fazer qualquer coisa segundo Deus. Por isso
necessitávamos da cura do Senhor.
Não importa qual seja a ocupação de uma pessoa,
quando é chamada pelo Senhor e libertada, ela logo
percebe que é pecaminosa. Quando estão atarefadas
com suas ocupações, as pessoas podem pensar que
são muito boas, mas, quando são libertadas das
ocupações para seguir o Senhor, percebem que são
pecaminosas. Além disso, depois de purificadas,
percebem que são paralíticas com respeito a Deus e
Suas coisas. Podem não ser capazes de andar no
caminho de Deus, mas, depois de curadas, chegam a
ver que são “cobradoras de impostos”, pessoas
desprezadas, consideradas sem valor. Por fim,
compreendem que estão sob o cativeiro de certos
regulamentos e precisam de satisfação e libertação.
Depois de salvos das ocupações, purificados da
lepra e curados da paralisia, tornamo-nos pessoas de
116 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

valor no Senhor, porque agora O temos como nova


veste para cobrir-nos por fora e como novo vinho
para encher-nos por dentro (Lc 5:36-39). Depois
disso, somos libertados de regulamentos que nos
prendem. Como resultado, tornamo-nos plenamente
salvos pelo Salvador-Homem.
Ao ler 5:1-6:11, não devemos pensar que esses
casos estão separados entre si; pelo contrário,
precisamos considerá-los como os aspectos
descritivos da condição de uma única pessoa.
Especificamente são um retrato da condição
espiritual de todo ser humano caído.

PURIFICOU OS CONTAMINADOS
Revelou Suas virtudes humanas
Em cada um desses casos, podemos ver as
virtudes humanas do Salvador-Homem bem como os
atributos divinos nelas expressos. Considerem o caso
da purificação do leproso. Lucas 5:12 diz: “Aconteceu
que, estando Ele numa das cidades, eis que apareceu
um homem cheio de lepra; ao ver a Jesus, prostrou-
se com o rosto em terra e suplicou-Lhe: Senhor, se
quiseres, podes purificar-me”. O Senhor,
“estendendo a mão, tocou-o, dizendo: Quero; fica
limpo! E imediatamente foi-se-lhe a lepra” (v. 13).
Nesse caso, o Senhor age no mais alto padrão de
moralidade. Aqui vemos que Ele se solidarizou com o
leproso. De acordo com o Antigo Testamento, um
leproso não devia ser tocado por ninguém. A fim de
manter os outros longe, exigia-se que ele gritasse:
“Impuro, impuro!”. Assim, ele era totalmente isolado.
Contudo o Salvador-Homem estendeu a mão e o
tocou, revelando, assim, Sua virtude humana.
11
MENSAGEM TREZE

Expressou Seus atributos divinos


Seus atributos divinos foram expressos na
purificação do leproso. É impossível qualquer ser
humano purificar um leproso. Por isso Aquele que o
purificou tem de ser Deus.
Na solidariedade do Senhor, vemos Sua virtude
humana e na purificação do leproso, vemos Seu
atributo divino. Ele era o autêntico Homem-Deus.
Como homem, Ele estava cheio das virtudes
humanas e, como Deus, tinha os atributos divinos
que O capacitavam a purificar a lepra. Nesse caso,
Suas virtudes humanas expressam Seus atributos
divinos.
De acordo com os exemplos bíblicos, a lepra
advém de rebelião e desobediência. Miriã tornou-se
leprosa por causa da rebelião contra a autoridade
representativa de Deus (Nm 12:1-10). A lepra de
Naamã foi purificada por causa de sua obediência (2
Re 5:1, 9-14). Todos os seres humanos caídos se
tomaram leprosos à vista de Deus por causa da
rebelião. Mas o Salvador-Homem veio salvar os
homens da rebelião e purificá-los da lepra.
Um leproso, segundo a lei, devia ser excluído do
povo por causa da impureza. Ninguém poderia tocá-
lo (Lv 13:45- 46). Porém o Salvador-Homem tocou
esse homem cheio de lepra. Que misericórdia e
solidariedade! Com esse toque, “imediatamente foi -
se-lhe a lepra”.
Um leproso retrata um pecador típico. A lepra é
a doença mais contaminadora e nociva, que isola sua
vítima de Deus e dos homens. Purificar o leproso
significa restaurar o pecador à comunhão com Deus e
com os homens. É significativo que o leproso não
118 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

fosse somente curado, mas também purificado. À


pessoa com lepra, não se requer somente cura como
com outras doenças; ela também precisa de
purificação, como do pecado (1Jo 1:7), por causa de
sua natureza imunda e contaminadora.

CUROU O PARALÍTICO
No caso da cura do paralítico (5:17-26), também
vemos os atributos divinos do Senhor expressos em
Suas virtudes humanas. Em 5:20 Ele lhe disse:
“Homem, perdoados te são os teus pecados”. Quando
os escribas e fariseus ouviram isso, começaram a
arrazoar, dizendo: “Quem é este que diz blasfêmias?
Quem pode perdoar pecados senão só Deus?” (v. 21).
O Senhor Jesus exercitou Sua autoridade divina ao
perdoar os pecados do paralítico e Seu poder divino
ao curá-lo. Mas nesse caso também vemos o exercício
de Sua bondade, que é uma virtude humana. Por isso
a virtude humana do Senhor expressou Seu atributo
divino.
Lucas 5:24 diz: “Mas para que saibais que o
Filho do Homem tem sobre a terra autoridade para
perdoar pecados, disse ao paralítico: A ti te digo:
Levanta-te, toma o teu leito e vai para tua casa”. O
Salvador-Homem era o próprio Deus encarnado, mas
não considerando usurpação o ser igual a Deus. No
exterior, Ele tinha a semelhança e a forma de homem,
mas interiormente era Deus (Fp 2:6-7). Ele era o
Salvador-Homem e o Salvador-Deus também. Assim,
tinha não só a capacidade de salvar pecadores, mas
também a autoridade para perdoar seus pecados.
Nesse incidente Ele perdoou os pecados do paralítico
como Deus, mas também asseverou ser o Filho do
Homem. Isso indica que Ele era o verdadeiro Deus e
11
MENSAGEM TREZE

um homem real, possuindo deidade e humanidade.


Nele os homens podem ver tanto os atributos divinos
como as virtudes humanas.

CHAMOU OS DESPREZADOS
Mateus, um cobrador de impostos
desprezado
Em 5:27-39, temos o caso do chamamento de
um cobrador de impostos desprezado chamado Levi,
ou Mateus. O versículo 27 diz: “Depois disso, saiu e
viu um cobrador de impostos, de nome Levi, sentado
na coletoria, e disse- lhe: Segue-Me!”. A coletoria era
um posto de tributação, onde Mateus cobrava
impostos para os romanos. Ele era cobrador de
impostos (Mt 10:3), provavelmente em alta posição,
alguém condenado, desprezado e repudiado pelos
judeus (Lc 18:11; Mt 5:46). Ainda assim foi chamado
pelo Salvador-Homem e mais tarde escolhido e
designado como um dos doze apóstolos. Que
misericórdia!
Lucas 5:28 diz de Mateus: “Ele, deixando tudo,
levantou-se e O seguiu”. Parece que essa foi a
primeira vez que o Senhor o encontrou. Devia haver
algum poder de atração no Senhor, ou em Sua
palavra ou aparência, que fez com que Mateus O
seguisse.
Já enfatizamos que o povo judeu desprezava os
cobradores de impostos porque cobravam impostos
para os imperialistas romanos. Eles eram
considerados traidores e os judeus os repugnavam e
desprezavam ao máximo. Entretanto o Senhor Jesus
foi até esse cobrador de impostos e o chamou.
Com o chamamento de Mateus, não houve
milagre. Quando o Senhor Jesus foi até Pedro, Ele o
120 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

atraiu de sua ocupação por meio de um milagre, mas


não realizou milagre quando foi até Mateus. Sua
disposição em ir a Mateus foi uma grande
misericórdia.
Os judeus se afastavam dos cobradores de
impostos, considerando-os piores que leprosos. Por
isso Mateus deve ter ficado surpreso quando o
Senhor Jesus foi até ele. Talvez dissesse consigo:
“Quem sou eu para que Ele venha até mim? Sou
cobrador de impostos, alguém desprezado. Quemse
importaria comigo? Contudo Jesus vem a mim e me
diz que O siga”.
No chamamento do Senhor a Mateus vemos o
alto padrão de Sua virtude humana. Talvez o Senhor
dissesse para Si mesmo quando estava para chamar
Mateus: “Sim, este é um cobrador de impostos, mas
ainda é um ser humano e não vou rejeitá-lo ou
desistir dele. Pelo contrário, irei até ele, contatá-Io-ei
e o chamarei. Não chamo só os ocupados, mas
também os desprezados”.

A misericórdia do Salvador-Homem
Lucas 5:29 diz: “Então Lhe ofereceu Levi um
grande banquete em sua casa; e havia numerosa
multidão de cobradores de impostos e de outros que
estavam reclinados com eles à mesa”. O chamamento
do Senhor a Mateus deve ter tocado seu coração.
Mateus logo deu uma grande festa em Sua honra.
O dinheiro usado para essa festa pode ter sido
ganho injustamente por Mateus. Isso quer dizer que
a grande recepção dada ao Senhor Jesus em sua casa
talvez tenha sido financiada como dinheiro injusto.
Alguns dos judeus podem ter dito: “Por que Jesus
vem a essa festa? Será que não sabe como Mateus
12
MENSAGEM TREZE

conseguiu o dinheiro para pagá-la? Ele extorquiu


dinheiro de nós e agora o usa para dar uma festa.
Essa festa não é justa”.
O Senhor Jesus não só é justo, mas também
misericordioso. De acordo com Tiago 2:13, “a
misericórdia triunfa sobre o juízo”. Precisamos
exercer misericórdia para com os que são
desprezados e estão em condição lamentável. O
Senhor foi misericordioso para com Mateus, e Sua
misericórdia deve ter sensibilizado profundamente o
coração dele, senão ele não teria preparado uma festa
para o Senhor. Mateus deve ter ficado feliz e cheio de
júbilo. Foi uma excelente oportunidade para convidar
uma grande multidão de cobradores de impostos e
pecadores para comer com do Senhor Jesus. Na
reação do Salvador-Homem à situação, vemos Sua
virtude humana.

A necessidade de um médico
Em 5:30 os fariseus e os escribas murmuravam
com os discípulos do Senhor, dizendo: “Por que
comeis e bebeis com os cobradores de impostos e
pecadores?”. O Senhor Jesus replicou: “Os sãos não
precisam de médico, e, sim, os doentes; não vim
chamar justos, e, sim, pecadores ao arrependimento”
(vs. 31-32). Aqui vemos que o Salvador-Homem
ministrava como médico, não como juiz. O juízo de
um juiz está de acordo com a justiça, ao passo que a
cura de um médico está de acordo com misericórdia e
graça. Se o Senhor tivesse visitado essas pessoas
dignas de pena como juiz, todos teriam sido
condenados e rejeitados. Nenhum seria qualificado,
eleito e chamado, mas o Senhor veio ministrar como
médico; isto é, veio curar, restaurar, vivificar e salvar.
122 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

A palavra do Senhor aqui implica que os fariseus


justos aos próprios olhos não percebiam a
necessidade que tinham Dele como médico.
Consideravam-se fortes. Daí, cegos por sua justiça
própria, não sabiam que estavam “enfermos” e
necessitavam de cura.

Veste nova e vinho novo


Em 5:36-39 o Salvador-Homem, em parábolas,
fala de veste nova e vinho novo. Ele dá a entender
que está presente para cobrir os desprezados com
veste nova e enchê-los de vinho novo. Essa veste
nova é Cristo como justiça para cobrir- nos, e o vinho
novo é Cristo como vida eterna para encher- nos.
Somente Deus pode cobrir-nos com justiça e encher-
nos da vida eterna. Esses são os feitos do Ser divino.
Por isso nesse caso também vemos os atributos
divinos expressos nas virtudes humanas do Salvador-
Homem. Ele ministrava em Suas virtudes humanas
com Seus atributos divinos.

QUEBROU OS REGULAMENTOS
SABÁTICOS DISTORCIDOS
Em 6:1-11, temos dois casos em que o Senhor
quebrou os regulamentos sabáticos distorcidos. Ele
fez isso para a satisfação e libertação das pessoas. Os
regulamentos do sábado foram dados no Antigo
Testamento. Entretanto os religiosos judeus os
usavam mal e fizeram com que se tornassem
distorcidos. Assim, quando Jesus veio como o
Salvador-Homem, Ele se importou com o homem, e
não com os regulamentos distorcidos. Em favor do
homem, Ele de propósito quebrou tais regulamentos.
12
MENSAGEM TREZE

Para a satisfação das pessoas


O primeiro caso de quebra desses regulamentos
está registrado em 6:1- 5: “E aconteceu passar Jesus,
em dia de sábado, pelas searas, e os Seus discípulos
colhiam e comiam espigas, debulhando-as com as
mãos” (v. 1). Alguns dos fariseus diziam: “Por que
fazeis o que não é lícito aos sábados?” (v. 2). Profanar
o sábado era coisa séria aos olhos dos fariseus
religiosos. Para eles não era lícito aos discípulos do
Senhor colher espigas e comê-las no sábado. De
acordo com seu exíguo conhecimento sobre as
Escrituras, eles se importavam com o ritual de
guardar o sábado, e não com a fome das pessoas. O
Salvador-Homem, pelo contrário, importava-se com
a satisfação de Seus seguidores.
Em 6:5 o Senhor disse aos fariseus: “O Filho do
Homem é Senhor do sábado”. Isso indica a deidade
do Salvador-Homem em Sua humanidade. Ele, o
Filho do Homem, era o próprio Deus que ordenara o
sábado e tinha o direito de mudar o que ordenara.

Para a libertação das pessoas


Um segundo caso em que o Senhor quebrou os
regulamentos sabáticos distorcidos encontra-se em
6:6-11. Ele aqui restaura a mão ressequida de alguém.
Ele disse ao homem com a mão ressequida: “Estende
a tua mão. Ele assim o fez, e a mão lhe foi
restabelecida” (v. 10). Exercendo Sua compaixão, o
Salvador-Homem restabeleceu a mão ressequida.
Aqui Sua compaixão e Seu poder para curar são urna
fusão de Sua virtude humana com Seus atributos
divinos. Por isso novamente Seus atributos divinos
são expressos em Suas virtudes humanas. Nesses
124 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

dois exemplos, o Senhor quebrou os regulamentos


sabáticos distorcidos em favor da satisfação e
libertação das pessoas. Em 6:1-5 Ele se importou com
a satisfação dos discípulos. Em 6:6-11 Ele se
importou com a libertação do que tinha a mão
ressequida.

UM QUADRO DE NOSSA EXPERIÊNCIA


Em 5:1-6:11 ternos um quadro dos seres
humanos caídos. Alguém caído é ocupado, leproso,
paralítico, desprezado e está sob cativeiro. De acordo
com o registro desse trecho de Lucas, essa pessoa é
atraída para fora de sua ocupação pelo Senhor Jesus
e purificada da lepra, curada da paralisia, levantada
da condição desprezada e libertada da fome e do
cativeiro. Esse é um quadro do que nos aconteceu.
Todos podemos testificar que éramos assim. Fornos
atraídos de nossas ocupações e purificados, curados,
exaltados, satisfeitos e libertos. Esse é o ministério do
Salvador-Homem em Suas virtudes humanas com
Seus atributos divinos. Esse é um princípio
subjacente seguido por Lucas ao escrever esse
evangelho.

ESTUDO-VIDA DE LUCAS

MENSAGEM CATORZE
O MINISTÉRIO DO SALVADOR-HOMEM EM
SUAS VIRTUDES HUMANAS
COM SEUS ATRIBUTOS DIVINOS NA
GALILEIA (4)
Leitura Bíblica: Lc 6:12-49
12
MENSAGEM QUATORZE

Nesta mensagem chegamos a 6:12-49, trecho em


que Lucas aborda dois itens: o Senhor designou doze
apóstolos (vs. 12-16) e ensinou aos discípulos a mais
alta moral idade (vs. 17-49).

DESIGNOU DOZE APÓSTOLOS


Lucas 6:12 diz: “Aconteceu, naqueles dias, que
Ele saiu para o monte a fim de orar, e passou a noite
toda em oração a Deus”. No dia seguinte chamou os
discípulos e escolheu doze para apóstolos. Ele orou a
fim de ter comunhão com Deus e buscar Sua vontade
e prazer concernente a Seu ministério. O Salvador-
Homem não levou a cabo Seu ministério por Si
mesmo de forma independente de Deus ou de acordo
com a própria vontade. Antes, cumpriu Seu
ministério de acordo com a vontade e prazer de Deus,
sendo um com Ele para cumprir Seu propósito.
Especificamente, Ele não designou os doze por Si
mesmo, mas agiu como um homem que era um com
Deus.
Ao ser batizado, o Senhor Jesus colocou-Se de
lado. Isso indica que em Seu ministério Ele não faria
nada por Si mesmo, mas faria tudo por Deus e com
Deus. Em 6:12 temos a aplicação de Seu batismo. Ao
orar, o Senhor Se rejeitou e Se pôs de lado. Na
questão crucial de designar alguns para Seus
auxiliares, para ser apóstolos enviados a fim de
alcançar os outros, o Senhor não agiu em Si mesmo
ou por Si mesmo. Ele fez isso absolutamente em
Deus e com Deus. O principal ao escolher os doze,
como descreve 6:13-16, é que Ele Se colocou de lado e
não agiu por Si mesmo. Ao designar os doze, Ele agiu
em Deus, por Deus e com Deus.
126 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

ENSINOU AOS DISCÍPULOS A MAIS ALTA


MORALIDADE
Em 6:17-20 vemos que a palavra do Senhor no
restante desse capítulo foi endereçada aos discípulos
(v. 20) na presença de grande multidão (v. 17),
provavelmente composta na maior parte de
incrédulos. Daí, havia dois grupos com o Senhor
quando Ele ensinava. O primeiro eram os discípulos;
o segundo, a multidão de incrédulos. Precisamos
lembrar-nos disso se quisermos compreender Seu
ensinamento aqui. Às vezes Sua palavra se refere aos
crentes e outras vezes, aos incrédulos.
Muito do ensinamento do Senhor em 6:17-49 é
semelhante ao de Mateus 5-7. Tudo o que é decretado
em Mateus 5-7, como constituição do reino dos céus,
constitui a realidade do reino dos céus. Tudo o que é
citado em Lucas 6:20-49, como princípios do caráter
dos filhos de Deus, governa e avalia o
comportamento dos crentes, que nasceram de Deus e
possuem Sua vida e natureza. Na época desse
discurso, esse trecho, exceto os versículos 24-26 e 39,
aplicam-se ao remanescente crente dos judeus.
Vimos que em Mateus 5-7 temos a constituição
do reino dos céus. O ensinamento em Lucas 6 não é
uma constituição, mas os princípios do caráter dos
que creem no Senhor, nasceram de Deus e possuem
Sua vida e natureza. Como pessoas regeneradas por
Deus, nós, os crentes, temos Sua vida e natureza.
Agora precisamos ver quais princípios devem
governar nosso caráter e comportamento. Como
devemos conduzir-nos? Como devemos agir e
proceder? Os princípios dados nesse capítulo
respondem a essas questões. Todos os aspectos do
12
MENSAGEM QUATORZE

ensinamento do Senhor aqui são princípios que


devem governar nosso comportamento cristão. Se
virmos isso, veremos a diferença entre a constituição
do reino dos céus (Mt 5-7) e os princípios do
comportamento cristão (Lc 6).

QUATRO CARACTERÍSTICAS DOS BEM-


AVENTURADOS
O primeiro princípio nesses versículos é que nós,
que cremos em Cristo e nascemos de Deus, devemos
ser um povo abençoado por Deus. Devemos ser
pessoas bem-aventuradas, isto é, abençoadas, e não
amaldiçoadas. Como resultado da queda, a
humanidade ficou sob maldição, mas, no jubileu da
graça, o Senhor Jesus nos resgatou da maldição e
introduziu na bênção de Deus. Por isso devemos ser
bem-aventurados. Em 6:20-23 há quatro
características dos bem-aventurados.

Pobre
No versículo 20 O Senhor Jesus diz: “Bem-
aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de
Deus”. Nesse versículo, “pobre” tem duas conotações.
Primeiro, denota pobre em coisas materiais; segundo,
denota pobre em coisas espirituais. Assim, a palavra
pobre aqui denota pobre em coisas materiais,
terrenas, e também pobre em coisas celestiais,
espirituais.
É bem difícil que os ricos em bens materiais e
terrenos sejam pobres em itens celestiais e espirituais.
Se alguém escolhido e chamado por Deus se tomar
rico em bens materiais, pode ser muito difícil que ele
se tome pobre em itens espirituais. Pode até ser
128 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

necessário que Deus tire dele as riquezas materiais a


fim de que se tome pobre com relação a coisas
espirituais.
Se quisermos ser bem-aventurados, precisamos
ser pobres, principalmente, em itens espirituais e
celestiais. Sobre itens espirituais, devemos sentir que
nada temos, que somos pobres.
Mateus 5:3 fala que devemos ser pobres em
espírito. Ser pobre em espírito não é somente ser
humilde, mas também esvaziado no espírito, nas
profundezas de nosso ser, não se apegando a itens
antigos. Ser pobre em espírito significa ser
descarregado para receber novos itens.
O espírito humano, a parte mais profunda de
nosso ser, é o órgão por meio do qual contatamos
Deus e percebemos as coisas espirituais. Precisamos
ser pobres, esvaziados, descarregados nessa parte de
nosso ser para perceber e possuir o reino de Deus.
Precisamos ser sempre pobres no espírito, tendo a
profunda sensação de que somos pobres com relação
aos itens espirituais, os itens concernentes a Deus. Se
formos pobres dessa forma e humildes,
imediatamente o reino de Deus se toma nossa bênção,
ou bern-aventurança.

Ter fome agora


A segunda característica de um bem-aventurado
é ter fome agora: “Bem-aventurados vós, os que
agora tendes fome, porque sereis fartos” (6:21a). Esse
versículo fala da fome espiritual. Primeiro,
percebemos que somos pobres em coisas espirituais e
depois, famintos do que carecemos no âmbito
espiritual.
O Senhor diz que os que têm fome agora serão
12
MENSAGEM QUATORZE

fartos. Quando temos fome, somos satisfeitos.


Seremos fartos das riquezas espirituais de Cristo.

Chorar agora
Em 6:21b, o Senhor Jesus diz: “Bem-
aventurados vós, os que agora chorais, porque haveis
de rir”. Essa é a terceira característica dos que são
abençoados por Deus, ou bem- aventurados. Nesse
versículo, chorar significa arrepender-se e contristar-
se. Chorar nesse sentido significa não estar feliz com
a situação e condição espiritual. Por isso nós nos
arrependemos e desejamos ter uma mudança na
condição espiritual.

Ser odiado
A quarta característica é encontrada nos
versículos 22- 23: “Bem-aventurados sais quando os
homens vos odiarem, e quando vos separarem deles,
e vos injuriarem e rejeitarem o vosso nome como
mau, por causa do Filho do Homem. Alegrai-vos
naquele dia e saltai de alegria, porque eis que é
grande o vosso galardão no céu; pois assim faziam
seus pais aos profetas”. Aqui vemos que é bênção ser
odiado e injuriado por causa do Filho do Homem.
Nós, porém, gostamos de ser louvados pelos outros e
valorizados, honrados e tidos em alta conta.
Precisamos perceber que os crentes serão odiados e
caluniados pelo mundo. O motivo disso é que o
mundo inteiro segue Satanás e nós vamos à direção
oposta, seguindo o Senhor. Já que nosso caminho é
oposto ao do mundo, as pessoas mundanas nos
odiarão e falarão mal de nós.

UMA PALAVRA AOS INCRÉDULOS


130 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

Nos versículos 24-26 o Senhor fala à multidão de


incrédulos presentes. No versículo 24, Ele diz: “Mas
ai de vós, os ricos! porque já recebestes por completo
a vossa consolação”. A palavra grega para “mas”
também quer dizer entretanto, contudo. No
momento em que foram falados, esses versículos
poderiam ser aplicados aos judeus incrédulos, que
endureceram o coração e rejeitaram o Salvador.
No versículo 24, o Senhor pronuncia um ai aos
que são ricos. Ele lhes diz que eles receberam sua
consolação. A palavra grega traduzida por
“receberam” era usada no sentido comercial de
acusar o recebimento do pagamento total de uma
dívida.
Nos versículos 25-26 o Senhor prosseguiu: “Ai
de vós, os que agora estais fartos! porque tereis fome.
Ai de vós, os que agora rides! porque pranteareis e
chorareis. Ai de vós, quando todos os homens
falarem bem de vós! pois assim faziam seus pais aos
falsos profetas”. Aqui vemos que os que desejam ser
louvados pelos outros e tidos em alta consideração
serão como falsos profetas.

OUTRA PALAVRA AOS DISCÍPULOS


Em 6:27 o Senhor se volta dos estranhos para os
discípulos. Os versículos 27 e 28 dizem: “Digo-vos,
porém, a vós que Me ouvis: Amais os vossos inimigos,
fazei o bem aos que vos odeiam; bendizei aos que vos
maldizem, orai pelos que vos ultrajam”. No versículo
27 os que ouvem são os que creem, os que recebem a
palavra do Senhor.
Nos versículos 27 e 28 vemos o mais alto padrão
de moralidade. Amar os inimigos e fazer o bem aos
que nos odeiam é o mais alto padrão de moralidade,
13
MENSAGEM QUATORZE

assim como abençoar os que nos amaldiçoam e orar


pelos que nos ultrajam. Embora seja fácil ler esses
versículos, é dificílimo praticá-los. Na verdade, a fim
de cumprir essas palavras, precisamos ser homens-
Deus, pessoas saturadas de Deus e mescladas com
Ele.
No versículo 29 o Senhor diz: “Ao que te bate
numa face, oferece-lhe também a outra; ao que tira a
tua capa, não o impeças de levar também a túnica”.
Oferecer a outra face ao que nos bate prova que
temos o poder de sofrer em vez de resistir e o poder
de não andar na carne ou na alma visando a
interesses próprios, mas no espírito visando ao reino
de Deus.
A “capa” no versículo 29 é uma veste externa e a
“túnica” é uma veste usada junto ao corpo. Aqui o
Senhor diz que, ao quer tirar nossa roupa de cima,
não devemos reter nossa roupa de baixo. Todavia,
para nos comportar desse modo, precisamos ser
saturados de Deus.
No versículo 30 o Senhor prossegue: “Dá a todo
o que te pede; e ao que toma o que é teu, não o peças
de volta”. Dar ao que nos pede e não exigir a
devolução do que é nosso prova que não nos
importamos com coisas materiais nem somos
possuídos por elas.
O versículo 31 diz: “Como quereis que os homens
vos façam, do mesmo modo fazei a eles”. Isso indica
que o que queremos que os outros nos façam,
devemos primeiro fazer a eles.
Em 6:32-34 o Senhor Jesus diz: “Se amais os que
vos amam, que mérito há para vós? Porque até os
pecadores amam aos que os amam. Se fizerdes o bem
aos que vos fazem o bem, que mérito há para vós?
132 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

Até os pecadores fazem o mesmo. E se emprestardes


àqueles de quem esperais receber, que mérito há para
vós? Até os pecadores emprestam aos pecadores,
para receberem outro tanto”. Nesses versículos,
“mérito” corresponde a recompensa, galardão, e “que”
se refere à qualidade da recompensa. Assim, “que
mérito” denota que tipo de recompensa.
Ter mérito é receber recompensa. Se você fizer
algo bom para alguém e ele lhe agradecer, esse
“obrigado” é uma recompensa para você. Nesses
versículos, o Senhor pergunta que tipo de
agradecimento, de recompensa, há para nós se o que
fizermos para os outros é o mesmo que os pecadores
fazem. Até os pecadores amam os que os amam,
fazem o bem aos que lhes fazem o bem e emprestam
com esperança de receber de volta uma quantia igual,
se não mais.

FILHOS DO ALTÍSSIMO
No versículo 35 o Senhor prossegue: “Amai,
porém, os vossos inimigos, fazei o bem e emprestai,
nada esperando em troca; e será grande o vosso
galardão, e sereis filhos do Altíssimo; pois Ele é
benigno até para com os ingratos e maus”. Nesse
versículo, ternos o segredo de ter o viver descrito
aqui. O segredo é a vida de Deus. Se quisermos
cumprir todos esses princípios, precisamos ter a vida
divina. Precisamos nascer do Altíssimo, de Deus, e
assim nos tornar filhos do Altíssimo.
Como nascidos de Deus, somos capazes de amar
os inimigos. Deus nos amou até mesmo quando
éramos Seus inimigos (Rm 5:8) e esse fato tem de
nos impressionar. Seu amor agora foi transmitido a
nós. O amor com que amamos os outros, portanto, é
13
MENSAGEM QUATORZE

o amor de Deus nosso Pai.


A Bíblia nos diz que Deus é amor (Jo 4:8). Corno
o Espírito é a natureza da Pessoa de Deus e luz é a
natureza da Sua expressão, então o amor é a natureza
do Seu ser. Dessa forma, se nascemos Dele, com
certeza nascemos da natureza do Seu ser, que é o
amor divino. Como pessoas nascidas de Deus, ternos
Sua vida e natureza. Espontaneamente somos agora
capazes de amar os inimigos, porque Deus, nosso Pai,
os ama. Esse é o motivo de o Senhor nos dizer que
amemos os inimigos para ser filhos do Altíssimo,
Aquele que é bondoso para com ingratos e malignos.
Em 6:36, o Senhor diz: “Sede compassivos, como
também é compassivo vosso Pai”. Compaixão
ultrapassa amor e misericórdia. É possível mostrar
misericórdia a alguém sem ter compaixão. É na
verdade mais fácil amar os outros do que ser
compassivo para com eles. O motivo disso é que
sempre amamos os que são bons. Compaixão,
todavia, alcança mais longe do que o amor.
Precisamos exercitar a misericórdia a fim de alcançar
os que estão em condição miserável.
De acordo com a compreensão natural, podemos
pensar que ser compassivos para com alguém é ter
misericórdia para com um doente ou quem está em
pobreza, mas esse não é o significado de acordo com
o contexto nesse capítulo. O contexto indica que
alguém que nos odeia e nos ultraja está em condição
miserável. Por isso devemos não só ter amor para
com ele, mas também ser compassivos. Precisamos
compadecer-nos do que é maligno e absolutamente
não é amável. Como pessoas nascidas de Deus,
devemos ser compassivos assim corno nosso Pai o é.
ESTUDO-VIDA DE LUCAS

MENSAGEM QUINZE
O MINISTÉRIO DO SALVADOR-HOMEM EM
SUAS VIRTUDES HUMANAS
COM SEUS ATRIBUTOS DIVINOS NA
GALILEIA (5)
Leitura Bíblica: Lc 6:17-49

Nesta mensagem continuaremos a considerar


6:17-49, trecho em que o Senhor Jesus ensina aos
discípulos a mais alta moralidade.
NÃO JULGAR, MAS PERDOAR
O versículo 37 diz: “Não julgueis, e de modo
algum sereis julgados; não condeneis, e de modo
algum sereis condenados; perdoai, e sereis
perdoados”. O verbo perdoar também pode ser
traduzido por liberar. Aqui, dar sentença é condenar,
e liberar é perdoar. Se não condenarmos, de modo
algum seremos condenados. De semelhante forma, se
perdoarmos, seremos perdoados.
Se vivermos num espírito humilde sob o governo
do Senhor, sempre julgaremos a nós mesmos, e não
aos outros. Os filhos de Deus serão julgados com a
medida que julgam. Se julgarem os outros com
justiça, serão julgados pelo Senhor com justiça. Se
julgarem os outros com misericórdia, serão julgados
pelo Senhor com misericórdia. Como Tiago 2:13 diz:
“A misericórdia triunfa sobre o juízo”.
Anos atrás ouvi o que C. H. Spurgeon disse num
sermão sobre perdão. Nesse sermão ele enfatizou que
é difícil para os cristãos perdoar os outros. Ele disse
que podemos pensar que perdoamos alguém,
13
MENSAGEM QUINZE

entretanto nosso perdão pode ser comparado a


sepultar um cachorro morto e permitir que a cauda
apareça. Depois de perdoar alguém, podemos dizer:
“Fulano de Tal me ofendeu, mas eu o perdoei”. Isso é
mostrar a “cauda” do “cachorro”.
Se de fato perdoamos alguém, devemos também
esquecer a ofensa. Uma vez que tenhamos perdoado
alguém num ponto, não devemos mencioná-lo
novamente. Toda vez que mencionamos uma ofensa,
supostamente perdoada, estamos puxando a cauda
do cão para mostrar aos outros que ele foi enterrado.
Se fizermos assim, isso indica que não liberamos
(perdoamos) aquele que nos ofendeu.
De acordo com o Novo Testamento, perdoar
significa esquecer e liberar. Precisamos esquecer a
ofensa e liberar o ofensor. Uma vez feito isso, jamais
devemos falar sobre o assunto de novo.

DAR AOS OUTROS


No versículo 38 o Senhor prossegue: “Dai, e dar-
se-vos-á; boa medida, recalcada, sacudida,
transbordante, no vosso regaço vos darão; porque
com a medida com que medirdes medir-se-vos-a em
troca”. M. R. Vincent enfatizou que aqui “regaço”
denota a “dobra formada quando se juntam as duas
abas duma veste larga, amarradas com cinto,
formando assim uma algibeira”. Aqui o Senhor diz
que, quando damos aos outros, nosso Pai no céu
sempre nos devolve muito mais do que demos.
Certa vez ouvi de um irmão que pensava em dar
um presente a alguém. Nesse caso, o presente eram
alguns peixes. Primeiro, ele teve a ideia de dar dez
peixes. Mas, quanto mais pensava a respeito, mais
reduzia o número. Em dado instante, percebeu que a
136 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

ideia de dar menos era uma tentação do inimigo.


Zangado com o diabo, ele lhe disse: “Satanás, se você
continuar a me tentar, eu darei tudo”. Isso ilustra
como precisamos ter disposição em dar. Se dermos,
receberemos de volta. O que medimos também será
medido para nós.

UMA PARÁBOLA PROFUNDA


O versículo 39 diz: “Disse-lhes também uma
parábola: Pode porventura um cego guiar outro cego?
Não cairão ambos numa cova?”. No momento em que
foi falada, essa palavra poderia aplicar-se aos líderes
entre os judeus. Em Mateus 15:14 o Senhor chamou
os religiosos arrogantes e cheios de justiça própria de
“guias cegos de cegos”. Eles pensavam que sabiam
servir a Deus, mas não percebiam que seus olhos
estavam velados pela religião com suas tradições.
Desse modo, não conseguiam ver a realidade da
economia divina. Sua cegueira guiou-os a cair na
cova.
A parábola em Lucas 6:39 é simples, contudo
revela a sabedoria divina do Salvador-Homem.
Duvido que algum filósofo falaria essa parábola.

TORNAR-SE COMO O MESTRE


Em 6:40 o Senhor prossegue: “O discípulo não
está acima do seu mestre; todo aquele, porém, que
for aperfeiçoado será como o seu mestre”. O mestre
aqui é Cristo. Quando nós, os discípulos, formos
aperfeiçoados, seremos como nosso mestre, Cristo.

TIRARA TRAVE DO PRÓPRIO OLHO


Em 6:41-42 o Senhor diz: “Por que vês tu o
13
MENSAGEM QUINZE

argueiro que está no olho de teu irmão, porém não


consideras a trave que está no teu próprio olho?
Como podes dizer a teu irmão: Irmão, deixa-me tirar
o argueiro que está no teu olho, não vendo tu a trave
que está no teu? Hipócrita, tira primeiro a trave do
teu olho, e então verás claramente para tirar o
argueiro que está no olho de teu irmão”. Como filhos
de Deus, vivendo num espírito humilde, devemos
primeiro tirar a trave de nosso olho, toda vez que
formos olhar o argueiro no olho de nosso irmão. O
argueiro no olho do irmão nos faz lembrar da trave
em nosso olho. Uma vez que a trave permanece em
nosso olho, nossa vista fica embaçada e não podemos
ver claramente.

MAIS PALAVRAS DE SABEDORIA


Em 6:43-44 o Senhor diz: “Porque não há árvore
boa que dê fruto ruim; nem tampouco árvore ruim
que dê fruto bom. Pois cada árvore é conhecida pelo
seu próprio fruto. Porque não se colhem figos de
espinhos, nem da sarça se vindimam uvas”. Essas
palavras também são bem simples, mas indicam que
o Salvador-Homem estava cheio da sabedoria divina.
O que ele falou sobre o cego guiar cegos, o argueiro
no olho do irmão e a trave no próprio olho, e a árvore
ser conhecida pelo fruto expressam Sua sabedoria.
No versículo 45, o Senhor diz que o homem bom
do bom tesouro do coração tira o que é bom, e o
homem mau do mau tesouro do coração tira o que é
mau. Então Ele explica que a boca fala do que está
cheio o coração. Depois disso, pergunta: “Por que Me
chamais, Senhor, Senhor, e não fazeis o que Eu digo?”
(v 46).
138 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

PRATICAR AS PALAVRAS DO SENHOR


Em 6:47-49, o Senhor Jesus diz: “Todo aquele
que vem a Mim e ouve as Minhas palavras e as
pratica, Eu vos mostrarei a quem é semelhante. É
semelhante a um homem que, edificando uma casa,
cavou, abriu profunda vala e lançou o alicerce sobre a
rocha; e, vindo a enchente, arrojou-se a torrente
contra aquela casa, e não a pôde abalar, por ter sido
bem edificada. Mas o que ouve e não pratica é
semelhante a um homem que edificou uma casa
sobre a terra, sem alicerce, contra a qual arrojou-se a
torrente, e logo caiu; e foi grande a ruína daquela
casa”. Casa aqui se refere tanto a nosso ser como a
nosso labor e conduta. Se nosso ser está de acordo
com a palavra do Senhor, terá fundação adequada.
Do mesmo modo, se nosso labor for baseado na
palavra do Senhor, terá fundamento sólido. Se nosso
ser e obra forem baseados na palavra do Senhor,
serão capazes de resistir a qualquer teste, qualquer
“enchente” ou “torrente”. Mas, se não forem
fundados na palavra do Senhor, a torrente os levará
embora.
A “rocha” em 6:48 não se refere a Cristo. Antes,
refere- se à palavra sábia do Senhor, a palavra que
revela a vontade de Deus Pai. Nosso ser e obra têm
de ser fundamentados na palavra do Salvador-
Homem para o cumprimento da vontade de nosso
Pai.
A casa que é edificada na rocha e não é abalada
pela torrente é como a obra de edificação em ouro,
prata e pedras preciosas, que conseguem resistir ao
fogo (1Co 3:12-13). Mas a casa edificada sobre a terra
sem fundamento e que cai quando a torrente se
13
MENSAGEM QUINZE

arroja contra ela é como o trabalho de edificação de


madeira, feno e palha, que serão queimados pelo fogo
provador, embora o edificador mesmo será salvo
(1Co 3:12-15).
140 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

UMA CLARA VISÃO


DO MAIS ALTO PADRÃO DE MORALIDADE
O ensinamento do Senhor em 6:17-49 nos dá
uma clara visão do mais alto padrão de moralidade.
Como alguém que estudou os escritos de Confúcio,
posso dizer que eles não apresentam esse padrão de
moralidade. O ensinamento mais elevado sobre
moralidade é o do Salvador-Homem. Ele próprio,
como Homem-Deus, tinha um viver que é o mais alto
padrão de moralidade. Sua vida, obra e poder de
salvar estão nesse mais alto padrão. O Senhor
conduziu Sua graça salvadora em Suas virtudes
humanas com Seus atributos divinos. Esse é o mais
alto padrão de moralidade, e todos precisamos
prestar cuidadosa atenção a isso.

NOSSA NECESSIDADE DA VIDA DIVINA


A fim de praticar os princípios descritos em 6:17-
49, precisamos da vida divina. Vida é o fator básico
para qualquer ser, atividade ou obra. Se não temos
certa vida, não conseguimos ter o ser correspondente
nem podemos ter o comportamento ou a obra
correspondentes. Por exemplo, a macieira tem vida
de macieira. Para uma árvore ser macieira, tem de ter
a vida de macieira. De modo semelhante, um macaco
tem vida de macaco. Para um animal ser macaco, ele
tem de ter a vida primata. Somente tendo a vida de
macaco, é possível que um animal se comporte como
macaco. O importante é que, se temos determinado
ser e nos comportamos de certo modo, precisamos
ter a vida correspondente. Vida é o fator básico do
nosso ser, comportamento e obra.
O Salvador-Homem tem a vida descrita em
14
MENSAGEM QUINZE

Lucas 6. Antes de morrer e ressuscitar, Ele mesmo


viveu essa vida, mas mediante a ressurreição tornou-
se o Espírito que dá vida e agora vive em nós. Seu
desejo é viver em nós a mesma vida que viveu na
terra.
Em Filipenses 1:21, Paulo fala do Cristo vivo.
Quando estava na terra, como Homem-Deus, Ele
teve um viver segundo o mais alto padrão de
moralidade. Ele agora está em nós para que O
vivamos. Na verdade, Ele mesmo é o mais alto
padrão de moralidade, pois é o homem criado por
Deus em Gênesis 1 mais a árvore da vida de Gênesis 2.
Esse mais alto padrão de moralidade é agora uma
Pessoa que vive em nós e torna possível que vivamos
em Cristo. Esse é o motivo de Paulo dizer em
Filipenses 4:8: “Finalmente, irmãos, tudo o que é
verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é
justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o
que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum
louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso
pensamento”. Isso é viver segundo o mais alto padrão
de moralidade, uma moral idade que é na verdade
uma Pessoa, Cristo, o Homem-Deus.
Em 6:17-49 o Senhor nos ensina o mais alto
padrão de moralidade. Espero que muitos nos
aprofundemos nesse ensinamento. Se lermos-
orarmos esses versículos e os digerirmos, isso afetará
nosso andar diário.

O ENSINAMENTO DO SENHOR
NÃO PROVINHA DE SI MESMO
O ensinamento em 6:17-49 foi dado pelo
Homem-Deus depois de ter orado a noite inteira e ter
designado doze para apóstolos. O fato de ter orado a
142 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

noite toda indica que Ele não iniciou Seu


ensinamento nem era a fonte dele.
Antes de ensinar os discípulos na presença de
uma multidão de incrédulos, o Senhor Jesus orou.
Orar é sair de nós mesmos e entrar em Deus. Sem
dúvida, depois de despender a noite toda em oração,
o Senhor estava totalmente fora de Si e em Deus Pai.
Por isso foi no Pai, e não em Si mesmo que Ele
designou os doze e ensinou aos discípulos o mais alto
padrão de moralidade. Seu ensinamento, por isso,
não resultou de Si mesmo, mas de Deus Pai.
Precisamos ter compreensão clara desse pano de
fundo do ensinamento do Senhor no capítulo seis.
Senão, não passaremos da superfície desse trecho de
Lucas.
14
MENSAGEM QUINZE

DOIS ELEMENTOS BÁSICOS


NO ENSINAMENTO DO SENHOR
A vida divina como fonte

O ensinamento do Senhor em 6:17 -49 tem dois


elementos básicos: a palavra divina e a vida divina.
Como sabemos que o ensinamento do Senhor aqui se
baseia nesses dois elementos? Considere o que Ele
diz nos versículos 35-36: “Amai, porém, os vossos
inimigos, fazei o bem e emprestai, nada esperando
em troca; e será grande o vosso galardão, e sereis
filhos do Altíssimo; pois Ele é benigno até para com
os ingratos e maus. Sede compassivos, como também
é compassivo vosso Pai”. Esses versículos descrevem
o viver dos filhos do Altíssimo. A expressão “filhos do
Altíssimo” com certeza implica a vida divina. Se não a
tivéssemos, como poderíamos ser filhos do
Altíssimo? Seria, é claro, impossível. O viver que está
de acordo com o mais alto padrão de moral idade
resulta da vida divina com a qual nascemos do
Altíssimo. Por isso esses versículos definitivamente
se referem à vida divina.
Outra indicação da vida divina é encontrada nos
versículos 43-44: “Porque não há árvore boa que dê
fruto ruim; nem tampouco árvore ruim que dê fruto
bom. Pois cada árvore é conhecida pelo seu próprio
fruto. Porque não se colhem figos de espinhos, nem
da sarça se vindimam uvas”. Podemos dizer que dar
fruto é o viver da árvore. Toda árvore frutífera tem
sua vida, que é a fonte do fruto que produz. O viver
advém da vida. A vida é a fonte e o viver é o resultado.
Aqui o Senhor diz que nós, Seus discípulos, somos as
boas árvores com a vida divina. Dessa vida resultará
um viver que é a expressão do Deus Triúno.
144 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

Não é possível para nós, em nós mesmos, amar


os inimigos, mas temos em nós uma vida que os ama,
a vida divina. Essa vida é a fonte do mais alto padrão
de moralidade. Essa moralidade, por isso, é o
resultado e a expressão da vida divina. Tanto os
filhos do Altíssimo no versículo 35 como as boas
árvores no 43 indicam que a fonte dessa moralidade
é a vida divina. É de vital importância ver isso.
Confúcio não era capaz de apresentar esse
ensinamento que temos em 6:17-49 porque não tinha
a vida divina nem a conhecia. Mas Jesus, o Homem-
Deus, a conhecia e a possuía. Num sentido bem real,
Ele mesmo era a vida divina e transmitia-Se aos
discípulos como tal. Assim, Seu ensinamento, na
verdade, expressava o que Ele mesmo é. Porque vivia
de acordo com o mais alto padrão de moral idade, Ele
ensinava essa moralidade aos discípulos.

A palavra como expressão


Em 6:47-48 temos a menção clara da palavra do
Senhor: “Todo aquele que vem a Mim e ouve as
Minhas palavras e as pratica, Eu vos mostrarei a
quem é semelhante. É semelhante a um homem que,
edificando uma casa, cavou, abriu profunda vala e
lançou o alicerce sobre a rocha; e, vindo a enchente,
arrojou-se a torrente contra aquela casa, e não a pôde
abalar, por ter sido bem edificada”. Aqui vemos que,
se vivermos e laborarmos de acordo com a palavra do
Senhor, teremos fundamento apropriado. A palavra
do Senhor é o fundamento de nosso ser,
comportamento e obra.
A palavra divina é a expressão da vida divina. A
vida é interior e a palavra é sua expressão. Na Bíblia,
a palavra é chamada de palavra de vida (1Jo 1:1; At
14
MENSAGEM QUINZE

5:20). Nas Escrituras, a palavra divina e a vida divina


são consideradas uma coisa só. Como temos a vida
divina? É mediante a palavra. Quando recebemos a
palavra de vida, obtemos vida. Todos devemos ver
que o ensinamento do Salvador-Homem sobre o mais
alto padrão de moralidade é totalmente baseado na
vida divina com sua expressão: a palavra divina.

Vida, palavra e Espírito


Em João 6:63, o Senhor Jesus diz: “As palavras
que Eu vos tenho dito, são espírito e são vida”. Tanto
a vida como a palavra dependem do Espírito. Se não
houvesse Espírito, não haveria vida nem palavra real,
autêntica. A palavra, que é a palavra de realidade, é
na verdade o Espírito. Assim, a fim de ter a vida e a
palavra divinas, precisamos ter o Espírito.
Hoje o Espírito é o Cristo ressurreto. Em
ressurreição, Ele se tomou o Espírito que dá vida
(1Co 15:45). Agora O temos e também a vida e a
palavra. Desejo enfatizar que o Espírito é na verdade
o Cristo que passou pela morte e entrou em
ressurreição. Cristo em ressurreição é o Espírito, e
esse Espírito é vida e a palavra.

Viver o mais alto padrão de moralidade


pela vida divina e mediante a palavra divina
A fim de compreender Lucas 6:17-49, o
ensinamento do Homem-Deus sobre o mais alto
padrão de moralidade, precisamos ter uma visão do
Novo Testamento como um todo. Sem a visão
adequada de todo o Novo Testamento ao ler 6:17-49,
ficamos desorientados e entendemos esse trecho de
Lucas de forma natural. Alguns que falam a respeito
146 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

desses versículos, falam de forma totalmente natural.


Nunca tocaram o elemento do ensinamento do
Senhor aqui. Como já enfatizamos, o ensinamento do
Salvador-Homem sobre o mais alto padrão de
moralidade depende dos elementos da vida divina,
que é a fonte, e da palavra divina, que é a expressão.
Como podemos ter o mais alto padrão de
moralidade? Podemos tê-lo pela vida divina e
mediante a palavra divina.

ESTUDO-VIDA DE LUCAS

MENSAGEM DEZESSEIS
O MINISTÉRIO DO SALVADOR-HOMEM
EM SUAS VIRTUDES HUMANAS
COM SEUS ATRIBUTOS DIVINOS NA
GALILEIA
(6)
Leitura Bíblica: Lc 7:1-35

Em 7:1-35 três tópicos são abordados: o


Salvador-Homem curou o moribundo com uma
palavra (vs. 1-10), mostrou compaixão a uma mãe
chorosa, ressuscitando seu filho morto (vs. 11-17), e
fortaleceu Seu precursor (vs. 18-35). Pode parecer
que não há conexão entre esses três exemplos, mas,
na verdade, estão relacionados entre si.

CUROU O MORIBUNDO COM UMA


PALAVRA
Lucas 7:1-2 diz: “Tendo Jesus acabado de
proferir todas as Suas palavras aos ouvidos do povo,
14
MENSAGEM DEZESSEIS

entrou em Cafamaum. E um servo de certo centurião,


a quem este muito estimava, estava doente, quase à
morte”. Um centurião era o comandante de cem
soldados no exército romano. Esse centurião
representa os gentios crentes, que são salvos
mediante a fé na palavra do Senhor (v. 7).
Tendo ouvido sobre Jesus, esse centurião
“enviou-Lhe alguns anciãos dos judeus, pedindo-Lhe
que viesse curar o seu servo” (v. 3). Quando esses
anciãos chegaram até Jesus, “rogavam-Lhe com
instância, dizendo: Ele é digno que lhe concedas isso;
porque ama a nossa nação, e ele mesmo nos edificou
a sinagoga” (vs. 4-5).
Enquanto o Salvador-Homem estava a caminho
da casa do centurião, este enviou amigos, dizendo-
Lhe: “Senhor, não te incomodes, porque não sou
digno de que entres debaixo do meu teto; por isso
nem a mim mesmo me julguei digno de ir ter
Contigo; mas dize uma palavra, e seja curado o meu
criado” (vs. 6-7). No versículo 8 o centurião mandou
dizer algo mais ao Senhor Jesus por meio de seus
amigos: “Pois também eu sou homem sujeito à
autoridade, e tenho soldados às minhas ordens; e
digo a este: Vai, e ele vai; e a outro: Vem, ele vem; e
ao meu servo: Faze isto, e ele o faz” (v. 8).
Em 7:1-1 O vemos autoridade e palavra de
autoridade. O centurião parecia dizer ao Salvador-
Homem: “Senhor, não sou digno de ir ver-Te ou de
que venhas à minha casa. Contudo sei o que é
autoridade. Estou debaixo da autoridade de outros e
outros estão sob minha autoridade. Tudo o que
preciso é falar a um dos soldados, e ele faz o que digo.
Eu sei, Senhor, que Tu és a autoridade no universo”.
Como esse centurião romano, um gentio, veio a
148 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

conhecer a autoridade do Senhor? De acordo com o


versículo 5, ele amava a nação judaica e edificara
uma sinagoga para os judeus. Com isso vemos que
provavelmente tinha algum conhecimento do Antigo
Testamento. Além disso, ele se referiu ao Salvador-
Homem como Senhor. Portanto percebeu que Ele
tinha autêntica autoridade.
O centurião também conhecia o significado da
palavra de autoridade. Essa foi a razão de dizer ao
Salvador-Homem: “Dize uma palavra, e seja curado o
meu criado” (v. 7). Ele conhecia autoridade e a
palavra como expressão de autoridade. O criado do
centurião foi de fato curado pela palavra do Salvador-
Homem.
Em 7:9 o Senhor Jesus maravilhou-se da fé do
centurião: “Ouvindo isso, admirou-se Jesus dele e,
voltando-se para a multidão que O seguia, disse:
Afirmo-vos que nem mesmo em Israel achei tamanha
fé”. O centurião gentio reconheceu a autoridade do
Salvador-Homem e percebeu que Sua palavra tinha
autoridade para curar. Assim, ele creu não só no
Salvador-Homem, mas também em Sua palavra. Ele
pediu ao Senhor que não fosse pessoalmente, mas
apenas enviasse Sua palavra. O Salvador-Homem
maravilhou-se com tal grande fé.
Nesse caso também vemos que as virtudes
humanas do Senhor com Seus atributos divinos
foram expressos no fato de ele ir à casa do centurião.
Ele é o Senhor de todo o universo, no entanto, estava
disposto a ir ver um oficial do exército romano. O
centurião tinha somente cem soldados sob sua
autoridade, mas o Senhor tem todo o universo. Na
virtude humana do Salvador-Homem, Seu atributo
divino de autoridade foi expresso. Ele disse uma
14
MENSAGEM DEZESSEIS

palavra e o criado do centurião foi curado. Aqui


vemos o atributo divino do Senhor manifestado em
Sua virtude humana.

MOSTROU COMPAIXÃO À MÃE CHOROSA,


RESSUSCITANDO-LHE O FILHO
Em 7:11-17 vemos o Salvador-Homem
mostrando compaixão à mãe chorosa ao ressuscitar-
lhe o filho. Os versículos 11-13 dizem: “E sucedeu que
em seguida Ele foi a uma cidade chamada Naim, e
iam com Ele os Seus discípulos e numerosa multidão.
Quando se aproximou da porta da cidade, eis que
levavam para fora um morto, filho único de sua mãe,
que era viúva; e considerável multidão da cidade
estava com ela”. Essa situação era muito triste, e
ninguém poderia fazer coisa alguma para consolar a
viúva sofredora. Primeiro, ela perdera o marido, e
agora perdera o único filho.
Esse caso é singular no tocante à miséria que
retrata: o filho único de uma viúva era levado num
caixão. A compaixão do Salvador também foi singular
em Sua comiseração amorosa: em Sua tema
misericórdia, ofereceu Seu poder de ressurreição
para ressuscitar o filho da viúva, sem que isso Lhe
fosse pedido. Isso demonstra Sua singular comissão,
que era salvar os pecadores perdidos (19:10), e
evidencia o Seu alto padrão moral, como Salvador-
Homem, ao salvar os pecadores.
Lucas 7:13-15 diz: “Vendo-a, o Senhor se
compadeceu dela e lhe disse: Não chores! Chegando-
se, tocou o esquife; e os que o levavam pararam.
Então disse: Jovem, a ti te digo: Levanta-te. Sentou-
se o morto e começou a falar; e Jesus o entregou à
sua mãe”. Aqui vemos a compaixão do Salvador-
150 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

Homem ao falar à viúva e ao tocar o esquife. Quando


tocou o esquife, os que o carregavam pararam. Ele,
então, ordenou que o filho morto da viúva se
levantasse. Esses são os atributos divinos do Senhor
expressos em Suas virtudes humanas.
Em Sua compaixão, o Salvador-Homem falou à
viúva e tocou o esquife. Não Lhe foi pedido que
fizesse isso. Mas, vendo a situação, Ele iniciou a ação
que fez o filho morto ressuscitar. Para grande
surpresa dos presentes, Ele iniciou essa ação de
acordo com Suas virtudes humanas. Que O fez ser
tocado de compaixão? O motivo foi Sua virtude
humana. Então, em Sua virtude humana, Seus
atributos divinos foram expressos ressuscitando o
jovem dentre os mortos.
Novamente vemos que o Senhor Jesus é cheio
das virtudes humanas e dos atributos divinos.
Ressuscitando o filho e entregando-o à sua mãe,
vemos a expressão dos atributos divinos do Salvador-
Homem em Suas virtudes humanas.
Lucas, que escreveu esse evangelho de acordo
com a sequência da moral idade, colocou juntos os
dois casos: a cura do criado do centurião e a
ressurreição do filho da viúva. No caso da cura do
criado do centurião vemos a autoridade do Senhor,
mas no caso da ressurreição do filho da viúva vemos
Sua afeição. Quando tocou o esquife, Ele mostrou
solidariedade, afeição e amor. Por isso o primeiro
caso trata de autoridade; o segundo, de solidariedade
afetuosa. Nos dois casos, vemos o Salvador-Homem
em Suas virtudes humanas com Seus atributos
divinos.
Na verdade, em ambos os casos, vemos a
autoridade do Salvador-Homem. Falar uma palavra
15
MENSAGEM DEZESSEIS

para que o criado do centurião fosse curado implica


autoridade, entretanto a autoridade expressa aqui
não é tão elevada quanto à revelada na ressurreição
do filho da viúva. Quando colocamos esses dois casos
juntos, vemos que o Salvador-Homem, o Homem-
Deus, era cheio de virtudes humanas com os
atributos divinos.

