Todos Os Caminhos Me Levam Até Você - Laura Fisher
Todos Os Caminhos Me Levam Até Você - Laura Fisher
Todos Os Caminhos Me Levam Até Você - Laura Fisher
Um.
Sofia,
Eu cheguei à casa dos D'Angelis, como filha da irmã da empregada. Minha
mãe acabara de falecer, e, eu sequer havia conhecido meu pai. A tuberculose o
havia levado dez anos antes, e agora tomava conta do corpo frágil de minha mãe,
me fazendo presenciar cada momento de seus últimos e delicados momentos.
Em pouco tempo, eu entendi que mesmo não tendo relatado o fato à patroa
por medo de não podermos permanecer no quarto dos fundos, minha tia tomava
o cuidado de não deixar com que nem os demais empregados e nem eu,
percebêssemos, que meus utensílios eram separados e higienizados de forma
diferentes. Eu fingia não ver, e por um tempo, fingi não me incomodar, e depois
acabei acreditando que aquilo de fato era necessário para que pudéssemos ter
onde viver.
Só vim a conhecer a família D'Angelis nas férias. E fiquei ainda sem
entender, porque tantos quartos vazios em uma casa, enquanto minha tia e eu
tínhamos que habitar um quarto com banheiro, onde mal cabia uma cama de
casal, e uma cômoda. Mas se era o que eles tinham para oferecer, paciência.
A primeira a descer do carro foi uma senhora muito elegante. Tive certeza
que era a senhora D'Angelis. Claro, limpava seu quadro desde que pisara naquela
casa, há dois meses. Em seguida um homem, que eu jurava ser pai dela, mas
minha tia me garantiu que era seu marido.
— Mas tia, ele...
— Menina! Nunca faça comentários como esse. — Essa era uma
advertência que eu tomaria para o resto da vida. Nunca mais viria a mencionar
sobre a diferença de idade entre os D'Angelis. Até porque, aquilo havia me
rendido um belo beliscão no braço.
Quando o motorista abriu a porta de trás, saltaram três crianças, e eu sorri.
Não estava mais só naquele lugar tão silencioso. E o mais engraçado era que...
Eles pareciam ter a minha idade. Ressalvo a garota. Essa aparentava um pouco
mais jovem.
Logo acenei. E por incrível que pareça, eles acenaram de volta.
A senhora de D'Angelis parecia um anjo. Era tão branca, e cabelos claros,
que mais parecia uma boneca. E quando veio caminhando em nossa direção,
pensei que fosse se zangar com minha tia, mas passou a mão em minha cabeça, e
sorriu.
— Então, é a sobrinha da Ana? Qual seu nome?
— Sofia. — Sorri de volta.
— Crianças, — ela chamou delicada. — Cumprimentem a sobrinha da Ana.
Eles disseram um oi. E logo partiram. Confesso que fiquei decepcionada.
Ainda bem que tinha muito trabalho para ocupar a mente. E esse era uma das
frases prediletas de minha tia, "mente vazia, oficina do diabo".
O período de duas semanas que os D'Angelis ficaram na casa, foi um
grande tumultuo. A patroa amava festas, e isso era motivo de discórdia entre ela
e o patrão com muita frequência.
— Eles brigam muito! — O copo que eu tinha nas mãos veio a cair e era
quase que impossível que toda casa não tivesse ouvido o barulho. Quando me
virei, o Liam, o garoto mais velho, estava parado sorrindo, com os braços
cruzados, tão próximo de mim, que a única coisa que pude fazer foi me abaixar e
catar os cacos do copo espatifado.
Enquanto eu me precavia para não cortar a mão, seguindo as
recomendações de minha tia, claro que aquilo havia acontecido outras vezes,
quer dizer, eu deixar outros copos caírem, não escutar a conversa dos patrões.
Então ele se abaixou e começou a me ajudar. Estávamos quase terminando
quando o Mark chegou.
— Mamãe... O Liame a garota negra quebraram seu copo. — Aquilo tinha
sido no mínimo grosseiro. Ele não tinha se referido ao irmão como Liam branco,
mas a mim, como garota negra, e depois da primeira semana, tinha certeza que
sabia meu nome.
Foi só um grito. E a mulher entrou na sala, como um furacão. A tal taça,
que tinha o nome de uma rainha, custava quase à metade do salário de minha tia,
e só não tivemos que pagar porque o Liam assumiu toda culpa.
— Não mamãe, a Sofia não teve culpa. Fui eu que deixei cair. Ela só estava
me ajudando a recolher.
— Liam... Tem certeza meu filho? — A mãe parecia conhecer bem o filho.
— Alguma vez nosso filho mentiu para nós Catarina? — O Senhor
D'Angelis naquele dia se tornou meu salvador. Porque a mulher abraçou o filho e
consolou dizendo que na manhã seguinte compraria outra taça.
Mais tarde naquele dia, o Liam ainda me encontrou e disse que eu lhe devia
uma. Eu não entendia o certo. Mas estava agradecida.
No outro dia, a senhora D'Angelis estava abismada ao saber que eu não iria
à escola por falta de merenda, e à noite minha tia me comunicou que no próximo
ano letivo, eu não voltaria para aquela escola. O que significava dali a dois
meses. Então, para onde iria? Deixaria de estudar? Depois de muito questionar,
minha tinha confessara que a mulher arrumaria uma bolsa para que eu estudasse
em uma escola que fica a duas quadras de casa.
Com a partida deles se aproximando, a patroa marcou uma ultima festa,
então descobri que o mesmo teto que abriga almas caridosas, podem abrigar as
mais cruéis. E quando o fim de semana veio, ao fim das comemorações, onde
todos haviam bebido mais que o necessário, eu experimentei essa teoria.
A Senhora D'Angelis, havia colocado os meninos para dormir, e do meu
quarto eu ouvia o homem esmurrar e gritar seu nome. Eu não entendia, eles não
dormiam no mesmo quarto. Então, porque agora ele batia na porta do quarto
dela?
Minha tia disse que por hoje eu poderia descansar mais cedo. Outros
empregados haviam sido contratados para aquele momento, e ela estava somente
observando para que a casa ficasse em ordem até o amanhecer.
Fui até o banheiro tomei um banho e depois de vestir uma camiseta e um
short, me sentei à beira da cama. Era um ritual. Tinha que trançar o cabelo toda
noite, caso contrário na manhã seguinte, ninguém o colocaria em seu devido
lugar. Minha tia o chamava de rebelde.
O barulho na porta não me chamou atenção, as únicas pessoas que
entravam ali, era minha tia e eu. Mas quando um cheiro de bebida invadiu o
ambiente eu senti que estava em perigo.
— Onde está sua tia negrinha? — Negrinha? Ele cambaleava, segurando-se
as paredes.
— Ainda está trabalhando, senhor D'Angelis. — Ele sorriu.
— Que gracinha dela. — O primeiro movimento dele, foi em meu rosto. —
Quantos anos têm garota? Dez? Onze?
— Não senhor... Tenho doze. — Dois anos a menos que o Mark. Quatro a
menos que o Liam. E exatamente da idade da filha dele, a Angel. Então, ele fez...
Ele me tocou. Tocou meus seios. Ainda não eram grandes, mas estavam ali. E
como estavam ainda despontando, minha tia não achava necessário, por
enquanto o uso do sutiã.
Passou seus dedos sobre minha camiseta em meus seios, e eu dei dois
passos para trás. Aterrorizada. Mas o que mais me feriu foram suas palavras.
— Doze anos e já tem peitinhos. — E dizendo isso tocou seus órgãos
genitais. Eu tive medo. Claro que tive. Ninguém nunca havia conversado comigo
sobre sexo, mas, eu ouvia e assistia diversas reportagens sobre meninas
violentadas por adultos. E naquela hora eu implorei que minha tia chegasse.
— Seu nojento! Sai daqui! Sai daqui! — Minha tia não apareceu. Mas o
Liam sim! E estava furioso. Ele até que tentou agredir o pai. Mas nem ele, nem
eu teríamos forças contra um homem do tamanho e força do senhor D'Angelis.
Mas a ação dele funcionou, e o pai dele se foi. Porém, antes de sair disse que se
algum de nós mencionasse o ocorrido a alguém, minha tia estaria no olho da rua.
E eu sabia o quando aquele trabalho era importante para ela.
Depois de alguns minutos em silêncio, observei o Liam recolher um pote de
plástico cheio de doces e me estender.
— Pensei que talvez não tivesse comigo desses, e trouxe.
— Obrigada! — Eu não tive como dizer pelo que agradecia. Ele saiu do
nosso quarto logo em seguida e na manhã seguinte, quando acordei, foi com o
ronco do motor do carro, atravessando os portões. Eles haviam partido.
Acredito que nesse dia, eu entendi que o Liam D'Angelis era tudo o que
uma menina podia sonhar. E ele havia acabado de me ajudar por duas vezes. Nas
semanas que se seguiram, me encontrei suspirando e até sonhando com ele, até
me dar conta que, eu estava... Perdidamente apaixonada.
Dois.
Sofia,
As festas de fim de ano vieram, e os D’Angelis não apareceram. Em
compensação, eu ansiava mesmo para o inicio do ano letivo na escola nova. Em
nossa visita, eu tinha delirado com tanta informação.
Eu nunca tinha sonhado em estudar em um lugar onde as crianças
estudavam pelo notebook. E não eram só as matérias que estávamos
acostumadas nas escolas por onde passei. A senhora que nos acompanhou na
visita, informou minha tia, que teria aula de educação física, inglês, música,
teatro, xadrez, atividades circenses e judô. O que significava que teria que
praticamente ficar o dia todo no colégio em alguns dias da semana. Mas até eu
que não gostava de estudar, estava radiante com as possibilidades.
E assim, eu fiz! E no primeiro dia de aula, naquela escola eu descobri que
queria ser professora. Eu amava ver a professora Jane entrar na sala, toda
sorridente, e cumprimentar a todos nós, e mostrar jogos e ensinar português e
matemática de uma forma da qual a gente nem suspeitava de que estávamos
aprendendo. Eu voltei para casa como se tivesse ganhado o maior presente do
universo, e minha tia não cansava de dizer o quanto eu precisava ser grata a
senhora D’Angelis. Não só pela oportunidade, mas também pelos uniformes,
materiais escolares, o notebook e... Tudo o que era preciso para estudar em um
colégio como aquele.
E se me perguntasse qual era o meu maior obstáculo na primeira semana de
aula, eu não precisaria ir muito longe para falar sobre o maior deles... Meu
cabelo. Todas as crianças ali, principalmente as meninas, estavam em sala de
aula com seus lindos “rabos de cavalo”. E na sexta-feira eu ouvi a professora
falando com minha tia sobre ver a possibilidade de alisar meu cabelo.
Eu estava tão empolgada aquele fim de semana para voltar para a escola, e
quando chegou à segunda-feira aconteceu a minha primeira decepção.
— Sofia! — Ouvi uma voz me chamando e pensei que estava atrasada, por
isso viria à primeira bronca. Revirei os olhos pensando no que diria minha tia, e
também se isso poderia ser prejudicial à minha carreira de professora. Mas a
diretora somente queria me direcionar à outra sala. — Sofia, querida, terei que
contar com sua boa vontade e compreensão, para me ajudar em uma questão
muito séria. Eu não pediria isso a qualquer pessoa, mas sim, a uma menina muito
especial e inteligente. — Nossa! Eu mal cheguei à escola e poderia ajudar a
diretora de alguma forma. Meu coração se encheu de alegria.
— E o que eu poderia fazer para ajudar?
— A sala da professora Jane, está muito cheia. Então você poderia passar
para a última sala a direita? — Ela começou a caminhar se dirigindo para o
lugar, depois dos banheiros e bebedouros. A sala era menor, e tinham poucas
crianças. E claro... Eu ficaria feliz de qualquer forma. Principalmente se fosse
para que todos estivessem mais confortáveis. A única coisa que me deixou triste,
foi que ao fim daquela semana, eu tive certeza que a professora Thaisa, não tinha
a mesma disposição e alegria em ensinar que a professora Jane.
Foi um fato que passou despercebido por mim, até que minha tia veio ao
meu encontro, numa quarta-feira, dia de educação física, e praticamente me
arrancou da quadra de esportes.
— Sofia! — Se nem eu entendia, quem diria as demais crianças de minha
sala. — Por que não me disse que haviam te trocado de sala? — Pediram a você
que não me contasse? — Por que minha tia tremia. Seus olhos pareciam estar
marejados de lágrimas. O que haviam dito a ela?
— Tia...
— Eu tive que ouvir risadinhas de outras empregadas no supermercado
Sofia, — Foi nesse dia que eu descobri que a maldade humana não vem do
berço. Eu não percebi durante a semana, nenhuma das crianças me recriminando
por minha cor ou minha condição financeira. Mas minha tia foi comigo até a
direção e teve uma conversa sincera com a diretora, que toda sem jeito pediu que
minha tia não a levasse à mal, mas que as senhoras da sociedade, não queriam
que seus filhos fossem prejudicados pela inserção de uma criança que não estava
no nível deles na turma que vinha estudando junta desde o berçário.
— Não foi isso que uma delas estava contando à outra. — Choramingou
minha tia.
— A senhora não poderia ter ouvido errado?
— Não senhora. Elas fizeram questão que eu ouvisse, que a patroa, è amiga
da diretora, e não aceitaria uma afro descendente em uma turma de crianças
brancas e limpas. — Eu olhei para a mulher, que sem voz tentava esconder sua
participação em ato tão criminoso. — E eu sinto muito, se a colocamos em
posição difícil, mas levarei minha sobrinha, e a família D’Angelis saberá do
ocorrido, porque terei que agradecê-los por tudo, mas não poderei deixar que
minha sobrinha viva em um ambiente como esse.
A simples menção de minha tia em me tirar da escola fazia doer minha
alma, mas eu não poderia ir contra o que ela resolvesse. Ela devia saber o que
era melhor para mim. E como forma de aprendizado também, aprendemos o que
era peso de um nome na sociedade.
— A senhora disse D’Angelis? — A diretora devia conhecer a patroa de
minha tia, pois repetiu os nomes bem devagar, e gaguejando cada letra, assim
como quando aprendi a ler. — Catarina D’Angelis e Álvaro D’Angelis?
— Sim! São meus patrões. Inclusive a Senhora D’Angelis arrumou essa
vaga para a Sofia, mas teremos que agradecer e...
— Não sejamos ingratos com a Catarina. Ela sempre foi muito prestativa
com tudo o que precisamos. — Antes que minha tia se levantasse, a diretora
colocou sua mão sobre a dela. — Não se preocupe Ana. Posso te chamar assim,
não é mesmo? A Sofia gosta tanto de estudar aqui, não gosta Sofia? — Eu não
afirmei antes de olhar para minha tia. Eu estava amando. Deslumbrada, mas não
iria contra a palavra de minha única família naquele lugar. Vendo que eu não
responderia, a mulher voltou a olhar para minha tia. — Ana, acho desnecessário
incomodarmos a Catarina com situação tão corriqueira. — E assim, se colocou
de pé, e me pediu que pegasse meu material e voltasse para a sala da professora
Jane. Mas, inconscientemente, e para evitar qualquer discussão próxima, naquele
momento eu menti.
— Eu não posso ficar na sala da professora Thaisa, tia? Eu gosto dela! —
Na verdade, eu gostava era de estudar naquela escola, e se fosse para evitar que
alguém me impedisse de estar ali, eu preferia estar onde fosse viável no
momento. — A diretora foi a primeira a me olhar, eu não sabia se admirada ou
assustada com minha posição. E mais tarde naquele dia, minha tia diria... “Não
pense garota que caí naquela sua conversa de gostar da professora Thaisa. Todas
as mães reclamam dela”. Tudo bem! Com a gente seria diferente,
Daquele dia em diante, a professora Thaisa, ao saber da minha escolha,
começou a ter atitudes diferentes dentro da sala. E eu encontrei nela, uma grande
amiga. Chegou até a me preparar para um concurso de redação, quando
descobriu que eu tinha facilidade com a escrita. Sem falar, que na sala da
professora Thaisa, meu cabelo não precisava estar liso.
Três semanas mais tarde, os D’Angelis chegaram a casa, de madrugada, e
sem avisar a ninguém. Apenas minha tia soube do fato, e só me contou quando
eu saia para a escola.
— Não entre correndo Sofia, e faça silêncio. Os D’Angelis estão na casa, e
estão dormindo.
— Todos eles? — Eu não estava interessada somente no Liam. Claro que se
a mãe viesse, ele viria. Mas meu maior medo era ter que contar à minha tia o
ocorrido com o senhor D’Angelis, antes que ele pensasse que poderia repetir o
que fez. E passado tanto tempo, tinha certeza que ela me daria uma bronca
daquelas.
— Não sei ao certo o que houve, mas está só a senhora e as crianças. Mas
também não temos nada com isso. Agora vai.
Eu fui. Mas antes voltei correndo até o quarto para ver se estava tudo certo
com o uniforme, meu cabelo e até peguei um batom da tia, para que passasse
assim que estivesse voltando para casa.
O pior momento na escola, não acontecia somente para mim. Eu lanchava
muitas vezes sozinha. E naquelas primeiras semanas, duas crianças fizeram
aniversário, e foi com pesar que observei de longe a professora entregar os
convites para que os colegas participassem das festas, e ao fim, ela tentava
justificar dizendo. “Lembre-se Sofia, o que não nos mata, nos fortalece.” Uma
das mães, até chegou a dizer à professora que me convidaria, mas que como
havia convidado a filha da “fulana” era provável que ela não deixasse a filha ir,
caso tivessem crianças desconhecidas.
E como disse a professora, o que não mata, nos fortalece. Aquilo não me
fazia falta alguma. E na hora do lanche eu preferia ficar no meu canto. E hoje
principalmente. Estava ansiosa por ver o Liam.
Não esperei nem mesmo pelo fim da companhia para sair e correr para casa,
no portão, parei, respirei e passei o batom. E quando entrei, eles estavam todos à
mesa, prontos para almoçar.
— Sofia, querida! — A senhora D’Angelis era muito carinhosa. Abriu os
braços e esperou que eu retribuísse. Perguntou sobre a escola e me convidou
para almoçar com eles. Assim, poderia me contar sobre o lugar.
E a tarde, o próprio Liam, me contou que na segunda-feira, todos eles
estudariam no mesmo colégio que eu. Foi uma surpresa para mim. Claro que
nenhum de nós estudaria na mesma turma. Mesmo que a Angel estivesse na
mesma série que eu, com certeza, iria para a sala da professora Jane.
Enquanto o Liam contava sobre como era seu colégio na França, e como os
avós ficaram tristes com a vinda deles para o Brasil, dava para ver que o Mark
não se atentava para nenhuma das palavras que ele dizia, somente tinha olhos
para o celular de última geração que trazia consigo, e falava com alguém tão
entusiasmado.
— O Mark não está feliz com nossa mudança. — O Liam tentava acertar o
irmão com uma semente da árvore que tinha no quintal. Como se desistisse da
atividade, de rompante virou-se para mim, me pegando totalmente desprevenida.
— E você Sofia? — O que tinha eu? Fiquei sem saber o que dizer.
— Bem... Eu...
— Está feliz com a nossa mudança? — Se eu estava feliz? O Liam estava
querendo saber minha opinião, se eu estava feliz por eles estarem ali?
— Claro! É sempre bom ter mais pessoas na casa.
A nossa conversa teria fluido, se o Mark não tivesse se levantando naquele
momento e saído sabe-se lá de onde e me atirado uma porção de sementes. E
essa foi à deixa para começarmos uma guerra de sementes. Eu pagaria por isso
mais tarde, tendo que ajudar o jardineiro, mas por hora, eu só aproveitei.
Quando, entrei no quarto, aquela, tarde observei que a Angel, nos olhava da
janela do quarto, como se não gostasse da forma como nos divertíamos. Mas não
tinha importância, eu julgava não fazer nada de errado.
O dia amanheceu com suas nuvens carregadas, como se quisesse dizer que
coisas terríveis fossem acontecer. Mas foi o primeiro dia, em que fui de carro
para a escola.
— Deixa de ser boba Ana, — disse a senhora D’Angelis. — Se o motorista
irá levar os meninos, não pode dar uma carona para a Sofia? — Antes eu tivesse
ido a pé, porque o Liam foi ao lado do motorista por ter dezesseis anos, e tive
que fazer companhia para a Angel e o Mark, que me atormentou todo o trajeto.
— Deixo você nos apresentar suas amigas e dizer que me conhece. Quer
dizer... Não todas, só as mais bonitas.
— Mark! — O Liam bem que tentava colocar o irmão dele no devido lugar,
mas era impossível. O Mark era o rei do “Sisi”, se achando, e se sentindo.
Não houve diferença alguma no primeiro dia, os D’Angelis ainda estavam
se acostumando a rotina da escola, e tiveram que ficar o dia todo. Não era meu
dia de aulas extras e pude voltar para casa, a pé como de costume.
Com o passar dos dias, a popularidade dos D’Angelis, como era de se
esperar cresceu, e todos os meninos queriam estar com o Liam, ou até suportar o
Mark, e as meninas, todas elas se vestiam como a Angel. Tudo porque segundo
minha tia, os mais interessados eram os pais. Coisas que eu não entendia, ainda.
Ao fim de cada semana, a Senhora D’Angelis, tirava as roupas que não
servia na Angel, e repassava todas à mim. E no primeiro semestre, veio o
primeiro indicio de que dinheiro não era tudo.
— Sofia? — Quando a professora chamava e a diretora estava à porta,
nunca era um bom sinal. Levantei-me e fui até elas, com a desconfiança de mãos
dadas comigo. E quando ela veio com aquele assunto de que precisava de um
favor de amigas, aí sim. Pensei em minha tia na hora. Eu não aguentaria mudar
de sala, ou ter que sair da escola.
— Eu fiz algo de errado?
— Não Sofia! Imagina! Mas pode ajudar uma pessoa que acredito que é
muito querida por você. — Eu ainda tremia, quando me levaram até outra sala, e
eu a vi de pé, de costas. E quando me viu, logo veio em minha direção e me
abraçou chorando.
— Jura que não vai contar para ninguém? — Tadinha da Angel. Pensei no
pai dela, e tudo o que ele havia feito, e um sentimento ruim aflorou meu coração
naquela hora.
— Angel, não é para tanto. — A diretora logo sorriu. — Sofia, a Angel tem
problemas com o português, e pensamos que talvez você pudesse, assim...
Discretamente, ajudá-la. Claro que poderá dizer não. Mas pensando que a mãe
dela é tão boa com você, e... — Não precisava dizer nada. Mesmo em minha
idade, e vendo minha tia me defender de tudo e de todos eu soube que era como
se estivessem me cobrando pelos favores que a mãe da Angel fazia por mim.
— Claro! Gosto muito da senhora D’Angelis. — E depois de tudo
combinado, voltando para minha sala, eu pensei que havia algo que a diretora
precisava saber. Voltei à sala dela e tanto a minha professora, quanto a professora
Jane, estavam reunidas com ela.
— Esqueceu algo Sofia? — Ela sorriu. — Quando eu disse que queria falar
com ela, disse que poderia dizer que não tinha segredos para com as professoras.
Então eu disse:
— Se na escola, tiver mais crianças, que não sejam filhas da Senhora
D’Angelis, que precise de ajuda, a senhora pode me pedir que eu ajude.
Ensinaram-me que devemos ajudar as pessoas, não pelo que elas podem nos
fazer em troca. Então, se tiver alguém que não faça por mim, eu farei por ele, o
mesmo que farei pela Angel.
As professoras não disseram nada, e eu pensei que ela fosse no mínimo me
dar um castigo, mas ela sorriu, e disse:
— Era só querida? — Quando me viu confirmar com a cabeça, tirou o
sorriso dos lábios. — Então volte a sua sala.
Naquele dia eu não lanchei sozinha. O Mark se aproximou e perguntou o
que eu fazia ali, escondida.
— Não estou escondida! — E não estava mesmo. Era meu pé de abacate
preferido. Ali também se sentavam outras meninas, que não se adaptavam às
regras dos grupinhos.
— Claro que está! Venha se sentar com a gente, minha mãe pode não
gostar.
— O que está acontecendo aqui? — O Liam , veio achando que o Mark
estava me incomodando e vendo que eu estava apenas lanchando, sentou-se para
lanchar ao meu lado. O Mark desistiu de voltar para a mesa dos amigos e fez o
mesmo. Em seguida, veio a Angel. E assim, eu passei a ser vista pelos demais
alunos daquele lugar.
Três.
Sofia,
E, foi no circulo de amizades dos D’Angelis que cresci. Eu não tinha
muitos amigos verdadeiros. Sim! Vivia cercada de pessoas. A maioria queria
mais era saber sobre a rotina dos jovens D’Angelis. Suas preferências, escolhas.
Com o tempo a gente aprende a “ler” as pessoas e seus interesses. Mesmo que
pense, que somos ingênuos o suficiente para achar que convites chegavam a
cada dia mais, apenas por minha humilde presença. Eu não tinha a oferecer, a
não ser a companhia de algum, ou de todos os irmãos D’Angelis.
Então, quando chegou o mês do fevereiro, meu aniversário de quinze anos,
minha tia prometeu fazer um bolo. Apenas nós e os D’Angelis. Quando
comentei com os meninos, ficaram todos entusiasmados. Claro... Liam era
sempre muito reservado, e sempre diziam que por ser mais velho que nós.
Mesmo assim, estava sempre disposto a fazer nossas vontades, e durante o
período que chegaram aqui até agora, nossas conversas sempre foram muito
além de conteúdo escolar, ou das amenidades da irmã. Ele sempre dizia que eu
era muito mais madura que a irmã.
Em uma de nossas muitas conversas, um dia depois da escola ele fez a
observação que talvez a Angel fosse imatura devido a ter tudo o que queria a seu
alcance.
— E o Mark? — Ele me olhou como se não tivesse entendido minha
pergunta.
— O que tem o Mark?
— Como explica esse comportamento dele? — Como explicar o
comportamento do Mark. Ele vivia para infernizar minha vida. Se me encontrava
de tranças, ele queria puxar meu cabelo. Se eu prendia em um coque, fazia
questão de soltar, e lógico... Sair correndo. Um dia, em que fiz uma escova, o
que deu muito trabalho, mas a ocasião merecia, era a formatura do colegial do
Liam , quando chegamos a casa, ele se atreveu até mesmo a jogar água em mim.
Disse que queria ver o cabelo voltar às origens. Isso lhe rendeu um pedido de
desculpas, obrigado por sua mãe, e que eu queria ter ficado mais tempo sem falar
com ele, mas não passou de uma semana. Era impossível ficar sem falar com o
Mark, ou rir de suas graças e piadas. Tudo o que o Liam não era... Engraçado. E
aí estava seu charme. Muito responsável. Sempre com uma conversa agradável.
E era ele sempre a me incentivar a ler bons livros, e ouvir boa música. Até
mesmo quando suas primas, ou amigas de longe vinham visitá-los, nunca desfez
da minha presença. Pelo contrário, sempre deixou bem claro, que eu era
importante na vida dele, quer dizer: Deles.
— Se quiser saber algo do Mark, melhor perguntar a ele. — Eu não
entendia a forma, a qual os dois irmãos viviam. Para o Mark, era Deus no céu, e
Liam na terra. Era visível a todos a admiração que o Mark tinha pelo irmão.
Porém, talvez pela forma divertida do Mark, cada dia mais, eu notava que o
irmão não tinha muita liberdade com ele. Engraçado que quando vieram morar
aqui, não era bem assim. Mas, decidi que seria melhor não perguntar nada sobre
o Mark.
Quanto a Angel, cada dia mais se soltava e se tornava uma jovem linda. Sua
festa de quinze anos tinha sido de conto de fadas, e todos haviam se divertido
muito. Menos minha tia, que depois da festa parecia triste. E quando conversei
com ela na madrugada daquele dia, ela confessou que gostaria de me dar uma
festa como aquela.
E agora estava tão próximo, e minhas palavras ditas à minha tia dias atrás,
eram as mesmas de agora... Passar ao lado das pessoas amadas seria o meu
maior presente.
E de fato foi!
— Tenho um presente para você. — O Liam tinha me dito isso às oito da
manhã, e depois apenas saíra com a mãe para as compras, e já eram duas da
tarde, e nada. Estava ansiosa para saber o que era.
A tarde se foi. E veio a noite. Quando chegaram, estavam cobertos de
presentes. E não estavam sozinhos. Havia uma senhora com eles, muito elegante,
e simpática. Porém, eu nunca a tinha visto por ali.
E foi como “Madrinha”, que o Liam viera nos apresentar à senhora, que
sorriu e cumprimentou-me por meu aniversário.
— Como ninguém tivesse me comunicado antes, meu presente será uma
viagem a minha casa em Nova Iorque. Tudo por minha conta. Quando quiser!
Uma viagem! Eu estava encantada com a mulher e sua bondade. E por mais que
minha tia insistisse que não era preciso, ela foi irredutível.
— Quando puder, e quiser.
Depois de soprar as velinhas e fazer meu pedido, abri os presentes,
maravilhada por tanto carinho e sensibilidade da senhora D’Angelis. O Mark não
me daria o presente que deu sem a ajuda da mãe. Uma pulseira com um coração.
A cara da senhora D’Angelis, mas eu o agradeci. Em seus dezessete anos, não
tinha criado uma postura de jovem. Enquanto o Liam... Aí, o Liam. Era um
homem, praticamente. E não era só eu que achava, eram todas as meninas do
colégio.
A Angel me deu uma jaqueta, muito parecida com a que ela tinha, e uma
bolsa. Estava mesmo precisando. Sempre usava as suas que estavam saindo da
moda.
E o Liam... Esperou alguns minutos e depois me chamou para ir até seu
quarto, que havia se esquecido de descer com o pacote. Minha tia havia me
avisado mais de duas vezes, que não gostava do rumo que nossa amizade
tomava, e que patrões e empregados não deviam ter tanta intimidade. Relutou
um pouco, mas depois me deixou acompanhar o Liam.
Ele entrou no quarto e depois foi até a cabeceira da cama, mas parecia não
encontrar o embrulho.
— Que cabeça a minha. Eu não queria que ninguém visse, então guardei no
quarto do Mark, vem! — Segurou minha mão e atravessamos o corredor. O
quarto estava escuro, e eu senti um arrepio quando sua mão tocou meu rosto. —
Já foi beijada por alguém Sofia? — Eu estremeci, e faltei cair sobre ele.
— Liam, eu... — Antes que eu respondesse, porém, a mãe dele gritou no
corredor por ele, e precisou responder. Depois que conversou com a mãe, do
lado de fora do quarto, voltou até onde eu estava e sussurrou em meu ouvido que
precisava resolver um pequeno detalhe de um assunto e voltava o mais rápido
possível.
— Promete que não vai sair daqui até eu voltar?
— Prometo! — E ele não demorou. Cinco minutos depois ele entrou e
aconteceu.
Meu primeiro beijo! Meu primeiro amor!
Não! Eu nunca havia beijado. A maioria dos meninos que me chamavam
para sair, logo depois me bombardeava de perguntas sobre a Angel. E se ela
tinha namorado. Por um tempo até me incomodei, mas como a pessoa que eu
queria estava sempre por perto, eu nunca tive motivo para querer outra pessoa
em minha vida.
Mas estava sendo mágico. Claro que ele sabia o que fazer. Eu era “bv”,
mas, com certeza com seus dezenove anos, o Liam tinha beijado o suficiente.
Eu não queria que aquele momento terminasse nunca. Foi exatamente como
seu sonhei. Poderia ficar em seus braços para sempre. Seu beijo era quente, e ao
contrário do que sempre ouvia as meninas de minha idade dizer sobre ser ruim,
não estava sendo. Estava sendo maravilhoso!
E só interrompemos o beijo, porque havia alguém no corredor, e Deus nos
livre se o Mark ou a Angel nos visse ali. Seria escândalo na certa. Sempre havia
sido assim. Os dois sempre contavam os feitos errados do outro a mãe.
Então, ele saiu do quarto, sem dizer nada, e se foi. E eu fiquei ali, esperando
para depois descer.
— O que faz aqui Sofia? — Eu quase morri quando me deparei com a
Angel.
— Eu vim pegar um presente que seu irmão havia se esquecido de me
entregar.
— Cuidado Sofia! Minha mãe não irá gostar se acontecer algo com você e
meu irmão. — A Angel devia estar com ciúmes. E eu não a culpava. Notava que
às vezes, ela ficava bronqueada só de ver a gente conversando.
Desci pelas escadas, e sai pelo jardim de inverno do quarto de hospedes,
chegando logo em meu quarto.
— Onde você estava garota? Eu te procurei por todo lado e não encontrei.
— Estava com a Angel, tia.
— E?
— E, o quê? — Não entendia o que ela queria dizer.
— Onde está o presente que o Liam te deu?
— Ah! — Só então me lembrei de que não tinha presente. O presente era o
beijo. E tinha sido o melhor presente de toda minha vida, mas agora o que dizer
a ela? — Devo ter deixado sobre a cama da Angel.
— Mas nem abriu?
— Nem deu tempo, a senhora D’Angelis precisou dele, e acabei
prometendo abrir quando ele voltasse.
— É! Estão em reunião, com aquela madrinha dele.
Foi à noite mais linda de todas as noites de minha vida. Eu nem dormi
direito naquela noite, queria ficar relembrando aquele beijo para sempre e
ansiando pelo próximo.
Não sei bem a hora em que adormeci, só sei que adormeci sonhando com o
Liam.
De manhã o clima parecia estranho na casa dos D’Angelis, eu nem me
atrevi a perguntar a Angel quando passou por mim, e mal disse oi. O fim de
semana devia ser de alegria e agitação, mas alguma coisa não estava bem!
O silencio não era normal no café da manhã, e depois de alguns goles de
café, na cozinha, minha tia entrou trazendo a bandeja da Senhora D’Angelis, que
havia tomado café no quarto.
— Tia, o que houve?
— Nada que seja de nossa conta. — Devia ser muito sério, até minha tia
estava de mau-humor.
Voltei para o quarto e ansiei por ver o Liam, e quando bateram à porta do
quarto eu pulei no chão mais que depressa e fui abrir.
— Mark? O que quer? — Ele trazia uma coisa nas mãos, e estendeu-a para
mim.
— O Liam pediu que eu te entregasse isso.
Tomei o embrulho e pode parecer falta de educação, mas estava tão agitada,
e ansiosa que sequer o convidei para entrar. Coloquei a caixa sobre a cama, me
sentei, e notei que ele continuava ali, olhando.
— Vai ficar aí? Parado me olhando?
— Ele pediu para ver sua reação. — Sorri e abri. Era uma boneca de pano.
Era linda! Muito linda mesmo! — O presente ideal para uma criança.
Eu não liguei para o comentário rude do Mark. Estava muito feliz para
deixar que seus ataques me arrancassem o sorriso.
— Você não entende nada de meninas, isso sim! — Ele deu de ombros e me
deu as costas.
— Ele não está em casa? Queria agradecê-lo. — Foi nesse exato momento
que vi algo percorrer os olhos do Mark. Talvez um desejo enorme de, de fato,
acabar com minha felicidade.
— Então não sabe? Ele não te contou?
— Contou o que? — Me aproximei ainda mais.
— O Liam foi embora hoje de madrugada!
O Mark adorava me pregar peças. Adorava zoar com minha cara. Mas eu
não caía mais nas armadilhas dele.
Passei por ele, e entrei na cozinha dos D’Angelis, como dizia minha tia,
como um furacão.
— Tia, viu o Liam? O Mark está dizendo que ele foi embora, mas... Eles
estão aqui. — Olhava da cozinha para a sala de jantar onde podia ver indícios
dos D’Angelis pela casa.
— Só o Liam, e a madrinha partiram essa madrugada. — Foi como se uma
faca tivesse rasgado minha alma. Sentei-me na cadeira e tomei um pouco do
suco, sem perceber. Depois sai correndo de volta para o quarto rezando para que
o Mark ainda estivesse no pátio, e ele estava debaixo da arvore, onde
costumávamos todos nos encontrar.
— Por que ele se foi? — Empurrei o Mark. — Por que não me disse
ontem? — Eu chorei ao ouvi-lo dizer que o irmão iria estudar Administração, e a
faculdade o tinha aceitado, e precisava começar imediatamente.
— Eu pensei que... Pensei que fosse ficar um ano longe da escola, se
decidindo o que gostaria de ser.
— Acho que esse era o plano do Liam, mas na verdade, ele é o mais velho,
e tudo o que é nosso será dele um dia, ou pelo menos ele deve ser o homem da
casa. Mas não sei por que todo esse desespero, vocês não tinham nada... — ele
me olhou desconfiado, e foi preciso mentir, caso contrário, a mãe saberia em
dois tempos. — Ou tinham?
— Claro que não! Não seja idiota. Éramos amigos. Apenas isso!
Voltei para o quarto, e ali eu chorei. Ele não tinha deixado um recado
sequer, a não ser aquela boneca, e seu doce beijo que ainda estava em meus
lábios.
Ah se eu soubesse. Se soubesse que ele viajaria, teria pedido a tia dele para
me levar junto.
Abracei minha boneca, e jurei para mim mesma que eu esperaria pelo Liam,
levasse o tempo que fosse. Um dia seríamos nós dois. Com certeza, nas férias
ele viria, e a gente teria todo tempo do mundo.
Mas não foi bem assim que aconteceu quando julho chegou.
— Ele não virá! Está me castigando! — A senhora D’Angelis, não estava
menos desesperada que eu. Ansiei tanto pela chegada do Liam, e ele não veio.
As folhas caíram e trouxe o outono, e eu vi toda agonia da senhora
D’Angelis, até que um dia ela resolveu ir até Nova Iorque, para ver o que o filho
fazia. E chegou toda sorridente depois de uma semana, dizendo que estava bem.
Estudando muito e com foco e determinação. Por isso, nada de aparecer no natal
também!
Tentei mandar mensagens, quando ganhei um celular usado que a Angel
havia trocado. Encontrei o número dele em uma agenda da casa, na qual mexi
quando os patrões não estavam em casa. Mesmo assim, foi em vão, porque se
leu minha trezentas mensagens... Não respondeu. Preferi acreditar que havia
trocado o número.
Um dia, vendo meu sofrimento, e agonia, o Mark, me deu um pedaço de
papel. E ali, havia um e-mail.
— Obrigada! — Pulei em seu pescoço. Era o primeiro ato de bondade que
via o Mark fazer. E por incrível que pareça, também havia sido um esforço em
vão, porque não obtive resposta.
Às vésperas de meu aniversário de dezesseis anos, um garoto, se aproximou
de mim, e quis me levar em casa. E foi nesse dia que minha esperança tão
apagada se reacendeu.
— Posso segurar sua mão? — Eu tinha dúvidas. Não tinha nada com o
Liam, mas era como se estivesse presa a ele.
— Melhor não! — Dei dois passos para trás.
Não era um rapaz de má conduta. E muito bonito por sinal, e acima de tudo,
de minha classe social, e negro, assim como eu. Mas meu coração não estava
aberto a mais ninguém.
— Poxa Sofia, eu disse que gosto de você e te queria como minha
namorada. — Estávamos conversando, e eu tinha sido sincera, mas quando o
Otto segurou minha mão sem minha permissão, o Mark o empurrou.
— Não ouviu o que ela disse?
— Olha só quem ficou valente depois que o irmão partiu? — As crianças
eram cruéis, mas adolescentes eram bem mais, eu assisti naquele dia. O Otto
bateu no Mark, sem dar a ele chances de se defender. E quanto mais eu pedia que
alguém fizesse algo, mais os que se aproximavam pediam por “briga”.
Quando a diretora viu de qual criança se tratava, logo suspendeu o Otto, e
solicitou a presença da senhora D’Angelis.
— Por que fez isso? Eu sei me defender.
— Meu irmão não gostaria de saber que deixei algo de mal acontecer a
você.
— Seu irmão? Falou com ele? — Como ele ficasse em silencio eu insisti.
— Me conta Mark.
— Quer saber... Ele disse que não disse que ia embora, porque não queria te
magoar no dia de seu aniversário. Pronto. E agora está envergonhado, por isso
não responde às suas mensagens. — Por um segundo me esqueci de que o olho
dele estava roxo e sua boca sangrando e o abracei com toda força.
— Não é para tanto!
— Claro que é! — Aquilo serviu para reforçar minha teoria de que um dia,
ficaríamos juntos.
E a partir daquele dia, eu descobri que não era sempre, mas ao menos uma
vez no mês o Mark falava com o irmão, e era através dele, que eu diria tudo o
que precisava, sem que o Mark soubesse. Eu lhe contava todas as minhas teorias
e sonhos, e como esperado, deve ter contado ao irmão, porque na primeira
oportunidade, deixou soltar o que o irmão pensava sobre eu ir para longe fazer
faculdade. Depois, opinou sobre eu alisar o cabelo, ou não.
— Tem certeza que seu irmão disse que não preciso alisar o cabelo?
— Não sei bem se com essas palavras, mas deu a entender que sim!
Comemoramos os Vigésimo. Vigésimo primeiro... E vigésimo segundo
aniversário do Mark, e então ele também precisava se decidir para onde ir. E ele
foi apenas para o Rio de janeiro. E quase todos os feriados e fins de semana,
estava em casa.
E quando chegou nosso tempo de voar, a Angel foi estudar moda em
Londres. Disse que era ali, o lugar onde queria viver o resto de sua vida.
E eu...
— Sofia, — A senhora D’Angelis me chamara quando o ensino médio
terminou. — Gostaria de poder lhe ajudar mais, mas infelizmente temos vivido
tempos complicados e meu marido... Ou melhor, ex-marido, se recusa a enviar
mais dinheiro do que o necessário.
Os boatos que corriam pela sociedade, eram de que o homem engatilhava
seu terceiro casamento. Então, provavelmente a mulher atual não o deixaria
desperdiçar a fortuna com coisas tão fúteis, principalmente uma despesa tão
fútil, como pagar faculdade para a sobrinha de uma empregada.
Tudo bem! Ela não sabia ainda, mas naquele ano, eu havia passado em três
vestibulares. Sendo dois para universidades federais, e um para particular.
E por não ter condições de cursar uma das federais, cujo seu campus era
fora do estado, e nem poder cursar a particular, fiquei com a única opção que
restava, mas também muito bem renomada Universidade Federal do Estado de
São Paulo. E eu nunca mudei meu foco, sempre quis, e agora, quatro anos depois
eu conquistava meu primeiro diploma. “Graduada em Pedagogia”. E como
melhor aluna do curso.
No dia da minha colação, a única certeza era que minha tia estaria ali. Mas
por incrível que pareça, o Mark apareceu.
— Parabéns! — Ele me rodopiou no ar.
— Vai me dizer que seu irmão te obrigou a vir-me ver formar.
— Por que está certa sempre? — Ele sorriu e depois imitou o irmão. — Ele
disse: “Mark, em hipótese alguma deixe a Sofia sozinha”.
Foi ele, em nome do irmão, que me deu meu anel de formatura, e colocou a
joia em minha mão. Eu não retiraria nunca dali.
O Mark era a alegria em pessoa, e sempre me trazia algo, e quando se
formou, voltou para casa. O Liam , ao contrário, foi fazer pós-graduação.
Mestrado e doutorado. E logo depois do baile, o Mark estendeu a mão para que
eu entrasse no carro e me deu a notícia...
— Meu irmão está em casa!
Eu o odiei. O Mark lógico! Tinha tirado minha oportunidade de dançar com
o Liam durante meu baile de formatura. Se tivesse dito antes...
Mal aguentei o café da manhã para vê-lo. E quando ele desceu as escadas,
eu perdi o ar. Era um deus grego. Como havia mudado.
Eu sorri! Fiquei petrificada. E quando consegui ir até ele, me sorriu tão
friamente, e olhou em direção à escada.
— Oi Sofia! Essa é a Lana, minha esposa!
Quatro.
Sofia,
Havia me perdido em meus pensamentos, não sei bem como saí da casa, e
nem como cheguei aqui. Estava em um lugar escuro, mas não me importava, era
justamente aqui que eu deveria estar. Um lugar onde pudesse deixar que minhas
lágrimas caíssem, sem me importar com que alguém me encontrasse.
Doía muito! Era quase sufocante! Como se parte de mim tivesse sido
arrancada naquele momento.
— Meu Deus! — Uma dor aguda insiste em incomodar meu coração. —
Como fui idiota. — Choro, sabendo que de nada adiantaria.
Quando pensei em voltar para casa, percebi que estava sendo seguida.
Tentei esconder, mas depois percebi que era o Mark. Parti para cima dele com
todo ódio que trazia em meu coração naquele momento.
— Como pôde? — Eu o esmurrei. Puxei seus cabelos, e só parei quando me
senti muito cansada. — Não podia ter feito isso comigo?
— Sofia, eu...
— Você mentiu todos esses anos. Iludiu-me. Deixou que vivesse uma
fantasia em minha vida. Uma ideia maluca que só existe em minha cabeça. Em
lugar nenhum mais... — Deixei-me vencer pelo cansaço e desabei sobre meus
joelhos no chão. — Sabia que eu amava seu irmão e brincou comigo. — Se não
sabia, soube nesse exato momento. Eu não podia mais esconder. Precisava dizer
em voz alta. Precisava gritar na verdade, e tirar de dentro de mim aquele medo
de nunca ser ouvida. — Me diz... O que eu faço agora. — Senti que ele se
abaixava.
— Eu sinto muito Sofia.
— Me diga apenas o que eu faço agora? E a culpa é sua.
— Eu..., — Nem deixei que ele terminasse suas mentiras.
— Ao menos uma vez na vida Mark, não me faça te odiar mais que estou te
odiando nesse momento. Ele nunca me deu esperanças deu? Era tudo invenção
de sua cabeça.
— Não Sofia!
— Sim! E foi para brincar comigo. Quando eu pensava que você estava
mudando, vejo que continua sendo o mesmo moleque de sempre. Sempre pronto
para destruir tudo que via de belo em sua frente.
— Não diga isso Sofia.
— Você arrancava as flores, mesmo seu irmão insistindo que na roseira elas
viviam mais. Você assustava os gatos. Chegou a amarrar uma bombinha no rabo
de um gato. Você era cruel! E ainda é até hoje. — Fiquei de pé e o vi com o rosto
banhando em lágrimas.
— Não queira comparar os atos de uma criança sozinha Sofia, com o que
está acontecendo agora.
— Então me diga por que fez isso? Porque alimentou essa mentira em meu
coração. Achava que eu não seria forte o suficiente para entender que a sobrinha
de uma empregada não era o suficiente para o patrão?
Estava tão ferida naquele momento que esbofeteei o rosto do Mark. Ele
apenas fechou os olhos e continuou ali. Parado. Virei às costas e o deixei.
Mesmo sabendo que ele continuava a passos lentos atrás de mim.
Meu Deus, quanta mentira durante todos aqueles anos. Quem me garante
agora que o Liam havia feito sequer menção de meu nome todos esses anos?
Estava começando a me sentir envergonhada.
Como eu olharia para ele novamente? E a esposa? Devia achar-me uma
desequilibrada. Eu precisava partir. No início do ano letivo começaria a trabalhar
e com certeza, ali agora deixava de ser meu lar.
Quantas vezes eu quis conseguir um lugar para ficar com minha tia, mas ela
nunca quis sair da casa da patroa. Sempre dizia que era uma forma de
economizarmos. Sair dali era pagar aluguel, Luz, água. O que para mim era
muito normal, mas para ela não. Viveu uma vida na casa dos D’Angelis, e não
mudaria de um dia para o outro. Mas para mim, para mim... Era o fim.
Eu só percebi o quanto havia caminhado, na volta. E ainda andando por
lugares perigosos.
Quando atravessei o portão, minha tia veio ao meu encontro e me abraçou.
Como uma mãe provavelmente faria.
— Estava muito preocupada com você.
— Apenas fui dar uma volta. — Ela também viu o Mark entrar e subir as
escadas da casa.
— Falou com ele? — Olhei para ela desolada.
— E ouvir mais mentiras?
— Filha, o Mark pode esclarecer suas dúvidas.
— Claro que pode tia! Mas eu já sei! Sei que ficou inventando histórias e
dizendo coisas que só agora entendo porque não faziam sentido. Era porque
nunca saíram da boca do Liam.
Entrei no quarto, tomei um banho, entre a água quente que caia sobre meu
corpo e as lágrimas que banhavam meu rosto. E ali, eu jurei para mim que não
deixaria mais ninguém ferir meu coração.
Quando saí do banho, estava decidida.
— Tia, eu sei que não posso pedir que a senhora deixe tudo o que sempre
amou, mas eu preciso sair dessa casa o mais rápido possível. — Deitei a cabeça
em seu colo.
— Eu sabia que um dia esse momento chegaria. Só não esperei que fosse
ver você partir com o coração tão ferido. — Amanhã eu falaria com calma com
ela, seria mais clara em meus motivos.
Não era só pela decepção do Liam, porque eu tinha para mim, que o Liam
nada sabia do que o irmão aprontava aqui no Brasil. Mas eu estava com ódio do
Mark, e principalmente de mim mesma por acreditar em tudo o que ele dizia ao
longo desse tempo.
De repente, me dei por mim, que o feitiço havia virado contra o feiticeiro.
Eu me aproximei do Mark unicamente com a intenção de usá-lo como uma
ponte até o irmão dele. Eu coloquei em minha mente que ele poderia ser o
cupido entre eu e o Liam, e veja no que deu.
Era madrugada quando bateram à nossa porta. E para meu espanto, o Liam
estava parado à porta.
— Liam? — Assim que ouvi o nome dele sair da boca de minha tia, pulei
da cama e fiquei atrás dela.
— Desculpe Ana, incomodar assim, mas... Sofia tem noção de onde o Mark
costuma ir quando está... Sei lá... Chateado com algo? — Eu quase gargalhei na
cara do Liam. Depois de todo tormento que me fez passar nesse dia, ele vinha se
preocupar com o Mark. Tudo o que lhe acontecesse seria um castigo do céu.
Havia um amigo dele, que sempre que estava chateado com a mãe, ou com a
Angel, ele se refugiava por lá. Mas, eu menti!
— Não! Eu não sei!
Se o Mark estava chateado não estava passando por metade do que eu. E
como eu disse, era o céu lhe castigando por tudo o que havia me feito.
— Sofia, se acaso se lembrar, poderia nos informar? Minha mãe está muito
preocupada. Eu continuo acreditando que o Mark tem idade suficiente para
enfrentar qualquer situação na vida, mas já viu o coração de mãe não é?
— Aconteceu algo sério filho? — Minha tia se sentia a própria mãe
daqueles meninos.
— Nada Ana! Vou dar uma volta e ver se consigo localizá-lo. — Quando
ele disse sair, minha primeira reação foi a de ir com ele, e ver até onde o Liam
sabia sobre meu amor, e sobre mim. Mas, minha tia me impediu.
— Será mais útil agora se me ajudar a preparar um chá para eles, já que não
pode ajudar com nenhuma localização. — Era como se ela me julgasse com
aquelas palavras, mas, o Mark mesmo disse que se algum dia ele sumisse e eu
precisasse encontrá-lo, que fosse por algo muito sério.
Aquela madrugada ninguém dormiu. Aquela manhã vi a polícia chegar a
casa, e só então me dei conta de que algo muito mais sério estava acontecendo.
Quando entrei na cozinha, ouvi o investigador perguntando sobre o ocorrido,
mas já era tarde, porque ao que tudo indicava, aconteceu uma briga envolvendo
os irmãos, e os fatos mesmo já haviam sido narrados.
O investigador entrou na cozinha, solicitando que todas as pessoas da casa,
inclusive os empregados pudessem dar alguma pista. Acabei dando o endereço
do amigo, mas para minha surpresa, a polícia tinha posse dessa informação, e
não o haviam encontrado no lugar.
Então eu não sabia mesmo onde estava o Mark, e agora não era omissão de
minha parte, estava livre. Livre de qualquer acusação se algo acontecesse ao
Mark.
Quando a senhora D’Angelis entrou na cozinha, depois de um dia exaustivo
de buscas, senti uma tristeza em seus olhos, e um cansaço, como se ela tivesse
envelhecido naquele dia. E sua situação, me deixou profundamente tocada. Ela
era sempre tão jovem e cheia de vida. Ela aceitou o café que minha tia oferecia,
e retirou o celular do bolso, discou um número e suas lágrimas correram pela
face.
— Álvaro, — A voz do senhor D’Angelis se fez ouvir do outro lado como
um trovão. — Álvaro, apenas me escute. O Mark sumiu. —Ela parecia não ter
vergonha de ouvir os xingamentos e saber que estávamos ouvindo tudo o que o
homem gritava do outro lado. — Depois de chorar ouvindo o ex-marido, ela
desligou. — Se preparem... O Álvaro deve chegar ainda essa madrugada.
E o homem chegou com o sol nascendo. Meu medo era de que de alguma
forma eu fosse parar no meio de toda essa confusão. Eu não tinha certeza se os
dois irmãos haviam discutido por minha causa ou não.
Refugiei-me na cozinha, e ajudei minha tia com os preparativos do almoço,
do lanche e do jantar. Até que li na internet uma nota de um possível sequestro
do jovem D’Angelis.
Meu coração se acelerou. Eu tinha certeza que estavam escondendo algo de
nós. Minha tia correu para o quarto e eu fui atrás dela. A encontrei de joelhos
chorando diante de uma antiga estampa de um anjo da guarda.
Eu nunca tinha visto minha tia rezando.
— Olha nosso menino meu Deus! O senhor conhece o coração dele. Sabe
que ele é bom! — Minha tia só podia estar brincando. Mas era isso que o Mark
queria. Queria deixar a todos preocupados, e me fazer ficar com a consciência
pesada. E o pior, é que estava quase conseguindo.
— Ana! — Um grito vindo da casa fez com que minha tia se levantasse de
sua oração e voltasse ao encontro da voz. Era a senhora D’Angelis.
O Mark estava em casa. E eu tinha certeza que era apenas drama. Tive essa
certeza até ir ajudar minha tia levar café e presenciar a cena mais triste de minha
vida.
— Seu filho é gay! Homossexual. Não há outras palavras para contar a
verdade. — O Liam parecia bravo, mas naquele momento, a cabeça baixa do
Mark era a única coisa que me chamava atenção.
— Isso é verdade Mark? — Se alguém não fizesse nada, com certeza aquele
homem mataria o próprio filho apenas com o peso de suas palavras. — Antes um
filho morto, que uma... Bichinha. — Não sei o que ele tomava, mas mandou o
copo contra um espelho que tinha na sala de jantar fazendo voar cacos e bebida
para todo lado.
Só então notaram minha presença. Estava paralisada. Não pela descoberta,
mas pelo fato que aquilo parecia doer em mim. Eu em meu pequeno mundo,
achando que tudo girava ao meu redor e agora via que o problema do Mark com
a família era muito maior que o meu.
— Desculpe, só vim trazer o café.
— Nada que não posso ouvir. Já que se não estiver aqui, estarão na cozinha,
ou escutaram do pátio. E se não ouvirem vão ler nos jornais que Álvaro
D’Angelis tem um filho que se porta como um... — Eu voltei para a cozinha,
mas o homem tinha razão, estávamos ouvindo tudo.
— Pai! — Eu sentia o tremor na voz do Mark. Embora seu timbre não fosse
o mesmo, sua serenidade parecia não estar afetada. —O Liam permanecia como
o pai. De feições duras e olhar sombrio.
— Mas eu devia saber. Você puxou aquela rameira. — Todos olharam para
o pai sem entender.
— Álvaro... — A Senhora D’Angelis com certeza estava ofendida. — Meça
suas palavras.
— Quem é você para me mandar medir minhas palavras? Não foi você a
primeira a se recusar a criar o filho bastardo que eu havia contraído fora do
casamento? Agora vai me dizer que aquela bisca prestava? E agora olha o filho
que me deu.
— Mãe? — O Liam foi o primeiro a se pronunciar. E enquanto os
D’Angelis continuaram sua briga, minha tia me puxou pelo braço me levando
embora da cozinha.
— Tia me solta. Eles sabem que estamos ouvindo e não se importam. Eu
preciso saber... — E pelo que parecia pouca gente naquela sala não sabia a
história dos D’Angelis. — A senhora sempre soube, não é?
Ela sentou-se aos pés da cama e começou a contar que uma noite, quando o
pequeno Liam tinha apenas dois anos, a família havia recebido uma visita
durante a noite.
— Eu fui a primeira a vê-lo. O menino estava muito doente. E eu acredito
que só não houve uma separação, porque os pais do senhor D’Angelis. Senhora
Bárbara e seu Joaquin tomaram uma providencia. Ofereceram muito dinheiro
para que a Catarina criasse o menino como se fosse seu. As pessoas estranharam,
mas ela dizia que não engordou quase nada, e andou um tempo sumida da
sociedade. Logo pararam de desconfiar.
Eu começava a entender o Mark e suas travessuras. Sempre querendo
agradar a mãe. Mesmo não sabendo de suas origens, com certeza sentia a
diferença do tratamento da Senhora D’Angelis. Até a gente notava como ela se
referia ao Liam, e a Angel.
— Estou morrendo de pena do menino. — Ele não era mais um menino,
mas meu coração estava compadecido com tudo o que ele estava passando.
Ninguém dormiu bem naquela noite. E eu tinha a impressão de que a casa
estava mais escura que o normal. E não sei por que, mas eu queria falar com o
Mark. Ver ao menos como ele estava.
Ajudei a colocar a mesa do café, e notei algumas malas na sala. O Liam foi
o primeiro a descer.
— Precisava justamente falar com você.
— Posso ajudar?
— O Mark quer ir embora, e não podemos deixar que ele saia dessa casa.
Se já sobre nossos olhos ele apronta, imagina longe de nós.
— Ele não irá me ouvir. — Já fui me justificando.
— Senta aqui! — Ele puxou uma cadeira. — Sofia, estamos em uma
situação muito delicada. Meu pai está envolvido em um processo, suas contas e
ações quase todas bloqueadas. Só temos o nome da família e algumas empresas,
e não podemos deixar que um escândalo como esse nos abale mais ainda.
— E o que eu poderia fazer?
— Se case com o Mark. — Se eu tivesse de pé teria caído. O Liam devia
saber o que estava fazendo, mas daí me pedir uma coisa louca dessa, não tinha
cabimento.
— Liam, não! — Fiquei de pé, e ele também.
— Eu sei que a gente ainda nem sequer conversou, mas sei também que
durante todos esses anos que estive fora, você e o Mark foram grandes amigos.
Se ele sair daqui Sofia, ainda mais agora sabendo que nossa mãe, não é a mãe
dele, e com essa... — Ele passou a mão pelos cabelos. — Vê só minha querida,
não será um casamento de verdade. Ele com certeza deve ter um namorado, e
provavelmente deverá continuar se relacionando com ele as escondidas, então
estará segura.
— Não é isso Liam! — Ele não tinha noção do que estava pedindo para a
mulher que o amava.
— Eu nem dormi Sofia, pensando no que poderia fazer para ajudar meu
irmão. E foi a única solução. Ao mesmo tempo, que temos que agir com muita
rapidez. Não podemos esperar que esses boatos se espalhem. — Ele não podia
me pedir isso! Não tinha esse direito. — É só por um tempo Sofia.
— Essa não é uma boa ideia.
— Vão morar aqui com a gente. Ninguém tem condições de ter mais gastos
com outros imóveis. Então ficará perto de sua tia, e...
— Seu irmão...
— Sofia, me ajuda, e eu tomo conta do resto. — Quando ele segurou minha
mão, todas as minhas promessas e juras foram por terra. Eu não abri a boca, mas
minha cabeça fez um gesto afirmativo, traindo tudo o que dizia meu coração.
Cinco.
Sofia,
Duas semanas depois, quando entrei no quarto do Mark para organizar
meus pertences, parecia a primeira vez que eu o via na vida. Eu via um Mark de
barba, olhos mais azuis que o habitual, e por não tê-lo visto todos esses dias,
tinha feito uma ideia em minha cabeça, a qual agora não correspondia.
Nas duas semanas de preparativos, tendo o Liame a senhora D’Angelis
como frente de tudo, eu imaginei que o Mark estaria em seu quarto chorando e
revoltado. Tanto por todas as decepções, quanto por essa maluquice do irmão de
fazê-lo se casar comigo.
O Liam havia me mostrado todos os detalhes do enlace, e eu descobri que
não me importava com os detalhes, apenas com a possibilidade de ajudá-los.
Ainda mais depois de ouvir de sua boca as palavras que não saiam mais de meu
coração.
— Sofia, — quando o Liam segurou em minha mão e me contou sobre seu
matrimônio, algo em mim se ascendeu. — Um ano será o suficiente. Assim
como a Lana e eu.
Então tudo não passava de um casamento arranjado? Eu queria saber mais
detalhes, mas não tinha coragem de perguntar.
Ficaríamos casados por aproximadamente um ano, e depois me dariam uma
“indenização”. O que me levou a pensar, quanto seria a indenização do Liam no
casamento com a Lana. E como se lesse meus pensamentos ele me respondeu.
— Para que a Lana recebesse sua herança, ela precisava estar casada. Na
verdade as desavenças entre pai e filha são tamanhas que ele me colocou como
titular de tudo o que ela tem.
— E se você não cumprir sua parte? Se não devolver a ela sua herança? —
Eram raras as vezes que o Liam sorria tão alto. Eu fiquei feliz por ter arrancado
dele aquela gargalhada.
— Não me conhece mais? — Tocou a ponta do meu nariz com os dedos. —
Vai perder seu posto de minha melhor amiga. — Nossa primeira conversa depois
de sua partida, e agora, era como se nada houvesse mudado entre nós. —
Conheci a Lana em meu primeiro ano de faculdade. E nos tornamos muito
amigos. Ela confia em mim... — Eu também confiava. Tanto que estava entrando
naquela loucura por ele.
— Claro que confio em você.
— Recebeu meu presente quando eu parti? — Ele tinha um jeito único de
ser. E pequenos gestos como levar a caneta até a boca, ou se recostar à cadeira,
não poderia ser repetido por outro, e eu saberia reconhecer de longe. A felicidade
adentrou meu peito. Eu não tocaria no assunto, mas adoraria agradecer e ter a
certeza de que eu não passei tanto tempo sonhando sozinha. Criando em minha
cabeça coisas que não existiam.
