TCC Amor e Feminicídio - Versão Final Ficha Catalográfica
TCC Amor e Feminicídio - Versão Final Ficha Catalográfica
TCC Amor e Feminicídio - Versão Final Ficha Catalográfica
UBERABA
2021
BEATRIZ DE CASTRO E FREIRE
UBERABA
2021
BEATRIZ DE CASTRO E FREIRE
19 de fevereiro de 2019
Banca examinadora:
Eu gostaria de agradecer o meu irmão Caio de Castro, que sempre foi mais que um mero
irmão, ele é pai, amigo, companheiro, cúmplice. Foi por ele que consegui entrar em uma
universidade, foi por ele que eu também estou conseguindo sair dela. Se não fosse os amparos
financeiros, mas sobretudo emocionais que ele me proporcionou eu jamais estaria aqui. Ele é meu
exemplo e orgulho, meu parceiro de profissão e a pessoa minha pessoa favorita do mundo. Ele é
a pessoa que não só acreditou na minha capacidade, mas que me inspirou a ser melhor a cada dia.
Agradeço também a minha orientadora, professora e inspiração Sandra Mara Dantas, que
foi a minha melhor escolha. Foi a partir dos conselhos e observações dela que passei a acreditar
mais na minha capacidade acadêmica e na minha luta como mulher. Sem dúvida, não houve
pessoa que mais acreditou em mim para escrever esse trabalho do que ela. Me sinto lisonjeada de
ter contado com o carinho, dedicação e paciência dessa mulher, professora, educadora e ser
humano incrível.
E queria também agradecer minhas melhores amigas. Milena Costa, minha parceira
desde o primeiro dia dessa graduação, que foi imprescindível não só na minha trajetória
acadêmica, mas na minha formação pessoal. Que nunca me deixou esquecer do meu potencial e
que sempre acreditou nos meus sonhos. Esteve presente em todos os meus momentos e ciclos, e
que viveu comigo cada sensação de escrever esse trabalho. Maria Clara Murarolli, que entrou na
minha vida e trouxe luz, cores, novas perspectivas e todo o apoio do mundo. Se não fosse pelo
carinho e cuidado dessa mulher, não estaria aqui. Foi através das nossas trocas que pude acreditar
mais em mim, que pude perceber que era possível sim fazer a diferença no mundo.
Trabalhar com a temática de violência e feminicídio nem sempre é fácil e por isso são
tão grata de ter uma rede de pessoas que me ajudaram em cada momento de dificuldade. Esse
trabalho foi construído para concluir um curso, mas foi através dele que eu me construí como
feminista e militante. Esse trabalho é por todas as mulheres deste Brasil. Que esse conhecimento
adquirido me ajude na luta por uma sociedade melhor.
Nós somos Mulheres de todas as cores
De várias idades, de muitos amores
Lembro de Dandara, mulher foda que eu sei
De Elza Soares, mulher fora da lei
Lembro de Anastácia, Valente, guerreira
De Chica da Silva, toda mulher brasileira
Crescendo oprimida pelo patriarcado, meu corpo
Minhas regras
Agora, mudou o quadro
A monografia tem como objetivo abordar o tema violência de gênero, a distorção do fenômeno
amor nas relações afetivas heterossexuais ocidentais e a naturalização do feminicídio. A partir da
discussão do conceito amor, do conceito de gênero e do patriarcado, buscou-se analisar de que
maneira as relações amorosas e os papéis femininos e masculinos foram construídos no Ocidente,
desde Grécia Antiga, percorrendo por Roma Antiga, Idade Média, Idade Moderna colocando em
evidência Portugal até chegar ao Brasil. Neste, discutiu-se aspectos da história das relações
amorosas, desde a colonização até o século XXI. Em ato contínuo, buscou-se analisar a presença
intensa da violência contra as mulheres nas relações afetivas e todo o processo de emancipação
feminina que passou a revelar e denunciar a condição das mulheres, sobretudo a condição da
violência. Outrossim, procurou-se entender como a imprensa foi usada de instrumento que
colaborou para a perpetuação dos papéis de gênero e para a banalização do feminicídio. O caso
do assassinato de Ângela Diniz por “Doca” Street, em 1976, em Búzios, Rio de Janeiro,
acompanhado e noticiado pelo jornal impresso “O Globo”, foi escolhido como objeto de análise,
a fim de compreender como a morte das mulheres era explorado pela mídia como fonte lucrativa.
A metodologia constituiu-se na revisão bibliográfica e na análise do jornal que fez a cobertura
completa do caso, ou melhor, da vida do acusado após o crime. O jornal “O Globo” acompanhou
e noticiou todo o andamento do julgamento por meio de narrativas que colaboraram para a
perpetuação dos papéis de gênero e com mentalidades que banalizavam o valor da vida das
mulheres.
The monograph aims to address the theme of gender violence, the distortion of the love
phenomenon in Western heterosexual affective relationships and the naturalization of femicide.
From the discussion of the love concept, of the concept of gender and patriarchy, sought to analyze
how love relationships and female and male roles were built in the West, from Ancient Greece,
touring Ancient Rome, Middle Ages, Modern Age putting Portugal in evidence until it reached
Brazil. In this, aspects of the history of romantic relationships were discussed, from colonization
to the 21st century. In an ongoing act, we sought to analyze the intense presence of violence
against women in affective relationships and the entire process of female emancipation that began
to reveal and denounce the condition of women, especially the condition of violence. Furthermore,
we sought to understand how the press was used as an instrument that collaborated for the
perpetuation of gender roles and for the trivialization of feminicide. The murder of Ângela Diniz
by “Doca” Street, in 1976, Búzios, Rio de Janeiro, accompanied and reported by the printed
newspaper “O Globo”, it was chosen as an object of analysis in order to understand how the death
of women was exploited by the media as a profitable source. The methodology consisted of the
bibliographic review and analysis of the newspaper that covered the case, as well as the life of the
accused after the crime. The newspaper “O Globo” followed and reported the entire progress of
the trial through narratives that contributed to the perpetuation of gender roles and with mentalities
that trivialized the value of women's lives.
Key-words: Cultural History. History and Media. Gender Relationships. Ways to Love. Violence
Against Women. Femicide.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ................................................................................................................... .9
1 A CONSTRUÇÃO DAS RELAÇÕES AMOROSAS NO BRASIL ............................ 13
1.1 O QUE É AMOR? AS RELAÇÕES AO LONGO DO TEMPO: GÊNERO E
PATRIARCADO................................................................................................................... 13
1.2 A HISTÓRIA OCIDENTAL DAS RELAÇÕES AMOROSAS ........................................ 20
1.3 O AMOR E AS RELAÇÕES NO BRASIL ...................................................................... 26
2 A NOVA MULHER E AS NOVAS RELAÇÕES ........................................................ 40
2.1 A “NOVA MULHER” BRASILEIRA DO SÉCULO XX ..................................................44
2.2 A LUTA FEMINISTA E A REVOLUÇÃO NOS VALORES......................................... 63
3 AMAR DEMAIS MATA! ............................................................................................... 67
3.1 A VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER: VIOLÊNCIA DOMÉSTICA ...........................68
3.2 A LEI DOS HOMENS: CRIME PASSIONAL E LEGITÍMA DEFESA, DA HONRA? . 71
3.3 O USO DA IMPRENSA COMO FONTE HISTÓRICA.....................................................79
3.4 O CASO ÂNGELA DINIZ..................................................................................................83
3.5 O PÓS-JULGAMENTO......................................................................................................97
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS..............................................................................................103
REFERÊNCIAS.......................................................................................................................106
9
INTRODUÇÃO
intervenções sociais, psicológicas e jurídicas e tinha como objeto as denúncias nos distritos
policiais.
Visto que mesmo após a promulgação de políticas públicas, na virada do século XX
para o XXI, como as Delegacias da Mulher, a Lei Maria da Penha e a Lei do Feminicídio, a fim
de proteger as mulheres da violência, o problema ainda se faz presente no Brasil. O intuito,
então, deste trabalho é trazer uma conceptualização histórica das relações amorosas no mundo
ocidental.
O estudo se inicia na Grécia Antiga até chegar na colonização do Brasil, com foco,
sobretudo, na configuração das relações amorosas pelos séculos da história do país, a fim de
conceber como as relações foram tecidas com base na dominação e no poder do patriarcado. A
partir das relações de gênero, aborda-se a ênfase que o uso do amor foi utilizado como
justificativa para violentar e matar mulheres, o que é no mínimo, contraditório e irracional e
pretexto para a impunidade de homens.
Ao longo da pesquisa, percebe-se que muitos homens usavam da tese da legítima
defesa da honra, uma “brecha” na lei, respaldada pelo sistema judiciário a fim de justificar o
assassinato de mulheres. Defendia-se que quando uma mulher não cumpria com seu papel moral
ou quando cometesse adultério, poderia ser assassinada, uma vez que provocava o companheiro
a cometer o crime, ferindo a sua honra. Os homicidas passionais - como eram chamados -
sustentavam a ideia segundo Marabezzi (2010), que a paixão podia gerar sintomas psíquicos
que culminavam em ausência de auto-controle emocional, que promovia o delito.
A grande questão deste trabalho gira em torno de conceitualizar o fenômeno amor, a
fim de entender como ele foi construído e experienciado ao longo da história, sobretudo no
Brasil, e como este se tornou justificativa no sistema judiciário brasileiro para absolver homens
que mataram suas mulheres. O amor justifica a violência? É a partir desta questão que a pesquisa
irá discorrer.
Este trabalho tende a contribuir para a história cultural, revelando a trajetória da
construção das relações amorosas, apontando como o amor era introduzido e experenciado de
maneiras distintas por homens e mulheres, desencadeando contradições dos papéis sociais que
refletem na sociedade até os dias atuais. Colabora em buscar analisar como as relações afetivas
brasileiras foram traçadas a partir da posse, controle e violência contra as mulheres e como isso
se instaurou na nossa cultura e norteou as relações, podendo ver esses reflexos até hoje.
Para isso, esta pesquisa se valeu de fontes bibliográficas que dissertam acerca da
história das relações, dos papéis sociais, das relações de gênero, do patriarcado, do fenômeno
amor, da violência, do sistema judiciário brasileiro, obras como “A história do amor no Brasil”
11
1
Dicionário Online.
14
de sobrevivência, reprodução e interesses genéticos da espécie. Para mais, David Buss (2006)
defende que o amor é um mecanismo adaptativo para conseguir compromisso, atribuindo o
ciúme como estratégia evolutiva para proteger a relação, já que tipicamente ciúme é difundido
como sinônimo de prova de amor, mas que pode provocar comportamentos de assédio e
controle.
As teorias estruturalistas analisam o amor como um elemento da ação social, entendido
no âmbito das estruturas e sistemas sociais que organizam a sociedade e os indivíduos,
conforme Goode (1959, apud TORRES, 2001). Dentro do campo da sociologia, no final da
década de 1980, William Goode considera que a intensidade e a vivência do amor se relacionam
com a estrutura social. Nesse sentido, a experiência amorosa não vai ser livre, mas regulada por
padrões socioculturais, diferindo de lugar para lugar, de sociedade para sociedade e com o
objetivo de manter os sistemas e as estruturas sociais vigentes, sejam eles quais forem.
As teorias taxonômicas recorrem a metodologias quantitativas para quantificar o amor
em termos de atitudes, crenças, cognições, comportamentos. Berscheid (2006) aponta dentro
desta, que o amor pode assumir múltiplos significados, uma vez que é o contexto na qual a
palavra é usada que determina o seu significado. A autora divide o amor em tipos: amor apego,
amor compaixão, amor companheiro/gostar e amor romântico e cada tipo estará associado a
comportamentos diferentes e têm diferentes causas. Hendrick e Hendrick (2006) consideram
numa perspectiva da psicologia social, uma tipologia que subdivide o amor em: apaixonado,
jogo/amor descomprometido, amor amizade, amor calculado, amor altruísta, amor obsessivo.