FORTALECEU SEU PRECURSOR


Lucas 7:18 diz: “Os discípulos de João
informaram-no de todas essas coisas”. João Batista, o
precursor de Cristo, estava na prisão. Parecia que
Aquele que tinha autoridade e solidariedade não faria
nada por João. Pelo contrário, era como se o tivesse
esquecido. Os discípulos de João podem ter ficado
aborrecidos com isso e lhe relataram essas coisas.
Talvez tivessem ficado perturbados com o fato de que
o Salvador-Homem, que curara o criado do centurião
e ressuscitara o filho da viúva, nada fazia por João
Batista.
Os versículos 19-20 continuam: “E João,
chamando a si dois de seus discípulos, enviou-os ao
Senhor para perguntar: És Tu Aquele que havia de
vir, ou devemos esperar outro? Quando os homens
chegaram junto Dele, disseram: João Batista enviou-
nos a Ti para perguntar:
És Tu Aquele que havia de vir, ou devemos esperar
outro?” A palavra de João Batista aqui não significa
que estivesse em dúvida sobre Cristo. Ele O
questionava dessa forma a fim de induzi-Lo a libertá-
lo. Ele sabia que Cristo era Aquele que viria e ele O
tinha vigorosamente recomendado ao povo (Jo 1:26-
36). Depois disso, foi colocado na prisão e lá esperou,
aguardando que Cristo fizesse algo para libertá-lo. O
152 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

Senhor, porém, nada fez por ele, embora fizesse


muito para ajudar os outros. Quando João ouviu isso,
ele corria o risco de tropeçar (Lc 7:23). Daí enviou
seus discípulos ao Senhor com a pergunta
instigadora.
Está correto considerar juntos os três casos em
7:1-35. O Senhor fez algo pelo centurião e pela viúva,
que não estavam relacionados com Ele, mas nada fez
por Seu precursor, lançado na prisão por Sua causa.
Embora fizesse muitas coisas pelos outros, o
Salvador-Homem nada fez por João Batista. Foi por
isso que João tentou induzir o Senhor Jesus a fazer
algo por ele.
Em 7:22-23 temos a resposta do Senhor à
pergunta de João Batista: “I de anunciar a João o que
vistes e ouvistes: os cegos veem, os coxos andam, os
leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos
são ressuscitados, aos pobres está sendo anunciado o
evangelho. E bem-aventurado é aquele que não achar
em Mim motivo de tropeço”. No versículo 22, o
Senhor primeiro fala do cego receber a vista. Não
houve milagre assim no Antigo Testamento. Com isso,
Ele deu clara evidência a João de que somente o
Messias poderia ter feito tal milagre (Is 35:5).
No sentido espiritual, o cego recebendo a vista
vem também em primeiro lugar. Na salvação do
Senhor, Ele primeiro abre nossos olhos (At 26:18).
Depois podemos recebê-Lo e caminhar para segui-Lo.
O coxo representa os que não conseguem andar
no caminho de Deus. Depois de salvo, o coxo pode
caminhar pela nova vida (105:8-9).
O surdo representa os que não conseguem ouvir
Deus. Depois de salvos, eles podem ouvir a voz do
Senhor (Jo 10:27).
15
MENSAGEM DEZESSEIS

O morto representa os que estão mortos em


pecados (Ef 2:1, 5), incapazes de contatar Deus.
Depois de regenerados, eles podem ter comunhão
com Deus mediante seu espírito regenerado.
O pobre representa todos que não têm Cristo,
que não têm Deus nem esperança no mundo (Ef
2:12). Ao receber o evangelho, eles se tornaram ricos
em Cristo (2Co 8:9; Ef3:8).
Que você diria se fosse João e recebesse a
palavra proferida pelo Senhor no versículo 22?
Talvez dissesse: “Não quero ouvir esse relatório.
Senhor, que farás a meu respeito? Tu dás vista aos
cegos, fazes o coxo andar, purificas os leprosos, fazes
com que os surdos ouçam, ressuscitas os mortos e
trazes as boas-novas aos pobres. Gostaria de ouvir
algumas boas-novas sobre minha situação. Senhor,
que farás por mim? Ainda estou na prisão. Não
proclamaste o jubileu e libertação aos cativos?
Senhor, quero que me libertes”.
No versículo 23 o Senhor disse a João: “Bem-
aventurado é aquele que não achar em Mim motivo
de tropeço”. Essas palavras implicam que João
Batista estava a ponto de tropeçar porque o Senhor
não agiu em seu favor segundo seu modo de pensar.
Aqui o Senhor o encorajou a tomar o caminho que
Ele lhe ordenara para ser abençoado.
No versículo 23 o Senhor parecia dizer: “João, fiz
muitas coisas pelos outros, mas nada farei por você.
Não tropece em Mim. Bem-aventurado o que não
tropeça em Mim”.
Creio que a palavra do Senhor no versículo 23
fortaleceu João para o martírio que lhe sobreviria.
João sabia que Cristo podia fazer qualquer coisa, mas
nada faria por ele. Embora pudesse ter feito alguma
154 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

coisa, o Senhor tinha o direito de não fazer nada.


João deve ter sido convencido pela palavra do Senhor
e fortalecido por ela.
Em 7:24- 28 o Senhor Jesus falou às multidões
sobre João Batista. No versículo 26 Ele disse que
João era “muito mais que profeta”. No versículo 27
ainda disse: “Este é aquele de quem está escrito: Eis
que Eu envio diante da Tua face o Meu mensageiro, o
qual preparará o Teu caminho diante de Ti”.
Malaquias 4:5 profetizou que Elias viria. Quando
João Batista foi concebido, foi dito que ele iria diante
do Senhor no espírito e poder de Elias (Lc 1:17). Daí,
em certo sentido, João pode ser considerado “Elias,
que estava para vir” (Mt 11:14). Porém a profecia de
Malaquias 4:5 na verdade será cumprida na grande
tribulação, quando o verdadeiro Elias, uma das duas
testemunhas, virá para fortalecer o povo de Deus (Ap
11:3-12).
Em Lucas 7:31-32 o Senhor Jesus também disse:
“A que, pois, compararei os homens desta geração, e
a que são eles semelhantes? São semelhantes a
crianças que estão sentadas na praça e chamam umas
pelas outras, dizendo: Nós vos tocamos flauta, e não
dançaste; entoamos lamentações e não chorastes”. Os
fariseus e doutores da lei (v. 30) pensavam que eram
experientes e conhecedores da lei de Deus, mas no
versículo 32 o Senhor os compara a crianças.
Cristo e João Batista “tocaram flauta” para
pregar o evangelho do reino, mas os fariseus e
doutores da lei “não dançaram” pelo gozo da salvação.
João e o Senhor Jesus também “entoaram uma
lamentação” para pregar arrependimento, mas esses
“não choraram” lamentando o pecado. A justiça de
Deus exigia que se arrependessem, mas eles não
15
MENSAGEM DEZESSEIS

quiseram obedecer. A graça de Deus proporcionou-


lhes salvação, mas eles não quiseram recebê-la.
No versículo 33 o Senhor continua: “Pois veio
João Batista, que não comia pão nem bebia vinho, e
dizeis: Tem demônio”. João Batista, que veio para
conduzir os homens ao arrependimento e fazer com
que lamentassem pelo pecado, não tinha gosto por
comer ou beber (1:15-17). Visto que João Batista vivia
de forma estranha e peculiar, não comendo nem
bebendo de forma comum, os opositores o acusaram
de estar possuído por demônio.
No versículo 34, o Senhor diz: “Veio o Filho do
Homem, que come e bebe, e dizeis: Eis aí um glutão e
bebedor de vinho, amigo de cobradores de impostos
e de pecadores!”. Cristo não só é o Salvador, mas
também o Amigo dos pecadores, Aquele que se
solidarizava com seus problemas e sentia seus
sofrimentos. Ele veio trazer salvação aos pecadores e
fazer com que se alegrassem nela. Assim, Ele tinha
gosto em comer e beber com eles.
Em 7:31-34 o Senhor Jesus na verdade
repreendeu aquela geração. Quando proclamou o
jubileu, aquilo foi o toque da “flauta”. Mas os homens
daquela geração não reagiram dançando. De modo
semelhante, quando Ele e João Batista entoaram
lamentação, as pessoas não se arrependeram. Pelo
contrário, disseram que João tinha demônio e o
Senhor era glutão, bebedor de vinho e amigo de
cobradores de impostos e pecadores.
No versículo 35 o Senhor conclui: “Mas a
sabedoria é justificada por todos os seus filhos”. Essa
sabedoria é Cristo (1Co 1:24, 30). Tudo o que Cristo
fez foi pela sabedoria de Deus, que é Ele mesmo. Essa
sabedoria é justificada por todos os seus filhos. Os
156 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

que creem em Cristo são os filhos da sabedoria, os


que justificam Cristo e Seus feitos e seguem-No como
sua sabedoria.

ESTUDO-VIDA DE LUCAS

MENSAGEM DEZESSETE
O MINISTÉRIO DO SALVADOR-HOMEM
EM SUAS VIRTUDES HUMANAS
COM SEUS ATRIBUTOS DIVINOS NA
GALILEIA
(7)
Leitura Bíblica: Lc 7:36-50

Lucas 7:36-8:21 aborda quatro tópicos: o


Salvador-Homem perdoou pecadores (7:36-50), foi
assistido pelas mulheres (8:1-3), ensinou com
parábolas (8:4- 18) e identificou Seus verdadeiros
parentes (8:19-21). Primeiro, vemos que os pecadores
são perdoados não por causa do seu amor, mas de
sua fé no Senhor. A fé, e não o amor, é o que faz com
que experimentemos o perdão de pecados. Segundo,
os salvos, aqueles cujos pecados foram perdoados,
seguem o Senhor e O assistem. Terceiro, aqueles que
foram perdoados e agora amam o Senhor, seguem-
No e assistem-No devem crescer em vida e brilhar
como lâmpadas. Por fim, eles se tornam os
verdadeiros parentes do Salvador-Homem. Com isso,
vemos que os quatro tópicos abordados em 7:36-8:21
seguem juntos em nossa experiência espiritual. Nesta
mensagem, consideraremos 7:36-50 e, na mensagem
seguinte, 8:1-21.
15
MENSAGEM DEZESSETE

UM CASO DE PERDÃO DE PECADOS


A vida cristã começa com o perdão de pecados
mediante nossa fé no Salvador. Em 7:36-50 Lucas
apresenta de forma muito eficaz um caso de perdão
de pecados. Aqui, temos uma vívida descrição de
uma pecadora experimentando o perdão de pecados.
Esse trecho de Lucas é uma narrativa afetuosa desse
caso.

Um fariseu e uma pecadora


Lucas 7:36 diz: “Pediu-Lhe um dos fariseus que
comesse com ele. E, entrando na casa do fariseu,
reclinou- se à mesa”. Nesse versículo Lucas não diz
que o fariseu preparou uma festa e convidou o
Senhor Jesus para comer com ele. Antes, só diz que
pediu ao Salvador que comesse com ele. Isso pode
indicar que o fariseu convidou o Senhor de maneira
bem fria, isto é, não lhe fez um convite caloroso,
cheio de afeição. O Salvador-Homem, porém, foi à
casa do fariseu para comer com ele.
Por causa de quem o Salvador-Homem foi à casa
do fariseu? Será que foi por causa do fariseu ou da
mulher? Creio que tenha ido por causa dos dois. Em
Sua onisciência Ele sabia que a mulher entraria na
casa. Podemos dizer que, aceitando o pedido do
fariseu para comer em sua casa, o Senhor
proporcionou à mulher a oportunidade de contatá-Lo.
Senão, essa pecadora conhecida por sua
pecaminosidade poderia não ter tido como contatá-
Lo. Aceitando o pedido do fariseu para ir à sua casa
comer, o Senhor deu uma oportunidade a essa
pecadora salva de expressar seu amor por Ele.
Em 7:36-50, Lucas não nos diz o que o anfitrião
158 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

fez para o Senhor. Nada há para indicar que o fariseu


foi cortês e amoroso para com Ele. Na verdade, Lucas
não diz muito sobre o anfitrião. Entretanto tem
muito a dizer sobre o que a mulher fez ao Senhor
Jesus.
Os versículos 37-38 dizem: “E eis que havia na
cidade uma mulher, que era pecadora, e, sabendo
que Ele estava reclinado à mesa na casa do fariseu,
levou um vaso de alabastro com unguento; e, estando
por detrás, aos Seus pés, chorando, começou a regar-
Lhe os pés com as lágrimas, e os enxugava com os
cabelos da sua cabeça; e beijava- Lhe os pés
afetuosamente, e os ungia com o unguento”. Os
cabelos são a glória da mulher (1Co 11:15) e estão na
parte mais elevada do corpo. Com sua parte mais
elevada, ela enxugou os pés do Salvador, a parte mais
baixa do corpo Dele, amando-O com a glória dela.
A mulher beijava os pés do Senhor
afetuosamente, isto é, em amor, e os ungia com o
unguento (v. 38). Esse unguento demonstra o apreço
dela pelas palavras valiosas e pelo dulçor do Salvador.
Até mesmo os pés Dele eram preciosos e agradáveis
ao afeto dela.
No versículo 39 vemos que o fariseu criticou a
mulher e a desprezou: “Ao ver isso, o fariseu que O
convidara disse consigo mesmo: Se este fosse profeta,
saberia quem e que tipo de mulher é a que O toca,
porque é pecadora”. A grande multidão que estava
em Naim, após ter testemunhado o poder de
ressurreição do Salvador, reconheceu-O como grande
profeta (v. 16). Contudo esse fariseu se indagava se
Ele era profeta. Não somente duvidou do Senhor,
mas também desprezou a mulher como pecadora.
Por Seu atributo divino da onisciência, o
15
MENSAGEM DEZESSETE

Salvador-Homem sabia o que Seu anfitrião dizia no


coração. Por ser Deus, Ele sabe o que está no coração
do homem. O versículo 40 diz: “Respondendo Jesus,
disse-lhe: Simão, uma coisa tenho a dizer-te. Ele
respondeu: Dize-a, Mestre”.

Um prestamista e dois devedores


Nos versículos 41-42 O Salvador-Homem disse
ao fariseu: “Certo prestamista tinha dois devedores:
um lhe devia quinhentos denários, e o outro
cinquenta. Não tendo eles com que pagar,
generosamente perdoou a ambos. Qual deles,
portanto, o amará mais?”. A palavra do Senhor aqui
indica que tanto Simão como a mulher eram
pecadores. Simão considerava a mulher pecadora,
mas não se considerava pecador e duvidava que o
Senhor soubesse que ela era pecadora, mas a
parábola do Salvador indicava que ambos eram
pecadores, devedores para com Ele.
De acordo com o versículo 42, quando os dois
devedores nada tinham para pagar o prestamista, ele
os perdoou gratuitamente. Isso indica que todos os
pecadores nada têm com que pagar sua dívida para
com Deus, seu Salvador. A palavra do Senhor aqui
também indica que já havia perdoado a ambos.
No versículo 42 o Senhor Jesus perguntou a
Simão qual dos devedores amaria mais o prestamista
como resultado de ele lhes ter perdoado. Isso indica
que amar ao Salvador é o resultado, não a causa, de
Seu perdão.
Nos versículos 44-46 o Senhor prosseguiu
dizendo a Simão: “Vês esta mulher? Entrei em tua
casa e não Me deste água para os pés; esta, porém,
regou os Meus pés com lágrimas e os enxugou com os
160 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

seus cabelos. Não Me deste ósculo; ela, entretanto,


desde que entrei, não tem cessado de Me beijar
afetuosamente os pés. Não Me ungiste a cabeça com
óleo; mas esta com unguento ungiu os Meus pés”. A
palavra do Salvador nesses versículos indica que
Simão deveria ter tomado a mulher como exemplo e
aprendido dela.
No versículo 47 o Senhor disse: “Por essa razão
te digo: Perdoados são os seus muitos pecados,
porque ela muito amou; mas aquele a quem pouco se
perdoa, pouco ama”. O grande amor da mulher foi
prova de que seus muitos pecados haviam sido
perdoados. O pouco amor de Simão testificava que
ele tinha experimentado só um pouco de perdão.

A encarnação do Deus perdoador


No versículo 48, O Salvador-Homem disse à
mulher: “Perdoados são os teus pecados”. Esse caso e
o do filho único da viúva de N aim (vs. 11-17) são
encontrados somente em Lucas. Eles demonstram o
cuidado terno do Salvador pelos mortos e pecadores,
e transmitem o princípio da moralidade como a
característica singular desse evangelho.
O versículo 49 diz: “Os que se reclinavam com
Ele à mesa começaram a dizer consigo mesmos:
Quem é este que até perdoa pecados?”. Simão não
percebera que esse Salvador-Homem era o próprio
Deus, o que tem autoridade para perdoar o pecado do
homem. O Salvador-Homem era a encarnação do
Deus que perdoa.
No versículo 50 temos a conclusão desse
incidente: “Mas Ele disse à mulher: A tua fé te
salvou; vai-te me paz”. A mulher perdoada não só
tinha amor para com o Senhor, mas fé Nele, uma fé
16
MENSAGEM DEZESSETE

que operava mediante o amor (Gl5:6) e resultava em


paz. A fé que a salvou conduziu-a ao Salvador em
amor e resultou em ela ir em paz.

FÉ, AMOR E PAZ


Fé, amor e paz são três virtudes cruciais ao
experimentar e desfrutar a salvação do Salvador. A fé
é gerada conhecendo-se o Salvador em Seu poder e
virtudes salvadores. O amor advém dessa fé e resulta
em paz em seguir o Salvador.
Você sabe qual é o propósito de Lucas em
apresentar esse quadro de perdão de pecados? Seu
propósito é retratar o Salvador-Homem com Seu
mais alto padrão de moralidade. Como já
enfatizamos, isso deve ser considerado como o
princípio subjacente no escrito de Lucas.
Especialmente nesse caso, podemos ver esse
princípio governante. Aqui temos um retrato do mais
alto padrão de moralidade do Senhor.

A fé vem antes do perdão


Nesse caso, precisamos prestar atenção a três
pontos: fé, amor e paz. Quando jovem, li esse
capítulo e pensei que o amor da mulher pelo Salvador
era a causa de ser perdoada dos pecados. Pensava
que Ele a perdoara porque ela O amara. Essa
compreensão não está correta.
No versículo 50 o Senhor disse à mulher que sua
fé, e não seu amor, a havia salvado. Além disso, com
relação aos dois devedores perdoados pelo
prestamista, o Senhor perguntou: “Qual deles,
portanto, o amará mais?” (v. 42). Isso indica
claramente que amor resulta do perdão. Sobre isso,
162 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

precisamos prestar atenção à palavra “portanto” no


versículo 42. Essa palavra prova que amor vem
depois do perdão, em vez de precedê-la.
Qual, então, é a causa do perdão de pecados?
Pelo versículo 50, vemos que a causa é fé. Foi a fé da
mulher que a salvou. Os pecados dela foram
perdoados não por causa de seu amor, e sim de sua fé.
Por isso a fé vem antes do perdão, e o amor segue a fé.

O amor provém da fé
É muito importante ver que o perdão vem antes
do amor. Não devemos pensar que nosso amor é a
causa do perdão de pecados; antes, é resultado e
consequência da fé. Quando cremos no Senhor, a fé
se toma a causa de o Senhor nos perdoar os pecados.
Então, como resultado disso, começamos a amá-Lo.
Assim, o amor provém da fé.

O amor resulta em paz


O amor resulta em paz. Primeiro cremos no
Senhor Jesus, tendo fé Nele. Depois, temos os
pecados perdoados, e isso nos leva a amá-Lo. Quando
O amamos, esse amor resulta em paz. Então
podemos andar em paz. Andar em paz significa viver
em paz, ter uma vida de paz. Quando andamos em
paz, agimos em paz e vivemos uma vida pacífica. Isso
quer dizer que, quando cremos no Senhor, nós O
amamos e temos uma vida em paz. Eis a vida cristã.
Em 7:36-50 vemos fé, amor e paz. Temos fé no
Senhor, amor para com Ele e paz em segui-Lo, Visto
que cremos N ele, fomos perdoados dos pecados e
agora O amamos. Esse amor resulta numa vida de
paz. Como os que O amam, vivemos, caminhamos e
16
MENSAGEM DEZESSETE

agimos em paz.

UMA ATMOSFERA DE AFEIÇÃO


A atmosfera em 7:36-50 é de afeição. Há afeição
do lado do Salvador-Homem bem como do lado da
pecadora. A afeição do Senhor é um aspecto de Suas
virtudes humanas. De novo podemos ver nelas Seus
atributos divinos. Especificamente vemos o atributo
da autoridade divina ao perdoar os pecados de uma
pessoa. De acordo com o versículo 49, os que se
reclinavam com Ele à mesa disseram entre si: “Quem
é este que até perdoa pecados?” É o próprio Deus,
pois somente Ele tem autoridade para isso.
Os atributos divinos do Salvador-Homem são
também mostrados quando Ele concedeu paz à
pecadora perdoada. Apenas Deus pode dar paz a um
pecador perdoado. Você é capaz de dar paz aos
outros? Não está em nossas mãos conceder paz. Paz
está na mão todo-poderosa de Deus. Somente Ele
pode perdoar pecados e dar paz. Por isso o perdão de
pecados e a concessão de paz são atributos divinos,
que aqui são expressos nas virtudes humanas do
Salvador.
Em 7:36-50 vemos outra vez que o Salvador-
Homem salva pessoas no mais alto padrão de
moralidade. Segundo a ênfase de Lucas, o mais alto
padrão de moralidade são as virtudes humanas do
Salvador-Homem a expressar Seus atributos divinos.

ESTUDO-VIDA DE LUCAS

MENSAGEM DEZOITO
164 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

O MINISTÉRIO DO SALVADOR-HOMEM
EM SUAS VIRTUDES HUMANAS
COM SEUS ATRIBUTOS DIVINOS NA
GALILEIA
(8)
Leitura Bíblica: Lc 8:1-21

Em 7:36-50 temos uma narrativa do Salvador-


Homem perdoando pecadores. Depois, em 8:1-21,
três tópicos são abordados: o Salvador-Homem é
servido por mulheres (vs. 1-3), ensina com parábolas
(vs. 4-18) e identifica Seus verdadeiros parentes (vs.
19-21). Se considerarmos 7:36-8:21Como uma
unidade, veremos que, corno aqueles que tiveram os
pecados perdoados, devemos seguir o Senhor, servi-
Lo, crescer em vida e brilhar como lâmpadas. Por fim,
como tais, tomamo-nos os verdadeiros parentes do
Salvador-Homem. Abordamos 7:36-50 na mensagem
anterior. Nesta prosseguiremos considerando 8:1-21.

FOI SERVIDO POR MULHERES


Lucas 8:1 diz: “Aconteceu em seguida que
andava Jesus de cidade em cidade e de aldeia em
aldeia, pregando e anunciando o evangelho do reino
de Deus; e os doze iam com Ele”. A palavra grega
traduzida por “pregando” significa proclamar como
arauto. A palavra grega traduzida por “anunciando o
evangelho” é euangelízo, que quer dizer evangelizar,
anunciar boas-novas, proclamar as boas-novas,
pregar o evangelho. Por isso levar as boas- novas do
reino de Deus é pregar o reino de Deus como boas-
novas, como evangelho.
Nos versículos 2-3 Lucas também diz: “Bem
16
MENSAGEM DEZOITO

como algumas mulheres que haviam sido curadas de


espíritos malignos e de enfermidades: Maria,
chamada Madalena, da qual saíram sete demônios,
Joana, mulher de Cuza, administrador de Herodes,
Suzana e muitas outras, as quais os serviam com seus
bens”. Em 8:1- 3 vemos que os doze que haviam sido
chamados seguiam o Salvador, e as mulheres que
haviam sido curadas serviam a Ele e a Seus
seguidores com seus bens. Que belo quadro!
As mulheres denominadas em 8:2-3 serviam ao
Senhor e aos doze com seus bens. Pode ter
acontecido que, sob a soberania do Senhor, elas
tivessem marido rico. Podemos dizer que sua riqueza
foi o resultado de o Senhor exercer Seus atributos
divinos. Então, as mulheres exercitaram suas
virtudes humanas ao usar seus bens para servir ao
Senhor e a Seus discípulos.
De acordo com 8:1-3, havia dois grupos de
pessoas ao redor do Senhor Jesus. O primeiro era
composto de Seus seguidores; o segundo era
composto das mulheres. Os discípulos simplesmente
O seguiam sem fazer nada. As mulheres, entretanto,
serviam ao Senhor e aos discípulos de forma prática.
Na vida da igreja, às vezes, as irmãs são mais práticas
do que os irmãos. Enquanto eles podem achar fácil
falar, elas frequentemente vão servir e prestar
assistência de forma prática.
É significativo que 8:1-3 venha logo depois 7:36-
50. A sequência indica que após experimentar o
perdão de pecados e começar a amar o Senhor e viver
em paz, devemos segui-Lo e servi-Lo.

ENSINOU COM PARÁBOLAS


Em 8:4-18 temos o ensinamento do Salvador-
166 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

Homem com parábolas. Aqui Ele diz duas parábolas:


a primeira nos versículos 4-15, sobre o crescimento
de vida; a segunda nos versículos 16-18, sobre o
brilho da lâmpada. Em resumo, elas dizem respeito
ao semeador e à lâmpada.

A parábola do semeador
O registro da parábola do semeador em 8:4-15 é
um pouco diferente do registro em Mateus 13. O
objetivo de Mateus ao registrá-la é enfatizar como ela
revela a vida do reino. Entretanto o objetivo de Lucas
é mostrar-nos que, como os que vivem em paz,
seguem o Senhor e O servem, devemos crescer em
vida.
Em 8:5-8 o Senhor Jesus conta a parábola do
semeador; nos versículos 9-15 Ele explica a parábola
aos discípulos. Lucas 8:5a diz: “O semeador saiu a
semear a sua semente”. O semeador é o próprio
Senhor, e a semente é a palavra que O contém como
vida. Nos versículos 5-8 quatro tipos de solo são
mencionados. Como veremos, eles representam
quatro condições do coração humano.
Quando os discípulos questionaram o Senhor
sobre a parábola (v. 9), Ele disse: “A vós é dado
conhecer os mistérios do reino de Deus, mas aos
demais fala-se em parábolas; para que, vendo, não
vejam; e, ouvindo, não entendam” (v. 10). Esse
versículo indica que a economia de Deus sobre Seu
reino era um mistério oculto, um mistério
desvendado aos discípulos do Salvador-Homem. A
natureza e o caráter do reino de Deus são totalmente
divinos e os elementos por meio dos quais ele é
gerado são a vida e luz divinas, por isso o reino de
Deus, especialmente em sua realidade como a igreja
16
MENSAGEM DEZOITO

autêntica nesta era (Rm 14:17), ainda é um mistério


ao homem natural.

Quatro tipos de coração


Em Lucas 8:11-15 vemos quatro tipos de coração
nos quais a semente é plantada. O primeiro tipo é
comparado ao solo “à beira do caminho” (v. 5). Com
respeito a isso, o Senhor diz no versículo 12: “Os que
estão à beira do caminho são os que ouviram; vem
então o diabo e tira-lhes do coração a palavra, para
não suceder que, crendo, sejam salvos”. A terra à
beira do caminho é a terra do lado da estrada. Essa
terra ficou endurecida por causa do trânsito
excessivo. Como resultado, o trigo não consegue
crescer ali.
Um coração que é como a beira da estrada, como
o solo ao lado do caminho, é um coração no qual há
muito trânsito de negócios mundanos. Se nosso
coração estiver ocupado em ganhar a vida, haverá
muito trânsito nele. O resultado será que não será o
solo apropriado para o crescimento de Cristo, porque
será um coração endurecido pelo trânsito mundano.
O segundo tipo de coração é comparado ao solo
rochoso (8:6, 13). Ele tem terra na superfície, mas
debaixo está cheio de rochas. Não é possível Cristo
crescer nesse coração. Uma pessoa com o coração
assim pode receber Cristo e ser salva; todavia será
difícil crescer em vida. Por causa das rochas, é difícil
Cristo crescer no coração tipificado pelo solo rochoso.
Mateus 13:5 descreve esse coração como lugares
rochosos, que não têm muita terra. Isso representa o
coração superficial ao receber a palavra do Senhor. É
superficial porque bem no fundo há “rochas”:
pecados ocultos, desejos pessoais, busca de coisas
168 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

próprias e autocomiseração, o que atrapalha a


semente de aprofundar raízes.
Lucas 8:7 diz: “Outra caiu no meio dos espinhos,
e os espinhos, ao crescerem com ela, a sufocaram”.
Sobre isso, o versículo 14 explica: “A que caiu entre
os espinhos, esses são os que ouviram e, indo-se, são
inteiramente sufocados pelos cuidados, riquezas e
prazeres da vida, e não fazem os seus frutos chegar à
maturidade”. Aqui vemos claramente que os
“espinhos” representam ansiedades, riquezas
(especificamente, o engano das riquezas - Mt 13:22),
e os prazeres da vida. Essas coisas sufocam a palavra
e a impedem de crescer no coração e tornar-se
frutífera.
O quarto tipo de coração é tipificado pela boa
terra: “E outra caiu em boa terra, e, tendo crescido,
produziu fruto a cem por um” (v. 8). No versículo 15,
o Senhor explica: “Mas a que caiu em boa terra, esses
são os que, tendo ouvido a palavra com coração
nobre e bom, a retêm e frutificam com perseverança”.
Essa boa terra representa o bom coração, que não
está endurecido pelo trânsito mundano, não tem
pecados ocultos e é destituído da ansiedade deste
século, do engano das riquezas e dos prazeres da vida.
Esse coração oferece todo o solo para receber a
palavra de modo que ela cresça, dê frutos e produza
até a cem por um.
Um coração sem trânsito mundano, sem rochas
e sem espinhos é um coração purificado. Esse tipo de
coração é bom para fazer Cristo crescer.
Depois de perdoados e de começar a ter um viver
em paz, devemos seguir o Senhor e servi-Lo. A seguir,
de acordo com 8:4-15, precisamos lidar com o
coração.
16
MENSAGEM DEZOITO

Ao lidar com o coração, devemos mantê-lo longe


do trânsito mundano. Isso quer dizer que ele não
deve ficar ocupado com os negócios de ganhar a vida.
Pelo contrário, devemos ter uma vida simples.
Muitos, porém, são escravos de ganhar a vida.
Quanto mais aumentam suas despesas para viver,
mais precisam labutar. Quanto mais elevam seu
padrão de vida, mais precisam trabalhar. Alguns até
trabalham em dois empregos a fim de manter um
alto padrão de vida. Nós, pelo contrário, devemos
simplificar nosso viver. Se simplificarmos a vida,
nosso coração será mantido longe do trânsito
mundano.
Também precisamos lidar com todas as rochas,
os obstáculos ocultos em nós. Esses itens ocultos
podem incluir pecados ou desejos ocultos. Como
exemplo de desejo oculto, podemos mencionar o
desejo comum entre os jovens de ter um bom carro.
O desejo por certo carro novo pode tomar-se uma
“rocha” no coração, rocha que toma difícil Cristo
crescer em nós.
Além de lidar com o trânsito mundano e as
rochas ocultas, também precisamos lidar com os
“espinhos” das ansiedades, engano das riquezas e
prazeres da vida. Alguns, depois de formados na
faculdade, preocupam-se em se casar ou poupar
dinheiro para comprar uma casa. Os pais podem
preocupar-se em cuidar dos filhos. Essas ansiedades
estão relacionadas com os cuidados desta vida. Se
nosso coração está cheio de ansiedades, como Cristo
pode crescer em nós? Para que Ele cresça em nós,
nosso coração precisa ser livre de ansiedade, do
engano das riquezas e dos prazeres da vida.
A sequência em 7:36-8:15 mostra que, depois de
170 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

perdoados, temos uma vida de paz. Quando seguimos


o Senhor e O servimos, precisamos crescer em vida.
Para o crescimento em vida, precisamos ter um bom
coração para o Senhor crescer em nós. Um bom
coração é um coração mantido longe do trânsito
mundano, do qual todas as rochas foram removidas e
que não tem os espinhos da ansiedade, do engano
das riquezas e dos prazeres da vida.

Libertados das tendências deste século


No mundo de hoje, enfrentamos muitos perigos:
perigos de imoralidade, de ansiedade e de prazer.
Quanto mais você desejar ter prazer, mais ansiedade
terá, e mais sofrerá. Mas se estiver disposto a ter uma
vida simples, você não terá tantos prazeres nem
tantas ansiedades.
Não devemos seguir a tendência do mundo de
hoje. Essa tendência inclui o trânsito mundano, os
prazeres e a ansiedade. Por causa dessa tendência, é
difícil para muitos ter vida longa. Como resultado de
seguir a tendência do mundo, muitos ficam
esgotados. Estão ocupados com o trânsito mundano e
em ganhar dinheiro para ter mais prazeres. O
resultado é mais ansiedade, mais doenças e mais
morte. Nós, cristãos, devemos ser libertados da
tendência deste século e tomar outro caminho. Se
não tomarmos o caminho do mundo com seu trânsito,
prazeres e ansiedade, nosso coração estará livre e
acessível para Cristo e, então, será ocupado por
Cristo.
Como um idoso, posso testificar que o segredo
da boa saúde é tomar Cristo como tudo. Por tomá-Lo
como meu tudo, fico livre da tendência deste mundo
e meu coração é livre para o Senhor. Isso torna
17
MENSAGEM DEZOITO

possível Cristo crescer em mim.

A parábola da lâmpada
Em 8:16-17 temos a parábola da lâmpada:
“Ninguém, depois de acender uma lâmpada, a cobre
com um vaso ou a põe debaixo duma cama; antes,
coloca-a num candelabro, a fim de que os que entram
vejam a luz. Pois nada há oculto que não haja de
manifestar-se, nem escondido que não haja de ser
conhecido e vir à luz”. De acordo com a parábola do
semeador, precisamos crescer. De acordo com a
parábola da lâmpada, precisamos brilhar. Devemos
brilhar intensamente como uma lâmpada sem
cobertura. Devemos ser lâmpadas num lugar aberto
brilhando para que os outros sejam iluminados. Por
isso precisamos crescer e brilhar.
A lâmpada que brilha indica que o ministério do
Salvador-Homem não só semeia vida nos Seus, mas
também lhes traz luz. Assim, tal ministério divino
resulta nos crentes como luzeiros (Fp 2:15) e nas
igrejas como candelabros (Ap 1:20), brilhando nesta
era de trevas como Seu testemunho e culminando na
Nova Jerusalém com as marcantes características de
vida e luz (Ap 22:1-2; 21:11,23-24).
Em Lucas 8:18 o Senhor diz: “Atentai, pois, em
como ouvis; porque ao que tem, se lhe dará; e ao que
não tem, até o que julga ter lhe será tirado”. Esse
versículo diz respeito a como ouvimos a palavra do
Senhor. Lucas 8:18 é semelhante a Mateus 13:10-13 e
Marcos 4:25.

IDENTIFICOU SEUS VERDADEIROS


PARENTES
172 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

Lucas 8:19 diz: “Vieram ter com Ele Sua mãe e


Seus irmãos, e não podiam aproximar-se Dele por
causa da multidão”. Quando foi relatado ao Senhor
Jesus que Sua mãe e irmãos estavam lá fora
esperando para vê-Lo, Ele respondeu: “Minha mãe e
Meus irmãos são estes que ouvem a palavra de Deus
e a praticam” (vs. 20-21). A resposta do Senhor
indica que podemos tornar-nos os verdadeiros
parentes do Salvador-Homem. Podemos tornar-nos
os que estão de fato relacionados com Ele. Por meio
de Seu ministério, Ele tornava os pecadores crentes
em Seus parentes espirituais, que se tornaram Seus
muitos irmãos (Rm 8:29; Hb 2:11) na casa de Deus
(Hb 3:5-6) e Seus muitos membros para a edificação
de Seu Corpo místico (Ef 5:30; 1Co 12:12) a fim de
fazer a vontade de Deus.
O mais importante na parábola do semeador é a
palavra (Lc 8:11). Precisamos importar-nos com a
palavra do Senhor de forma adequada. Desse modo,
nós nos tornaremos os verdadeiros parentes do
Salvador-Homem, e Ele nos reconhecerá como tais.
Visto que correspondemos à Sua palavra e nos
tornamos um com Ele, Ele se identificará conosco.
Esse é o motivo de Ele dizer em 8:21 que Seus
parentes são os que ouvem a palavra de Deus e a
praticam. O Senhor viveu de acordo com a palavra de
Deus e agora nós também temos um viver de acordo
com Sua palavra. Por isso nós e Ele mutuamente nos
correspondemos e há identificação entre nós.
Em 7:36-50 vemos que éramos pecadores
perdoados mediante a fé no Salvador. Uma vez que
nossos pecados foram perdoados, amamos o Senhor.
O perdão de pecados mediante a fé e nosso amor pelo
Senhor resultam numa vida de paz. Quando vivemos
17
MENSAGEM DEZOITO

em paz, seguimos o Senhor e O servimos. Como os


que O servem, precisamos crescer em vida de modo
que Ele cresça em nós. Também precisamos brilhar.
O resultado é que nos tornamos os verdadeiros
parentes do Salvador-Homem. Nas palavras de Paulo,
tornamo-nos Seus membros. Os parentes do Senhor
são Seus membros. Ele é a Cabeça e nós, Seus
membros, somos membros de Seu Corpo. Isso
significa que somos o mesmo que Ele é em vida e
natureza. Ele viveu como Homem-Deus e nós
podemos viver hoje a mesma vida.

ESTUDO-VIDA DE LUCAS

MENSAGEM DEZENOVE

O MINISTÉRIO DO SALVADOR-HOMEM
EM SUAS VIRTUDES HUMANAS
COM SEUS ATRIBUTOS DIVINOS NA
GALILEIA
(9)
Leitura Bíblica: Lc 8:22-56

Nesta mensagem chegamos a 8:22-56, trecho em


que Lucas aborda três tópicos: o Senhor domina a
tempestade (8:22-25), expulsa uma legião de
demônios (vs. 26-39) e cura uma mulher com fluxo
de sangue e ressuscita uma menina (vs. 40-56).

A JORNADA ORDENADA PELO SENHOR


Esses três tópicos foram colocados juntos não só
em Lucas, mas também em Marcos e Mateus. Em
Marcos, eles estão juntos a fim de mostrar a
autoridade do reino de Deus. Pela autoridade do
174 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

reino, a tempestade é acalmada, os demônios são


derrotados, o enfermo é curado e os mortos são
ressuscitados. Em Mateus os mesmos três tópicos
estão juntos a fim de mostrar uma mudança
dispensacional, mas em Lucas eles estão juntos a fim
de mostrar a jornada que precisamos fazer como os
que creem no Senhor Jesus e O seguem.
Vimos de 7:36-8:21 que a vida cristã começa com
o perdão de pecados e continua com viver em paz,
seguindo o Senhor, suprindo Suas necessidades e
crescendo em vida para brilhar. Por fim, tomamo-nos
os verdadeiros parentes do Senhor, Seus membros.
Então, em 8:22-56, Lucas prossegue mostrando que
os que creem no Senhor estão numa jornada com Ele,
a qual não é escolhida por nós; antes, é ordenada
pelo Salvador.
Lucas 8:22 indica que o caminho do qual
estamos falando é ordenado pelo Senhor: “Aconteceu
que, num daqueles dias, entrou Ele num barco com
os Seus discípulos, e disse-lhes: Passemos para a
outra margem do lago; e partiram”. Aqui vemos que
o Senhor disse aos discípulos que fossem para o
outro lado do lago. Isso indica que a jornada não foi
iniciada pelos discípulos, mas ordenada pelo Senhor.
Indica ainda que, depois que nos tornamos os
parentes do Senhor, os membros do Seu Corpo, não
temos o direito de escolher o próprio caminho. Pelo
contrário, precisamos tomar o caminho escolhido por
Ele, o caminho que Ele ordena. Os discípulos, por
isso, partiram conforme a palavra do Senhor. Ele
disse: “Passemos para a outra margem do lago”, e
eles acataram Sua palavra e partiram.

O Senhor repreendeu o vento e a fúria da


17
MENSAGEM DEZENOVE

água
Os versículos 23-24 nos contam o que aconteceu
no caminho: “Enquanto navegavam, Ele adormeceu.
E desabou um temporal de vento no lago; o barco se
enchia de água e eles corriam perigo. Chegando-se a
Ele, despertaram- No, dizendo: Mestre, Mestre,
estamos perecendo! E Ele, despertando, repreendeu
o vento e a fúria da água; e cessaram, e fez-se
bonança”. Aqui vemos que, enquanto o Senhor
dormia, um temporal desabou sobre o lago e o barco
se enchia de água. Os discípulos ficaram
amedrontados e invocaram o Senhor. O Senhor
despertou e repreendeu o vento e a fúria da água.
Por que o Senhor repreendeu o vento e a fúria da
água? Por que repreendeu algo sem vida? Ele os
repreendeu porque atrás deles estavam espíritos
malignos e demônios. Os espíritos malignos estão no
ar e os demônios, na água. Ambos seguem Satanás e
nos perturbam na jornada quando seguimos o
Senhor. Isso quer dizer que causarão um “temporal”
para atrapalhar-nos na jornada.
O versículo 25 diz: “Então lhes disse: Onde está a
vossa fé? E eles, possuídos de temor, maravilharam-
se, dizendo uns aos outros: Quem é este que até aos
ventos e à água dá ordens, e eles Lhe obedecem?”.
Aqui vemos que, depois de dominar a tempestade, o
Senhor repreendeu os discípulos, perguntando-lhes:
“Onde está a vossa fé?”.

A fé baseia-se na palavra do Senhor


De acordo com o Novo Testamento, a fé é
sempre baseada na palavra do Senhor. Sem uma
palavra do Senhor, não podemos ter qualquer base
176 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

para nossa fé. A palavra do Senhor produz a fé. Fé,


portanto, baseia-se na palavra do Senhor. Qual foi a
palavra que o Senhor deu aos discípulos nesse
exemplo? É a que foi registrada no versículo 22:
“Passemos para a outra margem do lago”. Uma vez
que Ele proferira essa palavra, com certeza iria
cumpri-la.
Em 8:22-25 os discípulos tinham não só a
palavra do Senhor, mas também Ele mesmo. Ele
estava presente no barco. Naquela situação eles
tinham a palavra do Senhor e o próprio Senhor.
Uma vez que os discípulos tinham a palavra e a
presença do Senhor, deviam ter ficado em paz, não se
importando com a tempestade. O Senhor lhes dissera
que fossem para a outra margem do lago e estava
com eles no barco. Eles não deviam ter ficado
amedrontados com a tempestade.
Nosso problema, como os seguidores do Senhor
de hoje, é que, quando vem um temporal, sempre nos
esquecemos da palavra do Senhor. Além disso, em
vez de olhar para Ele, talvez olhemos para o temporal.
Todos precisamos aprender que, sempre que estamos
numa jornada seguindo o Senhor e um temporal se
levanta, devemos olhar para o Senhor adormecido e
não para o temporal. Não devemos importar- nos
com o temporal, mas com a palavra do Senhor. Ele
dissera: “Passemos para a outra margem”, e tudo o
que Ele diz acontecerá. Uma vez que Ele tenha falado
algo sobre certa coisa, isso está determinado. Ele
sempre cumpre Sua palavra. Então, quando nos diz
que passemos para o outro lado, podemos ter certeza
de que alcançaremos o outro lado, não importando
que tempestades possam desabar.
17
MENSAGEM DEZENOVE

Descansar com o Senhor


Precisamos crer no Senhor e não olhar para o
ambiente ou circunstâncias. Em vez de olhar para a
tempestade, olhemos para o Senhor que está a
descansar. Qual você vai seguir: a tempestade ou o
Senhor descansando? Podemos até querer dizer a
Ele: “Senhor, já que estás descansando, descansarei
Contigo. Que o vento sopre. Já que estás
descansando, posso descansar Contigo”. Entretanto
isso é fácil dizer, mas é difícil praticar. Como alguém
que tem praticado olhar para o Senhor e não para as
circunstâncias há mais de cinquenta anos, tenho de
confessar que ainda estou aprendendo a lição.
Frequentemente em nossa jornada com o Senhor
iremos encontrar um temporal ou pé de vento. Então
podemos ficar distraídos e nos esquecer da palavra
Dele e do fato de Ele estar conosco e descansar. Você
é capaz de dizer: “Senhor, já que estás descansando,
também vou descansar”? Aprendamos todos a
praticar isso.
A narrativa de Lucas em 8:22-25 não mostra
uma mudança dispensacional nem apresenta a
autoridade do reino de Deus. Aqui, ele retrata a
jornada cristã. De acordo com o retrato de Lucas,
enquanto trilhamos o caminho ordenado pelo Senhor,
Ele descansará e o inimigo estará ocupado. Os
espíritos malignos e os demônios estarão ativos para
causar tempestades a fim de nos estorvar na jornada.
Precisamos lembrar-nos de que, na verdade, essa
jornada não é nossa; é do Senhor, e nós viajamos
com Ele. Estamos trilhando Seu caminho e Ele está
conosco. De fato, Ele está até no barco conosco.
Podemos dizer que o barco aqui representa a igreja.
178 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

O fato de o Senhor estar conosco no barco significa


que Ele está conosco na igreja. Embora o “barco” da
igreja esteja no meio de um temporal e águas furiosas,
não devemos ficar atribulados. Antes, devemos ter
paz no Senhor que descansa.

EXPULSOU UMA LEGIÃO DE DEMÔNIOS


Por fim, o Senhor e os discípulos atingiram seu
destino: “a região dos gerasenos, que está defronte da
Galileia” (8:26). Logo encontraram certo homem que
tinha demônios (v. 27), possuído por uma legião
deles (v. 30). O Senhor os expulsou todos, dando-
lhes permissão de entrar em muitos porcos que se
alimentavam na redondeza (v. 32). “Tendo os
demônios saído do homem, entraram nos porcos; e a
manada precipitou-se despenhadeiro abaixo, para
dentro do lago, e se afogou” (v. 33). O quadro em
8:29 corresponde à nossa experiência espiritual.
Quando adotamos o caminho do Senhor, viajando
com Ele, haverá tempestades. Entretanto, por fim,
atingiremos o destino: “na outra margem do lago”.
Então veremos que nesse lugar o Senhor expulsa
uma legião de demônios e limpa o negócio imundo de
criar porcos. No Estudo- Vida de Marcos enfatizamos
que o negócio de criar porcos representa a indústria
imunda do mundo de hoje. No mundo há legiões de
demônios e em toda parte há negócios imundos, mas,
onde quer que os seguidores do Senhor Jesus forem
com Ele, o resultado será que os demônios serão
expulsos e o negócio de criar porcos será clarificado.
Conforme indica a solicitação da multidão no
país do gerasenos, de que o Senhor partisse dali, as
pessoas do mundo ficam ofendidas quando os
demônios são expulsos e o negócio de criar porcos é
17
MENSAGEM DEZENOVE

clarificado. Certamente é bom expulsar demônios e


clarificar negócios imundos como criação de porcos,
mas isso não agrada às pessoas mundanas. Embora
façamos o que é melhor para a sociedade, as pessoas
do mundo não nos apreciam. Não espere ser bem
recebido pelas pessoas mundanas. Uma vez que
nossa jornada será prejudicial ao seu negócio imundo,
não seremos bem recebidos por eles.
Já enfatizamos que os demônios habitam na
água. Podemos dizer que a sociedade de hoje é um
vasto lago de água suja, o qual está cheio de
demônios. Onde quer que formos em nossa jornada
com o Senhor, encontraremos legiões de demônios,
que serão expulsos, e negócios imundos, que serão
removidos. Isso, porém, ofende a sociedade de hoje.
Como resultado, assim como os gerasenos
suplicaram ao Senhor que os deixasse, as pessoas
mundanas vão pedir- nos que nos afastemos delas.

CUROU UMA MULHER COM FLUXO DE


SANGUE
E RESSUSCITOU UMA MENINA
Em 8:40-56 temos uma narrativa do Senhor
curando uma mulher com fluxo de sangue e
ressuscitando uma menina. Em 8:41-42 Jairo, um
chefe da sinagoga, pediu ao Senhor Jesus que curasse
sua filha única “de uns doze anos, que estava à
morte”. Enquanto o Senhor estava a caminho para
curar a menina, uma “mulher, que havia doze anos
tinha um fluxo de sangue, e gastara com médicos
todo o seu sustento, e por ninguém pudera ser curada,
aproximou-se por detrás e tocou-Lhe a franja da
veste; e no mesmo instante se lhe estancou o fluxo de
sangue” (vs. 43-44). Uma vez que o caso dessa
180 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

mulher se funde com o da filha do chefe da sinagoga,


e uma vez que os doze anos de sua doença coincidem
com a idade da menina, e são ambas do sexo
feminino, esses casos podem ser considerados como
o caso completo de uma pessoa só. Com essa
perspectiva, a menina nasceu, por assim dizer, na
doença mortal da mulher e dela morreu. Quando a
doença mortal da mulher foi curada pelo Salvador-
Homem, a menina ressuscitou dos mortos. Isso quer
dizer que toda pessoa caída nasce na doença mortal
do pecado e morre nela (Ef 2:1). Quando sua doença
mortal de pecado é tratada pela morte remissora do
Salvador (1Pe 2:24), ela ressuscita da morte e entra
na vida (105:24-25).
O fluxo de sangue no caso da mulher tipifica o
vazamento de vida. Perder sangue significa perder a
vida. Esse também é um aspecto da condição da
sociedade de hoje. De acordo com o quadro
apresentado em Lucas, a sociedade humana caída
está cheia de demônios e negócios imundos de
criação de porcos, e é caracterizada pelo vazamento
de vida, que introduz as pessoas na morte.

O QUE EXPERIMENTAMOS NA JORNADA


COMO SENHOR
A fim de compreender o registro de Lucas,
precisamos ver o significado de todos os casos
incluídos nesse evangelho. O homem com a legião de
demônios representa a situação da sociedade
humana - esta está cheia de demônios que envolvem
as pessoas. O negócio de criar porcos representa os
negócios imundos na humanidade caída. Agora
vemos que a mulher com o fluxo de sangue significa
que as pessoas caídas na sociedade deixam vazar vida,
18
MENSAGEM DEZENOVE

e o resultado da perda de vida é morte.


Em sua jornada, o Senhor Jesus e os discípulos
encontraram uma legião de demônios, os quais
trabalham em negócios imundos de criação de porcos,
uma mulher com um fluxo de sangue e uma menina
morta. Isso demonstra que, na jornada em seguir o
Senhor, entraremos em contato com quatro coisas:
os demônios, o negócio de criação de porcos, o
vazamento de vida e a morte. Em nossa jornada,
talvez sigamos o Senhor até certo lugar, e lá
encontraremos legiões de demônios e indústrias
imundas. Então talvez sigamos com Ele para outro
lugar, onde encontraremos o vazamento de vida e a
morte.
Em 7:36-50 somos representados pela mulher
pecadora que teve os pecados perdoados e começou a
amar o Senhor e ter uma vida de paz. Como os que
experimentaram o perdão de pecados, amamos o
Senhor e temos uma vida de paz. Então, de acordo
com Lucas 8, nós O seguimos, suprimos Sua
necessidade, crescemos em vida, brilhamos como
lâmpadas e nos tornamos Seus verdadeiros parentes.
Depois, em 7:36-8:21, vemos um quadro de nossa
experiência cristã que começa com o perdão de
pecados e termina com tornar- nos os parentes do
Senhor, os membros de Seu Corpo.
De acordo com o registro em 8:22-56, não
devemos parar ao nos tornar parentes do Senhor.
Antes, precisamos continuar tomando o caminho que
Ele nos ordenou. Isso quer dizer que devemos fazer a
jornada que Ele ordenou. Fazemos essa jornada
segundo a palavra do Senhor e com Ele no barco.
Não devemos pensar que, se adotarmos a
jornada ordenada pelo Senhor, tudo será fácil. Pelo
182 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

contrário, devemos estar preparados para enfrentar


tempestades. Porquanto viajamos segundo a palavra
do Senhor e com Ele no barco, não devemos ficar
amedrontados pelas tempestades. Ele está
descansando no barco e devemos aprender a
descansar com Ele. Entretanto não é fácil fazer isso.
Quando um temporal se levanta, podemos invocar o
Senhor e dizer-Lhe que estamos perecendo. Pela
experiência, sabemos que somos mais propensos a
invocar o Senhor numa tempestade do que quando
estamos seguros e em paz.
Na jornada com o Senhor, em certo lugar
encontraremos demônios e o negócio de criação de
porcos. Em outros lugares, encontraremos o
vazamento de vida e a morte. Mas, como seguidores
do Senhor Jesus, tomando o caminho que Ele
ordenou para a jornada, sempre nos tornaremos uma
bênção para a sociedade. Quando chegarmos a um
lugar como o dos gesarenos, lugar cheio de demônios,
estes serão expulsos e a indústria imunda será
clarificada. Mesmo que os outros nos rejeitem, ainda
seremos uma bênção para eles. Então podemos ser
levados para outro lugar e nos tornar uma bênção
para os que sofrem de vazamento de vida. Como
resultado de nossa estada naquele lugar, alguns
podem ser curados e outros ressuscitados.
Aonde quer que viajemos seguindo o Senhor, os
demônios serão expulsos, os negócios de criação de
porcos, clarificados, os que sofrem de vazamento de
vida, curados e os mortos, ressuscitados.
Vimos que Mateus, Marcos e Lucas registram os
mesmos três exemplos que acabamos de abordar
nesta mensagem. Já enfatizamos que o propósito de
Mateus é mostrar uma mudança dispensacional e a
18
MENSAGEM DEZENOVE

intenção de Marcos é mostrar a autoridade do reino


de Deus. Mas em Lucas esses acontecimentos estão
registrados a fim de nos mostrar a jornada ordenada
para nós pelo Salvador-Homem. Lendo a narrativa
de Lucas, vemos o caminho que devemos tomar
como seguidores do Senhor Jesus. Trilhando essa j
ornada segundo Sua palavra, chegaremos ao destino,
não importa quantas tempestades haja. Então, no
destino, encontraremos demônios, indústrias
imundas, vazamento de vida e morte. Todavia
sempre levaremos bênção às situações negativas: os
demônios serão expulsos, os negócios imundos,
limpos, a doença de vazamento de vida, curada e os
mortos, ressuscitados.

ESTUDO-VIDA DE LUCAS

MENSAGEM VINTE

O MINISTÉRIO DO SALVADOR-HOMEM
EM SUAS VIRTUDES HUMANAS
COM SEUS ATRIBUTOS DIVINOS NA
GALILEIA
(10)
Leitura Bíblica: Lc 9:1-26

Vimos que em 7:36-8:21 a vida cristã começa


com o perdão de pecados e então atinge um ponto em
que nos tomamos os parentes de Cristo, os membros
de Seu Corpo. Como Seus parentes, estamos prontos
para trilhar o caminho que Ele ordenou e viajar e
visitar vários lugares com Ele.

A EXPANSÃO DO JUBILEU
184 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

Chegando a 9:1 os discípulos do Senhor haviam


sido aperfeiçoados até certo ponto. Agora precisamos
ver que ser aperfeiçoado visava à expansão do jubileu.
Depois de totalmente preparado, o Salvador-
Homem foi batizado, posto à prova e ungido.
Estando plenamente qualificado e aperfeiçoado, Ele
começou Seu ministério. De acordo com o capítulo
quatro, Seu ministério começou com a proclamação
do jubileu.
Quando proclamou o jubileu, o Senhor sozinho
levava a cabo o ministério dado por Deus. Depois que
fez a proclamação do jubileu, Ele chamou alguns
para Si. Em 6:13 Ele chamou os discípulos e
“escolheu doze dentre eles, aos quais deu também o
nome de apóstolos”. Podemos dizer que nos capítulos
6-8 os doze apóstolos foram “aprendizes” seguindo o
Senhor para aprender a levar a cabo Seu ministério.
Conforme indica o registro em 7:36-8:56, seus
pecados foram perdoados e eles começaram a amar o
Senhor e ter uma vida de paz. Também começaram a
crescer em vida, brilhar como lâmpadas e tornar-se
os parentes de Cristo. Em Lucas 8 eles viajaram com
o Senhor segundo Sua palavra. Em certo lugar
encontraram demônios e viram como o Senhor
clarificou o negócio de criação de porcos. Em outro
lugar, encontraram uma mulher com vazamento de
vida e uma menina que foi ressuscitada. Por isso, no
fim do capítulo oito, esses seguidores do Senhor
tinham sido aperfeiçoados até certo ponto.
O capítulo nove começa outra seção de Lucas,
uma seção sobre a expansão do jubileu. Que é o
jubileu? É na verdade o evangelho do Novo
Testamento. Como vimos, esse evangelho é a
proclamação da libertação dos cativos e da
18
MENSAGEM VINTE E UM

restauração do direito de primogenitura perdido.