— Sim! Desculpe-me por não agradecer, é que... Eu liguei, mandei
mensagens e foram muitas, mas nunca me respondeu.
— Eu que peço desculpas Sofia. Passei uma fase muito complicada. Foi na
noite de seu aniversário que descobri que o Mark não era nosso irmão por parte
de mãe. Sabe o que é você idealizar uma família por tanto tempo e depois
descobrir que não passava de uma fraude? Por isso aceitei partir com minha
madrinha. Eu não teria condições de olhar para o Mark, sem contar a ele a
verdade. Fiquei por um tempo com mágoas de minha mãe e de meu pai, por
deixar o Mark tão de lado. Eu era mais velho e percebia as falhas dele com o
Mark. Quando ele foi se despedir de mim naquela manhã, para não chorar
vendo-o tão triste com minha partida, deixei-o responsável por entregar a você o
presente que eu havia comprado, dei a ele uma responsabilidade, tentando aliviar
o impacto de minha partida tão repentina.
— Ele me entregou. Fiquei apaixonada. E está intacta ao lado de minha
cama até hoje.
— E por falar em sua cama, o segredo do casamento funcionar, quero
dizer... Para que tudo pareça real, terão que dividir o mesmo quarto, a mesma
cama. — Eu desconfiava, e mesmo assim uma expressão devia ter surgido em
meu rosto, porque ele abriu outro sorriso e dessa vez tocou minha mão. — Não
se preocupe o Mark não lhe fará mal, você sabe muito bem o motivo pelo qual
esse casamento está acontecendo.
— Como soube sobre ele?
— Amigos em comum. — Eu diria que era pouco, mas ele tirou duas fotos
da gaveta da escrivaninha, e me mostrou. Para mim eram apenas engraçadas. O
Mark vestido de mulher. E logo depois uma carta. A pessoa que escreveu no
mínimo estava muito brava com o Mark. Havia acontecido algo que não era
citado na carta, mas como dizia minha tia, coração ferido quer ferir, e por isso a
pessoa escrevia, “Fiquem atentos para as escolhas sexuais de seu irmão”.
“Vamos dar um sumiço no bichinha que se diz D’Angelis”. Entre outras
referências grosseiras sobre a preferência sexual do Mark. E meu coração se
apertou com aquelas palavras. Lembrei-me de como era difícil ouvir as pessoas e
suas discriminações com os negros, e imaginei a dor do Mark.
Passei a manhã toda revendo os detalhes. O mais difícil, porém foi fazer
com que o Mark abrisse a porta do quarto para que eu organizasse meus
pertences. E quando ouvi o barulho da chave na fechadura, estava disposta a dar
uma bronca nele. Mas ao ver seu rosto, desisti. O Mark a minha frente era o
mesmo de antes.
— Pensei que fosse encontrá-lo em principio de depressão. Duas semanas
sem sair do quarto, se alimentando com o essencial. E sem falar com ninguém.
— E queria que eu descesse todo dia para participar das confabulações
sórdidas da família? — Senti uma alfinetada e decidi que não ficaria por isso
mesmo.
— Se me dispus a entrar nessa, saiba que foi pensando no seu bem. — Ele
fez uma careta, idêntica às de quando éramos crianças.
— Quanta caridade para com um pobre florzinha. Vai querer usar minhas
roupas também? — Ironia devia ser o segundo nome do Mark. Por isso, vivia
irritando a senhora D’Angelis. — O bom é que poderemos fazer compras juntas.
Não iria jogar seu joguinho de piedade. Comecei a juntar as roupas
esparramadas pelo chão, e fazer um amontoado com elas.
— Não vou morar num pardieiro como esse.
— E por que não, se daqui a pouco seremos porquinhos do mesmo
chiqueiro, ou farinha do mesmo saco, tanto faz a expressão. Mas entrou para a
família com chave de ouro. Cumprindo com perfeição o papel de D’Angelis. —
Havia mágoa nas palavras de Mark. — Enganar... Mentir. Fingir.
— Mark, eu só...
— Obrigado Sofia. — Eu sentia que ainda estava sendo irônico. —Idiotice
a minha, o Liam já deve ter te agradecido.
— Sim! Seu irmão me agradeceu.
— Já se perguntou Sofia, até onde chegaria para agradar ao Liam? — Ele
sabia sobre meu amor pelo irmão. Então por que me questionava?
Virei às costas e estava para sair do quarto quando me lembrei da chave,
voltei e a tirei da porta.
— Vou trazer meus pertences daqui a pouco. A cerimônia está marcada para
as dezenove. Esteja ao menos apresentável, e seja educado.
— Afinal, é o que esperam de mim... Que aceite o que a família
generosamente está me oferecendo. — Eu já tinha saído e ainda o ouvia gritar,
— Estão nos punindo Sofia. Não vê?
Punindo! A ele tudo bem, mas por que puniriam a mim? Seria uma guerra
sem fim estar entre os D’Angelis. Eu tinha que estar muito certa do passo que
estava dando. Mesmo que fosse por pouco tempo, e que em nada mudasse minha
vida, era um passo importante.
Antes do casamento ainda houve um episódio estranho na mansão dos
D’Angelis que nos levou a um novo acontecimento.
— Liam? — Eu quis que esse momento fosse com a gente. Estava vestida!
Pronta para caminhar até o jardim quando ele entrou. Pensei estar vivendo uma
cena de filmes, onde ele me pedia para fugirmos a todas as responsabilidades e
pensássemos somente em nosso amor.
— Sofia, o Mark quer viajar.
— Como assim?
— Ele quer uma lua-de-mel.
— Mas... Mas... — Fiquei aflita.
— Não Sofia. Não se preocupe. Nossa desconfiança é que ele tenha
marcado de se encontrar com... — Ele não pronunciaria “namorado”. — Com o
rapaz amigo dele.
— Entendi! E agora?
— Embora não esteja em posição de pedir nada, minha mãe acha que seria
bom para que pareça mais real. Porém preciso que fique atenta a cada passo dele,
e ao menor sinal de se encontrarem, entre em contato comigo.
— Mas eu não estava preparada para viajar. — Sequer tinha roupas
decentes.
— Estamos passando por um momento complicado Sofia, mas ainda
podemos dar um cartão para suas despesas com roupas. Leve apenas seus
objetos pessoais, e amanhã o Mark deve te ajudar a escolher algumas peças para
seu guarda-roupa. Só peço que não o deixe extravasar.
Antes que ele saísse, não sei de onde criei coragem e perguntei se poderia
me responder uma curiosidade.
— Durante todos esses anos... Conversava com seu irmão? Quer dizer
sobre...
— Sobre garotas? Sobre nós? — Não me precisava dizer mais nada. Eu não
queria sair de perto do Liam, ou simplesmente me casar com o Mark sabendo
que ele havia me iludido todo esse tempo. — Espero que ele tenha dito tudo o
que pedi para dizer. Agora eu tinha dúvidas sobre o que era esse “tudo”. —
Quando voltarem, e com o tempo a gente coloca o assunto em dia. — Beijou
meu rosto e se foi.
Não havia muitas pessoas por onde eu passei. Como disseram, embora
muito divulgado pela mídia, seria uma cerimônia simples. A começar por meu
vestido. A senhora D’Angelis o havia escolhido, e me levado para ver. Eu fiquei
maravilhada. E mesmo não tendo véu e grinalda, era simplesmente perfeito.
O sorriso no rosto de minha tia era um alívio para mim. Ela sabia sobre as
condições do casamento, e mesmo assim estava feliz. Na verdade, minha tia não
escondia seu carinho pelo Mark.
Mark! — Suspirei ao avistá-lo.
Estava simplesmente lindo! Como um noivo deveria estar. Mas ao seu lado
estava o Liam, e por alguns minutos meu olhar se desviou em sua direção, e
quando voltei a olhar para O Mark, sua expressão estava diferente. A mágoa que
o corroía nos últimos dias, e durante nossa conversa de hoje, estava ali
novamente. A cerimônia foi rápida, e a recepção mais ainda.
Em direção ao aeroporto tinha sido nossa primeira conversa
— Por que me olha assim? — Questionei apreensiva.
— Assim como?
— Sei lá...
— Como se fosse minha esposa?
— Precisamos conversar sobre isso. Seu irmão deve ter lhe dito que...
— Ah, sim! Fique tranquila, o bom e velho Liam orientou-me a respeito de
tudo. Principalmente sobre minha conduta de cavalheiro para com você.
— Que bom!
Ele fechou os olhos e fingiu dormir todo caminho até o aeroporto. E só
voltamos às nos falar quando desembarcamos em Londres. Segundo o Liam,
ficaríamos na casa da madrinha dele. Como eu não conhecia o trajeto só percebi
que havia algo errado quando chegamos diante de um grande e luxuoso hotel.
— Por que viemos para cá Mark? Não ficaríamos na casa da madrinha do
Liam?
— Claro que não. Ficaremos onde o olhar de meu irmão não nos veja.
Assim aproveitaremos melhor a semana. — Ele não me deu a chance de
questionar, e no primeiro momento em que me viu de celular na mão, tomou-me
o aparelho. Como havia muita gente na recepção, preferi não questionar. Falaria
com o Liam mais tarde.
Descansei um pouco, tomei um banho e vesti a mesma roupa. Eu queria
lembrar o Mark que não havia levado roupas. Nada na verdade. Só que para
minha surpresa quando eu saí do banho, havia uma troca de roupa sobre a cama.
Meu número. Bem meu estilo.
Eu sorri.
— Obrigada!
— Pensei que fosse querer usar algo limpo para sairmos para as compras.
Não era só limpo, era sofisticado e devia ter custado uma fortuna. Mas eu
tinha gostado muito. Vesti-me enquanto ele tomava banho e por alguns minutos
até me esqueci de que precisava ligar para o Liam.
Procurei pelos celulares e não encontrei. Fui até o telefone e pedi que
fizessem uma chamada para o Brasil. Apenas me esqueci do detalhe que não
sabia o numero do Liam de cor. Liguei para a casa dos D’Angelis, era sábado, e
na certeza deveriam estar em casa, até imaginei que quem atenderia devia ser
minha tia, mas... Por incrível que pareça... Ninguém atendeu.
Quando ele saiu do banho, a loção pós-barba invadiu todo quarto. Eu fechei
os olhos e imaginei, quando fosse meu casamento real, se seria assim.
— Está pronta? — Sim! Eu estava.
Por incrível que pareça o Mark não comprou sequer uma gravata para ele.
Somente para mim. E eu sempre pronta a recriminá-lo pelos gastos indevidos,
acabei aceitando todas as compras que fez. Ele tinha o dom de me convencer que
aquilo seria necessário. Quando chegamos ao hotel, a cama estava tomada de
sacolas e caixas.
— Seu irmão vai matar a gente. — Ele não esboçou nenhuma reação. E eu
como uma criança feliz, abrindo e conferindo cada roupa adquirida. — Vamos
sair hoje?
— Pensei que era para ficarmos trancados no quarto para dar margem à
imaginação das pessoas. — Joguei uma sacola vazia sobre ele.
— Não tem ninguém vigiando a gente por aqui. Agora me fala aonde
iremos para que eu me vista. — Ele não disse, mas escolheu algumas peças e me
entregou. A sorte era que, tudo o que eu colocasse no corpo ficaria perfeito.
A primeira parada foi em um restaurante lindo. Depois
LYCEUMTHEATRE, e foi a primeira vez que delirei vendo um musical.
Assistimos o Rei Leão. Estava me divertindo muito. Até sorri quando o Mark
brincou com sua situação.
— Coisas que amamos fazer, mas pegaria mal se fosse solteiro. Assistir o
Rei Leão não dever ser coisa de homens. — Eu apenas me diverti quando via
que ele brincava.
Quando pensei que a noite tinha acabado, ele pediu ao taxista que parasse, e
entramos em uma balada. Eu tinha ido acompanhada por eles em São Paulo. Não
foram muitas vezes, mas havia sido legal. Mas agora estava sendo espetacular.
Vendo minha alegria durante nossas danças, ele se aproximou até meu
ouvido e praticamente gritou para que eu ouvisse.
— Pena meu irmão achar que um homem só faz uma mulher feliz na cama
não é?
Ele tinha toda razão. Não passamos a noite um nos braços do outro, mas eu
acordei tarde, e muito feliz. Passei a mão sobre o lençol e não o encontrei.
— Mark? — Chamei e ele não me respondeu. Troquei de roupa e desci até
o saguão. Assim que o elevador abriu as portas o vi parado gesticulando e
falando ao telefone. Aproximei-me e vi que havia mais alguém.
— Olá Sofia, se lembra de mim? — Estava mais velha, mas eu a abracei,
assim que reconheci. Era a madrinha do Liam. Quando o Mark deixou o
telefone, ela sorriu, — Prontos para irem para minha casa? — O Mark me
entregou o telefone desanimado.
— A senhora pode levar a Sofia, eu ficarei. No fim de semana a pego para
voltarmos ao Brasil.
— Mark meu amor... — Ela bem que tentou detê-lo, mas ele já havia
partido.
Tomamos café juntas, e só depois de falar com ela e com o Liam subi. O
cheiro da loção denunciava que já havia tomado banho. Esperei que saísse do
banho e o encarei.
— Ainda aqui? Junte suas coisas e vá com ela. — Vendo minha decepção
ele acrescentou talvez arrependido, mas com voz carinhosa. — Pode ir tranquila.
Essa mulher tem um coração de ouro, e tenho certeza que lhe proporcionara uma
semana perfeita. Encontro-te na sexta-feira e a gente volta para casa.
— Vou dizer a você o mesmo que disse ao seu irmão ainda a pouco ao
telefone. Eu não quero ser mediadora da guerra que se instalou na família. — Ele
voltou-se para mim.
— Não estou brigando com ninguém. Não disse que pode ir?
— Mais eu não irei, — ele me olhou com ar duvidoso. — A menos que
venha comigo. Caso contrário eu vou ficar. E como você mesmo disse, não é
preciso que um homem leve uma mulher para a cama para fazê-la feliz. E é
assim que estou me sentindo nesse momento. Feliz!
— Eu não irei.
— Então... Nem eu!
Seis.
Sofia,
A divisão da cama no primeiro dia não nos pareceu complicada.
Tínhamos feito tantas atividades emocionantes e acabamos bebendo um pouco
na boate, o que só contribuiu para que eu desmaiasse antes que ele saísse do
banho. No mais, a gente se conhecia. Brincamos muitas vezes na piscina da casa
dos D’Angelis, e talvez agora, ciente das preferências sexuais do Mark eu
entenda o porquê, o Mark nunca ter feito algum tipo de brincadeira ou tomado
liberdades com a gente. Quando digo “a gente”, me refiro às demais garotas que
sempre estavam com a irmã nos banhos de piscina e festas para as quais éramos
convidados. De certa forma isso me deixava muito segura. Afinal, sempre dividi
a cama com minha tia.
Engraçado que durante os dias que ficamos em Londres, por vários
momentos, vendo o Mark tão solicito, e prestativo, e posso dizer que até gentil e
carinhoso, longe de ser aquele garoto chato e intrometido, eu me peguei
imaginando... “E se fosse verdade?”
─ Como quer aproveitar sua última noite em Londres? ─ Ele se deitou ao
meu lado, usando uma calça jeans e camiseta azul. Eu tive comigo naquele
momento que nunca mais esqueceria o aroma de sua loção pós-barba. E tive que
repreender meus pensamentos que insistiam e trazer ideias de como era a vida de
recém-casados. E de “como seria nossa vida de casados se tudo não fosse uma
farsa?”. Então me levantei e fingi olhar pela janela da cobertura, que dava vista
para o Hyde Park.
─ Na verdade, ─ voltei-me para ele. ─ Eu não queria que fosse nossa
última noite aqui. ─ Ele fez um semblante risonho e se ajeitou ao travesseiro. E
eu pensei... O que estaria acontecendo comigo? Minha tia dizia tanto que os
pecados por omissão ou pensamentos, tinham o mesmo peso que os atos. E eu
estava ali, simplesmente traindo tudo o que sentia pelo Liam, tendo pensamentos
com seu irmão. Pensamentos estes que sabia que nunca se realizariam.
─ Podemos alugar um apartamento aqui por perto e não dar o endereço a
ninguém. Teríamos dois cachorros até que vissem nossos filhos, ─ eu sorri.
Ignorando-me ele prosseguiu. ─ E depois quem sabe, um ou dois filhos e um
cachorro. ─ O Mark tinha esse senso de humor. Brincava com tudo na vida.
Principalmente com o coração das pessoas. Lembrei-me de toda confusão que
havia se instalado em mim, e decidi que era momento de falar a sério com ele.
Suspirei fundo, e me sentei novamente aos pés da cama, muito próximo a
ele e por fim, tive coragem.
─ Por um momento eu cheguei a desconfiar que houvesse brincado com
meus sentimentos, inventando tudo o que seu irmão poderia ter dito durante
todos esses anos a meu respeito. Fiquei surpresa com o casamento dele. Quer
dizer... Mais decepcionada que surpresa. Por que se casar sem que ninguém
soubesse? E depois de deixar claro que havia uma esperança para nós? Fiquei
confusa. Talvez você não entenda porque nunca tenha se apaixonado de verdade,
ou não na idade em que me apaixonei por seu irmão. Espero que esse tempo em
que iremos passar juntos, não seja difícil. Desculpe-me.
─ Te entendo. Eu no seu lugar teria feito o mesmo.
─ Claro que teria. Tanto que minutos depois de me trazer de volta para
casa, sumiu quando soube que sua família sabia de sua opção sexual e sobre... ─
Eu tinha ido longe demais. Mesmo que durante um tempo a gente conversasse
sobre tudo na vida, agora parecia frio e distante e eu não tinha o direito de entrar
em assuntos que não me diziam respeito. O olhar dele se fixou no teto e eu fiquei
surpresa ao ouvi-lo, mesmo que sem olhar para mim.
─ É como se a gente tivesse vivido uma cena de um filme, ou vivido a
história de outra pessoa. Imagina descobrir que você amou uma farsa. Minha
mãe não era minha mãe. Meus irmãos não eram meus irmãos. Não dos mesmos
pais. E de troco descobri que sua mãe não te quis, te abandonou.
─ Eu senti esse abandono quando minha mãe partiu. Deixando-me
sozinha. Passei cinco dias em um orfanato até que localizassem minha tia para
me entregar a ela.
─ Sua mãe não teve opção Sofia, ao contrário da minha. Ao contrário de
meu pai, da Catarina, do Liam, que sabiam e não nunca tiveram a coragem de
me dizer a verdade. E se de repente, se eu precisasse de uma doação de sangue
ou algo parecido?
─ Claro que te contariam.
─ Não. Nunca me contariam. Só soube por que cheguei a um momento
errado e os ouvi falar. Apenas me tratariam com indiferença pelo resto da vida.
Como sempre trataram.
─ Mas, sempre te deram do bom e do melhor.
─ Vai aprender que certas coisas não se compram.
Claro que eu sabia. Lembro-me que depois que a senhora D’Angelis
descobriu as dificuldades da Angel com o português, ela me contratou para dar
aulas particulares para a filha por longo período e mesmo assim, a Angel nunca
teve notas boas. Vivia levando agrados aos professores, e mesmo assim suas
notas eram sempre baixas. E um dia a ouvi dizendo a filha... “o que não aceito é
uma pessoa como a Sabrina ser mais inteligente que você”. E talvez por isso, ela
não queria voltar à casa dos pais tão cedo.
─ E o que pretende fazer quando voltarmos. ─ Ele se sentou e me
encarou por longos momentos.
─ Queria o mesmo que você. Não ter que voltar. Como não podemos,
terei que viver um dia após o outro com minha nova verdade. Só isso.
─ E vai continuar vivendo à custa da família? ─ Falei sem pensar e tentei
corrigir. ─ Não foi o que quis dizer.
─ Claro que não, porque não sei se entendeu... Não sou filho da Catarina
e o dinheiro não vem dela. Apenas a elegância. Como filho de Álvaro
D’Angelis, continuo tendo os mesmos direitos, mas... Fique tranquila. Eu não
vou depender do esforço do Liam, se é o que pensa. Inclusive há mais de dois
anos trabalho. Ou você pensa que de fato um homem na minha idade passaria
todos os dias em um clube jogando golfe e bebendo com os amigos?
─ Ficaria de boca aberta de quantos homens fazem isso. Ficaria bobo se
soubesse quantas pessoas que tem dinheiro, e não tem sequer uma formação
acadêmica. Não é o seu caso, mas eu nunca imaginei você trabalhando com
Publicidade e propaganda.
─ É... Você não me conhece.
─ Eu pensava que sim. Conversamos durante tantos anos, e agora vejo
que não conheço mesmo.
─ A gente só falava do Liam. E acha que nunca percebi que
simplesmente me contava de sua vida para que eu transmitisse a ele? ─ Se ele já
sabia e não se importava, não tinha por que lhe pedir desculpas. ─ Agora, se não
se importar, podemos decidir nossa vida?
Eu descobri naqueles dias, que o Mark gostava muito de dançar. Quase
todos os dias, me levou em alguma boate, e o melhor de tudo, era que, o que eu
via em filmes e novelas... Aconteceu! A gente nunca precisava ficar na fila. Ele
sempre dava um jeito de nos deixarem entrar.
Ele era divertido e se movia com tamanha perfeição. Ah! E nunca me
deixava beber mais que o necessário.
E foi com imenso pesar que entramos no voo de volta para o Brasil. Mas
antes do desembarque eu o tinha perturbado tanto, que me prometeu que um dia
voltaríamos ali, mesmo que como amigos.
O carro percorria as ruas da cidade de São Paulo, e eu já esperava por
aquele clima horrível em que havia se tornado a casa dos D’Angelis. E foi dito e
feito.
─ Quero saber por que não ficou na casa da Dinda, como combinado? ─
O Liam nos esperava à porta, e nem bom dia deu. ─ O que houve? Qual a parte
do “estamos sem grana” você não entendeu?
─ Oi Liam! ─ O Mark respondeu tão calmo que pensei que o Liam o
mataria naquele momento. E agora eu era também responsável pela falência dos
D’Angelis, porque havia ficado no hotel caríssimo e aproveitado de todas as
mordomias que o Mark me oferecera no decorrer de todo o tempo.
─ Mark, quando criará juízo? Tínhamos um combinado. Você sabia
perfeitamente nossa situação.
Enquanto o Liam falava, sua mãe começou a descer as escadas.
─ Não comecem, por favor, minha enxaqueca está cada dia pior. ─ Se
aproximou do Mark e beijou seu rosto, porém ele retribuiu apenas com um “oi
Catarina”. ─ Não Mark, chamou-me durante toda vida de mãe, e agora quer me
punir por tê-lo criado como meu filho?
─ Hum! ─ O que ele queria dizer com esse “hum”? Eu não fazia ideia,
mas estava triste pelo Mark, mesmo entendendo a situação financeira dos
D’Angelis e o desespero do Liam.
─ Liam, eu ─ Comecei meu discurso de tentar justificar nossa situação,
mas o Mark me interrompeu e acho que surpreendeu a todos.
─ Não temos que dar satisfações Sofia. Quem armou todo esse circo que
pague pelos palhaços. ─ Com certeza, se estivéssemos apenas os dois, teríamos
rido da frase engraçada dele. Assim como sorrimos a semana toda de várias
situações em Londres.
─ Eu não estou de brincadeira seu irresponsável. ─ Quando o Liam ficou
de frente com o Mark, mostrando uma fúria no olhar, eu me desesperei. Fiquei
entre os dois. Mas o Mark não se intimidou. E fisicamente não deveria ter medo
do irmão. Ambos eram altos, de porte atlético. A diferença era que, o Liam tinha
cabelos castanhos claros. E o Mark os cabelos bem pretos. O que realçava ainda
mais seus olhos azuis.
─ Nem eu! Se fosse um bom administrador como se gaba tanto, devia ter
visto que nenhum centavo saiu da conta dos D’Angelis.
─ Como assim? A dinda disse que estavam em um dos hotéis mais caros
da cidade.
─ Se não saiu de seu bolso, não te diz respeito. ─ E dizendo isso se
afastou e subiu as escadas. Quando fiz menção de subir o Liam me deteve
segurando meu braço.
─ O que houve? Por que não me ligou? Estava contando com você Sofia.
Eu disse a ele que não achei necessário, mas que havia até tentando e não
conseguido falar com ninguém. Omiti a parte em que o Mark havia tomado meu
celular no primeiro dia. E de fato, não achei necessários nos dias em que se
seguiram.
─ Lembre-se Sofia que essa situação é temporária. Por tanto, tome
cuidado de não se apaixonar pela pessoa errada.
─ Liam? O que pensa que sou?
─ Não é isso! Não desconfio de você. Mas você é ingênua e não deve se
deixar iludir pelo que homens dizem ou prometem.
─ Eu já me iludi uma vez por um dos D’Angelis, Liam. Sei cuidar de
mim, e não vou cair na mesma armadilha por duas vezes.
─ Espero! Seria dolorido ver você sofrer por alguém que não comunga
das mesmas expectativas que você.
─ Fala de seu irmão ou de você próprio? ─ Eu não sabia de onde havia
tirado tamanha coragem. ─ Me desculpe Liam. Nosso combinado está feito, e eu
cumprirei. Apenas não fique insinuando coisas onde não existem. E muito
menos, me pressionando por uma situação que você mesmo criou.
Soltei meu braço de suas mãos e subi as escadas. No ultimo degrau, ele
ainda murmurou algo, que não mereceu sequer resposta.
─ Você dormiu com ele?
Abri a porta do quarto, entrei e a bati com toda força atrás de mim.
─ Owww! Que isso? Sabe quanto custa uma porta dessa garota? ─ O
bom e velho Mark estava de volta.
─ Eu odeio vocês dois! ─ Disse jogando minha bolsa até ao chão e
correndo para o banheiro. Ali eu chorei por alguns minutos e só quando me senti
melhor saí. Encontrei o Mark com uma garrafa térmica na mão e uma xícara.
─ Pedi à cozinheira que fizesse um chá. Talvez assim, se sinta melhor.
─ À minha tia você quer dizer. ─ Peguei a xícara de sua mão.
─ Não... À nova cozinheira. Sua tia agora será apenas governanta da
casa. Depois veja que ela está de quarto novo. Aquele próximo à cozinha. ─ O
quarto era enorme e ficava dentro de casa, sempre disse à minha tia que era ali
que devíamos dormir, e ela nunca teve coragem de falar com a patroa. Estava tão
feliz! Mais tão feliz, que o abracei e beijei seu rosto. E depois eu fiquei sem
graça.
─ Fiquei muito feliz com a notícia. Eu não dormiria bem pensando nela
sozinha naquele quarto.
Tomei o chá e depois desci para ver minha tia. Ela parecia feliz e muito
mais elegante que o normal. Na verdade, estava descansada. Abracei-a e olhei ao
redor.
─ Eles já deviam ter feito isso há muito tempo. Que bom que tomaram
consciência.
─ Não meu bem! Eu relutei em vir, então o Liam me disse que era mais
uma das exigências do Mark. Caso ele voltasse e não me encontrasse dentro de
casa, seria adeus casamento.
─ Ele chantageou o irmão.
─ É o que parece.
Naquela noite eu faria a mais ousada das loucuras que uma mulher
agradecida poderia fazer. Depois do jantar, fomos até o jardim, caminhamos por
quase uma hora, e quando subimos fingi estar dormindo. E quando ele se deitou,
eu me virei e beijei seus lábios. Ele me repudiaria e falaria em minha cabeça,
mas estava feliz demais para me importar. Mas ele não se afastou. Ele tocou meu
rosto e retribuiu.
Sete.
Sofia,
Acordei cedo e inquieta pelo que tinha feito. Eu havia beijado o Mark, e
tinha quase certeza de que ele iria querer uma explicação. Não tínhamos dito
uma palavra sequer após o ocorrido, mas pela manhã eu tinha certeza que ele
falaria. Eu conhecia bem o Mark. Nunca fora de levar desaforos para casa.
Sempre me questionando, indagando sobre os menores detalhes. Colocando-me
contra a parede, me arrancando até a última palavra. Eu lhe diria que foi um
impulso, que não tive a intenção e que... Eu não sabia como me justificar. Na
hora certa, as palavras certas sairiam. Nada de discurso pré-pronto.
Tomei banho e me vesti com um dos looks que havia comprado em
Londres. Como o Mark ainda dormia e meu coração batia descompassado, desci
até a cozinha e ajudei a menina com o café. Quando minha tia adentrou a
cozinha ficou perplexa e ainda brincou comigo...
─ Uma D’Angelis na cozinha?
─ Para com isso, tia. E na verdade, desci pensando em preparar um café ao
meu marido. ─ Sabia que isso lhe traria um sorriso de orelha a orelha. Eu não
queria lhe dar falsas esperanças quanto a mim e ao Mark, mas... Naquele
momento falava a verdade. Ele era meu marido, ao menos no papel, e o café era
para ele.
Mais que depressa, ela enfeitou a bandeja, e colocou o que tinha de melhor,
sobre o olhar atencioso da novata, que observava o serviço. Quem sabe na
próxima faria da mesma forma. Subi com o café, e por sorte não encontrei
ninguém pelo caminho. Não que eu precisasse me esgueirar pela casa, afinal, era
um gesto que qualquer esposa faria ao seu marido, mesmo que fosse pra manter
as aparências. Mas se o Liam estivesse por ali, claro que estranharia a situação.
Quando entrei no quarto a cama estava vazia, ouvi o barulho da água do
chuveiro, e enquanto ela caía, eu fiz a cama, e coloquei a badeja sobre ela. E
quando eu olhei para tudo aquilo uma sensação percorreu meu corpo, eu poderia
jurar na outra noite enquanto meus lábios estavam sobre os do Mark, que a gente
já tinha vivido aquilo. Eles tinham um beijo muito parecido. Era muito parecido
com o beijo do irmão dele. Eu me lembro como se fosse hoje quando deixei de
ser “BV” em meu aniversário de quinze anos. O Liam me prometeu um presente.
E quando me beijou... E agora quando beijei o Mark. Mas era loucura, claro.
Eram irmãos! Deviam ser iguais em muitas coisas. Muitas coisas.
─ Pensando em mim na cama? ─ Ele acabou saindo do banho e me
pegando de surpresa. E todas as minhas estratégias se foram por água abaixo.
Havia algo na loção do Mark que me deixa inebriada. Devia ser algo de sedução
que eles usavam justamente para tirar a concentração das clientes.
─ Não seja tão convencido Mark. ─ Seu sorriso também era. E não era para
eu me sentir assim. Ah não. ─ É um pedido de desculpas. ─ Fui logo dizendo e
arrancando o sorriso de seus lábios.
─ Sei!
Bingo! Eu tinha acertado em cheio. Seu ego. O Mark se sentia o cara.
Nunca esperaria que eu pedisse desculpas pelo beijo. Devia esperar me jogar na
cara que não gostava de mulher. E eu tinha ganhado um ponto dando o primeiro
passo.
─ Pensei que houvesse se esquecido de tudo que o Liam havia lhe dito a
meu respeito. ─ Sentou-se e tomou o café em silencio, e um arrependimento caiu
sobre mim. Sabia que o assunto ainda pesava sobre ele.
Quando o vi se levantar, e entrar e passar por mim para ir ao closet tentei
pedir desculpas.
─ Mark,
─ Fica tranquila, Sofia. Iremos sobreviver.
Fui até a porta closet, em uma última tentativa de me desculpar, e antes
que entrasse ouvi bater à porta do quarto e me afastei.
─ S-Sim! ─ Gaguejei, tentando ser o mais natural possível.
─ Sofia, é o Liam, estamos esperando você e o Mark para o café. Se
puderem descer o mais rápido, por favor.
─ Ah, sim! ─ Abri a porta e vi o Liam. Como estava lindo. Como eu
sempre o vi em meus sonhos. Ele sorriu, roubando todos os meus suspiros, e
afastando as angustias que o Mark trazia ao meu coração. Estava tão sorridente.
Como se há muito não estivesse ali, e de repente simplesmente de volta. O
mesmo Liam que desceu do carro em minha infância, estava à minha frente.
Como se tivessem devolvido a ele toda sua vida. Ele parecia estar livre. ─ Um
momento e nos juntaremos a vocês!
─ Temos notícias. ─ Para ele estar tão eufórico, só poderiam ser notícias
boas.
Ele desceu e eu esperei ansiosa pelo Mark, e por saber da notícia que
viria. Esfregava uma mão na outra quando ele saiu do closet, vestido como
sempre, casualmente, por isso ninguém nunca desconfiara que ele fosse ao
trabalho, estava bonito, mas já não conseguia atrair minha atenção porque nada
era mais importante agora que as vozes que vinham do piso de baixo.
─ Sua família nos aguarda para o café. ─ Ele fez com quem não me
ouvia. ─ Mark, eles tem um assunto a nos comunicar.
─ Não tenho interesse no assunto, e muito menos no café, porque já o
tomei.
─ Não entendo Mark. Achava até a pouco, que você era a vítima em toda
essa história, mas vejo que não.
─ Nunca quis passar essa impressão.
Então eu desci. Acreditando que o Liam tinha razão. O Mark não fazia
por onde a família respeitá-lo. Ou tratá-lo de forma correta.
─ Sofia! O Mark não vem? ─ Eu não mentiria.
─ Está indisposto.
─ Sei! ─ Ela deixava bem claro que não estava acreditando no que eu
dizia naquele momento. ─ Mas tudo bem! Comemoraremos sem a presença dele.
Sente-se minha querida. Aqui, ─ Estava enxergando bem, ou a mulher acabava
de puxar-me a cadeira ao lado do filho mais velho?
─ Comemorar? ─ Minha tia entrou na sala, com outra menina, bem mais
nova e serviram o café. Depois de servido, ainda se falaram de outros assuntos
para depois voltarem a falar do assunto principal. E quem ficou de pé, foi o
Liam, que se dirigiu a mim.
─ Sofia, estamos aqui hoje, e gostaria que toda família estivesse reunida
para saber que, ─ ele estendeu a mão para a esposa. Ela sorriu se levantou
segurando sua mão e como se fôssemos amigas de velha data, de repente me
abraçou.
─ Meu pai aceitou a transferir minha herança para meu nome. ─ Estava
tão eufórica que pulamos juntas abraçadas uma à outra, comemorando.
Então era isso! Quando o pai transferisse o dinheiro para ela não haveria
mais motivo para ficarem casados. Ela estaria livre! O Liam estaria livre! Então
nós poderíamos viver nosso felizes para sempre! Uma alegria invadiu meu
coração! Eu entendia a felicidade que emanava do Liam. Agora eu entendia o
clima da casa. Eu também estava me sentido livre, leve e solta naquele
momento. Tão solta que em um impulso eu a soltei e saltei sobre o Liam. Ele
estava livre! Livre para mim.
─ Liam! Como fico feliz!
─ Não é... Maravilhoso isso?
─ Muito! Estou até sem palavras!
─ Nós também minha querida! Nós também! ─ “Minha querida!” Essas
palavras encheram de vida meu coração.
Pronto! Eu poderia deixar meu casamento com o Mark, e poderia me
entregar ao Liam como sempre sonhei. Meu príncipe encantado! E por pouco
não o beijei ali mesmo. Ainda estávamos de mãos dadas, sem perceber, quando
ouvi palmas.
─ Maravilhoso? ─ As palmas continuavam. Cheguei a pensar que fosse o
Mark querendo acabar com a comemoração, mas as palmas vinham da Senhora
D’Angelis à nossa frente com um sorriso, mas como se tivesse algo mais a
acrescentar. ─ Sim! É maravilhoso! Mas eu não digo em termos financeiro.
─ Sim, mãe! Principalmente em termos financeiros! A Lana prometeu e
irá nos ajudar a colocar em ordem as contas da família.
─ Claro, que sim! Esse foi o combinado. ─ A Lana havia ganhado minha
simpatia total nesse momento.
─ Não tenho dúvidas crianças. Não tenho dúvidas. O dinheiro virá em
boa hora, ─ Sabia que se tratava de financeiro, mesmo a Senhora D’Angelis não
querendo admitir. ─ Porém, isso não é tudo Sofia! O mais importante nesse
momento é,...
─ Mãe! ─ O Liam, falou tão alto, que eu me assustei. Nunca o tinha visto
tão alterado. Claro que esse era o tom dele com o Mark, mas com a senhora
D’Angelis nunca.
─ Liam, o motivo de esta fortuna ter chegado até vocês, foi simples. O
pai da Lana só depositaria o dinheiro mediante o comprovante de que ela... ─
Quando ele tentou interrompê-la pela segunda vez, ela não se intimidou e
prosseguiu. ─ Era que ela estivesse grávida. E graças a Deus...
A mulher continuava falando, a Lana estava sorrindo, mas eu já estava
ali, só de corpo presente. Meus olhos estavam fixos no Liam, mas minha mente e
meu coração estavam vagando em outra dimensão. Não ouvia mais a Senhora
D’Angelis, embora sua boca continuasse se mexendo. Via o Liam se aproximar
de mim, e comecei a me afastar dele. Suas mentiras. Suas promessas. Tudo o que
vinha dele era falso. Na verdade, o Liam nunca existiu em minha vida. Não
passou de um falso ideal.
─ Sofia? ─ Eu queria sair dali, correr. Esconder-me do mundo, mas ele
me arrastou até a biblioteca. ─ Precisa me ouvir. E tem que ser agora.
─ Não sei se temos algo a nos falar Liam.
─ Claro que temos. Você viu que a Lana está sem graça. Minha mãe fez
aquilo simplesmente por maldade. Conhece bem como ela é. Mas nada muda
entre nós. Em um ano iremos nos separar.
─ Liam, existe um bebê. Um filho... Vocês agora serão pais.
─ E continuaremos sendo, mas, não nos amamos Sofia. Não nos
amamos. A Lana ama outra pessoa. ─ Limpei meu rosto, e tentei digerir todas as
informações.
─ E por que ela não se casou com essa pessoa?
─ Você não entende Sofia. Não adianta eu tentar explicar. São tradições
familiares, laços e nomes, que precisam ser respeitados.
─ E o amor Liam? Ele não conta? ─ Ele respirou fundo, me dando a
resposta que precisava. Saí da biblioteca deixando ele ainda falando sozinho.
Subi até o quarto e descobri que o Mark já tinha partido. Peguei minha bolsa e
saí de casa sem que me vissem.
Meu rumo era ignorado. Só queria pensar um pouco o que fazer da minha
vida. Caminhei até parar diante da escola onde fiz o ensino fundamental. Sentei-
me ali no pátio e vi as crianças brincando. Lembrei-me de detalhes de minha
vida, esquecidos por mim, depois que coloquei o Liam no topo de minha lista.
Eu tive sonhos um dia. E acabei os deixando para trás. Abandonei meus
sonhos e a mim mesma por uma ilusão, e agora eu tinha exatamente nada.
─ Sofia? ─ Me virei para ver minha antiga professora.
─ Professora Thaisa? ─ Ela tinha feito o diferencial em minha vida, e
tive certeza que um dia eu também tinha feito o diferencial na vida dela.
─ Sofia D’Angelis! Eu sempre soube que seria alguém importante na
vida. ─ Eu sorri.
─ E sabe o que eu sempre soube professora? Que eu sempre seria
professora como à senhora. E acabei não sendo ninguém. Meu sonho era ensinar,
e nem estou sabendo conduzir minha vida. ─ Ela me abraçou.
─ Então veio ao lugar certo. Sabe o que é isso? ─ Me entregou um papel.
─ Estava indo ao TI, pedir para colocarem a vaga no site. Uma professora irá
sair de licença a maternidade. A vaga é temporária, e eu sou responsável pela
contratação. Se estiver disposta, a vaga é sua!
No momento eu não pensei duas vezes. Eu só sabia que não queria assim
como o Mark, viver das mentiras da família D’Angelis, e nem poderia viver para
sempre do salário de minha tia. Quando fiz estágio remunerado foi à melhor fase
de minha vida. E agora estava sendo minha oportunidade, e eu disse:
─ Sim!
─ Começa segunda-feira!
Eu saí do lugar, cheia de livros e arquivos para estudar e preparar aulas.
Assim, não teria que pensar nem em Liam, nem em Mark.
Passei no antigo quarto de minha tia, e revirei meus livros, peguei meu
notebook, e passei a tarde trabalhando nas aulas da próxima semana e descobri
que foi a tarde mais gostosa que passei depois que voltei de Londres.
Londres! Como eu queria voltar. Balancei a cabeça afastando os
pensamentos e voltei a focar nos estudos. Quando parei era noite. E me assustei
ao ver que era bem tarde. Minha tia trazia o jantar, uma vez que não havia
descido para fazer a refeição junto aos demais.
─ O Liam pediu para trazer.
─ Não precisava tia. Estava aqui me divertindo.
─ Imagino que sim. Contou a ele?
─ Prefiro que não saibam. Se puder...
─ Nem precisa falar minha filha.
─ Se o Mark faz isso, eu também farei.
─E lhe fará muito bem!
Quando o Mark chegou naquela noite, tomou banho e se arrumou
impecavelmente.
─ Vai sair?
─ Não é o que parece? ─ Disse grosseiramente sem se virar para mim.
─ Soube de seu irmão e sua cunhada?
─ Ontem!
─ E não dirá nada?
─ Quer que eu fique em casa e te console? ─ Como não continuei, ele
veio até a mim, e sentou-se ao meu lado suspirando desanimado. ─ Tem a opção
de ficar em casa chorando pelo Liam. E tem a opção de me acompanhar até o
lançamento de uma revista em uma boate de um amigo. ─ Eu estava cansada,
mas pensei ser uma boa ideia. Lembrei-me das boates que fomos a Londres, e
sorri.
─ Está me convidando para te acompanhar?
─ Não. Estou te dando uma opção de não ficar se lamentando a noite
toda sozinha em casa.
Antes que ele se arrependesse, pulei da cama, tomei banho e me vesti.
Pensei em escovar meus cabelos, era a preferência do Liam, mas me lembrei de
que o Mark gostava deles, assim... Em cachos.
─ Estou bem! ─ Ele não admitiria, mas eu me via no espelho e me sentia
bem!
Quando descemos, o Liam tentou me fazer desistir da proeza de
acompanhar o Mark.
─ Sofia, está ferida. Não piore a situação. Não faça nada que venha a
ferir-nos mais ainda. Quando estamos com o coração magoado, não devemos
responder a nada. Pense bem!
─ Não se preocupe Liam, trarei sua princesa, são e salva, ao fim da noite.
─ Eu acredito que se a Lana não tivesse estado entre os dois naquele momento o
Liam teria socado a cara do Liam.
Eu saí empurrando o Mark, e assim quando chegamos ao carro ele me fez
parar.
─ Acho melhor você entrar.
─ Se arrependeu?
─ Eu não quero ficar nesse pé de guerra com o Liam por algo que não me
pertence Sofia. Quando éramos crianças a gente era muito feliz. ─ Ele encostou
as duas mãos no carro e fechou os olhos. ─ E na adolescência eu sempre sonhei
ser como o Liam. Havia algo errado comigo. Os meninos se aproximavam de
mim para serem amigos do Liam. As meninas queriam estar comigo para saber
se o Liam estava namorando. Como ele era, e por muito tempo eu me culpei por
ter inveja do meu irmão. Uma vez eu queria jogar água oxigenada no cabelo para
ver se parecia com ele. Queria colocar lentes castanhas para cobrir meus olhos
azuis. Jogar futebol americano. E em nada disso eu me encaixava. Um dia me
lembro de que peguei uma camisa dele e ficou horrivelmente grande para mim, e
a senhora D’Angelis me deixou uma semana sem doce. Ela sabia que eu amava
sobremesas, e hoje eu entendo como foi fácil para ela fazer aquilo comigo,
porque ela não faria isso com nenhum dos dois filhos, mas ela me ensinou
naquele dia, que nunca na vida eu deveria querer nada, nada que fosse do filho
dela. E eu ingênuo. ─ Ele falava firme, mas eu tinha um nó na garganta. ─ Entra,
por favor.
Eu deveria ter insistido, mas ele entrou no carro e tão rápido, que mal deu
tempo de raciocinar, e dizer que eu queria ir. E minutos depois o Liam se
posicionava ao meu lado.
─ Foi à melhor escolha a ser feita, Sofia. ─ Eu não disse nada.
Eu não consegui dormir. Queria que o Mark voltasse. Que pensasse
melhor e que viesse me buscar. Mas quando bateram à porta, não foi o Mark.
─ Sofia, vem comigo.
─ Onde?
─ Um amigo meu quer que eu veja algo.
─ E acho que não diz respeito só a mim.
O Liam estava de pijama e me conduziu até o carro. Eu ainda não tinha
me trocado, esperando o Mark. Ele dirigiu até um lugar um tanto longe de casa.
Entramos em uma porta estreita, e só então ouvimos um barulho estridente da
música.
─ Por aqui companheiro. ─ Um homem de preto com uma máquina na
mão nos recebeu. ─ Eu o estava seguindo como o senhor pediu, e quando vi, tive
que avisá-lo.
─ Fez bem! Vou tentar levá-lo para casa, me ajuda? ─ No mínimo o
Mark devia estar bêbado, foi o meu pensamento naquele momento, mas as luzes
coloridas eram muito fortes, e de longe eu o vi apenas dançando, e quando ele se
virou e me viu sorriu, mas depois seu sorriso perdeu a cor ao ver o Liam, e foi
quando aconteceu. Um rapaz muito bem vestido se aproximou entregou a ele um
copo e o beijou. Na boca!
Oito.
Sofia,
O olhar de perplexidade tanto do Mark, quanto do rapaz que o olhava
arrependido do ato que acabava de praticar dava a entender que aquilo era muito
novo para os dois. Eu não era idiota.
─ O que eu fiz? ─ O pobre levou as mãos à cabeça e se abaixou
chorando. ─ O que eu fiz meu Deus? ─ Mas era tarde! Eram muitos os flash e
fotógrafos e celulares em volta.
O Mark olhava para o rapaz abaixado ao chão sem esboçar nenhuma
reação. E eu nem percebi que alguém se aproximava e empurrava o Liam.
─ Eu sabia! Quando eu vi você aqui D’Angelis, esperava por alguma
desgraça.
─ Deixa Bento! ─ Foi à primeira manifestação do Mark. As lágrimas
corriam em seu rosto.
─ Mark, isso não pode ficar assim, tenho certeza que... ─ Ele bateu a
mão no ombro do rapaz que chamara de Bento.
─ Pior que viver com a verdade é encarar a própria consciência Bento.
Conviver com ela todos os dias. ─ Mark passou por nós, sem ao menos olhar em
mim. Ele devia estar pensando que eu estava junto do irmão naquilo tudo e eu
não estava. Precisava saber. Sai correndo atrás dele. Mas alguns dos homens ali,
me impediram de sair. Eu tive quase certeza que fizeram uma barreira de
propósito. E quando cheguei do lado de fora, ele já tinha partido. Com certeza
ficaria sumido durante um tempo e depois... Depois voltaria.
Porém eu não queria correr o risco. Ao longe avistei o amigo dele. Corri
até lá, não dava para esperar o Liam sair.
─ Bento! ─ Ele se virou e fingiu não me ouvir. ─ Bento, por favor, me
leva para casa. Eu preciso ver o Mark.
─ Se for para massacrá-lo mais que já fizeram...
─ Por favor! ─ Ele entendeu minha aflição e me levou até lá.
Mal o carro havia parado eu desci e corri portão à dentro, sem me
preocupar com o escuro, ou com o barulho que meus sapatos faziam quando
entrei na casa. Subi as escadas, e entrei no quarto. Ele não estava no banheiro.
Nem no quarto. Fui até o closet e lá estava. De costas estava, e assim
permaneceu, dobrando as roupas e colocando na mala.
─ Vai embora de casa?
─ Casa Sofia? Casa não é um lugar onde vivem conspirando contra você.
Casa é um lugar para onde você volta porque existem pessoas que te amam e te
esperam. Pessoas que partilham suas alegrias e tristezas. Vitórias, derrotas. Não
estava mais chorando, mas estava triste. Eu passei tantos anos com o Mark que
ali, o vendo tão de perto, me dei conta que o conhecia mais que a mim mesmo. ─
E o que eu sou nesse lugar?
─ Você não é gay Mark. ─ Ele se virou e me olhou assustando. Deu um
sorriso amargo, e fez de tudo para segurar as lágrimas.
─ Não ouviu meu irmão? Não viu o que ele te levou para ver ainda há
pouco? ─ Eu vi! Eu ouvi. E vi o olhar dele de assustado. Aproximei-me. E
toquei seu rosto.
─ É?
─ Porque acha que sou hétero? ─ Agora eu não achava, tinha certeza. Ele
fechou os olhos e sentia o toque de meus dedos em seu rosto.
─ Porque o dia que te beijei sua reação foi totalmente contrária. Você
retribuiu. Em nenhum instante me afastou de você.
─ Mas hoje mandei você de volta ao Liam.
─ Porque achava que eu pertencia a ele.
─ Ainda acho. ─ Me aproximei ainda mais, e ficando na ponta dos pés
passei meu rosto no seu.
─ Não! Não pertenço a ninguém. Senão a mim mesma.
Senti suas mãos segurarem meus cabelos com força e sua boca cobrir a
minha. Encostou-me contra a parede e tomou todo meu fôlego para si.
Deixando-me completamente sem noção de tempo e espaço.
E suas mãos passearam por meu pescoço como se tivesse um desejo de
me enforcar, eu até cheguei a pensar em determinado momento que o chegaria a
fazer, mas no ultimo momento, desceu até meus seios. Foi uma experiência
única.
─ Mark!
─ Sofia!
Foram as únicas palavras pronunciadas por nós naquela noite. No mais,
ele me tomou nos braços, e me levou até a cama, e trancou a porta. Retirou toda
minha roupa, e eu o ajudei a se despir. Foi mágico. Como eu nunca sonhei. Com
o Liam, eu tinha sonhos loucos e desejos perversos, mas o Mark, ele foi de longe
parecido com o que eu imaginava que o Liam seria.
Eu sempre ouvi as meninas falarem sobre o Liam, e por isso imaginei as
piores safadezas do mundo por ele ser mais velho, mas não fazia ideia de como
seria com o Mark, por nunca imaginar nós dois, e foi... Sensacional.
Ele foi doce. Cuidadoso.
Sabia que era a minha primeira vez. E tomou cuidado, quando eu me
retraí. Foi másculo quando eu me senti preparada. Fez-me sentir coisas que eu
jamais pensei sentir em minha primeira vez e se protegeu para que eu não
engravidasse, e assim aproveitasse a vida.
Meu corpo se contorcia sob o peso do seu a cada vez que sua respiração
encontrava meu ouvido, ou a cada vez que seu rosto molhado tocava minha pele.
Fui obrigada a me segurar em seus cabelos quando me veio o desejo de
explodir de alegria e euforia. E eu o fiz. O arranhei. Mordi seu ombro. Não sabia
se tinha esse direito, e mesmo assim o fiz. A noite foi nossa, e por duas vezes ele
sussurrou em meu ouvir que a casa toda estaria em pânico nos ouvindo.
Eu não ligava. Estava fazendo o possível e o impossível para ser o mais
silenciosa possível, mas não me importava mais. E quando ele me viu entrar em
clímax, apenas me beijou para que eu não gritasse, e desabou seu peso sobre
mim.
Agora estava oficializado, ele era meu marido. Não só no papel, mas
tatuado em todo meu corpo dolorido e lânguido pela cama.
─ Machuquei você?
─ Não! Deve estar pior. ─ Me referia à mordida no ombro.
─ Nada que um bom banho não cure. ─ Ele pulou da cama, e eu o
acompanhei. Quantas vezes eu tive esse desejo.
Durante o banho nos beijamos. Ficamos abraçados. E quando saímos, ele
simplesmente disse que para todas as circunstâncias, o plano do D’Angelis
continuava de pé.
Antes de nos deitarmos, ouvimos o Liam bater aporta forçar a maçaneta.
Parecia embriagado, mas preferimos não abrir. Eu falaria com ele na manhã
seguinte. Mas antes de dormimos eu precisava fazer algo.
─ Mark...
─ Sim! ─ Estava deitada sobre seu peito, e me sentia tão realizada
naquela noite, que precisava dizer isso a ele.
─ Eu... Consegui meu primeiro emprego como professora. Começo na
segunda que vem.
Ele se virou, me trocando de posição, ficando por cima, e sorriu.
─ Está realizando seu sonho Sofia. Queria tanto ser professora.
─ Sim! Eu sonhei com isso um dia. Lembra? ─ Me beijou! Me deus os
parabéns e disse que torcia muito por mim. E assim como eu, achava que a
família não iria aprovar, mas faria de tudo para que desse certo. Dormimos
abraçados, o resto de madrugada. E quando o sol adentrou meu quarto, eu era
uma nova pessoa.
─ Sofia! Sofia!
─ O Liam vai quebrar a porta.
O Próprio Mark se levantou e foi abrir. Assim, que o fez, foi direto para o
banho. E o Liam entrou como o cão no quarto querendo satisfações.
─ Por que me deixou naquele lugar sozinho? Cheguei aqui e parecia não
ter ninguém. Voltei até lá. Não encontrei ninguém. ─ Ele devia ter bebido o
bastante.
─ É, Liam, me perdi na multidão.
─ Você está bem?
─ Estou! Só com sono.
─ Já viu as manchetes? As redes sociais?
─ Ainda não, mas... ─ Eu não deixaria que falassem assim do Mark. Não
sobre esse assunto. O defenderia, mesmo que tivesse que ir contra o que ele
havia me pedido.
─ Sofia, eu não fiz por mal. Só fui até lá para trazê-lo de volta, porque
me disseram que ele estava bebendo muito e o tal amigo gay dele estava lá, e
estavam fotografando os dois.
─ Liam, a gente pode conversar daqui a pouco? Eu só vou me trocar e a
gente se fala.
─ Sim! Claro. Vou descer e te espero na biblioteca. ─ Ele virou as costas,
e quando pensei que iria fechar a porta, ele me chamou de volta, e a porta do
banheiro começou a se abrir. ─ Sofia, eu sempre te amei. Desde o primeiro
instante em que te vi. E sei que em breve tudo irá se resolver entre nós. ─ Eu não
tive palavras. Ele fechou a porta e se foi. Porque não havia dito aquilo durante
todo esse tempo. Agora meu coração parecia frio para aquela informação.
─ Mark.
─ Era o que você esperava todos esses anos.
─ Porém, não é o que eu quero viver nesse momento.
─ Eu te disse ontem que eu não quero o que quer que seja do Liam.
─ Então se lembra da nossa conversa. Eu te disse que não era de
ninguém. E você me teve para você. Eu vou tomar banho e vou ficar
extremamente decepcionada se não me esperar para o café.
E ele estava vestido e deitado por cima das cobertas, me aguardando para
descermos.
─ Por que sente tanto prazer em irritá-los? Por que simplesmente não
conta que não é homossexual? ─ Enquanto terminava de me arrumar, toquei no
assunto, e ele me respondeu tranquilamente.
─ Não é tão simples.
─ Pois para mim parece.
─ Só porque me experimentou na cama, nem todos vão acreditar. Vão
achar que só quer ajudar um pobre coitado.
─ Posso experimentar por todos e sair gritando pelos quatro cantos do
mundo.
─ O Liam me ouviu em uma conversa. Foi isso. ─ Então, havia algo.
Uma verdade. Ainda estava me vestindo quando ouvimos vozes no piso de
baixo.
─ Mark? Mark? Desce agora? Mark?
─ Meu Deus! Não me lembro de uma manhã que se pudesse tomar um
café em paz nessa casa. ─ Ele brincou. ─ Ainda bem que dessa vez é voz
feminina, caso contrário estava enrolado.
A porta do quarto foi aberta sem nossa permissão e Angel D’Angelis
adentrou o quarto sorridente e pulou sobre o Mark.
─ Por que não desceu quando te chamei?
─ Estava descendo. ─ Não havia resquícios daquela menina apática e
meiga do passado. Cabelos vermelhos. Roupas transadas. E o linguajar nada
parecido com os D’Angelis. ─ O que faz aqui?
─ Vim te salvar. ─ Ele gargalhou. ─ Vem!
Descemos todos e a família estava em polvorosa na sala de estar. Havia
uma amiga da Angel esperando por ela.
─ Mark, essa é Kate, de quem eu tanto lhe falo. ─ Ele se aproximou e a
abraçou.
─ Prazer em conhecê-la pessoalmente Kate.
─ O prazer é meu cunha, ─ a Angel, deu um cutucão nela, e depois
sorriu. ─ Mark. É muito mais bonito pessoalmente que nas fotos.
─ Essa é a Sofia, minha... Esposa, forçada pela família.
─ Oi Kate, ─ Estendi a mão. ─ Não liga para o Mark.
Só depois de nos apresentar, a Angel apresentou a mãe, o irmão mais
velho e a cunhada Lana. Ela contou sobre o trabalho. Sobre os bens da família da
Kate. O atelier onde as duas trabalham. Para as famosas as quais já costuraram e
os desfiles os quais produziram, e a família estavam delirando com tanta
informação.
Quando o motorista chegou com as malas à senhora D’Angelis informou
que a Angel ficaria no antigo quarto dela, e a Kate ficaria no quarto de hospedes,
então a casa veio ao chão.
─ Claro que não mãe. A Kate e eu ficaremos no mesmo quarto. A final,
nós moramos na mesma casa.
─ Mas lá com certeza os quartos de vocês são grandes, e...
─ Mãe... Quando eu vi na internet o que estão fazendo com o Mark, eu
deduzi que ele ainda não tinha tido a chance de contar ou alguém tivesse
entendido errado meu telefonema. O Mark nunca foi gay. Eu sim moro com a
Kate em Nova Iorque. Estamos juntas desde a faculdade.
O Mark se levantou e foi até o bar e pegou uma água e tomou. Ele sabia
bem o que estava por vir.
─ Não estou entendendo bem! Vocês não são amigas? ─ A senhora
D’Angelis estava com os olhos cheios de lágrimas.
─ Claro que somos. Mas somos casadas também. A base do
relacionamento é a amizades. ─ Catarina ficou de pé, atravessou toda sala
levantou a filha pela camiseta e a esbofeteou por três vezes na cara, e a jogou de
volta no sofá.
─ Nunca.
─ A senhora enlouqueceu. ─ O Mark foi até a Angel e a abraçou.
─ Enquanto era você, até tolerei. Sua mãe era qualquer uma teria a quem
sair, mas minha filha não. O que minhas amigas dirão? Eu morrerei um pouco a
cada dia. Não poderei mais sair de casa, as pessoas me olharão com deboche. O
pastor me afastará do culto. Ele sempre diz que isso é obra de satanás. Sequer
poderei participar da ceia. Não! A mulher estava tão descontrolada que não
soubemos dizer se era fingimento ou verdade, mas chegou a dar um ataque, e o
Liam foi obrigado a chamar um médico. E momentos depois... Foi levada ao
hospital.
Nove.
Sofia,
Todos haviam mergulhado em um silêncio tremendo. Até mesmo minha
tia, sentada ao meu lado, permanecia com as mãos firmes em seu terço
desgastado, no entanto firme em suas orações. O Mark e a Angel, permaneciam
ao lado do Liam na antessala, enquanto a Kate havia decidido por respeito à
família, ficar do lado de fora.
Quando o médico saiu com o diagnóstico, dizendo que fortes emoções
podem sim afetar o coração, a Angel não se conteve. Saiu se culpando, aos
prantos, e não ficou para ouvir quando ele explicava que estresse emocional só é
perigoso para quem já teve doenças cardíacas ou está em grupos de risco, como
obesos, diabéticos e hipertensos. "Minha sogra" estava hipertensa há meses, mas
não contava a ninguém da família a não ser sua amiga de anos, minha tia.
─ Sim! Estava a par da situação. ─ Minha tia parecia estar arrependida
por não ter contado aos filhos antes. Mas informara também que eram ordens da
própria Senhora D'Angelis.
Então era isso. Ela ficaria alguns dias em observação. Faria todos os
exames necessários, e a maior recomendação era que...
─ De agora em diante, evitem qualquer tipo de contrariedade. Pelo
menos por algum tempo. ─ E virando as costas, o médico, um senhor de idade,
deixou a família novamente, em total silêncio.
Ninguém poderia ficar de acompanhante, uma vez que agora estava em
uma unidade de tratamento intensivo. Mais tarde voltaríamos.
Quando chegamos à porta da casa, Angel e Kate estavam com as malas
prontas. Aguardando os irmãos.
─ Aonde vão? ─ O Mark quis saber abraçando a irmã, vermelha de
chorar. Eu sempre ouvia falar em arrependimento, mas nunca o tinha visto tão de
perto. O Liam não estava disposto a falar com ninguém e eu agradecia por saber
que tudo e qualquer coisa que alguém dissesse, seria motivo de discussão entre
eles, mesmo sabendo que seu silêncio devia ser preocupante, parecia estar em
choque.
─ Não se preocupe querido, não deixaremos a cidade, mas, não posso
ficar aqui depois de tudo o que aconteceu. ─ Ela beijou o rosto do irmão. ─
Estaremos em um hotel. Falar-nos-emos por mensagens e telefone.
─ Tem certeza que está bem? ─ Eles eram carinhosos entre si. E isso era
bom.
Ela tentou se despedir do Liam, mas ele permaneceu imóvel. Ouviu o
pedido de desculpa da irmã, mas não se virou. Será que a culpava? Em meu
entendimento ninguém era culpado, a não ser a própria Catarina que havia
ocultado seu estado de saúde. Depois de ver o carro da irmã se afastar, o Liam
entrou e foi até o barzinho da casa e se serviu. O Mark ainda ficou alguns
minutos na varanda e depois pareceu desorientado.
─ Talvez eu precise fazer o mesmo, Sofia.
─ Como assim? Sair de casa? ─Fui ao seu encontro. ─Justo agora?
─Essa foi à parte que o Liam ouviu e veio como um animal acuado.
─ Então agora todos irão me abandonar com a mamãe nesse estado?
Pensei que tivessem mais consideração por tudo o que fez por nós, e se
sacrificou.
─ Não foi isso que eu disse. ─ O Mark estava pronto para responder o
irmão na mesma altura. ─ Estarei por perto, caso precisem.
─ Mas é claro que iremos precisar. Será que alguém aqui pensou caso ela
volte e precise de cuidados especiais? Não temos como pagar uma enfermeira.