Cada estilo resulta de uma combinação de comportamentos e crenças que estabelecem o que
cada pessoa pode sentir, relacionando ainda a traços da personalidade e diferenças de gênero
que modelam a experiência de amar. Essas subdivisões nos permitem perceber que o amor pode
se manifestar nas diferentes relações, com diferentes significados, não motivada apenas por
questões reprodutivas, mas que consiste numa combinação de diferentes fatores que promovem
o sentimento. O amor não segue um padrão, ele é singular e se personaliza a cada relação
concebida.
Ainda sobre esta teoria, Fehr (2006) aponta sobre as concepções que os indivíduos
possuem do amor – “amor protótipo” (no que se refere ao que as pessoas pensam que seja o
amor), que vai diferir entre as culturas. Sternberg (2006) colabora nessa perspectiva,
reconhecendo o papel das narrativas culturais que os sujeitos estão expostos, definindo como
deve ser o amor. Essas histórias traduzem-se na dinâmica relacional, na medida em que as
pessoas procuram exercer as histórias em que acreditam.
15
Por fim, as teorias construcionistas sociais procuram entender os processos pelas quais
os sujeitos constroem a vida social e fazem sentido dela. Pensando o amor sob essa perspectiva,
este é socialmente construído diferindo em função do contexto social, cultural e histórico.
Lierberman e Hatfield (2006) dissertam que o amor apaixonado parece ser universal, mas que
os valores culturais inspiram o significado atribuído ao termo. Para exemplificar, em uma
pesquisa multicultural moderna, Philip Shaver (1991) 2 comparou relatos de italianos, norte-
americanos e chineses acerca do fenômeno amor. Enquanto os dois primeiros associavam o
amor romântico com a felicidade, o último via como algo negativo, uma vez que nesta cultura
existe uma tradição de casamentos arranjados. Segundo Hatfield e Rapson (2005) a cultura vai
regular a forma como os sujeitos se conhecem, por quem e como se apaixonam e a intensidade
emocional que cada pessoa experiencia o amor, bem como o comportamento e as práticas
relacionais.
Essas quatro teorias, advindas no campo da psicologia e da sociologia, cada uma com
a sua perspectiva acerca do que é amor, tentam definir como este fenômeno poderia vir a
funcionar. Entendo que singularmente nenhuma pode explicar inteiramente como o fenômeno
se manifesta e atua amplamente na vida das pessoas, nem que uma teoria tenha que
necessariamente excluir a outra. Nesse sentido, acredito que todas se complementam quando se
trata de contextualizar o amor, sendo que, ao ser um fenômeno, ele é inato, movido por
hormônios e cognição, mas a experiência do amor é social, vai ser regulado pelo lugar que
vivemos, pelas pessoas que convivemos, pela organização social que estamos inseridos, pelos
padrões sociais estabelecidos, pelas narrativas que somos expostos, pelos significados que
atribuímos nas relações e pela cultura que nos cerca. E para evidenciar essa dialética, contamos
com o auxílio da história, para entrever como, através do tempo, se comportaram nossos
ancestrais diante do sentimento amoroso e compreender a natureza da intimidade entre homens
e mulheres e suas ramificações sociais. “O amor, dirá finalmente alguém, é um problema de
vida, de ordem sensível, de estética e de poética, não de conceitos. “[...] E o amor não muda só
no espaço, mas no tempo também” (PRIORE, 2005, p. 12).
Para definir como palavra e/ou conceito, o “amor” precisou ser experimentado e
percebido. Isto é, anterior ao conceito “amor”, anterior as representações e a sua relação com
as sociedades e culturas o fenômeno é inato, motivado por hormônios, mecanismos neuronais
e fisiológicos. Sentir amor resulta de um conjunto de adaptações cognitivas e comportamentais,
assim como beber e comer. E da mesma forma como desenvolvemos do hábito de comer com
2
Shaver, Wu e Schwartz (1991); discutido em Hatfield e Rapson (2000)
16
as mãos para o hábito de usar talheres, a maneira de experienciar o amor foi se modificando
através do tempo.
Entretanto, não é possível falar de amor e relações sem falar de gênero e patriarcado.
Estes dois conceitos incorporados de uma polissemia de definições são os dois componentes
que operam dialeticamente e agem diretamente no seio da sociedade como estruturantes,
sobretudo na dinâmica das relações afetivas.
A começar pelo gênero, desde que se tornou uma categoria de análise, segundo
Heleieth Saffioti (2011) muitos aspectos deste foram levantados, mas há um campo de
consenso: o gênero é a construção social do feminino e do masculino. Essa visão do ser
masculino e do ser feminino dispõe de uma historicidade – datada desde o início da humanidade
- e é instituída pelas práticas sociais, signos e símbolos que deram forma as representações de
gênero.
O gênero é um elemento constitutivo de relações sociais baseadas sobre as diferenças
percebidas entre os sexos, entretanto essa elaboração social do sexo pode ser ressaltada, sem
gerar dicotomia entre sexo e gênero, um na biologia e natureza e outro na sociedade, na cultura.
Segundo Saffioti (2011, p. 109) sexo e gênero devem ser considerados uma unidade “[...] uma
vez que não existe uma sexualidade biológica independente do contexto social em que é
exercida.”
Enquanto categoria histórica, o gênero pode ser concebido em várias instâncias, mas
partirei da questão da gramática sexual3, que opera não só nas relações homem-mulher, mas
também nas relações homem-homem e mulher-mulher dentro da sociedade, como normas
modeladoras para seus papéis sociais, sobretudo, hierárquicos.
Nesse sentido, embora não haja formulado o conceito de gênero, Simone de Beauvoir
mostra que só lhe faltava a palavra, para evidenciar a hierarquização que se deu dos homens
sobre as mulheres:
3
SAFFIOTI (1992, 1997b); SAFFIOTI e ALMEIDA (1995).
17
Neste sentido, as relações sociais são fundamentadas pelo poder que ao longo do
tempo, foi estabelecido pelo masculino em detrimento do feminino. Nas relações entre homens
e mulheres a desigualdade de gênero, longe de ser natural, não é dada, é construída pela tradição
cultural e estruturas de poder que foram estabelecidas na trama das relações sociais.
Naturalizou-se o feminino imbuído de uma suposta fragilidade do corpo da mulher, na mesma
medida que naturalizou-se a masculinidade pertencente a força no corpo do homem. Esta
conduta faz parte das tecnologias de gênero, de acordo com Lauretis (1987 apud SAFFIOTI,
2011, p. 77), que normatizam condutas desiguais para e entre mulheres e homens.
A relação de poder e subordinação que se criou entre homens a respeito das mulheres
passa a se tornar uma instituição cultural, configurando as sociedades no mundo e delineando
os papéis de cada um no interior das relações, ao longo do tempo.
Mais à frente, surge uma ramificação das relações de gênero: O Patriarcado. Segundo
Saffioti (2011) a instauração do Patriarcado é datada em 3.100 a.C. e sua consolidação efetiva
em 600 a.C., É quase um recém-nascido em detrimento da história da humanidade, mas que se
mantém sólido até a atualidade, se transfigurando ao longo do tempo e pelas sociedades.
Esse conceito, muito além de uma ideologia, consiste num regime de dominação-
exploração das mulheres pelos homens, centralizando, sobretudo o controle da sexualidade
feminina. Pateman (1993 apud SAFFIOTI, 2011, p. 53) elucida a respeito do pacto original 4.
4
A liberdade do homem e a sujeição da mulher derivam do contrato original e o sentido da liberdade civil não
pode ser compreendido sem a metade perdida da história, que revela como o direito patriarcal dos homens sobre
as mulheres é criado pelo contrato. A liberdade civil não é universal – é um atributo masculino e depende do direito
patriarcal. Os filhos subvertem o regime paterno não apenas para conquistar sua liberdade, mas também para
assegurar as mulheres para si próprios. Seu sucesso nesse empreendimento é narrado na história do contrato sexual.
18
Este pacto consiste num contrato dicotômico: social e sexual. Concedendo no social uma
história de liberdade, para os homens e uma história de sujeição das mulheres.
O pacto original é social no sentido de patriarcal porque garante o direito político dos
homens sobre as mulheres – e, também sexual no sentido em que estabelece um acesso
sistemático dos homens ao corpo das mulheres e o domínio da sua sexualidade.
Diferente do que alguns defendem sobre a distinção do contrato social do sexual,
associando este último somente à uma esfera privada, Saffioti (2011) defende que as relações
patriarcais, suas hierarquias e estrutura de poder afetam toda a sociedade civil e impregna
também o Estado, pois o espaço público e o espaço privado, em fins analíticos são esferas
distintas, entretanto, são inseparáveis para a compreensão do todo social. O contrato original é
masculino, ou seja, entre homens, cujo objeto são mulheres, a diferença sexual é convertida em
diferença política. Logo, o patriarcado é uma forma de expressão do poder político e a liberdade
civil vai depender desse direito patriarcal.
Hartmann (1979 apud SAFFIOTI, 2011, p. 105) defende que existem relações
hierárquicas entre os homens, assim como uma solidariedade entre eles, que os capacitam em
estabelecer um controle sobre as mulheres. Saffioti (2011) complementa esta fala elucidando
que este regime assegura para os homens e seus dependentes os meios necessários à produção
diária e à reprodução da vida. Se trata de uma economia doméstica, ou domesticamente
organizada, que sustenta a ordem patriarcal, determinando em maior ou menor grau, o destino
das mulheres como categoria social. Neste regime, as mulheres são objetos da satisfação sexual
dos homens, reprodutoras de herdeiros, de força de trabalho e de novas reprodutoras.
Se tratando de uma polissemia de significados, o Patriarcado conta com a concepção
sociológica de Weber (1999) que defende que patriarcado é um sistema de dominação de poder.
Nele, o dominador coloca sua vontade sobre os outros, sua estrutura de dominação é
estabelecida pelas relações pessoais entre o seu senhor 5, assumindo uma posição de autoridade
e seus familiares que são tidos como servos. A dominação 6 estabelecida aqui se dá entre o
dominador e sua família por meio da concepção de posse.
O pacto original é tanto um contrato sexual quanto social: é social no sentido de patriarcal – isto é, o contrato cria
o direito político dos homens sobre as mulheres – e também sexual no sentido do estabelecimento de um acesso
sistemático dos homens ao corpo das mulheres. O contrato original cria o que chamarei, seguindo Adrienne Rich,
de ‘lei do direito sexual masculino’. O contrato está longe de se contrapor ao patriarcado: ele é o meio pelo qual
se constitui o patriarcado moderno. (PATEMAN, 1993, p. 16-17 apud SAFFIOTI, 2011, p. 53-54)
5
Pai, Chefe da Família, Patriarca.
6
Weber descreve que: Por "dominação" compreenderemos, então, aqui, uma situação de fato, em que uma vontade
manifesta ("mandado") do "dominador" ou dos "dominadores" quer influenciar as ações de outras pessoas (do
"dominado" ou dos "dominados"), e de fato as influências de tal modo que estas ações, num grau socialmente
19
Saffioti (2011, p. 56) defende que é necessário abandonar a acepção do poder paterno
do direito patriarcal, mesmo que ainda seja legítimo afirmar que se vive sob a lei do pai. Porque,
sobretudo nas sociedades complexas contemporâneas, o patriarcado se faz por um regime de
relações homem-mulher a partir do direito sexual. Isto equivale a dizer que o agente social
marido se constitui antes que a figura do pai. “O patria potestas cedeu espaço, não à mulher,
mas aos filhos. O patriarca que nele estava embutido continua vivo como titular do direito
sexual.” A autoridade política e social do homem já está garantida antes dele se tornar pai.