Agora, em Lucas 9, temos o início da expansão desse
jubileu. Antes disso, o ministério era levado a cabo
somente pelo Senhor, mas em 9:1 temos a expansão
por meio dos doze. Por isso a partir de 9:1 vemos a
expansão do ministério, a expansão do jubileu,
mediante os doze apóstolos.
O conceito de expansão do jubileu está
subjacente no registro em 9:1-26. Alguns dos casos
nesse trecho são encontrados também em Mateus e
Marcos. Em Mateus, eles são usados como evidências
da doutrina do reino dos céus e, em Marcos, são
usados para apresentar o Senhor Jesus como Servo
fiel de Deus, que executa o ministério por Ele
ordenado. Em Lucas, entretanto, esses casos são
usados para enfatizar a expansão do jubileu. O
jubileu já tinha sido proclamado pelo Salvador-
Homem, e essa proclamação continuou até o fim do
capítulo oito. Agora, em Lucas 9, a expansão do
jubileu começa. Já não há apenas uma pessoa a
proclamá-lo; doze outros são enviados para expandi-
lo. É claro, em 9:1-26 as palavras “jubileu” ou “ano
aceitável do Senhor” não são mencionadas; contudo
o conceito subjacente está muito relacionado com a
questão de jubileu.

EXPANDIU O MINISTÉRIO
POR MEIO DOS DOZE APÓSTOLOS
Em 9:1-6 temos a expansão do ministério por
meio dos doze apóstolos. Essa, na verdade, é a
expansão do jubileu.

Deu-lhes poder e autoridade sobre demônios


e para curar doenças
186 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

Lucas 9:1 diz: “Tendo Jesus convocado os doze,


deu- lhes poder e autoridade sobre todos os
demônios, e para curar doenças”. Poder e autoridade
sobre todos os demônios e para curar doenças visam
à libertação dos cativos. Como resultado da queda, o
homem foi capturado por Satanás, pecado e doenças,
que são o resultado do pecado. Todo ser humano
caído é cativo tanto dos demônios como das doenças.
Por isso o Salvador-Homem deu aos doze poder e
autoridade sobre demônios e doenças. Esse é o
aspecto negativo do jubileu: a libertação dos cativos.
A autoridade em 9:1 sobre os demônios e
doenças é um antegozo do poder da era vindoura (Hb
6:5), isto é, do milênio, quando todos os demônios
serão expulsos e todas as doenças, curadas (Is 35:5-
6).
Os demônios são os espíritos das criaturas que
viveram na era pré-adâmica e foram julgados por
Deus quando se juntaram à rebelião de Satanás (ver
Estudo-Vida de Gênesis, mens. 2). Os anjos caídos
trabalham com Satanás no ar (Ef 2:2; 6:11-12) e os
demônios se movem com ele na terra. Ambos agem
malignamente sobre o homem para o reino satânico.
A possessão demoníaca tipifica a usurpação que
Satanás exerce sobre o homem, a quem Deus criou
para Seu propósito. Os demônios precisam ser
expulsos das pessoas possuídas para que sejam
libertadas do cativeiro de Satanás (Lc 13:16), de sua
autoridade das trevas (At 26:18; Cl1:13), e introduzi
das no reino de Deus.

Enviou-os para proclamar o reino de Deus


Lucas 9:2 diz: “E os enviou a proclamar o reino
de Deus e a curar os enfermos”. Aqui temos a
18
MENSAGEM VINTE E UM

proclamação do reino de Deus como o aspecto


positivo do jubileu. O reino de Deus envolve a
restauração do direito de desfrutar Deus em Cristo.
Vamos revisar o que dissemos numa mensagem
anterior sobre o reino de Deus. O reino de Deus é o
Salvador (17:21) como a semente de vida, plantada
em Seus crentes, os escolhidos por Deus (Me 4:3, 26),
a qual se desenvolve numa esfera onde Deus pode
governar como Seu reino em Sua vida divina. A
entrada do reino é a regeneração (Jo 3:5) e seu
desenvolvimento é o crescimento dos crentes na vida
divina (2Pe 1:3-11). O reino é a vida da igreja hoje, na
qual os crentes fiéis vivem (Rm 14:17), e se
desenvolverá no reino vindouro como galardão
herdado (Gl5:21; Ef5:5) para os santos vencedores no
milênio (Ap 20:4,6). Por fim, culminará na Nova
Jerusalém como reino eterno de Deus, e reino eterno
da bênção eterna da vida eterna de Deus para o
desfrute de todos os Seus redimidos no novo céu e
nova terra· pela eternidade (Ap 21:1-4; 22:1-5). É esse
reino, o reino de Deus, que o Salvador pregava como
evangelho, como boas-novas (4:43).
De acordo com 9:2, o Senhor enviou os doze
para proclamar o reino de Deus. Proclamar o reino
de Deus é proclamar o jubileu. Especificamente, é
proclamar o aspecto positivo do jubileu: a
restauração do direito perdido de desfrutar Deus. Por
isso, ao enviar os doze, o Salvador-Homem estava
expandindo o jubileu por meio deles às áreas
circunvizinhas.

Incumbiu os doze de nada tomar para a


jornada
Em 9:3-4 o Senhor disse aos doze: “Nada leveis
188 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

para o caminho, nem bordão, nem alforje, nem pão,


nem dinheiro; nem tenhais duas túnicas. E em
qualquer casa que entrardes, ali permanecei, e dali
saireis”. Por que o Salvador-Homem disse aos
enviados que não levassem nada para a jornada? O
motivo é que, no jubileu, as coisas são comuns sob a
ordenação de Deus. Por isso não houve necessidade
de os doze levarem nada para si mesmos. O quadro
aqui indica que, quando o jubileu chegar, não haverá
nenhum egoísmo. Pelo contrário, tudo será tanto
para nós como para os outros.

Os apóstolos saíram para proclamar a boa-


nova
Lucas 9:6 diz: “E, saindo eles, passavam de
aldeia em aldeia, anunciando o evangelho e
efetuando curas por toda parte”. Qual era a boa-nova,
o evangelho? Era o reino de Deus. A boa-nova
ordenada pelo Salvador-Homem era a pregação do
reino de Deus.
Lucas 9:6 nos diz que os apóstolos saíram
“efetuando curas por toda parte”. Isso indica que
saíram para aplicar o jubileu. O jubileu foi
proclamado no capítulo quatro pelo Salvador-
Homem, mas no capítulo nove foi aplicado pelos
doze aos que estavam na Judeia.

Herodes ficou extremamente perplexo


Lucas 9:7-9 diz: “Ora, o tetrarca Herodes ouviu
falar de tudo o que se passava, e ficou extremamente
perplexo, porque diziam alguns que João ressuscitara
dentre os mortos, outros que Elias aparecera, e
outros que ressurgira um profeta dos antigos.
18
MENSAGEM VINTE E UM

Herodes, porém, disse: A João eu decapitei; quem é,


pois, esse a respeito de quem ouço tais coisas? E
procurava vê-Lo”. De acordo com Marcos 6:14-29,
Herodes tinha decapitado João Batista. Isso indicava
do ódio de Satanás ao fiel precursor do Salvador-
Homem. Esse ódio foi expresso nas trevas e injustiça
das pessoas mundanas no poder. No capítulo nove de
Lucas vemos que, quando Herodes ouviu o que
estava acontecendo, ficou extremamente perplexo.

ALIMENTOU CINCO MIL


O Senhor retirou-se em particular
Em 9:1 0-11 Lucas prossegue: “Ao regressarem ,
os apóstolos contaram-Lhe tudo quanto haviam feito.
E, levando-os Consigo, retirou-se à parte para uma
cidade chamada Betsaida. Mas as multidões,
sabendo-o, seguiram- No. Acolhendo-as, falava-lhes
a respeito do reino de Deus e curava os que tinham
necessidade de cura”. Por causa da oposição de
Herodes, o Salvador-Homem se retirou em particular
para a cidade de Betsaida, onde falou às multidões
que O seguiam sobre o reino de Deus. Também curou
enfermos. Novamente temos a aplicação do jubileu
proclamado no capítulo quatro. O falar do Senhor
sobre o reino de Deus era o aspecto positivo do
jubileu: a restauração do direito de desfrutar Deus; a
cura dos enfermos era o aspecto negativo: a
libertação dos cativos. Até mesmo em Sua retirada
devida à oposição de Herodes, o Senhor continuou a
aplicar o jubileu.

Alimentou a multidão com cinco pães e dois


peixes
190 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

Em 9:12-17 temos a narrativa de Lucas sobre


cinco mil sendo alimentados. No evangelho de João
esse caso é usado para provar que o Senhor Jesus é o
pão que supre vida, o pão vivo e divino, que desceu
do céu para dar vida ao mundo. Mas em Lucas é
usado para provar algo mais. Em outras palavras, ao
registrar os cinco mil sendo alimentados, Lucas tem
uma visão diferente da que há em João 6. De novo
vemos que a visão de Lucas está relacionada com o
jubileu. Lucas 9:12-17 indica que, no jubileu,
ninguém terá nenhuma carência; ninguém sentirá
falta de nada e não haverá pobreza alguma.
De acordo com o versículo 13, a multidão era de
cerca de cinco mil homens. Se acrescentarmos o
número de mulheres e crianças, o total
provavelmente seria de mais de dez mil. Todos eles
careciam de comida. Lá certamente havia grande
escassez. Considerando a questão do ponto de vista
de sua compreensão natural, os doze chegaram ao
Senhor e disseram: “Despede a multidão, para que,
indo às aldeias e campos em redor, se hospedem e
achem alimento; pois estamos em lugar deserto” (v.
12). A sugestão dos discípulos de que o Senhor
despedisse a multidão era uma expressão do homem
natural.
O Senhor respondeu aos discípulos: “Dai-lhes
vós mesmos de comer” (v. 13). Aqui Ele parece dizer:
“Aos que são pobres e nada têm para comer, vocês
devem dar comida sem qualquer custo, sem cobrar”.
No jubileu todos são alimentados sem qualquer custo.
A era do Novo Testamento deve ser uma época
de jubileu. Entretanto, lamentavelmente, por causa
da situação degradada entre os cristãos, o jubileu se
perdeu. Eu, porém, creio que o Senhor o está
19
MENSAGEM VINTE E UM

restaurando agora. Na restauração do jubileu não


deve haver nenhuma escassez. Pelo contrário, deve
haver sempre sobejo, assim como houve as doze
cestas, cheias de pedaços partidos que sobejaram em
9:17. Isso quer dizer que deve haver sempre uma
expressão da abundância de riquezas.
Quando o Senhor disse aos discípulos que
dessem de comer às multidões, eles responderam:
“Não temos mais que cinco pães e dois peixes, salvo
se nós formos comprar comida para todo este povo”
(v. 13). Ele, então, lhes disse que fizessem o povo
“reclinar-se em grupos de cerca de cinquenta cada
um” (v. 14). “Tomando Ele os cinco pães e os dois
peixes, erguendo os olhos ao céu, os abençoou e
partiu, e dava-os aos discípulos para que os pusessem
diante da multidão. Todos comeram e se fartaram; e
foi recolhido o que lhes sobejou, doze cestos de
pedaços” (vs. 16-17). Aqui vemos que todos ficaram
satisfeitos e a quantidade que sobejou foi mais do
que havia disponível originalmente. Quando lemos
isso, podemos dizer: “É um milagre”. Sim, é um
milagre. Entretanto precisamos ver o ponto crucial
de que Lucas registrou esse milagre em seu
evangelho sob a ótica do jubileu. O registro dos cinco
mil sendo alimentados indica que no jubileu não há
escassez. No jubileu todos ficam satisfeitos.

ESTUDO-VIDA DE LUCAS

MENSAGEM VINTE E UM
O MINISTÉRIO DO SALVADOR-HOMEM
EM SUAS VIRTUDES HUMANAS
COM SEUS ATRIBUTOS DIVINOS NA
192 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

GALILEIA
(11)
Leitura Bíblica: Lc 9:1-26

UM QUADRO DO JUBILEU
Vimos que o Senhor Jesus começou Seu
ministério no capítulo quatro proclamando o ano
aceitável do Senhor, o jubileu. Depois dessa
proclamação, Ele chamou alguns para ser Seus
discípulos e dentre eles escolheu doze para apóstolos.
Então, em 9:1-6, Ele os enviou a expandir o jubileu.
Nesse trecho de Lucas temos a expansão do
ministério do Salvador-Homem mediante os doze
apóstolos.
Os apóstolos saíram a proclamar o reino de Deus,
isto é, anunciar o jubileu. Os cinco mil alimentados
em 9:1 0- 17 também estão relacionados com o
jubileu. A narrativa de Lucas aqui indica que no
jubileu não há carências nem faltas. No jubileu todos
ficam satisfeitos.
Precisamos ficar impressionados com o fato de
que Lucas escreveu seu evangelho sob a ótica do
jubileu. O ministério do Salvador-Homem começou
em Lucas 4 com a proclamação do jubileu.
Precisamos ter isso em mente ao ler os capítulos
seguintes. Entretanto, quando muitos leitores
chegam a Lucas 9, podem esquecer-se de que o
jubileu fora anunciado no capítulo quatro. Não
devemos cometer esse engano, mas devemos ter o
jubileu em mente à medida que lemos dos capítulos
5-2l. O conceito do jubileu anunciado em Lucas 4
governa todos os capítulos seguintes. Por isso
devemos considerar o que está registrado nesses
19
MENSAGEM VINTE E UM

capítulos como parte do jubileu proclamado em


Lucas 4.
Se tivermos essa visão ao ler 9:10-17,
desejaremos ver como o Salvador-Homem lida com a
situação da multidão faminta. No versículo 13 vemos
que “eram cerca de cinco mil homens”. Se as
mulheres e crianças fossem contadas, o número
excederia dez mil. Suponha que o Senhor tivesse
despedido a multidão sem alimentá-los, permitindo-
lhes permanecer com fome. Nesse caso não teria
havido o jubileu. Alguns poderiam ter-se queixado e
dito: “Fiquei aqui o dia inteiro e agora tenho fome.
Por que fomos despedidos? Para onde iremos e como
encontraremos alimento?”. Se isso houvesse ocorrido,
teria havido fome em vez de jubileu. Mas, como
resultado de o Senhor alimentar a multidão, houve
verdadeira aplicação do jubileu. Todos ficaram
satisfeitos e houve abundância e sobejo de alimento.
Em 9:12 os apóstolos disseram ao Senhor:
“Despede a multidão, para que, indo às aldeias e
campos em redor, se hospedem e achem alimento”.
Mas o Senhor disse-lhes: “Dai-lhes vós mesmos de
comer” (v. 13). Os discípulos pediram ao Senhor que
despedisse as multidões para que obtivessem comida
para si, mas o Senhor lhes disse que eles mesmos
dessem de comer à multidão. O conceito deles era
pedir às pessoas que fizessem algo; esse é o princípio
da lei. Mas o conceito do Senhor é dar às pessoas algo
para desfrutar: esse é o princípio da graça.
Quando o Senhor disse aos doze que deviam dar
de comer às multidões, eles replicaram: “Não temos
mais que cinco pães e dois peixes” (v. 13). João 6:9
nos conta que aqueles cinco pães eram de cevada.
Figurativamente a cevada tipifica o Cristo ressurreto
194 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

(Lv 23:10). Assim, os pães de cevada representam


Cristo em ressurreição como comida para nós. Os
pães pertencem à vida vegetal, que representa o
aspecto gerador da vida de Cristo, ao passo que o
peixe pertence à vida animal, que representa o
aspecto remissor da vida de Cristo. Para satisfazer
nossa fome espiritual, precisamos da vida geradora
de Cristo, bem como de Sua vida remissora. Os dois
aspectos são simbolizados por pequenos itens: pães e
peixes. Isso indica que o Salvador-Homem veio para
ser pequenos pedaços de comida a fim de alimentar
Seus seguidores.
Lucas 9:16 diz: “Tomando Ele os cinco pães e
dois peixes, erguendo os olhos ao céu, os abençoou e
partiu, e dava-os aos discípulos para que os pusessem
diante da multidão”. Os pães eram dos discípulos e
eles os levaram ao Senhor. Uma vez abençoados e
partidos pelo Senhor, foram devolvidos aos
discípulos para distribuí-los à multidão, para quem
os pães se tornaram grande satisfação. Isso indica
que os discípulos não eram a fonte de bênção; eram
apenas os canais usados pelo Senhor. Ele, sim, é a
fonte da satisfação das pessoas.
Lucas 9:17 diz: “Todos comeram e se fartaram; e
foi recolhido o que lhes sobejou, doze cestos de
pedaços”. Isso não só demonstrou o poder da deidade
do Salvador-Homem como Criador, como quem
chama à existência coisas que não existem (Rm 4:17),
mas também representou o suprimento abundante e
inexaurível de Sua vida divina (Ef 3:8; Fp 1:19). Além
disso, os doze cestos de pedaços indicam que o Cristo
ressurreto é ilimitado e inexaurível, e também que a
provisão do Senhor para nós é abundante, mais que
suficiente para ir ao encontro de toda a nossa
19
MENSAGEM VINTE E UM

necessidade.
O ministério do Salvador-Homem era um
ministério do jubileu. Por meio dos doze, Ele
começou a expandi-lo. No jubileu, ninguém é pobre;
pelo contrário, todos estão satisfeitos e fartos. No
jubileu, não há cativos; antes, todos os cativos foram
libertados e trazidos de volta ao desfrute de Deus. Na
aplicação do jubileu em 9:12-l7, o povo deve ter
ficado fora de si de alegria. Alguns discípulos podem
ter dito: “Este é o jubileu proclamado pelo Senhor.
Agora ninguém é pobre, mas todos estão fartos.
Olhem, sobejaram ainda doze cestos”. Que quadro do
jubileu!

FOI RECONHECIDO COMO CRISTO


E DESVENDOU SUA MORTE E
RESSURREIÇÃO PELA PRIMEIRA VEZ
Logo depois da narrativa de alimentar os cinco
mil, é-nos dito que o Senhor estava orando e, então,
fez aos discípulos uma pergunta: “Quem dizem as
multidões que sou Eu?” (v. 18). Os discípulos
responderam: “João Batista; outros; Elias; e outros,
que ressurgiu um profeta dos antigos” (v. 19). Aqui
vemos que a maioria das pessoas consegue perceber
que Cristo é somente um profeta. Fora da revelação
divina, ninguém consegue saber que Ele é o Cristo.
No versículo 20 o Senhor prosseguiu: “Mas vós,
perguntou-lhes Ele, quem dizeis que Eu sou?”. Nesse
ponto, Pedro respondeu: “O Cristo de Deus”.

O Cristo e o jubileu
A percepção de que Jesus é o Cristo também está
relacionada com o jubileu. Não poderia haver jubileu
196 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

sem Cristo, sem Aquele designado e ungido por Deus.


A fim de que o jubileu seja levado a cabo, há a
necessidade do Cristo.
No Antigo Testamento temos a questão do
jubileu e também as palavras concernentes ao
Messias, o Ungido de Deus, que viria. O jubileu
verdadeiro não consegue vir sem o Ungido de Deus.
Quando Ele veio, trouxe Consigo o jubileu. Na
verdade, Sua vinda é o jubileu.
Você alguma vez pensou que os eventos
registrados em 9:1-26 estão relacionados com o
jubileu? Embora tenha estudado os evangelhos por
muitos anos, nunca ouvi alguém ressaltar que
alimentar os cinco mil em Lucas 9 está relacionado
com o jubileu proclamado pelo Senhor Jesus em
Lucas 4. Agora vejo que alimentar os cinco mil é uma
aplicação do jubileu. A proclamação do jubileu no
capítulo quatro deve incluir tudo o que ocorre nos
capítulos seguintes. Isso quer dizer que tudo o que
acontece nos capítulos 5-24 deve ser considerado
parte do jubileu.
Lucas 9:1-2 diz: “Tendo Jesus convocado os doze,
deu- lhes poder e autoridade sobre todos os
demônios, e para curar doenças. E os enviou a
proclamar o reino de Deus e a curar os enfermos”.
Aqui vemos que, quando o Salvador-Homem enviou
os doze para expandir Seu ministério, deu- lhes
poder e autoridade sobre demônios e doenças. Ele
também os enviou para pregar e anunciar o reino de
Deus. Pode haver pobreza ou fome no reino de Deus?
Tenha certeza de que não há. Que, então, temos no
reino de Deus? Temos o jubileu no qual há satisfação,
e não há fome; há fartura, e não há escassez. No
jubileu, todos estão fartos e há abundância de comida
19
MENSAGEM VINTE E UM

a sobejar. Isso é retratado pela narrativa dos cinco


mil sendo alimentados.
Depois de o Senhor alimentar os cinco mil, os
discípulos devem ter ficado empolgados. O Senhor,
porém, estava calmo. O versículo 18 nos diz que Ele
orava sozinho. Quase sempre, quando as pessoas
estão empolgadas, o Senhor Jesus calmamente se
retira: para orar. Em Sua oração, Ele questionou os
discípulos, perguntando-lhes quem as multidões
diziam que Ele era. Eles Lhe contaram sobre as
diversas respostas absurdas. Pedro, então, tomou a
dianteira e disse: “Tu és o Cristo”.
O registro aqui é um pouco diferente do de
Mateus 16. O registro sobre o reconhecimento de
Cristo em Mateus 16 envolve o estabelecimento do
reino e a edificação da igreja. Aqui em 9:18-26, Lucas
tem outro ponto de vista. A visão de Lucas não é do
estabelecimento do reino e da edificação da igreja;
antes, sua ótica é a do jubileu. Por isso sua intenção é
mostrar-nos que para o jubileu há a necessidade do
Cristo, o Messias, o Ungido. É por isso ele enfatiza
que Jesus é o Cristo e não inclui os detalhes.
Precisamos ficar impressionados com o fato de que o
propósito de Lucas é enfatizar que, para a aplicação
do jubileu, precisamos de Cristo, o Ungido de Deus.

A necessidade de morte e ressurreição


Logo depois de ser reconhecido como Cristo, o
Senhor falou aos discípulos sobre Sua morte e
ressurreição. No versículo 22, Ele disse: “É
necessário que o Filho do Homem sofra muitas coisas,
seja rejeitado pelos anciãos, pelos principais
sacerdotes e pelos escribas, seja morto e ao terceiro
dia ressuscite”.
198 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

Por anos a fio não compreendia o significado da


sequência no capítulo nove. Por que, depois de
alimentar cinco mil, o Senhor questionou os
discípulos sobre Si mesmo? E por que, depois de O
terem reconhecido como o Cristo, Ele lhes disse que
estava para ser crucificado e ressuscitado? A resposta
a essas perguntas é que não pode haver jubileu sem
Cristo e Sua morte e ressurreição. Já enfatizamos que
não podemos ter o jubileu sem Cristo. Agora
precisamos ver que não podemos ter o jubileu sem
Sua morte e ressurreição. Sem a morte de Cristo, não
há como libertar os pecadores. Sem a ressurreição de
Cristo, não pode haver a restauração do direito
perdido de desfrutar Deus.
A morte de Cristo nos libertou do pecado e de
Satanás. De acordo com Hebreus 2:14, Cristo
destruiu Satanás por Sua morte. Se não tivesse
destruído Satanás, como poderia libertar-nos de sua
mão usurpadora? Se não o tivesse destruído por Sua
morte, não poderia ter-nos libertado dele. Nossa
libertação do cativeiro é totalmente devida à morte
todo-inclusiva de Cristo, uma morte que nos libertou
do pecado e de Satanás.
Somente pela ressurreição de Cristo é que nosso
direito de desfrutar Deus é restaurado. Quando
cremos em Sua morte todo-inclusiva e vitoriosa,
somos libertados do pecado, de Satanás e de nós
mesmos. Quando permanecemos e vivemos em Sua
ressurreição, temos a restauração do direito de
desfrutar Deus. Esse é o jubileu. Cristo, com Sua
morte e ressurreição, introduziu o jubileu.

NOSSA IDENTIFICAÇÃO COM A MORTE DE


CRISTO
19
MENSAGEM VINTE E UM

Com base no que falou sobre Sua morte, o


Senhor prosseguiu em 9:23-26 ensinando os
discípulos a tomar a cruz e segui-Lo, negando a vida
da alma. É necessário que façamos isso a fim de
participar do jubileu. O jubileu foi realizado pela
morte de Cristo. Agora, para que participemos dele,
precisamos ser identificados com Sua morte. Cristo
morreu para cumprir o jubileu e agora nós morremos
com Ele para participar do desfrute do jubileu. Por
um lado, houve a necessidade da morte de Cristo
para realizar o jubileu. Por outro, há a necessidade de
que nos identifiquemos com Sua morte para
desfrutar o jubileu.

Tomar a cruz e negar a vida da alma


Identificar-se com a morte de Cristo é tomar a
cruz, e tomar a cruz é negar a vida da alma. Como
veremos em mensagem posterior, os discípulos ainda
eram bem naturais. A fim de participar do jubileu
consumado pela morte de Cristo, era necessário que
tomassem a cruz e negassem a vida da alma.
Em 9:23 o Senhor diz: “Se alguém quer vir após
Mim, a si mesmo se negue, tome cada dia a sua cruz e
siga-Me”. A cruz aqui não é mero sofrimento; é
também um matar. Ela mata e dá fim ao criminoso.
Cristo primeiro tomou a cruz e depois foi crucificado.
Nós, Seus crentes, primeiro fomos crucificados com
Ele e hoje tomamos a cruz. Para nós, tomar a cruz é
permanecer sob o matar da morte de Cristo para o
término de nosso ego, nossa vida natural e nosso
velho homem. Fazendo assim, negamos o ego para
seguir o Senhor.
Antes da crucificação do Senhor, os discípulos O
seguiam de forma exterior. Porém, depois de Sua
200 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

ressurreição, nós O seguimos de forma interior. Já


que, em ressurreição, Ele se tornou o Espírito que dá
vida (1Co 15:45), que habita em nosso espírito (2Tm
4:22), nós O seguimos em nosso espírito (GI5:16-25).

Perder a vida de alma


Em Lucas 9:24 o Senhor prossegue: “Quem
quiser, pois, salvar a sua vida da alma, perdê-la-á;
mas quem perder a sua vida da alma por Minha
causa, esse a salvará”. Salvar a vida da alma é
permitir que a alma tenha desfrute e não sofra.
Perder a vida da alma é fazer com que a alma sofra a
perda do desfrute. Se os seguidores do Salvador-
Homem permitirem que sua alma tenha desfrute
nesta era, eles a farão sofrer a perda do desfrute na
era do reino vindouro. Se permitirem que a alma
sofra a perda do desfrute nesta era por causa do
Salvador-Homem, eles a farão ter desfrute na era do
reino vindouro. Eles partilharão do gozo do Senhor
governando a terra (Mt 25:21,23).
Em Lucas 9:25 o Senhor continua: “Pois que
aproveita o homem se ganhar o mundo inteiro e
perder-se ou prejudicar- se a si mesmo?”. Mateus
16:26 fala de perder a vida de alma, mas Lucas 9:25,
de perder “a si mesmo”. Isso indica que a vida da
alma é o ego.
Em Lucas 9:1-26 vemos que, a fim de expandir o
jubileu, o Salvador-Homem enviou os doze para
proclamar o reino de Deus, expulsar demônios e
curar doenças. Então Ele fez um milagre para indicar
que a todos os necessitados Ele aplica o jubileu. Ele
deve ter aplicado o jubileu a mais de dez mil pessoas.
Também vimos que, para o jubileu, há a necessidade
de Cristo. Cristo é o que o executa. Além disso, era
20
MENSAGEM VINTE E UM

necessário que Cristo morresse e ressuscitasse. Então,


para participar do jubileu e desfrutá-lo, nós, os
seguidores do Salvador-Homem, precisamos
identificar-nos com Sua morte todo-inclusiva e viver
em Sua ressurreição.

LIBERTADOS DO CATIVEIRO
E INTRODUZIDOS NO DESFRUTE DO
JUBILEU
A verdadeira experiência e desfrute do jubileu
que os crentes têm não são encontrados nos
evangelhos, mas em Atos e nas epístolas. No livro de
Atos e nas epístolas vemos que o verdadeiro jubileu
foi desfrutado pelos primeiros discípulos. Paulo, em
especial, estava no desfrute do jubileu. Ele estava
antes cativo, mas foi libertado do pecado, de Satanás,
do mundo e da religião judaica, e introduzido no
Cristo todo-inclusivo como a corporificação de Deus.
Mediante Cristo com Sua morte e ressurreição, Paulo
foi libertado do cativeiro e introduzido no desfrute do
jubileu. Suas catorze epístolas, portanto, são uma
descrição, definição e explicação completa de seu
desfrute do jubileu por meio da morte e em
ressurreição.

ESTUDO-VIDA DE LUCAS
MENSAGEM VINTE E DOIS
O MINISTÉRIO DO SALVADOR-HOMEM
EM SUAS VIRTUDES HUMANAS
COM SEUS ATRIBUTOS DIVINOS NA
GALILEIA
(12)
202 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

Leitura Bíblica: Lc 9:27-50

A NECESSIDADE DA TRANSFIGURAÇÃO
Nesta mensagem chegamos a 9:27-50, trecho de
Lucas também relacionado com o jubileu. Aqui
vemos que era preciso o Senhor Jesus ser
transfigurado. De acordo com toda a revelação do
Novo Testamento, precisamos de transfiguração para
desfrutar o jubileu.
O verbo grego traduzido por “transfigurar” em
Mateus 17:2 e Marcos 9:2 é o mesmo traduzido por
“transformar” em 2 Coríntios 3:18 e Romanos 12:2. O
mesmo verbo é usado também em Filipenses 3:21. O
ponto aqui é que, para o desfrute do jubileu,
precisamos de transfiguração ou transformação.
O Salvador-Homem na carne precisava de
transfiguração porque estava na semelhança da carne
do pecado, da carne do homem caído (Rm 8:3).
Assim como a serpente de bronze na haste tinha a
forma, mas não a natureza venenosa de serpente
(Nm 21:8-9), também o Senhor Jesus na carne tinha
a semelhança, mas não a natureza da carne do
pecado (103:14). Quando se tomou carne, Ele
assumiu a forma do velho homem. O homem já se
tinha tomado caído quando o Senhor Jesus se tomou
carne. Ele se tomou carne muito depois da queda do
homem, vindo na semelhança da carne do pecado.
João 1:1 e 14 indicam que a Palavra, que era Deus,
tomou-se carne. Nas palavras de Paulo em 1 Timóteo
3:16, isso foi Deus manifestado na carne. Visto que o
Senhor Jesus, Deus encarnado, veio na carne, até
mesmo Ele precisava da transfiguração.

RESSURREIÇÃO, TRANSFIGURAÇÃO
20
MENSAGEM VINTE E DOIS

E A PLENA APLICAÇÃO DO JUBILEU


A era do Novo Testamento é a era do jubileu.
Todavia ainda não é a hora da plena aplicação do
jubileu. A aplicação plena do jubileu envolve a
transfiguração. Você sabe quando o Salvador foi
totalmente transfigurado? Foi em Sua ressurreição. A
transfiguração no monte foi em pequena escala, mas,
ao ressuscitar dentre os mortos, o Senhor foi
totalmente transfigurado. Ele agora permanece nesse
estado de transfiguração. De acordo com Filipenses
3:21, quando Ele voltar, todos seremos
transfigurados.
Atualmente nossa transformação ou
transfiguração ocorre na alma. Nosso espírito foi
regenerado e a alma está sendo transformada. Um
crente maduro é o que foi totalmente transformado
na alma, ou seja, transformado na mente, vontade e
emoção. Ele só precisa que o corpo seja transfigurado
na vinda do Salvador transfigurado. Essa
transfiguração é chamada de redenção do corpo por
Paulo em Romanos 8:23. A redenção do corpo é
também a entrada na liberdade da glória dos filhos
de Deus. A palavra de Paulo em Romanos 8 indica
que, embora estejamos no jubileu hoje, ainda não
estamos nele de modo pleno. Quando nosso corpo
tiver sido totalmente redimido, transfigurado e
transformado, seremos introduzidos na liberdade da
glória dos filhos de Deus, e isso será o jubileu em
plenitude.

PRINCÍPIO BÁSICO
Aqui precisamos ver um princípio básico:
quando estamos no velho homem, não conseguimos
204 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

participar do jubileu. Embora estejamos no ano do


jubileu, o ano aceitável do Senhor, que na verdade é a
era inteira do Novo Testamento, se permanecemos
na velha criação, nada temos a ver com a participação
no desfrute do jubileu. Esse é o motivo de a situação
entre os cristãos hoje em dia ser tão lamentável.
Muitos crentes só sabem que seus pecados foram
perdoados, mas não sabem que seu espírito foi
regenerado. Todavia uma pessoa perdoada, que não
sabe que foi regenerada, ainda permanece na velha
criação e não consegue participar do desfrute do
jubileu.

TRANSFORMAÇÃO PARA O DESFRUTE DO


JUBILEU
Para que desfrutemos o jubileu, nosso espírito
foi regenerado. Deus o regenerou como início de
nossa participação no desfrute do jubileu. Isso quer
dizer que começamos a entrar no desfrute do jubileu
quando nosso espírito foi regenerado. Quando
invocamos o nome do Senhor para salvação e
experimentamos o perdão de pecados, nosso espírito
foi regenerado. Embora não tivéssemos
conhecimento do que ocorrera, em nós houve alegria.
A alegria em nós foi sinal do início de nossa
participação no desfrute do jubileu. A conversão e a
experiência adequada de salvação sempre
introduzem esse desfrute.
Muitos crentes, depois de regenerados, foram
desviados para se importar com meras doutrinas de
forma mental. Como resultado, perderam o desfrute
do jubileu. Entretanto nós, na restauração do Senhor,
fomos trazidos de volta da teologia e de mero
entendimento doutrinário e mental para nosso
20
MENSAGEM VINTE E DOIS

espírito regenerado. Quanto mais o Senhor se


expande de nosso espírito e entra em nossa alma,
saturando nossa mente, vontade e emoção, mais
participamos do desfrute do jubileu. Quando
experimentamos 2 Coríntios 3:18 e Romanos 12:2, ou
seja, quando somos transformados na alma,
desfrutamos o jubileu.
Você viu o que é o jubileu? O jubileu é a
libertação do cativeiro e a entrada no desfrute do
Deus Triúno. Começamos a experimentar esse
jubileu quando fomos regenerados. Mediante a
regeneração, fomos libertados do cativeiro e
entramos no desfrute do Deus Triúno. Mas logo
depois de regenerados, muitos fomos desviados por
mestres cegos e perdemos o gozo do jubileu. Agora,
na restauração do Senhor, voltamos ao espírito
regenerado e começamos a experimentar a
transformação na alma.
De acordo com a palavra de Paulo em 2 Coríntios
3:18, somos transformados à mesma imagem, à
imagem do Senhor, de um grau de glória para outro.
À medida que prosseguimos de um grau de glória
para outro, ficamos empolgados porque participamos
mais da libertação do cativeiro e entramos mais
plenamente no desfrute do Deus Triúno. Isso é
transformação para o desfrute do jubileu. Essa
transformação é descrita pela transfiguração do
Senhor Jesus no monte Hermom.
Em 9:23-24 o Senhor disse: “Se alguém quer vir
após Mim, a si mesmo se negue, tome cada dia a sua
cruz e siga-Me. Quem quiser, pois, salvar a sua vida
da alma, perdê-la-á; mas quem perder a sua vida da
alma por Minha causa, esse a salvará”. Tomar a cruz
é seguir o Senhor e negar a vida da alma é identificar-
206 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

se com Sua morte. A morte do Senhor aniquila a vida


natural e a velha criação para que entremos na nova
criação, numa condição transfigurada. Aqui, num
estado transfigurado, participamos do desfrute do
jubileu. Desse modo, para o desfrute do jubileu, há a
necessidade de transfiguração.

A TRANSFIGURAÇÃO E O REINO DE DEUS


Depois de falar aos discípulos sobre identificar-
se com Sua morte, o Senhor prosseguiu:
“Verdadeiramente vos digo: Alguns há, dos que aqui
se encontram, que de maneira nenhuma provarão a
morte até que vejam o reino de Deus” (9:27). Isso foi
cumprido pela transfiguração do Senhor no monte.
Quer dizer que Sua transfiguração foi a vinda do
reino de Deus.
Lucas 9:28-29 diz: “Aconteceu que, cerca de oito
dias depois de proferidas essas palavras, tomando
Consigo a Pedro, João e Tiago, subiu ao monte para
orar. E, enquanto Ele orava, a aparência do Seu rosto
se tomou diferente, e sua veste, de um branco
deslumbrante”. Literalmente, as palavras gregas
traduzi das por “branco deslumbrante” significam
brilhante como relâmpago. Diferentemente de
Mateus 17 e Marcos 9, esses versículos não usam a
palavra “transfigurado”, não obstante neles com
certeza podemos ver a transfiguração do Senhor, a
qual foi a vinda, a aparição, do reino de Deus.
Já enfatizamos que o reino de Deus é o Salvador
(17:21) como semente da vida, plantada em Seus
crentes, os escolhidos de Deus (Me 4:3, 26), e
desenvolvida até tornar-se a esfera onde Deus pode
governar como Seu reino em Sua vida divina. A
transfiguração do Salvador-Homem, na verdade, foi
20
MENSAGEM VINTE E DOIS

a aparição do reino. Quando Pedro, João e Tiago


estavam na atmosfera da transfiguração do Senhor,
eles estavam no reino de Deus. Foi por isso que
Pedro disse ao Senhor: “Mestre, bom é estarmos aqui”
(Lc 9:33). Nesse ponto, Pedro, João e Tiago
certamente participaram do desfrute no jubileu. Eles
foram libertados e estavam no gozo do Deus Triúno.
208 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

VER A TRANSFIGURAÇÃO
COMO ALGO RELACIONADO COM O
JUBILEU
Poucos cristãos viram que a transfiguração do
Senhor Jesus foi a aparição do reino de Deus e
também o jubileu. É muito importante ver isso.
O Senhor Jesus Cristo agora vive em nós.
Podemos dizer que Ele novamente se encarnou, desta
vez em nós. Por isso, em certo sentido, como Aquele
que vive em nós, Ele de novo está na carne, em nossa
carne. Somos todos a carne na qual o Senhor vive.
Por isso há a necessidade de outra transfiguração.
A maioria dos cristãos sabe algo sobre a
transfiguração do Senhor, mas apenas de forma
doutrinária. Se tivermos uma visão global de todo o
Evangelho de Lucas e olharmos de acordo com o
princípio do jubileu proclamado no capítulo quatro,
veremos que a transfiguração no capítulo nove está
relacionada com o jubileu.
Quem em 9:27-36 teve o pleno desfrute do
jubileu? Somente três discípulos: Pedro, João e Tiago.
Todavia, embora participassem do jubileu e o
desfrutassem, eles ainda eram muito naturais. O
Senhor Jesus foi transfigurado, mas Pedro, João e
Tiago não. Assim, embora estivessem no jubileu, eles
na verdade não sabiam nada sobre ele, pois ainda
não haviam sido transfigurados.
Precisamos ficar impressionados como fato de a
transfiguração do Salvador-Homem estar
relacionada com o jubileu e também com a aparição
do reino de Deus. Visto que Pedro, João e Tiago
ainda não haviam sido transformados, eles puderam
participar do jubileu sem ter a percepção adequada
20
MENSAGEM VINTE E DOIS

disso. Esses três discípulos ainda estavam na velha


criação, ainda estavam na vida natural.

O SENHOR EXPULSOU UM DEMÔNIO DO


FILHO DE UM HOMEM
Enquanto a transfiguração ocorria no alto da
montanha, lá embaixo no vale, os discípulos
tentavam expulsar um demônio. Embora tivessem
feito o que pudessem, não foram capazes de expulsá-
lo. Somente três dos discípulos (Pedro, João e Tiago)
estiveram no monte com o Senhor para participar do
jubileu. Os outros permaneceram no vale. Essa foi a
situação que o Salvador enfrentou quando desceu do
alto do monte.
Lucas 9:37 diz que, quando o Senhor e os três
discípulos desceram do monte, grande multidão foi-
Lhe ao encontro. Então, “um homem dentre a
multidão clamou, dizendo: Mestre, rogo- Te que
olhes para meu filho, porque é meu filho único. Eis
que um espírito se apodera dele, e subitamente grita,
e convulsiona-o até espumar; e dificilmente se retira
dele, quebrantando-o sem cessar. Roguei a Teus
discípulos que o expulsassem, mas eles não puderam”
(vs. 38-40). Aqui vemos que os discípulos não
tiveram a capacidade de expulsar o demônio. Isso
ocorria não só com os nove que permaneceram no
vale, mas também com Pedro, João e Tiago, que
estiveram com o Senhor no alto do monte. O fato de
João e Tiago tomarem a liderança para discutir quem
era maior indica que eles mesmos estavam ocupados
pelo diabo e assim eram incapazes de expulsar o
demônio.
O jubileu estava presente com o Senhor Jesus.
Contudo, visto que os discípulos ainda estavam na
210 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

velha criação, na vida natural, não puderam


participar do jubileu. Isso indica que, enquanto
permanecemos na vida natural e vivemos na velha
criação, não conseguimos ter parte no jubileu. O
jubileu nada tem a ver com a vida natural.
De acordo com 9:41, o Senhor Jesus disse: “Ó
geração incrédula e pervertida! Até quando estarei
convosco e vos sofrerei? Traze aqui o teu filho”. Ele,
então, repreendeu o espírito imundo, curou o rapaz e
o devolveu ao pai (v. 42). Sobre isso, o versículo 43
diz: “E todos ficaram atônitos com a majestade de
Deus”.

DESVENDOU SUA MORTE E


RESSURREIÇÃO
PELA SEGUNDA VEZ
“Maravilhando-se todos de tudo o que Jesus
fazia, disse aos Seus discípulos: Ponde nos vossos
ouvidos essas palavras; pois o Filho do Homem está
para ser entregue nas mãos dos homens” (vs. 43b-44).
Aqui o Senhor desvenda Sua morte pela segunda vez.
Todavia os discípulos “não compreendiam essa
palavra, e era-lhes encoberta para que não a
entendessem; e temiam perguntar-Lhe a respeito
dessa palavra” (v. 45). Logo em seguida, é-nos dito
que “levantou-se entre eles uma discussão sobre qual
deles seria o maior” (v. 46). Isso com certeza indica
que os discípulos não sabiam onde estavam. Por
certo não estavam no jubileu, pois ainda eram muito
naturais.
O Senhor Jesus havia indicado que estava
prestes a morrer. Também indicou que era
necessário que os discípulos morressem com Ele.
Aqui o Senhor parecia dizer: “Eu tenho de morrer a
21
MENSAGEM VINTE E DOIS

fim de cumprir o jubileu, e vocês precisam morrer a


fim de participar do jubileu. Sem Minha morte, não
haverá jubileu, e, sem a morte de vocês Comigo,
vocês não poderão participar do jubileu”.

OS DISCÍPULOS FORAM INCAPAZES


DE OUVIRA PALAVRA DO SENHOR
Embora o Senhor tivesse dito aos discípulos:
“Ponde nos vossos ouvidos essas palavras”, eles não
tiveram a capacidade de ouvir o que Ele dizia. Eles
não podiam compreender Sua palavra; não
conseguiram percebê-la. Sua incapacidade em
compreender o que o Senhor dizia é indicado pela
discussão que tiveram sobre qual deles seria o maior
(v. 46).
Lucas 9:47-48 diz: “Mas Jesus, conhecendo o
arrazoamento de seus corações, tomou uma criança,
colocou-a junto a Si, e disse-lhes: Qualquer que
acolher esta criança por causa de Meu nome, a Mim
Me acolhe; e qualquer que a Mim Me acolhe, acolhe
ao que Me enviou; porque aquele que é o menor
entre todos vós, esse é que é grande”. Tão logo o
Senhor proferiu essas palavras, João respondeu
dizendo: “Mestre, vimos que alguém em Teu . nome
expulsava demônios, e nós lho proibimos, porque
não segue conosco” (v. 49). A palavra de João indica
que os discípulos não conseguiam receber as palavras
do Senhor. Podemos dizer que não conseguiam
apreciar a “música” que Ele tocava. O motivo de não
poderem assimilar as palavras do Senhor era que
eram naturais e ainda estavam na velha criação. Com
eles não havia jubileu. Eles ainda não estavam
qualificados a participar do desfrute do jubileu.
O jubileu só pode ser levado a cabo por meio da
212 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

morte e ressurreição de Cristo. Além disso, somente


por meio de nossa identificação com Cristo em Sua
morte é que podemos partilhar do gozo do jubileu.
Para o jubileu e a experiência do jubileu, era
necessário que o Senhor morresse, e nós com Ele. Ele
morreu para o cumprimento do jubileu e nós
morremos com Ele a fim de participar do desfrute do
jubileu.
Ao ler o Evangelho de Lucas, precisamos ter a
visão de que o jubileu proclamado no capítulo quatro
é a chave para interpretar todo o livro. No passado, vi
a questão do jubileu nesse evangelho, mas não havia
visto que o jubileu no capítulo quatro era a chave
para interpretar todos os capítulos seguintes.

MORRER COM CRISTO PARA PARTICIPAR


DO DESFRUTE DO JUBILEU
Na época de 9:50 o ministério do Senhor na
Galileia foi completado. Como veremos, começando
em 9:51, Ele deixou a Galileia e foi para Jerusalém.
Você acha que, quando o Senhor completou a seção
de Seu ministério na Galileia, Pedro, João e Tiago e
os outros discípulos estavam no gozo do jubileu? Não
havia absolutamente esse gozo. Eles não conseguiam
entender a palavra do Senhor sobre Sua morte. Era
necessário que Ele fosse com eles a Jerusalém, onde
poderia morrer para cumprir o jubileu e onde os
discípulos morreriam com Ele a fim de ter parte no
desfrute do jubileu.
No capítulo nove vimos que, embora os
discípulos estivessem no jubileu, não tinham
qualquer participação em seu desfrute. Na verdade, o
jubileu ainda não havia sido cumprido porque
somente poderia ser cumprido pela morte de Cristo e
21
MENSAGEM VINTE E DOIS

em Sua ressurreição. Por isso, por fim, o Senhor


decidiu ir da Galileia para Jerusalém com os
discípulos. Ele foi para lá a fim de morrer, mas não
sozinho; pelo contrário, levou Consigo os discípulos
para que percebessem que era necessário que Ele
morresse para o cumprimento do jubileu e que eles
morressem para participar do gozo do jubileu.

ESTUDO-VIDA DE LUCAS
MENSAGEM VINTE E TRÊS
O MINISTÉRIO DO SALVADOR-HOMEM
EM SUAS VIRTUDES HUMANAS
COM SEUS ATRIBUTOS DIVINOS
DA GALILEIA PARA JERUSALÉM
(1)
Leitura Bíblica: Lc 9: l-l 0:24

De acordo com o Evangelho de Lucas, o


ministério do Salvador-Homem na terra está dividido
em duas seções. A primeira foi cumprida na Galileia
(4:14-9:50). A conclusão dessa seção é que o Senhor
desvendou Sua morte pela segunda vez e disse uma
palavra que expõe o aspecto natural dos discípulos. A
segunda seção ocorre a caminho da Galileia para
Jerusalém (9:51-19:27). A primeira seção abordou
vinte e seis pontos. Como veremos, trinta e sete
pontos são abordados na segunda seção, e o primeiro
deles é que o Salvador-Homem foi rejeitado pelos
samaritanos (9:51-56).

FOI REJEITADO PELOS SAMARITANOS


Lucas 9:51 diz: “E aconteceu que, estando para
214 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

completar-se os dias para Ele ser levado para cima,


manifestou a firme resolução de ir para Jerusalém”.
O Salvador-Homem ministrou por mais de três anos
na região desprezada da Galileia, distante do templo
santo e da cidade santa, onde haveria de morrer para
o cumprimento do plano eterno de Deus. Como
Cordeiro de Deus (Jo 1:29), Ele tinha de ser oferecido
a Deus no monte Moriá, que é o monte Sião, onde
Abraão oferecera Isaque e desfrutara a provisão
divina de um cordeiro como substituto para seu filho
(Gn 22:2, 9-14) e onde o templo foi edificado em
Jerusalém (2 Cr 3:1). Tinha de ser ali que Ele haveria
de ser entregue, segundo o desígnio determinado
pela Trindade da Deidade (At 2:23), aos líderes
judeus (Me 9:31; 10:33) e ser rejeitado por eles, os
construtores do edifício de Deus (At 4:11). Tinha de
ser ali que Ele haveria de ser crucificado de acordo
com a forma romana de pena capital (Jo 18:31- 32;
19:6, 14-15) para cumprir a prefiguração com
respeito ao tipo de morte que deveria sofrer (Nm
21:8-9; Jo 3:14). Além disso, segundo a profecia de
Daniel 9:24-26, aquele seria o exato ano em que o
Messias (Cristo) seria cortado (morto). Ademais,
como o cordeiro pascal (1Co 5:7), Ele tinha de ser
morto no mês da Páscoa (Ex 12:1-11). Portanto o
Senhor tinha de ir para Jerusalém (Me 10:33; 11:1,
11,15, 27; Jo 12:12) antes da Páscoa (1012:1; Me 14:1),
para ali morrer no dia da Páscoa (Me 14:12-17; Jo
18:28), no lugar e hora ordenados de antemão por
Deus.
Já enfatizamos que, de acordo com Lucas 9:51, o
Senhor “manifestou a firme resolução de ir para
Jerusalém”. Os versículos 52-53 dizem: “E enviou
mensageiros diante da Sua face. Indo eles, entraram
21
MENSAGEM VINTE E QUATRO

numa aldeia de samaritanos para Lhe fazer


preparativos. E não O acolheram porque o rosto Dele
era de quem decisivamente ia para Jerusalém”. Aqui
vemos que o Salvador-Homem foi rejeitado pelos
samaritanos.
Não havia como o Senhor Jesus ir da Galileia
para Jerusalém sem passar por Samaria. Os
samaritanos eram em parte gentios e em parte judeus.
Os judeus os rejeitavam totalmente e se recusavam a
considerá-los parte do povo santo. Os samaritanos se
sentiam ofendidos com isso e não tinham os judeus
em boa conta. Percebendo a situação, o Senhor sabia
que seria dificil para Ele e para os que com Ele
estavam passar por Samaria. Mais de setenta
viajavam com Ele. Isso é provado pelo fato de que,
em 10:1, Ele “designou outros setenta, e os enviou de
dois em dois, diante de Sua face, para cada cidade e
lugar aonde Ele mesmo estava para ir” (10:1).
Uma vez que o Senhor enviara esses setenta,
pode ter acontecido que outros mais ainda O seguiam
por Samaria a caminho de Jerusalém.
Em 9:52 o Senhor enviou mensageiros diante
Dele. Eles entraram numa aldeia de samaritanos para
fazer preparativos para o Senhor. Os samaritanos,
porém, não quiseram recebê-Lo. Visto que o Senhor
foi rejeitado pelos samaritanos, não houve como ficar
naquela aldeia com Seus seguidores. Foi preciso ir
para outra aldeia.
Vendo que os samaritanos haviam rejeitado o
Salvador-Homem, “os discípulos Tiago e João
disseram: Senhor, queres que mandemos descer fogo
do céu e consumi-l os?” (v. 54). Alguns manuscritos
acrescentam a esse versículo a sentença: “assim como
[o] fez Elias”. O Senhor voltou- se para eles e os
216 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

repreendeu. Parece que Ele lhes dizia: “Vocês não


sabem que estamos proclamando o jubileu? No
jubileu não se trata de mandar descer fogo para
consumir as pessoas. Em vez disso, trazemos paz aos
outros”.
Em Marcos 3:17 o Senhor deu a João e a Tiago o
“nome de Boanerges, que quer dizer, filhos do
trovão”. Esse nome vem do aramaico e foi
acrescentado a Tiago e João por causa de sua
impetuosidade. As palavras impetuosas em Lucas
9:54 eram contrárias à virtude e moralidade do
Salvador, a quem acompanhavam.
João, um dos filhos do trovão, também proferiu
uma palavra impetuosa em Lucas 9:49: “Mestre,
vimos alguém que em Teu nome expulsava demônios,
e nós lho proibimos, porque não segue conosco”.
Essa ação impetuosa de João era também contrária à
virtude do Salvador-Homem. A atitude de João foi
como a de Josué em Números 11:28.
Lucas 9:55 diz: “Ele, porém, voltando-se, os
repreendeu”. O seguinte trecho duvidoso aparece em
alguns poucos manuscritos: “E disse: Vós não sabeis
de que espírito sois”. Essa palavra, que mostra a alta
moralidade do Salvador-Homem, é encontrada
somente em Lucas.
Lucas 9:56 diz simplesmente: “E foram para
outra aldeia”. A maioria dos manuscritos antigos
omite a frase: “Pois o Filho do Homem não veio para
destruir as almas dos homens, mas para salvá-las”.

INSTRUIU AS PESSOAS SOBRE O MODO DE


SEGUI-LO
Em 9:57-62 o Salvador-Homem instruiu as
pessoas a segui-Lo. O versículo 57 diz: “Indo eles pelo
21
MENSAGEM VINTE E QUATRO

caminho, alguém Lhe disse: Seguir-Te-ei para onde


quer que fores”. O Senhor Jesus lhe disse: “As
raposas têm covis e as aves do céu, ninhos; mas o
Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça”. A
pessoa do versículo 57 era um dos escribas (Mt 8:19),
que costumava viver confortavelmente. Ele viu
multidões sendo atraídas ao Salvador (Mt 8:18) e
quis segui-Lo por curiosidade, sem considerar o
custo. Esse foi o motivo de o Salvador-Homem ter-
lhe respondido dessa forma para fazê-lo refletir sobre
o custo. Por isso o Salvador o acautelou, mostrando-
lhe que, embora multidões fossem atraídas a Ele, Ele
não tinha onde repousar, indicando ao escriba que
segui-L o iria custar- lhe considerável sofrimento.
Em 9:58 o Senhor enfatizou especificamente que
não tinha onde repousar a cabeça. Aqui vemos que a
vida humana do Salvador era cheia de sofrimento. Na
hospedaria, quando de Seu nascimento, não havia
lugar onde pudesse deitar-se (2:7); e, em Seu
ministério maravilhoso na terra, não havia lugar
onde pudesse repousar. O sofrimento era um sinal de
Sua vida humana (2:12).
Em 9:57-58 vemos que os que querem seguir o
Senhor Jesus por curiosidade não sabem o custo
disso. Certamente o escriba no versículo 57 não sabia
o que lhe custaria seguir ao Senhor, daí o Senhor o
advertiu que segui-Lo lhe custaria muito sofrimento.
Em 9:59 o Salvador-Homem disse a outro:
“Segue-Me. Ele, porém, respondeu: Senhor, permite-
me ir primeiro sepultar meu pai”. Esse foi chamado
pelo Salvador para segui-Lo, mas levou em conta sua
obrigação para com o pai morto e não quis segui-Lo
de imediato. Por isso o Salvador o encorajou a pagar
o preço para se tomar um seguidor em Sua grande
218 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

comissão de anunciar o reino de Deus (v. 60).


A resposta do que pediu para primeiro ir e
sepultar o pai indica que ele superestimou o custo de
seguir o Salvador-Homem. Esse foi o motivo de o
Senhor ter-lhe respondido de forma a encorajá-lo a
segui-Lo e pôr de lado as ponderações do custo e
deixar o sepultamento para outros.
Em 9:60 o Senhor prosseguiu dizendo àquele
contatado no versículo anterior: “Deixa os mortos
sepultar os seus próprios mortos; tu, porém, vai e
anuncia em toda parte do reino de Deus”. Essa
palavra indica que o que ia sepultar seu pai estava
espiritualmente morto (Jo 5:25; Ef 2:1), e o que ia ser
sepultado estava fisicamente morto. Envolver-se
nesse sepultamento era fazer uma obra morta.
Entretanto anunciar o reino de Deus é um ato vivo,
um ato que faz viver os mortos, capacitando-os a
entrar no reino de Deus.
Lucas 9:61 diz: “Outro também Lhe disse:
Seguir-Te-ei, Senhor, mas deixa-me primeiro
despedir-me dos que estão em minha casa”. A
palavra grega traduzida por “despedir- me” pode
também ser traduzida como “dizer adeus”. No
versículo 62, o Senhor lhe disse: “Ninguém que põe a
mão no arado e olha para trás é apto para o reino de
Deus”. Essa terceira pessoa ofereceu-se
voluntariamente para seguir o Senhor, mas não quis
fazê-lo antes de despedir-se da família. Por isso o
Salvador-Homem o admoestou a não deixar que
coisa alguma o detivesse em relação ao reino de Deus.
No versículo 62 o Senhor fala de não colocar a
mão no arado e olhar para trás. Para arar, deve-se
concentrar toda a atenção à linha a ser arada.
Distrair-se apenas um pouco pode fazer o arado sair
21
MENSAGEM VINTE E QUATRO

da linha, quanto mais olhar para trás. Para seguir o


Senhor, devemos esquecer tudo o mais e seguir
sempre em frente, com vistas ao reino de Deus.
Por que Lucas insere uma narrativa de três casos
de seguir o Senhor Jesus em 9:57-627 O motivo é que
o Senhor fora rejeitado pelos samaritanos. Embora
eles tivessem rejeitado o Salvador-Homem, certas
pessoas ainda estavam dispostas a segui-Lo. Por isso,
nesse ponto, o Senhor lidou com três casos de
pessoas que queriam segui-Lo.
Podemos dizer que o mundo todo hoje é como a
região de Samaria, no sentido de rejeitar totalmente
o Salvador-Homem. Entretanto, no meio da rejeição
do mundo ao Senhor, alguns estão dispostos a segui-
Lo. No primeiro caso, narrado em 9:57-58, vemos
que seguir o Senhor não é fácil. Pelo contrário, se
quisermos segui-Lo, precisamos estar prontos para
arcar com o custo. No segundo caso, descrito em
9:59-60, vemos que seguir o Senhor exige que
sacrifiquemos nosso pai morto a fim de proclamar o
reino de Deus, isto é, proclamar o jubileu. Então, no
último caso, visto em 9:61-62, percebemos que não
podemos olhar para trás ou ser retidos por coisa
alguma se quisermos seguir o Senhor. Segui-Lo
requer que andemos direto em frente.