Teremos que revezar. Eu sozinho, com a Lana grávida não conseguirei. ─ E
nesse momento ele sentou-se na escadaria e chorou como uma criança. Eu podia
sentir sua dor e seu medo. Vi por diversas vezes uma tentativa do Mark de se
abaixar perto dele, mas por fim, desistiu.
─ Ninguém irá a lugar algum Liam. Seu irmão vai ficar. Vamos nos
ajudar. Uns aos outros.
Ele me olhou e estendeu a mão. Eu a segurei tentando consolá-lo, mas
meu gesto pareceu não ter sido muito bem entendido pelo Mark, que entrou
imediatamente e nos deixou sozinhos ali. Quando me sentei ao seu lado, ele
encostou a cabeça em meu ombro e desabafou sobre o terrível sentimento de
medo que viveu em pensar em perder a mãe.
Narrou alguns momentos de quando eram só os dois. Momentos
importantes para ele. Tentou sorrir. Chorou. Contou sobre a chegada dos irmãos,
da falta do pai. Do momento difícil da separação e de quando teve que assumir o
papel do homem da casa.
─ Eu era um jovem apaixonado Sofia, e tive que abrir mão da minha
juventude, de minha paixão para estudar e assumir responsabilidades que não
eram minhas. Não eram para minha idade. ─ As revelações do Liam entraram
em minha mente. Era como se ele contasse cada momento não só de sua vida,
mas das nossas vidas. Porque as decisões de seus pais, também haviam
influenciado no curso de minha história.
Nossa conversa atravessou toda tarde, e era noite, quando notamos que
existia um mundo a nossa volta. Estávamos sem almoço. Sem janta. E não
tínhamos notícias do hospital.
Subi até o quarto e o Mark não estava lá. Não tinha uma mensagem no
telefone, nem sobre a cama. Ele apenas havia saído e eu nem sequer notara.
Porém, não devia ter ido longe. O Carro estava na garagem.
Verifiquei que minha tia também ainda se encontrava no hospital. Tomei
um banho e aceitei a carona do Liam e da Lana para a primeira visita.
Não seriam todos a entrar. A preferência ficou para os filhos, e minha tia.
Lana e eu ficaríamos para a próxima. E todos saíram com a mesma impressão.
"Estava muito frágil".
─ Pálida! ─ Foi à constatação da Angel, que agora mais aliviada por ver
a mãe, porém, ainda muito abalada por toda situação. ─ A Kate precisa voltar à
Nova Iorque e eu ficarei enquanto for preciso.
─ Voltará para casa? ─ Segurei suas mãos.
─ Não! Prefiro ficar onde estou e não deixar que se intrometam em
minha vida. E também não quero ser motivo de desavença entre meus irmãos.
Ela me abraçou e se foi.
─ Queria que viesse comigo em um lugar. ─ Não estranhei o pedido do
Mark, o Liam estava sendo cuidado pela esposa. Estava em boas mãos. Estava
aprendendo a admirar a Lana, e por mais que ele dissesse tantas vezes que ela
amava outra pessoa, às vezes era nítido que ela estava apaixonada por ele.
O Mark dirigiu por alguns minutos e depois paramos diante um
condomínio. Entramos e subimos de elevador. O lugar ainda cheirava a tinta, e
parecia não ter muitos moradores. Estava muito silencioso. Eu suspeitava que
algum de seus amigos, os da boate, ou da agencia, deveria ter se mudado para
ali, há pouco tempo.
Diante da porta de um dos apartamentos, ele retirou uma chave do bolso
e abriu a porta. Para meu espanto, ele mesmo acendeu a luz, e me convidou para
entrar.
─ Vai ficar aí parada?
─ O proprietário não vai se chatear? ─ Ele sorriu e me puxou para
dentro.
─ Claro que não. Nós somos os proprietários.
─ Nós? Que brincadeira é essa, Mark?
─ Um presente do meu pai.
─ Um presente do seu pai? Mas ele...
─ Quer dizer... Não todo. Ele deu a entrada, e eu estou pagando o resto
das prestações. Mas é nosso. Não somos casados? ─ Eu achei estranho lembrar
que éramos casados. ─ Pensei que depois de...
─ Mark, acho que a hora não seja boa para falarmos sobre isso. ─ Andei
pelo apartamento e ele permaneceu na sala. Estava tudo vazio, a não ser pelos
móveis planejados da cozinha, das duas suítes.
A sala era pequena, e a cozinha parecia de boneca. E havia o banheiro
social. Olhei pela porta da cozinha e tinha uma varanda, era um típico
apartamento de recém-casados. Sorri, imaginando como seria bom ter uma casa.
Um marido e um casamento de verdade.
─ É perfeito, Mark, mas...
─ Mas, seu coração está lá não é Sofia? Seu coração pertence a um Mito.
Um Ideal. Um Deus. ─ Ficou de pé e saiu apagando as luzes que eu havia
acendido. ─ Vamos! Eu nem devia ter trazido você aqui. Não há homem que
conseguirá algum dia transpor essa barreira que você ergueu em seu coração e
chamou de amor.
─ Mark,
─ Chega! Não quero mais ouvir seus "Marks" "Somos amigos" "Seja
meu defensor" quando eu precisar é lógico. "Se alegre comigo" "Chore comigo"
Chega Sofia. Estamos livres. Casei-me com você não porque sou um homem
sem atitudes ou coisa parecida. Eu também usei desse casamento. ─ E por um
momento eu pensei que ele fosse dizer que me amava. ─ Eu queria proteger
minha irmã. ─ Agora já foi. Minha família sabe. Portanto, vamos terminar com
isso. Você está livre.
─ Mas a imprensa está detonando a imagem de sua família. Suas fotos
ainda estão nos jornais e... Ainda mais agora com sua mãe doente.
─ Apenas não me importo com papeis. Com imagens.
─ Vindo de você que trabalha com isso, me admira.
─ É por isso mesmo. Ano passado nós fizemos uma campanha para uma
grande impressa. E foi um "Bum!" e muitas pessoas ainda se lembram dela, mas
a empresa esse ano quer que a gente se supere. Então, minha querida. Amanhã
irá chegar ao mercado manchetes novas. Escândalos novos. E no mais Sofia, eu
estou cansado de saber que apenas se casou porque o Liam te pediu. Nunca
passou pela sua cabeça em me ajudar. Será mesmo que se eu tivesse pedido isso
a você teria dito sim?
Dito isso e não me dando chances de responder colocou a chave na porta
e deixou para que eu mesma fechasse. Desceu no elevador, e eu tive que esperar
até que voltasse para eu descer. Só não foi embora porque sabia que teria que
voltar para me buscar.
─ Sabia que mascaras não duram muito tempo. Eis nosso Mark de volta.
─ Tentei descontrair, mas não me respondeu.
Deixou-me em casa, e voltou a sair. Não disse para onde, e eu não
perguntaria. E isso ocorreu por dois meses seguidos. Ele vinha, tomava banho,
falava com a mãe por algum tempo. Ajudava, mas não dormia em casa. Tinha
para comigo, que estava dormindo no apartamento, mas como só nós dois
sabíamos sobre o lugar, não mencionei sobre o fato com ninguém.
Durante esses dois meses fizemos de tudo para dar a Catarina o máximo
de paz e tranquilidade. Tudo parecia bom. E o melhor de tudo, era eu estar dando
aulas. Sentia falta do Mark. Queria compartilhar com ele sobre as crianças. De
como me dava bem com elas, mas ele nunca estava disponível para nossas
conversas.
Até que um dia, chegava do trabalho e uma mulher simplesmente
estonteante chegou à casa dos D'Angelis. Com uma postura de dona da casa.
─ Oi! ─ Cumprimentou com uma desenvoltura, caminhando pela casa,
como se fôssemos velhas conhecidas. ─ Priscila Mayer.
─ Sofia. ─ Sorri. Mas mesmo sem saber quem era alguma coisa me fazia
ter certo receio.
─ Sofia D'Angelis. Nunca se esqueça de mencionar esse grande detalhe
meu amor. Esse nome abre portas. ─ A voz dela por si era irritante. Como se
tivesse um ovo na boca. ─ Que bonita, o Mark me disse que você dá aula para
crianças.
─ Isso! Sou professora do ensino fundamental.
─ Isso é dom! Morreria no meio de crianças. ─ E eu mais meia hora com
ela. ─ Mas não vim por isso.
─ Acredito que não... ─ Ela me diria, se o Liam não tivesse chegado e a
levado para ver a mãe. Fazendo de conta que eu não estava na sala.
─ Priscila Mayer? Quanto tempo. Minha mãe vai adorar te ver. Meu pai
te enviou?
─ Sim! E trouxe ótimas notícias. ─ Eles saíram conversando, até
sumirem pelo corredor. A Senhora D'Angelis ficava no andar de baixo desde o
incidente. Era mais fácil para fazer seus passeios ao jardim, e suas refeições com
os filhos.
Aquele dia... Almocei sozinha na cozinha, nem mesmo minha tia pode
me fazer companhia, por estar fazendo compras, mas quando veio, trouxe várias
novidades.
─ Estão em uma reunião na biblioteca. ─ Olhei para trás e a via cheia de
sacolas e me apressei em ajudar.
─ Quem?
─ Os meninos. ─ Ela tinha a mania de achar que os D'Angelis ainda não
haviam crescidos. ─ A advogada da família, e a dona Catarina.
─ Isso não pode ser normal?
─ Sofia. Sofia! Quando viu algo de normal acontecer nesta casa? ─
Dando um suspiro pegou algumas sacolas das mãos da Suelen, que era a
cozinheira que ocupava seu lugar. ─ Só espero que não sobre para o Mark. Em
geral, essas reuniões sempre sobram para ele.
Confesso que estava curiosa, mas poderia passar sem mais informações
sobre a família. Mas eu aquela altura da vida eu tinha que saber que minha tia
nunca jogava palavras ao vento.
─ Posso entrar? ─ Estava fazendo alguns relatórios, e parei ao ouvir a
voz do Liam atrás de mim.
─ Claro. ─ Perguntei se estava tudo bem, e ele respondeu que sim. Mas
não estava, e eu lia o rosto preocupado do Liam.
─ Sabe que tenho sempre deixado meus planos de lado para viver o lado
família. Não tenho muito tempo, porque pedi a Priscila para enrolar o Mark,
mas... Não posso perder o Mark de vista Sofia. E ele acabou de anunciar que está
deixando nossa casa, minha mãe está triste, mas concordou. Virá todos os dias,
só não virá para dormir. Parece-me que já estava fazendo isso. Porém não
podemos dar margens, ─ Estava ciente do que me pediria.
─ Não Liam. Já vimos que o Mark sabe se cuidar e não me peça mais
para bancar a babá.
─ Eu sei minha querida. Para mim também não é fácil te pedir isso, mas,
só tenho você em quem posso confiar. ─ Ele não poderia fazer isso comigo.
Outra vez? Estava ciente de que tudo estava prestes a acabar. E agora...
─ São só mais alguns meses, dois meses Sofia. Já estão casados à quase
quatro meses... Vai. Ajuda-me. Não desiste agora. Prometo-te. Mais dois meses e
estará livre. E não pense que tratamos o Mark assim porque o odiamos, ao
contrário. É porque todos aqui o amam!
─ E o que quer que eu faça?
─ Vá com ele! Finja que mudou de ideia. Ele contou que está indo
sozinho. Diga que pensou melhor, que são casados, e que deve estar ao lado dele.
Ele é carente. Irá acreditar.
Respirei e balancei a cabeça. Estava prestes a negar. Mas algo mais forte
que eu me impediu.
─ Liam, é a ultima coisa que me pede. Principalmente em relação a seu
irmão, porque ele não me parece esse bicho que vocês pintam.
─ Mais é! E Sofia... Ele não pode suspeitar de uma conversa entre nós.
Em hipótese alguma. Só até meu casamento e o da Lana se dissolver. Se o pai
dela imaginar que podemos ter algum caso ou amores fora do casamento, tudo
irá por água abaixo.
Por uma fração de segundo pensei que fosse me beijar na boca, mas
não... Beijou minha testa e se foi.
Eu fiquei ansiosa, mas não podia fazer nada, além de esperar. Pensei que
ele fosse subir assim que terminasse a conversa com a advogada, mas não o fez.
Só voltou tarde da noite.
E foi uma punhalada em meu coração quando adentrou nosso quarto
com uma "amiga".
─ Com licença! ─ Ele entrou todo cheio de dedos, e perguntou se a
"fulana" poderia entrar.
─ Quem? ─ Olhei assustada.
─ Eu pedi a Karen, secretária lá da agencia, que pudesse vir me ajudar. ─
Como a menina estava com a mão estendida, eu decidi aceitar o cumprimento. ─
Como havia lhe dito antes, estou me mudando e...
─ Não! Você disse que teria que fazer, mas... ─ Percebi que não era um
assunto para discutirmos na frente da colega de trabalho. ─ Se importa de nos
esperar lá embaixo um minuto? ─ Abri a porta e esperei que ela saísse.
Começamos um discussão entre disse e não disse. É hora e não é! E por
fim, fui enfática em minhas palavras.
─ Se você for eu vou com você! Afinal, como disse... Somos casados.
Eu tive que ouvir a ladainha do Mark por horas a fio, enquanto
encaixotávamos nossos pertences e levávamos alguns, e deixávamos outros para
serem transportados, que se fosse por conta da Karen, não tinha motivos. Já que
ele era livre. Depois dizia que o Liam estava me forçando a acompanhá-lo. E
para não levantar suspeitas, tive que deixar minhas coisas no quarto do casal,
porque tive que mentir dizendo que não tinha acertado os motivos de minha
mudança súbita de ideia.
Depois que colocamos as coisas no quarto ele me olhou sorriu e balançou
a cabeça...
─ Enfim... Sós! ─ Pegou a chave do carro e fez menção de sair.
─ E no primeiro dia "sós" vai me deixar sozinha? A final, não estava
dormindo aqui?
─ Quem te disse isso? Não lembra que te contei que estamos em meio a
uma campanha que tem tirado o sono e o sossego de todos nós?
─ Mark, não acredito que terá coragem?
─ Eu te falei para não vir.
─ Mark! ─ Ele virou as costas e saiu. Sem sequer olhar para trás. Era um
sinal de que dias piores viriam.
Dez.
Sofia,
Enquanto voltava da escola, todos os dias por mais de quinze dias, eu
planejava. Articulava, e me preparava para a luta que seria minha tarde com o
Mark, caso ele estivesse em casa. Mas ele nunca estava. E as noites, ele sempre
tinha que trabalhar, e a noite, em suas maiorias chegava tão exausto, que apagava
no sofá.
Quase todos os dias, eu passava na casa dos D’Angelis. E vi a melhora da
senhora D’Angelis dia após dia. Assim como vi os enjoos da Lana, e sua barriga
apontar. O Liam parecia radiante. E pela primeira vez eu não fiquei feliz vendo
sua felicidade. Pedia-me sacrifícios, mas eu começava a não ver uma luz no fim
do túnel.
Ele dissera dois. Dois meses. E quinze dias haviam se passado, e estava
me vendo sozinha. Sem ele e sem o Mark.
— O que foi? Que carinha é essa? Por que ainda não foi para casa? — Eu
dei um sorriso forçado.
— Casa tia? — Me lembrei duma conversa que tive com o Mark um dia.
— Casa não é um lugar onde vivem conspirando contra você. Casa é um lugar
para onde você volta porque existem pessoas que te amam e te esperam. Pessoas
que partilham suas alegrias e tristezas. Vitórias, derrotas. E o que eu sou naquele
lugar? Ou o que eu fui neste lugar?
— Não entendi bem sobre o que ou quem está falando, mas, filha...
Quem faz a nossa casa é a gente. Podemos morar em um quarto, como você
chamava o nosso? Cubículo. Podemos morar em um cubículo ou em uma
mansão como essa. Não importa quem mora, e sim os sentimentos que trazem
dentro de si. Os sentimentos que ocupam os mesmos espaços que nós. Gratidão.
Amor. Paz! Alegria. Se não os tiver com você, apenas terá uma casa. Mas se os
trouxer com você, formará um lar. Uma casa é medida por seus móveis caros e
pomposos, mas um lar é medido pelos sentimentos de seus ocupantes.
A caminhada da casa dos D’Angelis até o apartamento do Mark, era de
aproximadamente três horas a pé, mas eu sempre ia de taxi, ou o motorista me
levava. Hoje não me importei em caminhar. Levei quase cinco horas de
caminhada, e não me importei. Fui pensando e refletindo sobre minha vida.
Ver a alegria no rosto do Liam, sempre era motivo de alegria para mim,
mas naquele dia, tinha despertado o meu pior. E se não bastasse, eu cheguei a
casa e tive uma surpresa. Estava cansada, com os pés doendo, e a casa estava
cheia.
Minha vontade era de gritar! Pedir que todos fossem embora dali, e que
limpassem toda aquela bagunça, mas eu me lembrei da minha tia e de suas
palavras. Amanhã era sábado, eu não me importaria em arrumar a bagunça.
O Mark se levantou assim que me viu como se quisesse se desculpar. Em
uma sala minúscula, havia umas doze pessoas.
— Sofia, esse é o pessoal da agencia. Alguns você já conhece da boate.
— Ele fez as apresentações e eu me senti importante naquele momento. Na
maioria das vezes eu era deixada de lado. Assim que acabou de fazer as
apresentações, ele explicou que esperavam um telefonema muito importante.
E quando o telefone tocou, ele atendeu, ficou sério. Desligou o telefone e
anunciou que tinham conseguido. Eu não sabia o que era, mas vibrei com eles, e
de repente, eu o beijei! Na frente de todos. Quando viu o que tinha feito, logo se
recompôs, abriu um champanhe e fez um brinde.
— A todos que se empenharam nessa campanha.
— Para vai Mark. Se não tivesse passado noites em claro, e tivesse
mudado sozinho todo o rumo da campanha a gente não teria conseguido. — Não
era fingimento... Eu estava orgulhosa do Mark.
— Quando irá ao ar? — O Bento quis saber.
— Amanhã meu amigo. Amanhã à noite.
— Vamos sair para dançar. — Uma das moças agitou.
— Não sei. A Sofia parece cansada. — E eu estava. Cansada de ser triste.
De viver só. Abandonada.
— Por mim, tudo bem! — O Mark me olhava como se nunca tivesse me
visto.
— A gente se encontra então daqui a pouco. — Ele disse sem ânimo. E
pelo jeito, minha desconfiança era a certeza de todos.
— Temos certeza de que assim que sairmos daqui, vocês irão mandar
mensagem dizendo que não irão. — Ele sorriu para a menina, o que de certa
forma me deixou com inveja. Havia algum tempo que ele não brincava comigo,
ou sorria para mim. E por mais que tivesse correspondido ao meu beijo, agora
voltara a ser o mesmo Mark frio de antes.
— Eu vou entender se...
— Vou me trocar e podemos ir.
Assim que entrei no quarto, ele entrou atrás de mim. Fechou a porta e
encostou-se a ela.
— Só gostaria de te informar que a maioria das pessoas naquela sala sabe
da nossa situação Sofia. Não precisamos fingir sermos um casal feliz.
— Se me lembro bem, retribuiu o beijo!
— Me pegou de surpresa.
— Mark custa sairmos para comemorarmos com seus amigos? — Parecia
impaciente. E eu não quis insistir. — Tudo bem! Se não quer minha presença, vá
sozinho. Não me importo.
— Também não me importo que vá! Apenas não quero que amanhã diga
que está arrependida e saia correndo para contar ao Liam, que te obriguei a sair
comigo. — Joguei a toalha sobre ele.
— Sem noção! Insensível! Idiota!
O que eu mais odiava no Mark às vezes, era o dom que ele tinha de me
deixar falar sozinha. Entrou no banheiro e tomou seu banho rápido, deixando o
banheiro livre. Eu não quis ser o motivo de atraso e me arrumei bem rápido. Na
verdade, agora estava arrependida, porque se não tivesse dito na frente de todos
que iria, não iria mais, de raiva do Mark.
Mas fui!
E valeu a pena. A gente sorriu. Conversamos. E descobri por uma das
secretárias que metade das mulheres da agencia, eram apaixonadas pelo Mark.
Quando mais ela bebia, mais detalhes ela dava sobre a vida dele na agencia.
Em determinado momento, comecei a beber, e fui dançar com a colega,
Tamires. Estamos nos divertindo, e vendo ao longe o Mark conversando com o
Bento e mais um homem, sério.
— Duas gatinhas sozinhas. Isso é pecado. — Dois rapazes se
aproximaram, e começaram a dançar com a gente. Pensei exatamente no que
toda mulher faria. Afinal, que marido, ou homem que vai acompanhado com
alguém em uma boate não se sente ameaçado ao ver sua companhia dançar com
outro homem?
Quanto mais o homem se aproximava, mais eu dançava, e não tardou ele
querer me beijar, eu tive que empurrá-lo e ainda ter que ver o Mark só olhando
de longe.
Depois disso, decidi parar de beber. E me juntar ao pessoal, que estava
dançando sem exageros. Precisei lavar o rosto, e no toalete, decidi usar o
sanitário, entraram duas garotas, que conversavam despercebidamente, sem
perceber minha presença.
— Qual dos D’Angelis prefere?
— Claro que o D’Angelis mais velho meu amor. Já experimentei e vira e
mexe a gente se esbarra. Só Deus! — Com certeza estava confundindo os dois
irmãos. Eu não sabia se me alegrava ou odiava o Mark por me expor daquela
forma. Diziam que estávamos casados, mas ele podia sair e aproveitar a vida.
— Fala do Mark? Ah se me desse uma chance.
— Não. Meu contatinho é o Liam! Se soubesse por baixo daquele ar de
não me toques o que ele esconde. Escroto! — Elas caíram na risada. — Ainda
mais agora com a esposa grávida. — Será? Não! O Liam não faria uma coisa
dessas. Jamais. Desconfiei que soubessem que estava ali, e que o Mark tinha as
mandado. Caso contrário porque diriam isso.
Assim que percebi que elas haviam saído eu aproveitei para lavar as
mãos e o rosto, e sair.
— Que susto! — O Mark estava parado à porta do banheiro.
— Pensei que talvez seus amigos tivessem te seguido. — Ele começou a
rir. — Fiz uma careta e passei por ele.
Estava claro quando voltamos para casa. Ainda bem que era fim de
semana, ou não conseguiria trabalhar. Quando olhei a casa, me deu um
desânimo, eu queria limpar tudo, mas não tinha forças. Apenas retirei os sapatos
e atravessei na cama esperando ele sair do banho. Estava bêbada e sem forças.
Só me lembro daquela fragrância tomando conta do quarto e amaldiçoei o Liam
por me fazer conviver com o Mark. Ele era tão...
— Lindo! — Será que tinha dito em voz alta? Másculo. As mulheres
eram loucas por ele. E eu estava sentindo algo. Era ódio. Do Mark? Não. Acho
que do Liam. Não sei...
Acordei, ainda estava escuro. Não! Peguei o celular e eram três horas da
tarde.
— Meu Deus! — Rolei na cama para lá e para cá. Ele havia fechado as
cortinas. Não havia um sinal de claridade, e eu achando que era noite. Parei
chocada. Ainda usava meu vestido da noite anterior. — Que descortês. —
Poderia ao menos ter tirado meu vestido. Então gritei. — Poderia ao menos ter
tirado meu vestido. — E a porta se abriu.
— O que disse? — Eu nem tinha bebido tanto assim, e estava acabada.
Em compensação, o Mark estava como se nada tivesse acontecido.
— Como pode estar tão bem? Enquanto eu estou assim? — Me olhei no
espelho do closet.
— Não vejo nada diferente em você. Somos conhecidos por sermos
funcionais à noite. As ideias fluem à noite. Na madrugada. Então melhor não
querer me acompanhar.
— Não quer que eu te acompanhe por causa das mulheres que se jogam
aos seus pés isso sim.
Ele virou as costas e saiu.
Entrei no banho e fiquei por longa meia hora. E como foi bom! Mas as
lembranças da sala e da cozinha suja me trouxeram de volta a realidade.
Coloquei um short jeans e uma blusa amarela, prendi os cabelos e me enchi de
coragem. Até que fora boa a experiência. E mesmo que não fossem meus
amigos, foi bom ter visitas.
Quando saí do quarto, estava tudo limpo. Sobre a mesa da sala, havia
uma tábua de frios, e uma garrafa de vinho. E o Mark estava sentado diante a
TV. Uma cena linda de se ver. Poderia assisti-lo assim por horas sem perder o
interesse, como ele assistia ao filme em inglês, sem legenda.
— Perdeu algo?
— N-Não! Nada. — Nunca tinha visto o Mark de bermuda. Apenas
calça. As pernas cabeludas eu tinha sentido, mas não visto. Usava camiseta preta
cavada, e chinelos. Tão simples, e tão elegante ao mesmo tempo.
— Mas continua parada.
— Desculpa.
— Se quiser se servir fique à vontade.
— Estou olhando que a sala está limpa. E a cozinha também.
— Enquanto fazia faculdade, morava sozinho e odiava casa bagunçada.
Não tinha ninguém que fizesse, tive que me virar.
— Está lindo!
— Hum?
— A casa. Ficou ótima.
Voltei para o quarto e me odiei o resto da tarde. À noite, foi nossa
primeira aparição em público em nome da família. O Liam havia ligado para o
Mark, pedindo nossa companhia em uma festa de uma socialite. Se o Mark que
gostava de festas odiou, imagina eu, que demorei horas para conseguir um salão
que me atendesse de ultima hora. Minha sorte que ainda havia um vestido que
trouxera de Londres, que poderia ser usado.
Chegamos à festa, e soubemos que o Liam nos esperava para fazer a
entrada juntos.
— Está linda Sofia. — Foi o comentário seco do Liam. O Mark pelo
contrário beijou o rosto da Lana, e beijou sua barriga, calorosamente. Aquela
festa do Mark irritava o Liam. Ele era sempre reservado de demonstrações de
emoções e sentimentos em público.
Entramos no local, e o centro das atenções por algum tempo foi o Mark.
A imprensa queria saber sobre o comercial que estava em primeiro lugar nas
redes sociais e estava emocionando o mundo inteiro.
— Do que estão falando Mark?
— Nada Liam. Não vai manchar o nome da família te garanto.
— Assim espero.
Circulamos entre as pessoas, e logo fomos levados a uma mesa reservada
aos D’Angelis. Era uma festa demasiadamente boa, mas não nos divertimos
como na noite anterior.
Nessa noite, ou melhor, madrugada, foi diferente. Depois do banho, eu
esperei que ele saísse. E como estava sempre acostumado, me esperava dormir e
dava a desculpa de que dormiu sem querer no sofá. Esperei até que saísse do
banho, sentada no sofá.
— Pensei que já estivesse dormindo.
— Não! Pensei em ficar e ver o comercial.
Peguei a coberta e joguei sobre as pernas e me acomodei ao seu lado. Era
um programa de comédia, e acabamos sorrindo das diversas piadas, e
pegadinhas exibidas. E eu me peguei olhando para o Mark. Meu coração estava
acelerado. Fiquei ofegante. Era como se o visse pela primeira vez.
— Mark, eu... — E justo nessa hora o comercial começou.
— Vai passar.
Depois que o comercial acabou eu tive certeza que era sobre a gente.
Tive certeza que ele também havia conversado com minha tia. Embora não fosse
romântico, falava sobre construção e sentimentos.
Não aconteceu nada entre nós no resto da noite, e como ele foi dormir na
cama, eu terminei a noite no sofá. Pensando em tudo que havia perdido até ali.
No domingo, coei café, e o tomamos juntos. Fomos à casa dos
D’Angelis. Almoçamos por lá. Voltamos para o apartamento muito tarde, e tive
que correr para os relatórios.
Na segunda, quando saia do trabalho, as crianças sempre me
acompanhavam até o portão, e quando me despedi, uma retornou correndo e me
abraçou.
— Tia, seu namorado veio te buscar.
— É? E onde está meu namorado?
— Lá de fora.
— E como sabe que é meu namorado? — Fomos conversando e
caminhando em direção à saída.
— Porque ele me pediu para chamá-la. — Com certeza era o Mark, ele
sabia que eu costumava a sair pelo portão de trás na maioria das vezes.
Estava parado, encostado em um carro, luxuoso e meio rosa. Pensei que
houvesse trocado o carro.
— Agora sim, irão falar de você.
— Acha mesmo que teria coragem de sair com um desses? — Ele jogou
as chaves para mim. — Esse é seu. — Fiquei esbabacada. — Não quero que
fique andando sozinha por aí. Ou dependendo do motorista dos D’Angelis.
— E você pode comprar um carro desse porte para mim? — Como
sempre não me respondia. Deu a volta e se sentou no lugar do passageiro. —
Mark? — Ele se fazia de surdo. E eu comecei a rir sozinha em meio à rua. —
Mark eu não sei dirigir. — Ele desceu do carro e deu a volta e se sentou do lado
do motorista.
— Não serei seu motorista.
— Está bem! Só hoje. — Estava tremendo.
Quando chegamos à casa dos D’Angelis, foi à primeira coisa que minha
sogra percebeu.
— Trocou o carro Mark?
— Não senhora. Esse é o da Sofia.
— Seu minha filha? — Minha tia foi ver de perto meu presente. — Que
lindo! Espero que tenha agradecido seu marido.
Decidi brincar com minha tia, mas estava muito, muito feliz.
— Não é o melhor marido do mundo tia? O mais lindo e mais
apaixonante? Fui até ele e beijei seu rosto. No exato momento que o Liam
entrava.
— Presente do seu marido?
— É! Do meu marido!
Onze.
Sofia,
Chamar o Mark de marido para o Liam foi à gota d’água. Ele ficara fora
de si, não respeitando o irmão, nem mãe, nem minha própria tia.
— Era só o que me faltava garota! — Quando ele segurou meu braço e
tentou me arrastar até a biblioteca, o Mark se colocou em nosso caminho, e em
respeito à senhora D’Angelis e sua saúde, e a minha tia, para não dizer que não
queria ver os dois ali, se engalfinhando, eu pedi ao Mark que esperasse só um
momento.
Soltei meu braço de sua mão e o acompanhei por minha própria vontade
até a biblioteca.
— Por acaso, você se esqueceu de nosso combinado? Porque eu não.
Inclusive, assim que a Lana chegar da casa dos pais dará entrada aos papeis do
divórcio e eu espero que você não seja uma vendida e troque o sonho de toda
uma vida por um carro. — Minha vontade naquele momento foi de dar no meio
da cara do Liam, mas havia tentado evitar uma briga, e não começaria outra ali.
— Você não me conhece mesmo, não é? — Quando tentei me afastar ele
se posicionou entre mim e a porta.
— Me desculpe Sofia, não é com você meu problema. É com o Mark.
Ele está fazendo isso para confundir você. O Mark não é esse sujeito bom e
caridoso que está se mostrando para você.
— Eu não sei o que tanto procura no Mark, Liam, mas eu estou fora. Se
achares que ele é um criminoso ou sei lá o que, ele realmente não me demonstra.
Em casa, ele é um cara legal. Comigo, ele é uma pessoa boa, honesta. Um
homem bom e trabalhador. Então, não sei o que quer. Eu não posso mais ajudar...
— Não pode ou não quer? — Eu não respondi. E tive a nítida impressão
que o Liam, não estava bem! — Está apaixonada por ele, Sofia? Sofia, você...
— Não seja ridículo, Liam. — Como ele não me dava passagem, eu fui
até próximo à janela e vi o Mark caminhando no jardim com minha tia. Olhar
para ele, e ouvir o Liam falar, era questionar a mim mesma se o Liam não tinha
razão. Não era “poder” mais ajudar a família D’Angelis. Eu simplesmente não
queria mais seguir aquele plano ridículo porque não via nenhum perigo que o
Mark pudesse oferecer a família.
Senti um hálito quente atrás de mim, e um frio percorrer meu corpo, não
percebi que havia passado alguns segundos admirando o Mark, ao ponto de
permitir que o Liam se aproximasse tanto.
— Preciso ir.
— O Mark não vai entender suas boas intenções quando souber que você
esteve com a gente o tempo todo.
— Eu apenas fiz o que fiz para que a imprensa não sujasse o nome dele e
nem da família Liam. Apenas isso. E com certeza ele irá entender sim.
— Teria coragem de jogar tudo para cima, Sofia? Depois de saber que
assim que a Lana chegar eu estarei livre para você? Depois de tantos anos?
Depois de tudo que esperou, ou melhor, esperamos? — Eu vi uma tristeza no
olhar do Liam, e fiquei agoniada. Era como se estivesse traindo algo muito
importante para mim, mas agora era diferente.
— Você quis proteger seu irmão de um escândalo, e agora sabe muito
bem que ele não é gay, também... Daí se fosse, Liam? Quantas famílias
tradicionais hoje convivem com essa realidade sem alarde algum?
— Não é só isso Sofia. Mas você não iria entender. Não agora. O Mark
precisa ficar sobre nosso controle. Ninguém melhor que você para controlá-lo.
Ele te respeita. Só que você precisa tomar cuidado ou tudo o que estamos
fazendo pode dar errado.
— Liam, esse “tudo o que estamos fazendo” é algo que pode prejudicar o
Mark?
— Claro que não Sofia. Os únicos prejudicados aqui pode ser nossa
família. Não vê como estamos na miséria e ele sequer se comove? Está
esbanjando comprando apartamento, carro? E nós? Veja minha mãe Sofia? Olhe
o sofrimento de minha mãe. E ele sequer se inteira das finanças da família.
— Talvez se me explicasse à situação melhor, eu pudesse conversar com
ele. Mas apenas casada com ele, eu não sei no que posso ajudar.
— Mantenha a calma, Sofia. Apenas mantenha a calma. — O Liam não
sabia o que estava me pedindo. Ele não tinha noção de como andava bagunçada
minha mente e meu coração. Nem mesmo meus olhos conseguiam ver o Mark da
forma que eles o traçavam.
— Liam, acho melhor desfazer esse casamento, e deixar que ele viva a
vida dele como quiser e, — antes, porém que eu terminasse, e claro que não diria
a ele que contaria ao Mark sobre a confusão que estava minha vida, ele me
interrompeu.
— Sofia, está preparada para perder o carinho que o Mark sente por você
hoje? — Eu gelei!
— Como assim, Liam?
— O Mark irá te odiar quando souber que todo esse tempo esteve ao lado
da família D’Angelis, contando cada passo que ele dava.
— Mas eu não fiz isso.
— Claro que fez. — Eu vasculhei minha mente em frente à acusação
dele, apavorada.
— Não! Eu apenas me casei com ele, para que a imprensa não divulgasse
as fotos ou sei lá o que tinham contra ele. E ele sabe disso. Um dia até me disse
que sabia que eu tinha me casado com ele por um pedido seu.
— Não se faça de boba, Sofia. Ligou-me em sua lua-de-mel. Deu-me
detalhes de tantas outras coisas.
— Não! — Gritei apavorada.
— Lógico, que foi sem querer, mas... Por quem mais eu saberia desses
detalhes que ele tenta esconder.
— Não pode estar falando sério, Liam. Mas de qualquer forma, o Mark
me conhece. E te conhece também! Ele sabe bem o irmão que tem.
— Então está mesmo apaixonada?
— Não é isso! Só não acho justo continuar com algo, que não faz
sentido.
— Pense bem, Sofia! Só te peço isso! Pense bem! Espero que entenda
com todas as letras que, pode sim acontecer de que, se algum dia o Mark me
odiar, ele possa vir a sentir o mesmo por você, e com a mesma intensidade.
Ele sentou-se, com um ar amargo, e sombrio e meu coração mergulhou
em uma profunda agonia. Saí da sala, pensando em ter uma conversa com o
Mark, mas não foi possível, ele e minha tia me esperavam para um café. E tive
que ouvi-los sorrir, e tentar participar da conversa, mesmo sabendo que ele, vez e
outra, me olhavam sabendo que algo não estava bem.
Fizemos o trajeto de volta para casa em silêncio, e conhecendo bem o
Mark, ele não ousaria perguntar o que havíamos conversado na biblioteca. Eu
queria contar a ele, que queria sair fora daquele casamento fajuto, mas que não
era por não gostar dele, e sim porque ao contrário, eu estava me acostumando em
tê-lo por perto, e sentir seu perfume, e que eu queria talvez que a gente pudesse
formar uma família. Mas não sabia por onde começar a falar.
Assim que entrei no apartamento corri para o banheiro e me tranquei lá
dentro.
— Sofia... — ouvi as batidas à porta. — Está tudo bem?
— S-sim! Está! — Mas não estava. Eu sabia. Ele sabia. Mas precisava
reorganizar minha mente, meus pensamentos para só depois falar com ele. Eu
nunca havia ouvido da boca do Mark que me amava. Que estava feliz com
aquele casamento. Ele também apenas aceitara para não contrariar a família e
agora... Nós dois estávamos em um beco sem saída. Preso a algo que não
havíamos pedido.
Odiei-me por longos minutos, por ter aceitado o pedido do Liam em me
casar com o Mark. Ele era uma boa pessoa. Não merecia que fizessem nada com
ele. Deixei que a água caísse sobre meu corpo tentando limpar o que eu havia
feito de errado, fosse o que fosse. E eu chorei! Chorei a tal ponto não ouvi-lo
abrir a porta do banheiro.
Ele estava parado. Vestido com sua roupa impecável. Enquanto eu estava
despida. Não só de minhas vestes, mas também de minhas convicções, e dos
sonhos que algum dia sonhei.
— Mark... — Foi à única palavra que consegui pronunciar. — As
lágrimas não me permitiam dizer o quanto ele merecia alguém bom ao seu lado.
E eu torcia muito por ele.
Ele desligou o chuveiro, puxou a toalha, e a enrolou sobre meu corpo
tremulo. A noite não estava fria e mesmo assim eu continuava a tremer. Eu não
sabia ao certo quais eram meus erros ao lado da família D’Angelis para
confessá-los ao Mark e mesmo assim, eu havia me condenado culpada.
Eu tentei me controlar, e nada. O vi sair do quarto, depois de me ajeitar
debaixo das cobertas e ligar o ar-condicionado, sabendo que não fazia o frio que
eu sentia. O vi voltar, e me estender um copo com água, e ao tomar senti um
leve sabor adocicado.
— Se não quiser falar não precisa. Mas eu melhor que ninguém sei como
o Liam pode ser cruel quando ele quer. — Tomei o restante da água e voltei a me
deitar. Ele pegou o copo e saiu do quarto, ao voltar, sentou-se ao meu lado e
ficou acariciando meus cabelos. — Quando éramos adolescentes, o Liam era
bem mais velho, eu achava que vocês não tinham nada a ver um com o outro,
mas a cada resposta dele, você parecia delirar e ficar mais apaixonada. — Eu não
acreditava no que estava ouvindo. Parecia irônico. Meu marido tentando me
consolar sobre algo que o irmão havia feito, pensando que eu ainda o amava.
— Mark..., — minha voz não tinha mais forças, e mesmo assim eu
confessei algo que algum tempo começava a duvidar. — Já não sei se algum dia
eu amei seu irmão.
E acho que era o que ele esperava ouvir, porque no mesmo instante, ele
se deitou ao meu lado, e olhou em meus olhos.
— Não está chorando por que ele sentiu ciúmes por ter me chamado de
seu marido?
— Seu irmão com ciúmes? De nós dois? Não! — Ele tocou meu rosto e
sorriu, e que mulher não se apaixonaria por ele nesse instante?
— Então eu era o único com ciúmes por aqui?
— Você? — Ele não me respondeu, mas seu beijo foi à resposta. Ele não
falou em amor. Em amar. Em estar apaixonado. Em estar gostando. Só em estar
sentindo ciúmes, mas para mim, já era um algo. Não havia um nome para o que
existia entre nós, mas eu tinha certeza agora, que existia.
Meu Deus! Eu só podia estar louca, me entregando ao Mark daquela
forma, mesmo depois de ouvir do Liam que ele me odiaria. Mas que contassem
isso ao meu corpo, ali sobre a cama, despido, diante daquele homem que mais
parecia saído de um anuncio das próprias propagandas que criava.
O gosto da boca do Mark invadiu a minha e tirou-me totalmente a razão.
Aquela loção pós-barba que nunca me esqueceria na vida tomou conta de todo
meu corpo, então eu estava em seus braços. Eu não tinha mais domínio do meu
próprio corpo, não pertencia a mim, fazia exatamente o que ordenava as mãos,
sua boca e seu próprio corpo, que percorria o meu descobrindo cada forma
escondida até hoje. Sim! Ele queria e estava me levando a loucura.
— Vai me enlouquecer, Sofia.
Enlouquecida estava eu. Enlouquecida! Excitada! Ele me havia elevando
em poucos minutos de chorosa a uma sua fêmea no cio. E por minutos eu me
senti envergonhada de mim.
Carícias, carinhos, olhares, sussurros tomaram conta da nossa noite, até
que ele se colocou entre meu corpo e um sorriso besta estampado no rosto,
sussurrou que eu lhe pertencia.
Dormi em seus braços! E quando acordei, só ouvi o barulho do chuveiro.
O Mark era um cara compromissado com o trabalho. Agora seria o momento
ideal para que pudéssemos conversar. Entrei no banho com ele, e por fim,
acabamos fazendo amor novamente.
— Um dia eu sonhei com isso.
— O que? Transar no banho, antes de ir para o trabalho? — Brinquei.
— Não! Comer você antes do café da manhã. — Joguei a tolha sobre ele
e acabei adiando mais uma vez a conversa baseada na minha covardia. Eu estava
me sentindo tão feliz, que não queria estragar o momento. Mais tarde falaria com
ele.
E naquele dia eu decidi que, não passaria mais na casa dos D’Angelis,
após o trabalho. Minha tia teria que se contentar em se encontrar comigo, longe
dali, e em nos falarmos por telefone. Os D’Angelis não me controlariam mais.
Doze.
Sofia,
Por aqueles dias, o Mark assumiu um trabalho muito grande, nos
impossibilitando de passar mais de duas horas juntos. Ele não vinha almoçar,
mas sempre que podia, ligava. E as nossas noites, eu bem que tentava contar
como havia sido meu dia, mas geralmente, ele acabava dormindo cedo, e quase
sempre em meio à madrugada, eu percebia que não estava na cama, e o
encontrava diante do notebook na sala. E por uma ou duas vezes, foi na
madrugada que nos amamos, no sofá, ou no chão da sala.
E logo eu percebi que os D’Angelis, eram mais atentos a mim que
gostariam de transparecer. Quando convinha a eles, claro, lógico que eles
sentiam falta das pessoas. A própria senhora D’Angelis me ligou, depois de
várias ligações que ignorei do Liam. Então, uma tarde, depois de vários dias,
tentando falar comigo, veio pessoalmente em nosso apartamento.
— Sofia, querida! Pensei em vir tomar um chá com você. Afinal, nunca
tivemos um tempo para falar sobre seu casamento. De como andam as coisas? —
Ela andou pelo apartamento, bem de vagar, como vinha fazendo há muito tempo,
e depois se sentou no sofá, esperando que eu dissesse algo. Mas depois de tudo o
que o Liam havia me dito, eu tinha medo de dizer qualquer coisa que pudesse me
prejudicar perante o Mark.
— Senhora D’Angelis, sabe do carinho que tenho pela senhora, mas não
acredito que tenha vindo aqui apenas para saber como andam as coisas entre o
Mark e eu. Até porque, sabe muito bem nossa situação.
— Não vai me oferecer uma água ou o chá que eu disse vir tomar, Sofia?
— Fui até a cozinha e coloquei a água ao fogo, enquanto preparava o chá senti
minhas mãos trêmulas. — Ao voltar para o lado dela, observei que ela segurava
uma foto do Mark, que estava em um porta-retratos sobre a mesinha de centro.
— Ele é lindo não é? — Eu apenas sorri diante da afirmação dela. Precisava
descobrir o que ela queria. — Eu não sei onde nos separamos. Ele era uma
criança doce, e meiga. Foi um adolescente normal, sabe Sofia? Não foi assim tão
custoso como às pessoas costumam falar dos adolescentes que têm em casa. Mas
eu fico pensando e pensado e não sei ao certo, onde foi que eu me perdi do
Mark.
Voltei à cozinha e terminei o chá, voltando com duas xícaras sobre a
bandeja. Acho que eu precisava mais que ela do chá naquela hora. Tudo o que
ela falasse ali, tenho certeza que seria um assunto que eu não gostaria de ouvir.
Ou de falar.
Ela contornou o rosto do Mark com a mão e depois voltou à foto para o
lugar.
— Ele foi crescendo e se parecendo cada dia mais com sua mãe. Agora o
Liam... O Liam sempre foi a minha imagem e semelhança. Até na elegância.
Enquanto o Mark corria pelos lugares, o Liam chamava a atenção de todas as
meninas por onde passava. Até minhas amigas mais velhas admiravam meu
filho. Era verdadeiro Lorde. — Ela sorriu depois me olhou. — Cá entre nós, se
vivêssemos na corte, o Liam seria um Barão, enquanto o Mark não passaria de
um Duque ou algo parecido. Dizem que os duques eram o terror das mulheres.
Enquanto os barões eram sempre homens centrados e cavalheiros.
Embora estivesse gostando da aula, eu não acreditava que ela estava ali
somente para inferiorizar o Mark mais que eles faziam diariamente.
— Sabe Sofia, vou te confessar um segredo sobre o caráter de meu filho
mais velho que talvez você e nem ninguém saiba. — Só então ela pareceu se
lembrar do chá, e tomou fazendo uma cara de péssimos amigos. — Horrível! —
Reclamou voltando a xícara para o lugar. — Um dos motivos de meu filho não
falar com o pai por um bom tempo foi você.
— Eu?
— Sim! O Liam jurava que o pai havia tentado molestar você, em um dia
de bebedeira. — Eu abri a boca para confessar, mas ela ergueu a mão me
interrompendo. — Eu disse a ele naquela época, — ela teve a capacidade de
olhar bem em meus olhos e continuar, — que qual menina não queria ser notada
pelo patrão? — Eu quase gritei de nojo. O que ela estava dizendo? Ela não tinha
noção de por causa daquele gesto horrível daquele homem eu fiquei por um bom
tempo sem ao menos poder vestir um short ou uma camiseta decotada. Achando
que todos os homens fossem me atacar. — Tantos casos aconteceram nas casas
de minhas amigas, onde as domésticas engravidaram dos patrões. A gente
entende que todos tem o direito de buscar uma vida melhor não é, Sofia?
— A senhora se engana, — Sim! Enganava-se em relação à índole das
pessoas humildes que buscam o trabalho para sustentar seus lares, e se enganava
ao achar que eu me calaria. — E como se engana, em relação às pessoas senhora
D’Angelis. Hoje vendo de perto e convivendo com a família de vocês, e digo
que não é generalizando porque existem pessoas milionárias maravilhosas, mas
vejo nem eu, nem minha tia, teríamos coragem de fazer a metade dos átrios que
vocês cometem.
— Sofia, querida, nem me deixou terminar. Claro, que depois de alguns
dias eu pensei e, sabendo que meu filho não mentia, acreditei nele e não pude
nunca mais suportar que aquele homem me tocasse. — Por um instante eu me
sensibilizei com a senhora D’Angelis, mas em seguida, por mais que eu fosse
criança na época, me lembrei de que justo naquele dia, ele a gritava esmurrando
a porta, porque os dois já não dormiam no mesmo quarto. Se ela tentava me
deixar com a consciência pensada, ainda não havia conseguido.
Depois contou do desespero do Liam ao saber que precisaria partir, então
foi ela que me deu uma versão da história que poderia mudar para sempre o
rumo das coisas que haviam acontecido anos atrás e que foram águas divisoras
em minha vida.
— Eu sei que entrevi na relação de vocês quando mais jovens, mas você
era uma criança. Tinha apenas a idade de minha filha quando mandei o Liam
para a casa da madrinha. — Essa parte eu sabia, mas o que ela disse em
seguida... — Então, quando o chamei no dia de seu aniversário, eu sabia que ele
estava com você, e graças a Deus cheguei a tempo, caso contrário poderiam ter
cometido uma loucura. Mas, ele coitadinho. Ficou tão chateado, que nem mesmo
quis se despedir. Tive que eu mesma fazer as malas dele. — Enquanto o Mark te
mandava de volta para seu quarto.
— O Mark? — Não me lembrava de tê-lo visto aquela noite.
— Sim! Naquela época o Mark ainda era tão obediente. O Liam disse
que havia escondido uma lembrancinha no quarto do Mark, e que você o
aguardava. — Então eu pensei... Mas ele havia fugido dela, porque havia me
beijado. Foi aí que uma luz clara como dia veio em minha cabeça. Abrindo
minha mente, e minha visão.
— S-sim! Claro! A senhora tem certeza de que o Liam não subiu por
nenhum segundo aquele dia?
— Não minha querida. Ele não queria viajar, e quando insisti... Disse que
não colocava os pés em casa mais antes que fosse o dono de seus próprios
passos. Para ele, ainda havia o agravante de descobrir que o irmão, não era filho
da mesma mãe. Imagina a decepção dele com o pai. E até comigo. Assim,
acabou por se esconder no jardim até a hora de sair. O motorista que ficou
conversando com ele até o momento de partirem.
Meu coração batia descompassado. Se o Liam não havia voltado. Se eu
achava que o sabor dos beijos era tão parecido, só podia ter sido o Mark. E eu
quis gargalhar naquele momento. Então comecei a rir em voz alta.
— Sofia? Está tudo bem? — Ela me olhava assustada, e agora por
incrível que pareça, eu me pegava amando a ideia de ter sido beijada pelo Mark
e não pelo Liam. O Mark se tornava assim, o único homem de minha vida. Só
não entendia, porque não havia se gabado eternamente disso na época.
Tomei um pouco mais do chá, e tive que conter o desejo de ligar para o
Mark naquele mesmo instante e dizer que sabia sobre o beijo no quarto dele há
anos atrás. Apoiei o rosto nas mãos e gargalhei. A Senhora D’Angelis devia
achar que eu estava louca, ou que eu estivesse me comportando como uma
maluca, mas uma felicidade enorme crescia dentro do meu coração. Eu não
aguentaria esperá-lo chegar à tarde.
— A senhora se importa se eu der uma saidinha? É que me lembrei de
algo que preciso fazer. — Fui pegando minha bolsa e fazendo com que ela saísse
a minha frente. O assunto dela havia se tornado naquele momento de segunda
instancia para mim. Eu precisava encontrar o Mark.
Odiei-me por ainda não ter tirado minha carteira de motorista. Tomei um
taxi e depois de quinze minutos eu adentrava a agencia, que era muito maior do
que eu imaginava.
— Posso ajudá-la? — A moça era simpática, e quando eu disse quem
estava procurando, logo me orientou.
Subi as escadas correndo, e parei diante da porta onde ela havia me
apontado. Como não havia ninguém na recepção, eu bati e empurrei de vagar, ao
ouvi-lo.
— Oi! — Assim que o cumprimentei ele se pôs de pé e veio ao meu
encontro. Havia dois homens na sala, ele pediu licença e me perguntou o que
havia acontecido.
Os homens saíram da sala, mesmo sem que nenhum de nós pedisse, e
quando entrei, minha reação foi beijá-lo. O que ele retribuiu sem titubear.
— Era você! O tempo todo era você! — Quando ele me olhou, eu sorri.
— Você foi meu primeiro beijo. — Ele tossiu, fingindo engasgar e eu sorri. — E
depois voltamos a nos beijar novamente. Depois de vários minutos abraçados ele
falou comigo.
— Como soube?
— Sua mãe foi me visitar. — Ao me ouvir ele me abraçou como se
quisesse me proteger de algo que ela já pudesse ter feito.
— Não vamos permitir que eles nos faça nenhum mal, Sofia.
— Eu nem sei ao certo o que ela queria. — Me afastei. — Mas, sem
querer ela me contou que o Liam tinha ficado chateado com a viagem e que ela
havia pedido você para me avisar. Ai meu Deus! — Eu estava eufórica. — E eu
precisava falar com você. Sua mãe deve estar me achando uma louca. — Tentei
sorrir, mas estava muito tensa.
— Pensei que quando soubesse fosse ficar desapontada.
— Talvez algum tempo atrás, mas não agora.
— Mark, quando seu irmão me pediu que me casasse com você, segundo
ele, seria apenas para não jogar o nome da família na lama e... — Ele me
abraçou e tentou me impedir de falar.
— Vamos esquecer o Liam. Vamos esquecer à senhora D’Angelis?
— Mark, eu preciso te falar. Eu me casei com você porque pensava
realmente que estava ajudando... — Ele colocou o dedo em meus lábios e depois
me beijou. Eu tentava... E quanto mais eu tentava, mais ele me beijava. E quando
nos afastamos, eu tive coragem e falei.
— Tudo o que eu fiz, foi na melhor das intenções, Mark!
— Como assim, Sofia?
— Tudo isso... Nós. Esse casamento. E não sei o que sua família vai
pensar, ou fazer a respeito...
— Eu sei! — Ele beijou minha testa, pouco antes de a secretária bater a
porta. Havíamos esquecido que ele estava em meio a uma reunião. Não podemos
terminar nossa conversa, mas o faríamos em casa.
Eu voltei para o apartamento, bem mais tranquila em relação a mim e o
Mark. Tudo seria diferente de agora para frente! Nada poderia nos separar. Nada!
Fiz o jantar, e esperei por ele. Mas ele não veio. Esperei por ele, diante da
TV, com a mais bela camisola que pudesse ter entre minhas roupas, compradas
por ele em nossa lua-de-mel. Ele poderia demorar um pouco mais por conta do
trabalho. E eu me descuidei. Adormeci, e quando os primeiros raios a manhã
tocaram meu rosto, eu descobrir que o Mark não havia voltado para casa.
Liguei para o celular e nada! Na agencia também ninguém atendeu. Pelo
horário não devia ter ninguém trabalhando. Liguei para o Bento, era o único que
poderia me dar uma informação sobre ele.
— Sofia, — Só pela forma com a qual o Bento me atendeu, eu soube que
algo não estava bem.
O Mark estava em uma clínica. Havia sentindo um mal-estar e estava em
observação. Eu perdi o chão! Não sabia o que fazer. Anotei o endereço tomei um
taxi e fui direto, mesmo o Bento dizendo que ele não queria que eu fosse. Que
não precisava se preocupar.
— E por que não me ligaram? — Fiquei brava quando vi o Bento e uma
das assistentes, do lado de fora do quarto.
— Sofia, o Mark está se dedicando muito ao trabalho. Ele é assim!
Enquanto não vê pronto, não sossega. — Eu estava trêmula, com o coração na
mão.
— Sem falar no estresse dessa família dele não é? — Quando a menina
falou sobre a família, o Bento faltou demiti-la em minha frente.
— Aconteceu algo que eu não saiba Bento?
— Não, Sofia. Nada não! — Mas o olhar da garota não me enganava.
— Bento, não me faça perder a confiança no único amigo do Mark que
eu gosto e respeito.
— O Álvaro esteve ontem na agencia, pouco depois que você saiu. E
como sempre eles tiveram uma pequena discussão. — Às vezes, eu me esquecia
de como chamava o pai do Mark.
O médico saiu e disse que poderíamos entrar. E logo os papeis da alta
estariam sendo entregues a nós.
O Mark estava muito pálido. As mãos geladas. E aparentava ter tomado
medicação que o deixava sonolento. E assim ficou por um bom tempo, mesmo
depois de chegarmos a casa.
Cuidei dele, conforme o médico havia pedido. E teria que voltar para
fazer alguns exames no dia seguinte, ou quando se sentisse melhor. Ele dormiu a
tarde toda, e a noite também. E no outro dia, queria trabalhar. Não falamos sobre
a visita do pai, e também ninguém da casa, viera vê-lo mesmo depois de um
telefonema meu avisando. Pediram para deixá-los informados e só.
Dois dias depois, estava bem melhor. E até fora ao médico no período da
manhã, enquanto eu trabalhava. Quando cheguei a casa, tive certeza de que ele
estava ali. Mas não estava. Seu perfume estava impregnado pela casa, mas ele
não. Fui até o quarto e observei que... Algumas roupas dele não estavam no
closet. Faltava uma mala. — Meu coração bateu descompassado. Liguei para
ele, e como esperei não me atendeu. Liguei para o Bento. Na agencia. Fui até a
agência e ninguém tinha notícias dele. Fui até a casa dos D’Angelis, e nada.
Eu tinha que confiar no Mark, e esperar que ele mandasse notícias. A
todo instante repetia a mim mesma...
— Estava tudo bem entre nós! Estava tudo bem! — Enquanto esfregava
minhas mãos, eu repetia em voz alta tentando me convencer... — Estava tudo
bem entre nós!
E a cada ligação! A cada vez que o celular tocava, eu me desesperava
para atender. Mas sempre era alguém do trabalho, ou o Bento, que também
estava desesperado à procura do amigo.
E por volta de nove e meia da manhã do outro dia, quando eu estava
preparando para fazer um B.O, porque tinha que aguardar um período para a
polícia considerar um possível sequestro ou algo parecido, o interfone tocou. O
Bento foi mais rápido e atendeu primeiro que eu.
— Priscila Mayer, Sofia. Conhece? — Agora não me vinha à memória,
mas mandei entrar. Quando a moça atravessou a porta, tive certeza que ela trazia
notícias do Mark.
Ela estendeu a mão, eu achei que fosse para um simples cumprimento,
mas era para se reapresentar.
— Oi Sofia, com certeza se lembra de mim. Estou nesse momento
representando o Mark.
— O Mark, — estava com os olhos vermelhos e inchados de chorar.
Sequei minhas lágrimas e olhei para ela atenta. — Onde ele está?
— Ele quer o divórcio!
Treze.
Sofia,
— Espero que esteja satisfeita Sofia! — Satisfeita? Eu? A senhora
D’Angelis desceu as escadas se apoiando na Priscila. Será que ela não conseguia
enxergar minha infelicidade?
— Mamãe não vai discutir agora. — Eu teria respondido se o Liam não
tivesse se intrometido. Era sempre assim. As pessoas confundiam boa educação
e valores com falta de atitude.
Eu não estava ali obrigada. Não tiveram que me arrastar. O que me levou
àquela reunião, marcada depois do sumiço do Mark, foi justamente a ânsia de
entender o que havia dado errado. Mas até agora ninguém falava nada. A não ser
a senhora D’Angelis que havia acabado de me acusar de ser a culpada da
situação.
— Eu não entendo o que a senhora quis dizer, e muito menos poderia
estar satisfeita, se não sei o que está acontecendo de fato.
— Onde está meu filho Mark? — Ah sim... Agora era filho? Eu abri a
boca para responder, mas pelo visto estava disposta a me provocar. — Claro que
você não sabe. Se tivesse apenas cumprido com sua parte no trato.
— Sente-se Sofia. — Ao contrário da mãe, o Liam parecia tranquilo e
sereno. Inclusive, sem sombras de ser aquele Liam de dias atrás.
Assim que me sentei, a Priscila chegou acompanhada de um homem,
elegante de terno.
O Liam se apressou em me apresentar o homem como advogado da
família. Quer dizer... Mais um, já que a Priscila também era.
Eu poderia ter esperado que eles fossem ali para tratar do divórcio, mas
nunca com tanta frieza. Colocaram diversos documentos sobre a mesa e me
pediram para assinar. Se fosse a outra época, eu teria assinado sem pestanejar.
Mas, eu precisava ler o que era tudo aquilo. Não tinha noção do que estava
descrito naqueles documentos.
Quando tomei os documentos em mãos, a Priscila faltou arrancá-los de
mim.
— Não temos tempo para isso. Só assine, porque terei que levar ao Mark,
para que ele assine.
— Eu preciso ler só isso. — Mesmo assim, ela não permitiu. Apenas foi
passando as folhas e dizendo que ali era os termos burocráticos e que nada
mudava do que eu havia assinado antes.
— Priscila, nos deixe a sós por um instante. — A senhora D’Angelis
achou uma absurdo o Liam pedir a retirada dos advogados, mas logo também foi
expulsa da sala. — A senhora também mamãe. Estamos entre amigos, em
família. A Sofia é um membro da família. Sempre o foi.
Quando nos vimos sozinhos, ele me ofereceu água, e logo se sentou em
sua cadeira. Pegou todos os documentos e começou a me explicar em que pé
estava a situação.
— O Mark não quer esperar pelo prazo que determinamos para o
casamento. — Eu estava aprendendo a conhecer melhor o Liam. Mas naquela
hora tinha dúvidas se ele estava ou não mentindo, devida à forma que o Mark
havia partido. — Está me ouvindo Sofia?
— Sim, estou!
— Está indecisa em assinar, e eu te entendo. São muitos agora, mas te
garanto que é tudo o que é preciso. Está descrito que estão se separando
amigavelmente, — mostrou uma folha. — Essa é sobre a representação do Mark
que será feita pelos advogados, uma vez que ele não quer se intrometer em nada.
— E essa, é... — Ele parou. Olhou o documento, e depois balançou a cabeça. —
Essa é sobre os bens do Mark, dos quais você tem direito. Só lamento informar
que não são lá essas coisas, porque como sabe a família está em seus piores
momentos.
— Nunca me importei com dinheiro. Só aceitei esse casamento, por
que...
— Porque eu te pedi não foi? E me arrependo tremendamente. Mas te
garanto Sofia, que a partir de agora, tudo será diferente. — Quando ele colocou
sua mão sobre a minha, minha reação foi puxar a minha, sem titubear.
— Eu só precisava ter uma ultima conversa com o Mark. Só isso! — Ele
ajeitou-se novamente na poltrona e se tornou mais sério ainda.
— Sofia, não sabe o que tenho feito para que possamos realizar nosso
sonho. — Foi tão repentina a fala dele que fiquei sem ação. Eu não tinha como
dizer ao Liam que... Que estava apaixonada pelo Mark.
— Liam, eu...
— Está apaixonada por ele, não é? — Não disse que não e nem que sim.
Apenas me calei. Tomara que ele entendesse. — Isso quer dizer que não irá
assinar os documentos?
— Não disse isso. Apenas queria falar com o Mark antes.
— Por que não assina e vê se ele irá assinar também.
— Então ele poderia assinar, achando que não me importo. — O Liam
parecia assustado.