A mesma autora sustenta este argumento segundo o artigo de Harding (1986) que
dialoga com o pensamento de Pateman:
Diante do que foi exprimido, é natural que se associe à mulher uma posição de vítima
dessa dinâmica socio-cultural. Não se nega o fato de que realmente as mulheres configuram
uma categoria social desprivilegiada em relação aos homens, entretanto é fundamental ressaltar
que as mulheres não são passivas. A questão é que todos foram socializados na cultura patriarcal
de maneira naturalizada. E ainda que este regime disponha de uma série de violências,
simbólicas e materiais, as mulheres não são cúmplices do contrato original, pois precisariam
dar consentimento, logo, desfrutar de poder igual ao dos homens. Nesse sentido, as mulheres
só podem ceder, porque ambas as categorias de sexo respiram, comem, bebem, dormem etc.,
nesta ordem, porque é assim que foi estabelecido, mas também não quer dizer que não pode ser
superado, singular e coletivamente, como será abordado no próximo capítulo.
Inclusive, Saffioti (2011) elucida que esta estrutura hierárquica, que confere aos
homens o direito de dominar as mulheres, acontece independente da figura humana singular
investida de poder. Inclusive pode ser administrada pelas próprias mulheres, seja na relação
mulher-mulher, de subjugar as condutas exercidas por elas e também no desempenho com
maior ou menor frequência e com maior ou menor intransigência, as funções do patriarca,
disciplinando filhos e demais crianças/adolescentes, segundo a cultura e lei do pai.
relevante, se realizam como se os dominados tivessem feito do próprio conteúdo do mandado a máxima de suas
ações (obediência). (WEBER, 1999, p. 190)
20
Agora que ficou delineado os liames que cercam, influenciam e organizam as relações
sociais, podemos traçar na história como foram concebidas e experienciadas, especialmente no
Ocidente, as relações amorosas. Segundo a historiadora Marilyn Yalom (2002), na Grécia
Antiga, sobretudo na Atenas Clássica, se casar era uma convenção recomendada, estava
relacionada ao poder, posses e até a cidadania. Além de ser um acontecimento marcante, pois
significava tanto para o homem como para a mulher um ritual de passagem da infância para a
fase adulta.
Quanto a dinâmica das relações heterossexuais em Atenas, Yalom (2002) ressalta que
a mulher não era consultada sobre a escolha do noivo e o próprio casamento, se tratava de uma
transação entre o pai dela e o pretendente. E quando consumassem a relação na noite de núpcias,
o ato significava a transferência de posse da mulher, do pai ao marido. E apesar do casamento
ser a única forma legal de relação, os maridos podiam ter relações extraconjugais enquanto as
esposas eram severamente punidas se encontradas com algum amante. Era comum,
principalmente entre a elite culta a união homoerótica, entre homens (erastes) em torno de 40
anos e rapazes (eromenos) entre 12 e 18 anos e a relação se sustentava na transmissão de
conhecimento.
21
Segundo Luiz Carlos Corino (2006), as mulheres estavam destinadas apenas a função
cívica de reprodução. Enquanto na relação erastes-eromenos, só o erastes buscava a satisfação
sexual, enquanto o eromenos não podia manifestar prazer e se mostrar passivo, e não poderia
também ser obrigado a esse relacionamento, que inclusive tinha data de validade. Isto é, quando
o jovem se tornasse adulto, essa relação se transformaria em uma amizade e seria o seu
momento de buscar seu próprio eromenos e também encontrar uma mulher para casar e ter
filhos.
Se casamento não era sinônimo de amor e sim de status e ordem social, ficava a
encargo da mitologia e dos filósofos conceitualizarem o sentimento amoroso. Na Grécia Antiga,
o amor era categorizado com múltiplos sentidos, assim como as teorias taxonômicas. Segundo
o filósofo Danilo Marcondes (2008) o “amor Eros” sugeria impulso, desejo, força cósmica;
“Philia” indicava amizade; “Ágape” declarava amor como doação, amor divino e “Storgé”
consistia na afeição, amor familiar. Percebiam o amor se manifestando nas diferentes relações
com diferentes significados.
Ainda pensando a Antiguidade, em Roma, a configuração das relações não era muito
diferente de Atenas. A procriação era quase sempre o motivo principal para casamento, além
de ser uma obrigação cívica. Entretanto, tinha suas diferenças, Yalom (2002) expõe que cabia
aos pais buscarem pretendentes às suas filhas, mas esta continuava sob tutela do pai e não
propriedade do marido e as leis de casamento também determinavam o consentimento dos
noivos. Na República, conceitos como saúde e status familiar somavam-se a dinheiro e vínculos
políticos na hora da escolha da esposa, que também deveria ser virgem.
Quanto às relações fora do casamento, algumas mulheres se tornaram famosas por seus
casos de amor, entretanto, enquanto o homem poderia processar a mulher por adultério, esta,
caso traída, não tinha direitos de fazer acusações, já que segundo a lei romana, esta conferia
privilégio apenas aos homens. Sobre a intimidade conjugal, a homossexualidade masculina era
tolerada enquanto a feminina era censurada e o afeto mútuo nos casamentos era desejável, mas
as demonstrações públicas não eram bem aceitas, Roma estabeleceu uma visão mais positiva
da intimidade sexual.
Entre as heranças deixadas por Roma para o Ocidente em relação ao casamento, nota-
se o noivado marcado pelo anel no dedo esquerdo, assim como a túnica branca da noiva, o beijo
22
para selar a relação ao final da cerimônia e um contrato assinado pelos noivos e testemunhas.
Apesar do casamento na Antiguidade se manifestar como um acordo familiar arranjado por
questões políticas, sociais e econômicas, Roma seguia um ideal que girava em torno de ser leal
a família e o respeito pela união monogâmica, que permeou pelo Império e subsequentemente
influenciou a moralidade judaico-cristã.
Durante a Idade Média, Yalom (2002) explana como a Igreja Católica passou a tomar
conta da jurisdição do casamento e uma vez declarado o sacramento, não poderia ser desfeito.
A sociedade medieval era sobretudo hierárquica. Dentro desse sistema, a esposa independente
de sua “classe” social deveria ser subserviente ao marido. O espancamento era uma prática
aceita, sancionada pela lei e pelos costumes, que permitia ao marido expor sua autoridade, o
que confirmava o matrimônio ser uma instituição legal pela qual os homens se confirmavam
donos de suas esposas, mas também tencionava um ideal de bem-estar do casal e dos futuros
filhos.
Sobretudo, é na Europa Medieval que o modelo de amor romântico, como conhecemos
hoje, é inventado. Segundo a historiadora Mary Del Priore (2005), trovadores no fim do século
XI, introduziram um novo conceito de relação entre homens e mulheres. Anterior a esse tempo,
era comum que as pessoas se vinculassem em relações de intimidade pelo casamento, contudo
o casamento vinha primeiro e o amor vinha depois, ou ficava fora dele. Sendo assim, no
imaginário literário, trovadores do final do século XI cantaram o amor em versos, erigindo o
amor cortês como tema do entusiasmo carnal e espiritual.
O sentimento amoroso reproduzia neste momento, as suas condições sociais
existentes, o que nos remete pensar a teoria estruturalista, quando Goode (2006) analisa que o
amor é regulado de acordo com os padrões socioculturais de cada tempo. E dentro de um cenário
feudal, as relações de intimidade traduziam um vínculo de vassalagem: “Na literatura o
verdadeiro cavaleiro serviria à sua dama - e somente a ela - de maneira completamente
abnegada, com a mesma dedicação com que um vassalo obedecia a seu senhor ou uma esposa
ao seu marido.” (YALOM, 2002, p. 89)
Ainda pensando o medievo, ressalto que amor e sexualidade não se confundiam. Tudo
era permitido, menos o ato sexual: “Para manifestar o valor de seu amor e merecer a eleita, o
cavaleiro, deitado no mesmo leito que sua dama, separado dela por uma espada ou uma ovelha,
símbolo da pureza, observava a estrita castidade.” (PRIORE, 2005, p. 70)
As poesias medievais, que influenciaram as teorias literárias do amor no Ocidente,
tratavam-no como promessa de uma felicidade futura, idealizando um amor impossível, fatal,
como de Romeu e Julieta. O historiador Denis de Rougemont em O amor e o Ocidente (1938,
23
apud Del Priore, 2005, p. 71) analisa que a paixão equivale ao sofrimento e que o que excita é
justamente a oposição, sem obstáculos não haveria paixão, porque a monotonia do casamento
não contém qualquer obstáculo à realização erótica da paixão.
Segundo Priore (2005), ao mesmo tempo que a poesia trovadoresca se expande, é
elaborado a legislação do matrimônio pelo Papa Inocêncio III no Concílio de Latrão em 1215.
A Igreja, desde o século VIII coloca-se em favor da monogamia e a reforma gregoriana no
século XI a define como norma e todos os casados deveriam respeitá-la. Essas decisões
alcançaram o mais baixo e alto nível social e regulavam as relações conjugais.
Variando regionalmente, conforme tradições e culturas pela Europa, os ritos
matrimoniais refletiam uma aliança ligada ao poder, ao patrimônio, à conservação de linhagens
e aos grupos sociais, se tratava então de uma associação entre duas famílias e não entre dois
indivíduos, o casamento por amor viria só mais tarde. Deste período, certas condutas foram
conservadas, para nós, do Ocidente, como por exemplo, as “promessas de casamento” e/ou
noivado, comemoradas com festas e presentes, um ritual que, já naquele momento autorizava a
convivência do casal aos olhos da comunidade, juntamente com a interseção da Igreja.
No século XVI, segundo Priore (2005, p.74) o casamento católico já tinha dois
propósitos: o de se reafirmar como sacramento, como já foi dito, mas principalmente de ser
instituição básica da vida dos fiéis, com cerimônia oficial, padre e altar. Lembrando ainda que
naquele momento, casamento não tinha nada a ver com sentimento, ou com sexualidade.
[...] o amor foi tema preferido de poetas e romancistas e, aparentemente, muito pouco
mudou entre, por exemplo, os séculos XIII e XX. Mas não seria o mesmo “amor” que
se cantaria ao longo de tantos séculos. No passado, seus objetos e estímulos afetivos
seriam diferentes dos nossos, assim como as diversas condutas amorosas. [...] Havia
quem cantasse o amor platônico e quem cantasse o carnal: coisas diferentes e
separadas. E que o amor casto no casamento, teria levado ao amor-paixão fora dele.
(PRIORE, 2005, p. 74)
A tendência aqui, sob forte influência católica, era a de condenar o amor profano, que
seria a antítese do amor sagrado, este, legítimo à serviço da família, para quem a sexualidade
só poderia ser justificada exclusivamente para procriação. Comprava-se a ideia da
representação do amor como amizade na união matrimonial, porque na amizade a razão se
sobrepunha aos desejos da carne. Os limites entre as exigências do casamento e os convívios
afetivos vão ficando cada vez maiores. Cria-se então uma dicotomia, de um lado um sentimento
subordinado de normas e de outro um sentimento emergido de razões subjetivas. Construía-se
um tipo de amor no casamento, imposto e praticado pela sociedade, para manter a estrutura,
como explica a teoria estruturalista; e outro, fora, ardente e confuso, inato:
24
domésticos para se afastar das tentações amorosas. Não podiam ler romances ou poesias, nada
de dança ou música, porque era isca para sensualidade.