DESIGNOU SETENTA DISCÍPULOS


PARA EXPANDIR SEU MINISTÉRIO
Em 10:1-24 vemos que o Senhor designou
setenta discípulos para expandir Seu ministério. Os
três casos em 9:57-62 foram, na verdade, uma
preparação para isso. Depois dessa preparação, o
Senhor designou os setenta para propagar o jubileu.
Vimos que em 9:19 o Senhor expandiu Seu
220 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

ministério por meio dos doze apóstolos. Isso foi na


Galileia, mas agora, no caminho da Galileia para
Jerusalém, passando por Samaria, a necessidade era
muito maior. Por isso Ele designou setenta e os
enviou a expandir o jubileu. Sobre isso, 10:1 diz:
“Depois disso o Senhor designou outros setenta, e os
enviou de dois em dois, diante da Sua face, para cada
cidade e lugar aonde Ele mesmo estava para ir”. O
Salvador designou setenta discípulos para partilhar
de Seu ministério, assim como Moisés designou
setenta anciãos para partilhar de seu encargo,
segundo Deus lhe ordenara (Nm 11:16-17; Êx 24:1,9).
O fato de Ele enviá-los de dois em dois indica que
foram enviados como testemunhas (Dt 17:6; 19:15;
Mt 18:16).
Lucas 10:2 diz: “E lhes dizia: A seara é grande,
mas os trabalhadores são poucos. Rogai, pois, ao
Senhor da seara que mande trabalhadores para a Sua
seara”. Em Sua economia, Deus tem um plano a
realizar, que ainda requer que os Seus roguem e orem
a Deus por isso. Ao lhes responder a oração, Ele
realizará o que oraram com respeito a Seu plano.
Especificamente o Senhor aqui diz aos discípulos que
busquem o Senhor da seara. A palavra “seara” indica
que o reino de Deus é estabelecido com seres que têm
vida, que podem crescer e multiplicar-se. Além disso,
o título “Senhor da seara” indica que o Senhor é o
dono dessa colheita.
O modo de o Senhor enviar os setenta em 10:1-
24 é muito semelhante à maneira corno enviou os
doze em 9:1-9. Ele considerava a época desse envio
corno a época do jubileu, e no jubileu ninguém deve
carecer de nada. Essa foi a razão de Ele os ter
encarregado de não levar nada para sua necessidade;
22
MENSAGEM VINTE E QUATRO

antes, deviam ficar onde fossem recebidos e comer o


que fosse posto diante deles (vs. 7-8).
Em 10:5-6 ternos urna palavra importante sobre
a paz: “E em qualquer casa em que entrardes, dizei
primeiro: Paz a esta casa! Se houver ali um filho da
paz, repousará sobre ela a vossa paz; se não, ela
voltará sobre vós”. Nesses versículos, o termo “paz” é
crucial. O Senhor até usa a expressão “filho da paz”.
O principal item no jubileu é a paz. Devemos saudar
os outros com a paz e eles devem saudar-nos com a
paz. Se aquele a quem saudarmos for um filho da paz,
nossa paz permanecerá com ele; se não for, ela
voltará sobre nós.
Em 10:10-16 vemos a seriedade da rejeição dos
enviados do Salvador-Homem. Com relação a urna
cidade que rejeita Seus enviados, Ele diz “que
naquele dia haverá menos rigor para Sodoma do que
para aquela cidade”. Isso indica que a punição do
juízo de Deus tem vários graus. Rejeitar os enviados
do Senhor acarretará em mais punição do que o
pecado de Sodoma.

ESTUDO-VIDA DE LUCAS

MENSAGEM VINTE E QUATRO


O MINISTÉRIO DO SALVADOR-HOMEM
EM SUAS VIRTUDES HUMANAS
COM SEUS ATRIBUTOS DIVINOS
DA GALILEIA PARA JERUSALÉM
(2)
Leitura Bíblica: Lc 9:51-10:24
222 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

Na mensagem anterior começamos a considerar


a segunda seção do ministério terreno do Salvador-
Homem, da Galileia a Jerusalém (9:51-19:27). Vimos
que o Senhor foi rejeitado pelos samaritanos (9:51-
56). Depois dessa rejeição, Ele instruiu alguns sobre
como segui-Lo (9:57- 62). Essa instrução foi uma
preparação para designar os setenta discípulos para
expandir Seu ministério, conforme registra 10:1-24.

OS SETENTA RETORNARAM COM ALEGRIA


Lucas 10:17 diz: “Regressaram os setenta com
alegria, dizendo: Senhor, até os demônios se nos
submetem em Teu nome”. O Senhor Jesus replicou:
“Eu via a Satanás cair do céu como um relâmpago”.
Quando Satanás se rebelou contra Deus, antes da
criação do homem, foi julgado e condenado a ser
lançado no Seol (Hades), no profundo do abismo (Is
14:15; Ez 28:17). Após isso, Deus começou a executar
a sentença que lhe impusera. Ele tem executado e irá
executar essa sentença em várias ocasiões e em
diferentes graus, tais como por meio dos setenta
discípulos neste capítulo, por meio de Cristo na cruz
(Hb 2:14; Jo 12:31), por meio do filho varão e de
Miguel antes da grande tribulação, quando Satanás
será lançado à terra (Ap 12:5, 7-10,13), e por meio do
anjo antes do milênio, quando será lançado no
abismo (Ap 20:1-3). Por fim, Satanás será lançado no
lago de fogo, para sofrer a punição do fogo eterno,
após o milênio (Ap 20:10), por toda a eternidade.
Em 10:19 o Senhor prosseguiu dizendo aos
setenta: “Eis que vos dei autoridade para pisar
serpentes e escorpiões, e sobre todo o poder do
inimigo, e nada absolutamente vos causará dano”. O
que o Senhor deu aos discípulos foi autoridade; o que
22
MENSAGEM VINTE E QUATRO

o inimigo tinha era poder. A autoridade subjuga o


poder. As serpentes no versículo 19 podem
representar Satanás e os seus anjos (Ef 2:2; 6:11-12);
os escorpiões podem simbolizar os demônios (vs.
17,20). Pela autoridade do Senhor, os discípulos
subjugaram o poder maligno deles.
Após dizer aos discípulos que Ele via Satanás
caindo como relâmpago do céu e dizer que Ele lhes
dera autoridade sobre todo o poder do inimigo, o
Senhor disse: “Contudo, não vos alegreis porque os
espíritos se vos submetem; alegrai-vos, antes, porque
os vossos nomes estão inscritos nos céus” (v. 20).
Com certeza, ser salvo, ter o nome inscrito nos céus, é
mais crucial do que expulsar demônios. Entretanto é
fácil para os crentes, principalmente os jovens, ficar
mais empolgados com a expulsão de demônios do
que com ter o nome inscrito nos céus. Depois de
ouvir o relatório dos setenta, o Senhor Jesus não
ficou empolgado com a submissão dos demônios. Ele
disse aos discípulos que deviam alegrar-se, exultar,
não porque os espíritos se lhes submeteram, mas
porque o nome deles fora inscrito nos céus.
Assim que ouvimos falar sobre o jubileu,
podemos ficar muito empolgados. Notei que, depois
de uma mensagem recente sobre o jubileu, os santos
ficaram extremamente empolgados. Contudo não
ficaram entusiasmados quando enfatizei numa
mensagem posterior que precisamos ser
identificados com a morte de Cristo a fim de
participar do gozo do jubileu. Cristo tinha de morrer
a fim de cumprir o jubileu e nós precisamos morrer a
fim de participar dele. Sem a morte, o jubileu não
pode ser nossa experiência. Nós, entretanto, não
achamos essa palavra muito empolgante.
224 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

Depois que o Senhor Jesus tornou clara aos


discípulos a questão do jubileu, Ele lhes falou sobre
Sua morte. Ele revelou Sua morte pela primeira vez
em Lucas 9:22 e pela segunda vez em 9:44. Antes de
desvendá-la pela segunda vez, Ele lhes disse “ponde
essas palavras” nos ouvidos. Eles, porém, não
compreenderam sobre o que Ele falava. Assim como
os discípulos, podemos ficar entusiasmados com o
jubileu, mas não com a palavra do Senhor acerca da
necessidade de morrer com Ele a fim de participar do
gozo do jubileu. Em 10:20 o Senhor disse aos
discípulos que não se alegrassem com a submissão
dos demônios, com fato de os espíritos se lhes
sujeitarem. Antes, disse-lhes que se alegrassem
porque seus nomes estavam inscritos nos céus.

O SALVADOR-HOMEM EXULTOU NO
ESPÍRITO SANTO
Lucas 10:21-22 diz: “Na hora exultou Jesus no
Espírito Santo e disse: Eu Te louvo, ó Pai, Senhor do
céu e da terra, porque ocultaste essas coisas aos
sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos.
Sim, ó Pai, porque assim foi do Teu agrado. Tudo Me
foi entregue por Meu Pai. Ninguém conhece quem é o
Filho senão o Pai, e quem é o Pai senão o Filho, e
aquele a quem o Filho O quiser revelar”. A oração do
Senhor aqui envolve a Trindade economicamente. No
Espírito Santo, o Filho louvou o Pai, o Senhor do céu
e da terra. Na economia divina, todas as coisas foram
entregues ao Filho pelo Pai. Agora ninguém conhece
quem é o Filho senão o Pai, e quem é o Pai senão o
Filho, e aquele a quem o Filho quiser revelar o Pai. A
ênfase aqui não está na Trindade essencial, mas na
Trindade econômica.
22
MENSAGEM VINTE E QUATRO

Em Sua exultação no Espírito Santo, o Salvador


louvou o Pai, o Senhor do céu e da terra. “Pai” refere-
se à relação do Pai com Ele, o Filho. “Senhor do céu e
da terra” refere-se à relação de Deus com o universo.
Quando o povo de Deus era derrotado por Seu
inimigo, Deus era chamado de Deus do céu (Ed 5:11-
12; Dn 2:18, 37). Mas, quando houve um homem
defendendo os interesses de Deus na terra, Deus era
chamado de o Deus... que possui o céu e a terra (Gn
14:19, 22). Em Lucas 10:21 o Salvador-Homem, como
o Filho do Homem, também chamou o Pai de Senhor
do céu e da terra. Isso indica Sua posição na terra
pelos interesses de Deus.
Em 10:21 o Filho louvou o Pai porque Ele
ocultara essas coisas “aos sábios e entendidos” e as
revelara “ao pequeninos”. Os “sábios e entendidos”
podem referir-se especificamente às pessoas das três
cidades mencionadas nos versículos 13 e 15, pessoas
sábias e entendidas aos próprios olhos. A vontade do
Pai era ocultar delas o conhecimento do Filho e do
Pai. Os “pequeninos” no versículo 21 referem- se aos
discípulos, que eram filhos da sabedoria. O Pai se
agradou em lhes revelar tanto o Filho como o Pai.
Não devemos considerar-nos sábios e
entendidos. Se tivermos essa visão de nós mesmos,
não receberemos a revelação do Filho e do Pai. Em
vez de nos considerar sábios e entendidos, devemos
considerar-nos pequeninos, como os que não são
entendidos. O Pai se agrada em revelar aos
pequeninos o conhecimento do Filho e do Pai e
ocultá-lo dos sábios e entendidos.
No versículo 22 o Senhor diz que ninguém sabe
quem é o Filho, senão o Pai, e quem é o Pai, senão o
Filho, e aquele a quem o Filho quiser revelá-Lo. A
226 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

palavra “conhece” denota pleno conhecimento, não


mero conhecimento objetivo. Com relação ao Filho,
somente o Pai possui esse conhecimento e, com
respeito ao Pai, apenas o Filho tem esse
conhecimento e aquele a quem o Filho O revela.
Portanto conhecer o Filho requer que o Pai O revele
(Mt 16:17), e conhecer o Pai requer que o Filho O
revele (Jo 17:6, 26). A palavra “quiser” em 10:22
significa exercer deliberadamente a vontade
mediante conselho.

AS COISAS ENVOLVIDAS
COM A INSCRIÇÃO DE NOSSO NOME NOS
CÉUS
Lucas 10:23-24 diz: “E, voltando-se para os
discípulos, disse-lhes em particular: Bem-
aventurados os olhos que veem as coisas que vós
vedes. Pois Eu vos digo que muitos profetas e reis
quiseram ver o que vedes, e não viram; e Ouvir o que
ouvis, e não ouviram”. Nesses dois versículos, o
Salvador-Homem menciona “as coisas” e “o que” três
vezes. Quais são as coisas que os discípulos viram, o
que muitos profetas e reis quiseram ver e o que
quiseram ouvir? Sobre isso, devemos perceber que,
no versículo 21, o Senhor fala de “essas coisas” e, no
versículos 22, de “tudo”. Primeiro, o Senhor exultou
no Espírito Santo pelo fato de o Pai ter ocultado essas
coisas dos sábios e entendidos e revelado aos
pequeninos. Então o Senhor disse que todas as coisas
Lhe foram entregues pelo Pai. Depois disso, disse em
particular aos discípulos que seus olhos eram
abençoados por ver o que viam. A que se refere tudo
isso? Como veremos, é tudo o mesmo.
Vimos que os setenta voltaram com alegria,
22
MENSAGEM VINTE E QUATRO

alegrando- se porque os demônios se lhes sujeitavam


em nome do Senhor. Porém o Senhor lhes disse que
não se alegrassem porque os espíritos se lhes
sujeitavam, mas porque o nome deles estava inscrito
nos céus. Na mesma hora Ele exultou no Espírito
Santo e louvou o Pai por ocultar essas coisas dos
sábios e entendidos e revelá-las aos pequeninos.
Então disse aos discípulos que todas as coisas Lhe
foram entregues pelo Pai. Por fim, disse-lhes que eles
eram abençoados por ver e ouvir o que viam e
ouviam. “Essas coisas” e “o que” no versículo 21,
“tudo” no versículo 22 e “as coisas” nos versículos 23-
24 referem-se às coisas envolvidas com a inscrição de
nosso nome nos céus.
Nosso nome inscrito nos céus envolve muita
coisa. Na verdade, as catorze epístolas de Paulo são
necessárias para descrever o que está envolvido na
inscrição de nosso nome nos céus. Não devemos
esperar encontrar uma explicação completa disso no
Evangelho de Lucas. Isso envolve o mistério de Deus,
especificamente o mistério de Deus, que é Cristo, e o
mistério de Cristo, que é a igreja.
A palavra sobre esse assunto em Lucas 10 faz-
nos recordar do que Paulo diz em 1 Coríntios 2:9:
“Mas, como está escrito: Nem olhos viram, nem
ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração
humano o que Deus tem preparado para aqueles que
o amam”. Isso se refere à economia neotestamentária
de Deus. A esfera do que o olho pode ver é restrita; a
esfera do que o ouvido pode ouvir é mais ampla; a
esfera do que o coração pode perceber é sem limites.
Deus em Sua sabedoria ordenou e preparou para nós
muitas coisas profundas e ocultas, tais como
justificação, santificação e glorificação. Tudo isso o
228 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

olho humano jamais viu, o ouvido humano jamais


ouviu e o coração humano jamais percebeu.
Quero enfatizar que a explicação de essas coisas,
todas as coisas e as coisas não é encontrada em
Lucas. Para ter essa explicação, precisamos ir às
epístolas de Paulo. Nelas temos a economia
neotestamentária de Deus e seus mistérios. Quão
maravilhosos e profundos são esses mistérios! O que
é revelado nas epístolas de Paulo sobre a economia
neotestamentária de Deus envolve a Trindade divina,
o plano eterno de Deus, Cristo como corporificação
de Deus, a igreja como Corpo de Cristo e a intenção
de Deus de ser expresso mediante Sua Trindade
divina na igreja.
Lucas 10:21-24 é muito semelhante a Mateus
11:25-27. Entretanto a palavra em Mateus não é tão
clara ou completa como a de Lucas. Ao ler Mateus 11,
podemos não sentir necessidade das catorze epístolas
de Paulo a fim de ter a compreensão adequada das
coisas ocultas dos sábios e entendidos e reveladas aos
pequeninos. Mas, ao ler Lucas 10, com ênfase em
essas coisas, todas as coisas e principalmente as
coisas, percebemos a necessidade das epístolas de
Paulo, onde temos a definição e explicação completa
de tudo isso.
No capítulo 10 de Lucas, o Senhor Jesus vai bem
mais adiante tocando nas coisas misteriosas que são
reveladas nas epístolas de Paulo. Nesse capítulo, o
Senhor indica que a realidade do jubileu está em tudo
isso. Isso quer dizer que a realidade do jubileu não é
meramente expulsar os demônios, subjugando os
espíritos. Antes, é que sejamos introduzidos no que
foi ordenado por Deus para nós, antes da fundação
do mundo. Deus nos escolheu e predestinou para
22
MENSAGEM VINTE E QUATRO

desfrutar Seu eterno plano, um plano que é levado a


cabo na Sua economia neotestamentária. Ele também
nos predestinou para desfrutar de todas as coisas
relacionadas com Sua economia, coisas que são
totalmente desvendadas nas epístolas de Paulo.
Creio que a inscrição de nosso nome nos céus
envolve o fato de Deus nos escolher e nos predestinar.
Antes da fundação do mundo, Ele nos escolheu e
depois nos predestinou. Isso foi inscrever nosso
nome nos céus.
Quando Paulo estava para falar na Epístola aos
Efésios sobre o mistério de Cristo, que é o Corpo de
Cristo, ele começa falando-nos sobre a escolha e
predestinação do Pai antes da fundação do mundo.
Essa é nossa base para dizer que a explicação de
essas coisas, todas as coisas e as coisas em Lucas 10
é encontrada nas catorze epístolas de Paulo. O fato de
nosso nome estar inscritos nos céus, por isso, indica
todos os mistérios revelados nas epístolas de Paulo.
Esse é o motivo de eu dizer que em Lucas 10 o
Senhor vai bem mais adiante com relação à economia
neotestamentária de Deus. Se quisermos ter
compreensão completa de essas coisas, de todas as
coisas e as coisas, precisamos ir até as epístolas de
Paulo.

ESTUDO-VIDA DE LUCAS

MENSAGEM VINTE E CINCO


O MINISTÉRIO DO SALVADOR-HOMEM
EM SUAS VIRTUDES HUMANAS
COM SEUS ATRIBUTOS DIVINOS
DA GALILEIA PARA JERUSALÉM
230 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

(3)
Leitura Bíblica: Lc 10:25-37

Em 10:25-42 temos dois pontos: o Salvador-


Homem retratou a Si mesmo como bom samaritano
com a mais alta moralidade (vs. 25-37) e foi recebido
por Marta em Betânia (vs. 38-42). É significativo que
Lucas coloque esses dois tópicos juntos.
Aparentemente eles não estão relacionados, mas na
verdade, em nossa experiência cristã, o Senhor, como
bom samaritano, está relacionado com o fato de ser
recebido por Marta. Nesta mensagem, vamos
considerar o retrato do Senhor como o bom
samaritano com a mais alta moralidade e, na
mensagem seguinte, vamos considerar o fato de Ele
ter sido recebido por Marta em Betânia.

O SALVADOR-HOMEM
RETRATOU-SE COMO UM SAMARITANO
Vimos que em 9:51-56 foi necessário que o
Senhor Jesus e Seus seguidores passassem por
Samaria. Os samaritanos, porém, não O receberam
(9:53). Agora, em 10:25-37, o Senhor Se retrata como
samaritano.
Na parábola do bom samaritano, muitos itens
são abordados. Essa parábola se refere ao judaísmo,
ao Antigo Testamento, à lei, aos sacerdotes, aos
levitas, a Cristo, ao Espírito, à vida divina, à igreja, à
maneira de trazer as pessoas à igreja, à bênção que o
Senhor dá à igreja, à volta do Senhor e ao galardão do
Senhor à igreja.
Samaria era a região principal do reino norte de
Israel e o lugar onde se situava sua capital (1 Re
23
MENSAGEM VINTE E SEIS

16:24,29). Por volta de 700 a.C., os assírios


conquistaram Samaria e introduziram gente de
Babilônia e de outros países pagãos nas cidades de
Samaria (2 Re 17:6,24). Desde essa época, os
samaritanos se tomaram um povo miscigenado,
resultante do casamento misto entre pagãos e judeus.
A História nos diz que eles tinham o Pentateuco (os
cinco livros de Moisés) e adoravam a Deus segundo
essa parte do Antigo Testamento. Todavia jamais
foram reconhecidos pelos judeus como parte do povo
de Israel.
Em João 8:48 certos judeus disseram ao Senhor:
“Porventura não temos razão em dizer que és
samaritano e tens demônio?”. Em Lucas 10 o Senhor
se refere a Si mesmo de forma positiva como um
samaritano. O Senhor parece dizer: “Sou um
samaritano, alguém desprezado por vocês”.

HERDAR A VIDA ETERNA


Lucas 10:25 diz que “certo doutor da lei se
levantou e O pôs à prova”. Um doutor da lei era um
especialista na lei mosaica. Era um escriba entre os
fariseus. Esse doutor da lei, alguém muito versado na
lei, era também orgulhoso. Sendo alguém que se
achava justo aos próprios olhos, ele se levantou para
pôr o Salvador-Homem à prova.
Ao pô-Lo à prova, esse doutor da lei Lhe disse:
“Mestre, que farei para herdar a vida eterna?”.
Herdar a vida eterna é ser galardoado na era
vindoura (Lc 18:29- 30) com o desfrute da vida
divina na manifestação do reino. Herdar a vida
eterna é também “entrar na vida” (Mt 19:17). Entrar
na vida é entrar no reino dos céus (Mt 19:23). O reino
dos céus é o âmbito da vida eterna de Deus. Portanto,
232 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

quando entramos nele, entramos na vida de Deus, o


que é diferente de ser salvo. Ser salvo é receber a vida
de Deus, ao passo que entrar no reino dos céus é
entrar na vida de Deus para desfrutar as riquezas
dessa vida. O primeiro é ser redimido e regenerado
pelo Espírito Santo, pelo qual recebemos a vida de
Deus; o segundo é viver e andar pela vida de Deus.
Um é questão de nascimento; o outro é questão de
viver.
De acordo com o Novo Testamento, receber a
vida eterna é uma coisa, e herdar a vida eterna é
outra. Receber a vida eterna visa à nossa salvação
nesta era, mas herdar a vida eterna é um galardão na
era vindoura, isto é, no reino vindouro. É importante,
portanto, diferenciar essas questões sobre nossa
experiência de vida eterna. Agora, nesta era,
podemos receber vida eterna e experimentá-la. Isso é
questão de salvação, mas herdar vida eterna será
uma bênção dada a nós como galardão na era
vindoura do reino. Assim, herdar a vida eterna não é
questão de salvação; antes, relaciona-se com a
recompensa do reino.
Quando o escriba perguntou ao Salvador-
Homem sobre o que devia fazer para herdar a vida
eterna, o Senhor lhe disse: “Que está escrito na lei?
Como lês?” (v. 26). O doutor da lei respondeu:
“Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de
toda a tua alma, de toda a tua força e de toda a tua
mente; e ao teu próximo como a ti mesmo” (v. 27). A
isso o Senhor replicou: “Respondeste corretamente;
faze isso, e viverás” (v. 28).

A PARÁBOLA DO SAMARITANO
Lucas 10:29 prossegue: “Ele, porém, querendo
23
MENSAGEM VINTE E SEIS

justificar-se, perguntou a Jesus: E quem é meu


próximo?”. Aquele que fez essa pergunta deve ter
sido um dos fariseus que justificavam a si mesmos
(16:14-15; 18:9-10). Como demonstração desse
orgulho, ele perguntou ao Senhor quem era seu
próximo. Ele parecia dizer-Lhe: “Quem é meu
próximo para que eu possa amá-lo?”. Na parábola
que se segue, o Senhor respondeu ao doutor da lei
mostrando- lhe que ele não precisava de um próximo
para amar; antes, precisava de um próximo que o
amasse. Como ele não era capaz de amar, precisava
de alguém para amá-lo. Como veremos, esse próximo
é o bom samaritano.
A parábola do samaritano é uma das únicas
narradas somente por Lucas. Essa parábola revela o
princípio de alta moral idade na salvação plena do
Salvador. O “certo homem” no versículo 30, na
intenção do Salvador, representava o doutor da lei
que se achava justo aos próprios olhos, como um
pecador que caíra do fundamento de paz (Jerusalém)
numa condição de maldição (Jericó).

De Jerusalém para Jericó


Lucas 10:30 diz: “Jesus prosseguindo, disse:
Certo homem descia de Jerusalém para Jericó, e caiu
nas mãos de salteadores, os quais, depois de o terem
despojado e espancado, retiraram-se, deixando-o
semimorto”. Jerusalém quer dizer fundamento de
paz (ver Hb 7:2) e Jericó era uma cidade de maldição
(Js 6:26; 1 Re 16:34). A palavra “descia” indica que a
pessoa em questão caiu da cidade do fundamento de
paz numa cidade de maldição. Por isso o homem
nessa parábola estava caindo da fundação de paz
num lugar de maldição. O caminho que ele tomou era
234 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

o caminho dessa queda.

Caiu nas mãos de salteadores


O homem que descia de Jerusalém para Jericó
caiu nas mãos de salteadores, que o despojaram,
bateram nele e foram embora, deixando-o semimorto.
Esses salteadores representam os mestres legalistas
da lei judaica (J o 10:1), que usavam a lei (1Co 15:56)
para assaltar os que a guardavam, como o doutor da
lei que se considerava justo. O verbo “despojar”
representa o mau uso da lei por parte dos mestres
judaicos. O verbo grego traduzido por “espancar”
literalmente significa “infligir golpes”. Esse espancar
representa a morte causada pela lei (Rm 7:9-10).
Além disso, os salteadores o deixaram semimorto, o
que significa que os mestres judaicos deixaram o
doutor da lei em condição morta (Rm 7:11, 13).
Todos os fariseus, os mestres legalistas do
judaísmo, são comparados a salteadores. O doutor da
lei é comparado ao que descia de Jerusalém para
Jericó, que caiu nas mãos de salteadores e foi
despojado e espancado por eles. Os mestres legalistas
da religião judaica despojavam as pessoas e as
espancavam e depois as deixavam semimortas. Essa
era a situação do doutor da lei, embora não o
percebesse.

Um sacerdote e um levita
No versículo 31 O Senhor continua:
“Casualmente, descia certo sacerdote por aquele
caminho; e, vendo-o, passou de largo”. O sacerdote
era alguém que deveria cuidar do povo ensinando-
lhes a lei de Deus (Dt 33:10; 2 Cr 15:3). Mas, na
23
MENSAGEM VINTE E SEIS

parábola, ele próprio descia pela mesma estrada;


assim, foi incapaz de prestar qualquer auxílio ao que
fora espancado.
O versículo 32 diz: “Semelhantemente também
um levita, chegando àquele lugar e vendo-o, passou
de largo”. Um levita era alguém que ajudava o povo a
adorar a Deus (Nm 1:50; 3:6-7; 8:19). Mas ele se
dirigia ao mesmo lugar e também foi incapaz de
prestar qualquer auxílio ao moribundo.

Os atos de certo samaritano


Os versículos 33-34 descrevem os atos de certo
samaritano que se chegou ao homem que caíra nas
mãos de salteadores: “Mas certo samaritano, que ia
de viagem, chegou perto dele e, vendo-o, moveu-se
de compaixão. E, chegando-se, atou- lhe as feridas,
deitando nelas azeite e vinho; e colocando-o sobre o
seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e
cuidou dele”. Esse samaritano representa o Salvador-
Homem, que aparentemente era um leigo de
condição humilde. Era desprezado e difamado, como
se fosse um samaritano baixo e vil (Jo 8:48; 4:9),
pelos fariseus que exaltavam a si mesmos e se
consideravam justos aos próprios olhos, entre os
quais estava aquele com quem o Senhor falava aqui
(vs. 25, 29). O Salvador-Homem, em Sua jornada
ministerial de buscar o perdido e salvar o pecador
(19:10), desceu até o lugar onde a vítima dos
assaltantes judaicos jazia ferida em sua condição
miserável e moribunda. Ao vê-lo, moveu-se de
compaixão em Sua humanidade com Sua divindade e
ternamente prestou-lhe socorro, atando-lhe a ferida e
salvando-o da morte, satisfazendo plenamente sua
urgente necessidade (vs. 34-35).
236 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

Em 10:34-35 todos os aspectos do cuidado do


bom samaritano pelo moribundo retratam o
Salvador-Homem em Seu cuidado misericordioso,
temo e abundante, em Sua humanidade com Sua
divindade, por um pecador condenado sob a lei,
mostrando ao extremo Seu elevado padrão de
moralidade, em Sua graça salvadora.
O samaritano chegou-se ao homem e atou-lhe as
feridas, deitando nelas azeite e vinho. Atar-lhe as
feridas indica que Ele o curou. Deitar sobre elas
azeite e vinho significava dar ao homem o Espírito
Santo e a vida divina. Quando o Salvador-Homem
veio até nós, Ele derramou sobre nossas feridas Seu
Espírito e Sua vida divina.
O samaritano, então, colocou o homem sobre o
próprio animal, um jumento. Isso indica que o
samaritano carregou-o com meios humildes e de
modo humilde. Muitos podemos testificar que fomos
introduzidos na igreja de forma humilde, carregados
num “jumento”. Não entramos na igreja de forma
esplêndida e gloriosa. Pelo contrário, fomos
introduzidos nela de forma humilde e por meios
humildes.
O samaritano levou o homem a uma hospedaria
e cuidou dele. Isso indica que Ele o introduziu na
igreja e cuidou dele por meio da igreja.
O versículo 35 diz: “No dia seguinte tirou dois
denários e os entregou ao hospedeiro, e disse: Cuida
dele, e o que quer que gastares a mais, eu to
restituirei quando voltar”. Aqui vemos que o
samaritano pagou a hospedaria para o homem. Isso
quer dizer que Ele abençoou a igreja em favor dele.
Além disso, Sua promessa de pagar ao hospedeiro
tudo o que ele gastasse a mais indica que tudo o que a
23
MENSAGEM VINTE E SEIS

igreja gastar nesta era com aquele que é salvo pelo


Senhor será restituído na volta do Salvador.

O que se considerava justo precisava de um


próximo que o amasse
No versículo 36 O Salvador-Homem prosseguiu
perguntando ao doutor da lei: “Qual desses três te
parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos
dos salteadores?”. O doutor da lei que se considerava
justo achava-se capaz de amar alguém como seu
próximo (v. 29). Sob a cegueira da autojustificação,
desconhecia que ele mesmo precisava de um próximo
que o amasse, isto é, o Salvador-Homem.
No versículo 37 o doutor da lei respondeu: “O
que usou de misericórdia para com ele”. Então Jesus
lhe disse: “Vai, e faze tu de igual modo”. As palavras
gregas traduzidas por “usou de misericórdia”
também podem ser traduzi das por “tratou com
misericórdia”. Aquele que se considerava justo foi
ajudado a perceber que precisava de um próximo
amoroso (como o bom samaritano, que prefigurava o
Salvador-Homem) que o amasse, e não de um
próximo a quem amar. O Salvador queria revelar-lhe
por meio dessa história que ele estava condenado à
morte sob a lei e era incapaz de cuidar de si mesmo,
muito menos de amar os outros, e que o Salvador-
Homem era quem o amaria e lhe proporcionaria
salvação plena.

OS ATRIBUTOS DIVINOS
E AS VIRTUDES HUMANAS DO SALVADOR-
HOMEM
Nessa parábola podemos ver os atributos divinos
238 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

e as virtudes humanas do Salvador-Homem. Sobre os


atributos divinos, vemos o Espírito, a vida eterna, a
bênção e o ressarcimento. O fato de dar o Espírito, a
vida divina, a bênção e o ressarcimento à igreja está
relacionado com os atributos divinos.
As virtudes humanas do Senhor reveladas aqui
incluem compaixão, amor, solidariedade e cuidado.
Outra vez nesse caso, as virtudes Suas humanas estão
mescladas com Seus atributos divinos. É difícil
distingui-los claramente por categorias porque estão
mesclados para produzir o mais alto padrão de
moralidade.
Na parábola do bom samaritano vemos que a
moralidade do Salvador-Homem era do mais alto
padrão. Quando o sacerdote viu o homem que caíra
na mão de salteadores, nada fez para ajudá-lo,
Parecia que esse sacerdote não tinha absolutamente
qualquer moralidade. A situação com o levita foi a
mesma, mas, quando o Salvador-Homem viu o
homem nessa condição lamentável, foi tocado pela
compaixão. Ele, então, exercitou plenamente Sua
moralidade para cuidar do necessitado. O mais alto
padrão de moralidade do Salvador-Homem foi
produto da vida mesclada, uma vida na qual os
atributos divinos estão mesclados com as virtudes
humanas. Nessa parábola vemos claramente que o
Salvador-Homem realizou Seu ministério em Suas
virtudes humanas com Seus atributos divinos.

ESTUDO-VIDA DE LUCAS
MENSAGEM VINTE E SEIS
O MINISTÉRIO DO SALVADOR-HOMEM
23
MENSAGEM VINTE E SEIS

EM SUAS VIRTUDES HUMANAS


COM SEUS ATRIBUTOS DIVINOS
DA GALILEIA PARA JERUSALÉM
(4)
Leitura Bíblica: Lc 10:38-42

SERVIR O SENHOR
DE ACORDO COM SEU DESEJO E
PREFERÊNCIA
Logo depois da parábola do bom samaritano,
Lucas registra que o Salvador-Homem foi
recepcionado por Marta em Betânia (10:38-42). Qual
é a conexão entre esses dois casos? A conexão é que,
depois que somos salvos percebendo a compaixão e
amor do Salvador, devemos servi-Lo. Em outras
palavras, pessoas salvas devem ser pessoas que
servem. A fim de ser salvos, precisamos perceber a
compaixão e o amor do Salvador. Para servi- Lo,
precisamos conhecer Seu desejo e preferência. Não
devemos servi-Lo de acordo com nossa opinião,
conceito ou compreensão. Pelo contrário, devemos
servi-Lo segundo Seu desejo e preferência.
Lucas lO:38-39 diz: “Indo eles de caminho,
entrou Ele numa aldeia. E certa mulher, de nome
Marta, recebeu-O em sua casa. Tinha ela uma irmã,
chamada Maria, a qual, assentada aos pés do Senhor,
ouvia a Sua palavra”. A aldeia aqui é Betânia (Jo 12:1;
Mc 11:1; Mt 21:17). O nome Betânia significa casa de
aflição.
De acordo com o registro dos evangelhos, nessa
última visita a Jerusalém, o Senhor permanecia ali
somente de dia para ministrar. À noite Ele partia
para pernoitar em Betânia, que ficava na encosta
240 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

oriental do monte das Oliveiras (Me 11:19; Lc 21:37),


onde ficava a casa de Maria, Marta e Lázaro e a de
Simão (Jo 11:1; Mt 26:6). Em Jerusalém Ele foi
rejeitado pelos líderes do judaísmo, mas em Betânia
foi acolhido pelos que O amavam.
Lucas 10:38-39 menciona Marta e Maria. O
nome Marta provavelmente é oriundo do aramaico e
significa “ela era rebelde”. O nome grego Maria vem
do hebraico Miriã e quer dizer “rebelião deles” (Nm
12:1, 10-15).
O significado de Marta e Maria transmite a ideia
de rebelião, talvez assinalando a vida natural dessas
duas mulheres. A salvação do Senhor pode
transformar pessoas rebeldes em submissas, como
retrata essa história. Alguém como a rebelde Miriã do
Antigo Testamento torna-se alguém como a submissa
Maria do Novo Testamento.
Maria ouvia a palavra do Senhor, mas “Marta
agitava- se de um lado para outro, com muito serviço”
(v. 40). O verbo grego traduzido por “agitar-se” quer
dizer arrastar- se de um lado para outro em várias
direções.
Aproximando-se do Senhor, Marta disse:
“Senhor, não Te importa que minha irmã me tivesse
deixado a servir sozinha?” (v. 40). O Senhor
respondeu: “Marta! Marta! estás ansiosa e
perturbada com muitas coisas; entretanto, uma só
coisa é necessária; Maria, pois, escolheu a boa parte,
que não lhe será tirada”. Aqui vemos que o Senhor
prefere que Seus salvos, que O amam, Lhe deem
ouvido (v. 39), a fim de conhecer Seu desejo, a que
façam coisas por Ele sem conhecer Sua vontade (cf. 1
Sm 15:22; Ec 5:1).
É bastante significativo que essa história de
24
MENSAGEM VINTE E SEIS

Marta e Maria venha logo em seguida à parábola do


bom samaritano. A parábola mostra a compaixão e o
amor do Salvador, que se fez homem e se tornou o
próximo dos pecadores; a história de Marta e Maria
desvenda o desejo e a preferência do Senhor, que é
Deus e se tornou o Amo dos crentes. O Salvador nos
dá Sua compaixão e amor para que sejamos salvos
por Ele; o Senhor expressa Seu desejo e preferência
para que O sirvamos. Após receber a salvação do
Salvador, devemos prestar serviço ao Senhor. Para
nossa salvação precisamos perceber a compaixão e o
amor do Salvador; para nosso serviço precisamos
conhecer o desejo e a preferência do Senhor.
242 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

OUVIR A PALAVRA DO SENHOR


E CONHECER SEU DESEJO
Quando o Senhor foi a Betânia, Marta O recebeu
e Lhe serviu. Entretanto ela o fez de acordo com o
próprio conceito e entendimento. Ela pensava que,
depois de fazer uma longa jornada, o Senhor queria
ser servido com coisas materiais. Por isso, estava
ocupada em fazer coisas para Ele.
Você acha que, quando o Senhor entrou na casa
de Marta em Betânia, Seu desejo era que Lhe
servissem coisas materiais? Certamente não era Seu
desejo que Lhe servissem comida. Pelo contrário, Ele
queria que Seus salvos O ouvissem a fim de saber o
que estava em Seu coração. O Senhor não se
importava com comida; Ele queria que os que O
amavam ficassem quietos, sentassem com Ele,
ouvissem-No e se concentrassem em Seu falar. Dessa
forma conheceriam Seu desejo e preferência.
Em 10:39 Maria sentou-se aos pés do Senhor
ouvindo Sua palavra. Mais tarde ela preparou óleo
para ungi-Lo antes de Sua morte. Como Maria soube
fazer isso? Creio que foi ouvindo o falar do Salvador.
Sentada aos pés Dele e ouvindo Sua palavra, ela veio
a conhecer Seu desejo e preferência.
Hoje muitos estão ocupados tentando ser salvos.
Pensam que a salvação depende do que fazem, mas
não há necessidade de fazer coisa alguma para ser
salvo. Para uma pessoa ser salva, ela precisa perceber
que é incapaz de salvar a si mesma, pois, como o
homem na parábola do bom samaritano, ela foi
despojada, espancada e deixada semimorta. Isso
indica que todos precisamos de um Salvador, alguém
cheio de compaixão e amor. Quando percebemos a
24
MENSAGEM VINTE E SEIS

compaixão e o amor do Salvador, desfrutamos Sua


graça salvadora, que é cheia de virtudes humanas e
atributos divinos. Isso é o que significa ser salvo.
Embora não haja necessidade de fazer coisa
alguma para ser salvo, o homem caído pensa que
precisa fazer muitas coisas para sua salvação. Por
isso queremos enfatizar que não há necessidade de
fazer coisa alguma para ser salvo.
Uma vez convencidos pela compaixão e amor do
Salvador e salvos, podemos tentar fazer muitas coisas
para o Senhor. Podemos pensar que, agora que O
amamos, devemos ficar ocupados fazendo coisas
para Ele. Nunca encontrei uma pessoa salva que não
tivesse a ideia de fazer coisas para o Senhor. Toda
pessoa salva que conheço tem o conceito de trabalhar
pelo Senhor.
Em meses recentes alguns me disseram que, já
que o Senhor está abençoando a restauração,
devemos ficar ocupados fazendo diversas coisas.
Alguns propuseram que criássemos escolas; outros,
que estabelecêssemos hospitais; outros sugeriram
que nos ocupássemos com diversas atividades.
Quando ouvi essas propostas, disse para mim
mesmo: “Não tenho encargo nenhum por essas
coisas. Não tenho encargo de criar escolas e hospitais.
Quando ouço propostas assim, meu desejo é
simplesmente descansar com o Senhor. Não creio
que Ele queira que nos ocupemos dessa forma”.
Em 10:38-42 Marta estava muito ocupada em
muitas direções e tentava ocupar o Senhor. Ela via a
situação que envolvia o Senhor e sua irmã, Maria.
Maria não estava fazendo nada; estava simplesmente
sentada aos pés do Senhor e ouvia Sua palavra, e Ele
parecia apreciar o silêncio dela. Isso aborreceu Marta
244 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

e ela até deu ao Senhor uma ordem: “Dize-lhe, pois,


que faça a sua parte comigo”. Marta aqui parecia
dizer: “Senhor, não percebes que estou muito
ocupada? Por que, então, não dizes à minha irmã que
faça alguma coisa para me ajudar?”.
Hoje, a maioria dos salvos do Senhor está
ocupada tentando servi-Lo. Talvez também tente
fazer o Senhor ficar ocupado. Porém os que O
conhecem e conhecem Seu desejo e preferência
diriam: “Não fiquem tão ocupados. O Senhor quer
que descansemos. A coisa mais preciosa para Ele não
é que você trabalhe ou tente fazer coisas para Ele. O
mais precioso para Ele é que você se sente com Ele e
em silêncio ouça Sua palavra. Se você fizer isso,
passará a conhecer Seu desejo e preferência”.

O CORAÇÃO DO SENHOR POSTO EM SUA


MORTE
Você sabe o que estava no coração do Senhor
enquanto se assentava na casa de Marta em Betânia?
O coração Dele estava posto em Sua morte. Ele sabia
que iria para Jerusalém para morrer. Queria que
Seus seguidores pusessem de lado seus afazeres e
atividades e fossem com Ele para ser crucificados.
Enquanto os discípulos iam a caminho de
Jerusalém com o Senhor, estavam ocupados com
muitas coisas como discutir quem era o maior e
proibir os outros de fazer coisas para o Senhor.
Especificamente os irmãos estavam ocupados com
sua ambição. As irmãs, pelo contrário, estavam
ocupadas em servir e ministrar, mas entre elas havia
uma, Maria, que não estava ocupada; antes, estava
calma e assentada em silêncio ouvindo a palavra do
Salvador-Homem. Como resultado ela veio a
24
MENSAGEM VINTE E SEIS

conhecer o que estava no coração Dele.


Maria percebeu que Ele ia para Jerusalém para
morrer. Por duas vezes o Senhor desvendou Sua
morte aos discípulos, mas eles não tiveram ouvidos
para ouvi-Lo. Maria, porém, ouviu Sua palavra e
assimilou-a. Tendo-a ouvido e recebido, ela procurou
a oportunidade para ungi- Lo antes da morte Dele
(Mt 26:12).
Em 10:38-42 o Senhor pode ter falado a Maria
sobre Sua morte. Nesse ponto, o que estava no
coração do Salvador era Sua morte próxima. Lucas
9:51, o início da seção nesse evangelho sobre o
ministério do Senhor da Galileia para Jerusalém, diz:
“E aconteceu que, estando para completar-se os dias
para Ele ser levado para cima, manifestou a firme
resolução de ir para Jerusalém”. A frase “levado para
cima” se refere à morte do Senhor. Aqui vemos que
estavam para completar-se os dias para o Senhor ir a
Jerusalém a fim de ali morrer. Portanto, dessa hora
em diante, o único pensamento do Senhor era ir a
Jerusalém para morrer. Ele manifestou a firme
resolução de ir. Por isso a única coisa em Seu coração
enquanto subia a Jerusalém era Sua morte.
Quando estava próximo de Jerusalém, em
Betânia, Ele foi recebido na casa de Marta. Enquanto
esteve lá, falou a palavra e Maria ouvia. Como já
enfatizamos, Ele pode ter falado sobre Sua morte. Os
irmãos não tinham desejo de ouvir isso nem Marta,
que estava ocupada servindo. A única que tinha
desejo pela palavra do Senhor sobre Sua morte e
estava sentada quieta ouvindo-a era Maria. Ela
sentou-se a Seus pés e ouvia Sua palavra, uma
palavra que expressava Seu desejo e preferência.
246 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

RECEBERA SALVAÇÃO DO SENHOR E


SERVI-LO
Os dois casos em 10:25-42, isto é, em que o
Senhor retratou-Se como bom samaritano e foi
recebido por Marta, estão relacionados entre si. O
primeiro mostra a compaixão e amor do Senhor por
nossa salvação e o segundo desvenda Seu desejo e
preferência por nosso serviço a Ele. Precisamos
conhecer o Senhor nesses dois aspectos. Precisamos
conhecer Sua compaixão e amor na salvação e Seu
desejo e preferência para nosso serviço.
Antes de fazer algo pelo Senhor, precisamos
primeiro conhecer Sua compaixão e amor
relacionados com nossa salvação e Seu desejo e
preferência relacionados com nosso serviço. Isso
implica que deixamos nosso homem natural na cruz.
Não há necessidade de fazer algo por nossa salvação
nem devemos fazer coisa alguma em nós mesmos no
serviço do Senhor. Com respeito à salvação e serviço,
devemos permanecer na cruz. Então conheceremos a
compaixão e amor do Salvador-Homem por nossa
salvação e Seu desejo e preferência para nosso
serviço.
Vimos que o nome Marta provavelmente é
oriundo do aramaico e significa “ela era rebelde” e
Maria é nome grego equivalente ao hebraico Miriã, e
quer dizer “rebelião deles”. Essas palavras vêm da
mesma raiz, uma raiz que significa rebelde ou
rebelião. Contudo é possível que um rebelde se torne
submisso. Por natureza Maria era rebelde, mas
tornou-se submissa não só por causa da compaixão e
amor do Senhor, mas também de Seu desejo e
preferência. Por isso, no Novo Testamento, Maria foi
24
MENSAGEM VINTE E SEIS

a única que tocou ao máximo o desejo do Senhor. Por


esse motivo, ela é posta como exemplo para os
seguidores do Senhor. Todos devemos ser como
Maria em seguir o Senhor e servi-Lo.
Ao tomar Maria com exemplo, devemos
lembrar- nos que originalmente ela era rebelde. Pela
compaixão e misericórdia do Salvador-Homem, ela
se tornou submissa, alguém que O amava e Lhe
servia, não de acordo com sua opinião ou esforço,
mas segundo o desejo e preferência Dele. Aqui vemos
a maneira de ser salvos e a forma adequada de servi-
Lo.
O evangelho de Lucas é cheio das virtudes
humanas e atributos divinos do Salvador-Homem.
Seu ministério da Galileia a Jerusalém foi realizado
em Suas virtudes humanas com Seus atributos
divinos. Ao compilar seu evangelho, Lucas põe o
Senhor retratando-Se como bom samaritano junto
com a acolhida de Marta em Betânia. Seu propósito
em fazer isso foi mostrar como receber a salvação do
Senhor e como servi-Lo depois de salvos.

ESTUDO-VIDA DE LUCAS

MENSAGEM VINTE E SETE


O MINISTÉRIO DO SALVADOR-HOMEM EM
SUAS VIRTUDES HUMANAS COM SEUS
ATRIBUTOS DIVINOS
DA GALILEIA PARA JERUSALÉM
(5)
Leitura Bíblica: Lc 11:1-54
248 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

UMA CARACTERÍSTICA DO EVANGELHO DE


LUCAS
O relato do Evangelho de Lucas tem uma
característica particular: o autor sempre nos mostra
no Salvador-Homem a mescla dos atributos divinos
com as virtudes humanas para produzir o mais alto
padrão de moralidade com vistas ao jubileu do Novo
Testamento. Na redação de Lucas temos três itens.
Primeiro, os elementos básicos e intrínsecos são a
humanidade e a divindade do Salvador-Homem. Esse
evangelho baseia-se no fato de que o Senhor tem
duas essências: a divina e a humana. Segundo, Lucas
apresenta o mais alto padrão de moralidade, a qual é
o resultado da mescla dos atributos divinos com as
virtudes humanas. Terceiro, esse evangelho proclama
o jubileu do Novo Testamento. A proclamação do
jubileu está claramente feita no capítulo quatro.
Precisamos manter em mente esses três itens ao ler
Lucas porque eles nos ajudarão a compreender esse
evangelho. Em Lucas temos a essência divina
mesclada com a essência humana e os atributos
divinos mesclados com as virtudes humanas para
produzir o mais alto padrão de moralidade, e isso
visa ao jubileu do Novo Testamento.

A essência divina mesclada com a essência


humana
Precisamos ter plena percepção desses
elementos básicos e intrínsecos nos escritos de Lucas.
Até esse ponto, já vimos que, em seu evangelho,
Lucas revela o Salvador-Homem como a composição
da essência divina com a humana. Como tal, Ele é o
homem-Deus, pois é o Deus completo e o homem
24
MENSAGEM VINTE E SETE

perfeito. Nele vemos Deus e o homem e temos o Deus


completo e um homem perfeito. Isso quer dizer que
Nele temos a mescla de Deus com o homem. Nessa
mescla, porém, o Salvador-Homem não perde a
natureza divina nem a humana; pelo contrário, elas
permanecem distinguíveis, e não se produz uma
terceira natureza. Esse é o primeiro ponto crucial que
se deve manter em mente para compreender Lucas.

O mais alto padrão de moralidade


Lucas também revela que no Salvador-Homem
temos a mescla dos atributos divinos com as virtudes
humanas para gerar o mais alto padrão de
moralidade. Em todo esse evangelho, vemos no
Salvador-Homem, que é também o Homem-Deus, o
Deus completo e um homem perfeito, a mescla dos
atributos divinos com as virtudes humanas. Como
Deus completo, Ele tem a natureza divina com os
atributos divinos e, como homem perfeito, tem a
natureza humana com as virtudes humanas. Por isso
em Sua Pessoa vemos a natureza divina com seus
atributos e a natureza humana com suas virtudes
para viver no mais alto padrão moral.

O jubileu do Novo Testamento


A mescla da natureza divina com seus atributos e
a natureza humana com suas virtudes para gerar o
mais alto padrão de moralidade visa ao jubileu do
Novo Testamento. Nesse jubileu somos libertados de
todo cativeiro: do pecado, de Satanás, do mundo e
até do ego, e também somos introduzidos no pleno
desfrute de nosso direito de primogenitura perdido, o
direito de desfrutar o Deus Triúno em Cristo.
250 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

O que temos abordado nesta mensagem é uma


definição e interpretação do evangelho de Lucas.
Nessa definição vemos o elemento intrínseco desse
evangelho. Se lermos Lucas de forma superficial,
vamos atentar principalmente para as histórias que
há nele. Mas, se nos aprofundarmos nesse livro,
veremos seus elementos intrínsecos.
Se tivermos uma descrição, definição e
interpretação adequadas de Lucas, veremos que esse
evangelho é composto de certos elementos
intrínsecos, que incluem a natureza divina do Senhor
com seus atributos divinos e Sua natureza humana
com suas virtudes humanas. O Salvador-Homem,
portanto, é a mescla de Deus e o homem. Como tal,
Ele viveu no mais alto padrão de moralidade. Essa
vida visa ao jubileu do Novo Testamento, pois nos
liberta de todo cativeiro e nos introduz no desfrute do
Deus Triúno em Cristo. Esse é um resumo de Lucas.
Precisamos ter a compreensão desse resumo de
Lucas quando chegamos ao capítulo onze, senão ele
poderá perturbar-nos. Depois da parábola do bom
samaritano e do caso em que Marta recepcionou o
Senhor Jesus em casa, Lucas insere um capítulo que
aborda quatro tópicos: o Salvador-Homem ensina
sobre oração (11:1-13), é rejeitado pela geração
maligna (vs. 14-32), adverte a que não estejamos em
trevas (vs. 33-36) e repreende os fariseus e doutores
da lei (vs. 37-54). Por que essas quatro coisas são
colocadas juntas? Se lermos Lucas 11
superficialmente, não compreenderemos por que
esse capítulo inclui essas quatro seções. Porém, se
nos aprofundarmos nelas, veremos que aqui o
Salvador-Homem lida com o mais alto padrão de
moralidade. Já enfatizamos que, baseado em Sua
25
MENSAGEM VINTE E SETE

natureza divina, com seus atributos divinos


mesclados com Sua natureza humana, com suas
virtudes humanas para gerar o mais alto padrão de
moralidade, o Salvador-Homem proclamou o jubileu
do Novo Testamento. Agora ainda precisamos ver
que, sem Lucas 11, seria difícil experimentar o jubileu.

INTRODUZIR-NOS EM DEUS PELA ORAÇÃO


Em 11:1-13 temos o ensinamento do Salvador-
Homem sobre oração. Se lermos essa seção muitas
vezes com cuidado, veremos que oração significa que,
orando, somos introduzidos em Deus. Quando alguns
ouvem isso, podem dizer: “Não conseguimos
encontrar isso no exemplo de oração estabelecido
pelo Senhor Jesus em Seu ensinamento. Como você
pode dizer que orar nos faz entrar em Deus?”.
Aparentemente isso não é encontrado em 11:1-13 . Na
verdade, nesses versículos, vemos que orar é de fato
ser introduzido em Deus.
Lucas 11:1 diz: “E aconteceu que, estando Ele
orando em certo lugar, quando terminou, um dos
Seus discípulos Lhe disse: Senhor, ensina-nos a orar,
como também João ensinou aos seus discípulos”.
Não sabemos pelo que o Senhor estava orando.
Quando os discípulos O viram orar, quiseram que Ele
os ensinasse a orar. O Senhor, então, disse: “Quando
orardes, dizei: Pai, santificado seja o Teu nome;
venha o Teu reino; o pão nosso cotidiano dá-nos cada
dia; e perdoa-nos os nossos pecados, pois também
nós perdoamos a todo o que nos deve; e não nos
deixes cair em tentação” (vs. 2-4). Gastei muito
tempo a ponderar sobre essa breve palavra. Minha
conclusão é que, se orarmos desse modo repetidas
vezes, o resultado será que seremos introduzidos em
252 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

Deus. Em outras palavras, o resultado dessa oração é


que seremos achados em Deus.
Se orarmos de acordo com o ensinamento do
Senhor nesses versículos, seremos pessoas em Deus.
Encorajo vocês a orar: “Pai, santificado seja Teu
nome; venha o Teu reino”. Se orarem isso várias
vezes, descobrirão que estão em Deus. Isso é não só
minha compreensão como também minha
experiência. Pela experiência, posso testificar que
orar de acordo com a instrução do Senhor é ser
introduzido em Deus por meio da oração.
Uma vez introduzidos em Deus por meio da
oração, que fazer? Simplesmente O recebemos com
Suas riquezas em nós. Como seres humanos caídos,
estávamos totalmente fora de Deus e nada tínhamos
a ver com Suas riquezas. Assim, não podíamos
desfrutá-las. Precisamos ser introduzidos em Deus
por meio da oração e depois, como quem está Nele,
receber a Ele e Suas riquezas.
Quando alguns ouvem sobre a necessidade de
ser introduzidos em Deus por meio da oração para
recebê-Lo e Suas riquezas, podem dizer: “Antes de
ser salvos, não estávamos em Deus, mas agora somos
filhos de Deus”. Sim, como crentes, somos filhos de
Deus. Contudo precisamos reconhecer que, em nossa
experiência, nem sempre estamos em Deus. Não
ficamos em Deus, não permanecemos Nele. Por
exemplo, antes de ir para a cama, um irmão perde a
calma com a mulher. Quando se levanta na manhã
seguinte, ele se levanta fora de Deus. Que deve fazer?
Deve ser introduzido em Deus por meio da oração.
Suponha, porém, que o irmão ore algo assim:
“Pai, Tu és justo. Sabes que minha mulher está
errada. Peço-Te que me vindiques”. Quanto mais
25
MENSAGEM VINTE E SETE

orar assim, mais longe ficará de Deus em sua


experiência. Ele precisa orar: “Ó Pai, santifica Teu
nome. Venha Teu reino. Pai, dá-me o pão para este
dia e perdoa-me como perdoo minha esposa. Pai, não
me deixes cair em tentação novamente”. Quanto mais
o irmão orar assim, mais estará em Deus. Isso ilustra
que orar é ser introduzido em Deus por meio da
oração.
Sempre somos desviados de Deus. Podemos ser
desviados Dele por um mero anúncio no jornal. Visto
que somos facilmente desviados de Deus, devemos
gastar tempo toda manhã com Ele, sendo
introduzidos Nele por meio da oração. Não há
necessidade de orar com detalhes sobre nossas falhas.
Basta orar: “Pai, perdoa-me”. Não há necessidade de
ir fundo em detalhes. A oração: “Pai, perdoa-me
como eu perdoo aos outros” é inclusiva. Quanto mais
você orar assim, mais perceberá que foi introduzido
em Deus por meio da oração. Então em Deus você
receberá o suprimento de vida.