— Se está tão apaixonada assim, façamos o seguinte... Deixe que a
Priscila peça ao Mark para assinar, e se ele o fizer, poderá constatar que estou
falando a verdade. Mas, se ele sentir o mesmo por você, com certeza irá se
recusar a assinar esse documento.
Ele não disse mais nada, apenas chamou os demais e orientou aos
advogados como deveria fazer.
Estava tarde, a senhora D’Angelis havia saído com o motorista, e o Liam
não se dispôs a me levar em casa. Nunca tinha ido tão tarde. Estava no ponto
quando a Priscila passou e me ofereceu carona.
— Obrigada! Nem sei como lhe agradecer.
— Pode me agradecer fazendo a coisa certa Sofia. Até porque, quando se
separar do Mark, terá a oportunidade de ficar com seu grande amor. Não foi esse
o plano desde o começo?
— Bem... — Ela colocou o carro em movimento e eu agradeceria mais
ainda se pudesse apenas ir para casa sem dizer uma palavra sequer.
— Sofia, não jogue sua sorte pela janela. Vai acabar ficando sem nenhum
dos irmãos. — Não disse mais nada. Não queria discutir minha vida particular
com uma pessoa que não era sequer minha conhecida.
Quando ela parou o carro de frente o apartamento, eu apenas agradeci
novamente e desci e fiquei surpresa quando ela disse que aproveitaria para subir
e pegar alguns documentos que o Mark havia pedido.
— O Liam disse que ele está viajando.
— É por isso mesmo. Preciso enviar esses documentos a ele o mais
rápido.
Subimos em silencio. E não é que ela sabia de fato onde estavam os
documentos. Ele a havia orientado com precisão, e aquilo só serviu para me
magoar ainda mais.
Eu nunca havia me sentido tão humilhada em toda minha vida. Nem
mesmo quando as pessoas se aproximavam de mim por causa dos D’Angelis. Ou
me chamavam para as festas e depois simplesmente me ignoravam para ficar de
papo com a Angel.
Sentia-me sozinha e perdida, em meio a tantas informações e
principalmente em meio aos meus sentimentos!
A família D’Angelis havia tomado decisões a meu respeito, como faziam
muitas vezes em minha infância e adolescência. Só que eu não era mais uma
criança e muito menos uma adolescente.
— Acho que é só isso mesmo. — Enquanto ela analisava mais uma vez
os documentos, eu mordia os lábios não escondendo minha irritação. — Não foi
isso que você sempre quis Sofia? Se casar com o Liam? Vê só... Precisamos
estar atentos àquilo que pedimos a Deus.
Eu não havia dado a ela, nem como advogada e muito menos como
amiga da família D’Angelis, o direito de me questionar. Questionar minhas
escolhas. E até mesmo minha mudança de escolha. E agora meu coração estava
acelerado, e de certa forma... Ferido.
— Se já disse tudo... — Mas não. Ela não tinha dito, e permaneceu ali,
fingindo que arrumava os papéis em sua pasta, se sentido no direito de dizer tudo
o que estava entalado em sua garganta, ou guardado em seu coração.
— Sabe Sofia, não há porque eu esconder de você que nunca, nunca senti
um pingo de empatia por você. Desculpe-me, mas tenho que ser sincera. Saiba
que nunca concordei com o plano do casamento, desde o início. O Mark é para
uma mulher que tenha fibra, garra, e me desculpe... Mas nunca vi isso em você.
Talvez a sua escolha de início tenha mesmo sido a melhor. O Liam é quem cuida
das pessoas, resolve todos os problemas, o verdadeiro chefe de família. Já o
Mark, não. Ele é aquele que gosta de parceria. Gosta de contar com a outra parte.
Dar voz e vez ao outro. Mas para isso precisa de alguém que tenha voz.
Estava me sentindo tão mal naquele momento que não tive forças para
revidar. E na verdade, ela não estava errada. Era assim que as pessoas me viam,
porque foi nisso que eu me tornei.
Vi meus sonhos sendo apagados, e não lutei. Minha tia sempre dizia que
como empregadas devíamos saber até mesmo onde e quando sonhar. Vi o garoto
que gostava ir embora e nunca me declarei. Estava convicta de que merecia
ouvir aquelas palavras e todas as outras que ela, ou qualquer um dissesse.
Eu nem mesmo sabia mais quem eu era. Então... Nesse exato e único
momento eu a deixaria ser “franca”, como estava sendo.
— Sua história de menina que perdeu os pais cedo, e precisou da ajuda
da tia, nunca foi para mim algo sobrenatural. Quantas meninas perdem os pais, e
sobrevivem até mesmo sem uma tia.
— Eu nunca me aproveitei disso para sobreviver.
— Para Sofia! Foi morar na casa dos D’Angelis e em pouco tempo,
estudava no mesmo colégio que os filhos dos patrões. Participou das festas mais
conceituadas, sempre à custa do nome da família, e quer me dizer que não tirou
vantagem de sua história triste e comovente? Que pena da menininha pobre e
negra.
Estava ficando assustada com a visão deturpada que a Priscila tinha a
respeito de minha vida. Nunca foi de graça o que os D’Angelis fizeram por mim.
— Sabe Priscila, eu começo a pensar que a pessoa que narrou minha vida
a você tenha se esquecido de alguns detalhes. Minha tia pagou por tudo o que os
D’Angelis fizeram. Até mesmo por minha escola. E não só ela, eu também.
Lavei os banheiros daquela casa às vezes mais de uma vez ao dia. E olha que
eles tinham a convicção que criança não deveria trabalhar. Mesmo assim me
“deixavam” ajudar minha tia. Vi minha tia ter que acordar de madrugada ou ir
dormir de madrugada por um salário irrisório. Mas não te condeno por pensar
assim, porque claro, que os D’Angelis não sairiam por aí contando suas
limitações? — Pensei nas diversas vezes que a Angel dormia e acabava
deixando seus trabalhos para que eu fizesse na madrugada, mas preferi não
contar. — Mas só eu sei o quanto paguei por tudo o que tive. E ainda pago até
hoje.
— Que seja! Se achares que fez algo comparado ao que os D’Angelis
fizeram por você.
— Não acho. Tenho certeza! E sabe qual nossa diferença Priscila? É que
a mim pagaram com roupas, escola, e a você pagam em espécie. Mas o nosso
trabalho é praticamente o mesmo. — Ela riu, e cruzou os braços sobre os
documentos se aproximando de mim.
— Mas tem outras coisas Sofia. E que mais cedo ou mais tarde alguém te
dirá. Contos de fada seguem um padrão. Se sair do padrão, não são contos de
fadas.
— E acha que não posso viver um conto de fadas? Posso ser a princesa
salva pelo príncipe. Não acredita nisso?
— Sim! Se o seu príncipe for um homem da sua etnia. Tantos negros
lindos por aí. Não entendo porque querem ficar justo com os brancos. E a classe
social?
— Não acredito no que estou ouvindo. Não acredito.
— Pois acredite. Sabe por quê? A sociedade não perdoa essa mistura de
raças, mesmo que finja que aceita. As pessoas fingem que não olham para você
quando está ao lado de um homem branco, mas olham. Claro que disfarçam, mas
acabam rindo e se divertindo com isso às suas custas.
Até então, eu pensava que ela somente se referia a minha personalidade
ou capacidade, mas agora eu via o que mais lhe ofendia. Minha mão chegou a se
mover, e minha vontade era de enfiá-la no meio da cara da cretina. Mas me
controlei.
— Não me diga que o que mais lhe incomoda seja minha cor? — Passei
a mão pelo rosto, e não estava mais disposta a ouvir sua “franqueza”. — Meu
Deus! Como você é mesquinha. — Fui até a porta e abri. — Em pensar que é
uma advogada renomada. — A porta continuava aberta e ela não se movia. —
Estou deixando claro minha posição Priscila, em querer que você saísses?
Deu passos lentos, arrumou sua bolsa no ombro e olhou para a porta.
— Precisamos estar preparados para as verdades da vida Sofia. Se não
consegue conviver com isso, não irá muito longe. Mesmo que eu acredite que já
foi longe o suficiente.
— Não! Você não me conhece, e não sabe o quão longe eu posso ir. —
Estava furiosa, mas não demonstraria o quanto às palavras havia me afetado.
— Quanto aos documentos, acredito que em dois dias, eu os traga para
que assine. Não queira achar que dessa vez há alguma armação do Liam. O Mark
quer mesmo a separação.
Depois que ela passou, eu bati a porta com toda força atrás de mim, mas
não adiantava. Tinha certeza que aquela mulher havia saído dali se achando a
toda poderosa. Mas ela estava errada. Tinha certeza que o Mark não assinaria o
documento ao ver que não havia assinado. Então ela voltaria com o rabinho entre
as pernas.
Catorze.
Sofia,
Era por volta de uma hora da tarde, da segunda feira, quando entrei em
casa, passei pela mesa, e um envelope pardo chamou minha atenção. Não! Ele
não estava ali quando saí para o trabalho. Olhei assustada em volta tentando ver
mais alguma coisa, e meu primeiro pensamento foi correr até o quarto.
— Mark? — Muitos poderiam dizer que estava louca, mas era certo...
Mark estivera ali. Não só pelo envelope sobre a mesa, mas principalmente por
sua loção pós-barba exalando por todo quarto.
Fui até o armário e apenas constatei que ele havia levado embora o
restante de seus pertences.
Meu Deus! Se alguém devia sair, era eu. O apartamento não me
pertencia. Era presente do pai, mesmo que ainda pagasse as prestações. Não era
justo. Se ele ao menos, me desse à oportunidade de nos vermos, de nos falarmos,
talvez ele me entendesse. E quem sabe, eu também pudesse entender o que teria
acontecido após a visita do pai, que o fizera repensar.
Voltei até a sala e peguei o envelope novamente, em negrito e letras
grandes.
PETIÇÃO DE DIVÓRCIO CONSENSUAL JUDICIAL.
A cada palavra que eu lia, meus olhos enchiam-se de lágrimas. Eu
buscava forças nas ultimas palavras do Mark, quando o visitei, e tinha certeza
que aquelas descritas ali, não condiziam com o que ele sentia.
EXCELENTISSÍMO SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA
VARA DE FAMÍLIA DA COMARCA DE SÃO PAULO.
Olhei cada detalhe, tentando em alguma das linhas descritas, encontrar
uma que fosse fagulha de esperança. Mas, estava tudo descrito tão
minuciosamente, que não havia como contestar.
SOFIA D’ANGELIS, brasileira, professora, residente e domiciliada na
Rua Francisco Braga, n02, Condomínio Village, nesta cidade portadora da CI de
RG n.123456789, inscrita no CPF sob o n.98765432, e MARK D’ANGELIS,
brasileiro, publicitário, residente e domiciliado na Rua das Ametistas, n. 80, da
mesma cidade, portador da CI de RG n. 123498765, inscrito no CPF sob o n.
567891234, casados entre si pelo regime de comunhão parcial de bens, por
intermédio de sua advogada, in fine, representante comum dos interessados,
inscrita na OAB, n.121212 sob o n. (procurações anexas - doc. 01 doc. 02), com
endereço na Avenida Brasil, n.09, apartamento 543, centro, CEP: 02180-132, na
cidade de São, onde receberá as intimações e notificações, vem, respeitosamente
perante Vossa Excelência, formular o pedido de:
DIVÓRCIO CONSENSUAL,
Com fulcro nos artigo 226, parágrafo 6 da Constituição da República de
1988 e nos artigos 1571 e seguintes do Código Civil Brasileiro assim como nos
demais dispositivos legais pertinentes, pelas razões de fato e de direito a seguir
expostas:
DOS FATOS
1. O casal proponente da presente ação é casado pelo regime de
comunhão parcial de bens desde o dia, conforme certidão de casamento anexa
(doc. 04);
Para cada item, uma lembrança. Eu me lembrava de uma conversa entre
nós,
2. Desta união não há filhos: — Mas eu me lembrava de uma conversa
entre o Mark e eu, e mesmo que fosse uma brincadeira, ele havia expressado a
vontade de ter uma família. “Podemos alugar um apartamento aqui por perto e
não dar o endereço a ninguém”. Teríamos dois cachorros até que vissem nossos
filhos. ─ Me lembro de ter sorrido naquele dia e mesmo assim ele havia
continuado a falar... “─ E depois quem sabe, um ou dois filhos e um cachorro.”
Teríamos sido bons pais. Mas o que li a seguir feriu de tal forma minha alma que
cheguei a fechar os olhos.
3. Os requerentes acordam por promoverem a presente ação de divórcio,
porque não mais comungam dos mesmos interesses, não possuem mais o ânimo
em continuar a vida conjugal ante o término da afetividade recíproca. — Ele
não podia estar falando sério, depois de tudo o que conversamos naquela tarde.
4. Sendo assim, decidem de comum acordo e nos termos da lei, pela
ruptura da vida em comum, bem como o vínculo conjugal. — Eu nunca pensei
que essa ruptura seria tão difícil.
O restante do documento era sobre pensão alimentícia equivalente a 30%
do salário que ele havia declarado, feita mensalmente até o dia dez de cada mês,
através de depósito bancário mediante conta corrente. — Como se eu houvesse
pedido algo.
DOS BENS A PARTILHAR
5. Durante a união conjugal, o casal adquiriu um único bem, um imóvel
urbano, situado no endereço atual da esposa, onde poderá ficar residindo.
6. O imóvel encontra-se financiado, sendo as parcelas pagas
mensalmente, o pagamento das remanescentes será feito pelo cônjuge homem e
ao término da última, fica acordado entre os requerentes que a escritura deste
será transferida para o nome de Sofia D’Angelis.
7. Sobre as rendas demais adquiridas durante a união conjugal a esposa
obterá 50% de tudo o que o senhor Mark receberá futuramente, já registrado em
cartório ainda dentro das tantas legais da união. — Eles não entendiam que eu
não estava buscando tirar nada do Mark.
DO NOME
8. A requerente mulher voltará a usar o nome de solteira, qual seja tudo
de acordo com o permissivo § 2º do artigo 1.578 do CC/02.
DOS FUNDAMENTOS LEGAIS E JURÍDICOS
9. Os cônjuges pretendem, por mútuo consentimento, dissolver a
sociedade conjugal, através do DIVÓRCIO DIRETO CONSENSUAL em face
do exposto, nos precisos termos do artigo 226, § 6º da Constituição Federal, diz:
“O casamento civil pode ser dissolvido pelo divórcio”.
10. Ainda, de acordo com o artigo 731 do Código de Processo Civil:
Art. 731. A homologação do divórcio ou da separação consensuais,
observados os requisitos legais, poderá ser requerida em petição assinada por
ambos os cônjuges, da qual constarão:
I - as disposições relativas à descrição e à partilha dos bens comuns;
II - as disposições relativas à pensão alimentícia entre os cônjuges;
DOS PEDIDOS
11. Diante o exposto, requer:
a. Seja julgado procedente o pedido de divórcio consensual, com base no
artigo 226, § 6º, da CR/88, pondo fim à sociedade conjugal existente entre os
cônjuges, por não haver possibilidade de reconciliação entre os mesmos.
— Meu Deus! — Joguei o papel sobre a mesa. Depois o peguei
novamente e olhei as assinaturas da Priscila Mayer, e do Mark D’Angelis.
Faltava apenas a minha, e nem precisaria estar presente caso eu não quisesse.
Era só assinar a procuração abaixo dando à Priscila plenos direitos de me
representar. Ou no dia da assinatura do divórcio, o Mark, a Priscila e eu
deveríamos comparecer pessoalmente com os documentos de identidade
(originais) e demais documentos listados em um documento à parte. E foi nesse
momento que decidi não assinar a procuração. Eu queria ver o Mark. Queria que
ele tivesse coragem de dizer olhando em meus olhos tudo o que estava escrito
ali.
Enviei uma mensagem de texto ao Liam e à Priscila avisando de minha
decisão de comparecer pessoalmente. Eu não queria que mais ninguém tomasse
decisões por mim. E esse seria meu primeiro passo.
Porém naquela noite, a advogada ainda esteve em minha casa. E eu que
em nosso ultimo encontro havia pensando que ela engoliria suas palavras, agora
sabia que estava totalmente enganada. E ainda tive que ver uma Priscila muito
mais prepotente e dona de si.
— Em que posso ajudá-la? — Fui direta quando a vi diante de minha
porta.
— Vim buscar os documentos assinados. Não há porque ir até o cartório.
Temos tudo preparado.
— Espero que tenha entendido minha mensagem. Só assinarei lá no
cartório... Diante do Mark.
Tentei me manter o mais forte possível parada diante daquela mulher,
tentando juntar o restinho de dignidade que ainda havia em mim.
— Como vê, é assinatura dele. Portanto, não há necessidades que ele
compareça ao local. — Em nenhum momento duvidei que fosse sua assinatura,
eu só não entendia o porquê, depois que ele havia me afirmado que as tramas da
família não nos afetaria. Chegou até pedir que esquecêssemos a Senhora
D’Angelis e o irmão. E agora... Simplesmente assinava o pedido de divórcio. Eu
precisava olhar nos olhos dele.
— Se não está entendendo algo é só ligar para o Liam.
— Não há duvida alguma. Apenas quero estar presente nesse momento,
mesmo que... Mesmo que o Mark não vá.
— Bom... A família irá te questionar os motivos, mas você tem todo o
direito.
Silenciosamente agradecia a Deus por ela estar saindo de nosso
apartamento desistindo de sua insistência para que eu assinasse os malditos
documentos.
— Esteja no fórum depois de amanhã, as nove.
Eu desabei assim que vi a porta fechada. Precisava respirar e organizar
meus pensamentos. Afinal, em pouco menos de 48 horas eu estaria divorciada do
Mark.
Foi uma noite terrível, e teria sido uma manhã muito triste se não fosse
meu trabalho e as crianças que se tornaram minha única razão de sorrir naqueles
últimos dias.
— Professora? Professora? — E mesmo com todos os sorrisos e gritinhos
espalhados pela sala, eu ainda tinha a capacidade de me esconder em um lugar
dentro de mim onde somente eu poderia acessar.
— Sim. — Fui ao encontro da pequena Barbara que me chamava. Ela
trazia nas mãos uma folha de papel, e pediu que eu corrigisse sua redação.
— É para aquele concurso do qual lhe falei. — Minha cabeça estava tão
longe, que sequer me lembrava de tal conversa. Mesmo assim, peguei a folha e
voltei para minha mesa.
Era uma redação bem característica da idade para a qual eu
lecionava. A história girava em torno de um príncipe que perdia sua
coroa. Vagava pelo reino até descobrir por um velho sábio que coroa
nenhuma poderia tirar dele, o que estava em seu coração. E assim, ele
conhece a filha do velho que lhe devolve a alegria e o desejo de viver.
O príncipe voltava ao Castelo e reinava ao lado de sua princesa e o
reino deles era o mais belo de todos.
E naquele momento, foi como se eu retornasse aos meus
sonhos de infância. Eu não precisava continuar procurando coroa
alguma. E meu castelo seria onde fixasse meus sonhos e ideais. E meu
primeiro sonho era ser uma boa professora, e eu o havia deixado de
lado muito cedo.
Antes de ir para casa, voltei ao meu curso na autoescola. Como
dizia minha tia, se minha cabeça estivesse ocupada, eu não perderia
tempo pensando em coisas que só se resolveriam com o próprio tempo.
E no mais, como dizem: “Quem mata o tempo não é assassino, e sim
suicida. Mata a si mesmo e seus sonhos” E eu não queria mais aquilo
para mim.
Dois dias depois. No dia fatídico. Acordei muito resfriada e por mais que
tentasse sair da cama, meu corpo não obedecia minha mente. E decidi por mim
mesma que não iria ao trabalho, e muito menos ao fórum.
Avisei no trabalho, e depois de cinco minutos do horário da audiência
ouvi o telefone por diversas vezes tocando e por fim, o desliguei. Eu não queria
guerra contra a família D’Angelis, mas também não queria mais que eles
ditassem as regras. Não em minha vida!
O interfone tocou! Insistentemente. E foi assim eu suspeitei que os
D’Angelis estivessem furiosos comigo.
Só dois dias depois tive ânimos de falar com o Liam. E ao contrário do
que pensei, ele não estava tão bravo, mas eu estava pior que imaginava. Estava
doente, e não era só da gripe. Estava muito triste por não ter notícias do Mark.
Ainda tentava falar com ele, tanto no celular, quanto na agencia, e ele não me
respondia. Nem sequer uma mensagem.
Por isso, quando o porteiro anunciou o Liam, eu deixei que subisse, não
tinha mais forças para resistir, eu assinaria o maldito documento e os deixaria
vencer. Se for isso que o Mark e toda família queria.
— Sua tia está muito preocupada com você. Inclusive ela esteve aqui e
você não atendeu ao interfone. Ligou e você não atendeu ao celular. Por isso, eu
vim. — Um sentimento de culpa ocupou meu coração. Eu não havia pensando
que ela poderia ligar. — Não só sua tia Sofia, mas eu também. Entendo que
queira jogar tudo o que há entre nós por água abaixo, mas não encarando a
situação não adiantará muito.
— Eu tentei falar com o Mark.
— Ele vai fazer uma pós-graduação no exterior. — Foi à única satisfação
que o Liam me deu. Passou por mim, abriu a janela, e as persianas. — O que
está tomando para a gripe?
— Começou hoje.
— Hum...
— Hum? Isso não é uma resposta.
— Só pensei que tivesse sido esse o motivo de seu não comparecimento
ao fórum. — Ele foi até os armários e começou a abrir como se procurasse algo.
— Me desculpe eu... — Queria dizer a verdade a ele, mas não estava
tendo coragem de pronunciar, mesmo que ele já soubesse meu motivo de não
comparecer.
— Meus documentos de divórcio estão em andamento. Acredito que
semana que vem estarei livre. Demoraram mais por haver a partilha da herança
da Lana. Mas em breve poderemos conversar mais abertamente de como será
nossa vida. — Encontrou o chá e o colocou sobre a bancada, respirando fundo.
— Lógico... Se ainda tiver interesse.
— Liam, eu... — Será que ele ainda não havia entendido minha posição
perante a tudo aquilo?
— Eu te entendo Sofia. Acha que esta gostando do Mark, mas sei que
estavam vivendo muito próximos, e isso com certeza contribui para que as
pessoas pensem que se gostem. Nós ao contrário não tivemos esta oportunidade.
Nem quando adolescentes, quando minha mãe me enviou para estudar, muito
menos quando jovens. Nessa fase você apenas desfrutou da companhia do Mark,
até agora.
É! Não tivemos essa oportunidade, mas acredito que mesmo que
tivéssemos, hoje não pensaria da mesma forma. Preferi manter o silencio.
Depois que encontrou uma chaleira, colocou água para ferver e logo uma
xícara fervilhava em minha frente.
— Não prefere ligar para sua tia, e acalmar o coração da pobre mulher?
— E assim, eu o fiz. Falei com minha tia por alguns minutos e a tranquilizei.
— Está tudo bem tia, eu só precisava ficar sozinha. Desculpe-me! —
Assim que desliguei, prometendo recebê-la no dia seguinte, tomei o resto do chá
e fiz o possível para sorrir para ele, para que ele pudesse se convencer de minha
melhora me deixando sozinha.
— Sofia, eu sei que parece frio de minha parte, mas, é sério. Desde o
começo, sempre foi um acordo. Você sabia disso, e o Mark também. Tudo o que
ele possa ter dito no calor da emoção, ou feito... Desconsidere. Se levarmos em
conta o plano original, verá o quanto todos poderão lucrar com isso.
— Lucrar? — O Liam sorriu, e disse que o “Lucro” não era da forma da
qual eu estava pensando. Mas se o plano original voltasse a ser cumprido, o
Mark teria sua liberdade, e poderia seguir sua vida.
— Não vê a Lana? Cumpri minha parte e ela seguiu o plano original e
está a caminho de ter sua herança. Como combinado dará o porcentual que
ajudará nas finanças da família. E...
— E? — Ele queria falar algo, mas parecia sem jeito. Então insisti. — E,
o quê, Liam?
— Sofia, se esse acordo, esse da Lana, fosse com você, daria a mim a
porcentagem prometida? — Eu me assustei com a pergunta.
— Por que me pergunta isso? Acha que não teria caráter de cumprir um
acordo se envolvesse dinheiro? Você está me insultando Liam. — Me afastei.
— Não, Sofia. Não me entenda mal. Mas olhe para você. Não consegue
sequer assinar um documento de dissolução de um matrimonio que sabia que
haveria data para início e término. — Ele tinha razão, mas não era por dinheiro.
Eu não contava com uma aproximação tão grande do Mark.
— Liam...
—E, quanto a nós Sofia?
— Não existe nós, Liam. — Tentei argumentar.
— Ainda não, mas vai existir. Só precisamos de uma oportunidade. — E
quando tentei falar novamente, ele levou os dedos em minha boca, me
silenciando. — Nem tudo o que parece é, Sofia.
— Eu sei Liam! — Fiquei de pé.
— Minha mãe, sempre costumava comparar o Mark e eu em tudo, e eu
não entendia o porquê, se todos nós éramos seus filhos, até que descobri sobre o
Mark. Pensei naquela época que não era justo as comparações, e até hoje, achava
não ser muito justo, mas vindo para cá Sofia, eu mesmo fiz uma comparação. —
Então ele se levantou também. — Meu pai... Você se lembra?
— Seu pai! Claro. — Era isso. Se eu encontrasse o Senhor D’Angelis
talvez entendesse o sumiço do Mark. — Liam, então você sabe o que seu pai
disse?
— Desconfio. Mas não sei ao certo. Como te disse o Mark e eu, não
temos uma conversa saudável há tempos, e muito menos meu pai e eu. Desde...
— Eu o interrompi.
— Seu pai está na cidade? — Estava disposta a qualquer coisa, até
mesmo enfrentar aquele homem horrendo novamente.
O Liam ficou parado me olhando por alguns minutos, e depois colocou a
mão no bolso do paletó e de lá retirou um cartão e me entregou.
— Está neste hotel. E este é o numero dele. — Foi intuitivo eu abraçá-lo.
Uma fagulha de esperança acendeu-se no meu coração.
— Obrigada Liam.
O Liam abriu a porta, e eu estava atenta ao seu olhar tristonho, mas
naquele momento não tinha outra opção. Eu precisava encontrar o Mark. Então
eu não importaria se ele fechasse a porta o mais rápido possível.
— Sabe Sofia, como eu ia te dizendo sobre a comparação que eu fiz.
Quando meu pai tentou atacar você, talvez você não se lembre por ser ainda
muito jovem, eu fui para cima dele com unhas e dentes, e naquela noite, eu teria
apanhado se não fosse à decisão de meu pai de desistir. Se ele quisesse mesmo
seguir com aquilo, teríamos apanhado você e eu, mas nunca teria deixado você
sozinha à mercê de qualquer ameaça. E então eu me pergunto hoje... Por que o
Mark não ficou e lutou ao seu lado se é que sua teoria faz algum sentido e meu
pai o tenha encostado contra a parede? Só se lembre de quando for procurar o
velho Sofia, que não estarei lá, para te defender.
Bateu a porta atrás de si, e se foi, me deixando ali, com o cartão na mão e
a cabeça cheia de dúvidas.
Quinze.
Sofia,
Eu fiquei incerta se iria ou não falar com o pai do Mark, e por fim, decidi
que precisava de uma explicação, e ele, provável culpado da minha profunda
tristeza, poderia me dar às informações que eu precisava, mas na manhã em que
o procurei, ele sequer me atendeu. Mandou dizer que eu marcasse um horário.
Maldito!
Era isso que eles queriam. Que eu desistisse de tudo, principalmente do
Mark. Para mim não havia dúvidas de que o Mark não era nada do que diziam
no começo, e isso ficou bem provado durante o tempo em que moramos juntos.
Enfim, não foi possível falar com o velho! Não foi possível falar com o
Bento. Nem na agencia, e muito menos em sua casa.
Quando bati à porta uma mulher muito bonita e elegante atendeu, e só
então eu me dei conta da burrice que havia feito. Buscar pelo Mark na casa de
seu melhor amigo, sem ao menos conhecer a esposa dele.
— É... Desculpe-me. Estou procurando pelo Bento. Meu nome é Sofia.
Sou esposa do Mark, não sei se me conhece.
— Claro. São sócios na agencia.
— Sim! Você deve ser esposa do Bento. — Estendi a mão. — Prazer.
— Não! — Ela sorriu. — Sou irmã do Bento. O Bento ainda não é
casado e nem eu. Graças a Deus! — Depois acho que se deu conta do que havia
dito e tentou se justificar. — Quer dizer... Não que tenhamos algo conta o
casamento, é que talvez ainda não tenhamos encontrado a pessoa certa.
— Tudo bem! — Ainda estávamos as duas paradas à porta. E pelo jeito
ela não me convidaria para entrar. Mas então ela se deu conta e levou à mão a
cabeça.
— Que lerdeza a minha. — Abriu um pouco mais a passagem e fez um
gesto para que eu passasse. — Não quer entrar? Em que posso ajudá-la?
— Estou tentando falar com o Bento. Ele não me atende, e como não está
na agencia, a secretária disse que há mais de duas semanas não vai trabalhar,
pensei em fazer uma visita.
Mesmo que eu não lesse mão, eu lia rosto. Era preciso ler os traços de
meus alunos para perceber quando estes diziam a verdade ao falar sobre as
tarefas esquecidas diariamente, e quando ela ouviu meu relato sobre o Bento,
seus traços mudaram imediatamente.
— Bom... O que sei é que ele, ou melhor, eles estariam viajando a
negócios.
— Eles? Você está dizendo... Ele e o Mark?
— Não sei te dizer ao certo quem são eles. Na verdade, o Bento e eu,
apesar de morarmos juntos, não temos muita intimidade profissional. Sabemos
por alto dos assuntos um do outro. Sou advogada e ele publicitário então dá para
se imaginar que um não entende nada do ramo do outro não é?
— Entendo.
— Não me entenda mal. Somos muito ligados e íntimos quando falamos
sobre romances e tudo mais. E comemoramos nossas vitórias, apenas não
entendo nada dos negócios dele, apenas do produto final, e ele das minhas
sentenças finais. — Ela sorriu tão sincera que entendi sua posição.
Agradeci o café e me despedi. Antes de sair, porém, senti o perfume da
loção pós-barba do Mark e teria pedido para vasculhar a casa se não fosse feio
de minha parte duvidar da boa vontade da moça. Se nem o irmão estava em casa,
imagina o próprio Mark.
Cheguei à conclusão que estava ficando tão louca que estava sentindo
seu cheiro por todos os lados.
Aproveitei dias depois à ausência dos D’Angelis para visitar minha tia. O
motivo da viagem? Uma visita aos pais da Lana.
— Então o Liam está mesmo livre tia?
— Sim meu bem! E contando aos quatro cantos do mundo que está
preparado para viver o grande amor de sua vida. — Um aperto tomou conta de
meu coração. Eu tinha total culpa! Havia me enganado e agora tinha que viver
uma situação que não mais queria viver.
O Liam havia cumprido a parte dele no acordo. Estava livre para se casar
comigo, e eu não mais queria viver a “nossa história”. Estava arrependida por ter
nutrido um amor que era de vidro, porque agora eu sabia que havia se quebrado.
Não existia mais.
— Tia! — A abracei e chorei.
— Eu sei! Eu sempre soube! Desde que vi você e o Mark por esses
jardins eu sabia que você e o Liam nunca haviam existido. Por isso insisti tanto
no casamento de vocês.
— Então o que faço agora tia?
— Você já fez filha! Agora é a vez do Mark. Deu todos os passos que
podia. Agora ele precisa dar os passos que faltam. Se ele quiser continuar com
você, deixa que ele venha. Se vir, é porque tinha que ser. Caso contrário... Tome
outra direção em sua vida. Consulte seu coração.
Ah, minha tia. Não sabia o quanto tinha o dom de acalmar meu coração.
Estava muito mais tranquila. O Mark saberia que não desisti de procurá-lo. De
amá-lo.
Eu sabia que a família diria cobras e lagartos para tentar convencê-lo de
que eu não o amava. Mas, ele saberia de meus esforços. Saberia sim!
E se o Bento estava com ele a trabalho, eles deveriam voltar em poucos
dias. Eu ligaria na agencia todos os dias, até que voltassem. Então... A gente se
falaria e tudo voltaria ao normal entre nós.
E foi nessa esperança, que liguei no primeiro dia. No segundo e no
terceiro. E lá se foi à primeira semana. Há segunda semana aconteceu do mesmo
jeito. Há terceira semana e a quarta. E quando vi o primeiro mês havia se
passado, e a dor e a angustia de meu coração não passava, como só aumentavam.
E de repente, veio à primeira semana do segundo mês, e a segunda
semana do segundo mês e assim consecutivamente, até que na terceira semana
do segundo mês eu já não aguentava mais, e no lugar da angustia, um novo
sentimento começou a brotar dentro de mim... A decepção.
E na sexta-feira do quarta semana do segundo mês, o Liam estava
sentado na escada do apartamento, me esperando.
— Soube que hoje é seu último dia de trabalho. — Eu o tinha visto de
longe.
— Soube errado. — Chamei o elevador.
— Então me desculpe. É que alguém tinha dito que a licença a
maternidade da moça havia acabado.
— Sim! Mas fui contratada como definitiva. Sou uma boa funcionária.
— Disso ninguém tem dúvidas, Sofia. Meus parabéns! Isso merece um
almoço! Eu pago! — Respirei fundo e depois pensei... Por que não? O Liam não
estava sendo de todo mal, nos últimos dois meses. Na verdade, um oportunista.
Sempre nos lugares certos na hora certa. Mas como ele mesmo dizia. Nunca
tivemos a oportunidade de nos conhecermos melhor. Sempre pedindo uma
chance. Uma oportunidade de mostrar como era capaz de mostrar suas
qualidades, e eu não estava disposta, mas a cada dia que se passava eu estava
perdendo a paciência de esperar pelo Mark. Seja lá qual fosse à trama que a
família tivesse feito, eu o estava achando um babaca por ter aceitado. Pensei nos
congelados e coloquei a minha mochila de volta no carro.
— Tudo bem! Vamos lá.
— Yes!
— Mas, Liam... É só um almoço. Não estamos namorando.
Entrei do lado do passageiro, cansada de toda aquela situação. Mas na
verdade, eu não queria que ele subisse e visse que minha mudança estava pronta.
Eu estava de malas prontas para outro apartamento. Hoje mesmo eu mudaria
para meu próprio apartamento.
Não era um condomínio. Não era um bairro chique. Mas era meu. Estava
em meu nome. Era bem mais simples, com apenas um quarto, sala cozinha e
banheiro. Mas era minha primeira conquista de muitas que viriam. Porque se o
Mark havia decidido depois desse tempo, que não viveria mais comigo e
dependendo da perspectiva de que um dia o Mark voltaria. E se ele nunca mais
voltasse. Porque talvez isso nunca mais acontecesse.
Quando o Liam parou o carro no restaurante, colocou a mão em minhas
costas e conduziu-me por entre as mesas até uma mesa não muito reservada,
como se tentasse mostrar às pessoas minha companhia.
— O que está tentando fazer?
— Estou tentando erguer o nome da família novamente.
— Como assim?
— Sofia, em nosso meio, empresários não confiam em homens solteiros
ou divorciados.
— Nem mulherengos. — Ele sorriu.
— Também!
— Eu nunca pensaria isso de você acredita Liam. Se não tivesse ouvido
com meus próprios ouvidos. — E ele não desmentiu.
— Só preciso que se case comigo, e me acompanhe nos eventos. Se bem
que... Se disser... Uma só palavra. Eu serei fiel pelo resto de minha vida.
— Liam! Liam!
— Nós precisamos Sofia! Se não for por nós! Pense em sua tia. Se a
gente decretar falência, que será nossa primeira opção, nem mesmo os direitos
dela teremos como pagar. Ela sairá sem ao menos um teto. Isso não seria justo.
Seria.
— E o dinheiro da Lana? Para onde foi?
— Só na rescisão e na fechada de algumas empresas que estavam
embargadas.
— Pelo amor de Deus, Liam. Veja o que está me pedindo.
— É só por um tempo, Sofia. Só por um tempo. A audiência é segunda.
Você assina o documento e na sexta já estaremos casados. É muito simples.
Lógico, que para mim, não impede de tentar te conquistar, mas te dou o direito
de negar. Não te forçarei a nada. Te prometo. Mas como pode ver... Seu
queridinho parece ter evaporado.
— Liam, me diga com toda sinceridade, você tem algo a ver com esse
sumiço do Mark? Seja sincero pelo menos dessa vez?
— Pelo menos uma vez na vida, Sofia. Eu posso estar me aproveitando
do sumiço do Mark, mas eu não tenho nada a ver com o sumiço dele. Sei que ele
está vivo e está bem! Mas não tenho nada a ver com as atitudes dele.
Dezesseis.
Sophia,
No dia do almoço, depois de muito falar, eu concordei com o plano maluco
do Liam. Iria me separar do Mark na segunda e me casaria com ele na semana da
frente. Minha tia não poderia ficar sem nada depois de tantos anos. Não só
minha tia, mas tantas famílias dependiam dos negócios da família D’Angelis.
Então o Liam colocou a mão sobre a minha e depois sorriu.
─ Quando o Mark aparecer e você quiser voltar para ele... Que volte. ─
Terminamos o almoço, e no outro dia, ele sentou-se comigo, e me explicou tudo.
Todas as normas, e teorias. Tudo o que o juiz me perguntaria, as minhas
respostas. O que deveria dizer e como deveria agir diante na audiência de
segunda. ─ Lembre-se Sofia, a qualquer sinal de dúvidas o Juiz não dará a
sentença.
─ Liam... Tem certeza que o Mark está bem?
─ Sofia. Sofia! Se ele não tivesse, já teríamos tido notícias. Ele apenas foge
dos problemas.
Passei o sábado e o domingo, arrumando meus... Eu diria meus pertences,
mas eu não tinha quase nada, a não ser minhas poucas roupas e livros. No
apartamento os móveis eram planejados, e continha uma pequena geladeira e
fogão. Mesa era um balcão. E sofá... Esse viria com o tempo. Mas era meu. TV
também não tinha, mas eu assisti a alguns filmes pela internet, e as notícias
também.
E quando a segunda chegou, saí do trabalho direto para a audiência.
─ Sophia?
Alguém havia falado na antessala que hoje o Juiz estava impaciente. Era
nossa segunda audiência, e o Mark não havia comparecido novamente.
Deixando-me totalmente insegura de suas intenções em quebrar os laços deste
matrimônio. Não que eu quisesse agilizar o processo, mas, ele havia pedido o
divórcio dois meses a trás, e me pegado totalmente de surpresa. E agora... Isso!
Estava em dúvida! Ele me deixava completamente sem saber como agir.
Na primeira audiência, eu mesma havia me ausentado. Sim. Eu senti medo.
Não sei dizer o que anda acontecendo, estava tudo certo em minha mente, mas...
Como eu direi isso ao Mark? Como eu direi isso ao... ─ Respiro, procurando o ar
que me falta. É como se as paredes se movessem e viessem de encontro a mim.
Minha vontade é de sair gritando e contrariando tudo o que me fez chegar até
aqui.
Olho mais uma vez para o homem sentado á minha frente. Ele sorri.
Advogado da família D'Angelis. É estranho pensar que ainda hoje deixarei de
assinar esse sobrenome, e em menos de uma semana, o estarei assinando
novamente.
─ Tudo bem, Sofia? ─ Tremo internamente, e tento sorrir de volta.
─ Sim! ─ Mas a minha voz, é a minha própria acusadora. Vamos Mark!
Apareça. Por favor! É uma oração interna que tenho feito, desde o fatídico dia
em que ele fez pedido do maldito divórcio e agora foge de mim, como o diabo
fugindo da cruz.
De repente, a perfeição em forma de gente, Priscila Mayer, atravessa a porta
com seu celular de ultima geração, iluminando seu rosto. Era como se ela tivesse
um letreiro luminoso no pescoço piscando "o Mark está livre para mim". E sei
lá... Isso está me remoendo a cada segundo.
Assim, que o Juiz atravessa a porta, e senta-se a nossa frente, sou instruída
a me sentar. Não há um advogado da minha parte, já que minha parte e a do
Mark e de toda a família, são os interessados na dissolução deste casamento.
Por que será que isso soa tão mal aos meus pensamentos? Será que estou de
fato preparada para esta mudança. Segundo o Liam, irmão do Mark, e meu
futuro marido, "toda mudança causa insegurança." Deve ser por isso que meu
estômago nesse momento gira como se tudo o que eu havia ingerido nas ultimas
horas, estivesse próximo a voltar por onde entrou.
─ Todos os interessados se encontram presentes? ─ O Juiz foi direto ao
assunto. E o que eu estava esperando? Que ele me abraçasse e me consolasse? E
no mais... Consolar-me do quê? Não sonhei com esse momento tantos anos de
minha vida?
─ Meritíssimo, somos representantes de ambas as partes. Temos aqui, ─ ela
estendeu alguns documentos ao homem. ─ As procurações para resolvermos
todas e quaisquer pendências em nome de nosso cliente ausente no dia de hoje.
"Pendência?" ─ Então era isso que a gente se resumia?
É Sophia, ─ conversei comigo. ─ Ele não vem!
E nem precisava, havia um pacto antenupcial, com validade de um ano.
Poderíamos estar separados há duas semanas se eu tivesse comparecido.
Na teoria parecia fácil. Mas estava sendo mais difícil que o esperado. Que o
planejado.
─ Então vamos iniciar a audiência. Senhora Sophia, bom dia!
─ Bom dia!
─ Bom... ─ Eu que achava que todos os juízes usassem aquelas roupas
pretas, mas não. Esse apenas usava um terno, embora preto, parecia tão comum
quanto às demais pessoas ali sentadas, além de muito simpático. Foliou os
documentos, com demasiada paciência, e só depois continuou a falar. ─ Este é o
tipo de audiência em que o Juiz sempre vai tentar conciliar o casal, para manter a
sagrada instituição do casamento. E como não temos uma ação de divórcio
litigioso, é isso que eu queria tentar fazer de bom coração, uma última tentativa
de reconciliação.
─ Meritíssimo... ─ Essa foi à primeira tentativa da Priscila interromper o
homem. Ele ergueu os olhos, e uma das mãos, devia haver códigos entre eles, e
mesmo sem entendê-los, eu soube que não queria ser interrompido naquele
momento.
─ Se o marido da senhora estivesse aqui eu perguntaria a ele, o que o levou
a pedir a dissolução do vínculo, mas acredito que está tudo citado nos autos, dos
quais a senhora possui cópias em mãos.
─ Sim senhor.
─ A senhora leu os comentários que o senhor Mark Leonel De Angelis, tece
nos autos? ─ Quem havia me explicado, havia sido o Liam. Estava dizendo que
eu havia passado a ignorar meus afazeres como esposa, passando única, e
exclusivamente aos meios sociais. Eu até havia questionado no dia se isso seria
motivo suficiente para uma separação, o Liam me garantiu que sim. Por via das
dúvidas, acrescentou uma meia dúzia de falhas de minha parte.
Até aquele momento, eu poderia me descrever como uma pessoa nervosa.
Talvez se o Liam, não estivesse viajando. Ou se o Mark estivesse aqui, eu não
estivesse tão insegura quanto a tudo isso, mas, sentia minhas mãos trêmulas. E
isso nunca havia acontecido.
Considerava-me uma mulher forte, mas naquela hora... Estava indefesa.
Em determinado momento, o Juiz simplesmente parou de ler, e eu soube
que havia mais alguém que não era indiferente a mim naquela sala.
Os advogados estavam ali, apenas para cumprir suas obrigações. Embora eu
soubesse que a Priscila tivesse desejos obscuros, além do profissional. Depois de
alguns minutos, me perguntou se eu queria tecer um breve comentário sobre o
que o Mark havia apresentado por meio de seus advogados. Atenta as instruções
do Liam, eu tentei sorrir.
─ Não meritíssimo. ─ Só que... Não estava funcionando. Era mais forte que
eu.
─ A senhora concorda com tudo o que ele descreve? ─ Essa foi à deixa para
que os advogados entendessem que algo não estava saindo conforme o
planejado. Eu senti no olhar dos dois pousarem sobre mim. Ansiosos, e atentos.
─ Não senhor... Mas, ─ Eu queria ter dito a ele como foram os seis meses
que eu havia ficado casada com o Mark. Queria contar das nossas risadas. E de
como a gente tirou de letra as dificuldades que encontramos. ─ Houve uma vez,
─ Eu até cheguei a querer contar uma história. História que só nós dois sabíamos
que havia acontecido. Nem a família dele sabia. Ele também era meu confidente.
Sabia mais de mim que eu mesma. E foi naquele exato momento que eu entendi
que eu era feliz com o Mark. Talvez tudo o que a gente havia vivido até ali, a
forma da qual nos casamos. A maneira em que nos encontramos e que nos
tornamos um casal me faziam imensamente ser eu.
Eu tinha que falar com ele uma última vez. Tinha que perguntar se o
sentimento era recíproco? Não! Era loucura demais. Sonhar uma vida com um
príncipe, e de repente descobrir que havia se apaixonado pelo bobo da corte. E
eu tentei! Como eu tentei segurar uma lágrima que correu por meu rosto. Mas
ela havia sido mais esperta, e levado mais um punhado de lagriminhas consigo.
Era o fim e pronto. O acordo era esse. E ao fim de tudo eu estaria livre para
viver meu grande sonho. Mas, se ele ao menos tivesse vindo, e tivesse estado ao
meu lado.
Na verdade, poderia estar me poupando tamanha agonia, se tivesse ao
menos atendido as diversas ligações que lhe fiz.
─ "Se" ambas as partes estivessem aqui nesse momento, eu diria o seguinte:
Não estou aqui para defender somente a sagrada instituição do casamento, mais
que isso. Muitas vezes, e vendo casais e casais chegarem aqui prontos para
dissolverem mais que um compromisso, mas sonhos, eu tenho o dever de como
mediador alertá-los para as decisões tomadas repentinamente. Sabe Sofia, eu
posso estar muito enganado, mas eu olho para você e vejo uma mulher
apaixonada. Que ainda mantém sentimentos por seu marido. ─ Tentei negar, mas
ele também não me permitiu. ─ Há histórias que começam pelo começo, ─ eu
sorri, ─ e existem outras que começam pelo meio, e depois se dão o direito de
formar novos caminhos. Algumas começam quando outras terminam, e assim,
não existe o que é certo, só existe o que nós podemos fazer para construir a
nossa felicidade, e isso é vivendo um dia de cada vez, nos permitindo fazer
novas escolhas. E muitas vezes, começar um livro sem ter terminado outro, só
vai nos fazer acumular leituras e não sabedoria. Tenho certeza que você e o Mark
fizeram planos. ─ Sim! Mesmo sabendo que não havia futuro entre nós, tivemos
momentos em que tudo parecia perfeito, e chegamos até a planejar uma casa.
Filhos. ─ Ninguém sonha, em construir castelos para que sejam desfeitos. ─ Ele
parou seu discurso, olhou para todos nós ali, e depois se recostou à cadeira. Eu
pensei em me arrepender. Mas o Liam não entenderia. A família D'Angelis, não
entenderia. Se até eu estava confusa no momento. Mas agora era tarde. Fechei os
olhos e esperei pela pronuncia da separação.
─ A audiência está suspensa.
─ Mas meritíssimo... Essa é a segunda, ─ A Priscila tinha razão. Na
primeira eu tinha sido a covarde. Não tinha comparecido, com medo do que
ouviria e na esperança de fatos novos em minha vida, me ajudassem a decidir
que caminho tomar.
Ele sorriu para a advogada e disse divertido, mesmo que soubéssemos que
não estivesse brincando.
─ A doutora está insinuando que não sei contar?
─ Não senhor! Desculpe-me, é que como eu disse... A Família D'Angelis, ─
ela fazia questão de frisar o nome da família, porque por um tempo, eles haviam
sido benfeitores de muitas instituições na cidade. Proprietários da metade da
cidade. Mas isso eu só ouvi dizer. Não cheguei nessa época. Mas era assim que
eles se mantinham... Nome e prestígio. ─ Tem pressa na dissolução deste
casamento. Afinal, todos estão de acordo, serão beneficiados, e não há nada que
impeça essa separação. Ademais, o senhor Mark está de partida do Brasil. E
gostaria de ir com todos os documentos legalizados. ─ Uma espada atravessou
meu coração. Havia me esquecido do detalhe. Ele estava de partida.
─ Mesmo? Então peça a ele que se tem tanta pressa, que venha buscar seu
documento, daqui a trinta dias. ─ Antes, porém que o homem se levantasse, ela
voltou a resmungar.
─ Trinta dias meritíssimo? ─ Tentou seu charme. ─ Não poderíamos marcar
uma nova audiência para semana que vem? ─ O homem tirou os óculos e voltou
a se sentar, escrevendo novamente em seu documento.
─ Sessenta dias! ─ Nenhum murmúrio mais se ouviu naquela sala.
─ Sim senhor! ─ Ela concordou com o rosto vermelho, e eu poderia jurar
que não era de vergonha, e sim de raiva, por ter que adiar o que tanto esperava.
─ E deixe claro a "ele", seu cliente. Que ele compareça, em pessoa, para
que eu não adie para um ano ou dois. Ah! ─ Se voltou para mim tão de repente
que me assustei. ─ E quem sabe, um bom e velho diálogo, ainda não seja o
remédio para os mais antigos problemas. Vejo vocês em sessenta dias.
E nos deixando a sós ele e foi.
Eu não tinha coragem de olhar para ela e muito menos para o advogado
mais velho que ouvia tudo em silêncio.
─ Eles não irão gostar. Não. Eles irão odiar o que acabou de acontecer. E
tudo por culpa desse choro descabível. Se decida, garota. Afinal, com qual irmão
irá ficar?
Saiu da sala resmungando e com o celular na mão. Eu pressenti que em
breve receberia uma ligação do Liam. E como ela disse... Ele não iria gostar.
Pensei estar sozinha, mas o outro advogado permanecia ali.
─ Desculpa! Não sei o que deu em mim. ─ Passei a mão no rosto e tentei
me recompor.
─ Não há do que se desculpar Sofia. Se me permite. Nesses seis meses, eu
vi um moleque se transformar em um homem. E cego àquele que não vê. E eu
tenho certeza que a única razão da transformação daquele menino foi você.
Talvez ainda não tenham percebido o quanto são felizes quando estão perto um
do outro.
─ Não me acha uma vadia por ter me apaixonado pelo Mark?
─ Por seu marido? Não!
─ Mas o Liam...
─ O Liam! Sofia... Só por um minuto, deixa o Liam de lado, e ouça o seu
coração.
Meu coração... Olha onde ele me trouxe. E se ele estivesse errado? Mesmo
assim, peguei minha bolsa, olhei para o advogado e fui.
Fui fazer o que pedia meu coração.
Mas tudo o que pedia meu coração era encontrar o Mark! E eu tinha tentado
de tudo e não havia obtido sucesso! Ainda mais com o Liam viajando. Mesmo
assim, iria até a casa dos D’Angelis e pediria minha tia para que me avisasse
assim que o Liam colocasse os pés em casa.
Como não demoraria, eu preferi deixar o carro do lado de fora e entrar pelo
portão lateral. Do lado onde entrávamos quando criança. Olhei para nossa
árvore. A árvore onde sentávamos... O Mark e eu. O Liam e eu. A Angel e eu. Ás
vezes, até todos nós.
Cumprimentei o jardineiro, e ele mesmo sem eu perguntar informou-me que
minha tia não iria demorar. Havia ido até o mercado, mas já devia estar voltando,
mas o senhor Liam devia estar na biblioteca.
─ O Liam? Não estava viajando?
─ Viajando? Não senhora. Está em casa. ─ Não entendia o porquê de ele ter
mentindo quando pedi para me acompanhar.
Entrei pela porta da cozinha e fui até a biblioteca. No caminho eu ouvi
vozes alteradas, e discerni bem que era o Liam e a outra voz seria uma mulher.
Dando passos cautelosos não levou dois segundos para que eu percebesse que a
voz feminina era da Priscila.
─ Que ódio Liam! Que ódio!
─ Calma meu amor! Calma! Vai dar tudo certo! Eu vou esperar um pouco, e
ligo para ela para saber o que aconteceu.
─ Liam, ela sabe. Ela deve saber desse bendito dinheiro do Mark. Ela deve
ter lido todos os documentos, mesmo eu tendo os cuidados para fazer bem
confuso. Ela deve ter entendido. Deve saber que há muita grana envolvida por
isso não quer assinar. Não é possível que esteja tão apaixonada assim? Que
mulher se sujeitaria a tanta humilhação. Eu fiz minha parte. Seu pai de alguma
forma colaborou não recebendo a desgraçada. Até o Mark sem saber está
contribuindo e bastante, porque eu no lugar dela, já tinha mandando o cara para
o quinto dos infernos. ─ Levei a mão na boca para não gritar. ─ Meu amor?
Muita grana envolvida? Eles estavam juntos para me humilhar?
As lágrimas vieram aos meus olhos e eu pensei em recuar e sair correndo,
mas acabei me aproximando um pouco mais, e me escondendo perto de um
vaso, onde quem pudesse sair da biblioteca, ou vir dos corredores de ambas as
partes da casa não pudessem me ver. Agora eu precisava ouvir o resto.
─ Pri! Acalma seu coração! ─ Pri? Meu estomago se revirou e eu tive que
me conter para não vomitar. ─ Nem mesmo o idiota do Mark sabe desse
dinheiro. Eu administro. Ele não sabe que a mãe dele era a dona da fortuna dos
D’Angelis. Ele não sabe que como a mãe dele sempre foi uma desavergonhada,
o pai dela praticamente vendeu-a a meu pai para que ela tivesse um sobrenome.
Como ela não quis não houve casamento. Mas meu pai se apaixonou por ela. De
tal forma que os dois continuaram tendo um romance mesmo depois de meu pai
casado. E tanto que meu pai amou o Mark muito mais que a mim. Tanto que
agora, meu pai veio e buscou o Mark porque o filhinho de papai estava doente.
A cada revelação meu coração se remoía, mas ouvir que o Mark estava
doente foi a pior. A vontade de entrar naquela biblioteca e esbofetear o Liam foi
demais, mas eu precisava ouvir mais. Queria ouvir tudo.
─ Ele contratou uma equipe só para cuidar do filhinho amado. ─ A voz do
Liam era puro amargor. Mas pelo menos eu tinha certeza que o Mark estava
sendo cuidado.
─ Liam? ─ A Priscila parecia desesperada. ─ Eu não quero saber do Mark,
e de nada mais, a não ser de nós meu amor. Eu não esperei todos esses anos para
que pudéssemos nos casar, vendo essas mulheres dando de cima de você. Vendo
você tendo que se casar com fulana 1 ou se prometendo e agora tendo que se
casar com fulana 2 que vai ficar com a metade do dinheiro do seu irmão para
chega agora e dar em nada. Faz alguma coisa.
─ Me deixa ligar para Sofia. ─ Meu coração gelou. Levei a mão no bolso, e
então suspirei aliviada me lembrando de que havia deixado à bolsa no carro. Não
queria demorar. ─ Ela não atende! À noite eu vou até a casa dela. Vou dizer que
voltei o mais rápido que soube. E você, dá um jeito de ligar para todos os juízes
que conhece. Desembargadores e remarca essa audiência.
─ Vou ver o que posso fazer.
Eu precisava sair dali, o mais rápido possível, e agora eu tinha ideia do que
fazer. Saí tropeçando e encontrei minha tia no caminho.
─ Oi minha querida. Veio me ver?
─ Vim tia, mas não poderei ficar. ─ Estava no portão quando me lembrei de
pedir a ela que em hipótese alguma contasse a alguém que tinha me visto por ali.
Também pedi ao jardineiro. E como tinha me visto crescer, não negaria um
pedido meu. Apenas brincou.
─ Você e o Mark sempre aprontando. Kkkkk!
Mas dessa vez não era brincadeira. Era sério. O Liam havia passado de
todos os limites. Eu poderia imaginá-los com qualquer mulher, mas com a
Priscila? Usar-me para pegar um dinheiro que pertencia ao Mark? Uma herança
que era da mãe dele, e que o Mark se quer tinha ideia que existia?
Ladrões!
Que bom que Deus não tinha me deixado assinar nenhum documento. Que
bom que eu não tinha deixado que eles me convencessem a assinar os malditos
documentos. Agora eu precisava encontrar aquele homem.
Viajei duas horas novamente. E dessa vez eu fui dirigindo. O Mark ficaria
orgulhoso de mim. Eu estou habilitada. E da primeira vez que procurei por seu
pai, vim de taxi, mas agora estou vindo, sozinha e dirigindo.
Parei o carro diante do prédio e olhei para cima. A janela está aberta. Peço
para me anunciarem, e recebo a mesma resposta de sempre.
─ Desculpe senhorita o Doutor Álvaro não pode atender sem hora marcada.
─ Então diga a ele, que chamarei a imprensa. Pedirei que a imprensa me
acompanhe até que ele me atenda. Diga que sou a nora dele, que a partir de
agora, estarei sentada aqui. Diante do prédio, e não saio sem falar com ele. E se
ele acha que minto, espere até que a imprensa chegue.
Tirei o telefone do bolso e fiz uma ligação falsa e me sentei no passeio. Eu
mais que ninguém, sabia o medo que a família D’Angelis tinha de escândalos,
tanto que cinco minutos depois estava subindo de elevador até a cobertura do
imenso edifício.
─ Espero que tenha um bom motivo para me tirar dos meus afazeres. ─ Era
como se eu não soubesse que o homem estava na miséria. Viviam na mais pura
aparência.
─ Preciso falar com o Mark, já que quer ir direto ao assunto.
─ Meu filho não está mais comigo.
─ Seu Álvaro é sério. Eu preciso falar com o Mark, é um caso de vida ou
morte!
─ Menina, que parte você não ouviu, que meu filho ficou algum tempo
comigo, e depois que ficou melhor, partiu. Pergunte ao amigo dele... O tal Bento.
Esse daí deve saber.
Sentei-me desolada! Tinha certeza que sim! O Bento era o único que devia
ter notícias do Mark, mas nem mesmo o Bento eu consegui encontrar.
─ Agora... Se me der licença eu tenho mais o que fazer.
Sai mais uma vez me sentindo uma derrotada, mas eu não desistiria.
Durante todo o trajeto de volta, meu telefone tocou, com o número do Liam.
Quando não era dele, era do escritório dele, ou outro número e eu não atendi,
porque sabia que poderia ser da Priscila ou alguém mandado por eles, porque
estavam loucos a minha procura. Cheguei a casa, por volta de duas horas da
manhã. Entrei na garagem, e como toda garagem de prédio de pobre algumas
luzes não funcionam. Desci do carro, como sempre e liguei a lanterna do celular,
que estava no fim. Tive a impressão que alguém estava ali, quando vi uma
sombra, comecei a correr o mais rápido que pude quando alcancei o elevador,
olhei para trás e vi um homem. Estava tudo escuro e meu celular acabou por
acabar a bateria.
─ Quem é você? Eu vou gritar.
─ Sofia? ─ A voz não era estranha. Quando ele se aproximou, levei a mão
no coração. ─ Sou eu... O Bento!
─ Bento? Graças a Deus! Como eu te procurei. ─ O elevador abriu as
portas e eu quase não o reconheci. Estava tão magro. Muito diferente do Bento
que eu conheci. ─ O que houve com você? Entrei no elevador e ele me
acompanhou. ─ Onde está o Mark, Bento? Pelo amor de Deus. Dê-me notícias.
─ Sofia... Não temos muito tempo. O Mark chamou seu nome. Ele quer te
ver.
─ Como assim, ele chamou meu nome. Ele quer me ver. Bento não brinca
comigo, você esta me assustando.
─ Sofia... O Mark está com tuberculose.
Dezessete.
Sofia,
Quando cheguei ao hospital, mal tinha colocado a mão à maçaneta, fui
praticamente empurrada pela enfermeira.
— Onde pensa que vai?
— Ah, sim! — Mostrei o crachá. — Estou de acompanhante do paciente.
— O rapaz que estava com ele inclusive, posso garantir não estar mais aí dentro.
— Posso perguntar, onde está sua mascara? — Nesse exato momento ela
foi retirando uma luva do bolso e calçando, e em seguida colocou uma mascara
branca.
— Poderia conseguir uma dessas para mim?
— Você mesma pode conseguir a sua no posto três. E quando entrar faça-
me o favor de não se assentar na cama do paciente. — Ela me indicou onde
ficava.
Teria que descer um corredor, ao lado oposto por onde eu tinha subido.
Virar à esquerda e depois à direita para conseguir a luva. Parecia fácil durante a
explicação. Mas enquanto eu caminhava pelo “tal corredor” não me lembrava
dela ter me explicado do bendito corredor ser tão escuro e medonho. Era como
se a qualquer momento alguém, alguém a qual a minha imaginação se referia era
um morto, ou algum corpo envolto em faixas, fosse surgir bem perto de mim. E
eu me vi andando bem mais rápido, tanto na ida, quanto na volta, depois de
conseguir a bendita máscara. Eu não entendia o porquê de usar mascaras, já que
todos sabiam que a tuberculose não pegava assim, pelo simples contato.
Quando entrei no quarto, ele logo se apressou de colocar sua própria
mascara. E quanto me aproximei de uma poltrona, foi nosso primeiro contato,
antes mesmo de um cumprimento civilizado.
— Por favor... Aquela! — Ele mostrou uma poltrona bem mais distante. O
que estava pensando? Que daquela distância teríamos condições de mantermos
uma conversa civilizada?
Deixei a bolsa onde havia colocado, e sentei-me, ali! Cruzando as pernas e
fixando meus olhos nos seus. Meu coração estava cortado de tanta tristeza. E eu
orava a Deus naquele momento para que ele não pudesse sentir a minha dor ou
ouvir as preces que meu coração fazia em seu favor. Eu tentei disfarçar a todo
custo que sua magreza não me incomodava.
— Não finja que liga para mim nesse instante Mark, porque sei que não se
incomoda com o que penso. Como que acho. E muito menos com o que sinto.
Principalmente com o que sinto.
— Sofia...
— Não tem nada de Sofia. A verdade é essa. Se importasse comigo, não
estaria aqui. Não sozinho com o Bento. Não sem minha presença. Ou pelo
menos sem meu conhecimento.