Já na fase adulta, os portugueses eram expostos aos “manuais de casamento”, que
aconselhavam sobre como escolher uma esposa e como se portar numa relação. Segundo
Angela Mendes de Almeida (1989), cientista social, estes livros normativos eram dirigidos aos
homens, visando o comportamento masculino na sociedade, combinando boas maneiras e ética
com textos religiosos, sobretudo para indicar os defeitos femininos a ser evitados na hora da
escolha da esposa, ou comportamentos a serem reprimidos depois do casamento. Em “Carta de
Guia de Casados”, escrito em 1650 pelo autor D. Francisco M. de Melo, seus conselhos giravam
em torno da submissão feminina, indicava ações ao marido para moldar as condutas da esposa,
através da repressão e do castigo. O autor ainda recomenda que os homens busquem mulheres
que não fossem letradas, porque seria mais difícil corrigi-las. Sua orientação aos maridos eram
de “saber colocar a mulher no seu devido lugar”.
Além disso, cria-se uma aliança entre Medicina e Igreja, com teorias que investiam em
tornar o amor perigoso: amor excessivo é ruim para saúde! A “luxúria”, como expressão do
amor, era considerada um transtorno fisiológico e tinha remédio. Os sintomas (batimentos fortes
do coração, apetites depravados, suspiros, melancolias…) categorizados em muitas poesias,
podiam ser explicados patologicamente e tratados. Afirmavam que o amor era como uma
doença que penetrava pelo olhar de paixão e envenenava todo o corpo e os remédios podiam
ser dietéticos, farmacêuticos e até cirúrgicos:
7
As capitanias estavam divididas em comarcas, que por sua vez eram formadas pelos termos, para cada cidade.
Os termos eram divididos em paróquias, que eram subdivididos em bairros (KUSNESOF, 1989, p. 40).
8
As companhias de milícias urbanas, ou ordenanças organizadas em bases residenciais por bairros, eram a melhor
agência disponível para a administração e o cumprimento das leis no período colonial. (KUSNESOF, 1989, p. 40)
27
evidências de que a ideologia familiar apoiada na dominação do pai, principalmente no que diz
respeito a virtude das mulheres, sobretudo as filhas, adentrava as casas mais pobres, mas estes
gozavam de uma maior espontaneidade de sentir e de escolher, uma vez que não tinham
interesses políticos e econômicos para preservar.
Enquanto nesse modelo de estrutura familiar o homem como pai e marido tinha
autoridade quase absoluta, as mulheres desempenhavam a função doméstica, passavam da
tutela do pai para a do marido. Neste cenário, a autora Eni de Mesquita Samara (1989) aponta
que devido às poucas opções que restavam à mulher, esta era destinada ao casamento, sendo
sua imagem representada na esposa e principalmente na figura de mãe.
Toda essa estrutura social era fundamentada pelos ideais católicos advindos das terras
portuguesas, sob o intuito de exercer uma educação espiritual e moral, fazendo-se presente nas
relações afetivas, na organização familiar e no domínio da sexualidade. Segundo a historiadora
Mary Del Priore (2005), a política da metrópole era de incentivar o casamento, uma vez que as
autoridades reconheciam que havia uma lei da natureza que movimentava o interesse dos
indivíduos de viverem juntos para conservação da espécie, mas este instinto deveria ser
controlado por um sistema institucional de regras civis com forte embasamento religioso. A
dicotomia medieval do amor (no casamento: aceito e casto, e o fora do casamento: a luxúria e
o pecado) perpassava então a sociedade brasileira, sob um viés forte de violência naturalizada,
sobretudo com as mulheres.
9
’Consumido de ciúme, da crioula Perpétua de Miranda, Manuel Borges ‘[...] arrombou a parede do quintal dela
e esse se foi por cima do telhado para entrar na casa dela por suspeitar que ela não lhe abria a porta por ter alguém
entrado em casa e depois [...] lhe deu muita pancada’, em 1743, Minas Gerais. Em Vila do Príncipe, o padre
Manuel de Amorim Pereira tentava garantir seu relacionamento dando ‘pancadas noutro homem por respeito de
uma negra’, sua amásia. O reverendo Simão de Peixoto não aceitava o fim de sua relação com a parda forra de
apelido ‘a Rabu’. Quanto mais o padre insistia na reconciliação, mais a mulher resistia. As ‘descomposturas
indecentes a seu estado’, mediante xingamentos e discussões em público eram frequentes até chegar à luta física.
Após muitas brigas entre o casal, ‘de que resultou quebrar-lhe a cabeça’, a mulher ‘vendo-se ferida, correu atrás
dele com um espeto na mão’. Dessa vez são atitudes públicas nas quais transparecem não só a existência de um
29
[...] estudos comprovam que os gestos mais diretos, a linguagem mais chula era
reservada a negras escravas e forras ou mulatas; às brancas se reservavam galanteios
comportamento amoroso, mas os conflitos, a paixão e o afeto que lhe estão subjacentes. Na acusação dirigida ao
tenente Manuel de Marins, em Itaverava, foi afirmado seu amancebamento com a preta forra Josefa, solteira,
porque entre outros agravantes ele lhe dava ‘por zelo, muitas, muitas pancadas.’ (PRIORE, 2005, p. 55)
30
e palavras amorosas. [...] Gilberto Freyre chamou a atenção para o papel sexual
desempenhado por essas mulheres, reproduzindo o ditado popular: ‘Branca para casar,
mulata pra foder e negra pra trabalhar.’ (PRIORE, 2005, p. 60)
10
Ver Eni Samara A História da Família no Brasil. Revista Brasileira de História – Família e Grupos de convívio,
1989, São Paulo (p. 54).
31
elite branca e os critérios para seleção dos casais giravam (se ainda não giram) em torno de
valores como raça, riqueza, religião, origem, ocupação…A escolha do cônjuge ainda era um
ato social de extrema importância, tendo forte interferência da família, sobretudo do
consentimento paterno, pois sua autoridade também se fazia em determinar o futuro dos filhos,
sobretudo filhas.
No século XIX, é possível estabelecer então uma íntima relação entre casamento, cor
e grupo social, os casamentos se davam em círculos limitados e seguiam certos padrões e
normas em função da origem e posição socio-econômica. O casamento continuava a representar
para a elite branca, um papel fundamental e estratégico na sociedade. As esposas eram
selecionadas no cenário urbano através da vizinhança, da família ou na paróquia, e a sociedade
organizava os jovens para o casamento, com pouco ou nenhum namoro. As relações entre
parentes então continuaram atuar no meio urbano.
Apesar dos costumes rurais enraizados, o cenário urbano promoveu pequenas
modificações na vida das pessoas. Segundo Maria Isaura Pereira de Queiroz, (citada por ENI
SAMARA, 1989), a vida na cidade durante o século XIX, possibilitou um contato mais
frequente entre as pessoas, fortalecendo as relações, e estabelecendo maior proximidade.
Com ritos afetivos breves e alheio aos noivos, segundo Priore (2005), os amantes
recorriam à sinais ou códigos para se relacionar, como a troca de olhares: “O olhar, [...]
Exclusivamente masculino, ele escolhia, identificava e definia sua presa. Era um lugar de
relações de dominação, de poder e de força, inclusive sexual.” (PRIORE, 2005, p. 120)
Neste momento, as paixões se manifestavam em lágrimas, suores frios, suspiros… as
influências vindas do exterior iniciaram aqui, mesmo que lentamente, um novo código amoroso
que se chocavam com as práticas tradicionais. Por exemplo, a virgindade da mulher era
condição básica para o matrimônio, a conquista partindo sempre do rapaz; e esposas obrigadas
a aceitar o fato de que o marido nem sempre seria o desejado, mas o possível em um mercado
matrimonial restrito imposto pela família.
A literatura neste período, sobretudo a ficção romântica, descrevia atitudes que
envolviam sentimentos e namoro. O romance “A moreninha” de Joaquim Manuel de Macedo,
de 1844, introduz o amor romântico, importado da França na literatura brasileira, esse amor,
mais adiante é chamado “amor à moderna”. Mas no que se refere a literatura do século XIX,
nada indica que o namoro evoluiu consideravelmente como era descrito nos livros, a realidade
ainda era limitada.
Segundo a socióloga Maria Ângela D’Incao (citada por PRIORE, 2005), neste
momento havia duas maneiras de encarar o amor, um real “feito de namoros atrás da porta” e
32
um literário, vendo o amor como estado da alma. Entretanto, a autora observa que o que se dá
na literatura romântica deste período são propostas de sentimentos novos, mas isso ficava
apenas no imaginário, já que na prática, os sentimentos dependiam dos critérios paternos:
“Embora o excessivo ciúme levasse ao crime, e o amor e a saudade fossem tema constante das
canções, nas classes média e alta rígidos códigos barravam a espontaneidade dos gestos”
(PRIORE, 2005, p. 156).
Quanto às classes mais humildes, Eni de Mesquita Samara (1989) aponta que carinho
e amor eram aspectos relevantes para o casamento. Priore (2005) complementa elucidando que
os padrões de moralidade eram mais flexíveis e tinha pouco a se oferecer ou dividir em uma
vida simples. Como já foi evidenciado, uniões legítimas se davam entre pessoas do mesmo
grupo social. Entre os trabalhadores e pequenos comerciantes, a formação das famílias
obedeciam às exigências da divisão do trabalho e da preservação de grupos mais poderosos.
Isto fica claro também em relação aos escravos, uma vez que havia famílias ricas que obrigavam
escravas a casarem com seus homens de confiança, para que desse continuidade aos serviços
domésticos.
No século XIX também começaram a circular ideias sobre a relação entre os sexos,
pontuando a diferença como fator de concordância, a oposição entre eles fazia a felicidade de
cada um. Nesse sentido, Priore (2005) disserta que discursavam que o homem nascera para
mandar, conquistar, realizar, enquanto que a mulher nascera para agradar e ser mãe, e isso fazia
com que se completassem, pelo menos na visão masculina.
A igreja continuava sendo o cenário ideal para o namoro, mas fora à troca de olhares
e os cochichos na missa, não haviam muitas ocasiões para conversar com aquela que escolhera
casar, havia de torcer para os pais dela não fossem severos e assim podiam conversar na
presença deles. Até o final do século XIX, no Brasil, o namoro tende a querer ser dificultado,
uma aproximação mais direta com certeza se fazia mais presente nas classes populares.
Mas para seguir com um relacionamento, era preciso se encontrar, então além da
Igreja, os jovens procuravam se encontrar em bailes públicos, reuniões em residências
particulares onde juntavam vizinhos e amigos e estes cantavam e dançavam. O conteúdo da
música e a maneira de dançar podiam traduzir sentimentos. Aliás, convém ressaltar que a
presença de estrangeiros introduzira novas práticas amorosas, uma vez que tudo se copiava do
estrangeiro, até as formas de aproximação.
Em meio a modernidade, as meninas passam a se perfumar para atrair pretendentes.
As colunas de jornais orientavam sobre namoros e sob a luz do luar se iluminavam serenatas,
33
bailes de formatura, flirts - palavra que aparece no começo do século XIX, importada da França,
para designar amores mais ou menos castos.
Henry Koster (citado por ENI SAMARA, 1989) observa que, tanto no Nordeste, como
em São Paulo, as famílias tinham uma preocupação quanto aos casamentos inter-raciais e
quando aconteciam, causavam murmúrios e lamentações. Na documentação pública do começo
do século XIX, em São Paulo, encontra-se severas críticas em relação a pureza de sangue e
matrimônios com mulheres negras, o que não significava que deixavam de acontecer. A liga
entre grupos raciais e sociais ocorreu por meio de uniões esporádicas e pelo concubinato.