RECEBER O SUPRIMENTO DE VIDA


Talvez você indague onde, em 11:1-13, podemos
ver a questão de receber o suprimento de vida do Pai.
O suprimento de vida é indicado nos versículos 11-13:
“Qual dentre vós é o pai que, se o filho lhe pedir peixe,
lhe dará em lugar de peixe uma cobra? Ou, se lhe
pedir um ovo, lhe dará um escorpião? Pois se vós,
que sois maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos
filhos, quanto mais o Pai celestial dará o Espírito
Santo aos que Lhe pedirem?”. Aqui o suprimento de
vida é indicado pelo pão, o ovo e o Espírito Santo. No
versículo 5 é indicado pelos pães. Se incluirmos os
pães, temos quatro itens do suprimento de vida.
254 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

Quando somos introduzidos em Deus por meio da


oração, recebemos Suas riquezas como nosso
suprimento.
No versículo 13 o Senhor diz que, se nós, sendo
maus, sabemos dar boas dádivas aos filhos, quanto
mais o Pai dará o Espírito Santo aos que O pedirem!
Isso implica que o dom que é de fato bom é o Espírito
Santo. Antes de Sua morte, o Senhor disse aos
discípulos que pedissem o Espírito Santo; após Sua
morte e ressurreição, Ele lhes disse que recebessem o
Espírito Santo (Jo 20:22). Com relação os
mandamentos nas Escrituras para os quais os
requisitos ainda não foram cumpridos, precisamos
pedir; com relação aos mandamentos para os quais
os requisitos já foram cumpridos, devemos receber.

ORAR SEM CESSAR


Depois de ter dado de forma sucinta a instrução
sobre oração, o Senhor deu uma ilustração de orar
sem cessar. Ele lhes disse: “Qual dentre vós terá um
amigo e irá ter com ele à meia-noite e lhe dirá: Amigo,
empresta-me três pães, pois um amigo meu chegou a
mim de viagem, e não tenho o que pôr diante dele; e
ele, respondendo de dentro, dirá: Não me
importunes; a porta já está fechada, e os meus filhos
estão comigo na cama; não posso levantar-me para
tos dar?” (vs. 5-7). As palavras gregas traduzidas por
“não me importunes” podem também ser “não me
causes problemas”. Sobre os filhos com o homem na
cama, Thomson, em A Terra e o Livro, diz: “Uma
família inteira: pais, filhos e servos, dormiam no
mesmo cômodo”.
No versículo 8 o Senhor continua a ilustração:
“Digo- vos: Ainda que não se levante para dar-lhos
25
MENSAGEM VINTE E SETE

por ser seu amigo, levantar-se-á, todavia, por causa


da sua persistência desavergonhada, e lhe dará o que
necessitar”. Por fim, o que precisava recebe os três
pães. Esses pães, é claro, são para alimentar e nutrir.
Nos versículos 9-10 o Senhor continua: “Eu vos
digo: Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei, e
abrir-se- vos-á. Pois todo o que pede recebe; o que
busca encontra; e a quem bate abrir-se-lhe-á”. Nesses
versículos pedimos, buscamos e batemos. Pedir é
orar de modo geral; buscar é suplicar de modo
específico e bater é exigir do modo mais íntimo e
fervoroso.
Nos versículos 11-13 o Senhor também diz que
um pai não dará ao filho uma cobra em lugar de
peixe, ou escorpião em lugar de ovo. Além disso, Ele
diz que o Pai dará o Espírito Santo aos que O
pedirem. Figurativamente uma cobra representa
Satanás e seus anjos, e um escorpião representa os
demônios de Satanás.
A palavra do Senhor em 11:11-13 indica que
nossa intenção na oração deve ser buscar o
suprimento de vida, buscar pães, peixes e ovos. Pães
representam as riquezas da terra; peixe, as riquezas
do mar; ovos, as riquezas de algo tanto do ar como da
terra. Por isso pães, peixes e ovos representam as
riquezas da terra, água e ar; ou seja, representam
várias riquezas. No versículo 13 vemos que o Espírito
Santo é a totalidade dessas riquezas; é a totalidade
dos pães, peixes e ovos.

PERMANECER EM DEUS PARA RECEBER O


ESPÍRITO SANTO
Nesta mensagem já vimos que orar é ser
introduzido em Deus por meio da oração. Depois
256 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

disso, então, como pessoas em Deus, recebemos o


suprimento de vida como indicam os pães, peixes e
ovos. A totalidade dessas riquezas: as riquezas da
terra, da água e do ar, são o Espírito Santo. Isso quer
dizer que o Espírito Santo é o suprimento de vida.
Quando somos introduzidos em Deus por meio da
oração, devemos permanecer Nele para receber o
Espírito Santo como nosso suprimento de vida.
Você alguma vez já ouviu que orar é ser
introduzido em Deus por meio da oração para
permanecer Nele continuamente a fim de receber o
Espírito Santo como suprimento de vida? Esse
suprimento de vida, tipificado pelos pães, peixes e
ovos, nutre não só a nós, como também aos que estão
sob nosso cuidado. Alguns podem pensar que nesta
mensagem, eu alegorizei demais as Escrituras. Na
verdade, não estou alegorizando; pelo contrário,
estou procurando abrir a Palavra e interpretá-la
corretamente para que vejamos o que, de acordo com
11:1-13, significa orar.
Já enfatizei vigorosamente que orar é ser
introduzido em Deus por meio da oração. Quando
nossa oração não nos introduz em Deus, ela está
errada. Não devemos continuar a orar dessa forma. O
princípio governante de nossa oração deve ser que
oração sempre nos introduz em Deus.
Não ore se a sua oração não o introduzir em
Deus. Isso não quer dizer que você não deva pedir ao
Senhor para curá-lo se estiver doente. O fato é que,
quando orar pela cura, você deve observar o princípio
governante da oração e ser introduzido em Deus por
meio da oração. Se a sua maneira de orar o desvia do
Senhor e não o introduz Nele, você deve mudar sua
forma de orar. Procure orar de tal forma que seja
25
MENSAGEM VINTE E SETE

introduzido em Deus. A oração que nos introduz em


Deus é a forma correta de orar.
Sabemos pela experiência com o Senhor que
sempre oramos adequadamente e fomos
introduzidos em Deus por meio da oração Quando
permanecemos Nele, recebemos Suas riquezas, que
estão corporificadas em Seu Espírito. Quando
recebemos o Espírito Santo como nosso suprimento
de vida representado pelos pães, peixes e ovos,
podemos alimentar a nós mesmos e também a todos
os que estão sob nosso cuidado.

ESTUDO-VIDA DE LUCAS

MENSAGEM VINTE E OITO


O MINISTÉRIO DO SALVADOR-HOMEM
EM SUAS VIRTUDES HUMANAS
COM SEUS ATRIBUTOS DIVINOS
DA GALILEIA PARA JERUSALÉM
(6)
Leitura Bíblica: Lc 11:1-54

Lucas 11:1-54 aborda quatro tópicos: o Salvador-


Homem ensinou sobre oração (vs. 1-13), foi rejeitado
pela geração maligna (vs. 14-32), advertiu a não que
fiquemos em trevas (vs. 33-36) e repreendeu os
fariseus e doutores da lei (vs. 37-54). Consideramos a
primeira seção na mensagem anterior. Nesta
abordaremos as outras três seções desse capítulo.

FOI REJEITADO PELA GERAÇÃO MALIGNA


Em 11:14-32 vemos que o Salvador-Homem foi
rejeitado pela geração maligna. Essa seção começa
258 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

com a narrativa de expulsão de um demônio. “Estava


Ele expulsando um demônio que era mudo. E
aconteceu que, saindo o demônio, o mudo falou; e as
multidões se admiraram”. Mudez causada por
possessão demoníaca representa a incapacidade do
homem de falar por Deus (Is 56:10) e louvá-Lo (Is
35:6) pelo fato de adorar ídolos mudos (1Co 12:2). O
fato de o mudo falar significa que nossa capacidade
de falar e louvar é recobrada quando estamos cheios
do Senhor no espírito (Ef5:18-19).
De acordo com Lucas 11:15, alguns disseram: “E
por Belzebu, o príncipe dos demônios, que Ele
expulsa os demônios”. “Baal-Zebube”, que quer dizer
o senhor das moscas, era o nome do deus dos
ecronitas (2 Re 1:2). Foi mudado com desdém pelos
judeus para Belzebu, que quer dizer senhor do
monturo e usado para o príncipe dos demônios (Mt
12:24, 27; Me 3:22). As pessoas em Lucas 11:15
injuriaram o Salvador-Homem dizendo que Ele
expulsava demônios pelo príncipe dos demônios. Ao
usar esse nome de extrema blasfêmia, expressaram
sua mais enérgica objeção e rejeição.

EXPULSAR DEMÔNIOS PELO DEDO DE


DEUS
Nos versículos 17-18 o Senhor disse aos que O
acusavam de expulsar demônios por Belzebu: “Todo
reino dividido contra si mesmo ficará desolado, e a
casa dividida contra casa cairá. Se também Satanás
está dividido contra si mesmo, como subsistirá o seu
reino? Pois dizeis que é por Belzebu que Eu expulso
os demônios”. A palavra do Senhor indica que
Satanás tem um reino. Satanás é o príncipe do
mundo (Jo 12:31) e o príncipe da potestade do ar
25
MENSAGEM VINTE E OITO

(Ef2:2). Ele tem sua autoridade (At 26:18) e seus


anjos (Mt 25:41), que são seus subordinados como
principados, potestades e dominadores do mundo
destas trevas (Ef6:12). Portanto ele tem seu reino: a
autoridade das trevas (Cl 1:13).
Lucas 11:19 e 20 dizem: “E, se Eu expulso os
demônios por Belzebu, por quem os expulsam vossos
filhos? Por isso, eles mesmos serão vossos juízes. Se,
porém, Eu expulso os demônios pelo dedo de Deus,
então é chegado o reino de Deus sobre vós”. O “dedo
de Deus” é uma expressão hebraica. O dedo (v. 46) é
menor do que a mão e o braço. Expulsar demônios
não exige a mão de Deus (Jo 10:28,29), nem o braço
de Deus (Is 53:1); o dedo de Deus é poderoso o
bastante para fazê-lo. Ainda assim, é feito pelo
Espírito de Deus (Mt 12:28).
Nos versículos 21-22 o Senhor prossegue:
“Quando o homem forte, bem armado, guarda a sua
própria residência, em paz estão os seus bens.
Sobrevindo, porém, um mais forte do que ele, vence-
o, tira-lhe toda a armadura em que confiava, e
reparte os seus despojos”. O homem forte aqui é
Satanás, o maligno, e a casa representa seu reino.
Mas Cristo, o Filho de Deus, é muito mais forte do
que Satanás, o homem forte.
A primeira seção de Lucas 11 (vs. 1-13) é
maravilhosa. Aqui vemos a questão de ser
introduzido em Deus por meio da oração e
permanecer Nele para receber o suprimento de vida,
as riquezas do Espírito Santo. Agora, na segunda
seção, temos os demônios, o príncipe dos demônios e
o homem forte. Isso indica que, quando estamos em
Deus recebendo Suas riquezas, precisamos lembrar-
nos de que há demônios ao redor, onde quer que
260 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

estejamos, e há espíritos malignos no ar. Assim, uma


guerra ruge todo o tempo. Por isso o Salvador-
Homem nos ensina não só a ser introduzidos em
Deus por meio da oração e permanecer Nele para
receber Seu Espírito como as riquezas do suprimento
de vida, mas também revela que Ele opera para
expulsar demônios.
Se nos aprofundarmos em Lucas 11, veremos que,
quando desfrutamos as riquezas de Deus
permanecendo Nele, estamos numa situação cheia de
demônios. Por isso nunca devemos esperar que hoje
haja o céu na terra. Não. Há muitos demônios,
muitos obstáculos e empecilhos para o jubileu do
Novo Testamento. No jubileu há libertação da
possessão e opressão dos demônios; entretanto estes
ainda estão presentes e muitos cooperam com eles.
Os que cooperam com eles são usados por Satanás
para prejudicar o jubileu neotestamentário. Mas o
Salvador-Homem está aqui para expulsar os
demônios.
Vimos que o diabo é comparado a um homem
forte, mas o Salvador-Homem é mais forte do que ele.
O Senhor é tão forte que, para expulsar demônios,
não é necessário usar o braço ou mesmo a mão.
Basta-Lhe apenas usar o dedo. Apenas com o dedo, o
Salvador-Homem é capaz de expulsar demônios.
Se formos introduzidos em Deus por meio da
oração e permanecermos Nele para receber o
suprimento de vida, seremos um com o Salvador-
Homem. Uma vez que Ele é mais forte do que o
homem forte e uma vez que estamos com Ele,
também seremos mais fortes do que o homem forte e
capazes de lidar com os espíritos imundos e expulsá-
los.
26
MENSAGEM VINTE E OITO

PLENOS DO ESPÍRITO E DE LUZ


Em 11:24-26 o Senhor diz: “Quando o espírito
imundo sai do homem, anda por lugares áridos,
procurando repouso; e não o encontrando, diz:
Voltarei para minha casa donde saí. E, chegando, a
encontra varrida e ornamentada. Então vai, e leva
consigo outros sete espíritos, mais malignos do que
ele, e, entrando, habitam ali; e o último estado
daquele homem torna-se pior do que o primeiro”.
Precisamos compreender o significado espiritual
dessas palavras. O sentido aqui é que, depois de
purificados da possessão de demônios, podemos
ainda estar vazios, não estando plenos do suprimento
de vida do Espírito. Em outras palavras,
interiormente não estamos ocupados por Deus e com
Ele.
Se considerarmos esses versículos no contexto
de todo o capítulo, veremos que precisamos orar
sempre para ser introduzidos em Deus e então
permanecer Nele para receber as riquezas do Espírito
Santo. Quando somos cheios dessas riquezas, não
haverá espaço em nós para nada mais entrar. Uma
vez cheios do Espírito Santo, que nos traz as riquezas
do Deus Triúno, não haverá espaço em nós para nada
mais entrar e nos ocupar.
Além disso, se formos introduzidos em Deus por
meio da oração e permanecermos Nele para ser
cheios das riquezas do Espírito Santo, estaremos
totalmente na luz (11:33-36). Teremos luz em nós e
ao redor.
Essa é a compreensão desses versículos de
acordo com a experiência espiritual. Sem essa
compreensão, não saberemos por que as várias
262 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

seções no capítulo onze estão juntas. Por nossa


experiência, sabemos que, quando permanecemos
em Deus para receber as riquezas do suprimento do
Espírito, não deixamos espaço em nós para demônios
e trevas. Estamos plenamente na luz. Por isso somos
cheios das riquezas do Espírito e de luz.
Lucas 11:33 diz: “Ninguém, depois de acender
uma lâmpada, a coloca em lugar escondido, nem
debaixo do alqueire, mas no candelabro, a fim de que
os que entram vejam a luz”. Em Seu ministério o
Salvador-Homem nos traz luz. Assim, Seu ministério
faz dos crentes luzeiros (Fp 2:15) e das igrejas
candelabros (Ap 1:20), que brilham como Seu
testemunho nesta era tenebrosa e culminarão na
Nova Jerusalém, que tem as características notáveis
de vida e luz (Ap 22:1-2; 21:11, 23, 24).
Um “alqueire” é um instrumento usado para
medir grãos. Uma lâmpada acesa posta sob um
alqueire não pode emitir a sua luz. Os crentes são
como lâmpadas acesas e não devem ser cobertos com
um alqueire, algo relacionado com o alimento. É essa
preocupação com o alimento que torna as pessoas
ansiosas (Mt 6:25).
Em 11:34-36 o Senhor continua: “A lâmpada do
corpo é o teu olho. Quando o teu olho for singelo,
todo o teu corpo também será luminoso; quando,
porém, for mau, também o teu corpo será tenebroso.
Repara, pois, que a luz que há em ti não sejam trevas.
Se, portanto, todo o teu corpo for luminoso, sem ter
parte alguma tenebrosa, será todo luminoso, como
quando a lâmpada te ilumina com o seu resplendor”.
A palavra grega traduzida por “luminoso” no
versículo 34 pode também ser traduzida por cheio de
luz ou brilhante. Aqui o Senhor diz que, quando
26
MENSAGEM VINTE E OITO

nosso olho é singelo, todo o nosso corpo será cheio de


luz.
Nossos olhos conseguem focalizar somente uma
coisa de cada vez. Se tentarmos ver duas coisas ao
mesmo tempo, nossa vista ficará embaçada. Se
focalizarmos os olhos numa só coisa, nossa vista será
singela e todo o nosso corpo será iluminado.
No versículo 35 o Senhor fala sobre “a luz que há
em ti”. A luz em nós, com a qual o olho ilumina o
corpo todo (v. 34), é a luz em nosso coração, que deve
ser conservado puro para com Deus (Mt 5:8).

REPREENDEU OS FARISEUS E DOUTORES


DA LEI
Em 11:37-54 temos um registro do Salvador-
Homem repreendendo os fariseus e os doutores da
lei. O versículo 37 diz: “Enquanto Ele falava, um
fariseu O convidou para comer com ele; e Ele,
entrando, reclinou-se à mesa”. O verbo “comer” aqui
se refere primordialmente à primeira refeição,
tomada cedo de manhã. O versículo 38 diz: “O fariseu,
porém, admirou-se ao ver que Ele não se lavara
primeiro, antes da refeição”. A palavra grega para
“lavar- se” é literalmente “batizar-se”, um lavar
cerimonioso. A reação do fariseu deu ao Senhor a
oportunidade de revelar algo aos fariseus e doutores
da lei hipócritas.
Nos versículos 39-40 o Senhor lhe disse: “Agora
vós, fariseus, limpais o exterior do copo e do prato;
mas o vosso interior está cheio de rapina e maldade.
Insensatos! quem faz o exterior não fez também o
interior?”. Aqui o Senhor parecia dizer: “Vocês lavam
as mãos, mas, e quanto ao coração? As mãos podem
estar limpas, mas o coração não está; antes, está
264 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

cheio de rapina e maldade. Vocês precisam purificar


o interior bem como o exterior”.
No versículo 41 o Senhor prossegue: “Antes dai
por esmola o que está dentro, e eis que tudo vos será
limpo”. A palavra “dentro” se refere ao conteúdo do
copo e aos itens que estão no prato (v. 39); essas
coisas representam o que estava no coração dos
fariseus. Eles tinham cobiça no coração; assim,
estavam cheios de rapina e maldade. Portanto o
Senhor ordenou-lhes dar por esmola o que
cobiçavam no coração, para que tudo lhes fosse
limpo.
No versículo 42 o Senhor prossegue: “Mas ai de
vós, fariseus! porque dais o dízimo da hortelã, da
arruda e de toda hortaliça, e desprezais a justiça e o
amor de Deus; devíeis, porém, fazer essas coisas sem
omitir aquelas”. A justiça se refere ao juízo, e o amor
de Deus se refere ao amor do homem para com Deus.
Nos versículos seguintes o Senhor ainda
repreende os fariseus e também inclui os doutores da
lei em Sua repreensão. Ele diz aos fariseus que eles
são como túmulos ocultos e repreende os doutores da
lei de sobrecarregar os homens com fardos difíceis de
carregar, fardos estes que eles não tocam nem com
um só dos dedos.

O JONAS E O SALOMÃO DE HOJE


Se colocarmos juntas as quatro seções de Lucas
11, vemos um retrato do Salvador-Homem com o
mais alto padrão de moralidade. Vemos uma Pessoa
introduzida em Deus por meio da oração e que
permanece Nele para receber o Espírito Santo como
Seu suprimento de vida. Visto que Ele é cheio do
Deus Triúno, não há espaço Nele para qualquer coisa
26
MENSAGEM VINTE E OITO

do inimigo. Além disso, está cheio de luz e é


autêntico e limpo interior e exteriormente. Por fim,
Ele é o Jonas de hoje, o que passou pela morte e
entrou em ressurreição, e o Salomão de hoje, o que
fala a sabedoria de Deus. Essa sabedoria inclui os
mistérios das coisas ocultas de Deus.
Em 11:29-32 o Senhor se refere a Si mesmo
como Aquele que é maior que Salomão e Jonas: “Esta
geração é uma geração maligna; busca um sinal, mas
nenhum sinal lhe será dado, senão o sinal de Jonas.
Porque assim como Jonas tomou-se sinal para os
ninivitas, assim também o Filho do Homem o será
para esta geração. A rainha do Sul se levantará no
juízo com os homens desta geração e os condenará,
porque veio dos confins da terra para ouvir a
sabedoria de Salomão. E eis aqui algo mais que
Salomão. Varões ninivitas se levantarão no juízo com
esta geração e a condenarão, porque se
arrependeram com a pregação de Jonas. E eis aqui
algo mais do que Jonas”. Cristo, como o profeta
enviado por Deus ao Seu povo (Dt 18:5, 18), é maior
do que o profeta Jonas. Este foi um profeta que se
voltou de Israel para os gentios e foi colocado no
ventre do grande peixe. Após permanecer lá por três
dias, ele saiu e se tomou um sinal para aquela
geração com vistas ao arrependimento (Jn 1:2, 17;
3:2-10). Isso foi uma prefiguração de Cristo, que
seria sepultado no coração da terra por três dias e,
em seguida, ressuscitaria para se tomar um sinal
para essa geração com vistas à salvação.
Cristo, como o Filho de Davi, como o Rei, é algo
mais do que o rei Salomão. Salomão construiu o
templo de Deus e falou a palavra de sabedoria. A ele
veio a rainha gentia (1 Re 6:2; 10:1-8). Isso também
266 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

foi uma prefiguração de Cristo, que está edificando a


igreja, fazendo dela o templo de Deus e falando a
palavra de sabedoria.
Podemos dizer que a “sabedoria de Salomão” em
Lucas 11:31 indica os mistérios revelados nas catorze
epístolas de Paulo. Como algo mais do que Jonas, o
Senhor passou pela morte e entrou na ressurreição.
Como algo mais do que Salomão, Ele fala a sabedoria
de Deus. Hoje o Cristo ressurreto mediante o Espírito
fala a sabedoria de Deus. Como já ressaltamos, essa
sabedoria é revelada nas epístolas de Paulo. O
conteúdo da sabedoria de Deus são Suas coisas
ocultas, os mistérios ocultos em Deus e revelados a
nós por meio de Paulo. Especificamente essa é a
sabedoria sobre a economia neotestamentária de
Deus, a sabedoria sobre Cristo com a igreja.
O capítulo onze de Lucas inclui muitos itens
relacionados com o mais alto padrão de moral idade
do Salvador-Homem. Nesse capítulo precisamos
perceber que Cristo, mediante a morte e em
ressurreição, agora leva a cabo a economia
neotestamentária de Deus, que é o verdadeiro jubileu.
Nesta mensagem e na anterior, dei a vocês
algumas sugestões sobre a compreensão adequada
desse capítulo. Aqui vemos a essência divina do
Salvador mesclada com Sua essência humana e Sua
natureza divina, com Seus atributos divinos,
mesclada com Sua natureza humana, com Suas
virtudes humanas, para gerar o mais alto padrão de
moralidade. Isso visa a que entremos Nele, Aquele
que ressuscitou, e ouçamos Sua sabedoria a fim de
participar da economia neotestamentária de Deus,
que é o verdadeiro jubileu. Para entender Lucas 11,
precisamos da compreensão adequada dos elementos
26
MENSAGEM VINTE E OITO

intrínsecos do Evangelho de Lucas. Esses elementos


incluem a mescla dos atributos divinos com as
virtudes humanas no Salvador-Homem, o mais alto
padrão de moralidade e a proclamação do jubileu do
Novo Testamento.

ESTUDO-VIDA DE LUCAS

MENSAGEM VINTE E NOVE


O MINISTÉRIO DO SALVADOR-HOMEM
EM SUAS VIRTUDES HUMANAS
COM SEUS ATRIBUTOS DIVINOS
DA GALILEIA PARA JERUSALÉM
(7)
Leitura Bíblica: Lc 12:1-48

Nas mensagens sobre Lucas 11 vimos que,


quando somos introduzidos em Deus por meio da
oração e recebemos Seu rico suprimento, que é a
provisão abundante do Espírito todo-inclusivo,
somos enchidos dessa provisão e ocupados por ela de
modo que não há espaço em nós para demônios, ou
espíritos malignos. Uma vez plenos das riquezas do
suprimento divino, estamos cheios de luz e podemos
iluminar os outros. Essa luz, então, nos introduz em
Cristo, Aquele que passou pela morte e entrou em
ressurreição. Agora podemos experimentá-Lo como o
verdadeiro lonas e o verdadeiro Salomão. Nele, como
o verdadeiro Salomão, conhecemos a sabedoria, o
eterno propósito e a economia de Deus, na qual
desfrutamos o mistério divino. Esse mistério é Cristo
como a expressão de Deus e a igreja como a
expressão de Cristo. Eis o verdadeiro jubileu.
268 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

Uma vez introduzidos em Deus por meio da


oração para desfrutar as riquezas de Sua provisão,
experimentamos a divindade e a humanidade de
Cristo. Desfrutamos Seus atributos divinos e virtudes
humanas. Então temos um viver do mais alto padrão
de moral idade, e esse padrão nos capacita a
desfrutar o jubileu do Novo Testamento.
Os capítulos 11-14 de Lucas são difíceis de
entender. Ao considerá-los, precisamos perceber que
nossa compreensão natural da Palavra sagrada não é
nem um pouco confiável. Para entender qualquer
livro da Bíblia, precisamos conhecer os princípios e
elementos segundo os quais ele foi escrito.
Precisamos descobrir os princípios governantes e
elementos básicos do conteúdo de certo livro. Muitos
leitores do Novo Testamento não viram os princípios
governantes e elementos básicos e intrínsecos
segundo os quais o evangelho de Lucas foi escrito.
Somos gratos ao Senhor porque, em Sua misericórdia,
Ele nos mostrou essas coisas. Baseados no que vimos
dos princípios governantes e elementos básicos de
Lucas, temos a perspectiva adequada para ver o
significado e sentido dos capítulos 11-14.
É difícil aprofundar-nos no capítulo onze e ver
seu sentido. É ainda mais difícil aprofundar-nos no
capítulo doze e compreender o seu significado.
Lucas 12:1-48 contém três advertências: contra a
hipocrisia religiosa (vs. 1-12), contra a cobiça (vs. 13-
34) e de ser vigilantes e fiéis (vs. 35-48). Precisamos
receber essas três advertências, que são na verdade a
continuação da palavra do Senhor no capítulo onze.
Nesta mensagem vamos buscar compreender o
significado das advertências dadas aqui pelo
Salvador-Homem.
26
MENSAGEM VINTE E NOVE

De acordo com Lucas 11, precisamos ser


introduzidos em Deus por meio da oração a fim de
permanecer Nele e ser cheios de Suas riquezas, do
Espírito todo-inclusivo que dá vida, para ter uma
vida no mais alto padrão de moral idade com vistas
ao desfrute e participação do jubileu do Novo
Testamento. Precisamos lembrar-nos que as palavras
do Senhor registradas no capítulo onze foram
proferidas quando Ele se aproximava de Jerusalém.
Isso quer dizer que, enquanto ensinava os discípulos
sobre coisas espirituais, Ele se aproximava de
Jerusalém.

CENTRO RELIGIOSO E CULTURAL


Naquela época Jerusalém era um centro da
religião judaica e de elevada cultura com posses
materiais. Os habitantes daquela cidade se
importavam com religião e posses terrenas a fim
desfrutar uma vida melhor. Por isso, como capital da
Judeia, Jerusalém era caracterizada pela religião e
cultura com o desfrute de coisas materiais.
Nos capítulos 11-14 o Senhor Jesus estava
treinando Seus seguidores a ter uma vida do mais
alto padrão de moralidade a fim de ser introduzidos
na plena participação do jubileu do Novo Testamento.
Vimos que esse ensinamento foi dado no caminho
para Jerusalém.
Enquanto o Senhor e os discípulos estavam no
caminho da Galileia para Jerusalém, Seu coração
estava posto em uma coisa e o dos discípulos em
outra. O coração do Senhor estava posto em Sua
morte. Ele ia a Jerusalém a fim de morrer para a
religião e cultura encontradas ali. Ele não ia a
Jerusalém tomar parte naquelas coisas. Naquela
270 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

cidade o Senhor morreria para a religião e a cultura;


morreria para a vida presente e todas as posses
terrenas. Os discípulos do Senhor tinham algo muito
diferente no coração. O conceito deles era que seu
Mestre ia a Jerusalém receber o reino. Isso nos
capacita a compreender por que João e Tiago, os
filhos do trovão, pediram ao Senhor que lhes
permitisse sentar com Ele à Sua direita e à Sua
esquerda em Seu reino (Mc 10:35-45). O coração
deles estava cheio do conceito de reino. Seu Mestre
tivera um grande sucesso na Galileia e agora,
pensavam, era a hora de ir à capital, a Jerusalém,
assumir o trono e receber o reino.
Mas no coração do Senhor estava a ideia de ir a
Jerusalém para morrer. Ele não apreciava a religião
ou a cultura com suas posses terrenas. Por isso, no
capítulo doze, Lucas põe juntos certos exemplos a fim
de mostrar que o Senhor não tinha o coração voltado
para a religião ou as posses terrenas em Jerusalém.

A ADVERTÊNCIA A RESPEITO
DA HIPOCRISIA RELIGIOSA
Em 12:1, o Senhor deu uma advertência a
respeito da hipocrisia religiosa: “Aglomerando-se,
entrementes, as miríades da multidão, a ponto de se
atropelarem uns aos outros, pôs-se Jesus a dizer
primeiro aos Seus discípulos: Acautelai-vos do
fermento dos fariseus, que é a hipocrisia”.
Especificamente o Senhor nos diz que nos
acautelemos da hipocrisia da religião judaica, porque
Ele fala do “fermento dos fariseus, que é a hipocrisia”.
Na verdade, todas as religiões levam à hipocrisia. Em
nenhum outro lugar a hipocrisia é mais prevalecente
do que na religião. A religião é um campo ou esfera
27
MENSAGEM VINTE E NOVE

para a hipocrisia prevalecer. Considere a hipocrisia


na religião judaica, quando o Senhor Jesus estava na
terra. Que hipocrisia havia entre os fariseus, escribas
e doutores da lei! Em Mateus 23 o Senhor
pronunciou ais sobre eles por causa da hipocrisia
deles. Aqui em 12:1 o Senhor expõe a hipocrisia da
religião judaica.
Em 12:1 vemos que a hipocrisia judaica dos
fariseus era igual ao fermento. No Novo Testamento
fermento representa o elemento de corrupção. Aqui o
Senhor nos adverte contra o fermento dos fariseus,
que é a hipocrisia. Os fariseus eram falsos e
praticavam falsidade ao máximo. Sua falsidade se
tomou hipocrisia, que era o fermento, o elemento de
corrupção na religião judaica.
Todos os discípulos do Senhor eram judeus.
Uma vez que todos eram de origem judaica, tinham
profundo apreço por ela e alta consideração pelos
fariseus. Pensavam que os fariseus tinham alta moral
idade, mas quando o Salvador-Homem se
aproximava de Jerusalém, o centro da religião
hipócrita, Ele começou a expor a hipocrisia daquela
religião a Seus seguidores. Por isso disse aos
discípulos: “Acautelai- vos do fermento dos fariseus,
que é a hipocrisia”.
Em 12:2-12 o Senhor também disse aos
discípulos que a hipocrisia da religião, por fim,
redundaria em perseguição de Seus sinceros e
honestos seguidores. A hipocrisia religiosa sempre se
toma fonte de perseguição para todo autêntico
seguidor de Jesus. Como os que querem estar no
jubileu do Novo Testamento hoje, precisamos estar
atentos à hipocrisia na religião, porque essa
hipocrisia se tomará fonte de perseguição. Quando os
272 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

autênticos seguidores do Senhor desfrutarem o


jubileu, sofrerão oposição dos hipócritas da religião
hipócrita. Essa oposição se desenvolverá em
perseguição dos autênticos seguidores do Senhor
Jesus que experimentam o jubileu do Novo
Testamento.

A ADVERTÊNCIA A RESPEITO DA COBIÇA


Em 12:13-34 o Senhor dá aos discípulos outra
advertência: a respeito da cobiça. Lucas coloca essas
duas advertências juntas numa sequência
significativa. Em Jerusalém não havia somente o
perigo da hipocrisia religiosa, mas também da cobiça
de posses materiais.
Lucas 12:13 diz: “Disse-Lhe alguém dentre a
multidão: Mestre, dize a meu irmão que reparta
comigo a herança”. O Senhor tomou isso como
oportunidade para advertir os discípulos sobre cobiça.
Primeiro, Ele disse ao que Lhe havia solicitado falar
ao irmão que repartisse com ele a herança: “Homem,
quem me constituiu juiz ou parti dor sobre vós?” (v.
14). Ele, então, disse aos discípulos: “Tende cuidado e
guardai-vos de toda cobiça; porque a vida de um
homem não consiste na abundância dos bens que ele
possui” (v. 15). O Senhor, por fim, lhes disse a
parábola relatada nos versículos 16-21.
Se estivermos no jubileu, tomando parte na
herança do Deus Triúno no Novo Testamento,
precisaremos estar atentos à cobiça de posses
terrenas. Nossa vida em Deus não depende dessas
posses. Talvez seja melhor para nós dispor das posses
materiais. No versículo 33 o Senhor diz: “Vendei
vossos bens e dai esmolas; fazei para vós bolsas que
não envelheçam, tesouro inesgotável nos céus, onde
27
MENSAGEM VINTE E NOVE

não chega o ladrão nem a traça rói”. O importante


aqui é que, enquanto tomamos parte no jubileu do
Novo Testamento, não nos devemos agarrar a posses
materiais como um tesouro terreno. Precisamos
ajuntar tesouros para nós nos céus.
Em 12:1-34 o Senhor advertiu os discípulos
sobre a religião e posses terrenas. Enquanto Se
aproximava de Jerusalém, falou-lhes sobre essas
coisas. Hipocrisia e cobiça são grandes problemas
relacionados com o desfrute do jubileu do Novo
Testamento pelos autênticos seguidores de Jesus.

UMA PALAVRA A RESPEITO DA ANSIEDADE


A partir dos versículos 22-23 o Senhor disse aos
discípulos que não ficassem ansiosos quanto à vida:
“Por isso vos digo: Não andeis ansiosos pela vossa
vida, quanto ao que haveis de comer, nem pelo vosso
corpo, quanto ao que haveis de vestir. Porque a vida é
mais do que o alimento, e o corpo mais do que o
vestuário”. Uma vez que nosso Pai no céu cuida de
nós, não há necessidade de ficar ansiosos sobre
comer ou vestir.
No versículo 24 o Senhor diz: “Considerai os
corvos: não semeiam nem colhem, não têm despensa
nem celeiro; contudo Deus os alimenta. Quanto mais
valeis vós do que as aves!”. Ele também usa a
ilustração dos lírios: “Considerai os lírios, como
crescem: eles não labutam nem fiam. Eu, contudo,
vos afirmo: Nem Salomão, em toda a sua glória, se
vestiu como um deles. Ora, se Deus veste assim a
erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada
ao forno, quanto mais a vós, homens de pouca fé?”
(vs. 27-28). Em vez de ficar ansiosos, devemos ter fé
no Pai celestial.
274 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

Em 12:31 o Senhor diz: “Buscai, antes, o Seu


reino, e essas coisas vos serão acrescentadas”.
Devemos buscar o reino de Deus, que é na verdade o
jubileu do Novo Testamento. Se o buscarmos, o Pai
nos dará alimento e vestes. Ele nos acrescentará
essas coisas. O Senhor diz que nosso Pai se agrada
em dar-nos o reino (v. 32). Com certeza Ele nunca se
esquecerá de nossa necessidade. O Senhor diz
claramente: “Vosso Pai sabe que necessitais delas” (v.
30). Estamos aqui para o jubileu, o reino, e, uma vez
que o Pai se agrada em dar-nos o reino, com certeza
cuidará de nossas necessidades materiais. Por isso
não precisamos preocupar- nos ou ficar ansiosos.
Há mais de cinquenta anos o Senhor me
incumbiu de renunciar ao emprego e servir-Lhe em
tempo integral. Quando fui chamado por Ele,
exercitei minha maneira natural de calcular sobre
meu meio de vida. Dizia: “Senhor, estou disposto a
comer folhas das árvores e beber água de córregos
nas montanhas. Estou satisfeito em viver assim, mas
Tu tens de cuidar de minha esposa e filhos”. É claro,
o Senhor não me permitiu viver dessa forma. Ele
cuidou de minhas necessidades e das de minha
família. O que quero dizer é que, embora possamos
não ter fé em nosso Pai, Ele é fiel.
Alguns de vocês têm pensado em servir ao
Senhor em tempo integral. Se têm essa inclinação no
profundo de vocês, encorajo-os a fazê-lo. Saiam do
“barco” do seu emprego, pulem na água e vejam se
“se afogam”. Minha experiência foi que, depois que
deixei o barco, o Senhor não permitiu que me
afogasse. A princípio, disse ao Senhor que estava
num bom barco. Disse-Lhe que confiava Nele, mas
ainda precisava de um barco. O Senhor, porém, me
27
MENSAGEM VINTE E NOVE

disse que pulasse dele. Eu, então, disse-Lhe que não


tinha muita fé, mas não se trata de fé, e sim de Sua
fidelidade.
Todos precisamos ser resgatados da ansiedade
da vida. Não há necessidade de ficar ansiosos sobre
comida e vestes. A satisfação dessas necessidades
depende da fidelidade de Deus. Ele é fiel e devemos
olhar para Ele quanto ao que precisamos.

A ADVERTÊNCIA A RESPEITO
DA VIGILÂNCIA E FIDELIDADE
Se quisermos ter uma vida do mais alto padrão
de moralidade para tomar parte no jubileu do Novo
Testamento e desfrutar Deus ao máximo, precisamos
ser advertidos sobre a hipocrisia, cobiça e ansiedade.
Também precisamos de outra advertência: a respeito
da vigilância e fidelidade. Não devemos ser
capturados pela religião ou desviados pela ansiedade.
Antes, devemos aprender a ser vigilantes e fiéis, isto é,
a servir com vigilância e fidelidade a nosso Senhor
que está voltando.
Precisamos prestar cuidadosa atenção à terceira
advertência, pois diz respeito à nossa participação no
jubileu na era vindoura. No Novo Testamento o
jubileu possui duas eras: a atual, da graça, e a
vindoura, do reino ou milênio. O jubileu na era da
graça é um antegozo do jubileu na era do reino.
Todavia nem mesmo o jubileu no milênio será o gozo
pleno. A plenitude do jubileu será no novo céu e nova
terra. Com isso vemos que há três estágios no jubileu
do Novo Testamento: o primeiro na era da graça, o
segundo na era do reino e o terceiro no novo céu e
nova terra, quando tomaremos parte no jubileu
eterno na Nova Jerusalém.
276 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

O Senhor Jesus estava introduzindo Pedro, João,


Tiago e os outros discípulos na realidade do jubileu
na era da graça. Nas advertências relatadas em Lucas
12, há uma indicação de que haverá um jubileu
adicional na era vindoura. Assim, o jubileu não é
apenas na era da graça, mas também na era vindoura
do reino. O Senhor parecia advertir os discípulos:
“Vocês Me seguem agora e vão tomar parte no jubileu
nesta era, mas perderão o jubileu na era vindoura se
não forem vigilantes e fiéis em Minha ausência”.
No capítulo onze não vemos nada do jubileu na
próxima era, mas em 12:35-48 o Senhor se refere a
ele. Muitos crentes perderão o jubileu na próxima era.
Podemos estar no jubileu nesta era, mas, se não
formos fiéis em desfrutá-lo, nós o perderemos na era
vindoura. Por esse motivo, nos versículos 35-38
temos uma advertência sobre a perda do jubileu na
era vindoura.
No jubileu temos a restauração de nossa herança,
mas, depois que nossa herança, nosso direito de
desfrutar o Deus Triúno, foi restaurado, precisamos
ser vigilantes e fiéis. Senão, podemos perder esse
direito novamente, não eterna, mas
dispensacionalmente no reino vindouro. Isso quer
dizer que na era vindoura, em vez de desfrutar o
direito de primogenitura no jubileu, sofreremos
disciplina, como indica a palavra “açoites” nos
versículos 47-48.
Vamos agora pôr juntas as três advertências no
capítulo doze: a da hipocrisia da religião, a da cobiça
e ansiedade sobre posses terrenas e a de ser
vigilantes e fiéis. Se não ficarmos atentos à hipocrisia
na religião de hoje e à cobiça e ansiedade sobre
posses materiais, não desfrutaremos o jubileu nesta
27
MENSAGEM VINTE E NOVE

era. Além disso, precisamos ver que podemos


desfrutar o jubileu nesta era, mas perder seu desfrute
na era seguinte se não formos vigilantes e fiéis na
ausência do Senhor.
Para tomar parte no jubileu nesta era,
precisamos da advertência da hipocrisia na religião e
a da cobiça e ansiedade em relação às posses. Se
atentarmos para essas duas advertências,
desfrutaremos o jubileu hoje na era da graça. Mas,
enquanto o desfrutamos na era atual, precisamos ser
vigilantes e fiéis na ausência do Senhor. Se não
formos vigilantes e o Senhor voltar, perderemos o
desfrute do jubileu vindouro.
Atentemos à hipocrisia na religião e à ansiedade
que nos traz preocupação com a vida, principalmente
com comida e vestes. Atentemos para essas coisas a
fim de tomar parte no jubileu hoje. Então, enquanto
o desfrutamos, sejamos vigilantes e fiéis para levar a
cabo a comissão do Senhor. Senão, quando Ele voltar,
não nos encontrará vigilantes e fiéis, e perderemos o
desfrute do jubileu na era vindoura do reino.

ESTUDO-VIDA DE LUCAS

MENSAGEM TRINTA
O MINISTÉRIO DO SALVADOR-HOMEM
EM SUAS VIRTUDES HUMANAS
COM SEUS ATRIBUTOS DIVINOS
DA GALILEIA PARA JERUSALÉM
(8)
Leitura Bíblica: Lc 12:49-59

O DESEJO DO SENHOR DE SER LIBERTADO


278 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

MEDIANTE A MORTE
Em 12:1-48 o Salvador-Homem advertiu os
discípulos acerca da hipocrisia da religião (vs. 1-12),
da cobiça (vs. 13-34) e da vigilância e fidelidade (vs.
35-48). Então, em 12:49-53, Ele expressou o desejo
de ser libertado mediante a morte. Aqui vemos que
Ele aspirava ser libertado plenamente do cativeiro da
carne. Esse trecho curto da Palavra é muito profundo
e precisamos da experiência espiritual adequada para
compreendê-lo.
Quando estava em Xangai, há mais de cinquenta
anos, li um livro do irmão T. Austin-Sparks intitulado
A liberação do Senhor, o qual fazia referência a
12:49-50. O escritor enfatizou que o Senhor, em Sua
encarnação, estava preso e oculto na carne. Ele era
Deus e tinha a vida divina como Sua essência, força e
poder. Todavia estava oculto na humanidade, o que
era uma restrição a Seu ser divino. Por isso precisava
ser libertado mediante a morte, ou seja, desejava que
Seu ser divino fosse liberado pela morte.
Lucas 12:49-50 corresponde a João 12:24: “Em
verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo não
cair na terra e morrer, fica ele só; mas se morrer,
produz muito fruto”. Aqui o Senhor Se compara a um
grão de trigo. Se um grão de trigo não cair na terra e
morrer, fica só e permanece o mesmo; mas, quando
cai no chão e morre, sua morte libera a vida dentro
dele. Podemos dizer que a morte torna-se uma
liberação para a vida interior do grão de trigo, por
meio da qual as riquezas dessa vida emergem para
produzir muitos grãos. O Senhor Jesus, como grão de
trigo, caiu na terra e perdeu Sua vida anímica
mediante a morte a fim de liberar Sua vida eterna em
27
MENSAGEM TRINTA

ressurreição para os muitos grãos.


Quando comparamos João 12:24 com Lucas
12:49- 50 vemos que os dois trechos das Escrituras
descrevem a liberação da vida divina, ou a liberação
do ser divino da Pessoa do Senhor. Como Deus, Ele
possuía a vida eterna ilimitada. Entretanto essa vida
ilimitada era grandemente restringi da e constrita em
Sua humanidade, em Sua carne. Por isso Ele estava
ansioso e desejoso por liberá-la. Ele podia transmiti-
la a Seus muitos crentes. Essa é a ideia básica em
12:49-53.

VEIO PARA LANÇAR FOGO SOBRE A TERRA


Em 12:49 o Senhor Jesus diz: “Eu vim para
lançar fogo sobre a terra, e como desejaria que já
estivesse aceso!”. Esse “fogo” é o impulso da vida
espiritual, o qual vem da vida divina liberada pelo
Senhor e causa as divisões mencionadas nos
versículos 51-53. Nesse trecho vemos que haverá
divisões até mesmo nas famílias dos crentes. Essas
divisões advêm do fogo que é o impulso da vida
espiritual, e esse impulso advém da vida divina
liberada do Senhor. Sua vida estava escondida e o
Senhor queria que fosse liberada. Ele queria que o
fogo se inflamasse.
No versículo 49 o Senhor diz: “E como desejaria
que já estivesse aceso!”. Essa parte do versículo
também pode ser traduzida por: “Que mais quero se
já está aceso?”. Isso indica que o fogo não estava
aceso antes da morte do Senhor. Sabemos pelo
registro no livro de Atos que, após Sua morte, esse
fogo se tornou uma chama.

ANGUSTIADO ATÉ QUE SEU BATISMO SE


280 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

REALIZASSE
Em 12:50 o Senhor prossegue: “Tenho, porém,
um batismo com que ser batizado; e como me
angustio até que se realize!”. A palavra “batismo”
aqui nos faz lembrar a palavra do Senhor a Tiago e
João em Marcos 10:38: “Podeis vós beber o cálice
que eu bebo, ou receber o batismo com que eu sou
batizado?”. Tanto o cálice como o batismo referem-se
à morte do Senhor. O cálice indica que Sua morte foi
a porção que Deus Lhe deu, porção que Ele tomou
para redimir os pecadores para Deus. O batismo
denota que Sua morte foi ordenada por Deus como o
caminho que Ele teria de percorrer para efetuar a
redenção de Deus em favor dos pecadores.
O verbo grego traduzido por “angustiar-se” em
Lucas 12:50 também pode ser traduzido como
“constranger- se”. O Senhor estava constrangido na
carne, da qual se revestira na encarnação. Ele
precisava passar pela morte física, ser batizado, para
que Seu ser divino, ilimitado e infinito, com Sua vida
divina, pudesse ser liberado da carne. Sua vida divina,
após ter sido liberada por meio de Sua morte física,
tornou-se o impulso da vida espiritual de Seus
crentes em ressurreição.

UM CONFLITO ENTRE DOIS REINOS


Em 12:51 o Salvador-Homem diz: “Supondes que
vim para dar paz na terra? Não, Eu vos digo, mas
antes divisão”. a Senhor aqui pergunta se os
discípulos pensavam que Ele viera para dar paz à
terra. Em certo sentido, o Senhor veio para dar paz.
Quando veio, a paz veio, pois Ele trouxe paz à
humanidade. Quando Ele nasceu, a multidão do
28
MENSAGEM TRINTA

exército celestial louvou a Deus ,e disse: “Glória a


Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os
homens de Seu agrado”. Assim, a vinda do Salvador
trouxe glória a Deus nos céus e paz aos homens na
terra. Em Efésios 2:14 Paulo até diz que Cristo é
nossa paz. Contudo, em outro sentido, o Senhor não
veio para dar paz, mas divisão, porque a vida satânica
nos incrédulos luta com a vida divina nos crentes: um
conflito entre o reino satânico e o reino de Deus.
O Senhor proferiu palavra semelhante em
Mateus 10:34: “Não penseis que vim trazer paz à
terra; não vim trazer paz, mas espada”. A terra
inteira está sob a usurpação satânica (1Jo 5:19). a
Senhor Jesus veio chamar alguns para livrá-los dessa
usurpação. Isso por certo suscitou a oposição de
Satanás, que instiga os que estão sob sua usurpação a
lutar com os chamados do Senhor. Com certeza a
vinda do Senhor não trouxe paz, mas espada.
O conflito entre a vida satânica e a vida divina é
na verdade uma guerra entre o reino de Satanás e o
reino de Deus. Um reino é questão de vida, ou seja,
cada reino tem certa vida. Como exemplo, podemos
falar do reino vegetal. Este depende da vida vegetal.
No mesmo princípio, o reino humano depende da
vida humana e o reino de Deus depende da vida
divina. Uma vez que tenhamos a vida divina, temos a
realidade do reino de Deus e estamos nessa realidade.
Mas os incrédulos, que vivem pela vida de Satanás,
estão em outro âmbito, outro reino. Isso quer dizer
que estão na realidade do reino satânico. a reino de
Deus e o reino de Satanás certamente não concordam
um com o outro, e são opostos entre si. Portanto há
uma luta entre o reino de Deus e o reino de Satanás, e
essa luta causa divisão.
282 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

Em Lucas 12:52 o Senhor continua: “Porque


daqui em diante estarão cinco divididos numa casa:
três contra dois, e dois contra três”. Essa divisão tem
ocorrido repetidas vezes nos últimos dezenove
séculos.
No versículo 53 o Senhor prossegue: “Estarão
divididos: pai contra filho, e filho contra pai; mãe
contra filha, e filha contra mãe; sogra contra nora, e
nora contra sogra”. Lucas aqui, caracteristicamente,
menciona os detalhes. A divisão descrita aqui não é
agradável porque é devida à luta entre duas vidas, a
divina e a satânica.
Vimos em 12:51- 53 que haverá divisões
causadas pela vida satânica nos incrédulos lutando
com a vida divina nos crentes. Já enfatizamos que
isso é um conflito entre o reino satânico e o reino de
Deus.
Agora que compreendemos a ideia transmitida
nesses versículos, não devemos fazer nada para
começar uma guerra na família. Jamais devemos ir
aos membros da família e dizer: “Tenho a vida divina,
mas você não. Já que a tenho, haverá uma guerra
entre mim e você. Embora eu não queira ser contra
você, você será contra mim”. Dizer algo assim seria
muito tolo. Em vez de fazer algo para provocar
conflito com a família, devemos ter vida humilde,
pacífica e submissa, e permitir que o Senhor opere na
situação.

ENSINOU ACERCA DO DISCERNIMENTO


DOS TEMPOS
Em 12:54-59 temos o ensinamento do Senhor
sobre o discernimento dos tempos. As palavras do
Senhor registradas nos versículos 49-53 foram ditas
28
MENSAGEM TRINTA

aos discípulos. O que Ele diz nos versículos 54-59 é


endereçado à multidão, aos incrédulos.
Em 12:54-56 o Senhor disse às multidões:
“Quando vedes surgir uma nuvem no poente, logo
dizeis que vem aguaceiro, e assim acontece; e quando
vedes soprar o vento sul, dizeis que haverá calor
abrasador, e assim acontece. Hipócritas, sabeis
discernir o aspecto da terra e do céu; como não
sabeis discernir este tempo?”. A palavra “discernir”
no versículo 56 também significa provar testando, e
“aspecto” é literalmente face. As palavras gregas
traduzidas como “como não sabeis discernir”
também pode ser traduzida por “mas esse tempo não
sabeis como discernir”. Discernir esse tempo é
discernir os sinais dos tempos (Mt 16:3). Os sinais
eram que João Batista, como fora profetizado (3:2-6;
15-17), viera anunciar a vinda do Messias e que o
Messias estava ali ministrando-Se para que o povo O
recebesse e fosse salvo. O povo conseguia discernir os
sinais a respeito do clima e da aparência da terra e do
céu, mas não os sinais introduzidos por João Batista
e pelo próprio Messias.
No versículo 57 o Senhor continua: “E por que
não julgais também por vós mesmos o que é justo?”.
Mesmo sem o ensinamento do Senhor, os judeus
haviam visto sinais suficientes para julgar por si
mesmos o caminho correto que deviam seguir e o que
fazer naquela hora, isto é, receber o Senhor e segui-
Lo. Entretanto recusaram-se a recebê-Lo e segui-Lo.

UMA PALAVRA PROFERIDA ÀS MULTIDÕES


COM VISTAS AO ARREPENDIMENTO E
SALVAÇÃO
Nos versículos 58-59 o Senhor diz: “Quando,
284 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

pois, fores com o teu adversário ao magistrado,


esforça-te para te livrares dele no caminho, para que
não suceda que ele te arraste ao juiz, o juiz te
entregue ao meirinho, e o meirinho te lance na prisão.
Digo-te: De modo algum sairás dali, enquanto não
pagares o último centavo”. A palavra grega traduzida
por “centavo” é lépton, a menor moeda do sistema
monetário greco-romano na Palestina. A palavra
“pois” no início do versículo 58 indica que os
versículos 58-59 são a continuação do versículo 57.
Aqui o Salvador-Homem advertiu os judeus de que,
enquanto ainda estivessem no caminho, debaixo da
lei (o adversário - Jo 5:45), a fim de encontrar-se com
Deus ( o magistrado) e ser julgados por Cristo (o juiz
- Jo 5:22; At 17:31), deveriam fazer o possível para
livrar-se de seu adversário, para não ser julgados por
Cristo e lançados no lago de fogo (a prisão - Ap 20:11-
15) pelo anjo (o meirinho – cf. Mt 13:41). Se isso
ocorrer, jamais sairão dali (v. 59).

UMA PALAVRA PROFERIDA AOS


DISCÍPULOS
COM VISTAS À VIDA DO REINO
As palavras em 12:58-59 foram proferidas às
multidões (v. 54) para que se arrependessem e
fossem salvas. Mas em Mateus 5:25-26 foram
aplicadas aos discípulos para que vivessem a vida do
reino: “Entra em acordo sem demora com o teu
adversário, enquanto estás com ele a caminho, para
que o adversário não te entregue ao juiz, o juiz ao
oficial de justiça, e sejas recolhido à prisão. Em
verdade te digo que não sairás dali, enquanto não
pagares o último centavo”. O Senhor aqui diz que
devemos “entrar em acordo sem demora” para que
28
MENSAGEM TRINTA

não morramos, ou nosso adversário morra, ou o


Senhor volte e, assim, não haja oportunidade de
reconciliação com o adversário. Em grego “adversário”
quer dizer oponente, querelante. “A caminho” quer
dizer que ainda vivemos nesta vida. Ser entregue ao
juiz ocorrerá no tribunal de Cristo quando Ele voltar
(2Co 5:10; Rm 14:10). O “juiz” será o Senhor, o
“oficial de justiça” será o anjo e a “prisão” será o
lugar de disciplina. “Sair dali” (da prisão) é ser
perdoado na era vindoura, no milênio.
O centavo é literalmente quadrante romano,
uma pequena moeda de bronze, equivalente a um
quarto de asse; o asse vale aproximadamente um
centavo de dólar. O significado aqui é que, até
mesmo em questões ínfimas, temos de fazer
completa clarificação. Essa clarificação relaciona-se
com a vida do reino.

ESTUDO-VIDA DE LUCAS
MENSAGEM TRINTA E UM

O MINISTÉRIO DO SALVADOR-HOMEM
EM SUAS VIRTUDES HUMANAS
COM SEUS ATRIBUTOS DIVINOS
DA GALILEIA PARA JERUSALÉM
(9)
Leitura Bíblica: Lc 13:1-35

Nesta mensagem vamos considerar 13:1-35.