— Isso mesmo! Está aqui por insistência do Bento! Queria ter poupado
você de todo processo desgastante de cuidar de um tuberculoso.
— E mudou de ideia só porque o Bento insistiu.
— E me arrependo amargamente. — Quando ele se virou para o lado da
janela, eu senti que estava sendo injusta com ele. Não sabia seu real estado. Não
sabia sequer o verdadeiro motivo pelo qual ele havia me chamado. E se estivesse
prestes a morrer.
Meu Deus! Arrependi-me naquele mesmo instante. As lágrimas vieram aos
meus olhos, e me lembrei de todos os dias em que chorei sozinha naquele
apartamento clamando sua volta. Pedindo a Deus que ele desse ao menos uma
notícia de onde estava.
Levantei-me e fui até a beira de sua cama, quebrando a promessa de não me
aproximar dele, feita à enfermeira.
— Tudo bem, Mark! Eu não vim aqui para brigarmos! — Quando eu me
sentei, à beira da cama, ele praticamente me empurrou.
— Se afasta Sofia! Olha para mim!
— Mark! Eu só queria que soubesse que se tivesse ficado, eu teria cuidado
de você. A gente teria saído dessa, juntos.
—Só, que... Eu ainda não saí dessa, Sofia! E os médicos, por mais que eu
tenha dinheiro. Por mais que eu faça o tratamento. Não disseram se eu estou ou
não totalmente curado. Mês passado eu estive bem melhor. Até pensei em ir para
casa. Fiquei alguns dias na casa do Bento, na tentativa frustrada de me recuperar.
— As lágrimas vieram em seus olhos e eu não me contive em vê-lo tão
vulnerável.
— Então era você? Era seu perfume? E você nem mesmo se dignou a falar
comigo? Não me deu uma chance? — Eu não sabia se sentia pena ou ódio
naquele momento. Ele presenciou minha dor e meu sofrimento e mesmo assim,
seguiu seu plano. Continuou afastado.
— Eu tentei falar com você. Eu quis... Mas... Mas daí a tosse com sangue
voltou. A dor ao respirar ou tossir. A sensação de falta de ar. E uma maldita
febre. Sempre uma febre baixa, mas constante. E olha para mim... Perdi peso.
Pareço um trapo humano.
— E por isso, você me abandonou! Pediu o divórcio covardemente depois
de termos tido uma conversa de confiança. De termos uma vida, juntos. Um
futuro.
— Que vida eu poderia te oferecer naquele momento? Que futuro eu
poderia te oferecer ainda hoje Sofia? E não era só isso. Não é Só isso. — De
uma hora para outra ele começou a tossir e teve que parar de falar. — Há muito
mais por trás dessa história. — Apertou um botão e a enfermeira entrou, pedindo
que eu me retirasse.
Fiquei um bom tempo do lado de fora até que pudesse voltar, e quando
voltei, tive que esperá-lo acordar da medicação que havia tomado. Enquanto ele
dormia, li algumas revistas, e em sua maioria era sobre a doença. O Mark devia
estar paranoico sobre a cura para a doença, eu também estaria.
Sentei-me ao seu lado e esperei paciente, me lembrando de quando minha
mãe faleceu. Eu era muito nova, mas guardava alguns detalhes, e em nosso caso,
era dinheiro. Ela não teve sequer condições de comprar um dos vários
medicamentos que o médico do SUS havia passado. E muito menos se
alimentado da dieta restrita que deveria ter feito. A gente mal tinha como se
alimentar duas vezes por dia.
Quando a porta se abriu depois de duas horas o Bento entrou, parecendo
outro homem do que eu havia visto da ultima vez. Banho tomado, barba feita,
— Parece bem melhor.
— Não só pareço! Obrigado por ter ficado com ele. Se quiser descansar,
posso ficar a noite.
— Não! Eu não sei o que estão tramando. Não sei do que são capazes se eu
sair desse hospital. Portanto eu ficarei. Ficarei até que o Mark me diga o que
mais há por trás dessa história. — A forma com a qual o Bento me olhou deu a
entender que ele estava por dentro do que se tratava, mas eu não queria saber da
boca dele. Queria que o próprio Mark me dissesse.
— É! Pelo jeito, e pelo que tenho visto, esse sono vai bem longe. Se estiver
disposta a ficar, te empresto meu cobertor, que está naquele armário, e pode se
alimentar com o que trouxe. E..., — ele fez uma pausa e pareceu resistente. —
Sofia, seja paciente com o Mark nesse momento. Sei que às vezes ele é um
cabeça dura, teimoso, mas, está muito frágil. Se for preciso, espere um pouco
para os questionamentos.
— Sinto muito Bento, mas tempo é o que menos tenho nessa vida. A
família D’Angelis já me roubou tempo o suficiente. Tudo o que não posso mais
dar a eles é um segundo. E se o Mark é um D’Angelis, ele também não tem
muito tempo para me dar uma explicação.
— Sofia... — Ele sorriu.
— Tudo bem! Até amanhã!
Quando acordei de madrugada, vi que o Mark estava com os olhos abertos.
Arrumei meu corpo na cadeira e depois os cabelos.
— Boa companhia você é? Se eu precisasse ir ao banheiro ou algo desse
tipo? — Fiquei de pé no mesmo instante imaginado que provavelmente ele
gostaria mesmo de ir. Não me lembrava de vê-lo fazer suas necessidades.
— E você precisa?
— Preciso! Mas chamei a enfermeira. — Então foi isso que ele fez ontem,
quando a enfermeira me pediu para sair?
— Eu poderia ter ajudado você ontem. E poderia lhe ajudar hoje. Não
precisava pedir ajuda a terceiros?
— Não preciso que me veja nessa situação.
— Não faça isso Mark! — A enfermeira abriu a porta e ele foi incisivo.
— Saía Sofia. — Eu queria discutir, mas observando a enfermeira que tinha
outros objetos e medicamentos na bandeja, preferi obedecer.
Andei pelo corredor até que ela saiu. A me ver na porta, ela ainda foi gentil
sem ter necessidade.
— Não se preocupe com a hostilidade dos homens. Eles foram feitos para
serem os machos alfas. Se sentem agredidos quando mostram que precisam de
cuidados. Jamais deixaria você ver suas fraquezas.
— Uma idiotice não é mesmo?
— Verdade! Mas são assim!
Ela havia trocado a roupa de cama. Ajudado com o banho, e a barba. Estava
limpo e visivelmente melhor.
— Se importa se eu usar o banheiro?
— Não!
Entrei no banho e depois de deixar que a água limpasse as dores da noite
mal dormida que eu havia passado eu me sequei, escovei os dentes e prendi o
cabelo. Vesti a única troca de roupa que havia levado pensando que seria preciso
voltar em casa para pegar algo limpo se quisesse ficar ali por mais dias,
acompanhando o Mark.
Tive a impressão de que o Mark estava conversando com alguém. Terminei
de guardar meus pertences e saí do banheiro. E tive a triste surpresa de me
encontrar com a Priscila Mayer.
— Eu sabia que iria te encontrar aqui! — Eu não saberia dizer se para o
Mark era surpresa a presença da Priscila ali, já que a assinatura dele estava em
todos os documentos dela, eles deviam ter contato.
— Pois para mim, não devia ser surpresa sua presença aqui não é? Já que
sempre tem as assinaturas do Mark em seus documentos.
— Sou advogada do Mark, e vim pessoalmente dizer a ele que você se
recusou a assinar o divórcio mesmo na presença do Juiz. Mas vendo você aqui
agora eu até entendo o porquê não é Sofia?
— Entende? — Dei um sorriso irônico. — Talvez possa nos explicar sua
teoria. Uma vez que até mesmo eu saí de lá em entender direito porque não
assinei aquela porcaria de documento.
— Não se faça de boba Sofia! — Ela caminhou até o Mark. — Se deu conta
que com o Mark morto, ganharia muito mais. — Ao ouvir aquelas palavras meu
coração quase parou. Eu me recusava a acreditar no que ela havia acabado de
dizer. Apenas emudeci. — Lógico. Nem mesmo o Liam, ou o resto da família
sabia que o Mark estava tão doente. Escondi de todos a pedido do próprio Mark,
mas de alguma forma você descobriu não foi? Por isso estava tão resistente.
De uma hora para outra o que eu tinha a fazer era gargalhar da cara daquela
mulher, e foi o que eu fiz.
— Não! Espera! Acha mesmo que eu ficaria procurando o Mark em todos
os cantos da cidade se eu soubesse onde ele estava só para disfarçar e ganhar
tempo enquanto ele morria? Para Priscila. Você é mais esperta que isso.
— Parem vocês duas.
— Claro que sou mais esperta que isso.
— Priscila... — O Mark a advertiu.
— Vocês me pressionaram. Eu vi você conversando com o Liam. Você e o
próprio irmão do Mark tramando para ficarem com o dinheiro dele. Ele sabe que
vocês queriam que eu me separasse dele, e me casasse com o Liam, e assim
metade do dinheiro do Mark que ficasse comigo, seria também do Liam? E logo
depois provavelmente ele me deixaria e ficaria com metade do meu dinheiro e
você se casaria com ele?
— Não viaja garota.
— Não! Parece filme de terror, mas eu ouvi. Ouvi o plano sórdido de vocês,
discutido na biblioteca da casa dos D’Angelis. A sorte foi que por um instinto eu
não tinha assinado aquele bendito documento ou hoje seu dinheiro Mark, já seria
do Liam.
— E você vai acreditar nisso Mark? — Ele ficou em silencio. — Vai
acreditar em um absurdo vindo de uma mulher que nunca lhe contou que pode
ter lhe infectado com a bactéria da tuberculose?
— Que bobagem Priscila. — O Mark tossiu, e meu coração se acelerou.
— Eu... — Eu estava sem palavras naquele exato momento. Porque ela
havia tocado em um assunto que me remetia a lembranças muito dolorosas. Uma
parte de minha vida, que além de não me lembrar muito bem, o que me lembrava
não me fazia feliz.
— Não tem palavras não é Sofia? Mas sua tia tinha toda a explicação.
— Esteve com minha tia? Como você é baixa Priscila.
— Como eu sou esperta. Não acabou de dizer isso? Que eu sou muito
esperta? Foi para isso que me formei. Eu precisava entender o porquê não queria
assinar o bendito documento. Porque resistia tanto em não se separar do Mark se
era esse o combinado. E foi sua tia que me deu o parecer. Ela disse que quando
chegou à casa dos D’Angelis, vinha de uma casa, onde seu pai tinha falecido de
tuberculose, e sua mãe não soubera ter ficado contaminada até a doença se
manifestar anos depois, coitados. Te deixado órfã de vez.
Sentei-me na poltrona, e dessa vez, mesmo sem o incentivo do Mark, me
sentei o mais longe possível, talvez meu inconsciente, já me declarando como
culpada no caso em que a Priscila me declarava à ré.
— Quase não me lembrava desses detalhes, eu era uma criança. — Eu não
tinha coragem de olhar para o Mark naquele momento. Ele estava doente, e
depois de tanto julgá-lo por seu sumiço estava descobrindo que eu era a culpada
por ele estar naquele estado deplorável.
—Vai me dizer que não se lembrava também que quando chegou à casa dos
D’Angelis, você comia em talheres separados, Sofia? — Não! Disso eu me
lembrava, mas ela não precisava saber, porque para mim era humilhante de mais.
Além do mais, o próprio médico disse uma vez à minha tia, que isso não era
necessário. Que mesmo que eu tivesse a doença não seria um meio de
transmissão. — Vamos Sofia. O Rato comeu sua língua? Ou melhor... A
tuberculose?
Quando ela disse aquelas palavras, as lágrimas me cegaram e eu perdi a
razão, eu fiquei de pé, fui pra cima dela com tanto ódio, com tanta raiva e bati na
cara dela, e não foi apenas uma vez. Porque se ela não respeitava o Mark, ali
presente, que respeitasse minha mãe. Porque se tivesse visto o estado em que vi
minha pobre mãe dar seu último suspiro não diria tão grande absurdo. E só parei
porque duas enfermeiras entraram no quarto e nos separaram. Só então eu vi que
o Mark estava de pé, mas não conseguia fazer muita coisa.
— Me perdoa, — tentei ir até ele, mas ele ergueu a mão e eu parei.
— Sofia, vá para casa. Descanse. O Bento deve estar chegando.
— Mark, eu juro que se eu soubesse, jamais teria ficado perto de você, ou...
Os médicos nunca encontraram nada que pudessem comprovar.
— Sofia, vá para casa. E a gente se fala depois. Ninguém aqui tem
condições de falar nada agora.
— Deixa Mark, estou saindo daqui para a delegacia, vou fazer corpo de
delito, e se eu pegar qualquer tipo de doen...
— Priscila pelo amor Deus, o que ainda faz aqui? — Foi à única vez que
me defendeu. — Já deu seu recado. Agora vai. — Ela ainda passou por mim e
me ameaçou.
— Vai ter notícias minha sua insuportável.
— Ela não vai fazer nada, Sofia. Pode ficar tranquila.
— Você não está me dando chances de me defender.
— Não há do que se defender Sofia. Se for isso que aconteceu, foi uma
fatalidade, mas nem sabemos se foi isso mesmo. Vá para casa descansar.
— Eu queria ficar aqui com você!
— Sofia, entenda que eu preciso de tranquilidade para me recuperar. E em
breve, quando estiver melhor, eu te procuro.
No meu coração a única coisa que se passava era que... Eu não poderia ter
feito aquilo com o Mark. Se eu soubesse! Mas como poderia saber. Agora era
sair da vida dele, e de todas as pessoas que eu pudesse prejudicar. Quem sabe
assim fosse bem melhor.
Quando estava à porta, decidi dizer a ele uma última vez o que estava em
meu coração.
— Mark, apesar de tudo isso, e tudo o que vivemos ontem eu havia vindo
apenas para te dizer que nada dentro de mim havia mudado. — Mas eu não devia
ter dito, porque em contra partida ele disse:
— Que pena, Sofia, porque dentro de mim mudou. E muito!
Dezoito.
Sofia,
Eu pedi licença no trabalho e fiquei internada por dois dias. Solicitei ao
médico que fizesse todos os exames necessários e não foi constatado nada, mas a
resposta dele ao fim do segundo dia foi que, era raro, mas poderia ter acontecido.
— Entenda Sofia, que o raciocínio não é ilógico. A tuberculose é uma
doença infecciosa causada por um micróbio chamado "bacilo de Koch". Ela é
uma doença contagiosa, quer dizer, que passa de uma pessoa para outra. E o
médico que atendeu sua tia na época tinha toda razão... Separar seus talheres não
fazia sentido.
— O senhor tem certeza? — Ele deu um sorriso. — Tenho Sofia! A TB se
pega, quando o doente tosse, fala ou espirra. Quando ele faz essas ações, espalha
no ar gotas pequenas, mas muito pequenas mesmo com o micróbio da TB. Aí,
uma pessoa com boa saúde, que respire este ar, pode levar este micróbio para o
seu pulmão. É assim que acontece o contágio: o micróbio da TB (bacilo de
Koch) penetra no organismo das pessoas pela respiração. Portanto, a tuberculose
não se transmite pelo sexo, pelo sangue contaminado, pelo beijo, pelo copo,
pelos talheres, pela roupa, pelo colchão... A TB só se transmite pelo ar.
— É isso que não me entra na cabeça. Como depois de tanto tempo isso
veio a acontecer. E por que eu não tenho a doença?
— Você provavelmente deve manter uma alimentação saudável. Na maior
parte das vezes o organismo resiste e a pessoa não fica doente. Às vezes, mesmo
que o organismo resista no momento, o micróbio fica "guardado" e a pessoa
pode adoecer anos mais tarde, se estiver enfraquecida ou desgastada pelo
alcoolismo, AIDS, diabetes, câncer e outras doenças. No seu caso, ele pode ter
se aproveitado de uma desnutrição anterior do Mark. Como vocês estavam
convivendo, no mesmo ambiente. Respirando o mesmo ar. — Só então eu
comecei a ver a “lógica”. Agradeci e saí de lá direto para a escola.
Pedi perdão à diretora. Expliquei a ela toda minha situação e meu medo, e
deixei naquele dia, meu cargo à disposição. Mas não poderia sair sem antes falar
com minha antiga professora. Ela havia me conseguido aquele trabalho.
— Posso entrar? — Bati à porta da sala de Supervisão.
— Claro. Não me lembro, nem porque fecharam a porta. Essas portas não
foram feitas para ficarem fechadas. — Ela veio, e aproveitou para me
cumprimentar, me abraçando, e foi com muita resistência que eu lhe abracei.
Mesmo ouvindo tudo o que o médico havia dito. — Posso lhe ajudar Sofia.
Ela indicou a cadeira a sua frente, e foi até a garrafa de café, mesmo sem
me oferecer antes, voltando com duas xícaras, entregando-me uma delas. Fui
direto ao assunto, antes de perder a coragem.
— Eu vim lhe agradecer pelo trabalho, e dizer que estou de partida.
— Não vou dizer que acho estranho, porque desde nosso primeiro ano de
amizade nessa escola, eu soube que você seria alguém na vida. Só achei que
estava demorando demais. — Eu sorri, e não era um sorriso amargo. Pela
primeira vez naqueles três dias, alguém havia me feito sorrir de verdade.
— Não professora. Não estou indo tão longe assim! Estou indo embora,
mas não são pelos motivos certos. Na verdade, estou indo meio que obrigada. —
Ela me olhou meio que assustada.
— Não me diga que matou sua sogra. — Eu gargalhei. — Eu sei que aquela
mulher é insuportável, mas minha filha...
— Não professora Thaisa. — Coloquei a xícara sobre a mesinha de centro e
contei a ela minha situação. Quando terminei, ela tinha lágrimas na face, e eu
não queria que ela tivesse pena de mim. Bastava eu ficar me lamentando pelos
cantos.
De repente, quando pensei que ela fosse se afastar, ela me abraçou. E ficou
comigo por um longo tempo em seus braços. E quando me soltou me confessou
coisas que eu nunca imaginei alguém saber, com voz emocionada e chorosa.
— Sofia, não pense que Deus está sendo cruel com você a esse ponto.
— Não, professora. Ele não está!
— Pense nessa situação como uma segunda chance em sua vida. Uma
chance de se desvincular dos D’Angelis, ou melhor... Daqueles os quais você
quiser. Porque eu vi os D’Angelis roubar sua infância. Sua juventude e agora
estão tentando roubar o resto que te sobra. Não permita Sofia! — Pensa que eu
não reconhecia sua letra nas redações da Angel? Ela não tinha nem mesmo o
desplante de fazer outra com a letra dela. E as provas? Ela não tinha coragem de
errar uma sequer. Copiava todo seu gabarito. Todas as suas palavras, e a diretora
pedia que fizéssemos vista grossa em nome da mãe, que era a “benfeitora” da
escola. — Ela se levantou, e pegou um cartão e me entregou. — Procure esse
meu amigo. — Falei de você para ele uma vida. De como você tinha potencial
na escrita. Quem sabe você não o ajuda em seus livros, em suas revisões. Eu não
consigo mais, mas tenho certeza que poderá ganhar um bom dinheiro.
Agradeci, e ainda estava chorando quando a deixei. Quem diria que a
professora que não sentiu por mim empatia ao me conhecer, teria por mim, um
grande apreço ao decorrer de nossa história.
Guardei o cartão na bolsa, e antes de partir, eu tinha que fazer uma ultima
visita. Entrei no caro, e passei na casa dos D’Angelis. Abracei minha tia e
prometi dar notícias. Não quis entrar para não causar atrito, mas foi inútil, o
Liam apareceu no jardim. E parecia treze anos engasgado.
— Olha ela saindo às escondidas. Não vai entrar para se despedir Sofia?
Parece estar de partida e sem dizer a ninguém da família.
— Se não viu... Estou dizendo a única família que tenho minha tia.
— Enquanto carregar o nome D’Angelis, por insistência sua claro, somos
uma família.
— Liam, não me faça perder a paciência. Sabe que nunca fomos uma
família. Nem vocês mesmos jamais foram família. Nem devem saber o
significado da palavra família.
— Vejam só, — ele bateu algumas palmas me ironizando, mas aquilo não
me abalava mais. Eu estava tão magoada. Tão ferida por dentro que nada poderia
me ferir mais na verdade.
— Vocês não sabem o que é amar um ao outro. E isso é ser família. Não
sabem o que é defender o outro. E isso é ser família. Alguma vez na vida você
pensou em deitar na cama de sua mãe e partilhar com ela algo de bom que
aconteceu na sua vida, apenas por contar? Ela já riu com você sobre coisas
corriqueiras?
Ele respirou deixando claro que eu o deixava entediado. Depois deu um
sorriso debochado.
— Sofia, você não é terapeuta. E nem sei se isso funcionaria com seus
pacientes. É muito fraquinho. Coisa de professorinha mesmo que deve funcionar
lá com suas crianças. Mas deixa-me falar algumas coisas que podem mexer com
seu interior. Eu nunca gostei de você! Bum! Foi um choque não foi? — Como eu
disse... Nada poderia me machucar mais que eu já estava.
— Meus filhos... Parem com isso. — Minha tia não sabia como estava meu
coração e com certeza achava que iria chorar naquele momento.
— Sabe que não Liam. Choque seria se você continuasse com suas mentiras
deslavadas. Porque aí sim, eu teria certeza que você não teria coragem de vender
sua alma para o diabo por causa de dinheiro, teria certeza eu você é o próprio
diabo.
— Vamos lá... Continuando, já que quer ser sincera. Levei o seu jogo à
diante porque quando descobrimos que o Mark era filho de outra mulher,
também veio à certeza de que o dinheiro das empresas vinha da mãe dele. E a
miserável só iria liberar a verba para a empresa quando ele se casasse. E não sei
por que, o idiota desde a adolescência cismou de gostar de você, mesmo sabendo
que você gostava de mim. Mas como ele não se interessava por assuntos da
empresa, o que ajudou muito, foi fácil esconder dele as clausulas que a mãe
havia colocado no papel caso ela sumisse ou morresse. — Enquanto ele ia
falando eu tentava entender embora não me importasse mais com as tramoias da
família. Então, antes que ele terminasse, eu ergui a mão e o silenciei.
— Eu não me lembro de ter te perguntado algo sobre dinheiro de família
D’Angelis. Nem sobre Mark, nem mãe de Mark, nem sobre nada.
— Mas eu estou lhe dizendo que não vai a lugar algum sem antes assinar os
documentos do divórcio. E muito menos o documento devolvendo ao Mark a
metade do dinheiro que você sabe que é dele. Você não tem direito algum sobre
essa fortuna.
— Claro que tenho! — Respondi sem pensar, mas foi o melhor que pensei
naquele momento. Não teve gosto de vitória melhor que ver o rosto assustado do
Liam.
— Sofia, eu não te reconheço mais.
— Ainda bem que você apenas não me reconhece. Eu, nunca te conheci!
Estou começando a te conhecer agora. O documento do divórcio diz que eu
tenho a metade dos bens do Mark. Então... É meu!
Abracei minha tia, e deixei o Liam furioso, ligando para a Priscila. Dava
para ouvi-lo de longe gritando com ela. Eu precisava ir ao banco ver de quanto
se tratava esse dinheiro. Mas antes ligaria para o amigo da professora Thaisa. Eu
queria ferir o Liam, mas não gastaria o dinheiro dos D’Angelis de forma alguma,
mesmo que fosse do Mark.
Liguei para o senhor, que teve a maior boa vontade em me atender naquele
mesmo dia, por estar de partida para o Rio Grande do Sul.
Em uma cafeteria, combinamos o trabalho, e fiquei muito satisfeita com o
que receberia. Era mais que ganhava como professora. E dependeria de mim,
ganhar o dobro, o triplo. E como eu não teria distrações, como filhos, marido e
animais de estimação, acreditava poder ganhar bem mais como ele mesmo havia
insinuado, dedicando muito mais do meu tempo. O melhor de tudo era que... Eu
poderia trabalhar em qualquer parte do planeta. Mas eu ainda não havia me
decidido.
Fui até o condomínio do Mark e deixei o carro que ele havia me dado.
Entreguei a chave ao porteiro e voltei para meu apartamento de ônibus. Quando
cheguei à portaria encontrei o Bento esperando por mim.
— Oi Sofia. — Eu estremeci. — Meu maior medo era de que as notícias
não fossem as melhores. Mas, mesmo debaixo dessa camada de tristeza, eu
estava orando todos os dias pelo Mark, era a única coisa que eu podia fazer
naquele momento. Mas eu não sei se suportaria ter uma notícia ruim a respeito
do Mark, mesmo estando odiando toda a família D’Angelis eu não conseguia
odiar o Mark.
— Bento? Algum problema?
— Não! Eu só havia acabado de receber um telefonema do porteiro do
Mark sobre você deixar o carro.
— Ah! Pensei que ligariam para a procuradora do Mark, a Priscila. —
Chamei o elevador não demonstrando meu alívio.
— Podemos conversar um pouco Sofia?
— Se for bem rápido Bento, meu avião sai daqui a duas horas. — As portas
do elevador se abriram e nós subimos até meu apartamento.
— Vai viajar?
— Sim!
— Está saindo do Brasil Sofia? — O tom da voz do Bento era tão
desconfiado que, fiquei até preocupada. Preferi não dar o que falar.
— A trabalho, Bento.
— Entendi! Posso saber para onde?
— Não! Seu amigo ficou sumido por mais de dois longos meses e eu te
implorei para me dizer. Ele esteve até mesmo em sua casa, e você ocultou isso
de mim. Porque eu lhe diria isso?
— Me desculpe pela pergunta, eu só gostaria de te deixar informada sobre o
avanço na recuperação do Mark, ou agora que você sabe que envolve dinheiro,
você não tem mais interesse.
— Sabe o que mais me assusta em tudo isso Bento? É o quanto as pessoas
se vendem, e acham que todos fazem o mesmo. Mas, está bem! De qualquer
forma eu não tenho metade dos bens do Mark na separação?
— Sim! Claro. É seu por direito.
— Então... Porque tanto alarde sobre isso?
— Não! Não é nada.
— Então se era só isso... Desculpe-me, mas eu tenho um avião para pegar.
— A Priscila não te disse, mas acha que consegue marcar a audiência para
antes de sessenta dias.
— Pois marque para amanhã e avisem minha tia. Eu irei comparecer. E
dessa vez, podem ter certeza que assinarei, porque o que eu tinha que ver, e o
que tinha que ouvir, eu ouvi e vi.
— Sofia, uma última coisa...
— Nossa que conversa demorada não é Bento? — Brinquei.
— Não desista do Mark.
— Até mais Bento!
Eu peguei pouca coisa. Apenas uma mochila com poucas roupas que tinha,
e meu notebook. Não precisaria de muito para onde estava indo. E antes de ir fiz
minha última parada.
Fiquei diante do hospital, até a enfermeira simpática do ultimo plantão sair.
Quando a abordei ela logo me reconheceu. E se prontificou a me fornecer
informações sobre o Mark, sempre que eu precisasse.
Minha próxima parada foi o aeroporto. Eu não havia decidido para aonde ir.
Apenas teria que ir para onde meu dinheiro desse e para onde tivesse visto ou
onde não precisasse de visto e eu optei pela segunda opção.
Comprei minha passagem diretamente para França. De qualquer forma eu
teria que vir quando a audiência fosse marcada. Até lá, se decidisse ficar eu teria
conseguido um visto para permanecia de maior prazo.
Dezenove.
Sofia,
A recepcionista do hotel ao qual eu escolhi para me hospedar por um tempo
com pensão completa duvidou de que eu pudesse ter com que pagar. Talvez
minhas roupas simples, talvez minha pequena bagagem de mão. Mas não me
importei. Eu precisava apenas me alimentar, e de um lugar tranquilo onde
pudesse trabalhar e respirar ar puro por isso o tinha escolhido.
— Senhorita, seu saldo deu insuficiente.
— Deve estar enganada. — Mas ela não estava. Eu havia esquecido que na
França era euro, então, poderia faltar algo. Olhei no aplicativo do banco e pelos
meus cálculos estavam faltando trinta e cinco euros. Abri a bolsa e peguei o
cartão que o Mark deixava comigo, e jurei comigo... Era um empréstimo. —
Passe trinta e cinco euros neste, por favor. — Ela o fez e bingo! Deu tudo certo.
Com certeza, aquele mês pago ali, daria para pagar dois ou três em outros
com as mesmas estrelas que aquele. Mas Mandarim Oriental estava localizado
no centro da cidade, e eu não teria gasto com condução caso precisasse de algo
durante minha hospedagem. E no mais... — Pulei sobre a cama assim que o
carregador saiu. — Eu merecia aquele descanso. Abri a janela e olhei para fora.
O prédio era tudo o que tinham dito: Um palácio que ocupava um edifício
histórico dos anos 1930. Eu não ligava para os detalhes. Só me importava que
ele fosse o palco de minha nova vida.
Retirei minhas roupas de dentro da mochila, e coloquei no guarda-roupa.
Tomei um banho de banheira, pela primeira vez. Engraçado que mesmo morando
na casa dos D’Angelis eu nunca tivesse tido a oportunidade, mesmo com tantas
suítes. Com tantas banheiras esparramadas pela casa. Mas esse banho eu pude
pagar com meu esforço. Era meu pagamento, dos meses de substituição que
havia feito. Mas o pequeno acerto. E... Algum dinheiro que minha tia sempre me
dava por mês pela ajuda na casa dos D’Angelis de seu próprio salário, porque
eles achavam que por eu comer e beber, e estudar por conta deles, não merecia
receber salário, mesmo trabalhando como as demais empregadas da casa.
Uma sensação de liberdade invadiu minha alma, mesmo que uma grande
tristeza ainda fizesse morada em meu coração.
Quando saí do banho, havia mensagens da minha tia, falando sobre a
audiência. Ela sempre mandava áudio, dizia que era mais fácil. E pelo jeito a
Priscila não era tão boa assim, como se achava. A audiência permanecia na
mesma data... Daqui a quarenta dias.
Ha primeira semana foi a mais difícil! Os textos eram tão ruins que não
dava nem mesmo vontade de ler, mas a segunda remessa veio melhor. Então na
segunda semana eu tive coragem e junto com os textos enviei uma linha
perguntando se poderia enviar alguns dos meus para apreciação e, logo obtive
resposta positiva. “PS. Desde que não atrase os nossos combinados. Estou
gostando muito do trabalho.”
Gostar do trabalho de revisão era uma coisa. Mas quando ele leu meus
escritos, me ligou pessoalmente, pedindo permissão para publicar? Claro que me
enviou toda documentação para que eu assinasse, e prometeu me apresentar um
editor. Quem sabe, eu poderia mostrar a ele um pouco do meu trabalho.
Minha rotina se reduziu em trabalhar oito horas diárias nas correções. Eu
acordava por volta das seis da manhã, que era um horário ótimo para que
estivesse acostumada. Tomava café, que eu não tinha que fazer, e era muito mais
reforçado que o café costumeiro de casa. E sempre levava uma fruta como
reforço. Trabalhava direto, até o meio do dia, levantando uma ou duas vezes no
máximo para ir ao banheiro, a água era companheira de mesa. E depois do
almoço a rotina voltava, até o pôr-do-sol. Uma caminhada de uma hora e depois
de um banho revigorante, eu escrevia durante quatro horas, durante a noite, antes
de adormecer. Quem poderia querer uma vida melhor que aquela. E foi assim,
que sorri com as comédias e os romances de vários autores.
E entre uma pausa e outra, eu recebia notícias por minha tia, ou pela
enfermeira sobre o Mark. Mas sobre mim eu não dizia quase nada, além de estar
bem! Duas semanas depois a enfermeira, a Dulce me contou que o Mark estava
deixando o hospital. Estava muito bem!
“Todo paciente que passou pelo que ele passou aspira cuidados, mas acho
que ele sabe se cuidar.” Era como se ela dissesse... Agora, cuida de você.
Eu a agradeci. Fiquei de visitá-la quando voltasse ao Brasil. Ela até me
mandou uma foto do Mark saindo do hospital. Claro que estava de costas e não
deve ter visto ser fotografado, mas parecia bem melhor. Fiquei horas olhando
para aquela foto imaginando como tudo poderia ter sido diferente, mas não
adiantava ficar ali, perdendo meu tempo com quem não merecia. Lembrava-me
de suas ultimas palavras “Que pena, Sofia, porque dentro de mim mudou. E
muito!”.
— Babaca! É isso que você é Mark! Um babaca e idiota, como sempre foi
desde criança. Puxando minhas tranças. Desamarrando meus tênis. Fofocando
sobre o Liam e eu. Idiota. Não cresceu até hoje e nem vai crescer. Acredita até
em Papai Noel. Por que não iria acreditar na bonitona da Priscila Mayer? Aff!
— Apaguei a foto que a Dulce havia me enviado. — Agora estou na fase do
falar sozinha.
E eu decidi que era hora de deixar o Mark partir da minha vida, assim como
eu havia deixado o Liam e a Senhora D’Angelis e até mesmo a Angel, que não
tinha nada a ver com a história. Era outra vítima da família. Mas naquele
momento eu percebi que há dias eles não povoavam meus pensamentos. Isso
devia ser um bom sinal.
E quando o correio eletrônico chamou, com o assunto pagamento. Meu
primeiro pagamento. Eu fiquei mais satisfeita do que pensei. Olhei no aplicativo,
como dizia no e-mail, e fiquei pulando sobre a cama como uma idiota. Minha
vontade era de sair e comprar tudo em roupas, mas pensei que dali a alguns dias
além de passagens, eu precisava renovar minha estadia no hotel, ver meu visto.
Nossa quanta coisa a ser feita, mas se levasse nesse ritmo, eu não precisaria
voltar ao Brasil nunca mais. Isso se conseguisse o visto. Mas o melhor de tudo,
não era o valor, era pelo que estavam pagando. A maior quantia era pelos meus
originais que pelas revisões. Isso me deixou muito mais animada. E anexo ao
aviso de recebimento, o Guimarães avisava que ele e o amigo editor estariam
passando pela França ainda essa semana e jantaríamos juntos na terça-feira.
Eu fiquei paralisada. Meu Deus! O que eu diria? O que vestiria? Naquela
noite nem consegui me concentrar direito. Queria contar para alguém, e a única
pessoa que me vinha à cabeça era o Mark. Eu precisava de terapia.
Tentei fazer o melhor que pude para não me deixar vencer pela ansiedade
até na terça-feira. E quando a noite da terça chegou, eu estava vestida em um
terninho que foi sugestão da vendedora de uma boutique, na verdade, a única
que não quis levar todo meu pagamento, um pouco mais distante dali. Como era
um jantar formal, ela me sugeriu uma coisa mais formal.
— Sofí! Querida! — Sofi! Era ótimo. Mas eu havia gostado. Guimarães era
um homem de mais idade, se me perguntassem eu diria que devia ter seus quase
setenta, mas tinha um espírito jovem e uma inteligência espetacular. Conhecia
metade dos autores e seus escritos e não sei dizer se dizia a verdade, mas citava
vários poemas e poesias citando o nome dos autores.
Havia me encontrado com ele uma vez pessoalmente, além de agora, e
outra nos falamos por telefone. Mas foi o suficiente para notar que era muito
galanteador.
— Querida... Quero que conheça seu novo editor, Bernard. — O homem
mais jovem, que devia estar na casa dos quarenta gargalhou e estendeu a mão.
— Guimarães... Pare com isso. Só porque estávamos na França não precisa
falar com sotaque. — Ele beijou minha mão, como os antigos cavalheiros. —
Não ligue para o Guimarães Sofia, assim como eu, deve conhecê-lo bem. Afinal,
se o temos como amigo em comum, já é um bom começo. — O interessante, foi
que enquanto falava, ele não tirava os olhos dos meus, como se me hipnotizasse,
porque eu também não conseguia me mover em outra direção, e naquele exato
momento eu me arrependi por não ter colocado o vestido vermelho sugerido por
outra vendedora que passava no momento da prova do terninho.
— Pode me chamar de Bernardo, ou simplesmente de Nado, como meus
amigos me chamam. Quanto a ser seu novo editor, espero realmente sair daqui
com esse titulo. — Foi minha vez de sorrir.
Eles tinham tanto assunto. Falam de pessoas famosas que estavam lançando
seus livros que também eram famosos. O Bernardo até me deu um que eu havia
visto na livraria. No dia em que eu estive na livraria do aeroporto, até pensei em
comprar, mas os preços de lá são exorbitantes, e não poderia gastar antes de
saber para onde iria.
— Você, Sofia, escreve com muito mais paixão que essa autora. Imagina
quando o mundo conhecer! Será um sucesso! — Eu não esperava ser um
sucesso, mas se as pessoas lessem o que eu tinha em mente, seria o suficiente
para mim. Estava tão excitada com a ideia. Tão empolgada como eu nunca tinha
estado. Não! Houve um tempo sim, que havia vida em mim igual agora. Quando
eu entrei na escola. Quando eu conheci as letras. Quando tive a oportunidade de
conhecer as palavras e, vê o poder que elas tinham. E agora eu as reencontrava.
E além de saber que o poder que elas tinham, eu estava descobrindo que elas
também poderiam me tornar independente financeiramente.
Quase ao fim do jantar, o Guimarães recebeu um telefonema, e eu só em
casa, eu fui pensar que poderia ter sido proposital, mas na hora ele justificou que
teria que partir antes do horário previsto. Levantou-se, e mesmo sob recusa do
amigo deixou a conta paga, e prometendo-me um novo jantar, quando estivesse
no Brasil, partiu deixando o Bernardo incumbido de me deixar no hotel.
— Quer mesmo terminar o jantar assim tão cedo? Somos tão jovens? — Eu
sorri. Tudo parecia tão novo para mim. — Claro, que se tiver alguém te
esperando eu te levo agora mesmo.
Claro que havia saído para jantar com o Mark, e dançar com ele e seus
amigos, mas, era a primeira vez que saía com um homem desconhecido.
— Na verdade... Não. Eu não tenho horas para voltar para casa. E não! Não
tem ninguém me esperando.
— Nem no Brasil? — Eu pensei pouco para responder a ele naquele
momento.
— Não Bernardo. — Eu queria e precisava curar minhas feridas e deixar o
Mark viver a vida dele. — Nem aqui, e nem no Brasil.
Então ele encostou sua mão em minhas costas, como ninguém havia feito
em toda minha vida. E me conduziu até o carro.
— Então vamos! A noite é nossa!
De manhã, foi como se eu tivesse tomando uma droga das mais poderosas.
Eu estava animadíssima. Tomei café um pouco mais tarde e revivia cada
momento. Cada toque sutil do Bernardo. Sem nenhum avanço. O homem era
perfeito. Ele nem sequer sugeriu subir quando me deixou na porta do hotel quase
três da manhã, depois de tentar me roubar dois beijos. E suas ultimas palavras
ainda ecoavam em minha cabeça. Ele tinha sorrido depois do beijo e eu quis
saber do que sorria, então sussurrou em meu ouvido...
— Pensei que sua boca estivesse doce pelo vinho, mas me lembrei de ter
pedido safra seca, mas já dizia minha mãe: De uma fonte não pode sair água
doce e amarga. — E esse momento eu me lembrei de minha tia. Ela também
falava isso. Mas acho que era bíblico.
De qualquer forma, suas palavras havia mexido com todo meu ser. E eu
estava agora, perturbada, perdida no tempo e no espaço me lembrando de um
homem que eu havia conhecido a menos de oito horas. E não foram suas
palavras sobre o gosto de meus lábios e sim, sobre seu encorajamento, quando
fugi de seus beijos e me abri sobre a doença.
Eu precisava ser franca com o Bernardo no primeiro encontro. No primeiro
momento para que ele soubesse os riscos que estava correndo. Então depois de
tudo o que eu disse, ele acariciou meus cabelos e sorriu dizendo:
— Sofia, o homem precisa saber o quanto quer pagar pela mulher que
deseja. — E aquilo realmente havia tocado meu coração. Eu poderia ter
simplesmente ter levado como uma cantada barata, mas foi nesse momento,
depois de saber de tudo que ele me deu o primeiro beijo e sussurrou novamente
em meu ouvido. — Porque se machucou uma vez nos espinhos terá medo de
receber flores pelo resto da vida?
A primeira hora do dia foi dolorida. Estava desconcentrada. Sorrindo
comigo mesma. Até que minha tia me enviou uma foto do Mark. Eu não entendi
por que ela havia feito aquilo, mas não retornei para perguntar. Ele estava se
recuperando segundo ela. Ela e o Bento, haviam se juntado para nos preparar
uma reconciliação, mas aquilo não iria rolar. Eu voltaria apenas para assinar o
divórcio.
Depois de receber a foto eu me desconcentrei do Bernardo, e voltei ao meu
foco. E o objetivo agora era somente minha vida profissional. Eu não era uma
escritora, ainda, mas poderia ter sido se tivesse tido a oportunidade. Eu fiz a
faculdade de pedagogia, porque meu sonho de criança era ser professora, mas
desde muito cedo em minha vida, minha relação com a escrita havia sido muito
boa. Quem sabe se não tivesse vivido à sombra dos D’Angelis tantos anos, eu
não tivesse vivido disso?
Depois do almoço, notei que havia recebido uma mensagem do Guimarães,
perguntando se poderia passar meu numero ao Bernardo. Não que ele não tivesse
tentando consegui-lo comigo ontem, mas achei melhor que não tivesse uma
distração nesse primeiro mês. Mas não era só isso. Por mais que tivesse dito que
não havia ninguém me aguardando no Brasil, e não havia de fato, eu precisava
resolver minha situação, pelo menos de documentos, para depois dar uma
esperança a alguém. E no mais... A gente havia acabado de se conhecer. Mas
depois de dez insistentes mensagens, eu acabei cedendo e permitindo que ele
fornecesse o número ao amigo. E assim, à noite, chegou à primeira mensagem
do Bernardo.
Ele estava feliz por eu não o estar esnobando. Havia passado um dia
agoniado pensando que eu não havia gostado do encontro ou do beijo. Até
mesmo o achado inconveniente pelo beijo.
Deixei para responder, somente no momento em que fui deitar em
mensagem curta, e também me despedindo. Assim, não prolongaria a conversa.
Mesmo assim, quando acordei, notei que havia mais de seis mensagens dele. As
quais, respondi, depois do café, deixando claro que durante o dia, não poderia
me distrair com o celular.
E assim, os dias foram se passando, até que há segunda quinzena se foi. E
foi bem melhor. Como eu pensei, e foquei... Eu tripliquei o trabalho. E tripliquei
meus rendimentos. Agora estava mais tranquila. E não é que os autores mesmo,
segundo senhor Guimarães, pediam pelo meu trabalho? Isso me deixou com uma
disposição enorme para enfrentar ao menos mais duas horas de trabalho diária. E
quando recebi naqueles quase trinta dias, eu simplesmente pirei.
Dancei! Cantei! Sozinha no meu quarto. E até pedi pizza! Eu era uma
criança.
Estava tão feliz que liguei para minha tia. — Filha quando volta? Já faz
quase um mês que não aparece. Dá-me seu endereço que vou te visitar. — Me
visitar? Não me visitava nem quando eu morava com o Mark? A conversa estava
tão boa, mas daí ela começou a insistir em obter meu endereço, acabei dando
uma desculpa e desligando o telefone. Cheguei à conclusão minutos depois que
com o Mark bem de saúde, devia estar querendo reaver a minha parte do
dinheiro no divórcio antes da audiência, que eles achavam que era seu por
direito. E eu não me importava com o dinheiro, mas eu ainda precisava me
preparar. Não estava pronta para vê-lo novamente.
Mas engraçado, que agora não me iludia mais pensando que o Mark
pudesse ter qualquer pensamento além do que os D’Angelis sempre tiveram. Eu
vi uma família se desmoronar, por intriga. Inveja. Mas principalmente pela
ambição ao dinheiro.
Tudo deles girava em volta do dinheiro. O que tinha, mas principalmente o
que eles queriam ter.
Nos últimos dias na França antes de voltar ao Brasil, com a ajuda do
Bernardo, entrei em contato com um advogado e pedi que preparasse para mim
um pedido de visto para voltar à França. E alguns documentos que levaria ao
tribunal. E três dias depois, eu comprava algumas roupas, e colocava em uma
pequena mala para voltar ao Brasil. Eu não podia voltar com a mesma mochila
que saí. Nem mesmo com as roupas que ainda eram dadas pela família
D’Angelis.
E com o coração acelerado, eu entrei no avião para romper de uma vez por
todas com os lanços que me ligava por uma vida a uma família de onde nunca
conheci a palavra AMOR.
Vinte
Mark,
— O que a Ana disse?
— Nada diferente do que disse ontem! Nem anteontem! Nem semana
passada!
— Parece impaciente Bento!
— Não mais que ontem! Muito menos que no dia em que decidiu fazer a
loucura que fez e colocar a prova o amor entre você a Sofia. — É! O Bento
estava mesmo muito furioso, e eu não o culpava. O havia feito participar de tudo
levando e buscando documentos para ser assinados, passando toda minha fortuna
para o nome da Sofia. Eu estava à beira da morte, e não queria que nenhum
centavo viesse a cair nas mãos dos D’Angelis, e a única pessoa que ficaria com
esse dinheiro seria a Sofia.
Tinha quase certeza de que... Caso eu viesse a falecer, ela não se casaria
novamente. Não com o Liam. Mesmo que ele insistisse. E minha aposta maior
era de que ela não assinaria o pedido de divórcio se não ouvisse de minha boca o
pedido de separação. Então passei tudo para o nome dela.
— Ainda não acredita que se for mesmo amor irá sobreviver qualquer
coisa?
— Ainda não acredita em amor Mark? Depois de tudo o que a Sofia lhe
demonstrou de confiança? Ainda duvida que ela lhe ame?
— Você disse bem! Confiança! E disso nunca duvidei. Caso contrário ela
ainda não estaria de posse de toda minha fortuna.
— A essa altura ela já deve ter conhecimento.
— Não! Não tem!
— E como você pode ter certeza?
— Porque ela não vai gastar nenhum centavo do que é meu.
— Não brinca Mark. — Ele me advertiu cauteloso.
— Te garanto! Ela vai me devolver tudo intacto! Quer apostar quanto?
— Não quero apostar nada com você. Só quero saber o que espera dela
agora?
— Que ela só me ame o suficiente para me perdoar e nem precisar dissolver
nosso casamento. Por isso, eu preciso falar com ela antes da bendita audiência.
— Terão uma segunda chance. Por isso, o Juiz faz tanta questão de sua
presença no fórum. Ele vai tentar uma reconciliação. Então poderá dizer a ela o
quanto a ama e que não quer a separação. Só que... — Como ele estava
temeroso, eu também fiquei.
— Tem a possibilidade de ela estar muito magoada não é? E dessa vez
aceitar a separação. Também pensei nisso. Por isso minha ansiedade. Por que
isso não melhora tão rápido quando uma gripe ou uma droga de pneumonia
Bento?
— Nem irei te responder por que sabe a resposta. E se é por essa sua
preocupação, acho que será a de menos, porque pelo que entendi a Sofia não se
lembra, mas o pai faleceu com essa doença, e ela acompanhou o sofrimento da
mãe, então sabe que leva um tempo para se curar. Agora... Talvez ela só não
queira perder mais uma pessoa que ama. Já pensou nisso?
Eu fiquei pensativo nas palavras do Bento pelo resto do dia, mas precisava
voltar ao trabalho, mesmo que fosse bem de vagar.
— Droga! — Bati o punho sobre a mesa duas horas depois.
— O que foi Mark? Parece meio aborrecido. — Eu não dei moral ao Bento.
Estava com ódio de mim mesmo. Da minha instabilidade emocional e
fragilidade física. Como podia fazer uma mulher como a Sofia feliz naquele
estado? Eu precisava me preparar melhor se quisesse vê-la amanhã e convencê-
la de que eu tinha condições físicas e psíquicas de ser um bom marido, ou nem
mesmo o Juiz acreditaria.
Encerrei meu expediente e fui para casa. Não tinha cabeça para o trabalho,
e no mais, eu amava trabalhar a noite, ou na madrugada. Durante o dia eu só
vivia entre sugestões do que poderia vir a ser um bom trabalho.
Entrei no apartamento vazio e como foram todos aqueles dias, me lembrei
dela. Cada detalhe ali, que eu tinha feito, para ela, me trazia recordações de nós
dois. Eu ainda teria a chance de mostrar objetos no apartamento que ainda não
tínhamos visto juntos, mas que estavam ali, baseados em nossa história.
História que talvez só existisse em minha cabeça, mas que talvez algum dia
ela comungasse de dividi-lo comigo.
Tomei um banho e esperei que a noite caísse, mas acabei adormecendo, e
quando me dei por mim, era madrugada. Estava faminto. Com frio! Olhei na
geladeira e me lembrei de ter prometido ao Breno que faria compras aquela
semana, mas acabei não cumprindo mais uma vez.
Peguei o telefone para pedir uma pizza e acabei por desistir.
— Mark! Mark! Essas não são atitudes de um homem que quer ter uma
alimentação saudável. Um homem que quer mudar de vida. — Fui até o quarto,
peguei um agasalho e peguei as chaves do carro e carteira. Dirigi até um
supermercado 24hs e fiz uma compra básica. Logo amanheceria, e eu poderia
tomar um café reforçado. Seria um bom começo.
Eu estava na fila do caixa, quando um casal chamou minha atenção. A
mulher havia passado à frente, e eu não teria notado se não fosse muito parecida
com a Sofia.
Deixei meu carrinho de lado, dando lugar ao próximo da fila, e segui o
casal até o corredor em que se encontravam, para ver que o homem se encostava
a ela. Não tinha como ser ela. Ela não estava no Brasil ela só chegaria... Hoje!
Hoje! Era ela sim! Sofia!
Minha vontade era de gritar com o homem para que se afastasse dela, mas
meu coração estava por demais acelerado para tomar qualquer atitude. E no
mais... Eu olhei para eles e olhei para mim. Eu era um farrapo humano.
Ela vestia um casaco marrom, por cima de um conjunto calça e blusa e
talvez tivesse acabado de desembarcar. É! Talvez fosse isso. Ele devia tê-la
buscado no aeroporto. E de certa forma, aquela simples suposição me dilacerou
o coração. Durante toda uma vida havia sido o Liam, e agora... Agora havia
outro. Com certeza, e definitivamente a Sofia nunca havia sentido nada por mim.
E nunca chegaria a sentir.
Eu me segurei ao vê-la brincando com o sujeito. Queria gritar com eles, e
afastá-los, mas simplesmente me segurei. Escondi-me e voltei para casa.
— Mark? O que houve? — O que o Bento fazia aqui? Tudo o que não
precisava agora era dar satisfações do momento que acabava de viver.
— O que quer?
— Se esqueceu de que você tem médico e depois a audiência?
— Não! — Até eu me assustei com a força de minha voz. — Só pensei que
soubesse que sou bem crescido para fazer isso sozinho.
—Eu só pensei que fosse precisar de ajuda, - Ele não tinha culpa. E uma
por uma elas começaram a cair. A dor estava prendendo a voz em minha
garganta e diante do meu melhor amigo eu desabei.
— Eu perdi Bento!
— Eu lhe disse meu amigo! Eu lhe disse! — Não foi preciso dizer uma
palavra sequer àquele que conhecia bem os sentimentos do meu coração. Se eu
estava chorando ele sabia muito bem do que se tratava. E apenas chorou comigo
por um bom tempo.
Depois de bons minutos ainda ali na garagem, eu contei a ele o que havia
acontecido. Subimos e para minha sorte, e como sempre o Bento havia levado o
café.
— Acabei esquecendo toda compra.
—Imagino sua situação.
— Não! Você não faz ideia. Não tem noção de como estou. Não vou
conseguir comparecer a essa audiência Bento. Não pode levar um atestado
médico?
— Posso! E o Juiz pode arrastar isso para um litigioso. É isso que quer?
Arrastar a Sofia para uma situação que só a fará te odiar cada dia mais?
— Não! Só queria ter chances de ser páreo para o homem que vi com ela. O
Cara é bacana. — Eu não era de desistir fácil de nada na vida, mas a minha
situação atual me deixava em posição de não poder oferecer à Sofia tudo o que
ela merecia.
— E vai desistir assim Mark?
— Tirou as palavras de minha mente meu amigo. Mas eu não posso
oferecer à Sofia, tudo o que eu penso que ela mereça, entende?
— É a segunda vez que acha que sabe o que é melhor para ela. E só por
isso, por ser um idiota que irá perder o grande amor de sua vida.
— Presta atenção Bento. Você achar que sabe o que é melhor para alguém
como meu irmão faz, e desejar o melhor par alguém são duas coisas totalmente
diferente.
— Talvez ela não pense assim. Mas, agora, tome um banho, faça a barba,
caso contrário, não nos deixarão nem sequer entrar no fórum, e vamos a
consulta.
Antes de entrar no banho e sentindo-me ainda culpado por ter sido rude
com o Bento, eu me voltei para ele e me desculpei. Ele sorriu e eu fui para o
banho.
Não vesti a melhor roupa que eu achava. Vesti a roupa que um dia a Sofia
disse que ficava bem em mim. Por minha conta, eu iria de moletom. Segundo
meu estado de espírito. Estava de cama por dentro. Talvez algum dia mais
alguém já tenha se sentido assim. De cama por dentro. Quando sua alma quer
ficar deitada, o dia todo. Sem ânimo e sem forças para retirar o pijama ou
moletom espiritual. Sem fome! Abatida! Assim estava meu estado de espírito.
Mas por fora, eu estava até apresentável.
O médico vê minha melhora até considerável. Mas ainda inspirava cuidados
principalmente na alimentação balanceada por ter sido a desidratação uma das
grandes causadoras do estado lastimável no qual onde fui parar.
Viver de sanduíches e lanches rápidos, poucas horas dormidas diárias, não é
a receita correta para se manter uma qualidade de vida.
Com o decorrer do tratamento, eu mesmo senti a melhora e os sintomas
diminuírem. Mesmo assim, ele insiste em continuarmos com o uso das
medicações até o final do período programado para evitar recorrência da doença
e resistência bacteriana aos antibióticos. Mas depois de passar por tudo o que
passei, prefiro prevenir que remediar.
As crises de tosse quase não existem mais, porém para segurança de todos
em minha volta, a não ser o Bento que agora tomaria uma medicação, vontade
dele mesmo, chamada quimioprofilaxia. Por estar sempre comigo, assim como a
maioria da equipe, o que para mim foi uma prova de amizade e companheirismo,
tomariam por seis meses essa medicação que é indicada para pessoas que não
estão doentes, mas que apresentam um grande risco de adoecer.
A medição, lógico que tem que ser indicação médica depois de passarem
por consulta. Mas de alguma forma, eu ficava feliz em não ter que usar aquela
bendita mascara o tempo todo no trabalho. E de ver que eles não me
abandonariam no pior momento de minha vida. E não era só pelo salário, porque
poderiam muito bem arrumar outro emprego, era por carinho a mim mesmo. Só
de pensar, meus olhos se enchiam de lágrimas.
Quando saio faço uso constante da máscara e até já me acostumei com as
pessoas que torcem o nariz e até chegam a dar a volta, mesmo sem saber o grau e
como a doença é adquirida. E na maioria das vezes agora, nossas reuniões são
conduzidas pelo Bento, a não ser que depois de explicada a situação o cliente
faça muita questão da minha presença.
O relógio despertou nove e cinco, e o Bento havia entrado na audiência
marcada para dez para as nove. Para qualquer pessoa sem controle de suas
emoções poderia parecer humilhante. O Bento, ou qualquer pessoa tinha que
entrar em minha frente, munido do laudo médico, anunciar aos presentes minha
situação e dar a todos o direito de sair da sala, entregar máscaras e deixar a sala
refrigerada o máximo que pudesse. Para mim o ideal seria sala aberta, mas se
tiver o ar condicionado, já ajudava. Só depois de autorizado eu entraria.
Se o Juiz e as demais pessoas acharem que eu possa entrar, participarei da
audiência, caso contrário, devo ficar na antessala, alguém trará os documentos
para que eu possa assinar. No começo eu também fiquei chocado, até porque
nunca tinha ouvido falar, e fiquei mais chocado ainda quando soube pelo médico
que a metade dos pacientes oculta seu estado por medo de serem excluídos da
sociedade. E a outra metade da sociedade, a sã, é a que se afasta de quem tem
tuberculose. E ele me esclareceu que o acontecimento é tão somente por medo.
Quando a gente não entende como pega a doença e como se proteger surge o
medo. Que é normal. Tanto que eu quis criar uma campanha sobre a
tuberculose. Porque a informação nos ajuda a controlar o medo.
Estava ali, divagando sobre a doença e lendo sobre algumas doenças
quando o Bento entrou:
— Vamos lá? — Eu tremi.
— Vou poder entrar?
— Acha mesmo que o Juiz perderia a chance de colocar você diante da
Sofia? — Não consegui reunir forças para ficar de pé. E não era pela fraqueza do
meu corpo, mas como eu estava me sentindo naquele dia por ter visto a Sofia
com outro, era pela fraqueza da minha alma.
— Força homem! — O encorajamento dele não estava sendo suficiente.
— Tem mais alguém com ela?
— Se quer saber se ela está acompanhada de um homem alto, moreno e
simpático, — eu olhei para o Bento e desisti de entrar na hora. Uma ânsia de
vômitos me veio naquele exato momento, em que um senhor entrou na sala, e eu
soube na hora que era o juiz.
— Senhor Mark D’Angelis? — Nem pude responder de imediato. Eu seria
humilhado. Abandonado. Em um único dia e na frente do novo namorado da
Sofia. Depois de dois minutos que a náusea havia passado eu respirei e fiquei de
pé e coloquei a mascara.
— Sim, Senhor!
— Vejo que o senhor não está muito bem e não me diga que está, porque
não sou cego. Posso adiar essa audiência para daqui a duas horas ou para o
momento em que o senhor se sentir melhor.
— Não senhor! Não será necessário. — Me lembrei das palavras do Bento.
Se tivesse que ser, que fosse.
— Muito bem! Vamos lá! — Notei que ele não usava mascara.
— Não entregou as máscaras a eles Bento? — Cochichei. E percebi que não
havia sido tão baixo assim, pois ele mesmo me respondeu.
— O laudo de seu médico diz que somente o senhor usando é o suficiente.
Não é necessário que nós usemos. — Mas quando ele colocou a mão na porta,
eu me senti na obrigação de pedir...
— Meritíssimo, eu sei que o senhor é justo em seus julgamentos, gostaria
apenas de pedir que minha condição não interferisse no destino da Sofia. Ela tem
o direito de ser feliz. E aceitarei o que ela decidir hoje.
— Se é isso que deseja! — Ele abriu a porta e eu o segui. Olhei em volta e
procurei pelo namorado da Sofia, mesmo antes de olhar para ela, e não vi
ninguém, além do que parecia o advogado. Olhei para trás e o Bento fechava a
porta com um sorriso no canto da Boca. Ele tinha noção do que havia feito?
Havia quase me infartado. Mais tarde a gente teria uma conversa.
Todos ficaram de pé com a entrada do Juiz e eu entendia que agora seria
tudo ou nada!
Vinte e Um
Mark,
A primeira mudança da Sofia, além do cabelo; das roupas; do olhar; e eu
poderia ficar ali, listando uma infinidade delas, era também o advogado. Mas
provavelmente ela também estava surpresa com a mudança do meu.
— Então vamos dar prosseguimento a essa audiência. Senhor Mark! Bom
dia!
— Bom dia! — Eu não tinha coragem de encarar os olhos da Sofia sobre
mim. Era piedade o que eu vi de relance? Aquilo estava acabando comigo, mas
eu não desistiria. Permaneceria ali firme. Agora eu sabia o que ela tinha em
mente. Ela assinaria o divórcio para viver um grande e novo amor em sua vida.
─ Bom... Cheguei a pensar que se tratasse de um trote essa audiência. Por
isso, fui até a antessala ver se o cônjuge estava mesmo presente. — O Juiz
brincou com nossas ausências. Ela faltou à primeira, embora eu não estivesse
presente, havia assinado a procuração. Nem isso ela havia feito. Eu não
compareci à segunda, mas devido ao nervosismo dela e suas inseguranças ele
suspendeu a audiência. — Vou me dirigir um pouco mais dessa vez ao senhor e
repetir algumas palavras que disse à sua esposa da outra vez. Este é o tipo de
audiência em que o Juiz sempre vai tentar conciliar o casal, para manter a
sagrada instituição do casamento. E como não temos uma ação de divórcio
litigioso, é isso que eu tento fazer de bom coração, uma última tentativa de
reconciliação. Eu tenho aqui em minhas mãos o processo, vejo que ambos,
mudaram de advogado, senhora Sofia agora representada pelo senhor Antônio
Araújo e o Senhor Mark representado pelo senhor Caio Solto. Mas essa mudança
tem algo a ver com alguma mudança no andamento do processo. Senhor Antônio
Araújo tem algo a dizer?
— Não senhor meritíssimo! Minha cliente, inclusive trouxe um novo
documento abrindo mão da parte que seria por direito dela na partilha dos bens.
— Eu fechei os olhos para não entender aquela atitude da Sofia como uma
quebra de qualquer laço comigo. — O Juiz deu um pequeno sorriso.
— A senhora tem noção do que está fazendo?
— Sim senhor!
— Está com tanto ódio assim de seu marido? — Ela me olhou assustada, e
eu a encarei dessa única vez. Eu também tinha interesse nessa resposta. —
Porque coagida eu não acredito que esteja sendo. A senhora é uma mulher muito
inteligente e esperta. O trouxe diante de mim. Só pode estar agindo por amor, ou
por ódio.
— Nem um nem outro eu lhe garanto senhor. Eu apenas não quero ficar
com o que não me pertence.
— Mas esse dinheiro lhe pertence por direito, ou o senhor Mark teria feito
um contrato com a senhora com separação de bens. Ou teria feito qualquer outro
tipo de contrato. Mas no dia em que se casaram, ele decidiu que se algum dia
vocês viessem a se separar, você teria metade do que fosse dele.
— Não senhor, ele não fez. A família dele o fez! Na verdade, aplicaram o
golpe no Mark, coitado. O obrigaram a se casar comigo, e logo depois a gente se
separaria, e eu me casaria com o irmão dele e daria todo o dinheiro para o irmão.