Nesse cenário, o casamento endogâmico ainda era bastante praticado. Dados de
Celeste Zenha (citada por ENI SAMARA, 1989), para a cidade de Capivary no Rio de Janeiro,
no século XIX, revelam uma intensidade de casamentos endogâmicos, em razão das questões
econômicas e políticas. As moças de elite que se casavam sem consentimento eram expulsas da
rede de sociabilidade familiar e se passassem dos 25 anos, já estavam velhas demais para se
casar. Enquanto isso, nas camadas mais pobres, não havia acertos de famílias e os casamentos
seguiam de festividades, como pagodes, festa do gado e festas religiosas.
As jovens mulheres, sem bens, que não conseguiram casamento encontravam no
homem mais velho, mesmo casado, um amparo social e financeiro. De acordo com Mary Del
Priore (2005) a escravidão e as relações sociais nos grupos patriarcais que se estabeleceram no
Brasil, moldaram uma realidade que legitimava os sentimentos e sexualidade em famílias não
oficiais. Isto era reflexo da falta do estabelecimento de laços afetivos, mas sobretudo do controle
de familiares e tutores sobre a vida de qualquer mulher.
Mas havia quem lutasse pelo amor, em namoros não aprovados pelos pais, o
pretendente raptava a moça. Gilberto Freyre (citado por PRIORE, 2005) conta que quando os
pais da moça não consentiam o casamento e seu direito de amar, iniciava-se o processo de fuga.
A família preocupada com a honra ou melhor, virgindade da filha, não tinham outra alternativa
a não ser aceitar a relação. Segundo o autor, essas fugas marcam o declínio da família patriarcal
e o início da família romântica, nela a mulher começava a introduzir seu desejo de sexo e de
afeto.
É neste cenário que se inicia certas noções de sedução, ampliando questões como
vaidade, adquirindo condutas para impressionar o outro pelo aspecto. Passam-se então a usar
os mais variados produtos, muitas vezes importados da Europa para se “embelezar”. E segundo
Gilberto Freyre (citado por PRIORE, 2005) isso dizia muito sobre a relação entre homens e
mulheres:
34
O homem tenta fazer da mulher uma criatura tão diferente dele quanto possível. Ele,
o sexo forte, ela o fraco; ele o nobre, ela, o belo. O culto pela mulher frágil, que se
reflete nessa etiqueta e na literatura e também no erotismo de músicas açucaradas, de
pinturas românticas; esse culto pela mulher é, segundo ele, um culto narcisista de
homem patriarcal, de sexo dominante que se serve do oprimido – dos pés, das mãos,
das tranças, do pescoço, das ancas, das coxas, dos seios – como de alguma coisa
quente e doce que lhe amacie, excite e aumente a voluptuosidade e o gozo. Nele, o
homem aprecia a fragilidade feminina para sentir-se mais forte, mais dominador.
(PRIORE, 2005, p. 153)
Em geral, no Brasil, pouco se cuida da educação das mulheres; o nível de ensino dado
nas escolas é pouquíssimo elevado; mesmo nos pensionatos frequentados pelas filhas
das classes abastadas, todos os professores se queixam de que lhe retiram as alunas
justamente na idade em que a inteligência começa a se desenvolver. A maioria das
meninas enviadas à escola aí entram com idade de sete ou oito anos; aos treze ou
quatorze são consideradas como tendo terminado os estudos. O casamento as espreita
e não tarda a tomá-las. (...) o mundo dos livros lhes está fechado, pois é reduzido o
número de obras portuguesas que lhe permitem ler, e menor ainda o das obras a seu
alcance escrito em outras línguas. Pouca coisa sabem sobre a história do seu próprio
país, quase nada de outras nações e nem parecem suspeitar que possa haver outro
credo religioso além daquele que domina no Brasil. (AGASSIZ, 1975, p. 277-278)
Nesse sentido, é possível até fazer uma relação entre a falta de educação, negada, às
mulheres com a dominação masculina. Uma vez que, a educação pode servir como ferramenta
para adquirir uma maior consciência de como o sujeito se vê e atua na sociedade.
35
Quanto a sexualidade feminina, como já deu pra perceber, esta era perseguida! O fato
de que uma mulher pudesse ter prazer com ou sem o homem parecia intolerável. Elas não
recebiam nenhuma educação sexual, um tabu muito presente até hoje na sociedade brasileira.
Sua sexualidade então era substituída por exortação à castidade, à piedade e à auto-repressão.
A masturbação, sobretudo feminina, era motivo para destruição de lares, casamentos e famílias.
Priore (2005) apresenta que a Medicina legitimava este ato como algo que fazia mal à saúde,
indicando que o chamado “clitorismo” tinha consequências como: hálito forte, gengivas e lábios
brancos, sardas e espinhas, perda de memória e que podia acabar em uma morte lenta e dolorosa.
Além disso, a Medicina foi primordial em reprimir a mulher e também a sua
sexualidade, com seus estudos sobre doença mental. Ainda segundo Priore (2005), qualquer
mulher que não fosse naturalmente frágil, agradável, boa mãe e submissa era considerada anti-
natural. Dizia-se que na natureza feminina o instinto materno anulava o sexual, então aquela
que tivesse desejo ou prazer sexual eram consideradas doentes mentais destinadas ao hospício.
A histeria, por exemplo, era explicada como decorrente do fato de que o cérebro feminino
estava sendo dominado pelo útero.
Enquanto as mulheres se ocupavam então com a casa e com a Igreja, os homens
bebiam, fumavam e se divertiam com prostitutas, gozando - literalmente - de seus privilégios.
As “cortesãs”, como eram chamadas as mulheres que exerciam a prostituição, segundo Priore
(2005) eram mestiças, negras e também brancas europeias, essas últimas eram tachadas como
36
Em 1809, certo João Galvão Freire achou-se preso, no Rio de Janeiro, por ter
confessadamente matado sua mulher, D. Maria Eufrásia de Loiola. Alegando legítima
‘defesa da honra’, encaminhou ao Desembargo do Paço uma petição solicitando
‘seguro real para solto tratar de seu livramento’. [...] Cometido por ‘paixão e
arrebatamento’, o crime era desculpável! (PRIORE, 2005, p. 188)
Em um país onde o marido é o senhor absoluto de sua casa, nenhuma lei de polícia ou
de moral aniquila suas ações.
No final do século XIX, por força de práticas sociais, uma certa ideia de casamento
que fosse além das negociações começou a circular, relações exogámicas foram substituindo as
endogâmicas e várias outras questões articuladas a este fato. Podemos considerar importante a
contribuição dos intelectuais mestiços e negros11 nas letras com suas representações sobre amor.
A presença de intelectuais negros, como bacharéis, médicos, militares e também
presentes no jornalismo, na prosa e verso contribuiu para apresentar novas representações
coletivas, sobretudo em relação aos sentimentos: “A passagem da Independência ao Império,
11
A ascensão social de uma pequena camada mestiça se deu pelos laços de convívio que promoveram relações
entre senhores e escravas. Robert Slenes (citado por PRIORE, 2005) estudando a vida privada na Província de São
Paulo, evidencia que filhos mulatos nascidos dessas uniões herdavam bens, escravos e negócios.
37
ao mesmo tempo em que surgia o Romantismo, realiza um fenômeno de febre lírica que
ultrapassa a aristocracia intelectual, se infiltrando nas classes operárias e camponesas.”
(PRIORE, 2005, p. 219)
O romantismo é, especialmente, o momento de desabrochamento da poesia afro-
brasileira, o amor se apresentando para além do dinheiro e do jogo de poder. Tobias Barreto,
negro, filósofo, poeta, crítico, jurista brasileiro e fervoroso integrante da Escola do Recife,
(citado por PRIORE, 2005) considerava o amor como um sentimento unificador, que não se
limitava nas barreiras de raça ou preconceito de cor, porque dizia que o sentimento deveria
fundir todos os povos em uma mesma etnia: a brasileira. Foram ficando mais evidentes, então
formas mestiças, híbridas, assim como nossa sociedade, de falar de amor.
O século XIX pode ser resumido em antagonismos ou para Priore (2005), um século
hipócrita, afinal, ao mesmo tempo que reprimiu o sexo, fez-se obcecado por ele, ao mesmo
tempo que reprimia a nudez, olhava-se pelas fechaduras, ao mesmo tempo que impunha regras
aos casais, liberava-se os bordéis. Mas a despeito do amor, no final do século um novo código
amoroso foi despertado, influenciou diretamente para romper com a camisa de força social que
vinha com o casamento, e emergir uma nova configuração de dinâmicas de relação entre
homens e mulheres, atingindo os valores da sociedade como um todo.
O amor muda com o tempo, e com ele as noções de relação e também sua influência
social em variáveis como gênero, classe social, orientação sexual, etnia e violência, porque o
amor pode ser inato, em caso de liberar hormônios de desejos e emoções. Mas ele vai ser
regulado de acordo com cada tempo histórico, sociedade, cultura; alimentado por narrativas de
representação dos sentimentos, dos papéis sociais e das relações; estruturado por um sistema de
normas e valores que depende de cada organização social.
Apesar de ficar evidenciado a violência não só física, mas psicológica contra as
mulheres, presente até em sociedades anteriores a Cristo, é necessário esclarecer que cada
sociedade se organiza de uma maneira, atribuindo, conforme sua estrutura e cultura, os papéis
de homens e de mulheres nas relações afetivas.
A intenção de evidenciar a violência contra a mulher, sobretudo pela dominação
masculina nas relações afetivas, não se resume em considerar as mulheres como vítimas
históricas. Elas eram e são seres atuantes, afinal cada sociedade e cada cultura tem sua
sistematização e dinâmicas relacionais, que operam de acordo com a sua própria realidade, mas
também muitas heranças de costumes e valores vão sendo repassadas através do tempo. É
impossível fazer uma análise generalizada, concebendo que todas as mulheres foram passivas
e vítimas. Entretanto, quando analisamos atitudes culturais, nota-se os homens por muito tempo
38
intervenções sociais, psicológicas e jurídicas e tendo como objeto as denúncias nos distritos
policiais, algumas medidas foram tomadas. Destaca-se a promulgação da Lei 11.340 de 07 de
agosto de 2006, conhecida como Lei Maria da Penha, que instituiu mecanismos para coibir a
violência doméstica e familiar contra a mulher; e também o reconhecimento da prática de
homicídio contra a mulher, por misoginia, discriminação por gênero, violência sexual e
doméstica, denominado como Feminicídio, lei 13.104/15. Entretanto, poucas coisas mudaram,
os índices de feminicídio e violência contra a mulher sobem a cada ano. Só no estado de São
Paulo, os casos de feminicídio aumentaram 76% no 1º trimestre de 2019, se comparados ao
mesmo período do ano anterior, de acordo com levantamento feito pelo G1 e pela GloboNews,
geralmente crimes motivados por ciúmes ou negação frente ao fim da relação.
Nesse sentido, o próximo capítulo irá apresentar o processo de emancipação feminina
no século XX, assim como a denúncia da opressão feminina e as violências sofridas,
demonstrando ainda como este fato alterou a imagem dos papéis sociais, a dinâmica das
relações afetivas e a sociedade como um todo. Apesar da remodelação da instituição do
namoro, do casamento, da família, as heranças patriarcais enraizadas e o machismo presente no
Brasil ainda contornam os relacionamentos afetivos e a significação do amor.
40
No primeiro Capítulo foi evidenciado que quando falamos de amor, estamos falando,
sobretudo, de relações. Mas, mais que isso, as relações refletem os contornos da sociedade,
traduzido em homens e mulheres e na concepção que estes têm de si mesmos e dos outros,
afetando múltiplos setores da vida individual e social.
Foi esclarecido, que ao longo da história da humanidade estabeleceu-se uma
sistematização de papéis de gênero, configurando a sociedade como um todo. Nesse sistema,
nota-se uma inferioridade atribuída à mulher, sublinhada pela opressão e pelo controle
masculino, demarcada através da violência simbólica, psíquica e material.