ENSINOU ACERCA DO ARREPENDIMENTO


Lucas 13:1 diz: “Ora, naquele mesmo tempo,
286 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

estavam presentes alguns que Lhe contavam a


respeito dos galileus, cujo sangue Pilatos misturara
com os sacrificios deles”. A palavra grega traduzida
por “ora” pode também ser traduzida como
“contudo”, “e” ou “além disso”. Seguimos outras
versões ao usar a palavra “ora”, não para transmitir o
elemento de tempo, mas para indicar continuidade.
“Ora” indica que 13:1-9, que continuam a tratar da
questão do arrependimento, dão seguimento ao
último versículo do capítulo doze. O Senhor usou os
dois incidentes em 13:1-5 para lembrar aos judeus
que era o momento de se arrepender e, se não o
fizessem, pereceriam todos, como as vítimas desses
dois incidentes.
A palavra do Senhor no final de Lucas 12 indica
que Ele queria que os judeus se arrependessem.
Agora no capítulo treze Ele fala mais sobre
arrependimento. Referindo-se ao caso dos galileus,
cujo sangue Pilatos misturou com seus sacrificios, Ele
disse aos presentes: “Pensais que esses galileus eram
mais pecadores do que todos os galileus, por terem
padecido essas coisas? Não, eu vos digo; mas se não
vos arrependerdes, todos igualmente perecereis”. Ele,
então, menciona o segundo caso, o caso dos “dezoito,
sobre os quais caiu a torre de Siloé e os matou” (v. 4).
Novamente o Senhor advertiu o povo a se arrepender.
Ele parecia dizer-lhes: “Não pensem que essas
pessoas eram pecadoras e os outros não. A não ser
que vocês se arrependam, também perecerão”.
Nos versículos 6-9 o Senhor prossegue contando
a parábola de certo homem que tinha uma figueira
plantada em sua vinha. A palavra “e” no início do
versículo 6 indica que esses versículos são a
continuação dos versículos precedentes com relação
28
MENSAGEM TRINTA E UM

ao arrependimento.
Essa parábola indica que Deus, o dono da vinha,
veio no Filho buscar fruto do povo judeu, a figueira
(Mt 21:19; Jr 24:2, 5, 8) plantada na terra prometida
de Deus, a vinha (Mt 21:33). Ele havia procurado
fruto nela por três anos (Lc 13:7), mas nada
encontrou. Quis, então, cortar os judeus, mas Deus
Filho, o vinhateiro, orou por eles, pedindo a Deus Pai
que os tolerasse até que o Filho morresse por eles
(escavasse a terra ao redor da figueira) e lhes
aplicasse fertilizante (pusesse estrume) e, nessa
ocasião, esperava Ele, se arrependeriam e dariam
frutos. Doutro modo, seriam cortados. As passagens
em 11:29-32 e 42-52, trechos que desvendam os
judeus como geração maligna, confirmam essa
interpretação.
Nessa parábola o povo judeu é considerado por
Deus como figueira. Quando Deus não encontrou
fruto na árvore, cogitou cortá-la, mas o vinhateiro, o
Senhor Jesus, rogou ao Pai que não fizesse isso até
que, por meio de Sua morte, Ele estercasse ao redor
dela. Então, se a árvore ainda não desse fruto, seria
cortada. Isso é, na verdade, o que aconteceu. Como
os judeus não se arrependeram, mesmo depois de o
Senhor Jesus ter morri do e ressuscitado e o Espírito
ter vindo, a “figueira” foi “cortada”. Isso aconteceu
em 70 d. C., quando Tito trouxe o exército romano a
Jerusalém e a destruiu - isso foi o corte da figueira.

CUROU E LIBERTOU UMA MULHER


QUE ANDAVA CURVADA E PRESA POR
SATANÁS,
EM DIA DE SÁBADO
Em 13:10-17temos ocaso do Salvador-Homem
288 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

curando e libertando uma mulher curvada e presa


por Satanás, no dia de sábado. Os versículos 10-11
dizem: “Ora, ensinava Jesus no sábado numa das
sinagogas. E eis que estava ali uma mulher que tinha
um espírito de enfermidade havia já dezoito anos;
andava ela encurvada, e não podia de modo algum
endireitar-se”. Esse “espírito” era um demônio, um
dos espíritos dos seres viventes que havia na era pré-
adâmica e foram julgados por Deus quando se
uniram à rebelião de Satanás. Os anjos caídos
operam com Satanás nos ares (Ef 2:2; 6:11-12), e os
espíritos imundos, ou demônios, movem-se com ele
na terra. Ambos atuam de modo maligno sobre o
homem a favor do reino de Satanás.
Por causa de um espírito de enfermidade, essa
mulher estava “encurvada”. Literalmente, a palavra
grega traduzida por “encurvada” significa “dobrada”.
Isso representa a extrema opressão demoníaca exerci
da sobre uma pessoa, levando-a a curvar-se somente
para o mundo satânico e tornando-a incapaz de
endireitar-se e olhar para os céus.
O Senhor Jesus viu a mulher que estava
encurvada, totalmente incapaz de endireitar-se, mas
era forçada a olhar para baixo, para a terra, como
resultado da ação exercida sobre ela por Satanás por
meio de seus demônios. O Senhor lhe disse: “Mulher,
estás livre da tua enfermidade; e impôs-lhe as mãos.
No mesmo instante, ela se endireitou, e glorificava a
Deus” (vs. 12-13). Aqui vemos que a mulher não
pediu ao Senhor que a curasse; antes, Ele tomou a
iniciativa de curar e libertar a mulher encurvada e
presa por Satanás.
O versículo 14 diz: “O chefe da sinagoga,
indignado porque Jesus curara no sábado, tomando a
28
MENSAGEM TRINTA E UM

palavra, disse à multidão: Seis dias há em que se deve


trabalhar; vinde, pois, nesses dias para serdes
curados, e não em dia de sábado”. Aqui vemos que
Satanás usou não somente o espírito maligno para
possuir a mulher, mas também o chefe religioso para
opor-se a que fosse libertada pelo Senhor. A religião é
muito usada pelo usurpador para manter os
escolhidos de Deus sob sua opressão. O chefe da
sinagoga, que era muito religioso, importava-se com
os regulamentos religiosos e não com o . sofrimento
da mulher, que era descendente de Abraão.
Nos versículos 15-16 o Senhor respondeu ao
chefe da sinagoga: “Hipócritas, cada um de vós, no
sábado, não desprende da manjedoura o seu boi ou o
seu jumento, e o leva a beber? E não deveria ser solta
desta prisão, em dia de sábado, esta que é filha de
Abraão, a quem Satanás trazia presa há dezoito
anos?”. O fato de ela ser filha de Abraão indica que
fazia parte do povo escolhido por Deus, mas estava
presa por Satanás. Isso indica que a possessão das
pessoas pelo demônio é a ação de Satanás curvando-
as. Assim, a expulsão do demônio é a derrota de
Satanás (Mt 12:29). Era muito correto que ela fosse
libertada dessa prisão no dia de sábado porque o
sábado foi ordenado por Deus para o homem
descansar (Gn 2:3), não para permanecer sob
cativeiro.
Por que esse caso é posto aqui por Lucas? Ao
responder essa pergunta, precisamos lembrar-nos de
que isso ocorreu quando o Salvador-Homem se
aproximava de Jerusalém, onde a atmosfera era
extremamente religiosa. Creio que o Senhor Jesus
entrou na sinagoga e tomou a iniciativa de curar essa
mulher a fim de mostrar aos discípulos que Ele não
290 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

tinha intenção de guardar as formas mortas da


religião e os regulamentos sabáticos distorcidos. Ele,
de propósito, quebrou esses regulamentos para que
os discípulos soubessem que Ele não viera para
guardar os regulamentos que prendiam as pessoas
em seu sofrimento, mas para quebrar os
regulamentos distorcidos, de forma que os que
sofriam fossem liberados pela bênção do jubileu.
Quando o Senhor Jesus curou a mulher presa
por Satanás e encurvada, Ele lhe trouxe o jubileu. Em
Lucas 4 Ele proclamou o jubileu, no qual os cativos
seriam libertados e os oprimidos seriam liberados.
Esse caso, portanto, é cumpre a proclamação do
jubileu no capítulo quatro. A intenção do Senhor era
permitir que os discípulos soubessem que Ele ia a
Jerusalém, não para observar regulamentos
religiosos, mas quebrá-los de propósito, para que as
pessoas fossem introduzi das no jubileu.

ENSINOU ACERCA DO REINO DE DEUS


COMO GRÃO DE MOSTARDA E COMO
FERMENTO
Em 13:18- 21, provavelmente para grande
surpresa dos discípulos, o Senhor de novo falou sobre
o reino de Deus. Aqui, porém, Ele não fala do reino
num sentido positivo. Até agora, a palavra do Senhor
sobre o reino em Lucas tinha sido positiva. Mas aqui,
Ele fala aos discípulos sobre o reino de forma
negativa, ensinando-os sobre o reino como grão de
mostarda (vs. 18-19) e como fermento (vs. 20-21).
Nos versículos 18-19 o Senhor diz: “A que é
semelhante o reino de Deus, e a que o compararei? É
semelhante a um grão de mostarda, que um homem
tomou e lançou na sua horta; e cresceu, e fez-se
29
MENSAGEM TRINTA E UM

árvore e as aves do céu aninharam- se nos seus


ramos”. O fato de esse grão de mostarda crescer a
ponto de fazer-se árvore indica que não teve
crescimento normal segundo a própria espécie. De
acordo com Gênesis 1, as coisas criadas por Deus são
segundo sua espécie. Uma macieira, por exemplo,
deve ser segundo a espécie das macieiras, mas aqui o
grão de mostarda não cresce segundo sua espécie;
antes, cresce segundo outra espécie. Isso constitui a
quebra do princípio ordenado por Deus na criação.
Se virmos isso, não interpretaremos essa parábola
num sentido positivo.
Alguns ensinam que a mostarda tomar-se uma
grande árvore é um desenvolvimento positivo. Mas,
de acordo com a história do cristianismo, não há esse
desenvolvimento positivo. Na verdade, essa parábola
é uma profecia cumprida na história do cristianismo.
De fato, o cristianismo de hoje não é algo segundo
sua espécie. A igreja, que é a corporificação do reino,
deve ser semelhante a uma erva que produz alimento.
Todavia sua natureza e função foram mudadas, de
modo que se tomou uma “árvore”, morada para as
aves. Isso é contrário à lei da criação de Deus, qual
seja, que cada planta tem de ser segundo sua espécie.
Essa mudança ocorreu quando Constantino, o
Grande, misturou a igreja com o mundo na primeira
parte do século IV. Ele introduziu milhares de falsos
crentes no cristianismo, tomando-o a cristandade, e
não mais a igreja. Assim, essa parábola corresponde
à terceira da sete igrejas em Apocalipse 2 3, a igreja
em Pérgamo (Ap 2:12-17). A igreja, segundo sua
natureza celestial e espiritual, deve ser semelhante à
mostarda, isto é, peregrina na terra. Mas, com sua
natureza mudada, a igreja tomou-se profundamente
292 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

arraigada e estabelecida, como uma árvore na terra


com muitas ramificações - seus empreendimentos
florescentes - nas quais muitas pessoas e coisas
malignas se alojam. Isso resultou na formação da
organização exterior da aparência exterior do reino
de Deus.
Em Lucas 13:19 é-nos dito que as aves do céu se
aninhavam nos ramos dessa árvore. Em 8:5 e 12, as
aves do céu estão relacionadas com o diabo. Por isso
aqui elas devem referir-se aos espíritos malignos de
Satanás juntamente com as pessoas e coisas malignas
por eles motivadas. Eles se aninham nos ramos da
grande árvore, isto é, nos empreendimentos da
cristandade.
Em Lucas 13:20-21 o Senhor diz: “A que
compararei o reino de Deus? É semelhante a
fermento, que uma mulher tomou e escondeu em três
medidas de farinha, até ficar tudo levedado”. Alguns
ensinam que o fermento aqui é positivo. De acordo
com sua concepção, ele representa o poder do
evangelho se expandindo por toda a terra, mas, na
Bíblia, fermento não tem conotação positiva. Pelo
contrário, principalmente nos quatro evangelhos,
tem significado negativo. O Senhor Jesus,
especificamente, não usa a palavra fermento num
sentido positivo, mas sempre num sentido negativo.
Por todo o Novo Testamento, fermento tipifica coisas
malignas (1Co 5:6, 8) e doutrinas malignas (Mt 16:6,
11-12).
A igreja, que é o reino de Deus no aspecto
prático, com Cristo, a flor de farinha sem fermento,
como seu conteúdo, deve ser um pão asmo (1Co 5:7-
8). Entretanto a Igreja Católica, que foi completa e
oficialmente formada no sexto século e é
29
MENSAGEM TRINTA E UM

representada aqui pela mulher, acolheu muitas


práticas pagãs, doutrinas heréticas e questões
malignas, e as misturou com os ensinamentos
relativos a Cristo, levedando assim todo o conteúdo
do cristianismo. O que é descrito em Lucas 13:20-21
Corresponde à quarta das sete igrejas em Apocalipse
23, a igreja em Tiatira (Ap 2:18-29).
A “farinha”, com a qual se fazia a oferta de
manjares (Lv. 2:1), representa Cristo como alimento
para Deus e para o homem. “Três medidas” é a
quantidade necessária para uma refeição completa
(Gn 18:6). Assim, esconder o fermento em três
medidas de farinha significa que a Igreja Católica
levedou por completo, de modo oculto, todos os
ensinamentos relativos a Cristo. Essa é a verdadeira
situação da Igreja Católica Romana. Esse levedar é
totalmente contrário às Escrituras, que proíbem
rigorosamente colocar fermento na oferta de
manjares (Lv. 2:4-5, 11).
As duas parábolas em 13:18-21 indicam que o
jubileu chegou, mas perdeu sua natureza. O reino de
Deus é a realidade e conteúdo do jubileu. Sem o reino
de Deus, não há jubileu. Já enfatizamos que o jubileu
é libertar os cativos e restaurar o direito de desfrutar
o Deus Triúno. O mesmo é verdade com o reino de
Deus. O reino de Deus é o retomo dos cativos e a
restauração da herança divina, mas, como essas
parábolas indicam, em dada hora, o jubileu, o reino,
perdeu sua natureza. Por um lado, desenvolveu-se
em algo que não é segundo sua espécie; por outro,
ficou fermentado, isto é, seu conteúdo foi corrompido.
Essa mudança do jubileu em natureza indica, na
verdade, a perda do jubileu. Onde está hoje o jubileu
entre tantos cristãos? Quando consideramos a
294 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

situação de hoje, vemos que no cristianismo a


verdadeira natureza do jubileu foi perdida.
Em seu evangelho, Lucas escreve de forma a
abordar pontos diferentes relacionados com o jubileu.
Por isso nossa compreensão de Lucas tem de ser
governada pelos princípios do jubileu. A proclamação
do jubileu no capítulo quatro é um princípio
governante para Lucas escrever esse livro e para que
o compreendamos. Tudo o que é mencionado nos
capítulos 4-24 relaciona-se com o jubileu, direta ou
indiretamente. Isso significa que tudo nesses
capítulos relaciona-se direta ou indiretamente com o
reino de Deus, com a libertação dos cativos e a
restauração da herança divina.
Esse jubileu, o reino de Deus, foi introduzido
pela morte e ressurreição de Cristo e pode ser visto
em Atos e nas epístolas. Pouco depois,
provavelmente antes do fim do primeiro século, o
jubileu começou a ser perdido. Por fim, conforme
indicam essas duas parábolas em Lucas 13, o jubileu
mudou sua natureza e se perdeu.

ENSINOU A CAMINHO DE JERUSALÉM


ACERCA DA ENTRADA NO REINO DE DEUS
Em 13:22-30 temos o ensinamento do Senhor a
caminho de Jerusalém acerca da entrada no reino de
Deus. Depois que diversos aspectos relacionados com
o jubileu foram abordados, temos a necessidade de
conhecer a maneira de entrar no jubileu, a maneira
de entrar no reino de Deus. O registro em 13:22-30
está de acordo com a maneira de Lucas, de colocar
diversos pontos juntos para mostrar-nos aspectos do
jubileu. Agora ele nos apresenta um trecho que revela
a maneira de entrar no reino de Deus como o jubileu.
29
MENSAGEM TRINTA E UM

Lucas 13:22- 23 diz: “Passava Jesus pelas


cidades e aldeias, ensinando, e caminhando para
Jerusalém. E alguém Lhe perguntou: Senhor, são
poucos os que são salvos?”. Embora essa pergunta
seja bem tola ou ambígua, o Salvador-Homem
respondeu de modo bem claro: “Esforçai- vos por
entrar pela porta estreita, pois Eu vos digo que
muitos procurarão entrar, e não poderão” (v. 24).
Isso não é meramente ser salvo, mas é entrar no
pleno jubileu, entrar no pleno desfrute do reino de
Deus, não somente nesta era, mas também na era por
vir.
No versículo 25 o Senhor prossegue: “Uma vez
que o Dono da casa se tiver levantado e fechado a
porta, e vós, de fora, começardes a bater à porta,
dizendo: Senhor, abre-nos; Ele vos responderá: Não
vos conheço, nem sei donde sois”. Aqui, as palavras
“não vos conheço” não querem dizer “não estou
familiarizado convosco”, ou “vós não Me sois
conhecidos”; antes, significam: “Não vos aprecio, não
vos aprovo, não vos elogio em nada”.
Nos versículos 26-27 o Senhor prossegue: “Então
começareis a dizer: Comemos e bebemos na Tua
presença, e ensinaste em nossas ruas. E Ele dirá: Eu
vos digo: Não sei donde sois; apartai-vos de Mim, vós
todos, obreiros de injustiça”. A palavra do Senhor
aqui se refere aos judeus e indica que o que eles
faziam era injusto.
No versículo 28 o Senhor diz: “Ali haverá choro e
ranger de dentes, quando virdes Abraão, Isaque, Jacó
e todos os profetas no reino de Deus, mas vós
lançados fora”. Aqui, “choro” indica arrependimento,
e “ranger de dentes” indica culpar a si mesmo. A
palavra do Senhor sobre estar fora do reino de Deus
296 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

se refere ao futuro, ao milênio, quando muitos judeus


serão lançados fora do reino de Deus.
Em 13:23 os judeus perguntaram sobre a
salvação, mas o Senhor responde sobre a
participação no reino de Deus no milênio, que será a
parte mais desfrutável da plena salvação de Deus
antes do desfrute da Nova Jerusalém no novo céu e
nova terra (Ap 21:1-3a, 5-7; 22:1-5).
Os versículos 29-30 concluem: “E virão do
Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul, e se
reclinarão à mesa no reino de Deus. Eis que há
últimos que serão primeiros, e há primeiros que
serão últimos”. No versículo 29 os gentios é que virão
do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul, e se
reclinarão à mesa no reino de Deus. Isso acontecerá
na era do reino, no milênio. No versículo 30 os
“últimos que serão primeiros” se refere aos gentios
salvos, que receberão o Salvador antes de alguns
judeus salvos e participarão no reino de Deus no
milênio. Os “primeiros que serão últimos” se refere
aos crentes judeus que crerão no Senhor após os
crentes gentios (Rm 11:25-26). As palavras desse
versículo são aplicadas em outro sentido em Mateus
19:30; 20:16 e Marcos 10:31.

SEGUIU JORNADA SEM DETENÇA A


JERUSALÉM
Em 13:31-35 temos uma descrição do Salvador-
Homem seguindo jornada sem detença a Jerusalém.
O versículo 31 diz: “Na mesma hora aproximaram-se
alguns fariseus, dizendo- Lhe: Sai e vai-Te daqui,
porque Herodes quer matar-Te”. Essa foi uma
ameaça feita pelos opositores em sua inveja; mas,
como veremos, o Senhor não foi ameaçado.
29
MENSAGEM TRINTA E UM

O Senhor lhes disse: “Ide dizer a essa raposa: Eis


que expulso demônios e realizo curas hoje e amanhã,
e no terceiro dia terminarei Minha obra” (v. 32). A
expressão grega traduzida por “terminarei Minha
obra” também pode ser traduzida por “concluirei
Minha carreira” ou “atingirei Meu objetivo”. A
resposta do Senhor indica que Ele tinha um
cronograma fixo para levar a cabo Seu ministério,
findar Sua carreira e atingir Seu objetivo por meio da
morte e ressurreição, e ninguém, nem mesmo
Herodes, poderia impedi-Lo de levá-lo a cabo.
O Senhor aqui parece dizer: “Atingirei Minha
meta. Cumprirei o que tenciono fazer. Expulsarei
demônios e farei curas hoje, e amanhã, e depois, no
terceiro dia, em ressurreição, terminarei e atingirei
Meu objetivo. Não Me aborreçam nem Me ameacem.
Sou o Soberano e vocês nada podem fazer. Quem é
Herodes? Ele é uma raposa. Vocês podem temê-lo,
mas Eu não, porque ele está abaixo de Mim. Digam-
lhe que tenho Meu cronograma, de acordo com o
qual terminarei Minha obra, atingirei Meu objetivo e
concluirei Minha carreira”.
No versículo 33, o Senhor disse: “Importa-Me,
contudo, caminhar hoje, amanhã e no dia seguinte,
porque não é admissível que um profeta pereça fora
de Jerusalém”. A ameaça não impediu o Senhor de
caminhar para Jerusalém a fim de cumprir a Sua
morte redentora. Pelo contrário, Ele foi intrépido em
prosseguir para lá (Me 10:33) para atingir a meta de
todo o Seu ministério.
No versículo 33 o Senhor parece dizer: “Preciso
caminhar hoje, amanhã e no dia seguinte porque Me
é necessário morrer em Jerusalém. Não se admite
que um profeta pereça fora de Jerusalém. Não Me
298 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

interrompam ou estorvem. Tenho um objetivo que é


morrer em Jerusalém. Estou a caminho para atingi-
lo”.
Em 13:34-35 o Senhor diz: “Jerusalém,
Jerusalém! que matas os profetas e apedrejas os que
te são enviados! quantas vezes quis Eu reunir os teus
filhos, como a galinha ajunta a sua própria ninhada
debaixo das asas, e vós não o quisestes! Eis que vos é
deixada a vossa casa. E digo-vos: De modo algum Me
vereis até que venha o tempo em que digais: Bendito
o que vem em nome do Senhor”. Sempre foi o
próprio Deus que cuidou de Jerusalém como uma ave
paira sobre seus filhotes (Is 31:5; Dt 32:11-12).
Portanto, quando disse “quis reunir os teus filhos,
como a galinha ajunta sua própria ninhada debaixo
das asas”, o Senhor Jesus deu a entender que era o
próprio Deus.
No versículo 35 o Senhor diz: “Eis que vos é
deixada a vossa casa”. Visto que “casa” aqui está no
singular, deve denotar a casa de Deus, que era o
templo (19:46-47). Havia sido a casa de Deus, mas
agora foi chamada de “vossa casa”, pois os judeus a
tornaram covil de salteadores.
Em 13:35 o Senhor diz também: “De modo
algum Me vereis até que venha o tempo em que
digais: Bendito o que vem em nome do Senhor!”.
Essa será a segunda vinda do Senhor, quando todo o
remanescente de Israel se converterá, crerá Nele e
será salvo (Rm 11:23,26).
Em 13:31-35 o Senhor se refere à Sua
ressurreição e à Sua volta. Quando voltar, Ele
introduzirá o jubileu. Bendito Aquele que vem em
nome do Senhor, Aquele que introduzirá o desfrute
do jubileu no milênio!
29
MENSAGEM TRINTA E UM

ESTUDO-VIDA DE LUCAS

MENSAGEM TRINTA E DOIS

O MINISTÉRIO DO SALVADOR-HOMEM
EM SUAS VIRTUDES HUMANAS
COM SEUS ATRIBUTOS DIVINOS
DA GALILEIA PARA JERUSALÉM
(10)
Leitura Bíblica: Lc 14:1-24

CUROU UM HOMEM HIDRÓPICO NO


SÁBADO
O capítulo catorze do Evangelho de Lucas
começa com outro incidente que aconteceu no
sábado. O versículo 1 diz: “Aconteceu que, ao entrar
Ele num sábado na casa de um dos chefes dos
fariseus para comer pão, eles O estavam, observando
atentamente”. Eles O observavam atentamente com a
intenção maligna de acusá-Lo (Me 3:2).
“E eis que estava ali diante Dele certo homem
hidrópico”. Hidropisia é urna enfermidade que faz o
corpo inchar por causa do acúmulo de líquido nas
cavidades e tecidos. Isso pode representar uma
anomalia nas funções vitais internas, que causa a
morte espiritual perante Deus.
Não sabemos se o homem com hidropisia entrou
na casa por vontade própria ou se os fariseus lhe
pediram que fizesse isso para tentar o Senhor. De
qualquer modo, foi pela soberania do Senhor que ele
estava presente. Os que estavam na casa do fariseu
300 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

observavam para ver o que o Senhor faria. Ele


perguntou aos doutores da lei e aos fariseus: “É lícito
curar no sábado, ou não?” (v. 3). Ele, então, tomou o
homem que sofria de hidropisia, curou-o e o
despediu (v. 4). Depois disso, disse-lhes: “Qual de vós,
se seu jumento ou seu boi cair num poço, não o tirará
imediatamente, mesmo em dia de sábado? A isso não
puderam responder” (vs. 5-6). Ao curar esse homem,
o Salvador-Homem outra vez quebrou os
regulamentos sabáticos distorcidos.

ENSINOU O CONVIDADO E O ANFITRIÃO


Em 14:1-6 vemos que o fariseu convidou o
Senhor Jesus para comer em sua casa, e o Senhor
aceitou o convite. É possível que os discípulos
tenham tido uma impressão errônea disso. Talvez
tenham pensado que os regulamentos sabáticos
estavam certos bem como a religião de guardar o
sábado. Por isso, nessa ocasião, o Senhor aproveitou
a oportunidade para quebrar os regulamentos
sabáticos, isto é, quebrar a religião de guardar o
sábado, a fim de impressionar os discípulos com o
fato de que Ele ia a Jerusalém, não para guardar a
religião ali, mas para pôr fim a ela. Esse é o motivo de
o capítulo catorze começar com uma seção sobre
quebrar os regulamentos religiosos. O Senhor fez isso
de propósito para mostrar aos discípulos que Ele não
ia a Jerusalém por causa da religião de guardar o
sábado.
Enquanto estava na casa do fariseu, o Senhor
Jesus observava que os fariseus e doutores da lei
“escolhiam os primeiros lugares” (v. 7), exaltando a si
mesmos, até mesmo na questão de comer. Por isso
disse-lhes uma parábola sobre não ocupar os
MENSAGEM TRINTA E DOIS 301

primeiros lugares quando convidado por alguém a


uma festa de casamento; pelo contrário, sentar- se no
último lugar (vs. 8-10). O Senhor enfatizou que, se
ocupamos os primeiros lugares, o que nos convidou
pode vir e dizer: “Dá o lugar a este”; então vamos,
envergonhados, ocupar o último lugar (v. 9). O
Senhor ainda disse que se nos sentarmos no último
lugar, quem nos convidou dirá: “Amigo, sobe mais
para cima”, e então teremos glória diante de todos
que estão à mesa conosco (v. 10). O Senhor conclui
essa parábola dizendo: “Pois todo o que a si mesmo
se exalta, será humilhado; e o que a si mesmo se
humilha, será exaltado” (v. 11). O ensinamento do
Senhor aqui é como o de um pai ensinando os filhos a
se comportar.
Nos versículos 12-14 o Senhor disse ao que O
convidara. “Quando deres um almoço ou uma ceia,
não convides teus amigos, nem teus irmãos, nem teus
parentes, nem vizinhos ricos, para não suceder que
eles, por sua vez, também te convidem e te seja isso
uma retribuição. Mas, quando deres um banquete,
convida os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos; e
serás bem- aventurado, por não terem com que te
retribuir; pois ser-te-á retribuído na ressurreição dos
justos”. Os pobres, aleijados, coxos e cegos,
mencionados no versículo 13, são as pessoas que
Deus convidou para Sua salvação (v. 21). A
ressurreição dos justos mencionada no versículo 14
se refere à ressurreição da vida (Jo 5:29; Ap 20:4-6),
quando Deus galardoará os santos (Ap 11:18) por
ocasião da volta do Senhor (1Co 4:5).

ENSINOU SOBRE ACEITAR O CONVITE DE


DEUS
302 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

Em 14:15-24 temos o ensinamento do Senhor


sobre aceitar o convite de Deus. “Ouvindo isso, um
dos que se reclinavam com Ele à mesa disse-lhe:
Bem-aventurado aquele que comer pão no reino de
Deus” (v. 15). Então o Senhor lhe disse: “Certo
homem estava dando uma grande ceia e convidou a
muitos. À hora da ceia enviou o seu servo para dizer
aos convidados: Vinde, porque tudo já está pronto”
(vs. 16-17). Essa grande ceia é diferente das bodas em
Mateus 22:2-14. As bodas visam o galardão do reino.
A ceia aqui é para a plena salvação de Deus. Como
“certo homem”, Deus preparou Sua plena salvação
como uma grande ceia e enviou os primeiros
apóstolos como Seus servos a convidar os judeus (vs.
16-17). Mas, visto que estavam ocupados com suas
riquezas terra, gado ou esposa recusaram Seu convite
(vs. 18-20). Então Deus enviou os apóstolos a
convidar as pessoas das ruas: os pobres, os aleijados,
os cegos e os coxos. Devido à pobreza e miséria deles,
aceitaram o convite de Deus (vs. 21-22a). Contudo na
salvação de Deus ainda havia lugar para mais gente;
assim, Ele enviou Seus servos para mais longe, ao
mundo gentio, representado pelos caminhos e sebes,
para obrigar os gentios a entrar na casa de Sua
salvação e enchê-la (vs. 22b-23; At 13:46-48; Rm
11:25).
Nessa parábola a intenção do Senhor era
permitir que os fariseus soubessem que Deus os
convidara à Sua grande festa, mas todos pediram
desculpas. Cada um deles rejeitou o convite de Deus.
Isso tomou necessário que Deus se dirigisse às
pessoas de classe baixa: pobres, aleijados, cegos e
coxos. Depois disso, como ainda havia espaço na
salvação de Deus, Ele enviou Seus servos ao mundo
MENSAGEM TRINTA E DOIS 303

gentio para ajuntar mais gente para Sua festa. Por


isso, por fim, os que haviam sido convidados por
Deus primeiro: os fariseus, os escribas e os doutores
da lei, não serão capazes de entrar no reino de Deus.
Essa parábola é excelente no tocante à salvação.
Simplesmente precisamos responder ao convite de
Deus. Para ser salvos, tudo o que precisamos fazer é
vir e receber o que Deus preparou para nós. Uma vez
que atendamos a Seu convite e aceitemos o que Ele
preparou para nós, seremos salvos.

SALVAÇÃO E GALARDÃO
A economia de Deus, entretanto, inclui mais do
que salvação. Também inclui o galardão de entrar na
bênção da era do reino. Assim, ser salvo é uma coisa
e receber o galardão do reino é outra. Esse é o motivo
do ensino do Senhor em 14:25-35.
Os versículos 25-26 dizem: “Grandes multidões
O acompanhavam, e Ele, voltando-se, lhes disse: Se
alguém vem a Mim, e não odeia ao próprio pai, e mãe,
e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs, e ainda, até a
sua própria vida da alma, não pode ser Meu
discípulo”. O tom aqui é bem diferente do de 14:15-
24. Para salvação não há necessidade de se fazer
coisa alguma, isto é, não há termos ou condições.
Basta atender ao convite de Deus e receber o que Ele
nos oferece, e somos salvos. Mas a economia de Deus
é mais do que simplesmente ser salvo. Depois de
salvos, precisamos entrar no reino vindouro para
receber o galardão. Por isso ser salvo pela graça é
uma coisa e ser galardoado de acordo com nosso
seguir ao Senhor é outra.
Todos, precisamos ver a diferença entre salvação
e galardão. E significativo que o capítulo catorze,
304 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

depois de uma introdução sobre quebrar os


regulamentos sabáticos, fale ainda sobre a salvação e
o galardão de Deus. A salvação de Deus visa a nosso
desfrute do jubileu hoje e Seu galardão visa a nosso
desfrute do jubileu na era vindoura.
Vimos que o jubileu do Novo Testamento tem
três estágios:1) na presente era, a era da graça; 2) na
era vindoura, a era do reino; 3) na eternidade, no
novo céu e nova terra. Desfrutá-lo hoje é questão de
salvação; entretanto desfrutá-lo na era vindoura é
questão de galardão. O desfrute do jubileu na
eternidade no novo céu e nova terra será o gozo pleno
da plena salvação de Deus.
MENSAGEM TRINTA E DOIS 305

DESFRUTAR CRISTO FIELMENTE


PARA RECEBER O GALARDÃO
Hoje todos que aceitam o convite de Deus e a
oferta do que Ele preparou para nós têm base para
participar do jubileu no Novo Testamento e desfrutar
Cristo nesta era. Mas, para receber o galardão do
jubileu na era vindoura, precisamos desfrutar Cristo
fielmente nesta era. Muitos salvos hoje não são fiéis
nisso. Por esse motivo, Deus estabeleceu um galardão
como incentivo para que desfrutemos Cristo
fielmente na presente era. Se não O desfrutarmos
fielmente hoje, perderemos Seu desfrute na era
vindoura. Aqui vemos que em Sua sabedoria Deus
tornou o desfrute de Cristo na era vindoura um
galardão para os fiéis, para os que O desfrutam
fielmente nesta era.
Os cristãos têm negligenciado diversas questões
importantes na economia neotestamentária de Deus;
uma delas é o galardão dado aos fiéis na era vindoura.
Os mais fundamentalistas enfatizam a salvação de
Deus, mas não prestam atenção a Seu galardão. Esse
galardão na era vindoura foi estabelecido por Deus
como incentivo para encorajar todos os crentes do
Senhor a desfrutá-Lo e segui-Lo fielmente nesta era.
Já enfatizamos que não há termos ou condições
para desfrutar Cristo nesta era. Uma vez que
tenhamos crido Nele, isto é, aceitado o convite e
oferta de Deus, podemos desfrutar Cristo hoje.
Porém precisamos desfrutá-Lo fielmente a fim de
receber o galardão na era vindoura do reino. Senão,
perderemos o desfrute de Cristo.
O reino será um galardão nos mil anos para os
fiéis desfrutadores de Cristo e também será um
306 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

jubileu. O jubileu de hoje é real, mas é somente um


antegozo, e não o gozo pleno. Deus nos apresentou
tal antegozo e precisamos ter isso em alta
consideração. Muitos judeus deram desculpas para
não aceitar o convite de Deus e negaram esse jubileu;
como resultado, não podem partilhar seu desfrute.
Porém nós, cristãos, aceitamos o convite e oferta de
Deus. Por isso estamos na base certa para desfrutar
esse jubileu. Ainda assim, precisamos ser fiéis em
desfrutá-lo; ou seja, fiéis em desfrutar Cristo.
Muitos crentes autênticos, cristãos de fato salvos,
não são fiéis em desfrutar Cristo. Eles perderão o
jubileu na era vindoura. Isso significa que perderão o
reino vindouro. Todos precisamos ver que o jubileu
de hoje é questão de salvação, na era vindoura é
questão de galardão e no novo céu e nova terra será
um gozo pleno da plena salvação de Deus.
De acordo com o Novo Testamento, o reino de
Deus hoje é Cristo como nosso desfrute. Esse
desfrute é o jubileu. O reino de Deus, que é o próprio
Cristo, libertou-nos do cativeiro do pecado, de
Satanás, do mundo e do ego; também restaurou
nosso direito à herança divina, o direito de desfrutar
o Deus Triúno em Cristo. Hoje, na salvação de Deus,
temos o direito de desfrutar Cristo, de desfrutar o
jubileu. Agora precisamos permanecer fiéis nesse
desfrute. Adequada e fielmente precisamos desfrutar
o Filho de Deus, que é o Cristo todo-inclusivo como o
Espírito todo- inclusivo. Esse fiel desfrute de Cristo
nos qualificará a entrar num jubileu mais pleno, que
será um galardão. Receber esse galardão exige o
cumprimento de uma condição, isto é, desfrutar
Cristo hoje fiel e continuamente.
No viver diário podemos falhar em desfrutar
MENSAGEM TRINTA E DOIS 307

Cristo. Se você falhar, simplesmente arrependa-se e


confesse sua falha, e o sangue de Jesus o purificará.
Você, então, será trazido de volta ao desfrute
apropriado de Cristo. Podemos precisar fazer isso
várias vezes, cada vez que falharmos. Ao se deitar à
noite, você pode sentir as falhas do dia. Se, porém,
confessá-las, terá um novo começo acerca do desfrute
de Cristo.
Todos os dias devemos ter o exercício de nos
manter no desfrute fiel de Cristo. Na verdade, isso é
manter-nos em Deus, sendo introduzidos Nele por
meio da oração. É também manter-nos no reino de
Deus para o desfrute de Cristo nesta era. Esse
desfrute, então, nos qualificará para entrar no reino
vindouro, que será um jubileu mais pleno como
galardão para os fiéis do Senhor.

ESTUDO-VIDA DE LUCAS

MENSAGEM TRINTA E TRÊS


O MINISTÉRIO DO SALVADOR-HOMEM EM
SUAS VIRTUDES HUMANAS COM SEUS
ATRIBUTOS DIVINOS
DA GALILEIA PARA JERUSALÉM
(11)
Leitura Bíblica: Lc 14:25-35

Lucas 14 nos mostra a salvação de Deus, que nos


traz o desfrute do jubileu nesta era. Então esse
capítulo prossegue revelando as exigências para o
desfrute do jubileu na era vindoura, isto é, as
exigências para entrar no reino no milênio. Como
308 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

veremos, a palavra do Senhor sobre isso em 14:25-35


é categórica.

ODIAR A VIDA DA ALMA


Lucas 14:25-26 diz: “Grandes multidões O
acompanhavam, e Ele, voltando-se, lhes disse: Se
alguém vem a Mim, e não odeia ao próprio pai, e mãe,
e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs, e, ainda, até a
sua própria vida da alma, não pode ser Meu
discípulo”. Nos versículos 26-33 o Senhor desvendou
às multidões que O acompanhavam o custo de segui-
Lo. Receber a salvação é ser salvo (13:23); seguir o
Senhor é desfrutá-Lo como a bênção da salvação de
Deus. Isso requer que renunciemos a tudo, até
mesmo à nossa vida, e carreguemos a própria cruz
(vs. 27, 33).
Podemos pensar que o Senhor Jesus nos ensina
somente a amar. Mas no versículo 26 Ele nos ensina
a odiar. Isso não é religião; trata-se da economia
divina. De acordo com a palavra do Senhor aqui,
devemos odiar os que amamos, e não os que não
amamos. Precisamos odiar principalmente a nós
mesmos, até a própria vida da alma.
A principal coisa que amamos em nós mesmos
não é o espírito ou corpo, mas a alma. Por exemplo,
você pode ir a um restaurante, não porque ama seu
corpo, mas porque ama sua alma e quer gozar a vida,
que é desfrutar a alma. Na verdade, todas as formas
de diversão, entretenimento e prazeres visam ao
desfrute da alma. Em 14:26 o Senhor claramente diz
que, se não odiarmos a vida da alma, não poderemos
ser Seus discípulos. Recebemos a salvação de Deus,
mas precisamos cumprir a exigência no versículo 26
a fim de receber o galardão.
30
MENSAGEM TRINTA E TRÊS

CARREGAR A CRUZ
No versículo 27 o Senhor prossegue: “Qualquer
que não carrega a sua própria cruz e vem após Mim,
não pode ser Meu discípulo”. O objetivo da cruz não é
sofrimento, mas dar fim à pessoa. Os crentes em
Cristo foram crucificados (levados à morte)
juntamente com Ele (Gl 2:20; Rm 6:6). Após ter-se
unido organicamente a Ele por meio da fé, devem
permanecer na cruz, mantendo o velho homem sob
seu aniquilar (Rm 6:3; CI 2:20). Isso é carregar a
própria cruz. Cristo primeiro carregou a cruz e,
depois, foi crucificado (Jo 19:17-18). Mas os crentes
são primeiro crucificados e, depois, carregam a cruz,
para permanecer na morte do velho homem,
experimentando e desfrutando, assim, Cristo como
sua vida e suprimento de vida.
Precisamos ser impressionados com o fato de
que carregar a própria cruz significa permanecer nela
e manter o velho homem no aniquilamento da cruz.
Cristo já nos crucificou. Como crentes, nós O
recebemos e fomos organicamente unidos a Ele. Uma
vez unidos organicamente a Cristo, certamente
podemos participar de Sua crucificação. Quando
permanecemos nessa crucificação, ou aniquilação,
carregamos a própria cruz e experimentamos e
desfrutamos Cristo como nosso jubileu.

DERRAMAR O QUE TEMOS PARA SEGUIR O


SENHOR
Nos versículos 28-30 o Senhor prossegue: “Pois,
qual de vós, querendo construir uma torre, não se
assenta primeiro e calcula a despesa, para ver se tem
com que a acabar? Para não suceder que, tendo
310 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

lançado o alicerce e não a podendo acabar, todos os


que a virem comecem a zombar dele, dizendo: Este
homem começou a construir e não pôde acabar”. O
que Ele falou aqui e no versículo 31 indica que, para
cumprir a trajetória de segui-Lo, devemos entregar
tudo o que temos e podemos fazer; doutra forma,
seremos um fracasso, tomando-nos o sal insípido e
sendo jogados fora da esfera gloriosa numa esfera de
vergonha (vs. 34-35).
Não devemos pensar que seguir o Senhor Jesus
seja insignificante. Segui-Lo deve ser uma carreira
pela vida inteira. Como nossa carreira, seguir o
Senhor exige que entreguemos tudo o que temos e
tudo o que podemos fazer.
Nos versículos 31-32 o Senhor diz: “Ou qual é o
rei que, indo entrar em guerra contra outro rei, não
se assenta primeiro e delibera se com dez mil é capaz
de sair ao encontro do que vem contra ele com vinte
mil? Caso contrário, estando o outro ainda longe,
envia-lhe uma embaixada e pede as condições de
paz”. Essa ilustração também está relacionada com o
custo de seguir o Senhor. Ao segui-Lo, precisamos
derramar tudo o que temos.
No versículo 33 o Senhor diz: “Assim, pois, todo
aquele dentre vós que não renuncia a todos os seus
bens, não pode ser Meu discípulo”. O problema não é
quanto temos, mas é que, ao seguir o Senhor,
precisamos entregar tudo o que temos. A fim de ser
Seus discípulos, precisamos renunciar a todas as
posses.

TORNAR-SE INSÍPIDO
E SER LANÇADO FORA DO REINO DE DEUS
Em 14:34-35 o Senhor prossegue falando do sal:
31
MENSAGEM TRINTA E TRÊS

“Portanto, bom é o sal; mas se até o sal de tomar


insípido, com que será temperado? Nem presta para
a terra, nem para o monturo; lançam-no fora. Quem
tem ouvidos para ouvir, ouça”. Por natureza, o sal é
um elemento que mata e elimina os germes da
corrupção. Para a terra corrompida, os seguidores do
Senhor Jesus devem ser esse elemento, preservando-
a de ser totalmente corrompida.
O Senhor indica que é possível o sal tomar-se
insípido. Quando os seguidores do Senhor tomam-se
insípidos, perdem a função de salgar. Tomam-se
iguais às pessoas terrenas, indistinguíveis dos
incrédulos.
Os crentes em Cristo são o sal da terra usado por
Deus para matar e eliminar a corrupção que há nela.
O sabor deles depende da renúncia às coisas terrenas.
Quanto mais renunciarem a elas, mais forte será seu
sabor. Perderão o sabor se não estiverem dispostos a
renunciar a todas as coisas da vida presente. Se isso
acontecer, não mais servirão para a terra, que
representa a igreja como a lavoura de Deus (1Co 3:9),
que resultará no reino vindouro (Ap 11:15), nem para
o monturo, que representa o inferno, o lugar imundo
do universo (Ap 21:8,22:15). Serão lançados fora do
reino de Deus, especialmente da glória do reino no
milênio. Serão salvos da perdição eterna, mas, devido
ao fracasso em renunciar às coisas terrenas, perderão
a função no reino de Deus, não servindo assim para o
reino vindouro e precisando ser colocados de lado
para ser disciplinados.
Já enfatizamos que a “terra” se refere à igreja
como lavoura de Deus, resultando no reino vindouro,
e o monturo representa o inferno. Se os crentes
perderem o poder de salgar, não estarão adequados
312 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

para o solo da vida da igreja hoje. Mais ainda, não


estarão adequados para o reino vindouro. Por isso
serão lançados fora do reino de Deus no milênio.
O capítulo catorze começa com o incidente de
quebrar os velhos regulamentos religiosos (vs. 1-6).
Em 14:15-24 temos o ensinamento do Senhor sobre a
salvação de Deus. Salvação é receber o convite de
Deus e aceitar tudo o que Ele oferece. Depois de
salvos, precisamos manter-nos no desfrute de Cristo
adequada e fielmente.

ODIAR O QUE NOS IMPEDE


DE PARTICIPAR DO DESFRUTE DE CRISTO
Em 14:25-35 temos o ensinamento do Senhor
sobre como segui-Lo. De acordo com Sua palavra no
versículo 26, precisamos odiar tudo e todos que nos
estorvem ou impeçam de desfrutar Cristo
adequadamente. Não é Sua intenção ensinar-nos a
odiar alguém. Pelo contrário, é ensinar-nos a odiar os
estorvos e obstáculos, odiar tudo o que nos distrai ou
impede de desfrutar Cristo. O Senhor, é claro,
ensina-nos a amar os outros. Não devemos amar só
os membros da família, mas até os inimigos. De fato,
também precisamos amar a nós mesmos. Por isso o
Senhor nos ensina a amar todos.
Por que, então, no versículo 26, Ele
aparentemente nos ensina a odiar pai, mãe, esposa,
filhos, irmãos, irmãs e até a nós mesmos? O motivo é
que esse amor sempre nos estorva de desfrutar Cristo
adequada e fielmente. O que devemos odiar é o
estorvo, e não as pessoas. O Senhor não nos ensina a
odiar as pessoas, mas as distrações, estorvos,
empecilhos e obstáculos. Ele nos ensina a odiar tudo
o que nos impede de segui-Lo fielmente. Se não
31
MENSAGEM TRINTA E TRÊS

tivermos ódio pelo que estorva nosso desfrute de


Cristo, seremos desqualificados para desfrutar o
jubileu na era vindoura.

UM GALARDÃO AOS CRENTES FIÉIS


Não devemos seguir os ensinamentos
açucarados comuns entre os cristãos de hoje, que nos
dizem que, uma vez que cremos no Senhor Jesus, não
teremos mais problema algum. Sem dúvida a
salvação do Senhor é eterna, completa e perfeita.
Uma vez salvos, somos salvos eternamente. Quanto à
salvação eterna, não temos nenhum problema.
Entretanto, na economia de Deus, há uma inserção
em Sua salvação eterna e perfeita, que é o período de
mil anos do reino vindouro como galardão para os
crentes fiéis. Em Sua sabedoria, Deus inseriu esse
período dispensacional de mil anos como incentivo
para encorajar Seus filhos a desfrutar Cristo
fielmente. Ele quer que fielmente desfrutemos o que
Ele ricamente preparou para nós em Cristo.
Como nosso Pai sabe que Seus filhos podem ser
“peraltas” e não desfrutar fielmente Cristo, Ele
preparou um incentivo e galardão como parte de Sua
plena salvação. O galardão do reino milenar na era
vindoura deve ser um incentivo para encorajar-nos,
advertir-nos e lembrar-nos de nos manter no
desfrute de Cristo hoje e “nos comportar” nesse
desfrute. Senão, seremos disciplinados. Isso não quer
dizer que pereceremos, que estaremos perdidos. Uma
vez salvos eternamente, não pereceremos. Porém
alguns filhos do Pai precisarão sofrer disciplina na
era vindoura. Eles não deixarão de ser Seus filhos. É
claro que continuarão a ser filhos do Pai, mas serão
filhos com necessidade de discipl ina. A questão da
314 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

disciplina dispensacional de Deus sobre Seus filhos é


claramente ensinada no Novo Testamento.

TRÊS LUGARES
Muitos cristãos não viram que em 14:35 há três
lugares: a terra, o monturo e o lugar onde é atirado o
sal que não presta para a terra nem para o monturo.
Alguém de fato salvo, contudo não fiel em desfrutar
Cristo, não presta para a terra nem para o monturo.
Onde, então, ele estará? De acordo com a palavra do
Senhor, será lançado fora, isto é, posto de lado ou
fora. Nesse capítulo, o Senhor Jesus não dá todos os
detalhes que são encontrados em outros lugares no
Novo Testamento. Todavia está claro que o sal que se
tomou insípido e não presta para a terra nem para o
monturo será lançado fora num terceiro lugar.
Vimos que a terra representa a lavoura de Deus,
que é a igreja, e a igreja resultará no reino vindouro.
O monturo, o lugar mais imundo do universo,
representa o inferno, o lago de fogo. Com certeza,
nenhuma pessoa salva é adequada para esse lugar.
Mas para qual lugar você será adequado quando o
Senhor voltar? Certamente não será adequado para o
inferno, o monturo, porque o sangue do Senhor o
lavou e você foi salvo. Você estará, então, preparado
para o reino? Sua consciência talvez não lhe permita
dizer que sim. Se for essa sua situação, você não está
preparado nem para o inferno nem para o reino. Isso
significa que você se encaixa num terceiro lugar, um
lugar de disciplina. Isso é clara e precisamente
ensinado aqui pela palavra do Senhor.
Somos sal e devemos manter nosso sabor e
salgar esse mundo corrompido. Onde quer que
estivermos, devemos matar e eliminar a corrupção do
31
MENSAGEM TRINTA E TRÊS

mundo. Entretanto é possível que percamos o sabor


salgador. Se for essa nossa situação, quando o Senhor
Jesus voltar, onde ficaremos? Não prestaremos para
o reino nem para o inferno. O sal que não presta para
a terra nem para o monturo será atirado fora da
glória do reino vindouro. “Quem tem ouvidos para
ouvir, ouça” (v. 35b).
A palavra do Senhor em Lucas 14 revela
claramente que, além da salvação de Deus, há um
galardão no reino vindouro. A salvação é para nosso
desfrute hoje; o galardão é para a era vindoura. Não
há condições para se receber a salvação, mas há uma
exigência para se receber o galardão: desfrutar Cristo
fielmente nesta era a qualquer custo. Senão,
estaremos desqualificados para o galardão. Podemos
estar no jubileu hoje, mas, se não cumprirmos as
exigências estabelecidas pelo Senhor, perderemos o
jubileu na era vindoura. Precisamos ser cuidadosos
com relação a isso.
O elemento intrínseco de Lucas 14 é o jubileu,
que nada tem a ver com a antiga religião; pelo
contrário, ele quebra os regulamentos da religião.
Depois, o jubileu exige que aceitemos o convite de
Deus e tomemos o que Ele nos oferece para ser salvos
a fim de desfrutar Seu rico Cristo. Agora precisamos
ser fiéis para desfrutar Cristo hoje, senão seremos
desqualificados de desfrutar o jubileu vindouro, que
será um galardão no reino milenar.

ESTUDO-VIDA DE LUCAS
MENSAGEM TRINTA E QUATRO
o MINISTÉRIO DO SALVADOR-HOMEM
316 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

EM SUAS VIRTUDES HUMANAS


COM SEUS ATRIBUTOS DIVINOS
DA GALILEIA PARA JERUSALÉM
(12)
Leitura Bíblica: Lc 15:1-32

Em 9:51-19:27 temos um registro do Salvador-


Homem indo da Galileia para Jerusalém. O Senhor ia
a Jerusalém para morrer a fim de, por meio da morte
e ressurreição, introduzir o jubileu. A caminho de
Jerusalém” Ele encontrou estorvos por parte dos
religiosos, principalmente dos fariseus e doutores da
lei. Muitos casos ocorridos no caminho da Galileia
para Jerusalém estão relacionados com o estorvo
causado pelos religiosos. Os casos em Lucas 14, por
exemplo, dizem respeito aos fariseus. No capítulo
quinze a situação permanece a mesma, embora o
Senhor tivesse lidado com os conceitos obscuros e os
arrazoamentos desconexos dos fariseus.

A TRINDADE DESCRITA NAS TRÊS


PARÁBOLAS
Lucas 15:1-2 diz: “Ora, aproximaram-se Dele
todos os cobradores de impostos e pecadores para O
ouvir. E murmuravam os fariseus e os escribas,
dizendo: Este acolhe pecadores e come com eles”. Os
cobradores de impostos e pecadores eram gratos ao
Salvador-Homem e aproximavam- se Dele, mas os
religiosos ficavam aborrecidos com isso e
murmuravam porque Ele acolhia pecadores e comia
com eles. Foi devido a esse murmúrio que o Senhor
contou as três parábolas no capítulo quinze (v. 3).
Ao responder aos fariseus e escribas, que eram
31
MENSAGEM TRINTA E QUATRO

justos aos próprios olhos e O condenavam por comer


com pecadores, o Salvador falou três parábolas,
desvendando e descrevendo a maneira como a
Trindade Divina trabalha para conduzir os pecadores,
por meio do Filho e do Espírito, de volta ao Pai. O
Filho veio em Sua humanidade como o Pastor em
busca do pecador, representado pela ovelha perdida,
para levá-lo para casa (vs. 4-7). O Espírito busca o
pecador, como a mulher procura diligentemente a
moeda (dracma) perdida até encontrá-la (vs. 8-10). E
o Pai recebe o pecador arrependido que regressa ao
lar, como o homem da parábola recebe de volta o
filho pródigo (vs. 11-32). Toda a Trindade Divina tem
o pecador em altíssima conta e participa da obra de
trazê-lo de volta a Deus. As três parábolas enfatizam
o amor da Trindade divina mais do que a condição
caída e o arrependimento do pecador penitente. O
amor divino é plenamente expresso no cuidado terno
do Filho como o bom pastor, na busca refinada do
Espírito como alguém que ama coisas de valor e na
recepção calorosa do Pai como um pai amoroso.
Quando jovem, ouvi muito sobre como o pai
amoroso recebeu o filho pródigo. Também ouvi a
respeito do bom pastor, mas jamais foi enfatizado
para mim que nessas três parábolas podemos ver a
Trindade, com cada parábola referindo-se a um da
Trindade. O pastor claramente se refere ao Filho, a
mulher refere-se ao Espírito e o pai refere-se ao Pai
celestial. Por isso nessas parábolas os Três da
Trindade estão claramente descritos.
A sequência da Trindade em Lucas 15 é diferente
da de Mateus 28:19, em que vemos o Pai, o Filho e o
Espírito Santo. Em Lucas primeiro temos o Filho
(representado pelo pastor), depois o Espírito
318 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

(representado pela mulher) e, por fim, o Pai


(representado pelo pai que acolheu o filho que
retomou). Por isso em Lucas 15 a sequência começa
com o Filho, prossegue para o Espírito e leva ao Pai.
Essa sequência é exatamente a mesma que é
encontrada em Efésios 2:18: “Porque, por Ele, ambos
temos acesso ao Pai em um Espírito”. Segundo esse
versículo, nosso acesso primeiro é no Filho e depois
por meio do Espírito. Por meio do Filho e no Espírito,
temos acesso ao Pai. Esse é nosso acesso ao Deus
Triúno, por meio do Filho, no Espírito e para o Pai.
É importante compreender por que o Filho é
mencionado primeiro em Lucas 15. O motivo é que,
na Salvação de Deus, quem vem, de modo prático, é o
Filho. O Filho vem realizar a redenção, que é a
primeira necessidade, pois é o fundamento de nossa
salvação. A redenção cumprida pela morte de Cristo
na cruz é a base da salvação de Deus. Uma vez posto
o fundamento, podemos edificar sobre ele. A fim de
realizar a redenção, o Filho, retratado em Lucas 15
como o bom pastor, vem primeiro.
Agora que o Filho cumpriu a redenção, o
Espírito vem encontrar-nos. O livro de Atos indica
isso. Nos evangelhos o Filho veio para cumprir a
redenção. Depois disso, vemos pelo livro de Atos que
o Espírito vem para nos buscar e encontrar. Visto que
o Espírito nos encontra, nós nos arrependemos e
voltamos para Deus Pai. Então, de acordo com a
terceira parábola em Lucas 15, o Pai aguarda que
voltemos.
Que sequência maravilhosa temos em Lucas 15!
A sequência aqui não é de acordo com as Pessoas da
Trindade, mas de acordo com os passos da salvação
de Deus, baseada na redenção de Cristo. A salvação
31
MENSAGEM TRINTA E QUATRO

de Deus é pelo Filho, por meio do Espírito e para o


Pai.