— A metade a senhora quer dizer. — O Juiz retificou.
— O senhor acredita que do jeito que eu era idiota na época eu daria o que
ele pedisse.
— Como à senhora disse idiota, está dizendo que não é mais. Então agora
tem consciência, que esse dinheiro lhe pertence, e não precisa deixá-lo com o
Mark, e muito menos dar ao irmão do senhor Mark.
— Isso Sofia! — Falei pela primeira vez. — É seu para gastar como quiser.
Para ajudar no seu recomeço.
— Veja! São palavras conscientes de seu próprio marido. Aceite!
— Prefiro não! Quero e sou capaz de obter meu próprio existo.
— Ninguém duvida Sofia! Só queria que soubesse que não me importaria
de dividir o que tenho com você. Nada do que tenho. — Até minha vida e meu
amor! Devia ter concluído em voz alta, mas não tive coragem. Ela poderia ter
nos dado uma chance. Ou ao menos ter deixado meu advogado falar, mas o
advogado dela nem nos deu a oportunidade de dizer que não queríamos
prosseguir com o processo.
E então depois que o Juiz concordou com a petição dela, o advogado soube
o quanto era o valor, e logo entregou o documento a ela.
Tanto eu, quanto o juiz percebemos o cochicho entre os dois, até que o Juiz
perguntou a ele se ela tinha interesse de voltar atrás e vendo que o advogado
estava contrariado, o Juiz por fim, suspendeu a sessão por vinte minutos pedindo
aos advogados que nos deixassem sozinhos.
— Não precisava disso! — Ela foi ríspida e parecia nervosa. — Seja dez
mil. Vinte mil ou esses... — US$ 2,4 bilhões, Mark? Eu estava com tudo isso em
minha conta?
— Sim!
— Por que fez isso?
— Eu estava à beira da morte. Descobri que minha mãe havia falecido e
deixado essa fortuna para mim. Meu pai soube e veio me buscar para “cuidar” de
mim. Você não poderia entender Sofia. Eu não tinha em quem confiar a não ser
em você. Cegamente eu confiei em seu amor, e em tudo o que havíamos
conversado naquela tarde. Eu desejei ardentemente, — Como a mascara me
atrapalhava eu a tirei e fui para perto da janela. — Desejei ardentemente o que
eu via em seus olhos, que o que estava acontecendo entre nós não fosse só uma
ilusão de minha parte e eu tivesse de fato conseguido te conquistar e você não
fosse capaz de cair nos braços do Liam novamente entregando a ele o que ele
sempre quis na vida. E olha que ele não tem ideia Sofia, de quanto seja. Ele sabe
que é uma boa quantia, mas assim... Nada parecido com isso.
— Você sumiu! Quis morrer sozinho. Colocou-me à prova, e ainda me
deixaria com uma bomba dessas nas mãos Mark? — Ela caminhou até próximo
a mim, e me olhou com tristeza. Eu não posso acreditar em algo assim. Poderia
ter confiado em mim. Ficado ao meu lado.
— Eu não sabia sobre sua família. Estava desesperado de medo de ter
infectado você. E a vergonha de te contar a verdade. Dê-nos uma chance Sofia.
Não há mais mal-entendidos entre nós. Olha para mim, estou me recuperando.
— Mark, nós somos nosso próprio mal-entendido.
— Não Sofia! A gente se ama.
— Que amor é esse? Um amor que só nos causa mal. Não Mark! A gente só
gostava da companhia um do outro, porque estávamos acostumados desde muito
jovens. Mas era só isso!
— Existe outra pessoa Sofia? — Ela não disse nada a principio. Depois,
sem confirmar, nem negar ela começou a voltar para sua cadeira e estando de
costas para mim, só me desencorajou.
— Mark, segue sua vida!
Parecia ter cronometrado o tempo de o Juiz entrar na sala. Eu coloquei a
bendita máscara novamente e voltei ao meu assento. Os documentos foram lidos,
e eu assinei. Ela assinou e assim, voltávamos a ser solteiros.
Ela saiu tão rápido que nem deu tempo da gente se despedir. Mas das
escadarias o Bento acompanhou comigo, quando o homem bem vestido desceu
do carro e a abraçou. Ela devia estar chorando, porque ele colou sua cabeça
sobre seu peito e a acalentou.
— Ela poderia ter ficado.
— Vocês precisam curar seus corações! — O Bento tinha toda razão. Meu
coração. Meu corpo. Minha alma! Eu precisava me internar com urgência em
uma clinica especializada. — Vai para casa?
— Um dia a Sofia me falou de casa, e eu falei para ela sobre o que era casa
para mim, e mais uma vez eu, me sinto sem um lar Bento. Então, só vou passar
lá, você mesmo sobe, e pega só meus documentos e notebook. — Chamei o
advogado enquanto a gente descia as escadas eu o orientava. — Caio. Vou ficar
em um hotel mais próximo ao trabalho, pego umas roupas no caminho. Amanhã
quero que coloque o carro da Sofia à venda, junto com nosso apartamento.
Devolva o dinheiro da entrado do meu pai, e o restante leve e entregue à Ana, tia
dela. Na verdade, depois faça com a Ana o acerto do tempo de casa. Diga a ela
que se quiser ir embora que vá. Faça isso com todos os empregados da família
D’Angelis. E quero que faça isso, tudo à surdina. Sem o Liam por perto.
— Está Bem Mark!
Depois que entrei no carro, o Bento foi em silêncio até chegar ao
apartamento. Depois que subiu e desceu, com alguns pertences que me achou
necessário, nos dirigimos a um hotel cinco estrelas, e ali me hospedei. Ainda
estava na recepção quando me despedi dele.
— Até amanhã Bento!
— Vamos aproveitar para almoçar. — Eu não questionei. Era como se eu
estivesse voltando de um velório e ele não tivesse coragem de me deixar sozinho
na volta para casa.
Durante o almoço falei sobre as ideias da campanha que faria sobre a TB, e
ele gostou.
— Sabia que com essa grana entrou para uma lista dos vinte e cinco mais
ricos do Brasil?
— E como sabe disso?
— Li hoje de manhã no caderno de economias.
— Tudo um monte de besteiras. Se fosse tão considerável eu estaria
gozando de plena saúde. E ainda teria a mulher que amo ao meu lado. — após o
almoço, ele ainda foi resistente ao partir.
— Não quer ajuda?
— Vai me levar no colo, igual noiva em lua-de-mel?
— Não, mas preciso ver se o lugar é ideal para você. E não seja ingrato. —
Eu não sabia qual era a real preocupação dele, mas uma coisa era certa, ele
sempre tinha razão. Pedi para pegar o notebook, e ele também pegou a
medicação que precisava ser tomada diariamente. Então... O Bento era meu
braço direito, e único amigo, e única família naquela hora, e não seria meus
aborrecimentos externos que o afastariam de mim.
Foi assim que ele subiu à minha frente, e checou que a suíte tinha dois
quartos, ambos com banheiros. Caso algum dia ele ou alguém como uma
enfermeira precisasse passar a noite. Conferiu se era bem arejado. Entrava-se o
sol. Era quase cômico. E só fez menção de partir depois que me viu “alojado”,
como dizia a Ana.
— Não vai me cobrir mãe? — Então ele sorriu e se foi.
Ali eu não teria que me preocupar com quase nada. Quatro horas depois eu
estava lendo quando bateram à porta. Não tinham que ligar? Olhei o relógio e
devia ser o que? Café da tarde? Eu paguei um pouco a mais para que todas as
minhas refeições fossem entregues no quarto, mas não saberia dizer que horas
isso seria feito.
Quando abri a porta, me deparei com a Ana, e uma mala antiga parada à
porta e o mensageiro do hotel.
— Me desculpe Senhor, a gente ia ligar, mas aquele moço que chegou com
o senhor mais cedo disse que era melhor vir e depois o senhor descia para
resolver.
— Ana, o que faz aqui?
— Eu vim cuidar de você, Mark. — Olhei para o rapaz sem jeito e sorri
justificando que desceria em breve até a recepção para ver minha situação.
Assim que entendesse. — Se eu soubesse que estava doente, teria ido antes.
— Ana, precisa usar essa mascara.
— O Bento disse que posso tomar um remédio amanhã.
— Você precisa é aproveitar sua vida. Ir descansar. Viajar. Se aposentar.
— Não enquanto você não estiver bem! — Eu não iria discutir. Embora
quisesse me afastar, sabia que precisava de toda ajuda necessária, ainda.
— Tudo bem! Mas será por poucos dias. Assim que eu estiver melhor, irá
viajar. Mas como me encontrou?
— Fui até seu trabalho, assim que seu advogado me falou que iria acertar
comigo, porque a sua mãe, já não me pagava a mais de três meses. E eu estava lá
só por não ter pra onde ir. Quis ir ficar com a Sofia, mas ela não me mandava o
endereço, e também acho que para onde ela estava eu não conseguiria ir. Ainda
daria despesas para ela.
— Pode ser! Então... Fica aqui comigo! E quando quiser, eu te dou o
dinheiro e você vai para onde quiser.
— Eu quero ir à Europa, mas você vai ter que ir comigo. Eu não sei falar
inglês? — Eu olhei aquela mulher tão simples, devotada uma vida a uma família
para nada. Então gargalhei com ela. Já me sentia muito melhor.
— Pode escolher o lugar Ana. Que a gente vai! E nem precisa esperar eu
melhorar. Pode ser agora. Vai que eu morro. — Ela me deu um tapa no ombro e
saiu resmungando. — Onde vou dormir?
Apontei a porta que ficava do outro lado do corredor, e peguei minha
carteira para descer até a recepção. Se o Bento imaginou que a presença da Ana
me faria bem... A aposta dele foi certeira.
Vinte e dois.
Mark
Na primeira semana que estava morando comigo, eu dei folga à Ana, no
sábado e no domingo, e pelo que ela me disse antes de sair de casa, era a
primeira “folga” dela em todos esses anos. Folga remunerada.
— Imagina se sua mãe ia perder a chance de descontar do meu salário. Na
verdade, do salário de todos naquela casa. Sabia que outro dia o pessoal me ligou
perguntando se você não precisava de jardineiro e arrumadeira? — Eu parei de
tomar o café e só então percebi que provavelmente, todos os demais ficariam
desempregados. Eu acompanhava pelos telejornais os últimos acontecimentos
das empresas. E esperava a qualquer momento que meu pai, ou o Liam, até
mesmo a Própria Catarina viessem falar comigo. Mas enquanto eles não
viessem, eu continuava vivendo minha vida.
Uma semana havia se passado, e mesmo vivendo debaixo do mesmo teto da
Ana, eu não tive coragem de perguntar pela Sofia, mesmo que vira e mexe o
nome dela estivesse em nossas conversas. Eu podia sentir que a Ana também
estava resistente em tocar no nome da sobrinha, portanto logo que percebia, eu
desviava o assunto.
Naquela manhã de sábado, depois de colocá-la em um taxi para a casa de
uma velha amiga que a aguardava, eu até suspeitava que fosse para a casa da
própria Sofia, mas como não queria me dizer o paradeiro da moça, preferia dizer
que se tratava de uma amiga, eu sai caminhando pela Avenida Paulista.
Eu poderia contar em uma das mãos às vezes em que fiz aquilo. Andar
pelas ruas da cidade, desacompanhado, sem pretensão de comprar algo.
Simplesmente... Andar. Mas depois de alguns minutos eu me senti cansado, e
precisei me sentar, em um restaurante. Pedi uma água, bebi meia garrafa, e
depois tomei o caminho de volta para o hotel.
A chuva caiu sobre São Paulo, e a movimentação no hotel foi enorme
durante a tarde toda. Ouvi pela TV que todos os aeroportos estavam fechados
para pouso e decolagem, e logo me preocupei com a Ana. Só fiquei tranquilo
depois de falar com ela.
Assim que desliguei o celular, um número desconhecido chamou e eu fiquei
tentado a não atender. Como esperava a ligação da família D’Angelis depois do
que o Bento tinha lido no jornal de economias, eu estava mesmo tentado a não
atender e não atendi.
Coloquei o celular sobre a mesinha e fui tomar um banho quente. E fiquei
por lá um bom tempo. Quando saí estava me sentindo revigorado. No entanto,
alguém batia à porta.
— Bento! Bento! — Abri a porta e continuei falando com ele quando o vi.
— Acredita que vim falando com você lá do banheiro? — Estava envolto em
uma toalha e nem me preocupava mais. Sempre era ele. Deis as costas e comecei
a me afastar, — Como eu adivinhei que era você? — Como percebi que ele não
dizia nada me virei, e me deparei com a Sofia em sua frente. Encharcada. —
Sofia!
— Posso entrar?
— Claro! Bento, não fique aí parado pegue uma toalha para a Sofia, e
aproveite e me traga um roupão. Desculpe-me, eu não esperava visitas. —
Estava sem palavras e sem jeito diante dela.
O Bento voltou com uma toalha e um roupão e antes de entregar a toalha a
ela ele me olhou de uma forma estranha.
— O que foi Bento?
— Talvez a Sofia queira tomar um banho quente? Sei lá!
— Ah sim! — Meu Deus! O que estava acontecendo comigo?
— Se não for incômodo.
— Claro que não. — Pensei em ela usar, o quarto da tia, mas não teria
coragem de entrar sem permissão no quarto da Ana, por isso abri a porta do meu
e lhe dei passagem até o banheiro.
— Bento, poderia...
— Ah, sim! — Olhei para trás e vi o Bento vindo com uma mala, e aquilo
encheu meu coração de alegria e esperança.
Ela entrou e fechou a porta do banheiro e nós saímos do quarto e fechamos
a porta atrás de nós.
— O que foi isso? — Passei as mãos pelos cabelos molhados.
— Não sei! Ela apareceu na porta de casa debaixo do temporal, desesperada
dizendo que precisava te ver naquele exato momento. E como certeza eu sou
mãe ou seu pai... — Eu sorri de nervoso.
— Bento, pede na cozinha que mandem tudo que tiverem de mais gostoso e
quente, lógico. — Ele se virou e começou a se afastar e pegou o telefone.
— Não! — Quase gritei.
— Não pediu para...
— Vai pessoalmente, e já fica por lá. Eu cuido do resto. — Ele fez uma
careta e balançou o dedo em minha direção, como se me desse um aviso.
— Lembre-se dos esforços físicos.
— Não quero me lembrar de nada mais de agora em diante. E por favor,
não venha essa noite, nem amanhã. Não ligue! Deixa que eu ligue para você e
ligue para a Ana e diga a ela que quando estiver voltando amanhã que você irá
buscá-la. E trate de ficar com ela até que eu diga que possam vir.
— Sim Senhor! — Quando eu pensava que ele ia, voltava. — Mark, —
quando me chamou pela ultima vez parecia sério. — Apenas tome cuidado.
Prometa-me, que se não der certo, não irá ficar chorando pelos cantos
novamente.
— Está me achando com cara de bebê, Bento?
— Buá! Buá! — Ouvimos um barulho vindo do quarto então ele saiu
correndo e bateu a porta atrás de si.
Eu não esperei que ela saísse do quarto. Não poderia perder uma
oportunidade sequer. Bati tão fraco que mesmo que quisesse não teria ouvido.
Eu vi seu olhar de assustada quando me viu em sua frente. Estava apenas
com a toalha diante de si, e uma pequena que cobria seus cabelos úmidos.
— Eu bati.
— Eu não devia ter vindo.
— Sabe que seu coração a trouxe para mim, Sofia. Não resista mais a nós.
— Ela abriu a toalha para se proteger e eu fui mais rápido. Percorri o espaço que
faltava entre nós, e me encostei a ela, fazendo com que perdesse o resto de ar
que lhe faltava.
— Não faça isso Mark.
— Não há outro motivo para que você esteja aqui Sofia. Seu corpo clama
pelo meu. Sua alma clama pela minha. Não tente negar.
— Foi um maldito impulso. — Eu tirei a toalha que escondia seus cabelos,
e os soltei.
— São lindos. — Percorri os cachos com os dedos, colocando um por um
em seu devido lugar. — Nunca devia prendê-los ou alisar. — Ela também pegou
um cacho e depois sorriu sem jeito.
— Você odiava minhas tranças. Vivia puxando meu cabelo.
— Amava suas tranças. Apenas queria chamar sua atenção.
— Éramos duas crianças.
— Agora não somos mais. — Fiz com que ela se virasse e tomei posse de
seus lábios.
Ela dizia não, mas em nenhum momento eu a vi se debater, ou me
empurrar. Ao contrário, suas mãos estavam nesse momento sobre meus cabelos,
um pouco mais secos, que os seus, mas com certeza, bem mais bagunçados com
o vai e vem de suas mãos desesperadas por mais do que eu estava oferecendo. E
sua voz rouca emitia um sussurro que me levava ao delírio.
Eu a empurrei até a parede, e a trouxe para mim, fazendo com que cruzasse
suas pernas em volta de minha cintura, e presa à parede não tivesse para onde
fugir. E foi ali, entre beijos e afagos, que eu a penetrei com toda força que eu não
sei de onde surgiu. Aliás, eu sabia sim. Eu estava há meses sem sentir desejos
por ninguém, se não por ela. Eu sequer sentia meu corpo vivo por uso de tanto
medicamento. Por fraqueza. Acometido por aquela maldita doença. E novamente
eu me via seduzido. Eu queimava! Estava duro como uma rocha.
— Que droga!
— O que foi Mark?
— A mascara. Não poderia ter me descuidado tanto, e simplesmente não
pensei direito.
— Não estamos nem nos importando com camisinha, vamos nos preocupar
com uma bendita máscara? — Enquanto ela me seduzia, rebolando sobre mim,
eu me convencia de que ela tinha toda razão. Eu tinha mesmo sido um
descuidado por duas vezes. Mas não me importava. Eu a queria! Eu a teria. —
Eu só preciso que você me ame Mark! Com toda sua alma e todo seu coração!
— Eu te amo Sofia com toda minha vida! Eu daria tudo o que tenho por
você!
Não houve uma cama, naquele momento! Eu a tive ali. Eu a vi chamar meu
nome. Arranhar minhas cotas. E se agarrar em mim quando sussurrou em meu
ouvindo com voz entrecortada...
— Eu... — Ela não precisava dizer. Meu corpo estava respondendo ao
corpo dela. Os dois falavam a mesma linguagem. Quando ela gozou eu perdi as
forças.
— Não vai abrir a porta Mark? — Só então me dei conta de que
continuávamos deitados no chão, um sobre o outro, tentando recuperar as forças
e acalmar a respiração.
— Não! Eu nunca pensei que em um hotel pudesse ser tão incomodado. —
Estava tão feliz, que se o Bento aparecesse àquela porta, eu o mataria com
minhas próprias mãos.
— Ela sorriu se levantou, e passou por mim, olhou pela abertura, e depois
me perguntou se eu havia pedido serviço de quarto. Então me lembrei que havia
sim, pedido ao Bento para encomendar algo para que ela se alimentasse.
— Foi! — Ela se vestiu com um roupão abriu a porta e pediu ao moço que
deixasse o carrinho próximo a mesa.
Depois que o homem foi embora ela voltou até onde eu me encontrava, e
então jogou meu roupão sobre mim. Não sabia os reais motivos de a Sofia estar
ali, mas começava a sentir um medo tremendo.
Não entedia porque há poucos dias atrás ela havia assinado nosso divórcio
e agora voltava tão de repente. Mas eu estava tão apaixonado. A amava tanto que
seria capaz de aceitar qualquer migalha que ela pudesse me oferecer.
— Posso? — Ela mostrou o carrinho.
— Sim! Pedi para você. — Ela sentou-se e começou a se alimentar, me
oferecendo em seguida, mas eu não conseguiria chupar uma bala sequer. Mas
tomei água. Uma garrafa inteira. Até criar coragem de iniciar nossa conversa. —
Eu gostaria muito de que essa sua visita fosse para dizer que pensou bastante e
gostaria de voltar para mim, mas temo que não seja essa sua intenção, ou é
Sofia?
— Estava de partida definitiva para a França, e o avião não pode decolar —
Eu ri. Havia acompanhado as notícias pelo telejornal.
— Claro! E você veio esperar em um lugar mais próximo para não perder o
próximo voo. E o idiota aqui pensando que estava procurando por mim porque
queria falar sobre nós. — Me afastei.
— Mas eu estava Mark! — Ela ficou de pé e veio em minha direção. — Eu
estava de partida. Tive que esperar por um visto provisório, e assinar alguns
documentos, fiquei pensando se eu não teria me sabotado assinando aquele
documento para mostrar as pessoas que eu poderia ter uma opinião própria, e
acabado com a única chance de ser feliz.
— Você não precisava Sofia. Ninguém iria te julgar. Ninguém iria te cobrar
nada.
— Iria sim, Mark. A família D’Angelis quando soubesse que eu tinha um
centavo seu iria fazer da minha vida um inferno. E como você mesmo disse você
ainda não estava bem para estar de um lado. Para tomar partido de alguém! —
Eu fui embora naquele dia pensando no que o Juiz disse e... — Eu a interrompi.
— Mas você logo foi consolada não é, Sofia? Eu vi você com ele no
supermercado.
— Mark? Mandou me espionar?
— Não Sofia! Ninguém te espionou. Foi uma triste coincidência ou sei lá o
que devemos chamar essa sina de te ver no supermercado. Eu saí para abastecer
minha geladeira. E simplesmente encontrei vocês. Pareciam estar se divertindo.
Eu não tenho culpa se TODOS OS CAMINHOS ME LEVAM A VOCÊ!
— Ele é um amigo.
— Não me deve mais satisfações.
— Quanto ao dia do fórum, ele só pensou que eu precisaria de um ombro
amigo.
— Sei! Como eu disse, principalmente agora, não tem que me dar
satisfações.
— Bernardo.
— Como? — Não entendi o porquê ela me contava o nome do novo
namorado.
— Ele se chama Bernardo. E é meu editor. Acabei de assinar contrato com
uma editora. Vou escrever um livro. — Meu coração se encheu de alegria e eu
não tive como não me alegrar por ela. Sabia do seu potencial desde quando era
obrigada a fazer os trabalhos de minha irmã. Que idiota eu era. Tão apaixonado
que poderia estar sofrendo, e mesmo assim, me alegrava por suas vitórias.
— Parabéns, Sofia! — A abracei. E naquele abraço mais uma vez nossas
diferenças se perderam. Nossos corpos esqueceram o que nossas razões
discutiam até um minuto atrás e não resistimos à tentação de nos beijar
novamente.
— Mark, estou indo embora a qualquer momento. — Ela murmurou entre
os lábios, mas eu não me importava mais. Não me importava que ela saísse da
minha cama, direto para o aeroporto. Eu pagaria o preço de terminar a noite
sozinho, mas viveria nossos últimos momentos de extrema felicidade.
Dessa vez, eu a levei para a cama. Tinha medo que a qualquer minuto
aquele maldito telefone tocasse informando que o avião estivesse partindo.
Minha única garantia de tê-la por mais tempo era a tempestade que chorava a
nossa triste situação.
Eu não queria só fazer amor com a Sofia àquela dia, como eu havia feito
outras vezes. Eu precisava deixar mais que seu corpo marcado com o meu.
Precisava deixar minhas marcas por toda sua alma. Por toda sua vida. Por onde
fosse se lembrasse de minha existência, assim como eu estava vivendo cada dia
de minha vida. Por mais egoísta que parecesse, eu me senti naquele direito, por
todo amor que eu sentia por ela.
A cada gemido. Cada estremecida de seu corpo, eu pedia a Deus que a
trouxesse de volta definitivamente a meus braços, para que pudéssemos viver
nosso amor, longe de todas as loucuras que fomos obrigados a viver.
Eu senti seu corpo arquear debaixo do meu mais uma vez. Seus dedos
entrelaçarem entre os meus cabelos, e sua voz rouca de desejo chamar meu
nome, e vi uma lágrima solitária rolar por sua face.
— Mark! — Seria eternizado para sempre em minha memória.
Aquela mulher me pertencia. Era minha. Não havia outro homem que
pudesse tocar. Mas, se caso acontecesse e eu percebesse que ele a fizesse mais
feliz que eu, eu me alegraria por sua felicidade. Era uma promessa que eu fazia
ali para mim.
— E se eu te pedir para ficar, Sofia? — Aconchegada em meus braços,
meia hora depois, ouvindo a chuva, ela ainda resistiu.
— E se eu te pedir um tempo Mark? Eu preciso realizar todos os sonhos
que agora planejei. — Beijei seus cabelos e fiz uma promessa.
— Eu esperarei!
Ela só partiu às seis da manhã, quando ligaram dizendo que o voo sairia às
sete. Um taxi veio buscá-la. Antes de sair, porém, ela fez questão de desfazer
nossas promessas de cama. Ainda mais quando soube que havia uma mulher
dormindo no quarto ao lado.
— Mark, vive sua vida. Não fique me esperando. Eu tenho um livro para
escrever e nem sei quando vou terminar, até por que nem comecei. — Eu tentei
argumentar, mas ela foi incisiva ao abrir a porta do quarto e ver um chinelo rosa,
surrado, aos pés da cama. — Pelo jeito nem precisava falar, não é mesmo, Mark?
Saiu brava! Batendo a porta, mas eu não estava nem ligando, porque ela
deixava batendo mais forte também o meu coração. E eu esperaria por ela a vida
toda. Quando ela soubesse que era a tia, se acalmaria com certeza.
Vinte e Três.
Mark,
Dois dias depois eu a ainda tinha o cheiro dela em meu corpo. Era só fechar
os olhos e reviver cada momento. Eu sabia que com o passar dos dias, as
sensações, sumiriam, dando lugar ao tesão e ao desejo de tê-la novamente. Sem
dizer, no desejo contido em meu coração de amanhecer todos os dias ao seu lado.
Então precisava pensar.
Estava travando uma luta interna para não sair correndo atrás dela e trazê-la
de volta, mesmo contra sua vontade. Obrigá-la a ficar comigo como castigo por
ter me feito apaixonar de tal forma, mas uma coisa que os D’Angelis começaram
a jogar em minha cara depois de me contarem que eu não era filho de Catarina, e
que deviam estar certos, é que em meu sangue não corria o sangue destemido
deles. Que eu era fraco demais. Não lutava pelo que queria e nem era persistente.
E agora eu agradecia a Deus por entender que nem sempre, no caso deles,
destemido tinha um bom significado. Eu entendo, e espero que a Sofia entenda
que nesse momento eu apenas esteja respeitando sua vontade.
Por aqueles dias, eu tive que admitir... Mesmo sem conhecer minha mãe,
deveria ter muito do caráter dela, graças a Deus. E por isso entendia que a Sofia
precisava tomar por si mesma, seu espaço na sociedade. Tanto profissional,
quanto pessoal.
Quando descia naquela terça-feira para o trabalho, vi um homem de costas,
ao bar do hotel, e nem precisava dizer que o reconheceria em meio a uma
multidão.
— Liam! — Cumprimentei.
— Espero que possa adiar um pouco seu trabalho e se reunir a nós na
mansão D’Angelis. Seu antigo lar até pouco tempo.
— Lar? — Fiz uma menção de rir, porém não prossegui. — Lógico. Eu não
tenho horário para bater ponto.
Acompanhei-o até o lado de fora, percebendo que ele esperava que
fôssemos com meu carro. O manobrista logo estacionou diante de nós, e para
não perder o costume, o Liam foi reclamando.
— Qual o motivo de ainda manter esse carro popular? — Se arrumou no
assento e colocou o cinto de segurança. Dei partida no carro, e sorri.
— Ele me leva onde preciso. É econômico. Não vejo o motivo de adquirir
outro no momento.
— Segundo as revistas, você está na lista dos mais ricos do país, enquanto
as empresas de sua família afundam. — Eu deixaria que o Liam caísse em sua
própria armadilha. Agora eu era família. Que piada. Só faltava me abraçar e me
beijar no rosto.
— Se não me engano, quando foi estudar no exterior, sua função única e
exclusiva era voltar e administrar os bens da “família” para não chegarem a esse
ponto.
— É o que tenho tentado desde então. Mas do jeito que me foram
entregues, era quase impossível evitar chegar aonde chegamos.
— Não penso assim. Talvez seja suas escolhas. Fazendo acordos
mirabolantes? Tentando se der bem à custa do dinheiro alheio? Eu pensava que
ensinavam investimentos. Cortes de gastos. Economia... Essas coisas, nas
grandes universidades de administração. — Pensei que com toda sua arrogância,
iria me responder à altura, mas não, sabendo quem detinha o dinheiro, quis
apelar para meu lado sentimental. Sem saber que eu estava imune às chantagens
da família fazia algum tempo.
— Nunca irá entender sobre sacrifícios. E eu não te condeno Mark. Tiraram
você do convívio de sua mãe. Se não o tivessem feito, entenderia metade de
minhas ações pelo bem de minha mãe.
— Para Liam! Acho que amor de mãe para filho e de filho para mãe, ou
deixa eu me corrigir. Amor, Liam, não precisa de sacrifícios. Não nesse do tipo
que vocês fazem. De sempre prejudicar alguém. Tramar contra pessoas. Se
tivessem me tratado como um filho, e você não tivesse aprontado tanto, acha
mesmo que eu teria tanta resistência em ajudar? Quantos casos de famílias em
que o bastardo, ou o filho adotivo, ajuda mais que os filhos biológicos em
gratidão. E eu não teria feito diferente. Mas, você se revoltou quando soube que
minha mãe tinha dinheiro. Ao invés de continuar nossa amizade. Lembra? Já
fomos amigos um dia!
— Mas não era justo, eu ter que ficar fora estudando, para administrar um
dinheiro que nos viria em migalhas, além de que quando crescesse eu teria que
depender de você. De suas permissões. De sua boa vontade. Eu fiquei mesmo
muito bravo com meu pai. Bravo por você existir. Muito bravo mesmo. E não
venha me tirar esse direito, afinal, eu era filho legítimo quando você entrou em
nossas vidas.
Eu teria parado o carro e dado meia volta se não estivéssemos de frente à
casa dos D’Angelis. Mas agora era tarde. Eles precisavam de mim, e eu ainda
tinha que ouvir o Liam dizer que ele estava na razão de sentir raiva porque seu
pai havia tido um filho fora do casamento. E que agora mesmo sabendo que esse
irmão poderia os tirar da falência, ele não tinha vergonha de admitir seu rancor.
Sua sorte era que meu pensamento continuava o mesmo. Mesmo que ele não
tivesse a consciência, eu tinha a certeza que a vergonha tinha que ser dele por ter
essa atitude. E não minha.
Parei o carro diante o portão da mansão, e assim que abriram, eu entrei e
estacionei na entrada da casa. A primeira coisa que me chamou a atenção foi à
placa de leilão anunciando o dia e à hora.
Ao entrar na sala, notei que meu pai esperava em uma poltrona, e Catarina
no único sofá que restava. Olhei em volta e meu coração se compadeceu. O lugar
antes abrigava no mínimo uns nove sofás, entre peças móveis antigos da família,
e alguns vindos da Itália, que era a paixão da Catarina. Cumprimentei a ambos e
me sentei, esperando a proposta que eu sabia que fariam. Por um tempo,
ninguém disse nada. E quando eu jurava que o Liam seria o primeiro a vir com
suas loucuras e fui surpreendido.
— Eu não soube ser uma boa mãe sequer para meus filhos Mark. Quem
dirá para um garoto cujo mãe era o grande amor da vida de meu marido. — Eu
nunca tinha visto a Catarina tão disposta a colocar as cartas à mesa. E lógico que
havia um motivo. — Essa casa Mark, é a única coisa que resta da minha família.
Eu não tenho para onde ir. — Em nenhum momento ela se debulhou em
lágrimas ou fez teatro, apenas falou o que eu estava farto de saber. Uma má
administração. Gastos inadequados. E principalmente o não encarar de uma
realidade a colocavam naquele exato momento, onde estava. Tendo agora que se
humilhar para o filho da mulher que ela mais devia ter odiado em sua vida.
— Catarina, se eu salvasse sua casa hoje. Do que viveria? Como se
sustentaria? Como manteria essa casa em condições habitáveis? —Catarina não
sabia fazer nada além de se considerar uma ótima anfitriã, e organizar festas
maravilhosas. Mas em suas atuais condições financeiras, não teria como
continuar com suas atividades, mesmo que continuasse a viver em uma casa
linda como a mansão.
— Se você liquidar a divida, — O Liam sentou-se próximo a ela. —
Permitindo minha mãe... E eu, continuarmos vivendo aqui. Conseguirei um
emprego, e sustentarei a nós dois. — Eu respirei, sabendo que eles nunca me
deixariam em paz. Cada dia seria uma coisa diferente. Mas também não poderia
de todo virar as costas aquelas pessoas. E se alguém me perguntasse hoje,
baseado em quê? Baseado nas palavras que eu disse à Catarina logo em seguida
que a fará pensar por um tempo, eu espero.
— Eu vou sim, Catarina. Saudar a dívida da casa. — O Bento que havia me
colocado a par da situação. O Liam fora obrigado a vender o resto da empresa
que pertencia à família e usar o dinheiro para o acerto com os funcionários. Até
pedi que meu advogado averiguasse que ninguém ficasse sem receber o que era
seu por direito. Claro que sem o Liam saber. Eu acertaria do meu bolso. Mas não
foi preciso. A justiça havia tomado tudo o que restava e saldado as dividas.
— Nem sei como agradecer filho! — Quando a Catarina se levantou, eu
ergui minha mão.
— Não Catarina, não é necessária qualquer tipo de manifestação
sentimental, uma vez que nunca tivemos isso. Quanto a casa, ainda farei um
pouco mais, pagarei uma porcentagem das despesas fixas, para ajudar o Liam.
Sabem que será muito pouco, mas será minha contribuição, e que eu nem
precisava fazer isso. Mas sei que sozinho ele não conseguirá. Portanto, ficarei
responsável pelo salário de dois funcionários. Uma arrumadeira e um jardineiro.
Seria uma tristeza ver esses jardins abandonados. No mais, vocês se virem com
as demais despesas. E... Não se aproximem da Sofia. Essa é minha condição para
essa pequena ajuda. Sua tranquilidade pelo meu sossego e paz.
— Nem estávamos nos lembrando de Sofia.
— Que bom! Que isso permaneça assim. No dia em que eu souber ou
suspeitar que você, Liam, ou qualquer outro dessa casa, se aproximou dela para
qualquer coisa, perderão minha ajuda.
— A gente só não entende Mark o porquê dessa adoração pela Sofia. Ela
nunca gostou de você de verdade. Casou-se porque seu irmão pediu. Depois não
queria se separar porque queria ficar com seu dinheiro. E agora tem um novo
namorado. — Enquanto a Catarina falava o Liam jogou uma revista, destas de
fofoca perto de mim.
— É um editor famoso. — Havia uma foto da Sofia com o cara com o qual
eu a havia visto no supermercado e depois no fórum. Não estavam fazendo nada
demais. Ele apenas a conduzia por uma Rua da França. Mesmo assim, um
sentimento de tristeza tomou posso de mim.
— Não vim falar de mim, ou da Sofia. Vocês me chamaram. Se já
resolvemos tudo o que tínhamos, agora... Deem-me licença. Alguém precisa
trabalhar. — Quando passei pelo Liam não perdi a oportunidade. — E você...
Procure um emprego. Afinal... O que houve com o dinheiro da Lana?
Só então meu pai, silencioso, observando tudo de um canto se pronunciou.
— Ela deu para trás. Contou aos pais o trato com o Liam, e eles fizeram
com que se separassem antes com a ajuda de advogados, para que ele não ficasse
com o dinheiro dela.
— Poderia ter sido preso por extorsão, sabia Liam? — Sai da casa deixando
os três da mesma forma que entrei. Não entendi o porquê da presença de meu
pai, se ele mal havia se pronunciado.
Estranhei, mas achei melhor não causar nenhuma polêmica, indo direto para
o trabalho. Mal havia entrado na empresa, que por sinal estava com a recepção
lotada, e logo veio o Bento ao meu encontro.
— Viu isso meu amigo? Viu isso? — Era óbvio que se ele estava de posse
do jornal, eu não poderia, ainda ter visto. Respirei para não dizer com essas
palavras parecendo ser rude, com a pessoa errada, mais uma vez. — Apenas
estendi a mão e abri um sorriso.
— Não Bento, eu não vi. Do que se trata?
— Nossa campanha companheiro. — Ele parou me olhou e depois se
justificou. — Quer dizer... Sua campanha.
— Aí que você se engana meu amigo, é nossa sim! — Entrei em minha sala
e me sentei. Li o jornal que ele me entregou e vi a crítica, favorável. Um dos
maiores jornais, dizia que talvez o governo precisasse aprender a se comunicar
para que as pessoas entendessem a seriedade de procurar os postos de vacina e
imunização como faziam naquele momento depois da campanha de nossa
agencia. E que a população estava buscando ajuda porque havia ficado claro
seus direitos.
E durante a tarde, o que apareceu de imprensa querendo divulgar a agencia
e a nossa “história”, que eles começaram a chamar de “comovente” a atitude do
pessoal. Eu resisti no começo, mas não achei justo deixar escondida a ação dos
meus amigos de trabalho. Eles realmente haviam tomado uma postura grandiosa
diante de um momento difícil que eu estava passando. Em pouco mais de uma
semana, nossos contratos haviam triplicado. Vai entender a cabeça do ser
humano. Eu achando que toda aquela exposição fosse ser negativa por me
relacionarem com a doença. Seria esse o pensamento de todas as pessoas que
passavam por esse momento? Pedi minha assistente que assim que pudesse
marcasse para mim consulta com psicólogo. E pedisse ao meu agente de viagens
que me fizesse uma visita ainda naquele dia.
Depois analisar alguns pacotes de viagens, e de mais um dia de trabalho, eu
devia estar exausto, mas as ideias surgiam, e eu fui ficando, vendo e ouvindo
cada um sair se despedindo, perguntando se precisava de algo até que fiquei
sozinho. Por volta das dez, decidi que estava faminto e precisava de um bom
banho.
Quando fechei a porta da agencia atrás de mim, senti que não estava
sozinho.
— Pai? — Ele ainda estava nas sombras, mas eu sabia que era ele.
— Fiquei esperando você sair. Precisava te dizer algo que sua mãe me disse
em nosso ultimo encontro.
— Quer entrar?
— Não filho! Não precisa!
— Você mantinha contato com ela. Eu devia ter suspeitado.
— Catarina nunca superou e eu fui omisso em permitir que ela criasse você
de qualquer jeito. Talvez até usando você para se vingar de mim e de sua mãe,
mas ela nunca deixou transparecer que tratava você diferente dos outros. Não
quando eu estava em casa.
— Tudo bem! Isso já não importa. E minha mãe?
— Vendo você hoje conversando com seu irmão, e a Catarina. E tendo
certeza que se fosse eles em seu lugar você estaria na miséria. Era como se eu
visse o olhar bondoso de sua mãe. O jeito de ela ser. De ela tomar posição sobre
tudo e todos. E da ultima vez que nos vimos ela disse: “Álvaro, que orgulho de
ver que apesar de conviver com vocês, meu filho se tornou uma boa pessoa”. Ela
estava com um testamento em que deixava metade do dinheiro para uma
instituição, caso você fosse como o Liam. Ela queria ajudar as pessoas. E depois
de alguns anos morando aqui, vendo você a distancia ela se convenceu que você
merecia tudo o que ela havia herdado. Nem ela mesma sabia da existência de
tanto dinheiro até tempos atrás.
Meu coração estava em paz com todas as palavras que meu pai dizia
naquele momento. Não estava dando saltos, porque se me perguntassem qual
seria minha escolha entre o dinheiro ou a presença de minha mãe, claro que
optaria que ela tivesse me levado com ela. Mas, estava agradecido por ela ter
reconhecido meus esforços, mesmo que a distancia.
Prometi ao meu pai que o deixaria em casa, e assim eu fiz. Durante o
trajeto, todas as perguntas que eu fiz sobre minha mãe, ele fez questão de
responder. Por enquanto eu me dava por satisfeito.
Eu estava aliviado, não tão emocionado para chorar, e talvez fosse essa a
reação que meu pai esperava. Mas, estava com a consciência em paz com minha
mãe, que havia falecido a pouco sem me dar a oportunidade de lhe conhecer.
Estava satisfeito com o arranjo que havia feito com a família. E agora só
precisava acertar minha vida com a Sofia. Mas antes eu tinha que cumprir
algumas tarefas, e promessas que havia feito. E começaria por minha viagem
com a Ana.
Vinte e quatro.
Mark,
A Sofia parecia ter se esquecido de mim. Não dava sinal de vida. Mas eu a
acompanhava de longe. Cada notícia e palavra sobre ela, eu tinha anotado em
minha agenda. Fosse a menor nota que saísse em jornal ou revista. Brasileira ou
não. Eu sabia que ela havia ganhado duas notificações em um jornal da França
há pouco tempo sobre um artigo, e agora sobre seu livro que seria lançado ao fim
do mês. A legenda sobre a foto dizia tudo: “Jovem escritora caí na graça de
público, chamando atenção de editoras”. Isso para mim significa que mais de
uma editora estava oferecendo a Sofia a oportunidade de escolher melhores
ofertas.
A agência também estava indo bem! Muito bem por sinal, e ganhávamos
nosso primeiro prêmio de propaganda de publicidade. E não por nenhum
comercial ou algo desse tipo encomendado, e sim por nossa própria iniciativa.
Nossa campanha de conscientização pelo tratamento da TB. Naquela noite
teríamos um evento em comemoração. O Bento estava animadíssimo com toda
atenção voltada para nós, e com o meu aval para notificar sobre nossa expansão.
Enquanto ele falava com as pessoas, eu me afastava cada vez mais. As mulheres
ali, embora lindas, se tornavam para mim, cada vez mais desinteressantes, vamos
dizer assim.
Era como se ela “Sofia” tivesse injetado uma droga em minhas veias para
que eu não conseguisse me interessar por mais ninguém.
— Enquanto ela não. Está lá com ele!
— Está tudo bem, Mark? — Vir-me-ei e deparei com minha assistente atrás
de mim. Havia me afastado até a sacada do prédio, evitando ao máximo as
pessoas.
— Luiza. Pensei que estivesse sozinho. — Ela sorriu e me entregou um
copo com água. Eu aceitei. Desde minha infecção, nunca mais havia sentido
confiança de colocar bebida alcoólica na boca, o que de certa forma teria sido
bom.
—Vi você se afastar e pensei que pudesse estar se sentindo mal. — Nunca
me deixavam sozinho. De certa forma eu agradecia. Mas eu estava de alta! Eles
haviam participado de todo processo. Foram dois longos meses em que visitei
categoricamente o médico semana após semana, até que ele dissesse que eu
poderia retomar toda minha rotina. Lógico de que cuidados serão para sempre,
mas não nesse nível exagerado. Agora é normal. Como dizem... É vida que
segue!
— Estou bem! É só...
— A Sofia! Eu não entendo por que não foi atrás dela até agora Mark? —
Eu tomei toda a água do copo de uma única vez.
— Essa é minha única vontade todos os dias quando acordo. É meu único
desejo durante todo o tempo enquanto trabalho.
— E por que não vai?
— Porque nos renderíamos ao amor que sentimos pelo outro, e depois
quando ela amanhecesse um dia depois de muitos anos de nossa vida, frustrada,
me culparia por tudo o que ela não foi em sua vida. Ela precisa ser o que quer. E
ser minha depois disso para que possamos continuar. Você não entende. Quando
ela chegou à casa dos D’Angelis, eles roubaram tudo o que podiam da Sofia. Até
eu mesmo me aproveitei da Sofia quando pude. E agora, não posso fazer isso
com ela. Ela precisa de liberdade. Embora talvez eu tenha feito algo, em nosso
ultimo encontro que ela poderá me odiar pelo resto da vida.
— Então melhor não ir.
— É! Melhor não! E também... Amanhã estarei cumprindo uma tarefa
muito importante.
— Se falar de novo nessa viagem eu vou surtar.
— Vai me dizer que nunca... — Ela virou as costas e não me deixou
terminar a frase. As pessoas não tinham senso. Se não realizavam seus sonhos
não compartilhavam da alegria do outro.
Eu encerrei minha noite ali, e voltei para casa. Tinha certeza que o Bento e
o resto da equipe dariam conta de representar a empresa com eficiência.
Quando entrei no hotel naquela noite, jurei que seria a ultima. Quando
voltássemos de viagem, seria para nossa casa. O advogado havia me dito que o
arquiteto estava com todos os documentos preparados para a liberação. Uma
semana e poderíamos nos mudar. E como estaríamos fora pelo menos por duas
semanas ou mais, seria tempo suficiente.
Não vi movimento no quarto da Ana, então passei direto ao meu e vi as
malas prontas. Ela estava tão radiante que não poderia pensar em qualquer
possibilidade de decepcioná-la.
Naquela noite, não foi diferente. Peguei o celular e li o relatório de um
amigo meu, detetive, sobre o dia da Sofia. A não ser um pequeno detalhe na
mudança de cardápio no almoço... Tudo era rotina.
Saímos quase de madrugada. Ana estava calada, e isso me preocupava. Isso
era natural dela na casa dos D’Angelis, mas comigo? Era no mínimo estranho.
Falava o tempo todo. Eufórica! Como se só agora estivesse vivendo a vida como
ela devia ser vivida de fato. Contava sobre as novelas. Os artistas dos quais eu
nunca sequer ouvira falar. E um dia até me mostrou um autógrafo de um rapaz,
por sinal muito bem apessoado, que segundo ela, era da novela das oito, e que
por incrível que pareça estava hospedado no mesmo andar que o nosso.
Questionei umas duas vezes se o motivo do silêncio seria medo do voo, mas
ela negara veemente. Eu acreditei. Mas não tirei da cabeça seu silêncio. Porém
quando vi seus olhos brilharem ao desembarcarmos na Disney, aquietou-me. Seu
sorriso era largo e as frases mais ouvidas eram “obrigada” “Nunca irei me
esquecer”.
Minha escolha não foi alheia. Desde criança vejo a Catarina prometer trazer
a Ana “qualquer dia desses”. E esse dia nunca chegou. Por isso, Sofia e eu às
vezes nos sentávamos, muitas vezes quando a gente chegava de viagem, e ela
queria detalhes de como era a Disney, e ela sempre dizia que uma dia traria a tia
até aqui. Não sei por que a Ana não pediu para a Sobrinha viajar com ela.
Lógico! Sorrio comigo mesmo. Sob a perspectiva da Ana, uma viagem
dessas para a sobrinha seria uma despesa impossível para o momento. Mas, ela
tem o dinheiro do acerto. Poderia usá-lo para viajarem as duas.
— Mark, essa viagem não é só para quem está acompanhado de criança? —
Ela me tira de meus pensamentos e me faz sorrir.
— E quem disse que vamos nos portar como adultos? — Logo chegamos à
casa que alugamos. E mal chegamos, saímos para as compras. E foi divertido.
Tudo! Quanto para Ana, quanto para mim, era novo. Eu nunca tive a
oportunidade de fazer compras com minha mãe, e a Catarina nunca se dera ao
trabalho de ir, ou nos levar ao supermercado. Não que eu me lembrasse. E foi em
um supermercado da Disney que a Ana viu a primeira foto da sobrinha, que
estava em evidencia em uma revista. A manchete não era grande, mas eu fazia
questão de guardar qualquer coisa que saísse sobre ela.
— Que orgulho dessa menina Mark! Que orgulho! — A qualquer hora suas
lágrimas cairiam. E eu não a culpava. A foto estava linda. A Sofia estava
perfeita. E meu sorriso logo se perdeu, ao ver que o tal editorzinho continuava lá
também.
— Mark... Eu, — Pobre Ana. Devia ter notado o desapontamento em meu
rosto. Mas ela não tinha culpa. E ela mal sabia que eu tinha um plano para
reconquistar a Sofia. Estava apenas aguardando o momento correto. Coloquei a
mão em seu ombro e com a outra empurrei o carrinho.
— Está tudo bem, Ana! Está tudo bem!
E ficou de fato! Não houve mais nenhum incidente. Não tocamos no nome
da Sofia. Apenas nos divertimos como duas crianças. Visitamos algumas cidades
próximas, e no fim de semana estávamos exaustos.
Embarcamos para a grande Las Vegas. Conhecer os famosos cassinos. E
quem diria que a Ana iria amar jogar nos Caça-níqueis. Eram pequenos detalhes
que nunca fiz com nenhuma das pessoas de minha família.
— Mark? — Nem mesmo com a Angel que agora vinha ao meu encontro.
Acabávamos de desembarcar em Nova Iorque e por mais que tentasse dizer não,
e ficar em algum hotel, a insistência dela foi maior, e passaríamos dois dias em
seu apartamento.
— Angel! — Como ela estava diferente. Devia estar pensando o mesmo
sobre mim. A diferença é que eu havia perdido todo o peso que provavelmente
ela havia encontrado. — Como você está?
— Como pode ver, — ela se afastou e abriu o, sobretudo. — Grávida.
— Grávida? — Enquanto eu continuava ali perplexo, ela e a Ana faziam
festa.
— Minha linda! Que boa notícia. — A Ana era só sorriso, enquanto eu só
conseguia repetir a palavra.
— Grávida!
— É Mark! Grávida! Você vai ser tio. Vou ser mamãe. Agora vamos e eu
explico no caminho. — E que a explicação fosse lógica e rápida. Ninguém sabia
disso e pelo jeito, devia estar nos dias de ganhar. Quando me dei conta do que
estava acontecendo, estávamos prestes a entrar no carro, eu puxei a Ana de volta.
— Não! De jeito nenhum! Vamos embora Ana.
— Mark, o que é isso? — A Ana parecia assustada, mas eu iria explicar.
— Da ultima vez que soube de algo da vida da Angel antes de todos, minha
vida virou de cabeça para baixo. Não quero ser cúmplice novamente.
Simplesmente assim. — Mas quando ela me abraçou eu me lembrei do que é ser
sozinho na vida.
— Por favor, Mark! É importante para mim. Você pode ser a única família
que meu filho venha a conhecer. — Eu nunca tinha sentido uma dor tão aguda
em meu coração. Nem quando estava doente. Nem quando a Sofia havia partido.
— Os outros não me importam. Não sabe como fiquei quando soube que estava
doente, mas não tinha condições de viajar até o Brasil. Eu temi pela sua vida. Eu
chorei vários dias seguidos. Por isso insisti tanto que viesse. Foi uma
inseminação legal. Não tínhamos condições para tentar novamente e deu certo da
primeira vez. Seja um tio para ele.
— Angel...
— Por favor, — Ela tinha que saber que jamais a abandonaria.
— Ele está brincando minha filha. Não conhece seu irmão? Ele jamais faria
uma coisa dessas com você. Agora vamos! — A Ana quem tirou a Angel de
meus braços e a conduziu até o carro. Eu estava sem ação. Ela havia quebrado
barreiras instaladas em mim, ou talvez sentimentos mal construídos, que ainda
precisavam ser trabalhados com mais afinco.
Entrei no carro em silêncio e durante o trajeto, a Angel conversava com a
Ana, sem tirar os olhos da estrada, dirigindo assim, por mais de uma hora e
vinte.
O apartamento era aconchegante. E enquanto elas arrumavam as malas, eu
convidei a Kate, e juntos fomos às compras. Eu não sabia qual era a real situação
de minha irmã, fosse ela financeira ou emocional, com certeza não me contaria.
E minha desconfiança minutos depois se tornou uma confirmação que abalou
minhas estruturas. No caminho descobri que a gravidez da Angel era de risco, e
ela havia combinado com a parceira que apenas as duas e eu, saberíamos da
situação.
Ela havia desenvolvido durante a gravidez o diabetes gestacional, e agora
devido à quantidade de açúcar no sangue, muito superior ao esperado, fazia uso
de remédios hipoglicemiantes orais e até mesmo insulina a fim de controlar o
açúcar do sangue mantendo-o sob índices aceitáveis.
— Ela estava esperando você estar melhor.
— E se eu não melhorasse? Ela precisa de ajuda. Ela precisa de alguém da
família por perto.
— Calma Mark! Esqueceu-se de que eu sou a família dela agora? — A Kate
tinha razão. Mesmo assim, eu passei a considerar a dar a minha irmã uma
quantia considerável por mês para ajudar nas despesas enquanto ela não pudesse
ajudar a Kate. E também para os gastos com o bebê. Se eu estava ajudando aos
D’Angelis do mal, o que me custava ajudar a Angel, que sempre foi minha
pessoa preferida naquela casa.
Eu entrei no apartamento com outro olhar. Eu via a Angel se movimentar e
tinha a impressão que a qualquer momento ela fosse desabar. Mas, não! Ela
permaneceu forte. E dois dias depois, quando seria a data de partir, eu fui falar
com a Ana.
— Eu não posso! — Eu tinha consciência que precisava ir embora. Quase
quinze dias fora de casa, e precisava voltar ao trabalho. Mas não podia deixar a
Angel ali, sozinha. Eu entendia a Kate. Mas a Kate precisava me entender. Eu
não era o Liam. Eu não era a Catarina e muito menos meu pai. Não conseguiria
virar as costas a ela, e continuar nossa rota de passeio como era nosso
combinado de passar em no mínimo duas cidades brasileiras antes de encerrar a
viagem.
Mas naquele momento quando a Ana me abraçou e chorou eu soube que
fazia a coisa certa.
— Eu tinha certeza que não faria. Tinha certeza que não deixaria sua irmã
nesse momento. — Sequei minhas lágrimas e segurei sua mão.
— Vou te levar ao aeroporto, e...
— Acha que entrarei naquele avião sem você?
— Ana, eu não sei quando, — o coração da Ana era sem tamanho. Ela
permaneceu comigo até dois dias depois quando os primeiro sinais vieram. Eu
teria me arrependido no meio do caminho quando soubesse sobre o parto.
Havia levado mais de três horas depois para termos as primeiras notícias.
Foi preciso fazer uma intervenção cirúrgica que não estava nos planos das
meninas, e nem tão pouco no orçamento. Sei que esse não era o objetivo de
minha irmã quando me convidou para estar com ela, mas não me custou arcar
com as despesas extras.
E pegar aquele ser tão pequeno nos braços me deixou tão irradiante, que
desejei por alguns segundos que fosse minha vida. Minha família e meu filho. A
alegria delas era contagiante.
— Mark?
— Sim. — Eu não conseguia tirar os olhos dele. Estava curioso para saber
se os olhos seriam tão claros quantos os da Angel.
— Queríamos muito que daqui a uns dois meses, você pudesse voltar para
batizar nosso bebê.
Eu não tinha o que dizer. Apenas sorri. Era meu primeiro afilhado na vida.
Nem de casamento eu os tinha. Aquilo significava muito para mim.
— Não sabe como estou feliz!
Aproximei-me dela, e beijei seu rosto. Assim também fiz com a Kate. E
senti que queria muito do que elas viviam naquele momento, mais que tudo na
vida. Eu queria e precisava da minha família de volta. Da minha esposa!
No aeroporto, ainda aquela semana, eu olhei a Ana e ela sorriu sabendo que
havia algo de errado.
— Não vamos para casa?
— Não! Vamos buscar a Sofia!
Vinte e cinco.
Mark,
Eu estava tão decidido. Tão aflito em contar a ela sobre meu sobrinho e
tudo o que havia acabado de viver. Foram às oito horas mais aflitas de minha
vida. Contei os segundos, mas não poderia vacilar e deixar que a Sofia me
escapasse dessa vez.
Por fim, ao desembarcar na França, eu não tinha condições moral e física de
ir ao seu encontro no estado em que estava. Precisava dormir. Descansar.
Alimentar-me. E deixar que a Ana fizesse o mesmo. Afinal, ela não tinha mais
idade de passar tantas horas dentro de um avião como estávamos vivendo.
Fiz a reserva próximo ao hotel dela. No mesmo hotel, onde meu amigo que
acompanhava a Sofia de longe havia me passado. Segundo ele, se eu me
hospedasse no hotel onde ela estava, nem sentiria nossa presença. Isso devido à
grandiosidade do hotel, e segundo porque dizia que ela mantinha uma rotina, na
qual mau saia do lugar. Saía apenas uma vez ou outra para jantar ou almoçar
com um senhor, quando este estava na cidade. Umas três vezes com o editor e o
resto sempre estava sozinha. Em sua rotina, sempre havia uma caminhada às
tardes. Essa não faltava.
Depois de dormir por quatro horas apenas, eu me levantei. Ensaiei todo um
discurso diante do espelho do banheiro, fiz a barba. Eu não poderia errar desta
vez. Tudo devia estar impecável.
— Claro. Se quiser se mudar para a França meu amor. Se achar que aqui é o
melhor lugar para exercer sua profissão será aqui o nosso lar. — Eu parecia
mesmo um idiota falando sozinho. Mas por ela... Não tinha vergonha de ser. O
que não podia mais era ficarmos longe um do outro.
Quando saí do banho, usando um moletom, recebi um olhar da Ana e não
foi dos mais animadores. Pensei em me trocar, mas para a ocasião, era o correto.
Caminhada ser faz de moletom e o tempo também estava frio.
— Não vamos mesmo contar a ela que estamos aqui? A Sofia pode não
gostar Mark. Ela anda tão ocupada.
— Falou algo com ela Ana? — Sentei-me diante dela.
— Não! Apenas sondei sobre sua vida. Quando iria me visitar. E ela falou
um tanto de coisa. Olha você mesmo. — Ela mostrou o celular onde a Sofia
havia descrito várias atividades durante a semana. Estava mesmo muito ocupada.
Nem havia dado muito atenção à tia. Agora eu entendia porque estava sendo o
alvo das atenções da Ana. Ela devia se sentir sozinha sem a Catarina e agora sem
a Sofia por perto.
Voltando à agenda da Sofia, tentei ver qual seria e melhor forma de lhe
abordar.
— Aqui Ana. — Mostrei a ela um evento, onde a Sofia faria uma leitura de
algumas páginas de seu livro.
— É! Mas, Mark... Se não der certo ainda. — Era como se ela soubesse de
algo. Então pela segunda vez insisti. E negou que soubesse.
Passei a semana toda, acompanhando a Sofia de longe. Encontrei-me com
meu amigo, e segui com ele cada passo que ela deu. Como pode a cada dia estar
mais linda!
Era como ele dizia. Ela manteve uma rotina pelos dois dias. Ao contrário do
que havia dito a tia. Não cumpriu nada do que havia descrito. Então decidi não
desiludir a Ana, mas decidi ir ver a Sofia no hotel.
No terceiro dia tomei café, e não esperei a noite, como era o combinado
com a Ana para irmos até o evento para ver a Sofia ler as páginas de seu livro.
Eu temia que a Ana se decepcionasse ao saber que a sobrinha havia mentido.
Caminhei até o hotel da Sofia, me perguntando o porquê a Sofia estaria
enganando a própria tia? E minhas hipóteses eram que, talvez ela quisesse deixar
a tia tranquila em questão a sua profissão. Quem sabe apenas quisesse
tranquilizá-la mostrando que estava cheia de compromissos. E a outra hipótese é
que talvez ela estivesse escondendo algo. Mas o que poderia ser?
Quando entrei no hotel e pedi informações, logo a recepcionista me
perguntou se havia marcado horário.
— Não! Não marquei! Ela é uma amiga. Estou passando pela cidade e
gostaria de tomar um café. — Eu me arrependi naquele momento de não ter dito
que era o marido dela.
— Me desculpe senhor, são normas do hotel que nossos hospedes não
sejam incomodados caso não esteja com visitas marcadas.
— Não pode sequer interfonar e dizer que o Mark está aqui.
— Se o senhor é amigo, não teria o numero do celular? — Sim! Eu voltaria
até nosso hotel, a duas quadras dali, e pediria a Ana que ligasse para ela. Não era
bem o que eu queria, mas teria que ser assim.
Voltei para o hotel, e Ana e eu tentamos falar com a Sofia, mas foi em vão.
Ela não respondia as mensagens da tia. E muito menos atendia as ligações.
O jeito era esperar!
A noite veio, e nós nos dirigimos para o local onde estava marcado o
evento. A Ana continuava muito apreensiva. Eram poucas as vezes que eu me
atrevia a me direcionar a Deus, e essa foi uma delas. Eu não gostaria que a Ana
saísse do lugar frustrada com a sobrinha.
A boa notícia era que o evento existia de fato. As pessoas começaram a
chegar, e em poucos minutos nós avistamos a foto da Sofia.
O evento tinha entrada franca, não foi difícil entrar. Depois de dois autores
horríveis foi à vez de a Sofia ler o seu trabalho. Meu coração estava acelerado.
— Senhoras e senhores espero que apreciem o trabalho dessa brilhante
escritora que tem chamado nossa atenção nos últimos meses. —Com as luzes em
penumbra, não teria como ela ter nos visto bem atrás da pequena multidão de
leitores e escritores sentados atentos aos novos trabalhos disponíveis no
mercado.
— Obrigada!
Ela estava um tanto tímida ainda, e quando desceu do pequeno palco, o
editor fez questão de colocar a mão em sua barriga me incomodando
profundamente.
— Eu queria começar de um trecho que é o mais importante para mim
nesse trabalho. É sobre ser livre e trilhar seu próprio caminho.
No exato momento em que ela começou a ler cada palavra era como se
fosse dirigida a mim.
— Talvez ela nunca o tivesse amado. Talvez seu coração não batesse mais
como um dia tivesse batido. Quem poderia garantir que quando aberta as portas
da gaiola, ela voaria e amaria de tal forma o voo que nunca mais se sentiria feliz
sendo presa novamente? — Eu poderia jurar que ela havia me visto. Que estava
olhando em meus olhos naquele exato momento. — Que garantia teria de que
não se apaixonaria por um pássaro que também voava livre, alçando os mesmos
voos que os seus. — Meu coração estava tão acelerado que eu não poderia dizer
se aguentaria continuar ouvindo aquelas palavras. Mas eu também não deixaria a
Ana ali, então fiquei. Ouvindo cada palavra enquanto meu coração chorava. Eu
tinha para mim que não era mais a minha Sofia. Ela parecia distante. Agora ela
parecia ter encontrado seu lugar. Parecia estar em casa. E quando terminou, sua
ultima frase veio como uma flecha em meu coração. — Como poderia o amor
existir? Agora ela sabe que nunca existiu! E livre ela pode amar outra vez!