Por muito tempo, a sistematização das relações - entre os gêneros - não foi
questionada, discutida, entretanto, houve um momento em que não se conseguia mais ignorar.
E isso se deu através de uma corrente de conscientização social do ser mulher.
Se tratando de uma país colonizado, o Brasil tem sua história influenciada muitas vezes
por pensamentos, ideais e impulsos externos. Então antes de falar da Nova Mulher Brasileira,
vamos adentrar nos cenários Europeu e Norte-Americano para compreender como que alguns
ideais e novos conceitos foram introduzidos, sobretudo na sociedade ocidental.
Como já foi esclarecido, apesar do desprivilegio social configurado no ser mulher,
estas nunca foram passivas das circunstâncias. A constituição de uma Nova Mulher só foi
possível a partir da não conformação da sua condição e assim, tomar medidas para estabelecer
uma sociedade mais justa e igualitária. Segundo Marilyn Yalom (2002), em vários países da
Europa, como Suécia, Noruega, Escandinávia desde a segunda metade do século XIX é possível
ver que passaram a circular ideias sobre a questão feminina. Em 1874, na Suécia, concebeu-se
uma lei que dava certo controle a mulher sobre suas propriedades, alterando substancialmente
sua posição. Essa lei também garantiu que as esposas tivessem posse dos seus rendimentos.
Essa resolução teve grande significado para as mulheres da classe trabalhadora, que
passaram a se tornar independentes antes de se casarem. Aliás, em toda a história, segundo
Yalom (2002), a independência feminina aparenta ampliar quando a mulher tem acesso e
autonomia de riquezas.
Na Inglaterra, entre 1889 e 1890, a questão da mulher alcançou seu apogeu. Segundo
Marilyn Yalom (2002), começaram a circular questões sobre a Nova Mulher 12 em artigos de
revistas e jornais, livros, discursos públicos e também nas conversas privadas. Este novo
12
Expressão criada em 1894. (YALOM, 2002, p. 299)
41
13
Publicado no Westminster Review. (YALOM, 2002, p.300)
42
assumiram em sua fala que o casamento demandava tolerância e submissão, sob um viés de
responsabilidade da parte delas de fazer o casamento dar certo.
Depois das cartas publicadas, a questão da mulher continuou ser debatida e uma nova
corrente de pensamento começou a adentrar a sociedade… mesmo que ainda confrontasse com
os ideais tradicionais. Entretanto, os romances já não terminavam em casamento e discutia-se
a natureza problemática das relações conjugais...
Assim como na Europa, o Continente Americano testemunhou na passagem do século
XIX para o XX, a inserção de novas mulheres que questionaram o matrimônio e buscaram
oportunidades de emprego. Ao longo da primeira metade do século XX, as americanas 14
responderam de diversas maneiras ao chamado da igualdade de direitos e da independência
feminina. Muitas dessas mulheres esperavam ter um maior grau de autoridade no casamento do
que suas gerações anteriores.
Segundo Marilyn Yalom (2002), por volta de 1890, nos Estados Unidos, era
impossível ignorar as mudanças na vida das mulheres casadas e solteiras da classe média
urbana. Surgem instituições de ensino superior dedicada às mulheres, assim como clubes e
organizações femininas, e a aceitação do trabalho para mulheres solteiras, até para as casadas,
mas em menor dimensão. Passaram a percorrer pensamentos argumentando por exemplo, que
o casamento não devia acabar com os interesses individuais das mulheres, como ler, praticar
esporte... inclusive o primeiro símbolo da liberação da mulher foi a bicicleta, fazer uso dela.
Essa atmosfera de liberdade e esperança feminina obrigou as influências sociais, como
jornais e revistas, a reconhecer as novas mudanças, mesmo não abandonando o discurso de
exaltação à esposa/mãe. Segundo Yalom (2002, p. 317), vários artigos do “Journal”15
desprezavam a fala excessiva 16 sobre mulheres que nunca se casaram, sobre o divórcio e sobre
as atividades exercidas fora de casa, ainda que publicassem um ou outro artigo intitulado como
“Quando o trabalho se adequa a uma mulher” ou “Mulheres e o violino” (fevereiro de 1896). O
“Journal”, com seus editoriais se empenhava em deter a tendência das mudanças femininas
progressivas, chegando a considerar em seus artigos a ideia do serviço doméstico como uma
ciência.
14
Mulheres de todos os países do Continente Americano.
15
Primeiro Jornal Nacional dos Estados Unidos, criado em 1889. Atualmente é o maior jornal de circulação do
País.
16
Diante do cenário patriarcal, evitavam falar sobre mulheres que não seguia a moral e o papel tradicional atribuído
a elas.
43
Charllote Perkins Gilman (apud YALOM, 2002), foi uma das intelectuais que
contextualizaram a situação das mulheres casadas na América Capitalista 17 publicando em
1899, “As mulheres e a Economia” que apresentava a ideia de que a principal razão para o
status secundário da mulher se dava pela relação de dependência à renda do marido. Gilman
aponta o trabalho externo como força de liberdade que sustentaria a igualdade com os homens.
E mais, reconheceu que o trabalho doméstico exercido pelas mulheres era o que permitia ao
homem produzir mais riquezas do que, sozinho, poderia.
Gilman representou, junto a outras mulheres, uma forma extrema da nova mulher
casada. Esta era produto de uma época que permitiu às mulheres das classes média e alta, novas
perspectivas para a autodeterminação e possibilidades de independência, sobretudo sem desistir
do amor. Gilman “[...] registrou em 1910, mais de um milhão de esposas trabalhando como
operárias, secretárias, vendedoras, gerentes, professoras - colegiais e universitárias - guarda-
livros e contadoras, só para citar algumas ocupações.” (YALOM, 2002, p. 324). E registrou um
total de 3 milhões de mulheres estadunidenses trabalhando na virada no século XIX para o XX.
Ainda neste contexto Norte-Americano, para além do debate do trabalho e
independência financeira, a Nova Mulher questionava a sua sexualidade. Surgem então teóricos
argumentando sobre desejo sexual, tipos de orgasmo 18 feminino, gravidez e contracepção.
Yalom (2002), aponta que aos poucos a sociedade foi se familiarizando em reconhecer a
vontade da mulher em fazer sexo, assim como entender sua genitália e o seu prazer.
A ideia do sexo com o único objetivo de procriação se fez presente ao longo da história,
entretanto Yalom destaca que muitas mulheres passaram a apreciar o sexo “[...] como uma
expressão de amor.” (2002, p. 329). Em 1893, as mulheres tendiam a querer valorizar o ato
sexual movido pelo desejo e pela união, ficando em posição secundária a procriação. Sob
influência da Inglaterra a partir do movimento de controle de natalidade, a partir de 1820, os
dispositivos anticoncepcionais adentraram a sociedade estadunidense e em 1850 emergiram
livros, panfletos instruindo as mulheres sobre gravidez indesejada. Em 1860, os métodos mais
populares de contracepção eram: coito interrompido, duchas, esponjas vaginais, preservativos
e “período seguro”.
Também surgiram pensadores abordando a questão do aborto, a favor e contra. Nos
Estados Unidos, Yalom (2002) apresenta Margareth Sanger como peça importante do debate.
Esta iniciou um movimento de controle de natalidade a partir de 1910, dava palestras e tinha
uma coluna semanal sobre “o que toda garota deveria saber” para o jornal The Call (p. 337) que
17
Referência aos Estados Unidos.
18
Vaginal e Clitoriano.
44
falava sobre menstruação, masturbação, gravidez, contracepção e aborto. Muitos estados dos
EUA decretaram leis anti-abortistas, mas este ideal afrouxou após a depressão de 1929,
assentindo pela necessidade de controlar a natalidade, devido à crise que o país sofria.
Entretanto, somente em 1973, o aborto foi legalizado, caracterizado como um direito do corpo
da mulher.
Pensando em um contexto mais geral, A Segunda Guerra Mundial representou uma
força disparadora para as mulheres ao acelerar o processo do trabalho feminino e mudanças na
ocupação feminina, sobretudo das esposas. Yalom (2002) registra que muitas cidadãs patriotas,
organizações e revistas intimaram as mulheres a ocuparem os empregos vagos deixados pelos
soldados, mesmo tendo de lidar com a relutância da Comissão da Força de Trabalho de Guerra
que entendia que a responsabilidade da mulher se limitava a família, mesmo diante deste
cenário. Entretanto, pouco tempo depois essa Comissão voltou atrás, colaborando em favor do
trabalho feminino.
Tudo indicava que esse movimento do trabalho feminino fosse temporário e que
quando a guerra acabasse, as mulheres voltariam para os seus lares. Essas mulheres
trabalhadoras sofreram muitas críticas de revistas que diziam que estas menosprezavam seus
filhos, na mesma medida que eram negligentes com o trabalho, uma vez que ficavam exaustas
assumindo o trabalho de fora e o trabalho doméstico. Além disso, tiveram de lidar com o
preconceito dos trabalhadores homens e quando a guerra acabou, foram induzidas a largar seus
empregos, já que estariam “tirando” o emprego dos homens, recém chegados da guerra.
Mas o desejo de continuar trabalhando se fez presente. Dentro desse contexto, um
número maior de mulheres experimentou a independência e muitas não estavam dispostas a
abrir mão disso. Yalom (2002) expõe que surgiram novas organizações femininas, incentivando
as mulheres a buscar seu próprio caminho, a percorrer áreas não familiares.
A Europa e os Estados Unidos fervilhavam ideais envoltos da Nova Mulher ao longo
do século XIX, mas sobretudo na passagem para o século XX. E como foi esse processo no
Brasil? Na passagem do século, o Brasil já se tornara República, era um momento de transição
social e econômica, sobretudo pela expansão do capitalismo e da industrialização.
e 1930, as trabalhadoras eram percebidas de várias maneiras: pelos patrões como perigosas e
indesejáveis, para os jornalistas como frágeis e infelizes, para os médicos e juristas como
perdidas e degeneradas. A maioria da documentação disponível a respeito do mundo fabril não
foi produzido pelas mulheres, sendo assim, os registros feitos por autoridades públicas,
médicos, industriais, militantes políticos construíram uma identidade masculina das mulheres
trabalhadoras, sendo que estas não tinham nem a “[...] sua própria percepção de sua condição
social, sexual e individual.” (RAGO, 2004, p.485)
Ainda que fosse elevada a presença feminina no trabalho fabril, é errôneo supor que
estas conquistaram o mercado de trabalho. Pelo contrário, na medida em que as fábricas
evoluíam na industrialização, elas iam sendo expulsas e substituídas pela força de trabalho
masculina. Rago aponta que “[...] enquanto em 1872 as mulheres constituíam 76% da força de
trabalho nas fábricas, em 1950, passaram a representar apenas 23%.” (2004, p. 487)
Além disso, Rago discute que as trabalhadoras tiveram de enfrentar a variação salarial,
a intimidação física, a desqualificação intelectual, o assédio moral e sexual para adentrarem
nesta área definida como “naturalmente masculina”, e essa “demonização” do trabalho
feminino partia do interior da família e da sociedade que julgavam que o trabalho feminino
destruiria o casamento, a família e a personificação da boa esposa e mãe.
As mulheres trabalhavam cerca de 10 a 14 horas por dia, em tarefas menos
especializadas, sempre sob supervisão, sendo mal remuneradas e sem direito trabalhista algum.
Entretanto, anarquistas e socialistas passaram a denunciar os maus-tratos e a exploração que
acontecia nas fábricas, ampliando a discussão para abordar o trabalho feminino e outros temas
relacionados à sexualidade: casamento, adultério, virgindade, prostituição.