A PARÁBOLA DO BOM PASTOR


Lucas 15:4 diz: “Qual, dentre vós, é o homem que,
possuindo cem ovelhas e perdendo uma delas, não
deixa no deserto as noventa e nove e vai em busca da
que se perdeu, até encontrá-la?”. O “deserto”
representa o mundo. O fato de o pastor ir ao deserto
buscar a ovelha perdida indica que o Filho veio ao
mundo para estar com os homens (Jo 1:14).
Lucas 15:5 prossegue: “E achando-a, põe-na
sobre os ombros, cheio de alegria. E, chegando em
casa, convoca ao amigos e vizinhos, dizendo-lhes:
Alegrai-vos comigo, porque achei a minha ovelha que
se havia perdido”. Vemos aqui a força salvadora do
Salvador e o Seu amor salvador.

A PARÁBOLA DA MULHER QUE BUSCAVA


Em 15:8 o Senhor prossegue: “Ou qual é a
mulher que, tendo dez dracmas, se perder uma
dracma, não acende uma lâmpada, varre a casa e
procura cuidadosamente até encontrá-la?”. A
“dracma” (assim também no v. 9) valia quase o
mesmo que o denário romano. Uma dracma
equivalia ao salário de um dia de trabalho.
A lâmpada representa a palavra de Deus (SI
119:105, 130), usada pelo Espírito para iluminar e
expor a posição e condição do pecador para que ele se
arrependa.
De acordo com o versículo 8, a mulher varre a
casa e procura cuidadosamente até encontrar a
moeda perdida. A palavra “varrer” visa a buscar e
320 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

purificar o interior de um pecador. No versículo 4 a


busca do Filho ocorreu fora do pecador e completou-
se na cruz por meio de Sua morte redentora; aqui a
procura do Espírito é interior e é levada a cabo por
Sua obra no interior do pecador arrependido.
Os versículos 9-10 dizem: “E achando-a, convoca
as amigas e vizinhas, dizendo: Alegrai-vos comigo,
porque achei a dracma que eu tinha perdido. Assim,
digo-vos, há alegria diante dos anjos de Deus por um
pecador que se arrepende”. No versículo 9 as
palavras gregas “amigas” e “vizinhas” são femininas,
diferentes de amigos e vizinhos no versículo 6, que
são masculinas.

A PARÁBOLA DE UM PAI AMOROSO


Em 15:11-32 temos a parábola de um pai
amoroso. Os versículos 11-12 dizem: “Certo homem
tinha dois filhos. O mais moço deles disse ao pai: Pai,
dá-me a parte que me cabe dos bens. E ele lhes
repartiu o seu sustento”. A palavra “parte” que lhe
cabia dos bens se refere à herança que lhe pertencia
por nascimento. A frase “o seu sustento” se refere aos
meios de sustento do pai, à subsistência, aos recursos
do pai (v. 30). O termo grego “sustento” é bios (vida).
Essa palavra denota o estado presente de existência,
como em 8:14, e, por extensão, subsistência, como
aqui e em Marcos 12:44.
O versículo 13 continua: “Passados não muitos
dias, o filho mais moço, ajuntando tudo, partiu para
uma terra distante, e lá dissipou os seus bens,
vivendo dissolutamente”. A “terra distante”
representa o mundo satânico. Literalmente a palavra
grega traduzida por “dissolutamente” significa sem
salvação, indicando um viver devasso, libertino.
32
MENSAGEM TRINTA E QUATRO

Os versículos 14-15 dizem: “Depois de ter


gastado tudo, sobreveio àquela terra uma grande
fome, e ele começou a passar necessidade. Então ele
foi e se agregou a um dos cidadãos daquela terra, e
este o mandou para os seus campos a apascentar
porcos”. Os porcos são animais imundos (Lv. 11:7).
Apascentar porcos é um trabalho sujo; representa os
negócios imundos do mundo satânico.
O versículo 16 diz: “Desejava ele fartar-se das
alfarrobas que os porcos comiam, mas ninguém lhe
dava nada”. Em vez de “fartar-se”, alguns
manuscritos escrevem “encher seu estômago”. O filho
mais moço desejava fartar-se com alfarrobas.
Alfarrobeira é uma árvore perene. Sua vagem, a
alfarroba, era usada como forragem para alimentar
animais e pessoas carentes. Um ditado rabínico
interessante diz que “quando os israelitas são
reduzidos a vagens de alfarrobeira, então se
arrependem”. A tradição ensina que João Batista
alimentava-se de alfarrobas no deserto; daí serem
chamadas de “pão de São João”.
O versículo 17 nos conta que “caindo em si,
disse: Quantos empregados de meu pai têm pão com
fartura, e eu aqui pereço de fome!”. Isso é devido à
iluminação e à busca do Espírito (v. 8) dentro dele.
De acordo com o versículo 18, o pródigo
prosseguiu: “Levantar-me-ei e irei ter com meu pai e
lhe direi: Pai, pequei contra o céu e diante de ti”. A
decisão de levantar-se e ir ter com seu pai foi o
resultado da busca do Espírito no versículo 8. A
parábola do Senhor aqui implica que, quando um
pecador peca, ele o faz contra o céu e diante de Deus
pai, que está no céu.
No versículo 19 vemos que o pródigo tencionava
322 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

dizer ao pai: “Já não sou digno de ser chamado teu


filho; trata- me como um dos teus empregados”. Isso
indica que não conhecia o amor do pai. Uma vez
arrependido, um pecador caído sempre pensa em
trabalhar para Deus ou em servi- Lo para obter Seu
favor, desconhecendo que essa ideia é contrária ao
amor e à graça de Deus, e é um insulto a Seu coração
e intenção.
O versículo 20 diz: “E, levantando-se, foi para
seu pai. Estando ele ainda longe, seu pai o avistou e
moveu-se de compaixão, e, correndo, lançou-se-lhe
ao pescoço e o beijou afetuosamente”. Isso não
aconteceu por acaso; o pai saiu da casa para esperar a
volta do filho pródigo.
Quando viu o filho, o pai correu para ele, lançou-
se a seu pescoço e beijou-o afetuosamente. Isso
indica que Deus Pai corre para receber o pecador que
volta. Que anseio isso demonstra! O pai lançando-se
ao pescoço do filho e beijando-o afetuosamente
mostra uma acolhida calorosa e amorosa. A volta do
filho pródigo para o Pai foi devida à busca do Espírito
(v. 8); o Pai recebeu o filho que voltou, baseado no
fato de o Filho tê-lo encontrado em Sua redenção.
Os versículos 21-22Continuam: “E o filho lhe
disse: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não
sou digno de ser chamado teu filho. O pai, porém,
disse aos seus servos: Trazei depressa a melhor roupa
e vesti-o com ela, e ponde- lhe um anel na mão e
sandálias nos pés”. O versículo 22Começa com
“porém”. Que palavra de amor e graça! Contrapôs-se
ao pensamento do filho pródigo e pôs fim à sua
conversa absurda.
O pai disse aos escravos que depressa lhe
trouxessem a melhor roupa e o vestissem. A palavra
32
MENSAGEM TRINTA E QUATRO

“depressa” é condizente com o fato de o pai ter


corrido (v. 20). O artigo definido a indica uma roupa
específica, preparada para esse propósito específico
nessa hora específica. Literalmente a palavra grega
traduzi da por “melhor” significa primeira. A melhor
roupa representa Cristo, o Filho, como a justiça que
satisfaz a Deus e reveste o pecador penitente (Jr
23:6; 1Co 1:30; Fp 3:9; cf. 1s 61:10; Zc 3:4). A melhor
roupa, que também era a primeira, substituiu os
trapos (Is 64:6) do filho pródigo que retomara.
Segundo o versículo 22, o pai também disse aos
servos que lhe pusessem um anel na mão e sandálias
nos pés. Esse anel representa o Espírito selador,
como o selo aplicado por Deus sobre o crente quando
esse é aceito por Ele (Ef 1:13; cf. Gn 24:47; 41:42). As
sandálias representam o poder da salvação de Deus,
que separa os crentes da terra suja. O anel e as
sandálias eram sinais de um homem livre. O adorno
(a roupa sobre o corpo, o anel na mão e as sandálias
nos pés) permitia ao pobre filho pródigo estar à
altura de seu pai rico e o qualificava para entrar na
casa do pai e banquetear-se com ele. A salvação de
Deus nos adorna com Cristo e com o Espírito, para
que desfrutemos as riquezas de Sua casa.
No versículo 23, o pai prossegue dizendo aos
servos: “Trazei também o novilho cevado e matai-o;
comamos e regozijemo-nos”. O novilho cevado
representa o rico Cristo (Ef 3:8), morto na cruz para
o desfrute dos crentes.
A salvação de Deus possui dois aspectos: o
exterior, objetivo, representado pela melhor roupa, e
o interior, subjetivo, representado pelo novilho
cevado. Como nossa justiça, Cristo é nossa salvação
exteriormente; como nossa vida, para nosso desfrute,
324 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

Ele é a nossa salvação interiormente. A melhor roupa


capacitou o filho pródigo a preencher as exigências
do pai e a satisfazê-la, e o novilho cevado saciou a
fome do filho. Portanto pai e filho puderam alegrar-
se juntos.
No versículo 24 o pai explica: “Porque este meu
filho estava morto e reviveu; estava perdido e foi
achado. E começaram a regozijar-se”. A palavra
“morto” aqui é significativa. Todos os pecadores
perdidos estão mortos aos olhos de Deus (Ef2:1,5).
Quando são salvos, são vivificados (105:24-25;
C12:13).
Lucas 15:25-32 descreve a conversa na parábola
entre o pai e o filho mais velho. O versículo 25 nos diz
que “seu filho mais velho estava no campo”. O filho
mais velho simboliza os fariseus e os escribas (v. 2) e
representa os judeus incrédulos, que buscam a lei da
justiça (Rm 9:31, 32) por meio de sua obra,
representada pela expressão no campo.
Nos versículos 29-30 o filho mais velho disse ao
pai: “Eis que tantos anos te sirvo como escravo, e
jamais transgredi um mandamento teu, e nunca me
deste um cabrito para regozijar-me com os meus
amigos; vindo, porém, esse teu filho, que devorou o
teu sustento com meretrizes, tu mataste para ele o
novilho cevado”. O verbo grego traduzido por
“transgredir” no versículo 29 também pode ser
traduzido como “negligenciar”. O verbo “servir” nesse
versículo denota escravidão debaixo da lei (Gl 5:1).
Nos versículos 31-32 temos a resposta do pai ao
filho mais velho: “Filho, tu sempre está comigo, e
tudo o que é meu é teu. Mas era preciso que nos
regozijássemos e nos alegrássemos, porque esse teu
irmão estava morto e reviveu; estava perdido e foi
32
MENSAGEM TRINTA E QUATRO

achado”. No versículo 32 o pai novamente diz que o


pródigo estava morto e agora estava vivo, enfatizando
que, quando os pecadores perdidos são salvos, eles
são vivificados.

ESTUDO-VIDA DE LUCAS
MENSAGEM TRINTA E CINCO

O MINISTÉRIO DO SALVADOR-HOMEM
EM SUAS VIRTUDES HUMANAS
COM SEUS ATRIBUTOS DIVINOS
DA GALILEIA PARA JERUSALÉM
(13)
Leitura Bíblica: Lc 15:1-32

Vimos que, ao responder aos fariseus e escribas,


considerados justos aos próprios olhos, que
condenavam o Salvador por comer com pecadores
(15:1-2), o Senhor falou três parábolas, desvendando
como a Trindade divina opera para conduzir de volta
os pecadores, por meio do Filho, pelo Espírito, ao Pai.
Em 15:4-7, o Filho, representado pelo Pastor, vai ao
deserto buscar a ovelha perdida. Em 15:8-10, temos o
Espírito, representado pela mulher acendendo uma
lâmpada, que varre a casa e procura cuidadosamente
uma moeda perdida. A “casa” no versículo 8 se refere
ao nosso ser. O Espírito entra em nós, que somos a
casa, para iluminar-nos. Por fim, em 15:11-32, o Pai
recebe o filho pródigo que voltou.

A CASA DO PAI
Na parábola do pai amoroso, o pai devia estar à
porta de casa quando viu o filho aproximar-se (v. 20).
326 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

Ele o viu enquanto “estava ainda longe”. Isso não


poderia ter acontecido se ele estivesse dentro de casa.
Por isso ele tinha de estar do lado de fora da casa
procurando o filho. Por fim, pai e filho entraram de
novo em casa.
Lucas 15:25 se refere à casa do pai. Que
representa a casa do pai aqui? Os cristãos podem
interpretá-la como uma mansão celestial. De acordo
com essa interpretação, quando um pecador se
arrepende e volta para Deus, um dia Deus o receberá
na mansão celestial. Essa compreensão não é lógica.
Não é lógico dizer que voltamos ao Pai e Ele nos
recebeu, mas ainda não estamos em Sua casa. Onde
então estamos? Lucas indica nessa parábola que o
filho pródigo foi recebido na casa logo depois de ter
retomado, e na casa havia um lugar para preparar
comida e para jantar.
Com certeza a casa do pai na parábola não se
refere ao céu. Se essa casa representa o céu, então
onde estamos nós, que fomos salvos e fomos
recebidos pelo Pai, uma vez que ainda não estamos
no céu? Na verdade, a casa do pai aqui deve
representar a igreja. No capítulo dez a igreja é
tipificada pela hospedaria. Agora, no capítulo quinze,
a igreja é a casa do pai. Essa compreensão é lógica e
bíblica.
Na parábola do pai amoroso, não há intervalo
entre a volta do filho pródigo e o pai recebendo-o em
casa. A sequência imediata da volta do filho é que o
pai o recebeu em casa. Por isso, nessas três parábolas,
o Filho foi ao deserto, o Espírito entrou em nosso ser
e o Pai nos recebe em casa.

COMO O PASTOR VEIO BUSCAR-NOS


32
MENSAGEM TRINTA E CINCO

Que é o deserto ao qual o Filho, como Pastor, foi


buscar a ovelha perdida? O deserto representa o
mundo. Aos olhos de Deus, o mundo é um deserto,
um lugar ermo, desolado, onde é fácil se perder. O
Filho veio ao deserto buscar a nós, as ovelhas
perdidas.
Agora precisamos perguntar de que modo o
Filho, simbolizado pelo Pastor, veio buscar-nos. Em
contraste com o Espírito, representado pela mulher
com a lâmpada, o Filho não nos procura iluminando-
nos. Seu modo de buscar-nos é morrer por nós. Em
João 10:11 Ele diz: “Eu sou o bom pastor; o bom
pastor dá a vida pelas ovelhas”. A obra do Pastor é
morrer por nós. Se não tivesse morrido por nós, Ele
não teria como buscar-nos. Seu modo de buscar- nos
é morrer por nós.

A OBRA DO ESPÍRITO DE NOS ILUMINAR


Conforme indica a parábola da mulher que
procurava a moeda, a obra do Espírito é iluminar-nos
interiormente. Como essa mulher, o Espírito ilumina
nosso ser interior pouco a pouco, de maneira
cuidadosa. Ele nos ilumina a mente, depois a emoção
e a vontade e, por fim, a consciência e todo o coração.
É dessa forma que o Espírito nos “encontra”.
Como resultado de o Espírito encontrar-nos
iluminando- nos, nós despertamos, caímos em nós
mesmos e percebemos quão tolo é ficar onde estamos.
Não somos nós que nos despertamos; antes, somos
despertados pela iluminação do Espírito que nos
procura. A procura, iluminação e encontro do
Espírito não ocorrem no deserto nem na cruz, mas
em nosso coração. Isso resulta em arrependimento,
que é a mudança de parecer a qual produz mudança
328 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

no curso de nossa vida.


O fato de o Espírito encontrar-nos na “casa” de
nosso ser revela que estávamos perdidos em nós
mesmos. Estávamos perdidos na mente, vontade e
emoção. Não estávamos apenas perdidos no deserto;
estávamos perdidos em nós mesmos. Cristo morreu
na cruz para trazer-nos de volta do deserto do mundo,
contudo permanecemos perdidos em nós mesmos.
Por isso o Espírito nos encontra em nós mesmos.
Podemos testificar isso pela experiência. Quando o
Espírito iluminou nossa mente, vontade, emoção,
consciência e coração, começamos a nos arrepender.
Esse arrependimento resultante da iluminação
do Espírito é totalmente interior. Nenhum ser
humano ou anjo é capaz de fazer essa obra subjetiva
em nós. Ela só pode ser feita pelo Espírito vindo às
profundezas de nosso ser para iluminar-nos e expor-
nos. Então percebemos quão tolos somos,
arrependemo-nos e decidimos voltar para o Pai.
Como enfatizamos, o Pai esperava por nós do lado de
fora da casa. A fim de encontrá-Lo, era necessário
que fôssemos à Sua casa.

O PAI ACOLHEU O FILHO PRÓDIGO QUE


VOLTOU
Se lermos com cuidado a parábola do pai
amoroso, veremos que, enquanto o filho pródigo
ainda esbanjava as riquezas do pai, este esperava
pela volta dele. Quando o filho caiu em si e decidiu
voltar ao pai, preparou o que ia dizer-lhe: “Pai,
pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de
ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus
empregados” (15:18-19). Que você diria ao pai se
fosse o filho pródigo nessa parábola? Talvez dissesse
32
MENSAGEM TRINTA E CINCO

a si mesmo: “Estou voltando para a casa de meu pai.


Mas que direi e que farei ao chegar lá? Será que devo
bater à porta? Devo gritar: 'Pai, voltei para casa'?
Sinto- me envergonhado e tolo por ter esbanjado
tudo que me deu. Não suporto lembrar-me do modo
que tenho vivido. Tenho certeza de que ele não me
espera do lado de fora. Provavelmente estará em casa
descansando e desfrutando
a vida. Tudo é muito bom para ele, mas não para
mim. Oh! que farei quando chegar em casa?”.
Para grande surpresa do filho pródigo “estando
ele ainda longe, seu pai o avistou e moveu-se de
compaixão, e, correndo, lançou-se-lhe ao pescoço e o
beijou afetuosamente” (v. 20). Talvez o pródigo
dissesse para si mesmo: “É como um sonho! Não
chamei nem bati à porta, mas meu pai vem correndo
até mim. Agora ele me abraça e me beija!”.

A ROUPA, O ANEL, AS SANDÁLIAS


E O NOVILHO CEVADO
O filho pródigo que voltou logo disse ao pai: “Pai,
pequei contra o céu e diante de ti; já não digno de ser
chamado teu filho” (v. 21). Entretanto, enquanto ele
ainda falava, o pai o interrompeu e disse aos servos:
“Trazei depressa a melhor roupa e vesti-o com ela, e
ponde-lhe um anel na mão e sandálias nos pés; trazei
também o novilho cevado e matai-o; comamos e
regozijemo-nos, porque este meu filho estava morto e
reviveu; estava perdido e foi achado” (vs. 22-24).
O pai disse aos servos que rapidamente
trouxessem a melhor roupa e vestissem o filho com
ela. Eles deviam fazê-lo “depressa” a fim de condizer
com a urgência do pai em acolher o filho. O artigo
definido “a” indica que, antes de o filho voltar, o pai
330 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

já tinha preparado uma roupa especial para ele, e os


servos sabiam qual era essa melhor roupa. Por isso
ele lhes disse que trouxessem a melhor roupa e com
ela vestissem seu filho.
Quando voltou para casa, o filho era um
mendigo vestindo trapos, mas, depois que a melhor
roupa lhe foi dada, ele foi restaurado com veste
esplêndida preparada especialmente para ele. Com
essa roupa, ele estava qualificado para estar à altura
do pai.
A melhor roupa posta no filho é uma
prefiguração plena de Cristo como nossa justiça, no
qual somos justificados diante de Deus. Assim, vestir
o pródigo que retomou com a melhor roupa
representa a justificação em Cristo. Tendo Cristo
como a melhor roupa, somos justificados por Deus.
O pai também disse aos servos que pusessem um
anel na mão de seu filho. Creio que era um anel de
ouro. Esse anel tipifica o Espírito que sela, dado ao
pecador que retoma (Ef 1:13). É sinal de que um
pecador arrependido recebe algo divino: o próprio
Espírito de Deus. O anel representando o Espírito
que sela indica que o pródigo que retoma pertence ao
Pai. Também indica que tudo o que o Pai tem como
herança pertence ao filho que retomou.
Em 15:22, vemos que as sandálias também
foram postas nos pés do filho que voltou. Sandálias
separam os pés da sujeira da terra e fortalecem a
pessoa para caminhar. As sandálias postas nos pés do
filho significam que a salvação de Deus nos separa do
mundo para Ele, para que então tomemos Seu
caminho.
Com a roupa, o anel e as sandálias, o filho que
retomou estava plenamente vestido e adomado. Isso
33
MENSAGEM TRINTA E CINCO

quer dizer que fora totalmente justificado e


qualificado e podia ser aceito na casa do pai. Então o
pai disse aos servos que trouxessem o bezerro cevado
e o matassem para seu desfrute. Até aqui, vemos
Cristo como justiça para justificar um pecador
arrependido exteriormente, o Espírito como o selo e
o poder da salvação de Deus separando um pecador
arrependido do mundo. Agora vemos que Cristo é
também o bezerro cevado para encher-nos da vida
divina para nosso desfrute. O pai, o filho que
retomou e todos os outros podiam festejar com o
bezerro cevado. Assim, “começaram a regozijar-se”.
Nessa parábola, vemos que a salvação de Deus
possui dois aspectos: o exterior e o interior. O
aspecto exterior é Cristo como nossa justiça para
justificar-nos, e o interior é Cristo como nossa vida e
suprimento de vida para satisfazer- nos. Depois de
voltar ao pai, o filho pródigo desfrutou todas as
riquezas da provisão divina em Sua salvação. Ele
desfrutou Cristo como sua justiça exterior, desfrutou
o Espírito como selo indicando que pertencia ao Pai e
que o Pai e toda a Sua riqueza pertenciam a ele,
desfrutou o poder da salvação de Deus separando-o
do mundo e também desfrutou o Cristo interior, o
Cristo que é sua vida e suprimento de vida. Por isso
pôde tomar-se alguém muito feliz. Com seu pai, ele
pôde comer e alegrar-se. Que quadro agradável!

UM QUADRO DOS QUE ESTÃO NA


RELIGIÃO
Em 15:25-32 temos um quadro triste: dos que
estão na religião. O filho mais velho nessa parábola
retrata os fariseus e escribas. Em 15:3 o Senhor falou
essas parábolas aos fariseus e escribas na presença de
332 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

cobradores de impostos e pecadores. Os religiosos


devem ter ficado tristes, mas os cobradores de
impostos e pecadores típicos devem ter ficado cheios
de júbilo. Talvez tenham dito: “Louvado seja o
Senhor porque agora estou feliz! Exteriormente estou
justificado e interiormente estou satisfeito”. Os
fariseus e escribas, porém, queixaram-se de que a
situação retratada nessas parábolas não era
apropriada. Somos gratos ao Senhor, pois em Sua
misericórdia não somos fariseus. Somos pecadores
arrependidos que aprenderam a ser felizes e alegres
no Senhor mediante a rica salvação de Deus.
Nos quatro evangelhos, somente em Lucas 15
temos um quadro sobre a salvação de Deus operada
pela Trindade divina. De acordo com esse quadro,
primeiro, o Filho veio cumprir a redenção na cruz;
segundo, o Espírito entra para nos iluminar e
encontrar; e por fim, o Pai espera por nós, pronto
para nos receber, justificar, selar, fortalecer e
satisfazer, a fim de fazer de nós os que alegremente O
desfrutam em Cristo por meio do Espírito. Esse é um
quadro da plena salvação.
Enquanto estava no caminho da Galileia para
Jerusalém, o Senhor Jesus tinha ambiente adequado
e excelente oportunidade de apresentar um quadro
da salvação de Deus para que os pecadores
arrependidos soubessem quão abençoados eram e os
religiosos vissem quão tolos eram. Em Lucas 15
vemos que os pecadores são abençoados, ao passo
que os religiosos dissidentes permanecem em sua
insensatez.

A HOSPEDARIA E A CASA
Louvado seja o Senhor porque recebemos Cristo
33
MENSAGEM TRINTA E CINCO

como nossa justiça, o Espírito como selo, a salvação


como poder separador e fortalecedor e Cristo como
nossa vida interior e provisão de vida! Agora já não
estamos no deserto nem na “casa” do ego, mas na
casa do Pai, a igreja.
A palavra “igreja” não é mencionada no
Evangelho de Lucas, mas em pelo menos duas
parábolas há indícios dela. Na parábola do bom
samaritano, registrada no capítulo dez, a “hospedaria”
representa a igreja. Na parábola do pai amoroso,
registrada no capítulo quinze, a casa do pai
representa a igreja. Enquanto estamos na jornada, a
igreja é uma hospedaria onde podemos ficar
temporariamente; em outro sentido, a igreja não é
uma hospedaria: é uma casa, nossa e de nosso Pai.
A parábola do pai amoroso indica que os
pecadores não devem ser salvos longe da igreja. Os
que são salvos fora da igreja e permanecem fora dela
podem não ser frutos permanentes.
Às vezes, a parábola do pai e do pródigo que
voltou é apresentada de tal maneira que o filho é
retratado como se ajoelhando diante do pai. Isso não
é preciso. Não há indício nesse capítulo de que o filho
se tenha ajoelhado diante do pai. Lucas, antes,
apresenta o pai abraçando o filho e beijando-o
afetuosamente.
A parábola do pai amoroso é sobremodo rica.
Você alguma vez percebeu que nela a igreja está
incluída? Aqui vemos a igreja como a casa do Pai à
qual podemos ir e onde podemos ficar.

O DESFRUTE DO JUBILEU
Nessas mensagens temos enfatizado que tudo no
Evangelho de Lucas, a partir do capítulo quatro, está
334 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

relacionado com o jubileu, direta ou indiretamente.


Isso também se aplica às parábolas no capítulo
quinze. O desfrute experimentado pelo filho pródigo
que voltou era, na verdade, o desfrute do jubileu. O
anel em sua mão representando o Espírito que sela
enfatiza a restauração do direito de primogenitura, o
direito de desfrutar o Deus Triúno. O anel e as
sandálias são sinais de um homem livre, alguém
libertado do cativeiro, da escravidão e da servidão.
Do lado negativo, o pródigo é libertado do cativeiro;
do lado positivo, ele passa a desfrutar as riquezas da
herança do Pai. Quando juntamos esses itens, temos
um quadro do verdadeiro jubileu.

ESTUDO-VIDA DE LUCAS

MENSAGEM TRINTA E SEIS


O MINISTÉRIO DO SALVADOR-HOMEM
EM SUAS VIRTUDES HUMANAS
COM SEUS ATRIBUTOS DIVINOS
DA GALILEIA PARA JERUSALÉM
(14)
Leitura Bíblica: Lc 16:1-13
O capítulo dezesseis de Lucas é, na verdade,
continuação do quinze. Isso é provado
categoricamente pelo fato de a primeira palavra no
primeiro versículo ser “e”. Essa conjunção denota
continuidade, principalmente quando é usada no
início de um capítulo.

SERVIR AO SENHOR COMO MORDO MOS


No capítulo anterior o Senhor falou três
parábolas com relação à salvação de um pecador.
33
MENSAGEM TRINTA E SEIS

Neste Ele continuou com urna parábola mais, com


respeito ao serviço dos crentes. Após um pecador
tomar-se crente, ele precisa servir ao Senhor corno
servo prudente.
Em Lucas 15 a plena salvação cumprida pela
Trindade divina “é claramente apresentada, mas,
depois disso, o Senhor Jesus não pára Seu discurso;
antes, prossegue dando aos fariseus outra parábola,
na qual não vemos salvação, mas a prudência de um
mordomo. Isso indica que, depois de recebidos na
casa de Deus, devemos tornar-nos mordomos.
Éramos pecadores, fomos salvos e nos tornamos
filhos de Deus. Agora, como tais, como salvos na casa
de Deus, devemos ser mordomos que O servem em
Sua casa. Isso quer dizer que devemos servi-Lo na
igreja.
Em Lucas vemos que, sempre que o Senhor
Jesus fala de salvação, Ele também revela algo sobre
o serviço. Por exemplo, a parábola do bom
samaritano no capítulo dez retrata a graça do
Salvador-Homem em Suas virtudes humanas
expressando Seus atributos divinos. Logo depois
temos o caso de Marta e Maria, que mostra como
precisamos servir o Senhor de acordo com Seu desejo
e preferência. O princípio é o mesmo em Lucas 14.
Primeiro, o Senhor nos fala sobre um convite feito
por Deus para uma grande ceia. Isso representa Sua
salvação. Depois disso, temos o ensinamento do
Senhor com relação a segui-Lo e ao preço de
renunciar todas as coisas terrenas de modo que os
seguidores bons e fiéis entrem no jubileu vindouro.
Esse ensinamento também se relaciona com serviço.
Então, depois de uma completa apresentação da
plena salvação de Deus no capítulo quinze, o Senhor
336 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

nos dá uma parábola no dezesseis mostrando-nos


que, depois de salvos, precisamos servir a Deus em
Sua casa como mordomos.

ENSINOU A SER MORDOMOS PRUDENTES


A parábola sobre a prudência de um mordomo é
simples e breve, todavia contém um tópico
intrigante: o Senhor usa um mordomo injusto para
ilustrar o serviço de um mordomo na casa de Deus.
Como veremos, isso não quer dizer que o Senhor nos
ensine a ser injustos enquanto servimos. O
importante aqui é a prudência do mordomo.
O versículo 1 diz: “Disse Jesus também aos
discípulos: Havia certo homem rico que tinha um
mordomo; e este foi acusado perante ele de estar
dissipando os seus bens”. O mordomo aqui ilustra
como os crentes, salvos pelo amor e graça do Deus
Triúno, são os mordomos do Senhor (12:42; 1Co 4:1-
2; 1Pe 4:10), a quem Ele confiou Seus bens.
Os versículos 2-3 continuam: “E, chamando-o,
disse: Que é isso que ouço a teu respeito? Presta
contas do teu mordomado, porque já não podes ser
meu mordomo. Disse o mordomo consigo mesmo:
Que farei, pois que o meu senhor me tira o
mordomado? Para cavar, não tenho forças; de
mendigar, tenho vergonha”. Aqui o mordomo diz que
não é forte bastante para cavar, como um fazendeiro
que cava no campo, e tem vergonha de pedir, como
mendigo que implora auxílio. No capítulo 4 o
mordomo disse consigo: “Eu sei o que farei, para que,
quando for removido do mordomado, me recebam
em suas casas”. Receber em casa aqui significa ser
recebido nos tabernáculos eternos (v. 9).
Os versículos 5-7 dizem: “Tendo chamado a si
33
MENSAGEM TRINTA E SEIS

cada um dos devedores do seu senhor, disse ao


primeiro: Quanto deves ao meu senhor? Respondeu
ele: Cem batos de azeite. Então disse-lhe: Toma a tua
conta, assenta-te depressa e escreve cinquenta.
Depois perguntou a outro: E tu, quanto deves?
Respondeu ele: Cem coros de trigo. Disse-lhe: Toma
a tua conta e escreve oitenta”. Nesses versículos
vemos que o mordomo despedido, enquanto ainda
estava na casa, aproveitou a oportunidade para fazer
algo para os outros a fim de que mais tarde eles
pudessem fazer alguma coisa por ele. Essa foi a
prudência do mordomo.
Sobre a prudência do mordomo, o versículo 8
diz: “E elogiou o senhor o mordomo injusto por ter
agido com prudência; porque os filhos deste século
são mais prudentes para com a sua própria geração
do que os filhos da luz”. Literalmente “mordomo
injusto” significa “mordomo de injustiça”. Entretanto
o elogio aqui não é pelo ato injusto do mordomo, mas
é por sua prudência.
No versículo 8 o Senhor Jesus explica que os
filhos desta era são mais prudentes do que os filhos
da luz em sua geração. “Os filhos desta era” são os
não salvos, as pessoas mundanas. “Os filhos da luz”
são os salvos, os crentes (Jo 12:36; 1Ts 5:5; Ef 5:8). A
frase “para com a sua própria geração” se refere aos
relacionamentos com as pessoas da mesma geração.
Aqui o Senhor certamente não nos ensina a ser
injustos, mas a ser prudentes, isto é, a fazer coisas na
hora certa, para aproveitar a oportunidade que está à
mão.

FAZER AMIGOS
POR MEIO DO MAMOM DA INJUSTIÇA
338 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

No versículo 9 o Senhor prossegue: “E Eu vos


digo: Fazei para vós amigos por meio das riquezas da
injustiça, para que, quando estas vos faltarem, vos
recebam eles nos tabernáculos eternos”. Fazer
amigos por meio das riquezas, ou literalmente
mamam (VRC), é ajudar os outros pelo uso do
dinheiro para fazer coisas de acordo com a orientação
de Deus.
Mamom, isto é, dinheiro, pertence ao mundo
satânico. O mordomo na parábola usou de prudência
em seu ato injusto. O Senhor ensina a nós, Seus
crentes, a também usar de prudência no emprego do
mamam injusto.
A frase “as riquezas da injustiça” indica que o
dinheiro não está no reino de Deus. Dinheiro é alheio
a Seu reino; está no mundo de Satanás. Por isso
dinheiro é injusto tanto em posição como em
existência. Na verdade, no tocante a Deus, o dinheiro
não deve existir. No universo não deveria haver tal
coisa como dinheiro. Se o amarmos, amaremos algo
que não deveria existir.
No versículo 9 o Senhor diz que, se fizermos
amigos por meio do mamam da injustiça, quando ele
faltar, seremos recebidos nos tabernáculos eternos. A
palavra “faltar” indica que, após o mundo satânico
acabar, o dinheiro não terá mais nenhuma utilidade
no reino de Deus. Os tabernáculos eternos são as
habitações eternas nas quais os crentes prudentes
serão recebidos pelos que partilharam o benefício de
sua prudência. Isso se cumprirá na era vindoura do
reino (Lc 14:13-14; Mt 10:42).

FIEL NO MAMOM INJUSTO


No versículo 10 o Senhor continua: “Quem é fiel
33
MENSAGEM TRINTA E SEIS

no mínimo, também é fiel no muito; e quem é injusto


no mínimo, também é injusto no muito”. A palavra
“mínimo” refere-se às riquezas, os bens desta era; a
palavra “muito” se refere aos ricos bens da era
vindoura (cf. Mt 25:21,23). No versículo 11 o Senhor
diz: “Se, pois, não vos tornastes fiéis nas riquezas
injustas, quem vos confiará o que é verdadeiro?”. A
expressão “o verdadeiro” refere-se aos bens
verdadeiros na era vindoura do reino (cf. Mt 24:47).
No versículo 12 o Senhor prossegue: “E se não
vos tornaste fiéis no alheio, quem vos dará o que é
vosso?”. Em Sua economia neotestamentária, Deus
não deseja que Seus crentes se preocupem com bens
materiais. Embora as coisas materiais deste mundo
tenham sido criadas por Deus e pertençam a Ele (1 Cr
29:14,16), elas foram corrompidas pela queda do
homem (Rm 8:20- 21) e usurpadas por Satanás, o
maligno (1Jo 5:19); portanto pertencem ao homem
caído e são injustas (v. 9). Deus usa as coisas
malignas desta era para preencher duas finalidades:
primeiro, suprir os crentes de suas necessidades
diárias (Mt 6:31-33) e, segundo, pôr os crentes, a
quem considera Seus mordomos, à prova nesta era,
entregando-lhes parte desses bens para que
aprendam a exercer seu mordomado. No entanto
nenhum desses bens deve ser considerado deles até a
restauração de todas as coisas na próxima era (At
3:21). Só então é que os crentes herdarão o mundo
(Rm 4:13) e terão possessões permanentes (Hb
10:34) para si mesmos. Nesta era, devem exercitar-se
em ser fiéis nas coisas materiais temporárias que
Deus lhes deu para aprender a ser fiéis com relação à
possessão eterna na era vindoura.
O versículo 13 continua: “Nenhum servo
340 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

doméstico pode servir a dois senhores; porque ou


odiará a um e amará o outro, ou se apegará a um e
desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e às
riquezas”. Nesse versículo a palavra grega para
“servir” significa “servir como escravo”. O Senhor
indica que servi- Lo requer que O amemos, dando-
Lhe nosso coração, e nos apeguemos a Ele, dando-
Lhe todo o nosso ser. Desse modo somos libertos da
ocupação e usurpação de mamam, para servir total e
plenamente ao Senhor. O Senhor enfatiza aqui que,
para servi-Lo, precisamos vencer as riquezas
sedutoras e enganosas da injustiça.
Em 16:13 vemos que mamam (as riquezas) é
rival de Deus, competindo com Ele. Por ser rival de
Deus, mamam é maligno. De nossa parte, não
podemos servir a dois senhores. Ou servimos a Deus
ou a mamam. Isso é muito sério.
A palavra do Senhor sobre dinheiro foi dirigida
especialmente aos fariseus, que amavam o dinheiro
(v. 14). Eles fingiam amar a Deus e ser por Ele, mas o
Senhor bem sabia que eles não amavam a Deus, e sim
ao dinheiro.

O JUBILEU, O REINO, O EVANGELHO


E O SALVADOR-HOMEM
Enquanto o Senhor Jesus estava a caminho de
Jerusalém, alguns dos fariseus saíram a Seu encontro.
Muito do que Ele fez e disse então visava aos fariseus.
O registro disso é uma característica específica de
Lucas. O registro em Marcos e Mateus é um pouco
diferente. Em seu evangelho, Lucas escreve com o
objetivo de mostrar o conflito ocorrido a caminho de
Jerusalém entre o Senhor e os fariseus que foram a
Seu encontro. Nos capítulos 14-16 a palavra do
34
MENSAGEM TRINTA E SEIS

Senhor é endereçada aos fariseus.


Nesses capítulos a palavra do Senhor é baseada
no jubileu proclamado no capítulo quatro. Vimos que
o jubileu é revelado em dois aspectos: nesta era e na
era por vir. Em outras palavras, o Senhor se refere
tanto ao jubileu atual como ao da era vindoura. O
atual é o jubileu da graça, mas, na era vindoura, será
o jubileu do reino.
O jubileu nesta era e na por vir é, na verdade, o
reino de Deus. Além disso, o reino de Deus é o
próprio Salvador-Homem. O jubileu é também o
evangelho. De acordo com Marcos e principalmente
com Lucas, o evangelho é o reino de Deus. O reino de
Deus é o Salvador-Homem, Aquele que é todo-
inclusivo vindo em Sua posição de Deus e de homem,
com os atributos divinos expressos em Suas virtudes
humanas, para Se plantar como semente. No Estudo-
Vida de Marcos, enfatizamos que a semente do reino
em Marcos 4 pode ser chamada de gene do reino. O
Senhor Jesus plantou-Se como semente, ou gene, do
reino de Deus. Seu objetivo é que a semente plantada
nos que a receberam cresça e se desenvolva
tomando-se um reino. Esse é o autêntico reino de
Deus. Esse reino é o evangelho que nos livra de todo
cativeiro e restaura o direito à herança perdida de
desfrutar Deus em Cristo por meio do Espírito. Esse é
o jubileu.
Precisamos ficar impressionados com o fato de
que em Lucas, o evangelho, o reino de Deus, o
Salvador-Homem e o jubileu são na verdade
sinônimos e se referem ao mesmo item: que sejamos
livres do cativeiro e experimentemos a restauração
da herança divina. Esse é o jubileu, o evangelho, o
reino de Deus e também o próprio Salvador-Homem.
342 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

O elemento básico do que o Senhor falou no


caminho da Galileia para Jerusalém é o jubileu, que é
também o princípio governante de Seu ensinamento.
Tudo em 9:51- 19:27 está relacionado com o jubileu.
Se não virmos que o jubileu é o elemento básico
e o princípio governante nos capítulos 9-19, não
teremos a chave que nos capacita a compreender
esses capítulos adequada e plenamente; antes, nossa
compreensão pode ser fragmentada, isto é, podemos
entender um pedaço aqui e outro lá, mas não esses
capítulos como um todo. Podemos comparar essa
seção de Lucas com um quebra-cabeça. Somente
usando a chave para abrir cada capítulo é que somos
capazes de juntar as peças e ver o quadro todo, um
quadro a retratar o jubileu.

O MORDOMADO E O LIDAR COM DINHEIRO


Em Lucas 15 vemos a salvação cumprida pela
Trindade divina. A salvação de Deus resulta no
mordomado. Como salvos, devemos agora servir
nosso Deus salvador como mordomos. Um mordomo
é útil numa família. Isso indica que, depois de salvos,
devemos servir a Deus na igreja, que é Sua casa na
terra hoje, como bons mordomos.
De acordo com Lucas 16, nosso mordomado tem
muito a ver com o lidar com o dinheiro. Em certo
sentido, todos somos “banqueiros” que lidam com
dinheiro todos os dias. Diariamente você pode
refletir sobre quanto dinheiro você tem em mãos.
Como ilustração de como as pessoas estão
ocupadas com dinheiro, deixem-me contar-1hes uma
história de certo negociante a quem foi solicitado
orar depois do sermão do pastor. O homem ficou
grandemente surpreso e não pôde escapar. Em sua
34
MENSAGEM TRINTA E SEIS

oração, ele de repente proferiu algo sobre uma


quantia de dinheiro. Enquanto orava, ele sem querer
falou sobre dinheiro. Esse é o cumprimento da
palavra do Senhor de que “da abundância do coração
fala a boca” (Mt 12:34). Tudo o que enche o coração
por fim sairá pela boca.
Quando você ouve sobre esse negociante, pode
pensar que nunca seria assim. Entretanto não é
verdade que você pensa muito sobre dinheiro? Até
nas reuniões da igreja você pode estar preocupado
com dinheiro, talvez ponderando quanto há na conta
corrente ou na poupança. Lidar com dinheiro é com
certeza muito importante.
O mundo satânico não poderia existir sem
dinheiro. Se não houvesse dinheiro, o mundo
cessaria de existir e o reino de Deus viria. Quando o
dinheiro desaparecer, o reino virá.
O Senhor Jesus com certeza conhece o segredo
nas profundezas de nosso ser. Esse segredo profundo
é mamom, o dinheiro. O Senhor não só conhece esse
segredo em nós, mas sabe como tocar nosso
problema sobre isso. Sobre dinheiro, todos podemos
ser como os fariseus. Por isso, em 16:1-13, o Senhor
nos ensina a ser prudentes ao lidar com dinheiro. Ele
nos ensina a aproveitar a oportunidade de usar o
mamam injusto com prudência.
Está chegando a hora em que faltará o dinheiro,
o mamam da injustiça. Isso quer dizer que haverá
uma hora em que o dinheiro será inútil. Creio que
essa hora será no milênio. A Bíblia não nos diz
explicitamente que o dinheiro não terá mais uso no
milênio. Contudo, como resultado de meu estudo do
milênio nas Escrituras, creio que essa será a situação.
Depois de estudar o milênio de acordo com Isaías, os
344 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

evangelhos, Atos, as epístolas de Paulo e Apocalipse,


eu diria com certeza que, quando o milênio vier, o
dinheiro não mais estará em uso. O mundo hoje é o
sistema de Satanás e o dinheiro pertence a esse
sistema satânico, mas, quando vier o milênio, esse
sistema terá fim e será substituído pelo reino de Deus.
O dinheiro, então, não mais terá lugar na sociedade
humana.
Alguns podem pensar que haverá um longo
tempo antes de o milênio vir e o dinheiro ficar inútil,
mas você alguma vez pensou que, quando alguém
morre, seu dinheiro se torna inútil para ele? Na hora
da morte, a relação de uma pessoa com o dinheiro
está terminada. Alguns podem ter muito dinheiro,
mas tudo lhe será inútil quando morrer.

USAR O DINHEIRO PARA BENEFÍCIO DOS


OUTROS
Menciono isso para enfatizar que precisamos
aproveitar a oportunidade de usar o dinheiro
prudentemente para benefício de outros. Tente usá-
lo para benefício dos outros, para que, quando ele
estiver fora de uso, os outros façam algo por você.
Em 16:9 o Senhor diz: “Fazei para vós amigos
por meio das riquezas da injustiça, para que, quando
estas vos faltarem, vos recebam eles nos tabernáculos
eternos”. Isso indica que os que foram beneficiados
pela utilização adequada do dinheiro nos darão as
boas-vindas nos tabernáculos eternos. Isso será na
era vindoura do reino. Quando o Senhor Jesus voltar
e formos recebidos em Seu reino, alguns de nós
teremos certas pessoas dando-nos as boas-vindas.
Quem serão? Serão os que receberam algum
benefício nesta era por meio de nossa prudência ao
34
MENSAGEM TRINTA E SEIS

usar as riquezas.
Deixem-me dar uma ilustração simples disso.
Suponha que você use parte de seus bens para
publicar folhetos de evangelho com o objetivo de
levar pessoas ao Senhor. Os que forem beneficiados
por isso irão dar-lhe as boas-vindas no futuro. Talvez
digam: “Irmão, quero que perceba que fomos salvos
por meio de um dos folhetos pagos por você”. Esse é
um exemplo de ser recebido nas habitações eternas
pelos que partilham do benefício de nossa prudência.
Na parábola em Lucas 16 o mordomo injusto
aproveitou a oportunidade, enquanto ainda estava na
casa, para ajudar os devedores de seu senhor
reduzindo seus débitos (vs. 4-7). Ele aproveitou para
usar o dinheiro em benefício dos outros. No mesmo
princípio, enquanto ainda estamos a caminho do
reino, devemos usar o dinheiro em benefício de
outros. Não devemos usá-lo para nós mesmos, para
nosso luxo, recreação, prazeres ou regalos. Antes,
devemos usá-lo em benefício dos outros. Há muita
necessidade e há muito que podemos fazer que será
de benefício para outros. Isso é ser prudente,
servindo o Senhor.
Não podemos servir o Senhor fielmente sem usar
o dinheiro para o propósito correto e na hora certa.
Se dissermos que servimos ao Senhor, mas usarmos
o dinheiro de forma errada, não seremos honestos. A
primeira coisa que um mordomo honesto fará é lidar
com o dinheiro adequada e prudentemente.
Ao estudar inglês quando jovem, li um artigo de
Benjamim Franklin que dizia respeito a dinheiro, no
qual Franklin disse que é fácil ganhar dinheiro, mas
muito difícil gastá-lo, Fiquei surpreso com a palavra
dele, porque eu pensava que era difícil ganhar
346 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

dinheiro e fácil gastá-lo. Depois de ler esse artigo,


porém, fiquei convencido de que é fácil ganhar
dinheiro, mas é difícil gastá-lo de modo correto. É
difícil gastá-lo de forma que não prejudique a nós
mesmos, aos outros ou à sociedade. Considere
quanto prejuízo é causado à sociedade por ricos que
gastam dinheiro da forma errada. Se usassem o
dinheiro apropriadamente, os ricos beneficiariam a
todos na sociedade. Sem dúvida, para servir o Senhor
corno mordomos, precisamos lidar com o dinheiro
corretamente.
Alguns dizem: “Não sou rico, por isso não tenho
problemas com a maneira de gastar o dinheiro”.
Todavia você pode ainda ter problema com o
dinheiro que tem. Embora não seja rico, precisa
aprender a lidar com sua renda.

DAR FIELMENTE
Corno alguém que tem servido ao Senhor e às
igrejas por mais de meio século, posso testificar que
qualquer grupo cristão cujos membros dão fiel e
coerentemente dez por cento de sua renda tem
dinheiro em abundância. As estatísticas sobre as
finanças da igreja provam isso. Certos grupos exigem
que seus membros empenhem dez por cento de sua
renda e esses grupos sempre têm dinheiro em
abundância. O importante aqui não é fazer exigência
legal de dar dez por cento da renda, mas é que
aqueles que fielmente dão o dízimo nunca terão falta
de dinheiro.
Quero encorajar os jovens especificamente a
aprender a dar parte de sua renda ao Senhor. Jovens,
vocês devem começar isso logo após a formatura,
quando passarem a trabalhar. Deem urna porção do
34
MENSAGEM TRINTA E SEIS

primeiro salário que receberem ao Senhor. Posso


testificar que essa foi minha prática quando jovem.
Assim que ganhei dinheiro pela primeira vez, ainda
corno estudante pobre, pus à parte urna porção para
o Senhor. Talvez alguns nunca tenham refletido
sobre isso. Por isso encorajo todos os santos,
especialmente os jovens, a dar ao Senhor parte do
dinheiro que ganharem. Se fizermos isso,
aprenderemos a lidar com o dinheiro
apropriadamente.
Os que dão ao Senhor, fiel e coerentemente,
podem testificar que, quanto mais dão, mais recebem.
Para nós, cristãos, ser rico é dar A maneira de receber
é dar. O próprio Senhor disse: “Dai, e dar-se-vos-á;
boa medida, reca1cada, sacudida, transbordante, no
vosso regaço vos darão; porque com a medida com
que medirdes medir-se-vos-á em troca” (6:38). Aqui
vemos claramente que dar é a maneira de receber.
Quando uma igreja está em pobreza, isso é
vergonha para os membros. Essa pobreza pode
indicar que eles não são fiéis em ofertar. Que todos
aprendamos a servir ao Senhor corno mordomos fiéis
ao lidar com o dinheiro.
Encorajo-o a manter um registro do que oferta.
Durante o ano, mantenha um registro de tudo o que
ofertou. Então, no fim do ano, veja a porcentagem
que ofertou ao Senhor do que recebeu Dele. Estimulo
todos a praticar isso
De acordo com as estatísticas que tenho
estudado e os testemunhos que tenho ouvido, quanto
mais ofertamos ao Senhor, mais somos capazes de
ofertar. Por exemplo, se você ofertar dez por cento
num ano, no ano seguinte pode ser capaz de ofertar
vinte por cento. Então, se for fiel em ofertar urna
348 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

quantia maior, será capaz de ofertar até mais no ano


seguinte. O importante é que, quanto mais
ofertarmos, mais seremos capazes de ofertar.
Quando alguns ouvem essa palavra sobre
fidelidade e oferta, podem dizer que não têm fé o
bastante para dar coerentemente. Na verdade, não se
trata de fé, e sim de prática; e nossa prática é baseada
na fé do Senhor em Sua fidelidade.

ESTUDO-VIDA DE LUCAS

MENSAGEM TRINTA E SETE


O MINISTÉRIO DO SALVADOR-HOMEM
EM SUAS VIRTUDES HUMANAS
COM SEUS ATRIBUTOS DIVINOS
DA GALILEIA PARA JERUSALÉM
(15)
Leitura Bíblica: Lc 16:14-31

Nesta mensagem vamos considerar 16:14-31,


trecho do Evangelho de Lucas que aborda dois itens:
o ensinamento sobre entrar no reino de Deus (vs. 14-
18) e uma advertência aos ricos (vs. 19-31).

ENSINAMENTO SOBRE A ENTRADA


NO REINO DE DEUS
Vimos que, em 16:1-13, o Senhor ensina sobre a
prudência de um mordomo, em especial sobre a
prudência em lidar corretamente com o dinheiro. O
Senhor falou essa palavra de propósito para tocar os
fariseus, e Sua palavra foi como uma flecha que os
penetrou.
34
MENSAGEM TRINTA E SETE

“Os fariseus, que eram amantes do dinheiro,


ouviam tudo isso e zombavam Dele” (v. 14). O verbo
grego traduzido por “zombar” literalmente significa
“torcer o nariz”. A palavra do Senhor penetrou nas
profundezas de seu ser, mas, em vez de ser
convencidos por elas, eles zombaram Dele.
No versículo 15 o Senhor prosseguiu dizendo aos
fariseus: “Vós sois os que vos justificais a vós mesmos
diante dos homens, mas Deus conhece os vossos
corações; pois o que é elevado entre os homens é
abominação diante de Deus”. O fato de os fariseus se
considerarem justos era uma orgulhosa exaltação do
ego; portanto era abominação aos olhos de Deus. O
Senhor aqui lhes dizia que eles eram totalmente uma
abominação aos olhos de Deus.
No versículo 16 o Senhor continuou: “A lei e os
profetas duraram até João; desde esse tempo é
anunciado o evangelho do reino de Deus, e todo
homem emprega força para entrar nele”. A frase “lei
e os profetas” refere- se ao Antigo Testamento. As
palavras “até João” indicam a mudança de
dispensação, da lei para o evangelho. Isso prova que
a dispensação do Antigo Testamento terminara com
vinda de João.
O Senhor disse aos fariseus que desde o tempo
de João “é anunciado o evangelho do reino de Deus”.
O Salvador pregou aqui o evangelho do reino de Deus
aos fariseus, que amavam o dinheiro (v. 14). O
dinheiro e a concupiscência sexual, esta instigada
pelo dinheiro, impediam-nos de entrar no reino de
Deus. Portanto a pregação do Salvador tocou esses
dois assuntos de propósito e com firmeza nos
versículos 18-31.
No versículo 16 o Senhor falou sobre empregar
350 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

força para entrar no reino de Deus. Para empregar


força para entrar no reino de Deus, os fariseus
precisavam humilhar-se e divorciar- se do dinheiro, e
não da esposa, isto é, precisavam vencer o dinheiro e
a concupiscência, que é instigada pelo dinheiro.
O Senhor Jesus aqui parecia dizer aos fariseus:
“Não zombem de Mim. As boas-novas do reino de
Deus estão sendo pregadas e vocês precisam
empregar força para entrar no reino. Já não é tempo
da lei e dos profetas. Agora é o tempo do jubileu da
graça e vocês precisam empregar força para entrar”.
Nos versículos 17-18 o Senhor diz aos fariseus:
“Porém é mais fácil passar o céu e a terra do que cair
um só til da lei. Todo aquele que repudia sua mulher
e casa com outra, comete adultério; e quem casa com
uma mulher repudiada pelo marido, comete
adultério”. Um “til” é um acento gráfico minúsculo
em forma de chifre que distingue várias letras
hebraicas. Para que os fariseus não pensassem que já
não era necessário guardar a lei, uma vez que a lei e
os profetas duraram até João, o Senhor lhes disse
que era mais fácil passar o céu e a terra do que cair a
menor parte da lei.
Quando o Senhor Jesus viu que os fariseus
zombavam Dele, Ele não ficou decepcionado nem
desencorajado. Tampouco haveria de parar de falar;
pelo contrário, Ele prosseguiu falando-lhes sobre
abominação aos olhos de Deus, sobre o reino de Deus,
sobre guardar a lei e sobre divórcio. Em 16:15-18 o
Senhor parece dizer: “Vocês, fariseus, zombam de
Mim. Vocês são justos aos olhos dos homens, mas,
aos olhos de Deus, são uma abominação. Vocês
precisam perceber que agora não é mais tempo da
dispensação da lei, mas a dispensação do ano
35
MENSAGEM TRINTA E SETE

aceitável do Senhor. Agora é tempo do jubileu, as


boas-novas do reino de Deus. Em certo sentido, a lei
e os profetas acabaram”.
Ao ouvir isso, os fariseus, por um lado, ficaram
tristes; por outro, ficaram um pouco contentes ao
pensar que já não tinham de guardar a lei. Agora
estivam livres para se divorciar da esposa. Alguns dos
fariseus ricos se divorciavam porque se entregavam
às paixões. Essa paixão era incitada pelas riquezas.
Dessa forma, sua paixão em se divorciar e se casar
novamente era incitada pelas riquezas.
Um pobre está menos propenso a se divorciar do
que um rico. Hoje, grande porcentagem de
profissionais ricos já se divorciou pelo menos urna
vez, e muitos se divorciaram mais de uma vez. Isso
indica que as riquezas, quando usadas erroneamente,
incitam a concupiscência sexual. Isso deve advertir-
nos a não usar as riquezas para satisfazer nossa
concupiscência sexual. Pelo contrário, devemos usar
o dinheiro em benefício de outros.
Como amantes do dinheiro, os fariseus eram
incitados pelas riquezas a se entregar às suas
concupiscências. Quando alguém não está satisfeito
com a esposa, pode divorciar-se dela e arranjar outra.
Conhecendo a situação deles e percebendo que, em
certo sentido, ficariam felizes em ouvir que a lei
terminara, o Senhor parecia dizer-lhes: “Não pensem
que não é mais necessário guardar a lei. A lei nunca
passará; ela permanece para condená-los. Vocês não
estão livres da lei a fim de se divorciar”. O tratamento
do Senhor com os fariseus aqui na verdade toca suas
riquezas e suas concupiscências; Sua palavra lida
com as questões de dinheiro e casamento.
352 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

ADVERTINDO OS RICOS
O homem rico e Lázaro
O versículo 19 começa com a palavra “ora”. Isso
transmite o sentido de “além disso” e salienta que o
Senhor tinha mais a dizer aos fariseus. Em 16:19-31
Ele prosseguiu contando-lhes a história do homem
rico e Lázaro. Essa história foi dirigi da aos ricos
fariseus, como amantes de dinheiro que eram
incitados pelas riquezas a se entregar às
concupiscências.
Lucas 16:19 diz: “Ora, havia certo homem rico
que se vestia de púrpura e de linho finíssimo, e todos
os dias se regalava esplendidamente”. Esta história
não é uma parábola, pois menciona os nomes Abraão,
Lázaro e Hades. É uma história usada pelo Salvador
como resposta ilustrativa para os fariseus, que
amavam o dinheiro e se consideravam justos (vs. 14-
15); é uma advertência para eles, pois revela que seu
futuro seria miserável, assim como o do rico, como
resultado de rejeitar o evangelho do Salvador, por
causa do amor ao dinheiro.
Nessa história o rico normalmente se vestia de
púrpura e linho e se regalava esplendidamente,
suntuosamente, todos os dias. Mas um pobre
chamado Lázaro, “coberto de chagas, estava atirado à
porta daquele; e desejava fartar-se do que caía da
mesa do rico; e até os cães vinham lamber- lhe as
chagas” (vs. 20-21). Então nos é dito que o homem
pobre morreu e foi levado pelos anjos ao seio de
Abraão. O homem rico também morreu e foi
sepultado. “No Hades, estando em tormentos,
levantou os olhos” e viu “ao longe a Abraão, e Lázaro
no seu seio” (v. 23). As palavras “seio de Abraão” são
35
MENSAGEM TRINTA E SETE

uma expressão rabínica, equivalente a estar com


Abraão no paraíso (M. R. Vincent). Hades, como Seol
no Antigo Testamento (Gn 37:35; SI 6:4), é o lugar
onde a alma e o espírito dos mortos são mantidos (At
2:27)

Os dois setores do Hades


O seio de Abraão, ou paraíso, é o setor agradável
no Hades, onde estão Abraão e todos os justos,
aguardando a ressurreição, e aonde o Senhor Jesus
foi após a morte e permaneceu até a ressurreição (Lc
23:43; At 2:24, 27, 31; Ef 4:9; Mt 12:40). Esse paraíso
difere do paraíso em Apocalipse 2:7, que será a Nova
Jerusalém no milênio.
Quando os cristãos ouvem a palavra Hades,
sempre pensam somente num lugar ruim. Hades é
um lugar onde espíritos desencarnados são mantidos
temporariamente. Nele há dois setores: o setor de
conforto, agradável, para os salvos e um setor de
tormento para os não salvos. Pela misericórdia de
Deus e por meio de Sua redenção, há no Hades um
setor agradável para Seus redimidos. De acordo com
16:22-25, Abraão está nesse setor. Sem dúvida,
Isaque, Jacó e todos os outros santos do Antigo
Testamento também estão lá. De modo semelhante o
pobre Lázaro foi para lá quando morreu. Além disso,
o Senhor disse ao ladrão na cruz que Lhe rogara
lembrar-se dele em Seu reino que este estaria com
Ele no paraíso (23:42-43). Como já enfatizamos, esse
paraíso é o setor agradável no Hades, um setor de
consolo para os redimidos de Deus.
De acordo com a maneira de Deus, sempre que
uma pessoa morre, seu espírito deixa o corpo e vai
para o Hades. O corpo é normalmente enterrado. Um
354 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

espírito desencarnado é sinal de morte e por isso


vergonhoso. Assim, um lugar foi preparado para os
espíritos humanos desencarnados. Entre esses
espíritos desencarnados, alguns são o espírito dos
salvos no paraíso, o lugar agradável do Hades, e os
outros são o espírito dos não salvos no setor de
tormento.
Na história registrada em 16:19-31 vemos dois
setores. Também vemos que há um abismo entre
eles: “E, além de tudo, está posto um grande abismo
entre nós e vós, de sorte que os que querem passar
daqui para vós não podem, nem os de lá passar para
nós”. Esse grande abismo é um precipício que divide
o Hades num setor agradável e um setor de tormento.
Esses dois setores estão separados um do outro e não
há ponte que os ligue. Contudo quem está num setor
pode ver e até falar com quem está no outro (vs. 23-
25). Por isso o homem rico podia ver Abraão e Lázaro,
podia falar com Abraão e este responder-lhe.
Os mortos permanecerão no Hades até o dia da
ressurreição. Quando o Senhor Jesus voltar, os salvos
serão ressuscitados. Isso ocorrerá antes do milênio,
antes dos mil anos do reinar de Deus na terra. Os
salvos permanecerão no setor de tormento do Hades
por outros mil anos. No final do milênio, os não
salvos serão ressuscitados do Hades e, com um corpo,
ficarão de pé diante do trono branco para ser
julgados e condenados à perdição eterna. Então todo
o seu ser: corpo, alma e espírito, será lançado no lago
de fogo.
Nessa história do rico e de Lázaro, o Senhor
Jesus revelou aos fariseus ricos seu destino, seu
futuro. Contando- lhes essa história, Ele estava
dizendo: “Ricos, não se entreguem às
35
MENSAGEM TRINTA E SETE

concupiscências. Vocês precisam perceber que seu


destino será o setor de tormento do Hades”.