Antes de ela descer, no entanto, o tal Bernardo subiu e a beijou na boca à
frente de todos.
— Portas fechadas para o amor só no papel senhoras e senhores, porque em
breve estaremos subindo ao altar, e teremos nosso primeiro herdeiro. — E tocou
pela segunda vez sua barriga. Foi então que entendi e observei o motivo pelo
qual eu achava que a Sofia estava tão linda e diferente da ultima vez em que nos
vimos, ela estava Grávida.
As pessoas aplaudiram, mas ela devia estar sentindo enjoos e acabou saindo
do pequeno palco e saindo pela porta dos fundos.
Mesmo com um nó na garganta, e uma dor que dilacerava meu coração, eu
não queria deixá-la no estado em que se encontrava.
— Sofia, minha filha.
— Venha Ana, vamos ver se a gente consegue alguma notícia dela. —
Estava agindo contra tudo o que tinha vontade naquele momento. Eu queria sair
socando o rosto de todo mundo, para que sentissem a dor que estava cravada em
meu peito. Meu coração soluçava.
Fomos até a porta, por onde ela havia entrado, e nos deparamos com o
Bernardo em pessoa.
— Mark D’Angelis. O que faz por aqui? — Eu olhava por cima de seus
ombros tentando vê-la, mas não estava ao alcance de minha visão.
— Essa é a tia da Sofia. — Mostrei a mulher apavorada ao meu lado. — Ela
não queria sair sem notícias da sobrinha. Estamos de passagem na cidade, e
viemos assistir a apresentação.
— Sei! — Desconfiado de minha história, ele abriu a porta dando passagem
à Ana, mas me impedindo de passar. E eu tive que engolir todo meu orgulho e
esperar até que a Ana saísse com notícias dela, mas agora também não tinha
mais importância. Ela tinha quem cuidasse dela. Tinha quem se preocupasse com
ela, e com seu filho.
Afastei-me um pouco pensando o quanto eu tinha torcido para que ela
tivesse ficado grávida em nossa última noite. Seríamos uma família feliz. Mas
nem para pai de seu filho ela havia me escolhido.
Enquanto esperava pela Ana ouvi passos, e me virei para ver que o
Bernardo se aproximava.
— Não me diga que veio do Brasil apenas para trazer a tia da Sofia para vê-
la. Que bondade a sua.
— Não estamos vindos do Brasil. Estamos de férias. Passeando.
— Ah, sim! Você agora é o D’Angelis rico! — Ele ergue a mão parecendo
se divertir. — Minto. E minto duas vezes. Primeiro porque segundo a Sofia você
agora é um milionário, e também não é um D’Angelis, não é isso? É um
bastardo. — Eu poderia ter quebrado a cara daquele cara ali mesmo, mas tinha
outras formas de fazê-lo sem sujar minhas mãos.
— Você vive de inventar histórias não é Bernardo? Então deve saber
melhor do que eu, que quando é o herói de sua história é bom que seja
convincente no que faz, mas que quando o herói é um terceiro você precisa ser
atento e fiel aos detalhes. Acha que me chamando de bastardo vai me ferir? —
Devolvi o sorriso, mesmo que eu estivesse sim magoado naquele momento. Mas
não era com o fato do infeliz ter me chamado de bastardo, mas com o fato de
saber que a Sofia falava de minhas particularidades com um sujeito que eu mal
conhecia. — Não me importo. Não me importo também de se meu sobrenome
fosse Fidelis, Souza ou Silva. Você por exemplo, não é um D’Angelis, e venceu
na vida. Todo o resto da população da terra não assina D’Angelis e vive. Mas,
infeliz nisso você está errado. Eu ainda sou um D’Angelis. Meu pai é o
D’Angelis. E eu continuo assinando esse nome que pelo jeito te persegue até
mesmo enquanto você transa com a Sofia. É assim que sabe tanto sobre mim?
Quando ela chama meu nome na cama? — Eu senti que agora ele me bateria,
mas então a Ana apareceu.
— Vamos filho! Está tudo bem! — Ela olhou assustada para o Bernardo
que começou a se afastar. — Foi um mal-estar, mas ela já está bem. Até saiu
pelos fundos, e está a caminho de casa. Só precisa descansar. — Olhei para a
porta e não vi mais sinal do homem. Com certeza ele teria ido acompanhar a
Sofia. Suspirei derrotado. Era o fim.
— Vamos Ana! Vou tentar comprar nossas passagens de voltar para o Brasil
ainda essa noite. — Todo nosso caminho até o hotel, foi feito em silêncio, e
enquanto ela fazia nossas malas também não disse uma palavra. Somente mais
tarde quando atravessávamos os portões de embarque, ao ouvirmos a primeira
chamada, a Ana tocou minha mão tentando me consolar. Não era preciso. Havia
uma luta interna em mim. Sabe aqueles dois diabinhos? Um queria muito que eu
fosse, atravessasse aquele portão e fosse embora, ciente que ela havia escolhido
seu caminho. E o outro insistia em dizer que eu fosse ao hotel dela e fizesse um
escândalo exigindo uma explicação. Ela prometeu me esperar. E agora estava de
casamento marcado? Eu era um idiota isso sim! Entreguei a passagem e o
passaporte à moça que sorriu e me desejou boa viagem e nem sequer olhei para
trás.
— Você sabia Ana? Sabia que a Sofia estava grávida? Era isso que tentava
esconder de mim? — Ela ficou em silêncio sentada ao meu lado esperando o
avião decolar.
— Ela sabia que eu contaria a você! Mal sabia que estava morando em sua
casa. Só hoje soube.
— Então você... — Passei a mão pelos cabelos. — Quantos maus
entendidos meu Deus. Ela deve estar com o Bernardo desde que saiu de minha
casa achando que de fato eu tinha outra mulher. Pensei que havia dito a ela que
estava morando em meu apartamento Ana. Por que escondia esse fato de sua
sobrinha?
— Ela me disse que assim que desse tudo certo voltaria para me buscar, que
eu ficasse mais um tempo com a Catarina. Mas eu não tinha mais como ficar
com sua mãe. Eu apenas ocultei dela que estava em sua casa. O dinheiro dela
ainda não dava para manter a nós duas em Paris. Ela não sabia que você havia
acertado comigo. E eu não podia contar. De onde eu iria dizer que a Cataria
conseguiu dinheiro? E também... Ela nem deu tempo. Estava muito empolgada
com sua história. Nem me deu tempo para falar. Fui almoçar e jantar com ela,
fora da casa dos D’Angelis e ela nem notou que eu não estava morando com
eles. — Ela começou a chorar do nada, como se fosse a culpada de tudo. — Eu
vou falar com ela e vou consertar tudo.
— Não Ana! Sua sobrinha tem o direito de fazer suas próprias escolhas.
Deixa-a seguir seus caminhos.
— Mas e você? Você a ama!
— Um só amar não adianta Ana! Eu também vou seguir minha vida!
Vinte e seis.
Mark,
— Não acha que já bebeu demais? — Era sábado! A boate acabava de
abrir. Não passava da 1h da manhã, eu apenas tinha pagado duas bebidas para
uma moça que estava ali, até a pouco, mas pensando bem, a pobre não havia ido
só ao toalete como dissera, eu também teria ido depois de me ouvir falar da Sofia
quarenta ou cinquenta minutos. O Bento pegou a garrafa vazia sobre o balcão e a
examinou. Não! Eu não tinha bebido demais. Ao contrário, eu tinha bebido
pouco. Pouquíssimo, eu ainda me lembrava do motivo que havia me levado até
ali.
— Você não lê jornais não é Bento?
— Leio! — Ele se aproximou e gritou novamente em meu ouvido por causa
da música alta do DJ. — Eu leio, a Ana lê. Por isso, que ela me ligou coitada,
preocupada com você. Os papéis pareciam invertidos. A Ana cuidava mais de
mim ultimamente que da própria sobrinha. Eu sorri achando aquilo engraçado.
— Ela devia estar preocupada, era com a sobrinha dela que vai se casar
semana que vem com um homem que ela mal conhece. Um homem que nem
chegou a ser apresentado à Ana que é a única família da Sofia. Não acha que
isso é no mínimo estranho? — O resto do diálogo deveria ser silencioso, mas
acabei fazendo em voz alta, e como ganhei a atenção do Bento, preferi terminar
o raciocínio. — Vai acordar o resto da vida ao lado de alguém que ela não ama.
Imagina Bento. Você teria coragem? — Vir-me-ei para o garçom e gritei: —
Garçom traz uma bebida pro Bento! Você teria coragem Bento, de deitar na
cama de alguém que você não amasse de corpo, alma e coração todos os dias?
Teria coragem de dormir nos braços de uma pessoa enquanto pensa em outra?
Hein Bento?
— Não!
— Vê só! Por isso está solteiro até hoje! E eu admiro isso em você! E não
te vejo por aí com uma e outra. Sei que quando encontrar a pessoa certa nunca
mais conseguirá sentir prazer com outra. E sabe por que eu sei... Porque é assim
que me sinto. — Virei meu copo.
O garçom entregou a bebida ao Bento, e ele acabou vencido, se sentando ao
me lado. Sabia que por mais que eu tivesse tomado uma garrafa, ou mais, tinha
razão.
— Eu não teria coragem! — Entreguei meu copo para que o garçom
renovasse a bebida. Por fim, pedi outra garrafa. O homem todo preocupado e
sem jeito perguntou ao Bento, se eu poderia pagar o que já havia consumido. —
Claro! — Entreguei o cartão a ele, e depois que ele me deu a garrafa, eu convidei
o Bento para sentarmos em uma mesa um pouco mais afastada. — Ela não está
pensando bem Bento. Ela quer me ferir, mas no fundo que vai sair ferida será
ela. Porque chega um determinado tempo no relacionamento em que as coisas
ficam difíceis, e é preciso que a gente se lembre de todos os dias dos nossos
momentos felizes. Que o casal se sente e refaça o percurso, cada passo e sorria
de pequenos detalhes de sua história para que continue a estrada. E quando for
preciso que ela faça isso, que história terá para se lembrar com esse, — me calei
por um instante. Eu estava me tornando um jovem velho amargo. E o Bento não
era obrigado a ficar ouvindo minhas lamentações.
— Talvez ela tenha um motivo Mark!
— Claro que tem. Se fosse meu, esse motivo teria uns cinco meses
aproximadamente. — Virei o copo. — Estaríamos morando em uma casa de dois
andares, com um lindo jardim, e eu mesmo gostaria de pintar as paredes do
quarto do bebê. Eu curtiria sua barriga todos os dias quando chegasse do
trabalho, e teria feito um escritório que daria de frente para uma piscina ou um
pequeno quiosque onde ela pudesse escrever todos os dias. Ela poderia ler para
mim o que tinha escrito naquele dia, enquanto eu tomava café, e afagava seus
cabelos.
— Não vai chorar não é Mark? — A vontade era muita! Então sequei as
lágrimas e confessei uma coisa que só confessaria a ele por ser meu melhor
amigo.
— Faço isso em casa. Não tenho vergonha de dizer. É como se uma dor
rasgasse meu coração todas as noites quando me encontro sozinho. Essa maldita
dor invade minha alma e me sufoca como se quisesse me levar ao túmulo. E sei
que ainda vai doer por algum tempo. Mas vai passar.
— Vai sim! Eu não sabia que a amava tanto!
— Nem eu! Quando eu saí de lá, dois meses atrás, eu achei que ela fosse
ligar para a tia dando alguma explicação ao menos, ou uma notícia, já que não
atendeu nenhuma das minhas ligações. Mas de todas as vezes que ligou para a
Ana, só falou banalidades. Pensei que quando soubesse que a Ana estava
morando comigo, iria abrandar seu coração, e até rever nossa situação. E nada!
— É foda cara! — Eu acabei rindo do Bento que quase nunca falava
palavrões no escritório e estava sempre atento aos mais jovens para que não
usassem certas palavras. Mas a verdade era que não estávamos no escritório, e
estávamos ali para extravasar. — Não acha então que é melhor nos misturarmos
ao pessoal na pista? — Eu duvidei um pouco que ele soubesse dançar, mas o
jeito foi arriscar, ou eu beberia sozinho o bar da boate.
Minhas pernas não obedeciam ao ritmo que minha cabeça comandava, mas
as meninas não demoraram a aparecer em volta. E a gente vai descobrir muito
tarde que e a batida da música, a iluminação e a quantidade de bebida que se
ingere com certeza não é a combinação perfeita. Mas ao menos eu estava me
sentindo mais feliz. Mais leve. E me divertindo por alguns segundos. A banda já
estava tocando e tudo estava perfeito. Até o Bento parecia estar se divertindo
com uma morena ao seu lado.
— Mark, você por aqui? — A voz era familiar, mas eu custei a reconhecer a
dona daquele corpo estonteante que se moldava ao meu em plena pista como se
tentasse me seduzir. Depois de algum esforço, eu sorri.
— Priscila. Priscila Mayer. Eu que pergunto que faz por aqui? Você é
sempre tão séria. — Passei os dedos sobre seus lábios perfeitos.
— Eu? Imagina! Séria quando estou no trabalho. Mas quando quero me
soltar eu sempre estou nas baladas. Pode-se dizer que sou “Priscila a rainha das
baladas" — Ela fez um trocadilho com um filme antigo, “Priscila a rainha do
deserto”. Olhou para os lados e mordeu minha orelha me levando a loucura. —
Está sozinho?
— O Bento está ali... — Tentei localizá-lo. Então o vi conversando com a
moça e não quis incomodar. — Está por aqui em algum lugar.
Ela pareceu não se importar com a informação que eu dei e se virou de
costas, colando seu corpo ao meu e dançando freneticamente. Se continuasse
daquela forma, me colocaria em apuros em pouco tempo. Ela mal se importava
com as pessoas que estava dançando em nossa volta, e meu corpo respondeu de
imediato traindo tudo o que eu havia dito ao Bento minutos atrás. Eu teria sim
coragem de ir para a cama com a Priscila e seria por uma boa causa. Esquecer de
vez a Sofia. Mas eu teria que ser sincero com ela. Não podia deixar que ela
embarcasse em uma viagem desavisada. Eu amava a Sofia.
E ali em meio a tanta gente, a tantas luzes eu parei, e a abracei. Enrolei seus
cabelos entre meus dedos e a observei fechar os olhos. Reuni toda coragem que
me faltava, e a trouxe de encontro com meu rosto.
— Priscila, eu...
— Eu te faço esquecê-la, Mark! Dê-me uma chance. Uma única chance pra
eu te provar que eu posso te fazer feliz. — Suas mãos estavam trilhando uma
área sensível do meu corpo, e minha preocupação eram as pessoas em nossa
volta. Então eu a tirei de meio à multidão até que encontramos um corredor
escuro. A encostei contra a parede, mas ela me virou e começou a abrir o zíper
da minha calça, onde enfiou sem nenhum pudor a sua mão quente e úmida. Eu
apenas fechei os olhos.
— Hummm. — Que homem não gemeria ao toque daquela mulher? Ela era
louca e eu pelo visto estava ficando louco também. A boate estava cheia e a
qualquer momento alguém passaria por ali. Mas Deus... Como eu precisava
daquilo. Sentir a boca quente dela sobre meu pênis. Eu precisava gozar de forma
que não fosse batendo uma pensando na Sofia.
E foi isso... Foi um único pensamento e tudo veio à tona.
— Espera! Espera! — Puxei a Priscila de volta para cima, e fechei minha
calça, ajudando ela se recompor. — A gente não pode fazer isso.
— Claro que pode Mark. Não viu os jornais da França? — Então até ela
sabia. A Sofia irá se casar. Você está livre. Eu sou livre. Se for por causa do
lugar, a gente pode ir para minha casa ou na sua.
— Não é isso Priscila. E eu sei que a Sofia irá se casar, mas se eu fizer isso,
— mostrei-nos dois. — Amanhã eu serei o pior homem do mundo. Eu terei te
usado, e nem será para esquecer a Sofia, porque eu não a esquecerei de um dia
para o outro, dormindo uma noite com outra mulher. Eu terei usado seu corpo
para sexo, e será apenas isso. E mesmo que você diga que se contenta com uma
noite, sei que irá sofrer depois quando eu não atingir suas expectativas.
— Mark? — O Bento olhou para nós e logo se virou pedindo desculpas.
— Tudo bem Bento.
— É que já estou indo, vou dar uma carona para uma amiga, e pensei que
como bebeu demais, talvez quisesse ir com a gente.
— Eu te levo Mark. — A Priscila ofereceu, mas eu preferi ir à segurança e
não cometer nenhuma besteira e engravidar a Priscila como poderia ter
acontecido com a Sofia.
Toquei o rosto dela e sorri.
— Até mais Priscila.
Saí com o Bento que me deixou em casa, e para só depois levar sua
“amiga” antes de sair, porém ele gritou algo que mexeu comigo.
— Mark, se ama a Sofia a esse ponto meu amigo, tente uma última vez. Sei
lá. Mande um e-mail. Um sinal de fumaça. Faça o que souber de melhor para
impedir o casamento ou apenas para que ela saiba que ainda a Ama.
Eu não tinha condições psicológicas para pensar no que ele queria que eu
fizesse depois que a mulher já tinha decidido oficializar o casamento. Tomei um
banho e caí na cama e apaguei. Eu pensaria nisso amanhã, no momento eu só
sabia maldizer em silencio por ter rejeitado a Priscila.
Eu fui um idiota isso sim.
— Onde já se viu isso. Nos dias de hoje mulheres nem notam gestos de
cavalheirismo.
Fechei os olhos e praguejei. A culpa era da Sofia.
Quando acordei naquela tarde, era como se as letras caminhassem pelo
apartamento. Os desenhos estavam sentados por todos os móveis e lugares da
casa. Eu não conseguia me concentrar em nada que a Ana dizia, porque palavras
e gráficos passavam por mim de mãos dadas.
— Ana, você está vendo isso?
— Isso o quê? — Ela olhou em volta assustada. Desde que nos mudamos
para a casa, a Ana não fazia mais o serviço de casa, apenas morava comigo. Mas
sempre queria estar atenta, como dizia, “supervisionava” e o menor sinal de
desordem buscava uma explicação com os responsáveis.
— Não é nada.
— Está drogado Mark? — Eu gargalhei.
— Não! — Mas quando eles foram aumentando o eu não tive opção a não
ser ir até minha prancheta e ir colocando tudo o que via entrando em ordem,
como se estivessem, agora, se organizando em fila, não estava tendo trabalho
algum, a não ser em colocá-los no papel. E ao fim da tarde, eu tinha uma
CAMPANHA.
— Mark, não quer comer nada agora? — Só então me lembrei de que não
havia almoçado, e nem jantado, e nem tomado café. Apenas ficado na prancheta
trabalhando toda à tarde do domingo.
Como ela trazia uma bandeja com um lanche, eu aceitei, mas também,
olhando para o que tinha à minha frente, eu não acrescentaria uma vírgula.
Enquanto lanchava, fiz uma ligação pedindo ao Bento que viesse ver o que
havia feito. Ele ficou de passar assim que saísse de um “encontro”. Isso era raro.
Tanto que pedi desculpas e marquei com ele um pouco mais cedo na agencia na
manhã seguinte.
Coloquei um moletom, e decidi correr. Como o percurso era um tanto que
longe, eu iria de carro, e depois faria uma pequena caminhada a pé e voltaria.
Então me lembrei de que, meu carro havia ficado na porta da boate.
Teria que pegar um táxi. E foi isso que eu fiz. Quando cheguei à porta da
boate, não me lembrava de onde havia estacionado. Se não fosse meu amigo,
segurança ter se lembrado de mim, e me conduzir até o estacionamento, por isso,
fui generoso dando uma boa gorjeta.
Quando subi a rampa do estacionamento fui abordado por um homem e
levei um susto tremendo.
— Liam? — Desci do carro para ver o que o apavorava tanto.
— Preciso que me empreste seu carro Mark. Estou sendo perseguido. Não
posso falar agora, mas preciso ir até um lugar, e depois deixo o carro com você.
— Eu vou com você. Levo-te aonde tem que ir e, — Mas ele nem me
deixou terminar. Parecia apavorado.
— Não. Preciso ir sozinho. — Peguei meus documentos e entreguei o carro
a ele. Ele acelerou e partiu. O Liam nunca tomaria jeito na vida. Decidi que não
caminharia mais, iria direto para a mansão D’Angelis esperar por ele, para ver
no que poderia ajudar. Provavelmente estava devendo dinheiro a alguém. Assim
que terminei de sair do estacionamento um carro preto parou.
— D’Angelis, entra no carro. — Um homem alto, mais parecendo um
armário desceu, portando uma arma.
— Não sou eu que está procurando. — Disse, mediante ao que havia
acabado de acontecer entre o Liam e eu, e seu apavoramento. Deduzi que eram
esses os “estão me seguindo” a quem ele se referia.
— Entra no carro D’Angelis. — Eu senti uma dor na cabeça e tudo
escurecer. E não vi mais nada.
Bônus – Bento
Segunda-feira - Brasil
Cheguei à agência ciente que encontraria as portas abertas, um café
fumegante, porque era a primeira coisa que o Mark procurava fazer. E por fim,
eu esperava encontrar um homem apaixonado cheio de ideias, e rabiscos,
prontos para tomar formas e pular para a prancheta. Mas não. As portas
continuavam fechadas.
Na mudança do cenário, eu mesmo abri as portas, trancando-as logo em
seguida, porque ainda estava cedo, e certo que o Mark, as abriria quando
chegasse, e fui até a cozinha. Sempre reclamava que meu café não era tão bom
quanto o dele, mas eu não poderia esperar por ele, uma vez que meu estômago
começava a reclamar pela minha abstinência alimentar da noite anterior. Era
verdade que no primeiro encontro não devíamos demonstrar o quando faminto
estávamos diante da garota, ou ela se assustaria. Ainda bem que não confiando
no bom gosto do Mark para escolher os pães do café da manhã, eu havia me
atrevido e passado na padaria e pegado um pão de queijo quentinho que só havia
naquela padaria àquela hora, e agora estava agradecido por tê-lo feito.
Assim que senti o cheiro do café, decidi ligar para o Mark, para pedir que
trouxesse pão e manteiga, e contar que já esperava por ele. Porém, para minha
surpresa, o celular estava desligado. Olhei no relógio, e faltava apenas cinco para
as oito. E depois de cinco minutos o restante do pessoal, começou a chegar.
Entendi que ele devia ter desistido da campanha, por que não havia na face
da terra um casal mais complicado que Mark e Sofia para um relacionamento.
As nove tínhamos uma reunião e eu estava começando a me preocupar com
sua ausência. Tinha deixado inúmeros recados na caixa postal, e ele não havia
respondido nenhum deles. Nem sobre o pão. Nem sobre a bendita campanha.
Nem sobre quando chegaria. E agora, eu estava determinado a ligar para a casa,
mesmo que isso preocupasse a Ana.
Esperei até às nove e meia para ligar para ele, e foi nesse momento que um
calafrio percorreu todo meu corpo.
— Como assim Ana o Mark não dormiu em casa? — Até então, a primeira
pessoa que me veio à mente foi a Priscila Mayer. Ela não desistiria tão fácil
assim. O Mark era o melhor partido agora para qualquer mulher e eu tinha a
impressão que ela não havia ficado muito satisfeita com o fora que havia levado
no sábado.
Então, tentei ligar novamente para ele, antes de tomar mais um pouco de
café e dar instruções a secretária do Mark sobre as reuniões da manhã, avisando
que estava de saída. Antes, porém peguei o telefone da Priscila e o endereço do
escritório e do apartamento dela. E parti, com as informações em mãos, mas eu
precisava ter certeza de que ele havia ido para lá. Por isso, ainda passei na casa
dele. A Ana me recebeu com um ar de preocupação estampado no rosto.
— Há alguns dias ando lhe perguntando, Mark, não é bom que você tenha
alguém ao seu lado? Mas ele disse que não tinha perigo, Bento. — Enquanto ela
falava me levava até o quarto dele.
— Bom, Ana, não só São Paulo, mas todo o País está perigoso e não é só
para quem tem dinheiro. É para todo e qualquer cidadão. — Embora o Mark não
ostentasse, nem mesmo com um carro de luxo, eu também havia sugerido a ele
um segurança, há poucos dias. Não há fotos dele na internet como milionário,
mas quem o conhece sabe bem que ele herdou essa fortuna. — Mas, eu estou
torcendo para que ele apenas esteja com a Priscila. Você deve se lembrar dela. A
advogada dos D’Angelis. — Tentei acalmá-la.
— Sim! Uma loira linda!
— Essa mesma. — Olhei pelo quarto e não vi carteira e nem celular.
— Ele saiu com roupa de correr. Disse que iria correr.
— Sabe se alguém trouxe o carro dele, Ana? — Infelizmente ela não se
lembrava de maiores detalhes. Mas, depois de uma conversa com os ajudantes da
casa, o jardineiro havia visto um taxi, vir buscar o Mark. Alguns telefonemas e o
taxista que havia feito à corrida forneceu-nos o endereço da boate.
Então, eu sabia agora que o Mark havia saído para correr, antes, porém
tinha ido buscar o carro. Mas minhas desconfianças ainda estavam sobre a
Priscila. Eles poderiam muito bem ter marcado em algum lugar ali por perto, ou
marcado de se encontrar depois da corrida.
Na boate, minha sorte não foi melhor. O segurança havia trocado o turno e a
única informação que pode me dar foi o endereço do colega que ele havia
substituído aproximadamente duas horas atrás.
Eu tinha comigo, que estávamos começando uma peregrinação atrás do
Mark. E não tínhamos tempo a perder. Sozinho eu não teria muita chance por
isso liguei logo para a polícia. Deduzi que eles falariam das vinte e quatro horas,
mas tinha que informar o sumiço de meu amigo o mais rápido possível. E passei
ao detetive ao qual fui direcionado todas as informações possíveis. O segundo
passo foi informar na agência. O único lugar que não achei viável foi à mansão
D’Angelis. Eles não nos trariam benefícios de posse dessa notícia, caso o Mark
não estivesse com eles. Meu terceiro passo foi continuar seguindo as pistas, indo
atrás do tal segurança. Em casa me informaram que ele fazia um bico em uma
casa lotérica, mas para piorar a situação, justamente naquele dia, ele não havia
comparecido ao trabalho e não atendia ao celular.
Então tão claro como dia um insight: Sofia!
— Claro! Como não pensei nisso antes. — Ele estava trabalhando no que
eu havia sugerido. No que ele era melhor... Uma campanha para impedir o
casamento da Sofia. Devia ter ligado para ela, ou enviado algo e se reconciliado.
Então liguei para Sofia. Mas ela não me atendeu! Torci para que assim que
visse minha ligação me retornasse. Enquanto isso fui até o escritório da Priscila.
Tinha medo de que se ligasse, ela não me atendesse. Mas dei com os “burros
n’água” como dizia minha avó. Ela não estava trabalhando naquele dia.
A ideia de o Mark está indo buscar a Sofia me acalentava imensamente o
coração, e atenuava meus pensamentos. Mesmo assim, de dez em dez minutos
eu ligava para o celular dele. Até que o meu celular tocou.
— Bento?
— Sofia, tudo bem?
— Tudo! E você? — Eu não tinha como perguntar logo de cara se ela tinha
se entendido com o Mark, e se por acaso estavam ficaram de se encontrar em
algum lugar. Mas questionei sobre sua vida. O bebê. E quando ela desconfiou
sobre algo, a primeira coisa que fez foi me colocar contra a parede. — Bento,
está tudo bem mesmo por aí? Você não me ligaria se não estivesse tudo bem.
— Claro que está! Às vezes sentimos saudades das pessoas, só isso. — Mas
com essas palavras, eu fiquei apavorado.
— É verdade! Sentimos mesmo. — Houve um silencio e foi ela quem
quebrou aquele momento constrangedor entre nós. — Bento, eu estou um pouco
atrasada. Se não se importa... — Lógico! Eu estava sendo no mínimo
inconveniente. Ela estava se preparando para se casar essa semana e eu aqui
igual um idiota. Mas antes, eu dei minha ultima cartada.
— Tem falado com o Mark?
— Bento, o Mark e eu, — Eu não podia ter feito aquilo. Tanto que me
desculpei e logo desliguei.
Meu coração se apertou naquela hora. Eu não tinha um rumo certo para
onde ir. Apenas parei o carro e esperei. Eu devo ter ficado uns vinte minutos sem
reação alguma, até que meu celular me trouxe de volta ao mundo.
— Bento, melhor você voltar para a agência. A polícia está aqui.
— O que houve? Encontraram o Mark? — Ela não sabia explicar, mas nada
que envolvesse a polícia, devia ser bom. Roubo. Sequestro. Todas as notícias
ruins que o brasileiro tem se acostumado todos os dias.
Eu entrei no carro e não percebi ter percorrido todo o trajeto de volta em
pouco menos de doze minutos, o que normalmente eu levaria de vinte a trinta e
dois minutos para fazer. Estava cego de ansiedade. Eu odiava esse advento das
más notícias.
Diante da agencia minhas suspeitas começaram a tomar forma. A
quantidade de viaturas ali, não era normal. Estavam dificultando até mesmo o
estacionamento dos demais comerciantes da rua. Parei o mais perto possível e
voltei correndo duas quadras, com o coração saltando pela boca. Entrei a passos
largos e fui recebido por uma equipe chorosa que apenas esperava a minha
presença.
— O senhor deve ser o sócio do senhor Mark D’Angelis. — O detetive
estendeu a mão. Devolvi o cumprimento e logo quis saber o motivo da presença
dele ali.
Eu tinha uma suspeita, a polícia não iria entrar no caso tão cedo, se não
tivessem uma pista, mas ao mesmo tempo eu tinha uma esperança. Se algo
acontecesse ao Mark, eles deviam procurar a família, primeiro.
— Em que posso ajudar os senhores?
— Disseram na casa dos D’Angelis que o senhor é a pessoa mais próxima
do senhor Mark D’Angelis depois da família.
— Posso garantir que até mais que a família. Aconteceu algo?
— Encontramos o carro do Senhor Mark D’Angelis em uma cidade
próxima daqui.
— E o Mark? — O Homem andou pela sala do Mark, analisando alguns
dos cartazes e depois se voltou para mim.
— Havia um corpo no porta-malas. — Eu tremi. Minhas pernas perderam
as forças e eu fui obrigado a me sentar. O que ele estava querendo dizer? O Mark
havia transportado o corpo de alguém, ou o corpo era do... Não! Eu afastei meus
pensamentos. Não queria pensar para não atrair os pensamentos negativos.
— Um... Corpo.
— É! Ainda não foi identificado. O IML está trabalhando no caso, mas
pelas fotos que vejo aqui, não deve ser o proprietário do veículo. — Eu nem
percebi que estava prendendo o fôlego até então. Olhei para ele assustado. Ele
olhou em um papel e leu algumas características. — Sujeito de
aproximadamente 1,70, afro descente, — Ele nem tinha acabado de descrever o
homem.
— Graças a Deus. — Respirei aliviado.
— Graças a Deus? — Ele questionou.
— Não me leve a mal. Não estou feliz pela pessoa. É só que... Não é o
Mark.
— Mas o carro o senhor reconhece? — Ele mostrou o celular com as fotos
e a placa do carro. Era sim. O carro era do Mark, mas não era ele o corpo
encontrado.
Contei ao detetive tudo o que tínhamos vivido desde o sábado, porque nada
me tirava da cabeça que a Priscila estivesse envolvida na questão. Mas eu não
podia provar nada. Até porque eu nem sequer havia encontrado a pessoa.
Ele tomou nota de todos os detalhes e ficou de se dirigir para a casa do
Mark, para obter maiores informações, e em seguida buscaria informações com a
senhorita Mayer. Eu comecei a ver uma esperança em encontrar o Mark um
pouco mais rápido, mas só ficaria feliz ao vê-lo pessoalmente.
Vinte e sete.
Segunda-feira – França/Brasil
Sofia,
— Bom dia minha querida Sofi! — Quando Guimarães beijou meu rosto
aquela manhã, foi o primeiro alívio que tive, desde minha discussão com o
Bernardo na sexta-feira.
— Bom dia! — Dava para ver que meu humor não era dos melhores.
Estava até inclinada a marcar com minha obstetra uma consulta para garantir que
estivesse tudo certo com o bebê.
— E Bernard? — Ele se servia do desjejum fingindo um falso interesse no
amigo. Falso sim! Eu melhor que ninguém sabia que Guimarães estava contra
nosso relacionamento. Não desde o início, mas desde algum ponto em que eu
deixei passar despercebida.
— Não deu notícias. Acredito que não estava tão apaixonado como se
apresentava. — Mordi o pedaço de pão que ele colocou à minha frente.
Bernardo era o homem do sonho de qualquer mulher. Elegante! Tão jovem
e tão bem sucedido em sua profissão. Quando me propôs casamento, logo ao
saber da gravidez, eu fiquei maravilhada.
Sem exigências! Ele sabia que apesar de todos os meus esforços e
tentativas, meu coração ainda batia por uma única pessoa.
Estava tudo caminhando como planejado. Mas a equipe de marketing
decidiu que adiantar o casamento, fazer o anúncio e alguns furos em jornais seria
a propaganda do livro. E segundo eles, propaganda é a alma do negócio.
Propaganda! Ninguém melhor que o Mark para dizer isso. Eu não
discordei. Minhas páginas na mídia, e-mails e visualizações triplicaram. As
pessoas pareciam ter ânsia por informações a respeito da vida alheia, mas daí,
ele colocar uma nota no jornal com data, hora e local, sem minha autorização foi
à gota d'água.
Eu tinha escolhido traçar minhas metas. Trilhar meu caminho. Não seria o
Liam, e nem o Mark, mas muito menos o Bernardo a ditar as regras de como
minha vida seria de agora em diante. E se não tinha deixado bem claro, ainda,
naquela sexta, me sentei com ele e disse tudo o que vinha adiando. Ele não havia
aceitado bem! E isso, agora era o que mais me afligia. Porque se tudo não
passava de um acordo, por que havia ficado tão furioso? Por que se irritara tanto
com o término de nosso suposto “relacionamento”?
Vendo a angustia em meus olhos os Guimarães colocou sua mão sobre a
minha.
— Sabe que desde que eu a conheci eu vi em você um grande potencial, e
mais que isso. — Apertou minha mão. — Considerei você como a filha que
nunca tive.
— Eu sei meu amigo. — Não duvidava. Ele era muito atencioso comigo.
— Quando soube de sua história. Quando me contou sobre ter deixando o
grande amor de sua vida no Brasil. Eu não mais passei a apoiar seu
relacionamento com o Bernard. E muito menos andando a passos tão rápidos.
Não! Não! Quando um coração não está curado completamente, não se deve
buscar por outro amor. Por outra paixão. Deve permanecer sozinho. E você nem
tentou curar seu coração. Regou cada sentimento por esse homem. Manteve
acesa essa chama todos os dias, olhando para dentro de si e alimentando as
esperanças de constituírem uma vida juntos. Não! Você e o Bernardo nunca
tiveram uma real chance juntos.
O Guimarães tinha toda razão. Mesmo que um dia eu quisesse esquecer o
Mark, que não era o caso, o Bernardo não teria sido o homem certo. Primeiro,
tínhamos discutido pela forma que ele fizera de propósito em anunciar minha
gravidez, e o casamento, em evento público. E quando me disse então que sabia
que minha tia e o Mark estavam na plateia e achou que seria uma forma de
manter o Mark afastado? Eu simplesmente enlouqueci. Era como se tivesse feito
de implicância. Em todo caso, deixei passar uma vez que ainda era cedo para ter
duas pessoas surtadas ao meu redor por causa de uma gravidez. Que no caso
seria minha tia e o pai da criança. Serviu para deixar o Mark distante por um
tempo. Mas essa distância. Esse silêncio... Essa angústia. Essa dor.
Levei a mão à barriga. Não era ali propriamente que doía, mas era como se
fosse.
Quando me viu colocar a mão sobre a barriga pela quarta vez, questionou
meu estado de saúde, então fui obrigada a confessar que não havia dormido bem
aquela noite.
— Não era madrugada ainda quando fui assaltada por um pesadelo. Na
verdade, sem rosto e sem som. Mas, sabe aqueles que deixam a gente agoniada?
Um aperto no peito.
— Talvez seja melhor fazer uma visita à sua médica.
— Sim! — Para desencargo de consciência assim que subisse eu ligaria
marcando a consulta.
Mas depois de chegar ao quarto, depois de ter certeza que no Brasil estava
amanhecendo, a primeira coisa, ou melhor, a primeira pessoa para qual liguei foi
minha tia. Algo me dizia que esse aperto em meu peito não era invenção de
minha cabeça ou apenas um incômodo corriqueiro.
A ligação começou estranha. Ela nunca demorava a atender. Foi preciso que
eu fizesse uma segunda chamada. Como se ela estivesse longe do celular.
— Tia?
— Sofia? Está tudo, bem? — Eu devia ter ligado assim que acordei. Minha
tia nunca soube me esconder nada. Sua voz era trêmula, e baixa. Se estivesse
tudo bem, já estaria perguntando sobre o bebê e contando tudo da vida do Mark.
Era assim que eu ficava por dentro de cada detalhe da vida dele. E eu tinha
certeza que ele nem suspeitava.
— Algum problema por aí?
— Não! — Ela parecia engasgada.
— Está! Está sim! Você que está me ligando. E ligando há essa hora fico até
assustada. São apenas cinco e meia da manhã e por isso me assustei.
— Desculpa tia, é que... Está tudo bem por aí? Queria só saber de todos. —
Quantas vezes eu ligava para ela, e não demonstrava a saudades que estava e
nem conversava o tudo que gostaria, ciente que ela contaria toda nossa conversa
ao Mark, colocando todo meu plano a perder. Eu sentia saudades de nós duas
como família, mas ela de alguma forma havia inserido o Mark na história se
recusando a tirá-lo de nosso convívio. Se minha decisão em relação a ele fosse
verídica, eu de fato encontraria muita dificuldade com minha tia em apresentar
outro homem em minha vida.
— Estão! Estão todos bem sim! E você e o bebê?
— Estamos bem! — Não tinha certeza se poderia contar a ela que estava de
passagem comprada para embarcar a noite para o Brasil. Eu precisava falar com
o Mark. Precisava saber se ele estava disposto a nos dar uma nova chance. Eu
havia adiantado em muito meu projeto. Tinha provado a mim mesmo que
conseguiria, mas não queria estar ali, seguindo um caminho que me parecia
incompleto.
Eu buscava a felicidade. E pensei que quando fosse livre e fizesse minhas
próprias escolhas eu seria feliz. Depois da escolha feita, pensei que quando
alcançasse meu objetivo de ter um trabalho que me fizesse ser reconhecida, mas
vi também que ainda havia um vazio. E foi nessas lacunas, que eu encaixava um
sorriso do Mark. Um olhar. Seu perfume. — Suspirei.
— Sofia? Ainda está aí.
— Sim tia! Mas já vou desligar. — Achei melhor não dizer a ela. Queria
fazer uma surpresa ao Mark, e se contasse a ela, com certeza ela, iria correndo
contar cada detalhe de minha viagem. Deixando o pobre coitado apavorado.
Eu não via a hora de estar em casa. E não era no sentido “literal” da
palavra. Eu estava decidida a voltar para casa. Queria voltar para o Mark. Para
nosso apartamento. E esperar por ele todas as tardes, e sentir sua fragrância
tomando conta da casa. E observá-lo tomar seu café. Era engraçado saber que já
se esteve tão perto da felicidade. E o pior de tudo e ter consciência que os dois
não se tenha dado conta disso.
Arrumei minhas malas, enquanto aguardava o retorno da secretária da
médica, e depois a consulta que só ficou confirmada para o fim da tarde. Tudo se
encaixaria perfeitamente. Eu sairia da consulta, voltaria ao hotel, descansaria um
pouco, jantaria, e depois iria para o aeroporto, de onde voaria de uma vez por
todas para os braços de meu grande e único amor.
E se eu estava decidida a partir, minha ansiedade só aumentou depois de ver
em meu celular uma ligação do Bento. Estava no banho e não atendi a chamada.
Assim que enrolei a toalha no corpo retornei a ligação.
— Bento?
— Sofia, tudo bem? — Comigo sim, mas a voz dele não parecia lá essas
coisas.
— Tudo! E você? — Eu tinha quase certeza que Mark estava ao lado dele.
Devia estar ouvindo cada palavra. O Bento por si, não ligaria. A não ser que
estivesse acontecendo algo que impossibilitasse o Mark de fazer. O Mark estaria
doente e eles estariam me escondendo? — Bento, está tudo bem mesmo por aí?
Você não me ligaria se não estivesse tudo bem.
— Claro que está! Às vezes sentimos saudades das pessoas, só isso. —
“Saudades!” Código do Mark?
— É verdade! Sentimos mesmo. — Tomara que ele diga isso ao Mark. Que
eu também estou com saudades dele. E muitas! — Bento, eu estou um pouco
atrasada. Se não se importa... — Eles queriam ter certeza de que casamento
sairia.
— Tem falado com o Mark? — Quando ele me fez a pergunta, eu fiquei
sem saber o que responder. Eu tinha tanta coisa a dizer ao Mark, mas a gente
precisava sentar e colocar alguns pingos nos “iis”.
— Bento, o Mark e eu, — Mas antes que eu concluísse meu raciocínio, ele
simplesmente pediu desculpas e foi logo desligando. E naquela hora eu tive uma
certeza em meu coração! O Bento seria o padrinho perfeito para meu filho.
Então não mudei meus planos. O que havia esquematizado permaneceu.
Assim como eu vinha fazendo nas últimas semanas, e nos últimos meses.
Decidindo toda minha vida. Mas eu não contava com as prescrições médica de
ter que fazer o voo dessa vez com no mínimo uma parada. Eu não poderia ir ao
direto como estava acostumada e como ansiava. E para isso, foi preciso chegar
mais cedo ao Aeroporto trocar minha passagem o que pelos meus cálculos me
custaria, três ou quatro horas de atraso. Uma ou duas esperando o primeiro voo e
às duas horas seguintes na troca da aeronave, e para meu espanto, o primeiro voo
até que gastou o tempo que eu havia previsto, mas em Lisboa, o que seria uma
espera de aproximadamente 1 hora virou três longas intermináveis. E para piorar
a situação, o aeroporto acabou fechando pelo mau tempo, encerrando todos os
voos da noite. Era como se eu estivesse revivendo cada detalhe da noite em que
parti do Brasil, só que dessa vez, não tinha o Mark para me aquecer.
Entrei no quarto do hotel para onde haviam nos levado e procurei tomar um
banho e me aquecer. Coloquei os pés para cima para tentar aliviar o inchaço
programei o despertador e acabei adormecendo.
Na manhã seguinte, antes mesmo do celular despertar eu ouvi meu celular
chamando. E ao pegá-lo na esperança que fosse do aeroporto, notei mais de
cinco mil mensagens, e fiquei simplesmente boquiaberta. Aquilo não podia ser
verdade. Cinco mil e cem mensagens.
Claro que eu busquei por alguma pessoa que fosse de caráter de urgência.
Algo devia ter acontecido nessas três horas em que estive dormindo.
A primeira mensagem que eu li era de minha assessora: “Viu a campanha
de seu marido, ou melhor, seu “ex.”? Se não quiser ele de volta, posso pegar para
mim?
Pulei da cama em um segundo já ligando para ela. Haviam várias ligações
perdidas. Dela, do Guimarães. De mais algumas pessoas. Onde estaria
circulando essa campanha?
— Sandra! — Estava tremendo. Como ela mandava uma mensagem tão
vaga?
— Ainda não viu? Liga a TV. Abra os sites da Internet. Os rádios e os
jornais. Estão por todos os lugares do mundo. Circulando. Onde quer que se vá.
— A animação dela fazia meu coração descontrolar todo meu corpo e eu
comecei a tremer, mesmo sem ter visto a tal campanha.
— Sandra eu estou grávida. E mulher grávida não pode sentir fortes
emoções. — Estava pegando meu ipod em minha bolsa enquanto falava com ela.
E foi como ela havia dito. Minhas páginas estavam todas lotadas de pessoas que
nem mesmo me conheciam que haviam visto a campanha e agora postavam o
vídeo em minha timeline. Ou em qualquer meio de comunicação que eu tivesse.
Eu me sentei e me preparei para assisti, me esquecendo, totalmente da Sandra ao
telefone. Na hashtag #Chegueaocoraçaodesofia
Eram duas crianças, brincando em um jardim. Mas não era um jardim
qualquer... Era nossa árvore na mansão D’Angelis. Ele tentava chamar a atenção
dela, puxando suas tranças, enquanto ela apenas olhava em direção a outro
garoto. Em determinado momento ele entrega a ela algo, e ela simplesmente joga
no chão e sai correndo. Ele recolhe, guarda no bolso. Eles se encontram depois
de adulto, quando ela está chorando, ele novamente retira o objeto e a entrega,
agora dá para ver nitidamente que é seu coração. Ao fim do vídeo, aparece uma
frase: “Não se case Sofia... Eu ainda te amo!”.
Eu sorri sozinha! Seria uma surpresa mesmo para o Mark. Ele não sabia que
eu não tinha me casado. Ele devia ter soltado esse vídeo porque meu casamento
devia ser hoje, — olhei no relógio e já era terça-feira. — O pobre coitado devia
estar desesperado. Mas eu não ligaria. Faria uma surpresa.
Quando o avião partiu naquela madrugada, eu devia estar muito mais feliz,
mas o aperto no peito apenas aumentara. E quando pousamos no aeroporto,
muitas horas depois, senti um calafrio percorrer todo meu corpo. Ao longe eu
avistei o Bento.
— Como? Eu... Bento? — Quem tinha dito? Guimarães. Ele era o único
que sabia que estava vindo. Havia alguns homens ao lado dele. E não era
ninguém da agencia. Eu conhecia alguns deles. Olhei em volta e não vi o Mark.
— Sofia, eu... Nei sei como dizer.
— Não sabe como dizer? — Um dos homens veio e pegou minha bagagem.
— Bento, está me assustando. — E para piorar a situação, ele veio e passou
o braço em torno de meu ombro.
— Vou levar você para casa.
— O Mark pediu para vir me buscar?
— É!
— Bento! Está me escondendo algo. Onde está o Mark? — Vendo a
paciência do Bento, e todo o cuidado que tinha para falar o que estava
acontecendo, um dos homens se aproximou e foi curto e grosso.
— Senhora Sofia, meu nome é Leon Souza, sou investigador da vara
criminal de São Paulo. — Quando ele se apresentou, minhas forças se perderam
e eu precisei de fato me apoiar no Bento. — Eu estou à frente da investigação do
homicídio do senhor D’Angelis.
Foram essas as últimas palavras que ressoaram em meus ouvidos e em meu
coração.
Bônus – Bento
Quarta-feira- Madrugada
Todo cuidado era pouco pelo estado da Sofia. Ela estava medicada. Sequer
conseguia se manter de pé, e ao mesmo tempo,
— Meu bebê tia. Não posso tomar medicamento. — Vendo a recusa da
Sofia mediante a tomar a medicação a médico se aproximou.
— Tudo bem Sofia. Meu nome é Wellington. Sou obstetra. Estou em
contato com sua médica, e estamos te monitorando. Está tudo sobre controle.
Estavam monitorando porque ela havia desmaiado no aeroporto. Eu avisei.
Eu disse que não devia tê-la ido esperar assim. Deviam ter deixado que a gente
conversasse com ela primeiro. Mas a insensibilidade do investigador foi demais.
— Tia! — Ela parecia agoniada. Depois de trazê-la ao hospital, entrei em
contato com a Ana, e logo em seguida conseguimos falar com a médica dela em
Paris. Agora mesmo, mal conseguia manter os olhos abertos, e a maior
preocupação do médico, era o bebê. Ele havia nos dito isso há poucos instantes.
E quando ela fechou os olhos novamente pensei que fosse voltar a dormir, mas
não, — Quando aconteceu?
— Ainda não se tem certeza de nada. — Tentei acalmá-la.
— Bento...
— Ele está desaparecido desde domingo minha querida.
— Então quando te liguei você já sabia. Por isso sua voz estava tão
estranha. — Suas últimas palavras saíram em um fio.
— Sofia. — Quando me aproximei, senti seus olhos me fuzilarem ao
encontrarem os meus.
— Por isso me ligou não foi Bento? — O choro dela fez com que Ana e eu
chorássemos juntos. O que ela pensava que só ela estava sofrendo?
— Eu ainda não sabia do paradeiro do Mark. Como ainda não sei. Eu liguei
esperançoso de que ele tivesse ido se encontrar com você. Que vocês pudessem
ter se reatado.
— O Mark é o um desgraçado Bento. Ele não podia ter feito isso comigo.
Não agora. Sabe quanto eu viajei para vê-lo?
— Sofia... — E tão de repente ela começou a falar ela levou as mãos sobre
os ouvidos e os tampou. — Eu não quero ouvir nada que venha de você, porque
você também é um desgraçado. Devia ter cuidado dele. A culpa é sua. — Ela não
precisava dizer isso. Desde o primeiro instante em que soube que ele havia
sumido eu estava me fazendo à mesma pergunta... Onde eu estava? Por que não
estava ao lado dele?
— Não minha filha. Não diga isso. O Bento tem sido o melhor amigo do
Mark durante todo esse tempo em que vocês estão separados. Ele praticamente
anulou sua vida por causa do amigo.
— Sofia, eu... — Ela nem me deixou desabafar minha dor.
— Não Bento. Ele não podia. Você viu o vídeo? — Então ela tinha visto o
vídeo. Quando teria assistido? — Alguém viu o vídeo?
— Vimos Sofia! Vimos sim meu amor. — A Ana beijou seu rosto. — Foi o
Bento que liberou a campanha. — Se ela estava com ódio, nesse momento ela
pareceu querer me matar.
Eu imagino o que se passava em sua cabeça. O Mark já estava morto e eu
ainda tentava destruir seu casamento. Mas ela precisava saber o quanto meu
amigo a amava, antes de se casar.
— Por que Bento? Por quê? — Era doloroso.
— Ele havia deixado tudo pronto. Quando sua tia me mostrou no que ele
havia trabalhado todo o domingo eu não achei justo deixar que ele não dissesse a
você suas ultimas palavras.
— Eu te odeio Bento!
— Ele te amava Sofia!
— Eu odeio os dois!
— Não sabe o quanto aquele homem te amava! Nem eu tinha noção que
chegava a tanto, até no ultimo sábado quando saímos para beber. Ou melhor,
quando a Ana me fez ir atrás dele em uma boate. Quando ele bebeu mais um
porre. E deu mais um fora na Priscila Mayer. E tudo isso porque ele estava se
afundando em um amor que estava longe dele. A mulher que ele amava estava
prestes a se casar com outro homem. A formar uma família que ele sonhou a
vida toda ser a família dele.
— Ela havia terminado com o Bernardo na sexta-feira. — O Guimarães me
interrompeu. — Essa menina também estava sofrendo por causa desse homem.
Duas cabeças duras. Até que ela descobriu que não podia viver sem o grande
amor da vida dela. Sem o pai de seu filho.
Aquela informação me pegou totalmente de surpresa, e se antes eu estava
em choque agora eu estava acabado. Simplesmente arrasado. Como eu me
portaria diante do túmulo de meu amigo. Como contaria a ele que o filho que ele
tanto almejou iria chegar sem sua presença?
Eu chorei mediante a notícia. A Ana também estava emocionada abraçada à
sobrinha. Quem não estaria? Acompanhávamos de perto a aflição do Mark.
Fui até a janela e me encostei ali, deixando que minhas lágrimas banhasse
meu rosto, suplicando a Deus que tivesse misericórdia de nós, daquela criança,
mas depois de alguns minutos em um acesso de fúria eu criei coragem e disse
algumas palavras que achei necessário à Sofia.
— Você não podia ter escondido essa informação, todo esse tempo do meu
amigo Sofia. Não podia. Deixá-lo pensando que estava grávida de outro homem.
Não sabe o que causou ao coração do pobre coitado.
— Isso mesmo Bento! Agora é fácil para você me julgar. Quando seu
amigo se escondeu de mim, escolhendo morrer sozinho você simplesmente o
apoiou. Esqueceu-se de que o Mark ficou paranoico com essa ideia da
tuberculose? Assim que soubesse que eu estava grávida teria feito um escarcéu e
feito de minha gravidez um inferno, ao invés de aproveitar ou me deixar
aproveitar o lado bom da gestação. E no mais, eu não sabia que era minha tia, a
mulher que estava morando com ele. Pensei de verdade que ele estava com
alguém quando sai do apartamento dele naquele dia em que viajei. Eu precisava
dar a ele o direito de viver sua vida. E quando soube que estava grávida não quis
incomodar.
A porta do quarto foi aberta e uma enfermeira entrou, e atrás dela o
detetive. Ele se aproximou dizendo que o corpo havia chegado e seria necessário
que eu o acompanhasse.
Eu pedi um tempo, já que a Sofia ainda estava alterada e eu não a deixaria
sozinha. E por sorte ele me atendeu. Quando vimos que ela havia dormido, ele se
aproximou de mim.
— O Senhor me desculpe incomodá-lo em momento tão difícil, mas
estivemos na casa dos D’Angelis, a senhora D’Angelis não conseguiu nos
acompanhar, ela se encontra, segundo ela, com a saúde frágil e debilitada,
entramos em contato com pai, o senhor Álvaro, que estava fora da cidade, e está
a caminho, mas deve demorar ainda umas duas horas. O irmão mais velho não
atende ao telefone e no momento só nos resta então o senhor. — O homem olhou
tranquilamente para o rosto da Sofia, como quem se certifica de que ela
dormisse, e depois voltou a falar. — Na ausência da família D’Angelis,
precisamos que nos acompanhe para o reconhecimento do corpo do senhor Mark
D’Angelis. — Aquilo foi como uma punhalada em meu coração.
Eu nunca! Nunca em toda minha vida esperei por essa notícia!
Eu estremeci e me agarrei aos pés da cama. Dei graças a Deus pela Ana ter
saído do quarto para buscar um cobertor para a Sofia naquela hora.
— Como eu havia explicado o tiroteio ocorrido no local onde foi
encontrado o carro, envolveu dois carros. No carro do senhor D’Angelis foi
encontrado aquele sujeito, que pelo que a polícia de lá apurou é um marginal
com fichado por porte de armas chamado Mike.
— E como eu já lhe disse esse nome não me lembra de ninguém conhecido.
— Cochichei.
— No local onde encontraram os demais corpos, que estão ligados a esse
tiroteio, e onde encontrarão o senhor D’Angelis, havia mais dois homens
baleados. Um deles infelizmente soube que também veio a óbito. E agora que o
IML está trazendo o corpo precisarei que me acompanhe para fazer o
reconhecimento. — Eu tinha certeza de ouvir a voz do homem ao longe, mas não
entendia mais nada de suas palavras. Eu me recusava entender quaisquer quer
fossem as palavras cuspidas de sua boca.
Um filme se fez em minha mente. Eu não tinha forças para sair do lugar. Eu
pensei em todas as palavras e sonhos e na última noite em que passei ao lado de
meu amigo, e tudo o que Sofia se arrependeria nesse momento. Mas eu pensei
principalmente naqueles que como nós estávamos aproveitando a presença e a
amizade do Mark, nos amigos da agencia. E mais uma vez eu não me contive.
— O senhor já procurou pela mulher da qual lhe falei? A Priscila? —
Sequei as lágrimas.
— Sim! E vou dizer ao senhor mesmo sem poder, que a mulher se tornou
uma grande suspeita. Mas o irmão também está desaparecido e segundo algumas
testemunhas ele andava metido com pessoas de má índole. Também é um
suspeito. Estamos atrás de todos que possam ter algum tipo de contrariedade
conta o senhor Mark D’Angelis. Pode ter certeza que nós pegaremos o culpado.
Assim que a Ana apareceu na porta, eu mudei de assunto, e enquanto ela
cobria a sobrinha a enfermeira surgiu pedindo que deixássemos o quarto para
que ela descansasse. O que foi muito oportuno, assim não levantaria suspeita de
minha ausência. Odiaria ter que dizer a ela, para onde estava indo.
Depois de percorrer as ruas da cidade em silêncio, entramos em um lugar
que mais parecia uma garagem e fomos descendo em um grande corredor
escuro. Na medida em que descíamos, meu coração se acelerava. E em
determinado momento eu tive que parar e respirar.
— Eu não consigo. Tentaram o pai dele novamente? — Eu sentia muito
querer abandonar meu amigo naquela hora, mas só Deus sabia como eu me
sentia.
— Tentamos toda família.
O homem não entendia o meu sentimento. Não entendia o que estava
passando naquele momento. Não era fácil para mim. Estudei com o Mark desde
o quinto ano do ensino fundamental. Decidimos que faríamos a mesma
faculdade quando ele me contou sobre a Sofia. Ele sabia todos os meus segredos
assim como eu sabia de quase tudo de sua vida. E agora... Não! Não planejamos
isso. Nunca falamos sobre morrer. Nunca combinamos de quem iria ao velório
de quem. De quem compraria as flores. Ou quem escolheria o terno. E muito
menos, quem reconheceria o corpo.
— Olha companheiro, eu imagino que não dever ser fácil para você. Não é
para ninguém. Tive que trazer meu parceiro no porta-malas, por cinco horas,
morto, e devolver à esposa e a três filhos. Não queria deixá-lo sozinho e o seguro
não cobria a funerária para buscá-lo. Trabalhamos juntos por mais de doze anos,
e ele era padrinho do meu filho. — Ele respirou parecendo verdadeiro. Foi
aquilo que me deu forças para ficar mais firme. Aquelas palavras, e alguns
passos que ouvi. Olhei para trás e vi o pessoal da agencia que chegava.
— Pessoal. — Fiquei muito emocionado.
— Não te deixaríamos sozinho nesse momento.
Foi assim que chegamos até o lugar onde o rapaz puxou o lençol que cobria
o rosto do homem depositado na pedra de mármore.
E se para mim não foi fácil ver aquele rosto tão jovem cheio de planos e
agora sem vida, imagina como seria para ela. Mas, alguém teria que ser o
portador de tão grande tristeza.
E como eu havia previsto, foi uma cena impossível de não se emocionar
quando duas horas depois eu dava a notícia.
— Nãoooooooooooooooooooo! — Aquele choro atravessou minha alma.
Sei que me acompanharia por muito tempo. Por longas noites quando colocasse
a cabeça em meu travesseiro tentando não pensar em minha culpa. Em meu
remorso. —Não foi fácil para ela encarar que o único e verdadeiro amor de sua
vida havia partido.
Eu assisti com meus próprios olhos literalmente a vida esvaindo de seu
corpo. Era de dar pena. Ela havia feito uma escolha... Amá-lo com toda sua
alma. E agora não tinha ao que se agarrar.
Vinte e oito.
Quinta-feira
Sofia,
Estava pronta para seguir para o velório. Se é que alguém algum dia na vida
poderia se dizer pronto para o velório de algum ente querido. Ninguém está
pronto para um velório. Olhava o reflexo daquela desconhecida no espelho
novamente e tentava reunir forças para representar bem o meu papel.
— Vamos? — O Bento se aproximou. E mesmo que eu o estivesse
esperando, me assustei. Era assim que estava desde o dia em que pisara no
saguão do aeroporto. Triste, abatida, ferida e assustada.
Passei a sua frente, e fui amparada por sua mão quando minhas pernas
vacilaram.
— Não sei se consigo Bento.
— Claro que consegue. Estarei ao seu lado! Sempre! — Eu sabia disso.
Não duvidava. Mas, estava sendo mais difícil que pensei que fosse. Agradeci a
Deus que o Bento não tivesse levando em consideração minhas palavras no
hospital e se disposto a permanecer ao meu lado.
E foi assim, com ele ao meu lado que atravessei a aglomeração de impressa
do lado de fora da mansão dos D’Angelis. A notícia tinha sido um prato cheio
para os fofoqueiros de plantão. Todos querendo saber se a família estava “muito
abalada”. Meu Deus! Qual família não estaria? O Senhor D’Angelis permaneceu
em silêncio durante todo o momento na casa, até mesmo depois da chegada da
filha Angel com o neto. Não seria um dia fácil para ninguém.
Sentei-me ao lado da família, bem perto próximo ao ataúde e recebi os
cumprimentos das pessoas que passavam.
— "Pois tu és pó, e ao pó retornarás" — Assim que o padre disse as últimas
palavras lamento baixo da Catarina.
— Não meu Deus! Meu filho não! Por que não me levou em seu lugar! Ele
ainda tinha tanta vida pela frente. — Não houve quem não se comoveu com
aquela mãe que velava ali seu filho amado. Até eu mesma entendia sua dor. E eu
teria chorado ainda mais com ela, se não tivesse me preocupado com o Bento
que abaixou a cabeça e saiu chorando as pressas pela porta que levava à cozinha.
Eu sabia que ele aparentava fortaleza, mas não estava tão forte assim.
Pedi licença e o procurei pelo jardim até encontrá-lo debaixo da árvore, aos
prantos.
— Não precisava ter saído Bento. Eu também me emocionei com as
palavras da Catarina. Imagina você que deu a notícia a ela.
— Não Sofia! Eu me sinto um monstro. Sinto-me cruel vendo a Catarina
chorar e não poder sentir o mesmo que ela sente.
— Bento... — Eu queria dizer que sabia o que ele dizia. Queria consolá-lo.
—Você não entende. Ninguém sabe o que estava sentindo quando eu desci
os corredores do IML. Quando me encontrei com o pessoal da agência e toda
preparação que nós fizemos para reconhecer o corpo de nosso amigo. — Ele
chorava como criança. E se a gente tentar explicar o alívio que foi quando vimos
o Liam lá deitado no IML? — Ele agora falava baixo como se as pessoas
pudessem condená-lo por sentir alivio por não ter encontrado o corpo do amigo.
— Bento, não tenha vergonha de demonstrar seus sentimentos. Todos nós
sabemos o quanto ama o Mark. — Ele secou as lágrimas.
— Ele vai se envergonhar de mim. Nós praticamente gritamos. — Ele ainda
confessava baixinho. — Não foi bem uma comemoração. O Liam não merecia
isso, mas Deus sabe a importância do Mark para nós. Ainda não sabíamos onde
ele estava, mas só de não estar ali, era um bom sinal. Mas dar a notícia à
Catarina também não foi muito fácil.