Segundo Margareth Rago alguns ideais feministas passaram a circular na sociedade,
divulgados na revista “A mensageira” entre 1897 e 1900 em São Paulo, e posteriormente na
“Revista Feminina” entre 1914 e 1937. Esses meios trouxeram discursos sobre os benefícios do
trabalho feminino: “[...] uma mulher profissionalmente ativa e politicamente participante,
comprometida com os problemas da pátria, que debatia questões nacionais, certamente teria
melhores condições de desenvolver seu lado materno.” (RAGO, 2004, p. 493). E vários setores
da sociedade, como positivistas, médicos, liberais, a Igreja, industriais e até operários
anarquistas, socialistas e comunistas incorporaram um discurso de valorização da maternidade
para a formação da identidade nacional. Sendo assim, entre as décadas de 1920 e 1930, foi
exaltada a figura da Mãe Cívica, aquela que gerava e preparava física, intelectual e moralmente
o cidadão brasileiro.
46
19
Em vez do casamento pelo Estado e Igreja que definem o tipo de relação amorosa e sexual.
20
Em “A Primeira Onda Feminista no Brasil”, (2018).
47
Soihet (2006), Mary Garcia Castro (2000), entre outras, utilizam o termo feminismos no plural
em oposto ao feminismo singular (como um movimento homogêneo e culturalmente fixo). Isso
se dá pelo reconhecimento de cada aspecto particular que contribuiu para o valor do movimento:
“Os feminismos de cada época, em cada cultura, com as diversas estratégias de militância
utilizadas e os vários seguimentos teóricos e sociais, foram importantes nas lutas a favor da
igualdade de gêneros e da emancipação feminina”. (MOURA, 2018, p. 65)
Ainda assim, há um princípio comum a todos os feminismos, que se dá pela luta por
igualdade, pela ressignificação do papel social da mulher e pela emancipação feminina.
Segundo Ilze Zirbel (2007 apud MOURA, 2018 p. 65), este segmento é encontrado nos diversos
contextos históricos por diferentes grupos e que as particularidades se dão devido às diferentes
interpretações das opressões vividas por cada grupo e nas estratégias adotadas de luta e
superação das desigualdades.
O feminismo como movimento social se origina na modernidade baseado nos ideais
liberais de igualdade da Revolução Francesa e se materializa através da Revolução Industrial
com a exploração do trabalho, o que levou as mulheres a perceberem a condição de submissão
e opressão que lhes era imposta. E a partir dessa consciência que nasce o movimento, se
alastrando em um primeiro momento na Europa e depois se expandindo pelo Continente
Americano e demais regiões, se moldando a cada cultura e problemáticas de cada lugar. Essa
corrente é conhecida como a primeira fase do feminismo mundial, denominada como
Feminismo de Primeira Onda21, sublinhado sobretudo pela luta de direito ao voto. No Brasil,
esse pensamento do feminismo de primeira onda é introduzido por Nísia 22 Floresta Brasileira
Augusta (1810-1885) que através de suas obras, simbolizou a consciência crítica sobre a
condição das mulheres.
A propósito, foi através da imprensa de mulheres que se deu a maior divulgação de
ideais feministas no Brasil. Ressalto inclusive que foi através da escrita feminina que muitas
mulheres puderam romper com os limites do privado, atuando como cidadãs ativas e se
inserindo nos debates políticos, lutando por seus direitos. Moura (2018) elucida que foram
21
Primeira Onda do Feminismo se caracteriza pela reivindicação de melhores condições de trabalho, como salário,
insalubridade, redução da jornada. Além da luta por direitos políticos, como o sufrágio, buscando direitos de votar
e serem votadas.
A segunda Onda do Feminismo, já pós segunda Guerra, se caracteriza num movimento que incorpora pautas
culturais, questionando padrões e papéis sociais atribuídos a homens e mulheres nas relações afetivas, na vida
social e política e no trabalho. Luta-se por direitos civis e com ênfase do direito ao corpo e ao prazer.
A terceira Onda do Feminismo, a partir de 1990 se caracteriza a partir de uma redefinição das estratégias da onda
anterior. Procurou contestar as definições essencialistas da feminilidade que se apoiavam especialmente nas
experiências vividas por mulheres brancas integrantes de uma classe média-alta da sociedade. (PINTO, 2010)
22
As autoras Ana Alice de Alcântara Costa e Cecília Maria B. Sardenberg (2007 apud MOURA, 2018) afirmam
que foi Nísia Floresta que trouxe esta onda para o Brasil.
48
muitos os jornais fundados por mulheres a fim de conscientizar leitoras e buscar força para as
reivindicações emancipatórias. A principal causa questionada foi o sufrágio. Entre as outras
causas, organizou-se associações femininas, reivindicaram a educação, a legalização do
divórcio, o direito de participar de concursos e cargos públicos, etc.
Segundo Fraccaro (2018), diferentes grupos de mulheres concebiam diferentes visões
sobre cidadania: as trabalhadoras enfrentavam o sindicalismo e reivindicavam licença-
maternidade e igualdade salarial; as comunistas organizavam atos diminutos para o Dia da
Mulher; e ainda, os grupos feministas organizados, como a FBPF (Federação Brasileira pelo
Progresso Feminino), criada em 1922 por Bertha Lutz, atuava em assembleias estaduais
mantendo diálogo com o governo, debatendo acerca do sufrágio, dos direitos das mulheres,
sobretudo trabalhadoras. Em 1932 as mulheres brasileiras conquistaram o direito de votar e
serem votadas.
Foram muitos os enfrentamentos que as mulheres que buscavam por uma vida mais
igualitária tiveram que encarar. A historiadora Tereza Cristina Novaes Marques 23 (2016),
elucida que mesmo com o acesso ao voto, o diálogo com o Governo era muito difícil, muitas
emendas e projetos de lei girando em torno do trabalho feminino e maternidade foram
rejeitados. Foram ainda muitos anos após isso e muita luta até as mulheres conseguirem
conquistar o mínimo de seus direitos no trabalho, na saúde e na educação.
Não obstante, a historiadora Paola Cappelin Giulani (2004) disserta que a união das
mulheres trabalhadoras, grupos feministas e organizações sindicais fez com estas reunissem
muitas queixas e relatos sobre discriminação e segregação sexual no trabalho e na vida conjugal,
isto se tornaria fonte de denúncias para a busca de novos direitos. Socialmente, essa união de
mulheres criou um estilo singular de reflexão e mobilização.
Marques (2016) elucida também que neste momento foi gerado um debate público
sobre aquelas que trabalhavam por necessidade e aquelas que trabalhavam por desejo. Isto
impulsionou as feministas a abandonarem a retórica do trabalho como origem da autonomia
23
Em “A regulamentação do trabalho feminino em um sistema político masculino, Brasil: 1932 – 1943”, 2016.
49
No início do século XX tem início a moda da mulher magra. Não foi apenas uma
moda, foi também um desabrochar de uma mística de magreza, uma mitologia da
linha, uma obsessão pelo emagrecimento; tudo isso temperado pelo uso de roupas
mais próximas ao corpo.
Na Europa, de onde vinham todas as modas, a entrada da mulher no mundo do
exercício físico, do exercício sobre bicicleta, nas quadras de tênis, nas piscinas e nas
praias trouxe também a aprovação de corpos esbeltos, leves e delicados. Tinha início
50
24
Uma configuração de relação diferente do que a construída entre as elites. Nas classes mais altas as relações
eram pautadas sobretudo nas riquezas e no status, concepções que não faziam parte da vida dessas classes mais
abastadas, sendo assim, suas relações eram construídas com outros ideais que não envolviam dinheiro. O
casamento oficial nem fazia parte de sua dinâmica relacional.
51
Priore (2005) afirma que entre essas classes mais pobres, a regra eram as uniões consensuais e
concubinatos, enquanto que o casamento oficial era “coisa de branco”. As mulheres pobres
garantiram certa autonomia através do trabalho pela dificuldade de seus maridos em manter a
família, mas essa autonomia vinha sublinhada de machismo, assédio e violência.
Entretanto, sobre a questão da sexualidade, segundo Priore (2005) entre os médicos
crescia uma conscientização acerca da necessidade de uma educação sexual entre os jovens: “A
inocência e a ignorância de muitas eram contrabalançadas pela violência e pela brutalidade de
muitos.” (p. 255). Os médicos notaram que o primeiro contato sexual tendia ser desastroso,
sobretudo para as mulheres, então passaram a instruir os homens para que “deflorassem com
especial cuidado” suas mulheres e que estes deveriam aprender a se relacionar sexualmente
com suas esposas, uma vez que muitos casamentos acabavam pelo desprezo do marido sobre
as necessidades da mesma. Os maridos, no entanto, tinham medo de, ao exercer o ato sexual
estaria ofendendo ou prostituindo-a. Enquanto isso, as mulheres sentiam culpa por idealizar ou
saber sobre sexo.
Depois da Primeira Guerra Mundial, o Ocidente se vê em crise e na necessidade de
reinventar o mundo. Como já foi explanado, houve um fervilhamento intelectual e tecnológico
na Europa que influiu na América. Claro que a questão da Nova Mulher foi concebida com
muita desconfiança. Entretanto, emancipou-se a dança, avançou-se nos flertes25 e discutiu-se as
uniões livres, levantadas pelos anarquistas e intelectuais, como já foi dito.
Segundo Priore (2005) os anarquistas viam o casamento como contrato social cheio de
regras e viam no “amor livre” a manifestação de emoções, que daria possibilidade de definir
livremente o tipo de relação amorosa para cada um. Enquanto isso, o Código Civil previa a
nulidade do casamento se o marido constatasse que a esposa não fosse virgem. Pensando essa
questão, Priore (2005 cita ERCÍLIA NOGUEIRA COBRA), que em 1924 escreveu um ensaio
que reivindicava o amor e sexo fora do casamento, colocando em evidência que manter a
virgindade era uma ação inútil, de controle de corpos e até anti-higiênica...
A Música Popular Brasileira cantava em seus versos as relações de homens e mulheres.
A mulher no samba era vista como o pivô de conflito entre trabalho e prazer. Mary Del Priore
(2005) nos conta que há três imagens femininas no samba: a doméstica, passiva e submissa do
lar e de seu homem; a piranha, que satisfaz e traz desordem; e a onírica, a ideal. Por meio das
canções foi possível mostrar a representação dos sentimentos de camadas que eram antes
excluídas, e mais, ao se fazer presente na voz de ricos e pobres, um certo vocabulário de gestos
25
Comportamento comum entre seres humanos que consiste numa discreta insinuação de interesse entre pessoas.
52
e palavras passou a fazer parte dos diálogos amorosos. No rádio, ouvia-se as músicas, contava
da vida amorosa dos ídolos e lavava roupa suja de casais, sempre em um tom de valorização do
padrão burguês.
Ainda em um cenário pós Primeira Guerra Mundial, com o colapso da indústria
cinematográfica europeia, Hollywood26 ganhou a cena e papel significativo nas casas
americanas, notadamente nas brasileiras também. São seus discursos traduzidos em filmes que
influi novos comportamentos afetivo/sexuais. Nota-se a importância das narrativas, presentes
na teoria taxonômica, na construção de um amor protótipo, de um ideal de relação a ser seguido.
26
Hollywood é um dos símbolos do poderoso cinema estadunidense. A cidade de Hollywood está localizada no
estado da Califórnia. Trata-se, na verdade, de um distrito da grande Los Angeles, cidade que se tornou referência
cultural nos Estados Unidos. Hollywood acumulou ao longo da história várias empresas cinematográficas que
obtiveram repercussão mundial.
27
Poder pessoal de sedução; encanto sensual.