A necessidade de ouvir a palavra de Deus


De acordo com os versículos 27-28, o rico disse a
Abraão: “Peço-te, pois, ó pai, que o mandes à casa de
meu pai - pois tenho cinco irmãos - para que lhes
testifique solenemente, a fim de que não venham eles
também para este lugar de tormento”. A isso Abraão
replicou: “Eles têm Moisés e os profetas; ouçam-nos”
(v. 29). “Moisés e os profetas” referem- se à lei de
Moisés e aos livros dos profetas, que são a palavra de
Deus (Mt 4:4). Ouvir ou não a palavra de Deus
determina se alguém é salvo ou perece. O pobre era
salvo não por ser pobre, mas por ter ouvido a palavra
de Deus (Jo 5:24; Ef 1:13). O rico pereceu não por ser
rico, mas por ter rejeitado a palavra de Deus (At
13:46).
Na conversa entre Abraão e o rico vemos por que
o rico foi para o setor de tormento. Foi porque não
deu ouvidos à palavra de Deus nem creu nela. Ele
não foi para lá por ser rico. De semelhante modo,
Lázaro, o pobre, foi para o setor agradável porque
ouviu a palavra de Deus transmitida por Moisés e os
profetas. Ele não foi para aquele setor apenas por ser
pobre. Abraão disse ao rico que seus irmãos tinham
Moisés e os profetas, e deviam ouvi-los.
O rico então disse a Abraão: “Não, Pai Abraão;
mas se alguém dentre os mortos for ter com eles,
arrepender-se-ão. Abraão, porém, lhe respondeu: Se
não ouvem a Moisés e aos profetas, tampouco se
deixarão persuadir, ainda que ressuscite alguém
dentre os mortos” (vs. 30-31). Se as pessoas não
derem ouvidos ao que diz a palavra de Deus, não
356 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

serão persuadidas nem mesmo que alguém ressuscite


miraculosamente dos mortos. A palavra do Salvador
aqui implica que, se os judeus representados pelos
fariseus não dessem ouvidos à palavra de Deus no
Antigo Testamento, não se deixariam persuadir,
mesmo que Ele ressuscitasse dos mortos. Essa
tragédia ocorreu após Sua ressurreição (Mt 28:11-15;
At 13:30-40,44-45).
Lucas 16:31 salienta que não devemos ter urna
mente de curiosidade. Quem tem mente assim pode
prestar atenção a urna pessoa que proclama ter
ressuscitado dentre os mortos. Não devemos dar
ouvidos a coisas que despertam nossa curiosidade.
Pelo contrário, com mente sóbria, devemos dar
ouvidos à Palavra escrita de Deus. Se prestarmos
atenção à Palavra de Deus com mente sóbria,
compreenderemos a misericórdia e graça de Deus e
teremos clareza sobre Sua salvação.

ESTUDO-VIDA DE LUCAS

MENSAGEM TRINTA E OITO


O MINISTÉRIO DO SALVADOR-HOMEM
EM SUAS VIRTUDES HUMANAS
COM SEUS ATRIBUTOS DIVINOS
DA GALILEIA PARA JERUSALÉM
(16)
Leitura Bíblica: Lc 17:1-37

Nesta mensagem começaremos a considerar o


capítulo dezessete do Evangelho de Lucas, que
continua a falar das questões que ocorreram quando
35
MENSAGEM TRINTA E OITO

o Senhor Jesus ia da Galileia para Jerusalém. Sobre


isso, o registro em Lucas é mais detalhado do que o
de Mateus e Marcos. Nos outros evangelhos o
registro sobre a ida do Senhor da Galileia a
Jerusalém é breve; a narrativa de Lucas sobre isso,
contudo, é muito mais abrangente.

QUATRO TÓPICOS MENORES


Depois de falar sobre as riquezas no capítulo
dezesseis, o Senhor prossegue em 17:1-1 O a abordar
quatro tópicos menores: causar tropeço (vs. 1-2),
perdoar (vs. 3-4), a fé (vs. 5-6) e perceber que somos
servos inúteis (vs. 7-10). Sobre esse último tópico,
precisamos perceber que, na verdade, não somos
úteis. Isso quer dizer que, não importa quanto
tenhamos feito pelo Senhor, precisamos considerar-
nos servos inúteis.

Uma palavra relacionada com os atos dos


fariseus
Gastei muito tempo imaginando por que esses
quatro tópicos estão inseridos logo depois do capítulo
dezesseis. A princípio não conseguia ver qualquer
conexão entre eles e o registro no capítulo anterior.
Por fim, vi que há uma conexão e esta é que os quatro
tópicos em 17:1-1 O são um ensinamento dado pelo
Senhor aos discípulos por causa do que os fariseus
faziam. Por exemplo, como hipócritas religiosos, os
fariseus sempre causavam tropeço aos outros.
Ninguém causa tropeço mais do que um religioso
hipócrita. Enquanto, por um lado, causavam tropeço
aos outros, por outro, não os perdoavam. Isso quer
dizer que, embora ofendessem os outros, uma vez
358 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

ofendidos, nunca perdoavam quem os ofendia. Além


disso, esses falsos líderes da religião não tinham fé.
Se a tivessem, não teriam vivido da forma que viviam.
Por fim, eram orgulhosos, considerando-se muitos
úteis e proveitosos.
Com isso podemos ver que o ensinamento em
17:1-10 foi dado pelo Senhor em contraste com o
cenário proporcionado pelos fariseus. Nesses
versículos o Senhor parece dizer aos discípulos: “Não
sejam como os fariseus, que causam tropeço e ainda
não perdoam quem os ofende. Eles não têm fé e
ainda se orgulham de si mesmos, pensando que são
úteis”.
Como desfrutadores do Senhor no jubileu do
Novo Testamento, não devemos causar tropeço a
ninguém; antes, devemos fazer o máximo para
aperfeiçoar, proteger e preservar os outros. Segundo,
se formos ofendidos por alguém, devemos sempre
estar prontos e dispostos para perdoar. Lutas 17:3-4
diz: “Acautelai-vos, Se teu irmão pecar, repreende-o;
e se ele se arrepender, perdoa-lhe. Se pecar contra ti
sete vezes no dia, e sete vezes voltar-se a ti, dizendo:
Arrependo-me; perdoar-lhe-ás”. O Senhor aqui
enfatiza a necessidade de estar disposto a perdoar.
Além disso, em qualquer circunstância ou ambiente,
precisamos exercitar a fé, crendo em Deus e
confiando Nele para tudo. Ademais, embora sejamos
um pouco úteis e proveitosos, devemos humilhar-nos
e não pensar que somos úteis. Pelo contrário,
devemos sempre considerar-nos servos inúteis.

O ensinamento sobre serviço


Em 17:7-10 temos o ensinamento do Senhor
sobre serviço. Nos versículos 7-9 Ele diz: “Qual de
35
MENSAGEM TRINTA E OITO

vós, tendo um servo a lavrar ou a pastorear, lhe dirá


quando ele voltar do campo: Chega-te já e reclina-te
à mesa? Não lhe dirá antes: Prepara-me a ceia, cinge-
te, e serve-me, até que eu tenha comido e bebido;
depois disso comerás e beberás tu? Porventura
agradecerá ao servo por ter este feito o que lhe fora
ordenado?” Isso indica que o servo, depois de arar ou
pastorear, não deve esperar ser grandemente
elogiado por seu trabalho. É ainda necessário que vá
à cozinha, prepare comida para seu amo e sirva-o
para satisfazê-lo. Depois de tudo isso, o servo deve
perceber que é inútil. Por isso o Senhor conclui:
“Assim também vós, quando tiverdes feito tudo o que
vos foi ordenado, dizei: Somos servos inúteis:
fizemos apenas o que deveríamos fazer” (v. 10).
Gosto do que o Senhor ressalta em 17:7-10, porque
nos fortalece em nosso serviço.

A seriedade de ofender os outros


Na vida da igreja, no serviço da igreja e no
ministério do Senhor é muito sério ofender os outros.
Às vezes podemos pôr abaixo mais do que edificamos.
Esse é o resultado causar tropeço aos outros.
Quando jovem, recebi a seguinte admoestação:
“Não faça a obra do Senhor de modo que você
edifique um metro e derrube um metro e meio”. De
acordo com essa admoestação, é possível que
primeiro edifiquemos e depois derrubemos mais do
que edificamos. Isso é o que fazem alguns que servem
o Senhor. Por um lado, fizeram muito pelo Senhor;
por outro, ao mesmo tempo, derrubaram muito, mais
até do que edificaram. Precisamos aprender com isso
a não causar tropeço aos outros e a partir daí
derrubar o que edificamos. Devemos sempre ser
360 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

cuidadosos e cautelosos para não ferir os outros, não


os ofender nem os fazer tropeçar.

Prontos e dispostos a perdoar


Se somos ofendidos por alguém, precisamos
estar prontos e dispostos a perdoá-lo. Então não
teremos problemas com os outros; contudo, por um
lado, alguns servos do Senhor causam tropeço e, por
outro, são facilmente ofendidos. Por isso sempre têm
problemas com as pessoas, quer causem tropeço,
quer sejam ofendidos. Devemos tentar não causar
tropeço, mas sempre estar prontos e dispostos a
perdoar todo aquele que nos ofende.
Você sabe o que significa perdoar? Significa não
ficar ofendido. De acordo com a palavra do Senhor
em 17:4, mesmo que um irmão peque contra nós sete
vezes por dia, devemos estar sempre prontos a
perdoá-lo. Tão logo o perdoamos, não ficaremos
ofendidos por ele, mas, se não perdoarmos,
ficaremos ofendidos. O importante é que perdoar
anula a ofensa. Se não perdoarmos os outros,
ficaremos ofendidos por eles, mas, se os perdoarmos,
anularemos a ofensa.
Suponha que certo irmão o ofenda e você o
perdoe. Seu perdão anulará a ofensa dele. Então não
haverá problemas entre vocês. Entretanto suponha
que esse irmão o ofenda e você não esteja disposto a
perdoá-lo e esquecer a ofensa. Isso causará
problemas, principalmente para você, porque você
ficará enredado corno resultado de ser ofendido. Por
isso devemos evitar causar tropeço e também ser
ofendidos. Devemos sempre ser cuidadosos e
cautelosos em não ofender os outros. Ao mesmo
tempo, devemos sempre estar dispostos a perdoar os
36
MENSAGEM TRINTA E OITO

outros.

Exercitar a fé e perceber que não somos úteis


Além de ser cuidadosos em não ofender e estar
prontos a perdoar, precisamos exercitar a fé em Deus
em todas as circunstâncias. Precisamos crer que tudo
o que nos acontece vem de Deus e que Ele é soberano
e cuida de nós.
Visto que exercitamos nossa fé em Deus,
precisamos fazer tudo o que pudermos por Ele. Ainda
assim precisamos perceber que não somos úteis, que
não somos proveitosos. Assim, precisamos humilhar-
nos diante do Senhor com a atitude de que não
somos servos úteis. Se fizermos essas coisas, seremos
preservados para ser úteis sob a mão do Senhor.

PURIFICOU DEZ LEPROSOS EM SAMARIA


Em 17:11-19 ternos o registro do Salvador-
Homem purificando dez leprosos em Samaria. Creio
que isso foi narrado por Lucas a fim de mostrar o
mais elevado padrão de moral idade na graça
salvadora do Senhor.
Lucas 17:11-13 diz: “E aconteceu que, indo Ele para
Jerusalém, passava pelo meio de Samaria e da
Galileia. Ao entrarem em certa aldeia, saíram-lhe ao
encontro dez leprosos, os quais pararam de longe, e
levantaram a voz, dizendo: Jesus, Mestre, tem
misericórdia de nós!”. Em vez de fazer qualquer
seleção, o Senhor logo curou a todos. Na verdade, Ele
não lhes disse: “Sede curados!”, e sim: “Ide, e
mostrai-vos aos sacerdotes. E aconteceu que, indo
eles, foram purificados” (v. 14).
Somente um dos dez, um samaritano, lembrou-
362 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

se de quem o curara e voltou para dizer-Lhe algo (vs.


15-16). O importante é que esse registro revela o mais
alto padrão de moralidade na graça salvadora do
Senhor.
Sabemos por Lucas 10 que, enquanto estava a
caminho, ao passar por Samaria, o Senhor foi
rejeitado pelos samaritanos. Ele deve ter percebido
que a maioria dos dez leprosos em 17:11-19 era de
samaritanos. Se eu fosse o Senhor, poderia ter dito:
“Vocês, samaritanos, Me rejeitaram e agora vêm a
Mim para ser purificados. Vocês devem arrepender-
se e se desculpar, pois Me trataram mal, e então Eu
os curarei”. O Salvador-Homem, entretanto, não agia
dessa forma. Pelo contrário, agiu no mais alto padrão
de moralidade para exercitar Sua graça salvadora.
Tão logo os dez apelaram para Ele por misericórdia,
Ele curou a todos, sem fazer acepção de ninguém.
Isso mostra Seu alto padrão de moralidade em Sua
salvação.

O ENSINO SOBRE O REINO DE DEUS


E O ARREBATAMENTO DOS VENCEDORES
Em 17:20 vemos que os fariseus vieram ao
Senhor Jesus novamente. Esses encrenqueiros
simplesmente não O deixavam em paz.
Lucas 17:20-21 diz: “Interrogado pelos fariseus
sobre quando viria o reino de Deus, Ele lhes
respondeu: O reino de Deus não vem de modo
observável. Nem dirão: Ei-lo aqui! ou: Ei-lo ali!
porque eis que o reino de Deus está no meio de vós”.
A resposta do Senhor à pergunta levantada pelos
fariseus sobre o reino de Deus indica que o reino não
é material, e sim espiritual. É o Salvador em Sua
primeira vinda (vs. 21-22), em Sua segunda vinda (vs.
36
MENSAGEM TRINTA E OITO

23-30), no arrebatamento dos Seus crentes


vencedores (vs. 31-36) e na destruição do anticristo
(v. 37) para restaurar toda a terra, visando a Seu
reinado (Ap 11:15).
Os versículos 22-24 provam que o reino de Deus
é o próprio Salvador, que estava entre os fariseus
quando foi por eles questionado. Onde quer que o
Salvador esteja, ali está o reino de Deus. O reino de
Deus está com Ele, e Ele o traz aos discípulos (v. 22).
Ele é a semente do reino de Deus plantada em Seus
escolhidos e se desenvolve até tomar-se uma esfera
onde Deus reina. Desde a ressurreição, Ele tem
estado nos crentes (Jo 14:20; Rm 8:10). Portanto o
reino de Deus está dentro da igreja hoje (Rm 14:17).
No versículo 21 o Senhor disse aos fariseus: “O
reino de Deus está no meio de vós”. A palavra “vós”
aqui se refere aos fariseus interrogadores (v. 20). O
Salvador, como o reino de Deus, não estava dentro
deles, mas somente no meio deles.
Quando os fariseus questionaram o Senhor sobre
a vinda do reino de Deus, Ele respondeu que o reino
não é observável. Isso significa que o reino de Deus
não é visível ou observável. Pelo contrário, é
invisível; é algo que não pode ser visto com olhos
físicos.
Na resposta do Senhor aos fariseus, há forte
indicação de que o reino de Deus é na verdade o
próprio Salvador. O Senhor parecia dizer-lhes:
“Vocês não podem ver o reino de Deus, mas neste
exato momento ele está no meio de vocês. Embora
esteja aqui agora, vocês não têm a percepção
espiritual de vê-lo. Vocês precisam de olhos
espirituais para ver as coisas espirituais, ver o reino
de Deus. Na verdade, esse reino é uma Pessoa
364 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

maravilhosa. Com os olhos físicos, vocês conseguem


ver a existência material dessa Pessoa, mas não têm a
visão espiritual para perceber Sua realidade
espiritual. A realidade espiritual dessa Pessoa é na
verdade o reino de Deus. Por isso digo que o reino de
Deus está agora aqui entre vocês. Vocês, porém, não
conseguem perceber essa realidade espiritual”.
No versículo 22 o Senhor prosseguiu falando aos
discípulos: “Dias virão em que almejareis ver um dos
dias do Filho do Homem, e não o vereis”. Isso indica
a ausência do Salvador, durante a qual o mundo que
O rejeitou será uma geração maligna, a viver na
indulgência da concupiscência (vs. 23-30); será
também um opositor de Seus seguidores,
perseguindo-os por causa de seu testemunho com
relação ao Senhor (18:1-8). Seus seguidores, portanto,
precisam vencer os efeitos entorpecentes do viver
indulgente do mundo. Isso se dá perdendo a vida da
alma nesta era (vs. 31-33). Além disso, precisam
suportar a perseguição do mundo, sendo longânimos
e orando persistentemente na fé (18:7-8), para que
sejam arrebatados como vencedores e entrem no
desfrute do reino de Deus na volta do Salvador
(17:34-37).

ESTUDO-VIDA DE LUCAS

MENSAGEM TRINTA E NOVE


O MINISTÉRIO DO SALVADOR-HOMEM
EM SUAS VIRTUDES HUMANAS
COM SEUS ATRIBUTOS DIVINOS
DA GALILEIA PARA JERUSALÉM
(17)
36
MENSAGEM TRINTA E NOVE

Leitura Bíblica: Lc 17:1-37

Em 17:20 os fariseus questionaram o Senhor


Jesus sobre quando o reino de Deus viria. Ele lhes
respondeu: “O reino não vem de modo observável.
Nem dirão: Ei-Lo aqui! ou: Ei-lo ali! porque eis que o
reino de Deus está no meio de vós” (vs. 20-21). A
resposta do Senhor salienta que o reino de Deus não
é material, mas espiritual. É o Salvador em Sua
primeira vinda (vs. 21-22), em Sua segunda vinda (vs.
23-30), no arrebatamento dos Seus crentes
vencedores (vs. 31- 36) e na destruição do anticristo
(v. 37) para restaurar toda a terra, visando a Seu
reinado (Ap 11:15).
Lucas 17:22-24 prova que o reino de Deus é o
próprio Salvador, que estava entre os fariseus
quando lhe perguntaram sobre a vinda do reino.
Onde quer que o Salvador estivesse, aí estava o reino
de Deus. O reino de Deus está com Ele e Ele o traz a
Seus discípulos. Ele é a semente do reino de Deus a
ser semeada nos escolhidos de Deus para se tomar
uma esfera onde Deus reina.

O REINO DE DEUS É O SENHOR


EM SUA SEGUNDA VINDA
Em 17:23-30 o Senhor Jesus salienta que o reino
de Deus é Ele mesmo em Sua segunda vinda. O
versículo 24 diz: “Porque assim como o relâmpago,
fuzilando de uma extremidade do céu, brilha até a
outra extremidade do céu, assim será no Seu dia o
Filho do Homem”. Sobre esse versículo, precisamos
perceber que a segunda vinda de Cristo tem dois
aspectos: um é o aspecto secreto para com os crentes
vigilantes; o outro é o aspecto às claras para com os
366 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

judeus e gentios incrédulos. O “relâmpago” aqui


tipifica o aspecto às claras da vinda do Senhor. O
relâmpago está escondido numa nuvem, aguardando
a oportunidade de brilhar. Cristo também será
vestido de uma nuvem (Ap 10:1) noar por algum
tempo e depois aparecerá de repente como
relâmpago à terra.

Executando juízo sobre o mundo corrupto


Em Lucas 17:25 o Senhor diz: “Mas primeiro é
necessário que Ele sofra muitas coisas e seja rejeitado
por esta geração”. Depois, nos versículos 26-29, Ele
passa a descrever esta geração, dizendo que os dias
do Filho do Homem serão como os dias de Noé (vs.
26-27) e os dias de Ló (vs. 28-29). Nos dias de Noé
havia certas condições. As pessoas estavam entorpeci
das comendo, bebendo, casando- se e dando-se em
casamento. Além disso, nada souberam até que o
dilúvio veio e os levou. Será o mesmo nos dias do
Filho do Homem. As pessoas estarão entorpecidas
pelas necessidades da vida, não sabendo que o juízo
de Deus (representado pelo dilúvio) virá sobre elas
na vinda do Senhor. Os crentes, entretanto, devem
com temperança e sobriedade saber que o Senhor
virá para executar o juízo de Deus sobre o mundo
corrupto.
Comer, beber e casar-se foram originalmente
ordenados por Deus para a existência humana, mas,
devido à concupiscência do homem, Satanás utiliza
essa necessidades da vida humana para ocupar o
homem e separá-lo dos interesses de Deus. No fim
desta era, essa situação se intensificará e atingirá seu
clímax nos dias do Filho do Homem.
As características dos dias de Noé era comer,
36
MENSAGEM TRINTA E NOVE

beber, casar-se e dar-se em casamento. As


características dos dias de Ló eram comer, beber,
comprar, vender, plantar e edificar. Essas quatro
características indicam negócios. Olhe para as
características do mundo de hoje. As características
desta geração são comer, beber, casar-se, dar-se em
casamento, comprar, vender, plantar e edificar.

A aparição do Salvador-Homem
As condições do viver maligno que entorpeceram
a geração de Noé antes do dilúvio e a geração de Ló
antes da destruição de Sodoma retratam a condição
perigosa do viver do homem antes da parousía
(presença, vinda) e da grande tribulação (Mt 24:3,
21). Para participar do arrebatamento dos
vencedores a fim de desfrutar a parousía do Senhor e
escapar da grande tribulação, temos de vencer o
efeito entorpecente do viver humano hoje.
No versículo 30 o Senhor prossegue: “Assim será
no dia em que o Filho do Homem for revelado”. As
palavras gregas traduzidas por “assim será”
literalmente significam “será conforme as mesmas
coisas”. Como indica o versículo 24, no fim desta
geração, o Salvador-Homem será revelado como um
relâmpago cintilando de uma parte do céu e
brilhando até outra. Essa luz brilhante será a
aparição do reino. Na verdade, esse relâmpago
resplandecente será a aparição do Salvador-Homem,
a aparição de uma Pessoa, e ainda será a aparição do
reino de Deus.

O REINO DE DEUS E O ARREBATAMENTO


DOS CRENTES VENCEDORES
Estar plenos de Cristo
368 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

Em 17:31-36 o Senhor indica que o reino de Deus


está relacionado com Ele e com o arrebatamento de
Seus crentes vencedores. Isso quer dizer que mesmo
o arrebatamento dos crentes é parte do reino de Deus.
De fato, o arrebatamento é também o próprio
Salvador. Podemos compreender isso se percebermos
que, se não tivermos Cristo em nós, não poderemos
jamais ser arrebatados. O arrebatamento do qual
participaremos será o próprio Cristo. Quando
tivermos Cristo em nós num nível suficiente, seremos
arrebatados.
Podemos nos comparar a um balão e o Cristo
que habita no interior, ao ar que infla o balão.
Quanto mais um balão é inflado de ar, mais subirá.
Do mesmo modo, a fim de ser arrebatados,
precisamos estar plenos de Cristo. O arrebatamento,
portanto, é questão de estar cheio de Cristo ao
máximo. Na época do arrebatamento, o “ar”, o Cristo
que habita interiormente, arrebatará a nós, o “balão”
cheio desse ar, desse pneúma.

A advertência acerca da mulher de Ló


Os vencedores não procuram preservar sua vida
da alma. Em vista da advertência acerca da mulher
de Ló, eles não amam as coisas materiais ou se
importam com elas. O versículo 31 diz: “Naquele dia,
quem estiver sobre o eirado e tiver os seus bens em
casa, não desça para tirá-los; e, de igual modo, o que
estiver no campo não volte para as coisas que deixou
atrás”. Esse versículo revela que a relutância em
deixar as coisas terrenas e materiais nos fará perder o
arrebatamento dos vencedores revelado nos
versículos 34-36.
No versículo 32 o Senhor diz: “Lembrai-vos da
36
MENSAGEM TRINTA E NOVE

mulher de Ló”. A mulher de Ló tornou-se uma coluna


de sal por ter relutado e olhado para trás em direção
a Sodoma, o que indica que ela amava e prezava o
mundo maligno que Deus iria julgar e destruir
totalmente. Ela foi resgatada de Sodoma, mas não
chegou ao lugar seguro que Ló alcançou (Gn 19:15-
30). Ela não pereceu; tampouco foi salva por
completo. Assim como o sal que se torna insípido (Lc
14:34- 35), ela foi deixada num lugar de vergonha.
Essa é uma solene advertência para os crentes que
amam o mundo.
A mulher de Ló foi resgatada de Sodoma pelos
anjos, mas seu coração ainda estava naquela cidade
maligna. Quando os anjos trouxeram para fora Ló e
sua esposa, eles disseram: “Livra-te, salva a tua vida;
não olhes para trás, nem pares em toda campina;
foge para o monte, para que não pereças” (Gn 19:17).
Ló e sua esposa foram instados a sair e não olhar
para trás. Sodoma estava sob a total condenação de
Deus e estava prestes a ser consumi da, e eles deviam
esquecê-la. Entretanto, incapaz de esquecer a cidade
de Sodoma, a mulher de Ló relutou, olhando para
trás para a cidade, e logo se tornou uma coluna de
sal: “E a mulher de Ló olhou para trás e converteu-se
numa estátua de sal” (Gn 19:26).
A advertência sobre a mulher de Ló está
relacionada com a advertência sobre tornar-se sal
insípido em Lucas 14:34-35. Quando colocamos
juntos 14:34-35 e 17:32, vemos que quem pertence ao
Senhor pode se tornar sal insípido, até mesmo uma
coluna de sal. Podemos dizer que a esposa de Ló
tinha sal, mas que o sal perdera o sabor. Que
vergonha!
Vimos que em 14:3 5 o sal pode estar em um de
370 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

três lugares: o solo, o monturo e um lugar fora, nem


no solo nem no monturo. No caso da mulher de Ló,
há também três lugares: a cidade de Sodoma, o lugar
para onde Ló foi levado e o lugar entre os dois, um
lugar de vergonha, onde a mulher de Ló permanecia
como coluna de sal. .
Poucos líderes e mestres cristãos têm visto o
terceiro lugar. A maioria ensina que há somente dois
lugares, um para os salvos e um para os perdidos,
mas, de acordo com a revelação do Novo Testamento,
definitivamente há um terceiro lugar. Esse não é o
lugar dos salvos nem o dos perdidos; é um lugar de
vergonha.
Se amarmos ao Senhor e formos advertidos pelo
caso da mulher de Ló, não nos importaremos com as
coisas materiais nem colocaremos o coração nelas.
Em vez de preservar a alma, amando as coisas
materiais, seremos cheios de Cristo como o ar
celestial. Então seremos arrebatados.

Não preservar a vida da alma


Depois de nos lembrar da mulher de Ló, o
Senhor Jesus prossegue: “Quem procurar preservar a
sua vida da alma, perdê-la-á; e quem a perder,
conservá-la-á viva” (v. 33). Preservar a vida da alma é
permitir que a alma tenha desfrute e não sofra.
Perder a vida da alma é fazer com que a alma sofra a
perda do desfrute. Se os seguidores do Salvador-
Homem permitirem que sua alma tenha desfrute
nesta era, eles a farão sofrer a perda do desfrute na
era vindoura do reino. Se permitirem que a alma
sofra a perda do desfrute nesta era para o bem do
Salvador-Homem, eles a farão ter desfrute na era do
reino vindouro, isto é, partilhar o gozo do Senhor em
37
MENSAGEM TRINTA E NOVE

governar a terra (Mt 25:21,23).


Preservar a alma está relacionado com apegar-se
às coisas terrenas e materiais mencionadas em Lucas
17:31. Apegamo-nos às coisas terrenas porque nos
importamos com o desfrute da alma nesta era. Isso
nos fará perder a alma; isto é, nossa alma sofrerá a
perda do desfrute na era vindoura do reino.

O arrebatamento com relação ao viver prático


Em 17:34-35 o Senhor diz: “Digo-vos: Naquela
noite dois estarão numa cama: um será tomado, e
deixado o outro; duas estarão juntas moendo: uma
será tomada, e deixada a outra”. Nesses versículos o
arrebatamento dos crentes vencedores é revelado.
Ocorrerá secreta e inesperadamente: de noite, para
certos crentes que estiverem dormindo, e, de dia,
para certas irmãs que estiverem moendo em casa e
para certos irmãos que estiverem trabalhando no
campo. Eles são escolhidos porque venceram o efeito
entorpecedor desta era. Em 14:25-25 o Salvador nos
exorta a pagar o preço, na medida do possível, para
segui-Lo. Em 16:1-21 Ele nos exorta a vencer as
riquezas, para servi-Lo prudentemente como
mordomos fiéis. Nos versículos 22-37 desse capítulo
Ele nos exorta a vencer o efeito entorpecedor do viver
auto- indulgente desta era, para ser arrebatados e
entrar no desfrute da Sua parousía (presença, vinda).
Todas essas exortações relacionam-se com a vitória
dos crentes no viver prático.
Tanto em 17:34 como 35 o Senhor diz que “um
será tomado”. O verbo grego para “ser tomado”
literalmente significa “ser tomado com”. Esse verbo
denota o arrebatamento dos vencedores, que não
amam as .coisas mundanas desta era e, por
372 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

conseguinte, não preservam a vida de alma. Quem


for tomado dessa forma será arrebatado antes da
grande tribulação (Mt 24:21), que será um juízo
severo sobre toda a terra habitada (Ap 3:10). Ser
assim arrebatado é ser mantido fora da hora do juízo
que está por vir sobre todo mundo, para provar os
que habitam na terra (Ap 3:10).
As palavras “moendo” em Lucas 17:35 e “no
campo” em Mateus 24:40 significam trabalhar para
ganhar a vida. Embora os crentes não devam ser
entorpecidos pelas necessidades desta vida, eles
precisam trabalhar para ganhar a vida. Qualquer
ideia de renunciar a um trabalho apropriado para
ganhar a vida é outro extremo das táticas de Satanás.

Nem todos os crentes serão arrebatados


imediatamente
Em 17:34-36 vemos que alguns que estão
dormindo serão arrebatados à noite, e algumas irmãs
moendo e alguns irmãos lavrando serão arrebatados
de dia. Vemos que o arrebatamento envolverá santos
em vários lugares em horas diferentes. Quando o
arrebatamento ocorrer, alguns serão arrebatados de
noite e outros de dia, dependendo de onde viverem
na terra. Talvez os santos do Extremo Oriente sejam
arrebatados de noite e os do Ocidente de dia.
Nesses versículos vemos que nem todos os que
estão dormindo, moendo ou lavrando serão
arrebatados. Isso salienta que nem todos os crentes
serão arrebatados imediatamente. O Senhor diz que
dois estarão numa cama, e um será tomado e deixado
o outro. O mesmo ocorrerá com duas moendo no
mesmo lugar e dois trabalhando no campo. Em cada
caso, quem é deixado pode não conhecer o paradeiro
37
MENSAGEM TRINTA E NOVE

de quem foi levado. Esse é o arrebatamento dos


crentes vigilantes.
Certos mestres fundamentalistas da Bíblia não
creem que o arrebatamento dos vencedores é distinto
do arrebatamento geral de todos os crentes. Em
outras palavras, não creem no que é chamado de
“arrebatamento parcial”. Esses mestres
fundamentalistas creem somente no que está
mencionado em 1 Tessalonicenses 4. Não creem que
Mateus 24 e Lucas 17 falem do arrebatamento dos
crentes vencedores, vigilantes. Quando, porém,
refletimos sobre esses capítulos, percebemos que o
único modo de interpretar esses trechos é considerar
que falam do arrebatamento dos vencedores.

O REINO DE DEUS É UMA PESSOA VIVA


Precisamos entender 17:21-37 à luz da pergunta
feita pelos fariseus no versículo 20. Eles perguntaram
ao Senhor sobre quando viria o reino de Deus, e Sua
resposta foi dada em todos os versículos seguintes.
Sua resposta inclui tudo o que é abordado nos
versículos 20b-37. Ao responder, o Senhor salienta
que o reino de Deus é na verdade Ele mesmo em Sua
primeira vinda, em Seu sofrimento, em Sua segunda
vinda e no arrebatamento dos vencedores. Em tudo
isso, Ele está em nós como o reino de Deus.
O reino de Deus não é uma organização nem um
reino material; antes, é o Filho de Deus como vida
nos crentes para crescer e se desenvolver num reino
espiritual onde Deus governa em vida. Assim, o reino
de Deus é uma Pessoa viva. Essa Pessoa viva é o reino
de Deus em Sua primeira vinda e em Seu sofrimento,
e também será o reino em Sua segunda vinda e no
arrebatamento dos crentes vencedores. Em cada um
374 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

desses exemplos, essa Pessoa viva é o reino de Deus.


Posso testificar que tenho considerado esse
trecho de Lucas por mais de meio século. Voltei a
esse trecho, estudei e pesquisei muitíssimas vezes,
procurando a interpretação adequada. Depois de
estudar completamente os quatro evangelhos várias
vezes, cheguei a certa conclusão sobre o reino de
Deus, conforme é revelado aqui, uma conclusão que
creio ser correta.
Lucas 17:20-37 revela que o reino de Deus é o
Filho de Deus como a semente da vida semeada nos
escolhidos de Deus para crescer e se desenvolver
neles, resultando num reino espiritual onde Deus
reina e governa na vida divina. Esse reino divino é na
verdade alguém vivo. Quando Ele vem, o reino de
Deus vem. O reino veio na primeira vinda do Senhor
e em Seu sofrimento, e virá em Sua segunda vinda,
no arrebatamento dos vencedores e, como veremos
agora, na destruição do anticristo.

O REINO DE DEUS E A DESTRUIÇÃO DO


ANTICRISTO
Lucas 17:37 diz: “E, tomando a palavra,
perguntaram- Lhe: Onde será isso, Senhor?
Respondeu-lhes: Onde estiver o corpo, aí se
ajuntarão também os abutres”. Literalmente a
palavra “corpo” aqui significa cadáver. Esse é um
versículo muito misterioso e fiquei intrigado com ele
por mais de cinquenta anos. Por fim, depois de
cuidadoso estudo da Bíblia e dos escritos de outros,
concluí que esse versículo diz respeito ao Senhor
destruindo o anticristo.
O anticristo será a causa da grande tribulação.
Assim, é ele que precisa ser julgado e destruído.
37
MENSAGEM TRINTA E NOVE

Como todas as pessoas em Adão estão mortas (1Co


15:22), o anticristo maligno com seus exércitos
malignos, que farão guerra contra o Senhor no
Arrnagedom (Ap 19:17-21), é, aos olhos do Senhor,
um cadáver fétido, bom para o apetite dos abutres. E,
como nas Escrituras o Senhor e os que confiam Nele
são comparados a uma águia (Êx 19:4; Dt 32:11; Is
40:31) e os rápidos exércitos destruidores são
também comparados a águias que voam (Dt 28:49;
Os 8:1), os abutres aqui, rapinantes da espécie da
águia, devem referir-se a Cristo e os vencedores, que
virão como exército voador rápido para guerrear
contra o anticristo e seus exércitos e destruí-los,
executando, assim, o juízo divino sobre eles no
Armagedom. Isso salienta que Cristo e Seus
vencedores estarão onde o .anticristo está com seus
exércitos, não só em Sua aparição na terra, mas
também que aparecerão rapidamente no ar como
abutres. Isso corresponde ao relâmpago cintilante em
Lucas 17:24.
Agora temos a resposta completa do Senhor à
pergunta feita pelos fariseus sobre a vinda do reino
de Deus. A resposta é que, quando o Filho de Deus
veio pela primeira vez, o reino veio com Ele e,
quando Ele foi à cruz, o reino foi com Ele. Além disso,
quando Ele voltar, o reino voltará com Ele. Quando
Seus vencedores forem arrebatados, o reino de Deus
estará lá. Por fim, quando o anticristo for derrotado
pelo Cristo que chegou, o reino de Deus também
estará lá. Com tudo isso, vemos que o reino de Deus é
na verdade a Pessoa viva do Salvador-Homem. Já
que Ele é o reino de Deus, onde quer que Ele esteja, o
reino de Deus está. Sempre que Ele aparece, aparece
como o reino de Deus.
376 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

RESUMO
Vamos agora fazer um resumo rápido de Lucas
17 como um todo. Nesse capítulo o Senhor nos ensina
a não fazer os outros tropeçar, a estar sempre
prontos e dispostos a perdoar quando somos
ofendidos, a exercitar fé em nosso Deus soberano e a
nos considerar escravos inúteis. Se fizermos essas
coisas, seremos mantidos num alto padrão de
moralidade. Com esse alto padrão de moralidade,
não faremos os outros tropeçar nem seremos
ofendidos por eles. Porquanto temos fé em Deus, não
faremos queixas. Além disso, em vez de nos
considerar grandes, úteis e proveitosos para Deus e
para os outros, nós nos humilharemos e diremos que
somos escravos inúteis. Ainda mais, perceberemos
quão misericordioso é o Salvador. Quando os dez
leprosos vieram até Ele, Ele não fez nenhuma escolha,
seleção ou preferência, mas curou a todos.
Neste capítulo também vemos que, quando os
fariseus atribularam o Senhor com uma pergunta
difícil sobre o reino de Deus, Ele salientou em Sua
resposta que o reino de Deus é na verdade uma
Pessoa viva, o próprio Salvador-Homem. A realidade
espiritual dessa Pessoa que é o reino de Deus não é
observável aos olhos físicos. Assim, o reino de Deus
não vem à vista. Para ver sua realidade espiritual,
precisamos de percepção espiritual. Como a Pessoa
viva do próprio Senhor, o reino de Deus apareceu em
Sua primeira vinda e em Seu sofrimento e vai
aparecer em Sua segunda vinda, no arrebatamento
dos santos vencedores e na destruição do anticristo e
seu exército.
ESTUDO-VIDA DE LUCAS

MENSAGEM QUARENTA
O MINISTÉRIO DO SALVADOR-HOMEM
EM SUAS VIRTUDES HUMANAS
COM SEUS ATRIBUTOS DIVINOS
DA GALILEIA PARA JERUSALÉM
(18)
Leitura Bíblica: Lc 18:1-8

O registro do evangelho de Lucas é bem


abrangente. Depois de abordar muitas questões no
capítulo dezessete, especialmente relacionadas com o
reino de Deus, Lucas prossegue no capítulo dezoito
abordando muitos outros tópicos: o ensinamento
sobre oração persistente (vs. 1-8), o ensinamento
sobre a entrada no reino de Deus (vs. 9-30), o
ensinamento sobre humilhar-nos (vs. 9-14), ser
corno criancinhas (vs. 15-17) e renunciar a tudo e
seguir o Salvador-Homem (vs. 18-30); o Senhor
também revelou Sua morte e ressurreição pela
terceira vez (vs. 31-34) e curou um cego perto de
Jericó (vs. 35-43). Nesta mensagem vamos
considerar o ensinamento do Senhor sobre oração
persistente.

CONHECER A ECONOMIA DE DEUS SOBRE


O JUBILEU
Enquanto ia da Galileia a Jerusalém, o Salvador
treinava Seus seguidores a conhecer a economia de
Deus sobre o jubileu. O jubileu é na verdade Cristo
corno a corporificação de Deus para nosso desfrute.
Essas palavras não podem ser achadas no Evangelho
378 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

de Lucas. Entretanto a ideia subjacente está lá: o


jubileu, que é o reino de Deus, é Cristo como
corporificação de Deus para nosso desfrute.
Por causa do jubileu, era necessário que Cristo
morresse a fim de cumprir uma redenção todo-
inclusiva e, então, entrasse em ressurreição. Por meio
de Sua redenção todo- inclusiva, Ele cumpriu as
exigências para que fôssemos libertos de todo
cativeiro. Agora podemos ser libertos do cativeiro do
pecado, de Satanás, do mundo, do ego e da velha
criação. Precisamos ver que foi necessário que Cristo
morresse para libertar-nos desse cativeiro. Então foi
preciso Ele ressuscitar para nos introduzir
positivamente no desfrute da herança divina, que é o
Deus Triúno processado como o Espírito todo-
inclusivo para nosso desfrute.
Essa compreensão da ideia subjacente sobre o
jubileu em Lucas não está de acordo com o conceito
da mente natural. Antes, está de acordo com a
revelação dada no Novo Testamento, principalmente
em Atos, nas epístolas e em Apocalipse. Em outras
palavras, os livros do Novo Testamento, de Atos a
Apocalipse, são uma explicação, definição e
desenvolvimento da visão em Lucas sobre a morte de
Cristo, cumprindo plena redenção para libertar- nos
de todas as coisas negativas, e Sua ressurreição,
introduzindo-nos positivamente no desfrute do Deus
Triúno que, uma vez processado, é o Espírito todo-
inclusivo para nosso desfrute. Esse é o jubileu.

O MORDOMO INJUSTO E O JUIZ INJUSTO


Enquanto o Senhor estava a caminho de
Jerusalém com os discípulos, eles não tinham ideia
do que acontecia ou do que lhes era ensinado pelo
37
MENSAGEM QUARENTA

Salvador-Homem. Quando lemos a narrativa dessa


jornada, vemos muitos exemplos, e ocultos em
alguns deles há diversos pontos intrigantes.
Vimos que, em Lucas 16, o Senhor conta aos
discípulos a parábola do mordomo injusto. Agora, em
18:1-8, Ele lhes dá outra parábola, a de um juiz
injusto. O mordomo injusto no capítulo dezesseis
tipifica cada um de nós como mordomos do Senhor.
Como veremos, o juiz injusto no capítulo dezoito se
refere ao Deus justo. Por isso o Senhor usou duas
parábolas, uma que nos representa e a outra que
representa Deus.
O mordomo injusto representa a nós mesmos ao
servir ao Senhor, e o juiz injusto representa a Deus ao
nos vingar. Até certo ponto, pelo menos, abordamos
a parábola do mordomo injusto. Nesta mensagem,
buscaremos abordar o problema apresentado pelo
juiz injusto usado para representar o Deus justo.

O ENSINAMENTO ACERCA DA ORAÇÃO


PERSISTENTE
Lucas 18:1-3 diz: “Contou-lhes Jesus uma
parábola, sobre a necessidade de orar sempre e não
esmorecer: Havia em certa cidade um juiz que não
temia a Deus nem respeitava homem algum. E havia
naquela cidade uma viúva, que vinha ter com ele,
dizendo: Faze-me justiça contra o meu adversário”. A
viúva no versículo 3 representa os crentes, que, em
certo sentido, são uma viúva na era presente, pois seu
Marido, Cristo (2Co 11:2), está ausente.
No versículo 3 a viúva pediu ao juiz que lhe
fizesse justiça contra seu adversário. A expressão
grega traduzida por “fazer justiça” pode também ser
traduzida por “vingar”.
380 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

Nessa parábola, o Senhor indica que os crentes


em Cristo têm um adversário, que é Satanás, o diabo,
contra quem precisamos que Deus nos faça justiça.
Devemos orar persistentemente por essa vingança (cf.
Ap 6:9-10) e não desanimar.
De acordo com o versículo 4, por algum tempo o
juiz não vingou a viúva contra seu adversário. Depois
disse consigo: “Embora eu não tema a Deus, nem
respeite a homem algum, todavia, como esta viúva
me incomoda, far-lhe-ei justiça, para que não venha
continuamente importunar- me” (vs. 4-5). Depois
disso, o Senhor prosseguiu: “Ouvi o que diz esse juiz
injusto. E não fará Deus justiça aos Seus escolhidos,
que a Ele clamam dia e noite, ainda que os faça
esperar? Digo-vos que depressa lhes fará justiça.
Contudo, quando vier o Filho do Homem, achará
porventura fé na terra?” (vs. 6-8). A palavra do
Senhor no versículo 8 indica que Deus nos fará
justiça contra nosso inimigo por ocasião da volta do
Salvador.
No original grego há o artigo definido antes da
palavra “fé”, assim é “a fé”. Isso denota a fé
persistente para nossa oração persistente, como a fé
da viúva. Portanto é a fé subjetiva, e não objetiva.

A GERAÇÃO MALIGNA DE HOJE


Precisamos considerar a parábola em 18:1-8 no
contexto do longo registro da jornada do Senhor da
Galileia para Jerusalém (9:51-19:27). Em todos os
ensinamentos dados nessa jornada, o Senhor aborda
muitos aspectos das questões relacionadas com o
jubileu, com o reino de Deus e com Ele mesmo como
nosso desfrute. Ele fala sobre Sua morte, Sua
ressurreição, a salvação de Deus, o galardão vindouro,
38
MENSAGEM QUARENTA

a era do reino, a geração maligna e a condição dos


fariseus. Todos esses tópicos estão relacionados,
direta ou indiretamente, com o reino de Deus e o
desfrute de Cristo.
A geração maligna de hoje pode desviar-nos do
desfrute de Cristo. Essa geração procura entorpecer-
nos, drogar-nos, de modo que não percebamos o que
acontece. O mundo todo ficou entorpecido e, tendo
sido drogadas, as pessoas mundanas não têm
percepção, ou consciência, do fato de que foram
afastadas do Deus Triúno desfrutável.
O Deus Triúno é para o desfrute do homem.
Entretanto a raça humana caída não tem percepção
disso; não sente nada absolutamente sobre isso. As
pessoas do mundo estão ocupadas em casar e dar-se
em casamento, comprar e vender, plantar e edificar
(17:27-28). Não têm ideia sobre Deus ser seu desfrute,
pois foram drogadas, entorpecidas. Por isso, em Sua
longa jornada da Galileia para Jerusalém, o Senhor
tocou nesse assunto algumas vezes. Por exemplo, em
Lucas 14 Ele disse aos discípulos que precisavam
odiar as coisas desta geração. Precisavam odiar até a
própria vida da alma porque deviam odiar tudo que
os desviasse do desfrute de Cristo. No capítulo
dezessete, o Senhor volta a esse assunto ao falar
sobre a geração entorpecida, que mantém o povo de
Deus longe do desfrute da herança divina. Antes de
tocar nessa questão em Lucas 18 outra vez, Ele nos
desvenda algo mais a respeito de nosso desfrute do
jubileu: a perseguição que advém do adversário.

PERSEGUIDOS PELO ADVERSÁRIO


Precisamos perceber que, como povo de Deus
nessa geração entorpecida e entorpecedora, somos
382 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

como viúva. Em certo sentido, nosso Marido, o


Senhor, está ausente. Além disso, temos um
adversário que constantemente nos persegue.
Antes de ir à cruz cumprir Sua redenção todo-
inclusiva, o Senhor Jesus removeu vários “véus” para
mostrar a Seus seguidores coisas direta e
indiretamente relacionadas com desfrutá-Lo como
seu jubileu. Eles precisavam perceber que o que mais
os distraía era a aquela geração com todos os seus
componentes. Os componentes da geração maligna
entorpecem as pessoas do mundo.
O Senhor também revelou aos discípulos que,
enquanto O buscamos, precisamos odiar toda e
qualquer coisa e questão que nos estorve de desfrutá-
Lo. Além disso, enquanto O desfrutamos, sofremos
perseguição, a qual advém de nosso adversário, que é
o inimigo de Deus e se tomou nosso inimigo porque
nos pusemos do lado de Deus.
A parábola em 18:1-8 indica o sofrimento
advindo de nosso adversário na aparente ausência do
Senhor. Na verdade, o Senhor não está ausente; Ele
está presente, mas, em Sua aparente ausência, somos
uma viúva cujo adversário a perturba o tempo todo.

QUE FAZER QUANDO DEUS PARECE


INJUSTO
Enquanto nosso adversário nos persegue, parece
que Deus não é justo, pois permite que Seus filhos
sejam injustamente perseguidos. Por exemplo, João
Batista foi decapitado, Pedro martirizado, Paulo
aprisionado e João exilado. Através dos séculos,
milhares e milhares de seguidores fiéis e honestos do
Salvador-Homem sofreram perseguição injusta. Até
hoje ainda somos injustamente maltratados. Deus
38
MENSAGEM QUARENTA

parece ser injusto, uma vez que não vem julgar e


vindicar.
Sempre oramos a Deus que nos vindique.
Contudo muitos de nossos cooperadores fiéis têm
sido aprisionados e até mesmo mortos. Onde está o
Deus justo e vivo? Por que tolera essa situação? Por
que não julga os que nos perseguem? Por causa dessa
situação, o Salvador-Homem em 18:1-8 usa um juiz
injusto para tipificar Deus, que não parece fazer coisa
alguma a favor de Seu povo perseguido.
Que faremos numa situação em que somos
perseguidos e parece que nosso Deus não está vivo,
presente ou sendo justo? Nessa parábola aprendemos
a ser uma viúva importuna, que ora a Deus com
persistência.
Muitas vezes fiquei cansado de orar ao Senhor
que vindicasse Sua restauração. Parece que, quanto
mais oro para isso, menos vindicação há.
Aparentemente o Senhor não está presente ou não se
importa. Parece que Ele não é justo. Entretanto
tenho aprendido que precisamos incomodá-Lo em
oração, que devemos orar para Ele persistentemente
sem desanimar.

A ORAÇÃO PERSISTENTE DOS SANTOS


MARTIRIZADOS
Em Apocalipse 6:9-10, vemos que essa oração
persistente é feita pelas almas dos santos
martirizados: “Vi, debaixo do altar, as almas daqueles
que tinham sido mortos por causa da palavra de Deus
e por causa do testemunho que sustentavam.
Clamaram em grande voz, dizendo: Até quando, ó
Soberano Senhor, santo e verdadeiro, não julgas,
nem vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a
384 ESTUDO-VIDA DE LUCAS

terra?”. Figurativamente falando, o altar está no átrio


do tabemáculo e do templo, e o átrio representa a
terra. Assim, “debaixo do altar” é debaixo da terra,
onde estão as almas dos. santos martirizados. Isso é
no paraíso, aonde o Senhor Jesus foi depois de Sua
morte (Lc 23:43). É o setor confortável do Hades (At
2:27), onde está Abraão (Lc 16:22-26). Aqui vemos
que as almas dos santos martirizados clamam: “Até
quando, ó Soberano Senhor?”. Eles parecem.dizer:
“Senhor, até quando estarás quieto? Até quando
parecerás ser injusto? Tu és o justo Juiz. Como podes
tolerar a perseguição injusta que ainda ocorre na
terra? Até quando, ó Senhor, até quando?”. Essa é a
oração vinda do reino invisível, a oração dos santos
martirizados no paraíso.

ORAR COM PERSISTÊNCIA AO SOBERANO


SENHOR
Em Lucas 18:1-8 vemos a oração vinda do reino
invisível. Essa oração está relacionada com nosso
desfrute do jubileu.
Os filhos dos que são fiéis seguidores do Senhor
sempre lhes perguntam por que sofrem perseguição.
Talvez perguntem: “Já que amamos tanto ao Senhor
Jesus, por que temos de sofrer?”. Normalmente os
pais não sabem como responder. Parece aos filhos
que o Senhor a quem seus pais seguem não é justo.
Talvez também nós indaguemos por que sofremos, já
que amamos ao Senhor e O seguimos. A parábola em
18:1-8 responde nossa pergunta.
Quando nosso Marido aparentemente está
ausente e somos deixados na terra como viúva,
temporariamente Deus parece ser um juiz injusto.
Embora pareça injusto, ainda precisamos apelar a
38
MENSAGEM QUARENTA

Ele, orar persistentemente e incomodá-Lo repetidas


vezes.
Precisamos ser cuidadosos para compreender
uma parábola como a de 18:1-8. Não devemos tentar
compreendê-la de forma natural. Por um lado, ela
indica que o Juiz é soberano. Isso quer dizer que, se
Ele julga ou não, isso é com Ele. Sem motivo
aparente, Ele pode dar ouvidos à viúva, ou não. Essa
parábola revela que Ele é o soberano Senhor e julga
quando deve fazê-lo.
Por um lado, essa parábola indica que
precisamos incomodar o Senhor orando com
persistência. Precisamos dizer-Lhe: “Senhor, orar
cabe a mim, e não a Ti. Nunca me disseste que não
devo orar. Pelo contrário, incumbiste-me de orar. Por
isso oro agora por Tua vindicação”.
O significado dessa parábola é profundo, e todos
precisamos conhecer Deus segundo a revelação aqui.
Precisamos também ver que a oração aqui descrita
ajuda-nos a desfrutar o jubileu.

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