— Imagino! — Imaginava mesmo! Eu havia ficado em choque ao pensar
ser o Mark, imagina para uma mãe. Ainda mais todos nós sabendo de sua
preferência pelo filho.
— Penso que por muito tempo seu grito permanecerá me assombrando
quando eu colocar a cabeça ao travesseiro para dormir. Foi doloroso.
Olhei para o Bento e vi suas lágrimas descerem. Eu queria poder fazer mais
por ele, mas por hora apenas coloquei a mão sobre seu braço em apoio.
— Deixa de ser bobo! Esteja onde estiver ele vai se sentir orgulhoso de
você. Por saber que não desistiu dele em nenhum momento. — De repente como
se se lembrasse de algo, ele se recompôs.
— Eu preciso ir.
— Aonde vai Bento?
— Vou falar com a Priscila mais uma vez. Nada me tira da cabeça que ela
esteja envolvida nesse sumiço do Mark e nem que seja para me devolver o corpo
dele, eu preciso que ela o faça.
— Fala com a polícia, Bento.
— Eu falei Sofia. Eles descartaram a hipótese. Dizem que estão
investigando, mas não avançam em nada. Eu preciso fazer algo. Disseram que
qualquer um que tenha algo contra o Mark é suspeito, mas na primeira desculpa
da Priscila eles desistiram.
Eu deixaria o Bento tentar o que pudesse. Eu no lugar dele faria o mesmo.
Depois que ele se foi, eu voltei pela cozinha e me encontrei com minha tia. E era
praticamente a primeira vez em que nós duas ficávamos sozinhas.
— Como o Mark estava nos últimos dias tia? Não demonstrou nenhum
problema com alguém?
— Tudo o que sei sobre o Mark eu contei a policia. Cada detalhe. E olha
que sei mais da vida daquele menino que qualquer outra pessoa. E o único
problema dele era você. Uma ingrata.
— Tia...
— Tia nada. Eu queria que o Mark deixasse de amar você e arrumasse uma
mulher linda e ficasse desfilando na sua frente.
— Que isso tia?
— É mentira. Mas eu fiquei com muito ódio no dia em que a gente foi lá te
visitar e aquele homem ficou esnobando o Mark, o chamando de bastardo. —
Meu coração doeu naquele momento. Eu também odiava quando alguém fazia
algo contra o Mark.
— Que homem tia?
— Aquele com o qual disseram que você ia se casar.
— Mas eu não expliquei pra senhora lá dentro quando entrou pra me ver,
que era tudo de mentirinha.
— Mas eu não acreditei. Estava saindo nos jornais e nas revistas.
— A senhora contou pro Mark?
— Não! Falou para não contar.
— A senhora... Eu não entendo. A gente nunca sabe quando pode confiar,
quando não. Mas eu não culpo a senhora porque o Bernardo empolgou demais e
acabou confundindo tudo.
— Mas naquele dia, disse que você tinha dito que o Mark não era filho
legitimo. E um monte de baboseira, que o Mark ficou remoendo dia a pós dia do
porque você havia falado da vida particular dele com outra pessoa.
— Eu nunca faria uma coisa assim. E o Mark foi logo chorar para senhora.
— Não! Ele falou um dia que bebeu demais.
Alguém entrou para pedir água e nós achamos melhor voltarmos para perto
da família D’Angelis. E de repente isso ficava martelando em minha mente:
Qualquer um que tivesse algo contra o Mark poderia ter feito mal a ele.
Fui até minha tia e disse que estaria no jardim. Saí e liguei para o
Guimarães. Logo depois de vinte minutos ele me apanhava diante a mansão
D’Angelis.
— Onde estamos indo querida Sofi?
— Fazer uma visita ao Bernardo.
Ele não disse nada, apenas dirigiu até a editora. Eu poderia muito bem ter
ido de taxi ou ter chamado o Bento, mas preferi que alguém conhecido do
Bernardo estivesse ao meu lado.
Depois que chegamos, ele nos fez esperar por mais de dez minutos e aquilo
era incomodo. Porque eu sabia que ele estava fazendo de propósito.
— Sofia! Guimarães! Que bom vê-los. — Fez um sinal de reverencia nos
convidando a entrar em sua sala. — Que bons ventos os trazem? Não me diga
que por causa das bobeiras que disse na sexta em Paris a Sofia quer reincidir o
nosso contrato? — Ele brincou com o Guimarães tentando me ignorar.
— Não sei! Só vim de acompanhante.
— Sofia? — Ele me olhou sorridente. — Porque eu já esqueci suas ofensas.
— Até porque em nenhum momento eu ofendi você. Mas o que me traz
aqui é saber o porquê disse ao Mark que lhe contei sobre ele não ser filho
legítimo dos D’Angelis, quando nunca falamos sobre isso.
— Claro que falamos.
— Não! Não falamos! Nunca comentaria algo tão particular com você.
Ainda mais sobre a vida de alguém que amo tanto.
— Eu te perguntei sobre o segundo livro da série e você disse que já tinha
um esboço.
— Sim!
— Te perguntei o enredo e me disse que seria de um jovem que venceu na
vida, e depois descobre que é filho ilegítimo.
— Sim!
— Sofia, — Ele cruzou as pernas. — Sou um agente literário. Um
pesquisador. Descubro talentos. Sou um editor. Logo saquei que se tratava de um
romance água-com-açúcar. Desses que você compra na banca semanalmente.
— E daí? Como chegou a conclusão que era o Mark? Por que em nenhum
momento de nossa conversa eu cito nomes.
— Sei lá Sofia! Aceitam café? — Ele pegou o telefone e pediu café à
secretária. — Ah sim! Foi em uma roda de amigos, um dia alguém comentava
sobre o assunto dos D’Angelis e eu assimilei seu roteiro com a história.
Deduzindo que era o Mark.
— Estou intrigada, porque eles são dois irmãos. Poderia muito bem ser o
Liam. Mas pelo jeito você tem certeza.
— Não. O Liam não faz o tipo menino abandonado. A gente já fez muitos
negócios juntos. — Quando ele fez a confissão eu logo pensei... O que um editor
e um empresário de importação e exportação alimentícia tinham em comum?
— Negócios?
— Sim! Negócios! Uma editora precisa de apoio cultural, lei Rouanet. E o
Liam sempre foi um bom amigo e grande patrocinador.
— E em um momento como esse tão delicado você sequer vai prestar uma
homenagem? — Ele me olhou como se eu disse algo de outro mundo.
— O que está dizendo?
— O irmão do Mark foi assassinado. — Vimos o Bernardo perder a cor.
Pensei que fosse sentir um mal ali diante de nós. A secretária entrou com o café
e o vendo como via, providenciou logo uma água com açúcar.
— Como assim você não sabia? Está em todos os jornais e revista e você é
sempre tão bem informado em tudo.
— Cala a boca Sofia! — Eu me assustei e foi nessa hora que o Guimarães
achou melhor deixarmos nossa visita para outro dia. Ficando de pé ele estendeu
a mão, mas o Bernardo logo se controlou. — Desculpe Guimarães, eu não quis
assustar vocês, mas entendam que eu fui pego de surpresa.
— Claro. Desculpe-nos pelo inconveniente. Não sabia de sua amizade com
o falecido. Mesmo assim, já é hora de irmos.
Quando me levantei, porém senti-me tonta e foi preciso voltar a sentar. Na
verdade, havia sido devido a ter me levantado muito rápido, mas eles
relacionaram à agitação dos últimos dias, e me pediram para ficar sentada.
Aproveitei para pedir para ir ao banheiro. Ele pediu que a secretária me
acompanhasse, e quando chegamos ao social, estava ocupado.
— Venha comigo! Aqui no deposito há um, se não se importar de passar
pelas caixas. — Ela foi à frente acendendo as luzes. E me levou a um tipo de
galpão.
— Nunca imaginaria que esse lugar é tão grande. — Observei.
— Ah sim! Ainda existe uma sala atrás desse banheiro que dá acesso à
garagem. Pena que o engenheiro não pensou em forma melhor de entrar por ela
que pelo banheiro. — Nós rimos e ela se afastou para que eu usasse o banheiro.
Eu entrei no cubículo e assim que entrei notei que dentro do banheiro tinha
mesmo uma porta, mas estava escondida por tantas caixas, e eu imaginei que se
não fosse à intervenção do Guimarães, meus originais estariam ali. Tive que me
espremer entre elas, para usar o vaso.
Quando eu fui sair algo estranho aconteceu. O bebê se estremeceu dentro de
mim. Levei a mão à barriga e conversei com ele acalmando-o.
— Tudo bem meu amor! Vai ficar tudo bem! — Eu lavei o rosto, e por uma
fração de segundo, e eu sei que poderia ser coisa de minha mente apenas, uma
alucinação, mas foi como se o perfume do Mark tomasse conta do lugar, me
impedindo de sair. E abri a porta, mas não tive como sair.
— Quer que eu chame um médico? — A moça me amparou.
— Não! Obrigada!
Eu olhei em volta e senti um calafrio percorrer meu corpo. Meu Deus! Ele
não poderia ter me deixado assim. Eu senti tanto ódio do Bernardo. Eu poderia
mata-lo com minhas próprias mãos.
Acompanhei a moça de volta e já encontrei o Guimarães ao lado do
Bernardo me esperando à recepção.
— Demoraram.
— Ela não está muito bem. — A Recepcionista informou. Eu pensei em me
sentar, mas ele foi curto e grosso mostrando irritação e pressa em nos mandar
embora que eu até desconfiei.
— Como estão de saída, provavelmente a Sofia esteja ido fazer isso agora
mesmo não é querida? — Eu olhei para o Guimarães, porém, optei por não
insistir. Apenas queria dizer mais uma coisa. Eu ainda queria dizer que não
tínhamos mais um contrato, mas por algum motivo mantive silêncio.
O Guimarães me deixou em casa, eu não voltaria para o velório. Deitei um
pouco no sofá. A cozinheira do Mark se aproximou e quis saber se eu precisava
de algo. Pedi um suco e fiquei por lá. Depois de tomar o suco que ela havia feito,
subi e deitei na cama dele, ainda estava cedo para o jantar, não passava das
dezoito. Mais tarde eu tentaria jantar.
Ali senti seu perfume! E chorei! Eu precisava dele. Precisava muito! A
polícia agora só falava em tentar localizar o corpo. Mas eu precisava dele ao
meu lado.
Chorei agarrada ao seu travesseiro até adormecer. Acordei sentindo um
calafrio, e ouvindo as palavras pronunciadas pelo Bernardo naquela sexta que
insistiam em ecoar em minha mente.
“Acha mesmo que será feliz com Mark D’Angelis?” Eu pensava que seria
no sentido de apenas não darmos certo, mas agora era noite, e parecia claro
como o dia. Ele veio de Paris pronto a se livrar do Mark.
Lembrei-me do perfume do Mark no banheiro do depósito e de nosso filho
se estremecer dentro de mim.
— Você estava certo meu filho. Vamos atrás do seu pai! — Liguei para o
Bento, e não obtive resposta. Não tinha nenhum carro disponível na casa, então
chamei um taxi. Não me lembrava do detetive ter deixado cartão comigo, a todo
instante ele se dirigia ao Bento. Então, entrei no taxi assim que ele chegou e fui
para a casa do Bento.
Pedi ao motorista que esperasse e desci. Bati à porta, e quem me recebeu foi
à irmã dele. Depois de dizer que ele não estava ficou de tentar localizá-lo, pedi
minhas sinceras desculpas pelo adiantado da hora, em contrapartida ela me deu
um abraço, e eu parti novamente.
Eu não faria nada demais. Só iria até a porta de a editora dar uma
observada. Até por que... O que uma mulher grávida, sozinha poderia fazer
quase duas horas da manhã?
Bônus - Bento
Quinta-feira
Depois que saí do velório, eu não tinha uma gerência de minhas próprias
emoções. A única coisa que eu sabia era que precisava fazer algo para encontrar
meu amigo. Então liguei para o detetive... Leon Souza. Na tentativa de que ele
pudesse me dar detalhes sobre a investigação, mas a única coisa que ele dizia
era: “Assim que tiver novidades entrarei em contato”.
Eu estava convicto de que não voltaria para casa de mãos vazias. Nem que
fosse uma única palavra diferente de alguém eu teria. Voltei refazendo os
mesmos passos que havia feito na segunda-feira. Talvez eu tivesse perdido algo.
Ou pudesse encontrar alguma pista.
Mas o taxista me contou a mesma história, me deixando tentado a
desanimar. Na boate, esperei por uma hora e quarenta a troca de turnos e quando
foi onde vi um fio de esperança. Quando conversei com o segurança, ele contou
o que havia acontecido àquela noite.
— Cara não tem como esquecer o playboy não. Ele me deu uma gorjeta que
salvou a semana. E tudo porque o ajudei a localizar o carro. — De repente ele
pareceu se lembrar de algo.
— Então ele saiu daqui a carro dele? Lembra-se se estava sozinho?
— Aqui que está cara... Ele pegou o carro, mas acabou não indo no carro.
Eu estava me afastando, mas um cara pulou na frente dele, e o fez sair do carro,
como ele tinha sido gente fina até, eu pensei que fosse assalto e voltei, mas
depois eu vi que o cara também era bacana. E eles pareciam se conhecer. Ele até
insistiu pra levar o cara, eu não quis ficar ouvindo conversa e acabei virando as
costas e entrando na guarita, só que... Foi muito rápido. Foi à conta de entrar,
quando eu voltei aqui de fora, ele já tinha desaparecido.
Olhei em volta e vi as câmeras de segurança da boate.
— E as imagens? Suas imagens de segurança.
— Cara... Isso é só para enganar a fiscalização. Não funciona. O Patrão
acha que é dinheiro jogado fora. Mas, olha a distancia disso... Se ele tivesse
caminhado, eu o teria visto indo. Ou o sujeito se arrependeu e voltou para levá-
lo, ou outra pessoa o levou.
— Então foi realmente aqui na porta que ele desapareceu.
— Eu fiquei preocupado. Fui até a esquina, mas não vi ninguém. Se
tivéssemos imagens eu faria questão de puxar para você.
— Pode falar com um detetive? — Ele coçou a cabeça e depois fez uma
careta.
— Olha, se não for me fazer perder o trabalho. Eu preciso do emprego, e
talvez relatar que nossas câmeras não funcionem não vá pegar bem.
Eu entendia o rapaz, mas não deixaria por menos. Precisava de todas as
pistas que pudesse conseguir. Então prometi que daríamos um jeito de não ser
preciso mencionar isso ao detetive.
Assim, fiquei sem saber para onde ir. A não ser a Priscila. Estava ficando
tarde, e provavelmente não a encontraria no trabalho. Decidi que iria direto até o
apartamento dela. Embora fosse pouco provável que ela estivesse em casa com o
Liam sendo velado.
No condomínio o porteiro me pediu que esperasse avisar sobre minha
presença, e depois de dois minutos e um sinto muito, disse que a empregada
pediu para avisar que a patroa não se sentia bem o suficiente para receber visitas.
Eu devia imaginar. Ela e o Liam durante algum tempo tiveram um
relacionamento. Engraçado, que quando isso me vinha à memória, só reforçava a
ideia do porque ela querer o Mark no ultimo sábado.
Desci as escadas, e cansado e arrasado entrei no carro. Abaixei a cabeça no
volante e não tive vergonha em chorar.
Algum tempo depois, me recuperei e dei partida, mas nesse momento
observei um homem que entrava no apartamento do prédio, de onde eu havia
saído. Não podia ser.
Tirei meus óculos, e observei contra o vidro do carro enquanto ele
conversava com o porteiro, e depois entrava no elevador. Era o tal Bernardo.
Amigo da Sofia. Amigo não, editor. Porque se fosse amigo não tinha jogado o
Mark contra ela como fez.
Sim! Eu tinha certeza que era ele. Tinha tomado um ranço daquele cara por
causa do Mark, ele não tinha ideia. Mas o que ele fazia ali? Teria algum
conhecido no lugar, ou seria muita paranoia minha eu desconfiar que ele pudesse
conhecer a Priscila Mayer?
Eu já tinha ligado o carro. Simplesmente desliguei! Peguei meu celular e
liguei para o detetive mais uma vez, e como não me atendeu, deixei recado na
caixa postal contando sobre o segurança, e informando sobre o Bernardo e a
Priscila Mayer se conhecerem.
Depois que desliguei, liguei para a Sofia, mas para minha tristeza, meu
celular acabou a bateria. Se eu saísse para comprar outro, poderia perder o
Bernardo de vista.
Eu teria que vigiá-los até que pudesse entrar em contato com o detetive, ou
até que o próprio detetive os encontrasse. De repente uma cisma passou-se por
minha cabeça. E se ele estivesse escondendo o Mark aí no prédio.
Claro! Por isso ela não me quisera deixar entrar.
— Meu Deus! Estou ficando louco como Mark. — Falei comigo mesmo.
Nos últimos dias, tudo para ele era hipotético em relação à Sofia e ao Bernardo.
“E se ele a estiver forçando a se casar”. “E se...”. Agora eu estava me tornando
igual a ele. Mas bastou eu me questionar para ver a porta do prédio abrir e o
Bernardo sair de lá, de braços dados com a Priscila, como se a apoiasse. E talvez
fosse só isso. Eles poderiam muito bem estar indo para o velório.
Suspirei. — Mesmo assim decidi segui-los.
E eu estava certo! Eles foram para a mansão D’Angelis. E eu também fiquei
por lá. Aproveitei para pedir à empregada para usar o escritório e coloquei meu
celular para carregar em um carregador portátil. E me sentei ali por alguns
momentos. Enquanto esperava o celular carregar, comecei a olhar as folhas sobre
a mesa. Pobre Liam. Sequer tivera tempo de guardar os documentos nos quais
trabalhava.
Sentindo-me em dívida com a Catarina por ter dado a notícia sobre o filho,
eu comecei a juntar os documentos e separá-los por data e assunto. Até que um
me chamou a atenção. Tinha a assinatura do Mark. Olhei o documento direito e
tive um arrepio.
Era uma procuração. Onde o Mark, dava plenos poderes ao Liam, ou a
Priscila Mayer sobre a vida social de seu filho. E Através do presente
instrumento particular de mandato, os nomeava e os constituía como seus
procuradores, concedendo-lhes amplos poderes para o especial fim de
administrar a toda fortuna deixada ao menor. — Meu coração gelou. — Eu
peguei o documento e separei e guardei em meu bolso, mal tinha terminado de
fazê-lo, a porta se abriu.
— Bento? — O Pai do Mark entrou.
— Desculpe seu Álvaro. Meu celular me descarregou pedi a moça da
cozinha para poder usar o escritório.
— Que isso meu rapaz, você é de casa. — Então ele se virou para trás e
gesticulou. — Entrem. — Bento, esse é o amigo da Priscila. A Priscila você já
conhece.
— Sim! — Estendi a mão e o cumprimentei.
— Bernardo. — Ele mesmo se apresentou, vendo que o Álvaro havia
esquecido seu nome.
— Fiquem à vontade. A Priscila irá pegar alguns documentos para dar
andamento ao enterro de meu filho, Bento. Quando a gente vai pensar em algo
desse tipo? Um sendo velado e o outro ainda desaparecido. Quanto sofrimento,
meu Deus! Quanto sofrimento!
— Eu entendo Álvaro, mas Deus vai nos dar um desenrolar dessa situação
da melhor forma possível.
— Deus te ouça meu rapaz, e que ele traga a Mark de volta, são e salvo. —
Ele saiu aos prantos e eu não sabia se naquele momento saia com ele ou ficava.
— Bento, me desculpe por não te atender hoje mais cedo, mas eu nem tinha
cabeça. Só vim porque o Álvaro insistiu muito.
— Tudo bem! — Agora meu coração se acelerava ao extremo. Agora eu
sabia o porquê da presença da Priscila ali. Ela queria aquele documento.
Provavelmente não dera tempo de o Liam lhe entregar. E agora minha dúvida
era... Será que ainda havia algum documento entre aqueles que poderia
prejudicar o Mark?
— Bento? Está tudo bem? O Bernardo estava falando com você e você
parecia não ouvir.
— O quê?
— O Bernardo disse que a Sofia foi lhe fazer uma visita hoje mais cedo e se
sentiu mal, se você tem notícias dela? — Me preocupei na hora. Como assim ela
tinha ido fazer uma visita ao Bernardo sem me falar?
— Foi bom tocarem no assunto. Vou ver se vejo como ela está. No estado
dela, não é bom que tenha muitas emoções.
Estava indo então me lembrei de meu celular. Voltei e o retirei do
carregador. Havia carregado muito pouco. Então liguei para o detetive e me
irritei quando novamente caiu na caixa postal. Mesmo assim, narrei os últimos
acontecimentos.
Da mansão dos D’Angelis passei em um posto de gasolina e abasteci meu
carro, indo direito até a casa do Mark. Era por volta de dezenove horas, ainda era
cedo.
— Ela acabou de se deitar, o senhor quer que a chame?
— Não! Claro que não! Deixe que ela descanse. — Antes de sair, porém,
pedi licença e fui até o escritório do Mark, abri a gaveta e deixei o documento
ali, debaixo de todos os outros documentos. Depois sai.
Assim que atravessei o portão e entrei no carro, ouvi uma voz:
— Bento, tem certeza que não trouxe nada que não lhe pertencia da casa
dos D’Angelis?
Vinte e nove.
Sexta-feira - Madrugada
Sofia,
— Moça, não tem ninguém por aqui. A senhora tem certeza que foi aqui
que marcaram com a senhora?
— Foi sim! Eles só devem estar atrasados. — O homem do taxi começava a
desconfiar. Eu tinha pedido para que ele ficasse comigo ali parado, mas não
havia movimento na rua. Nem na editora, nem em lugar algum.
— A senhora está vendo que o taxímetro está correndo?
— Sim! — Eu queria só dar uma olhada. Só ter certeza de que não havia
nenhum movimento a noite. Então agora devia partir.
— É que têm uns vinte minutos que estamos aqui, parados. A senhora disse
que alguém a viria encontrar e nada.
— O senhor está com mais medo que eu. — Disse sem pensar.
— Então a senhora admite que tenha algo errado? Moça a senhora vai ter
que descer. Vamos lá, a senhora pode me dar só o dinheiro da corrida, nem
precisa me pagar essa espera. Mas agora desce que eu preciso ir embora.
— O senhor vai ter coragem de me deixar aqui no escuro? Sozinha?
— Quando a senhora quiser voltar chama um taxi novamente. — O meu
self um dizia que eu tinha que ir embora! Sair dali naquele momento com o
taxista e esperar que a polícia entrasse em ação, ou o Bento entrasse em contato.
Mas meu self dois, dizia que eu não podia sair dali, que eu seria capaz de
encontrar nem que fosse uma pista, deixada passar despercebida pela polícia ou
por homens. Homens são assim... Eles deixam passar detalhes que nós mulheres
somos capazes de ver. Sentir. Pressentir. Tirei o dinheiro da bolsa e o paguei. E
desci. Depois que ele se foi, me arrependi amargamente. Mas agora não tinha
volta. A rua estava deserta. Eu caminhei até a porta da editora e olhei para
dentro. Estava tudo escuro.
Dei a volta e olhei pelo portão pequeno. Empurrei e nada. Claro que não
seria fácil! Então eu me lembrei de que a moça da recepção havia falado sobre a
porta do banheiro dar na garagem e a garagem ficava na parte de baixo. Eu teria
que dar a volta na rua de baixo.
E assim eu fiz!
Na esquina, haviam alguns motoqueiros sentados, mas nada disseram.
Estávamos de frente a uma lanchonete. Ali era um pouco mais movimentado. Eu
apenas abaixei a cabeça e segui. Quando parei diante da garagem, havia uma
placa “sujeita a guincho”. “Editoras Belas Palavras”.
Eu passei direto, olhando para dentro, precisava ver ser havia alguém. Mas
estava tudo escuro, mas para minha sorte ou azar, havia um portão grande, e ao
lado um portão mal feito de latão. Coisa antiga. Gente... Isso nem usava mais.
Empurrei para ver. E a lata cedeu.
— Meu Deus! — Levei a mão à barriga protegendo-a. — Que loucura
Sofia! — Me lembrei de que na infância o Mark queria brincar de subir nas
árvores e o Liam sempre cauteloso me impedia de fazer as loucuras. E para quê?
Agora que eu precisava de todo os cuidados eu desobedecia todas as ordens e
recomendações possíveis. Abaixei-me um pouco, e de repente eu estava dentro.
Sorri vitoriosa. Como se tivesse conseguido o maior feito de minha vida.
Do portão até a porta do galpão foi fácil. Havia um carro na garagem e bem
certo que a pessoa não demoraria, porque a porta do passageiro do lado de traz
estava mal fechada.
Assim que empurrei a porta, ouvi som de vozes e me assustei. Eu era
medrosa demais para me arriscar em uma aventura de tal porte sozinha. Voltei
até o carro e levei a mão à maçaneta, e parei. Poderia disparar o alarme.
— Pensa Sofia! — Tanto pensei que me deu vontade de fazer xixi. Eu voltei
correndo, desci as escadas e me escondi atrás de algumas caixas. O bebê não
sabe esperar momento certo.
Enquanto eu fazia xixi atrás da caixa eu ouvi as vozes alteradas, e a luz
clara. Alguém havia aberto a porta. Parei de fazer barulho e me certifiquei de
que ninguém me veria ali.
Foi quando desceu as escadas, a Priscila Mayer e o Bernardo. Levei a mão à
boca assustada.
— Eu não sou assassina, Bernardo. Não fui eu que matei o Liam já te disse.
— Então quem foi phora? Porque a única interessada nesse bendito
documento era você.
— Pegar o documento seria fácil se esse imbecil do Bento não tivesse
roubado. — Meu Deus! O Bento havia roubado algo da Priscila.
— E agora? O que vai fazer com ele? — O Bernardo perguntou pra ela.
— Eu não meu amor. Nós! — Ela se encostou à porta parecendo exausta.
— Nós é muita gente querida.
— Meu papel nisso tudo já era. Não vou matar ninguém. Nunca foi meu
plano e não vai ser. — Graças a Deus o Bernardo não era o bandido que eu
pensei.
— Nem o queridinho da sua Sofia?
— Nem ele. A situação só fugiu do controle. — Naquele momento eu quase
me entreguei. Eu queria gritar. Queria morrer, ou melhor, matar o Bernardo. Ele
estava confessando que havia feito algo com o Mark?
— Pensa em algo, porque preciso limpar o depósito. Preciso ir agora,
porque daqui a pouco amanhece e meus funcionários chegam e eu não posso
estar aqui. Preciso dormir um pouco.
E eu ouvi o click da porta se trancar, comigo dentro da sala. Entre a escada
e a sala onde provavelmente o Bento agora estava. E eu torcia para que o Mark
estivesse também.
Assim que ouvi o carro se afastar, eu subi as escadas e chequei se a porta
estava aberta, mas não estava. Então peguei meu celular e liguei para o Bento.
Mas não atendeu.
Droga! Xinguei mentalmente.
Polícia! Era uma história mirabolante, mas a primeira coisa que me
identifiquei foi como Sofia D’Angelis. Embora não fosse mais uma D’Angelis, o
sobrenome iria atrair a atenção de alguém.
Contei o que estava acontecendo, passei o endereço e pedi ajuda. Clamei
misericórdia que alguém pudesse ajudar. Na mansão ninguém atendia muito
menos o celular de minha tia, e eu entendi. Passar a noite velando um corpo não
era fácil. Quem tinha tido essa bendita ideia? Depois me lembrei de que a
esperança do Álvaro era que o Mark fosse localizado a tempo de velar o irmão.
Depois liguei para casa, e pedi a ajudante do Mark que não deixasse nem a
Priscila e nem o Bernardo entrar na casa. Tinha receio de que eles fossem lá.
Contei a ela onde estava e que tentasse localizar o Bento ou qualquer pessoa da
agencia do Mark, e passasse o endereço que eu estava passando. Se não
encontrasse que chamasse a imprensa, acusasse o Bernardo e a Priscila Mayer de
estar comigo e com o Bento.
— Senhora Sofia a senhora está me assustando. — Mas o celular acabou a
bateria.
Eu sentei perto da porta, e vasculhei minha bolsa, e a única coisa que achei
ali, foi uma tesourinha de unha. Mas não era como nos filmes. Não abriu a porta.
Voltei até a parte de baixo e nesse sobe e desce comecei a sentir uma dor horrível
na barriga.
Mas não seria agora que eu iria parar. Vi um pedaço de ferro, e bati com
força contra a maçaneta e depois sobre a fechadura até perder minhas forças.
Mas quando olhei estava torta. Eu empurrei e abriu.
— Meu Deus! Meu Deus! Obrigada! Empurrei a porta e entrei no escuro.
Quando ascendi à luz, o Bento estava amarrado ajoelhado. Ele tentava falar, e
não conseguia.
— Bento! — Comecei a chorar tentando desamarrá-lo. E não conseguia.
Então me lembrei da tesourinha. Voltei do lado de fora a peguei e voltei para
cortar as fitas.
— Sofia! Pelo amor de Deus, o que faz aqui? Precisa sair daqui. Eles são
mais perigosos do que a gente imagina.
Quando ficou de pé, queria sair de lá de todo jeito. Mas eu me recusei.
— Não Bento! Precisamos encontrar o Mark.
— Acha que ele está aqui?
— Acho! Atrás dessa porta. — Indiquei o banheiro que ficava entre a sala e
o corredor que levava à recepção.
O Bento mais forte que eu, se chocou contra a porta, e na segunda vez ela
se abriu. Mas quando ele ascendeu à porta, e nós encontramos o Mark eu não fui
mulher de olhar para ele.
Virei às costas e me segurei para não cair. Puxando o ar diversas vezes para
não desmaiar.
— Calma Sofia!
— Ele está respirando?
— Está!
— Senta Sofia!
Ele estava todo ferido. Olho roxo. Os cantos da boca. Amarrado. Como se
morto mesmo. Eu me lembrava do Liam e por diversas vezes eu pensei que não
seria capaz de permanecer de pé.
— Sofia? Fica com a gente. — Uma tonteira. O Bento tentava me animar.
— Isso Sofia, fica com a gente. — Essa voz não era do Bento. Abri os
olhos e vi o Bernardo parado à porta, com uma arma em mãos. Eu queria
avançar sobre ele, mas não tinha forças, eu cairia a qualquer momento.
Então eu fiquei de joelhos, me virei e coloquei a cabeça do Mark sobre meu
colo. Se a gente ia morrer, que morrêssemos juntos.
— Por que voltou? — Chorei passando a mão sobre o rosto do Mark. —
Precisamos levar o Mark ao médico. A saúde dele é tão frágil Bernardo. Você
não entende. Se ele morrer.
— Foi o que falei com a Priscila ainda há pouco... Eu não matei ninguém a
saúde dele que é frágil. — Como ele era cruel.
— Deixa a gente ir Bernardo, nunca contaremos sobre você.
— Ah tá! Quando sai daqui a pouco, eu sabia que você estava aqui Sofia.
Não é engraçado? Você falou tantas vezes daquela idiotice de sentir o cheiro do
Mark. De tê-lo guardado em seu coração e em sua mente. Ficou me contando
isso como se fosse uma dádiva divina. E foi justamente isso que te entregou
hoje. Eu senti seu cheiro acredita? Eu falei para a Priscila e ela riu na minha
cara. Achando que eu estava muito apaixonado. Mas tudo bem! Quando ela
souber vai ver que não era coisa da minha cabeça.
— Bernardo...
— Não! A coisa é tão séria, e agora eu acredito em você porque desde o
momento em que aquela imbecil da recepcionista me contou que você havia
usado o banheiro do deposito eu soube que você o tinha descoberto. Eu até quis
soltá-lo antes, mas não tinha certeza que ele houvesse me ouvido para termos
fechado um acordo.
— Acordo? Claro! Qual acordo Bernardo? Só me deixa levar o Mark ao
médico o mais rápido possível.
— Calma Sofia! Ele estava conversando até pouco antes de eu sair. Só
dorme agora porque tive que tranquilizá-lo por causa do irmão.
O Bento fez um movimento e ele apontou a arma para o Bento.
— Não seja idiota o suficiente. Porque você apenas complicou o assunto.
Eu fiquei indignado depois que saiu daqui. Precisava espairecer. Eu não comecei
isso Sofia. A editora não estava tão bem até a gente te conhecer. Estávamos com
alguns escritores, cujos livros não estavam tendo saída. E eu fui falar com o
Liam, ele fazia parte de um grupo seleto de empresários que usavam a lei
Incentivo à Cultura para diminuir nos impostos, mas nessa ocasião, disse que a
situação deles não era das melhores. E não pode me ajudar. Eu que nem
acreditava em destino semana depois me deparo com o Guimarães falando de
um membro da família D’Angelis que era escritor. Logo quis conhecer você.
Quando falei de você para o Liam, ele disse que estávamos com a faca e o queijo
nas mãos. O plano dele seria o seguinte... Depois de seu livro pronto, se a editora
disser que não lançaria por um valor, vendo sua tristeza o Mark pagaria o que
fosse. Foi então que ele me contou sobre o Mark.
— Então foi ele? — Sequei meu nariz que escorria.
— Foi!
— Então não me contratou por meu talento?
— Claro que sim. Seus textos nos salvaram momentaneamente, e eu soube
que você era minha galinha dos ovos de ouro. Só que eu precisava de uma
garantia maior. Foi quando me falou sobre o bebê.
— Você teve a brilhante ideia de se casar comigo.
— Sim! Pensa bem! A fortuna do Mark é muito dinheiro. Você ficaria com
a metade disso com um filho dele. Poha Sofia. Que mulher não quer isso?
— Eu não era mais casada com o Mark, você não entende?
— Tudo bem! Mas imagina se eu registro o filho dele em meu nome.
Quanto acha que ele me pagaria para ter o nome no registro do filho? Muito
dinheiro Sofia. Muito! Então... Você foi e pha! Melou tudo! Não pode esperar
mais um pouco.
— Porque eu amo o Mark. — Eu queria muito que o Mark acordasse
naquele momento para me tranquilizar.
— Só que essa semana, o Liam e a Priscila entraram em contradição sobre
alguns aspectos financeiros e começara discordar sobre um dinheiro que nem
estava em nossas mãos ainda, e envolveram outras pessoas na disputa. E eu
fiquei de fora de tudo. E quando eu soube sobre o Liam, eu fiquei sem saber
como prosseguir. Eu tenho que achar uma forma de que ninguém saiba de mim
nessa trama toda. Não fui eu quem matou o Liam. Jamais faria uma coisa assim.
Mas agora é saber o que fazer com vocês. Porque se não tivesse voltado, eu
soltaria o Mark a noite, pegaríamos o documento que o Mark assinou, a Priscila
faria um saque gigantesco, e tudo acabaria bem. Mas agora é gente demais.
Você... Ele! — Apontou para o Bento. — O documento que sumiu.
— E se a gente prometer nunca tocar no assunto. Eu falo que encontramos
o Mark em algum lugar e...
— Jura Sofia? Não me faça rir. Vamos! Já está quase clareando e agora aqui
não é mais um lugar seguro, vai que contaram a alguém. Você dirige. —
Apontou a arma para o Bento. — Você vai com ele na frente. — Apontou para
mim. — E ele, — mostrou o Mark, - vem comigo no banco do passageiro. Um
passo em falso, e ele morre.
Assim que ele abriu a porta, ouvimos um barulho e ele foi puxado para fora.
Um homem colocou uma arma na cabeça do Bernardo e eu reconheci o detetive
do caso dos D’Angelis. Leon.
Comecei a chorar sem controle. De alívio de emoção. O Bento veio e me
abraçou.
— Graças a Deus! Acabou! — Dois entraram seguraram o Mark, que ainda
estava inconsciente e colocaram em uma ambulância.
— Eu vou junto! — O paramédico me olhou como se recriminasse minha
presença ali, mas eu passei por ele sem falar nada. O Bento veio e sentou-se ao
meu lado.
— Eu também! — Segurou minha mão. — Até que enfim meu Deus! Até
que enfim! Você encontrou o Mark da forma que o Bernardo contou Sofia?
— Eu o encontrei Bento, porque “Todos os meus caminhos me levam ao
Mark”.
Trinta
Sofia,
O Burburinho no cemitério era a imprensa furando o bloqueio feito pela
segurança atrás do Mark que acabava de chegar. Todos tentavam se aproximar. E
o murmúrio tomou conta do local.
— Silêncio, por favor. — Alguém pediu.
— Respeitem a família! — Outra voz se alterou.
Mas quando o Bento e eu ouvimos de nossos lugares o motivo de tanto
reboliço, nem mesmo nós conseguimos nos conter.
— É Mark D’Angelis! — Uma senhora cochichou.
— Sim! É ele! O filho bastardo de Álvaro!— Eu nem me preocuparia com
a enredeira que fazia esse comentário pejorativo, porque no momento o que
importava era que estava vivo. Vivo e Bem! — Mas o que houve com ele? —
Eu me levantei de um salto, nem me importando com meus pés redondos, e
tentei caminhar em meio à multidão, mas percebi que ele estava cercado por
policiais e homens com coletes de segurança, que o levaram direto para próximo
ao ataúde. Então o Bento me conteve.
— Calma! Teremos muito tempo.
— Estão dizendo isso desde ontem! — E era verdade! Depois que
hospitalizaram o Mark, fiquei sem notícias. A polícia simplesmente havia
interditado o andar inteiro. Mas não davam satisfação a ninguém.
Seu rosto estava muito machucado. Seu olho roxo. A boca. Eu quis muito
correr para ele. E quis sarar suas feridas. Mas os policiais não deixavam que
ninguém se aproximasse. Fiquei com o coração partido em pensar que algo pior
poderia ter acontecido.
De certa forma, só de vê-lo caminhando era um alívio. Mas eu queria muito
estar com ele. Estar em seus braços.
Era comovente ver a família diante das últimas homenagens ao primogênito
dos D’Angelis.
A Catarina havia voltado para os braços do Álvaro, enquanto o Mark fazia
suas orações, agora quem o abraçava era a Angel, o que para mim, seria o gesto
mais lindo a ser visto naquele dia.
Desde que chegou ao cemitério, o Mark permaneceu próximo à família
ignorando totalmente minha presença até que todos os demais se retiraram, e a
polícia conseguisse afastar o último repórter.
— Acredito que todos possam ir para casa em segurança, mas, de qualquer
forma, deixaremos um carro de plantão à porta da mansão e outro à sua porta
senhor D’Angelis.
— Mark? — Tentei falar com ele, mas foi inútil, eles já o tinham levado.
— Deixa Sofia. É um bálsamos para nós ver que ele está bem e protegido.
— O Bento me abraçou.
— É verdade. Mas precisamos saber o que se passa? O porquê de todo esse
esquema de segurança. E principalmente, para onde o levaram agora?
— Sim, eu sei. Mas a polícia agora irá redobrar os cuidados com ele. Sem
falar que não sabemos qual foi à versão do Bernardo. — O Bento estava se
mostrando um verdadeiro parceiro e amigo para mim. E naquela hora me veio
um pensamento. Eu não havia falado com ele ainda sobre meu filho.
— Você será padrinho de meu filho Bento. — Ele se virou para mim com o
olhar cheio de lágrimas. — Sei que não é o lugar e muito menos à hora.
— Mas eu aceito. — Me abraçou. — Eu fico feliz que esse filho seja do
Mark, não aguentaria viver a vida inteira com ele amaldiçoando essa criança e o
pai dela, toda vez que ouvisse falar seu nome. — Nós gargalhamos.
— Você me conhecendo e conhecendo nossa história, acha mesmo que eu
teria coragem de ir para cama com outro homem que não fosse o Mark,
compadre?
— Claro que não, mas... Venhamos e convenhamos não é comadre... Está
para nascer um casal mais complicado que vocês. — A gente riu novamente
atraindo o olhar das pessoas que ainda se faziam presente à porta do cemitério.
Ninguém entenderia nossos motivos.
— Que tal a agente criar alguma coisa para contar para o pai da criança que
ele é o verdadeiro pai?
— Está sugerindo uma campanha? — Saímos abraçados do cemitério
enquanto maquinávamos algo para o Mark. Expliquei a ele, que nada tão
grandioso como o que o Mark havia criado, mas, talvez uma brincadeira. Estava
ansiosa, e aquilo não poderia fazer bem ao bebê.
Eu não tinha ideia para onde haviam levado o Mark, e passar o dia em casa,
esperando não me deixaria em paz. Por isso, fomos direto para a agência.
Pesquisamos algo e logo havíamos desenvolvido uma pequena brincadeira.
Todos colaboraram. Almoçamos por ali, e às dezesseis horas decidi que era hora
de voltar para casa, mesmo sabendo que o Mark, não estava lá. Eu havia ligado,
e ninguém tinha notícias dele. Minha tia ficaria um tempo com a Catarina e eu,
teria que me contentar em saber que o Mark estava vivo.
Quando estava para sair, ele surgiu à porta. Mesmo ferido, era lindo! Sua
imagem permanecia intacta em minha mente! Como eu amava esse homem!
— Filho do céu, quer matar a gente do coração? — Toda equipe estava feliz
com sua volta. Lógico, eles o tinham como um ídolo. Um modelo a ser seguido.
— Agora está tudo bem! — Assim que todos o cumprimentaram eu fiz o
mesmo. Aproximei-me, o abraçando. Mas algo estava errado.
— Então você veio?
— Sim, meu amor. Eu vim! Você sabia que eu não ficaria longe.
— Sim! Eu sabia! — Então por que ele não me abraçava? Devia estar
traumatizado com todos os acontecimentos.
Afastei-me um pouco e olhei-o. Mesmo que estivesse limpo, e parecia ter
tomado banho, não havia feito à barba, e os cabelos estavam maiores que o
costume.
— Está tudo bem Mark? Algum osso quebrado? O que disseram na
delegacia? Prenderam o Bernardo não é? Tinha mais alguém envolvido, além da
Priscila? — O Enchi de perguntas, que eram as perguntas que todos ali queriam
saber. Ele tirou a carteira do bolso e a jogou sobre a mesa.
—Não! Eu não estava com o Liam, mas o Liam estava aliado com o seu
amante. Foi ele que fez isso. Apontou para o rosto. Abriu a camiseta e mostrou
as costas e o peito todo machucado. — E isso também.
— Para Mark! — Fechei os olhos.
— Que isso Mark? A Sofia sofreu tanto quanto qualquer um de nós. — O
Bento me abraçou.
— Eu imagino Bento. Tanto que saiu lá de Paris para vir me ver, justo no
dia em que o amante dela me sequestrou. Ele me contou sobre o plano de vocês.
—Amante! —Me afastei do Bento indo até a mesa e pegando meus
pertences. Provavelmente o Bernardo devia ter feito à cabeça do Mark e eu não
ficaria ali aguentando as palavras cruéis que ele teria para me dizer. Poderia
fazer isso amanhã ou depois, era um direito dele. Estava ferido. Magoado! Mas
hoje não! Eu estava exausta.
— Não vai me ouvir Sofia?
— Bento vou para casa!
— Não vai se defender? — Ele segurou meu braço.
—Para de bancar o idiota Mark! Sabe que o Bernardo e eu nunca fomos
Amantes.
—Não sei nada. Tudo bem! Agora acabou. Ele só queria o dinheiro, e já o
tem. Fizeram-me assinar um documento, e foi por esse bendito documento que o
Liam morreu. Eu entreguei tudo o que ele queria. Disse que o plano nunca foi
vocês se casarem. Sempre foi você e ele registrar o filho, depois você entraria
dizendo que a criança era minha e me fazer pagar uma boa fortuna para ter a
chance de ter meu filho de volta.
Eu não me importei com seu rosto machucado e bati com toda força no
rosto dele. Como ele poderia acreditar numa idiotice daquela?— Ouvindo toda a
discussão todos foram saindo da sala, menos o Bento.
— Podem ficar pessoal. Não temos nada o que esconder de vocês. Sabem
que a Sofia está grávida? E provavelmente ainda essa semana ela me contaria
que eu sou o pai da criança. Vocês todos devem saber em breve. — Vendo que
todos se entreolhavam. Ele sorriu. — Vocês já sabem!
— Pessoal, — o Bento tentou apaziguar. — É melhor que conversem
sozinhos. Mark ouve a Sofia.
— Você é um... — Minhas lágrimas banharam meu rosto, eu não vi mais
nada. Só queria sair dali. Odiava mais uma vez o Mark. Eu o odiava. Mas ele me
segurou.
— Sou o que Sofia? Um idiota? Cretino? Desgraçado? Como tantas vezes
você tem me chamado?
— É! Tudo isso e muito mais! Agora me deixa ir! E saiba que não haverá
volta.
— Mark! — O Bento interveio mais uma vez.
— Deixa Bento! Deixa-a falar o que quiser. Mas ela vai ter que escutar
também. Ela sempre vem e fala o que quer. Não é Sofia? Pode me chamar do
que quiser. Mas vai ser a última vez que vou dizer a você o que disse àquele
homem. — Quando ele me soltou eu arrumei minha roupa, sequei minhas
lágrimas, peguei minha bolsa encostei-a contra o peito como se isso fosse
diminuir minha dor, e comecei a caminhar. Não queria ouvir mais nada daquele
idiota. Criaria meu filho, sozinha. Eu não precisava de ninguém. Enquanto eu
caminhava, ele continuava a falar. —Eu disse ao Bernardo, e por isso ele se
irritou tanto, e me deixou nesse estado, que dissesse o que fosse que eu ainda sou
um homem apaixonado e que suas palavras não fariam diferença para mim. —
Ao ouvir as palavras dele eu congelei. Sem conseguir dar mais nenhum passo.
Ele tinha dito que era um homem apaixonado? Senti que sua voz se aproximava,
mas permaneci de costas. —E se quer saber onde passei a tarde toda? — Agora
ele devia estar bem mais próximo a mim. — Estava na delegacia, mesmo depois
de passar quase quatro dias em cárcere privado apanhando, tentando convencer a
polícia que a mulher que amo não está envolvida, nessa maldita situação. — Eu
tinha ouvido direito? Ele tinha dito “A mulher que ele ama”? Ele tinha me
defendido? Não havia acreditado no Bernardo? Meu Deus! Como a gente tinha
ficado tanto tempo separado?
Vir-me-ei com os olhos cheios de lágrimas e recebi o sorriso mais lindo do
mundo.
— Claro que jamais faria uma coisa assim! — Solucei. — Eu te amo! E
você pode ter certeza que essa criança é sua!
— Claro que é! Naquele fim de semana que esteve em meu apartamento eu
tive que reunir todas as forças que me restavam para engravidar você. Era minha
ultima chance.
— Mark? —Ele só podia estar brincando. A dor que trazia em mim todo
esse tempo parecia ter se rompido. Pensando que ele diria que eu engravidei de
propósito.
— Eu não fazia ideia se iria funcionar. Se iria me odiar por isso. Ou se me
daria nossa última chance. Mas então você sumiu, e eu pensei ter falhado.
— Eu só pensei em sua neurose em me afastar para me proteger. E quando
soubesse que estava grávida, seria pior. Ou diriam que dei o golpe da barriga. —
Ele gargalhou.
— Me perdoa. Não te dei opção de escolha.
— Claro que deu. Você quis até usar máscara. E eu te enganei. No fundo
também fui buscar esse bebê. — Toquei minha barriga. — Ele se ajoelhou,
beijou seu filho e sorriu. Depois se levantou olhou para seu pessoal que
observava de longe e vibrou.
— Olha aí galera... Minha melhor campanha.
Ouvimos os aplausos da equipe. E nos voltamos para eles. O Bento veio ao
nosso encontro com ar de alívio.
— Pensei que não fossem se acertar novamente e eu tivesse que ser o porta-
voz de meu afilhado.
— Seu afilhado? — Ele me olhou com um sorriso meio torto. — Espero
não ter escolhido a madrinha. Porque eu tinha pensando em minha irmã, e de
consagração a Ana.
— Não poderia ter feito escolha melhor meu amor.
Ele abraçou o amigo e sorriu.
— E lógico que para padrinho só poderia ser meu compadre.
— Que ficou aqui a tarde toda bolando uma brincadeira para contar que
você era o pai da criança.
— Depois me mostra assim mesmo. Preciso descansar. E levar essa família
para descansar também!
— Façam isso!
Notei que dessa vez, dois homens nos seguiam. E assim que entramos em
casa, ficaram diante o portão. Agora o Mark tinha segurança. A gente tinha
segurança.
E foi em segurança que naquela noite eu adormeci em seus braços, exausta,
mas a mulher mais feliz e realizada do mundo.
Bônus
Sofia,
—Prazer em revê-la! —O homem indicou a cadeira para sentar-me, e
por incrível que pareça eu não me sentia nervosa.
O Advogado do Mark, e agora meu, fez questão de estar presente,
mesmo eu não estar sendo indiciada a nada ainda. Somente estava ali como
informante, em um caso onde o Mark era a vítima. Mesmo assim, eu gostei
da intenção dele, de que o advogado estivesse por perto.
— A senhora gostaria de nos contar um pouco de seu relacionamento
como o senhor Bernardo de Oliveira e como foi que ele chegou ao
conhecimento da fortuna de seu atual namorado?
— Bom... O Bernardo é o editor chefe da editora para a qual eu estava
escrevendo um livro. Na verdade, ele e mais um sócio, são os proprietários
de tal editora. O conheci aproximadamente seis meses atrás e nos tornamos
bons amigos.
— Disse que estava escrevendo um livro para eles. Quer dizer que
rompeu o contrato.
— Não seria o esperado?
— Eu gostaria de lembrá-la que eu faço as perguntas aqui.
— Sim senhor!
— Disse que ser tornaram bons amigos.
— Isso!
—A ponto de anunciarem casamento?
— Sim! Mas era um tipo de arranjo. Nada sério. Um acordo comercial.
Marketing para meu livro, o que de alguma forma estava dando retorno
também para a editora.
— Entendo.
— Só que, percebi que o Bernardo nos últimos dias estava levando a
sério demais chegando até mesmo a marcar a data do casamento, e eu não
queria que o Mark pensasse mal a meu respeito. Afinal, eu estava esperando
um filho dele, e meu plano era voltar e manter minha família.
— Família que há pouco tempo à senhora mesmo havia pedido a
dissolução.
— Sim! — Eu olhei para o advogado começando a ficar insegura. O
delegado havia se informado de toda minha vida. Cada passo.
— E eu posso saber o motivo pelo qual a senhora teria a intenção de
voltar com algo que acabara de dissolver?
— Claro que pode! Nosso primeiro casamento, não havia sido uma
opção não. Não havia dado certo, porque nem o Mark, nem eu havíamos
feito àquela escolha. Apenas aceitamos. Mesmo que através dela, tenhamos
nos descoberto e nos apaixonando. E agora, eu tinha para comigo, que não
podemos prosseguir separados.
— A senhora está dizendo que foi forçada a se casar com o senhor
D’Angelis?
— Não! Não foi bem uma obrigação! É que, foi um pedido. Um favor
que eu prestei ao irmão dele, ou melhor, à família D’Angelis.
— Favor?
— Sim!
— Anota isso escrivão. Ela prestou um favor à família D’Angelis se
casando com um dos herdeiros. — Eu olhei para o advogado, mas ele fez
um gesto como se eu não me incomodasse com as perguntas. — Isso não
lhe soa estranho senhorita?
— Na época não! Pareceu normal, mas agora sim! Parece um absurdo.
— Então porque se dá ao trabalho de querer se casar novamente com o
senhor D’Angelis? — Gente, será que ele havia visto que eu estava
grávida? Não tinha entendido que a gente se amava?
— Porque durante o tempo que fiquei casada, descobrimos que nos
amávamos.
— Nada a ver com ele ter herdado a fortuna da mãe?
— Inclusive quando nos separamos ele já tinha o dinheiro em mãos e
me ofereceu a metade. Eu recusei!
— Recusou a metade do dinheiro de seu marido assim? Sem mais nem
menos? Ou já pensando em ficar com tudo, caso fosse uma viúva? — O
advogado interveio.
— Meritíssimo, gostaria de saber se devo me preocupar, em apresentar
minha cliente como ré ou se ela continuar apenas sendo colaboradora no
processo?
— Não senhor doutor. São perguntas simples e normais que devem
constar no processo para que se entenda o caso.
— Eu posso responder. Eu apenas recusei porque não me pertencia. E
caso eu venha a me casar com o Mark novamente, então nos sentaremos e
discutiremos como será a partilha de nossos bens, porque eu tenho de onde
tirar meu próprio sustento, se é esse seu medo ou de toda sociedade, mas
não será sua imposição ou de uma sociedade medíocre que me fará viver
pela metade minha vida conjugal. Isso será decidido por mim, e por meu
marido. Não diz mais respeito a ninguém. Eu não vou me ater a dizer ao
Mark para nos casarmos em separação de bens apenas para provar a
sociedade que o amo, além do que ele tem. Ele deve saber disso antes de
entrar na igreja, ou não deverá nem marcar a data do casamento. Mas, se a
gente decidir por essa solução, também será por livre opção. Uma vez eu
quis mostrar as pessoas que já tinha maturidade suficiente para tomar meu
próprio caminho e quase perdi o grande amor da minha vida, minha sorte, é
que como ele disse uma vez: Todos os nossos caminhos chegam ao mesmo
lugar.
Fiquei de pé, agradeci. Quando viu que eu sairia o homem ainda me
olhou e sorriu.
— A senhora quer que tudo isso conste nos autos? — Eu apenas sorri,
e saí, me sentindo livre! Digna e plena. E o mais importante: Com a
consciência tranquila!
Trinta e um.
Dois meses depois,
Sofia,
— É de livre espontânea vontade que aceita Mark D’Angelis como seu
legítimo esposo? — Eram palavras significativas para nós. “Livre e
espontânea vontade”. E eu disse bem alto!
— Sim!
— Mark D’Angelis, é de livre espontânea vontade que aceita Sofia
como sua legítima esposa? — Como o Mark tinha um sorriso lindo! Era o
que mais admirava nele. Seu jeito de menino.
— Eu vos declaro Marido e Mulher!
— Até que enfim! — Nós não vimos quem havia gritado, mas nos
beijamos e sorrimos com os demais convidados e presentes.
Dessa vez, optamos por nos casar na Igreja. Levamos dois meses para
entre esperar a Catarina terminar o período de luto, embora saibamos que
está fazendo de tudo para sorrir por fora, mas está quebrada por dentro, se
empenhou em ajudar na preparação, e eu não poupei esforços em deixá-la
conduzir os preparativos da festa. Afinal, ela merecia isso. Alegrar um
pouco seus dias escuros.
Assim que atravessamos os portões da mansão D’Angelis para a
recepção, eu que ainda estava com o coração apertado por ter cedido ao
pedido da Catarina em fazer a recepção ali, dando a ela à oportunidade de
fotografar a casa decorada e assim sair nas revistas convidando novas
noivas a fazerem ali sua recepção, percebi que era só um receio bobo de
minha parte, e que a sociedade entre Catarina e Ana, minha tia tinha tudo a
dar certo. A casa estava maravilhosa. Perfeita. A organização impecável.
Foi de tirar o fôlego. Claro, que com o Mark pagando até algumas pequenas
reformas que eram precisas há muito tempo, tudo ficaria perfeito.
Depois de toda formalidade, eu subi para tirar o vestido. E não o teria
visto chegar de tão sorrateiro. Estava conversando com nosso filho, que
estava para chegar dali a duas semanas ou menos.
— Está bem?
— Sim!
— E esse garotão aqui? — Se ajoelhou e encostou a cabeça sobre
minha barriga. — Oi filho! Papai está ansioso para te pegar nos braços. —
Depois se levantou e me trouxe para mais perto de si. —Feliz senhora
D’Angelis novamente? — E a gente gargalhou.
— Muito feliz! Mas, apenas uma correção, na verdade, é a primeira
vez de verdade. Da outra vez foi uma armação do Liam. Que Deus o tenha.
— A melhor que ele fez em toda sua vida. Vibrei quando soube que
teria que fazer o sacrifício de me casar com você. — Tocou meus lábios
com o seu. — Era o que mais desejava em minha vida. Sabe que às vezes
penso que ele fez tudo de caso pensado, porque desde a adolescência ele
sabia que eu amava você.
— Não! Eles estavam mesmo achacando que você havia optado por
ser gay. E você maquinava me levar para cama. Mark, você não valia um
centavo.
— Devo não valer até hoje, porque ainda maquino isso todos os dias.
Como driblar seu mau-humor. Essa barriga. A TPM. — Só ele me fazia rir.
Não era só sorrir. Era rir mesmo. Com vontade. E não era aquele sexual
abusivo, ele era sensual. Lindinho. E era meu! O que era melhor.
— Mês que vem é o lançamento de seu livro e a nova editora disse que
já se fala em novo recorde de venda em pré-venda, é isso mesmo? — E
acima de tudo, um ótimo companheiro.
— Acredita? — O abracei! Segundo minha nova editora, que assim
que soube minha quebra de contrato com o Bernardo se dispôs a cobrir o
acordo de quebra e a cobrir meu contrato com ele, nós estávamos indo tão
bem na pré-venda que poderíamos alcançar a lista dos mais vendidos do
ano. E eu estava me desmanchando de alegria. Mas o Mark estava me
dando o maior apoio. Havia até mesmo feito uma campanha para
divulgação e a feito circular pelas mídias. — Só que ao comentar do livro
pareceu perder um pouco a alegria. — Algo errado com o livro, Mark?
— Não! Apenas me passou pela cabeça que em determinado momento
do livro, você cita o Liam.
— Está com ciúmes de seu irmão Mark? Em momento algum cito o
Liam em meu livro.
— Sim! Você diz: “Talvez ela nunca o tivesse amado. Talvez seu
coração não batesse mais como um dia tivesse batido. Quem poderia
garantir que quando aberta as portas da gaiola, ela voaria e amaria de tal
forma o voo que nunca mais se sentiria feliz sendo presa novamente? Que
garantia teria de que não se apaixonaria por um pássaro que também voava
livre, alçando os mesmos voos que os seus. Como poderia o amor existir?
Agora ela sabe que nunca existiu! E livre ela pode amar outra vez!” —
Como uma pessoa apaixonada guardava tantos detalhes na mente? Eu era
testemunha viva disso. Guardava até mesmo o perfume da loção pós-barba
do Mark.
— Uma vez caminhava pelo parque na França e senti sua loção pós-
barba e saí correndo atrás do homem pensando ser você.
— E o que isso tem a ver com o Liam?
— Com o Liam nada! Tem a ver com você. Você é meu pássaro.
Estudos comprovam Mark que pássaros que ficam presos, por mais que a
gaiola esteja aberta eles voam e voltam. Mas quando conhece um pássaro
que voa junto com ele, ele nunca mais volta. E foi isso que aconteceu
comigo quando passei a amar você. Descobri que nunca tinha amado o
Liam de verdade, porque nunca havia sentido o que senti por você. Então
não existia uma pessoa entre nós, e sim minha imaginação. Meus sonhos e
ilusões. Só eu! Meus sonhos foram adiados. Minhas conquistas afastadas e
não foram pelo Liam, nem por você ou pela família D’Angelis. Apenas por
mim e por minha obsessão em “Achar” que amava o Liam. Por isso, ele se
divertia tanto. E com razão.
— Mesmo assim, ele não tinha esse direito.
— Claro que tinha. Nunca tinha me dado à liberdade ou nenhum
indicio de que gostava de mim. Apenas fora gentil uma vez me salvando do
pai. Isso não queria dizer que estivesse apaixonado por mim. A gente tem
que entender que talvez estejamos passando metade da vida culpando as
pessoas erradas por nossa derrota. Por nosso fracasso. Por nossas falhas.
Muitas vezes nosso pior inimigo está dentro de nós, e não ao nosso redor.
— Mulher, eu já disse que você deveria ser escritora? — Me abraçou.
— Só quero saber se isso ficou claro entre nós?
— Não tenho nem mais argumentos. Só quero que saiba que quando
quiser, podemos ir para casa. Não quero que se canse muito! — Sempre tão
cheio de cuidados. Esse era o Mark.
Ainda ficamos uma hora a mais, conversando com as pessoas que
estavam ali, escolhidas por nós com muito carinho. E só depois fomos para
casa.
A casa era linda, a mesma em que ele vivia com a minha tia, não tinha
porque comprarmos outra. Principalmente agora que ela voltara a morar
com a Catarina em sociedade.
Era ali, que há dois meses eu vivia feliz, escrevendo durante o dia, e
esperando meu marido à tarde. Às vezes, ele vinha para o almoço, e às
vezes não. Mas quase sempre quando não vinha me fazia uma surpresa para
o chá da tarde. Quando deitava sua cabeça em meu colo e lia algo para
nosso filho.
E foi assim que eu me tornei a mulher mais poderosa do mundo. Não
alçando um grande voo de uma única vez. Mas dando pequenos passos,
errando e aprendendo, como gente como a gente faz. Todos os dias. Errando
e aprendendo, porque ninguém nasce sabendo. Mas sem tirar os olhos de
meu objetivo. E principalmente, sem perder os meus valores. Meu único
medo continua sendo daqueles que acham que acertam sempre! E que não
temos o direito de chorar. Ao contrário... Estamos na vida para vencer, mas
engana-se quem quer pegar um atalho sem pedras e sem espinhos, achando
que esse desvio lhe fará uma pessoa melhor que o caminho dos que choram.
Lágrimas são essenciais no alicerce e na construção de caráter.
Hoje eu posso dizer com toda certeza, eu fiz a opção correta: Meu
marido, meu filho minhas melhores escolhas!
Sofia D’Angelis.
Epílogo
Um ano mais tarde, quando soubemos que o Bernardo havia sido
condenado por formação de quadrilha e conspiração, foi coincidentemente
o dia em que o Maicon dava seus primeiros passos. E com o pai em uma
reunião não veria a proeza do filho. Mas para meu espanto ele esbarrou em
alguém e caiu.
— Poxa filho! Estava indo tão bem! — O Mark se abaixou e recebeu o
sorriso do Maicon como se nada tivesse acontecido. E como o filho
estendesse os braços ele deixou a mochila e pegou o menino.
— Encontrou o papai no caminho meu amor?
— Eu já disse meu amor, que não tenho culpa se todos os caminhos
me levam até vocês!
Instagram: Laufisher39
Laufisher39@yahoo.com.br