53
sentiam-se herdeiras de ideias antigas que sempre se renovam. Ou seja, mesmo que se passaram
séculos e novos questionamentos foram apontados em torno da questão da mulher, estas
desabrocharam sabendo que tinham de ser mães e esposas. A historiadora Carla Bassanezi
(2004) afirma que isso não significava que elas pensavam e agiam totalmente de acordo, mas
que essas expectativas sociais faziam parte da realidade, influenciando suas atitudes e escolhas.
Ainda segundo Bassanezi (2004), o Brasil acompanhou à sua maneira, as tendências
internacionais de modernização e emancipação feminina. A Segunda Guerra impulsionou a
participação mais efetiva das mulheres no mundo do trabalho, onde estas tiveram oportunidades
intrínsecas de ter maior autonomia e direitos. Entretanto, com o fim da guerra, campanhas
estrangeiras passaram a pregar a volta das mulheres ao lar e o Brasil seguiu essa corrente, afinal
o código de moralidade era de domínio geral, em que todos se sentiam aptos e no direito de
julgar os comportamentos de uma jovem mulher.
A moral sexual dominante nos anos 50 exigia das mulheres solteiras a virtude, muitas
vezes confundida com ignorância sexual e, sempre, relacionada à contenção sexual e
à virgindade. Em contrapartida, relações sexuais dos homens com várias mulheres não
só eram permitidas, como frequentemente incentivadas. [...] Mesmo partindo de
namoradas a quem estavam verdadeiramente afeiçoados, muitos rapazes tinham
dificuldades em aceitar comportamentos mais liberais, ainda que eles próprios os
tivessem estimulado. (BASSANEZI, 2004, p. 512 e 513)
O homem ideal devia ser bom caráter, correto e respeitador, que não ultrapassasse os limites…
entretanto, se ultrapassasse, era absolvido socialmente, pois argumentavam que: homens se
comportam de acordo com a sua natureza.
Na segunda metade dos anos 50, alguns grupos esclarecidos defenderam a educação
sexual, pois as informações sobre sexualidade chegavam para as mulheres sublinhadas por
censuras, silêncios e preconceitos. Muitos manuais instrutivos e revistas femininas traduziam o
sexo como “realidade a ser enfrentada, missão a ser cumprida“ (BASSANEZI, 2004, p. 518),
viam-no como obrigação conjugal. Palavras como “sexo”, “relação sexual”, “educação sexual”,
“prazer” não apareciam nas revistas. Não que as mulheres não dessem um “jeitinho” de obter
informações sobre isso, conversavam muito entre si e liam as escondidas os livros proibidos.
Entretanto, dentro desse cenário de julgamento, repressão e palavras não ditas, as iniciações
sexuais para as mulheres tendiam a ser infelizes. Outra questão que colocava freio à sexualidade
feminina era o medo de uma gravidez indesejada fora do casamento.
Em um período de mudança, as próprias jovens se sentiam confusas e com dúvidas de
qual seria o comportamento adequado diante de um homem:
[...] quando uma mulher sorri [para um homem] é porque é apresentada. Quando o
trata com secura é porque é de gelo. Quando consente que a beije, é leviana. Quando
não permite carinhos, vai logo procurar outra. Quando lhe fala de amor, pensa que
quer ‘pegá-lo’. Quando evita o assunto, é ‘paraíba’. Quando sai com vários rapazes é
porque não se dá valor. Quando fica em casa é porque ninguém a quer. […] Qual é o
modo, pelo amor de Deus, de satisfazê-lo? (carta de uma leitora – O Cruzeiro, 08 dez.
1951 apud BASSANEZI, 2004, p. 520)
Mas tantas regras, advertências e preocupações não impediram que muitas mulheres
fugissem dos padrões estabelecidos, afinal, foram através desses questionamentos e
contestações que foi possível colocar em risco as normas de comportamento, contribuindo
também para o aumento dos limites estabelecidos para o feminino. Regras e advertências não
foram suficientes para barrar as mulheres de fumar, ler coisas proibidas e se permitir explorar
a sexualidade.
Durante os Anos Dourados, se elevou novamente a participação feminina no mercado
de trabalho, sendo assim, exigiam uma maior qualificação para remuneração, resultando numa
maior escolaridade, o que mudou consideravelmente o status social das mulheres. Segundo
Bassanezi (2004), o magistério foi o curso mais procurado pelas moças na época, que era o que
mais se aproximava do papel de mãe. As mulheres viviam em conflito, entre as visões
tradicionais e o chamado à nova realidade, girando em torno de independência.
57
A educação com objetivo profissional era menos valorizada para as mulheres, mas ao
menos a educação formal permitiu diminuir distâncias entre homens e mulheres. Para manter
as hierarquias, Bassanezi esclarece que o imaginário social via a mulher culta como uma
ameaça:
[...]um certo nível cultural é necessário à jovem para que “saiba conversar” e agradar
os rapazes assim como é útil para o governo de uma casa e a educação dos filhos,
entretanto os rapazes evitam as garotas muito inteligentes e a “mulher culta” tem
menos chances de se casar e de ser feliz no casamento.” (BASSANEZI, 2004, p. 523)
O casamento nos anos 50, segundo Bassanezi (2004), se configurava no contraste entre
o homem como chefe e detentor de poder e a mulher como rainha do lar. O diálogo entre iguais
não era algo a ser buscado, porque as mulheres não eram consideradas equivalentes aos homens,
eram traduzidas mais como um conforto, consolo ou estímulo. A separação era a maior ameaça
para o status feminino, nesse sentido se culpavam pelo descaso e infidelidades masculinas,
relevavam qualquer atitude ou deslize para conservar a estabilidade conjugal.
No âmbito íntimo do casamento, a afinidade sexual era o fator menos importante na
felicidade conjugal, a esposa ideal, segundo ainda a mesma autora (2004), tinha de ser o
complemento do marido no cotidiano doméstico e o bom desempenho sexual da mulher casada
não fazia parte das expectativas. Os casais da década de 50, maiormente, classes médias e altas
praticavam o controle de natalidade, apesar de não ser um assunto muito divulgado no Brasil.
A pílula anticoncepcional só começou a se popularizar na década de 60.
Mary Del Priore (2005) explana que a sociedade aprovava e valorizava o homem
fazendo sexo com várias mulheres, uma vez que o pensamento social julgava como um horror
o homem virgem. Em contrapartida, para o casamento, estes escolhiam as recatadas moças de
família, virgens: “[...] ir a zona era preservar a menina da sociedade [...] o que o namorado não
podia fazer com a namorada fazia lá. Tinha de ser lá, não podia ser com a namorada.”
(BASSANEZI apud PRIORE, p. 289).
Ao contrário dos maridos, as adúlteras, como já foi evidenciado, eram severamente
punidas. Em qualquer que fosse o caso, as mulheres eram aconselhadas a controlarem as
frustrações, fugirem das tentações e dominar seus impulsos, mantendo-se fiel mesmo que o
marido não fosse. Segundo Priore (2005) toda a revolta deveria ser concentrada na “rival”,
evidenciando as relações entre o gênero feminino, em que os homens estimulavam a competição
entre as mulheres, para desconsiderar sua dupla moral sexual. Esse ideal de estímulo de
competição feminina, ainda muito presente na sociedade atual, também é um recurso
58
Mesmo preocupadas com a liberdade sexual de suas filhas, a tendência era uma
melhor aceitação de tais mudanças. Por exemplo, a grande maioria das mães disse que
ajudaria suas filhas a praticar concepção se soubesse que eram sexualmente ativas.”
(YALOM, 2002, p. 409)
O impulso sexual neste momento passa a ser visto, significantemente como algo
aceitável e ainda mais desejável em uma mulher. Em seu auge, a revolução sexual reivindicava
não apenas sexo bom, mas amor, respeito, compromisso, atenção. Segundo Marilyn Yalom
(2002) esse movimento não ficou limitado apenas as solteiras, mas também casadas e senhoras
com mais idade que iniciaram seus relacionamentos mais tarde.
Essa maior liberdade sexual experienciada pelas mulheres a partir da década de 60,
aconteceu paralelamente a participação feminina no mundo do trabalho. Segundo Yalom (2002)
o número intenso de mulheres trabalhando começou a alterar a estrutura do casamento e da
59
29
YALOM, 2002, p. 415.
30
“Governo Federal faz campanha de abstinência sexual voltada para o público de 10 a 18 anos. A ação tem como
objetivo conter a gravidez na adolescência por meio da abstinência sexual. Além disso, outra meta da campanha é
expor ao público jovem as vantagens de prorrogar o começo da vida sexual.”
(ISTOÉ. 23 de jan. 2020. Redação. Disponível em: https://istoe.com.br/comeca-em-fevereiro-campanha-do-
governo-federal-pela-abstinencia-sexual/. Acesso em: 07 out. 2020).
60
A ideia então da relação afetiva ser construída no amor e no sexo passou a ser
efetivamente discutida. Era o início do direito ao prazer para todos, sobretudo para as mulheres,
não mais penalizadas por seus desejos. Era o fim do ideal do amor virgem, de se casar virgem…
E quando acabava o amor? Neste momento a separação já não era mais considerada um fracasso
completo, então os casais se divorciavam e buscavam novos amores.
A imprensa neste momento, continuou a fazer seu papel de veículo de discussão de
novos valores e dinâmicas sociais. A revista brasileira “Ele/Ela” de 1969, citada por Priore
(2005 p.304) discutia sobre o uso de drogas, a revolução sexual, o feminismo e a
homossexualidade e seu público alvo era o “casal moderno” de classe média alta. Entretanto,
essa revista, segundo a mesma autora (2005), explorava esses temas de forma bastante genérica,
nem sempre defendiam tais “novidades”, distorcendo a emancipação feminina e valorizando
ideais de pureza, integridade e fidelidade feminina.
Assim como o Feminismo de Primeira Onda no Brasil se personificou de maneira
diversa comparado aos outros países ocidentais, a Segunda Onda do Feminismo no Brasil
também afluiu em uma dinâmica distinta, de acordo com o contexto político da época. Durante
a década de 60, o movimento feminista ressurgiu com toda a força, dando ênfase a sexualidade,
mas sobretudo evidenciando e denunciando a questão das relações de poder entre homens e
mulheres. Segundo a historiadora Céli Regina Jardim Pinto (2010) o livro “Segundo Sexo” de
Simone de Beauvoir de 1949 se tornou o principal referencial teórico para discutir as relações
de poder entre os sexos. Segundo a mesma autora, essa segunda Onda:
[...]aparece como um movimento libertário, que não quer só espaço para a mulher –
no trabalho, na vida pública, na educação –, mas que luta, sim, por uma nova forma
de relacionamento entre homens e mulheres, em que esta última tenha liberdade e
autonomia para decidir sobre sua vida e seu corpo. (PINTO, 2010, p. 16)
Enquanto que neste momento na Europa e nos Estados Unidos o cenário era propício
para movimentos libertários, o Brasil se via dentro de um contexto de repressão de luta política.
Foi durante o Regime Militar que aconteceram as primeiras manifestações feministas no Brasil
na década de 70.
Segundo Pinto (2010), o Regime Militar brasileiro via com muita desconfiança
qualquer manifestação feminista por compreendê-las concebendo uma política moralmente
perigosa. Ao mesmo tempo que as mulheres no Brasil organizavam as primeiras manifestações,
com muita desconfiança, as exiladas do país, sobretudo as que partiram para Paris foram
expostas ao feminismo europeu e passaram a se reunir e discutir novas questões. Isso aconteceu
apesar da oposição dos homens exilados, na maioria seus companheiros, que observavam o
feminismo como um desvio da luta contra a ditadura.
Entre 1979 e 1985 cresceu no Brasil uma mobilização de diferentes setores da
sociedade exigindo uma redemocratização. Segundo Giulani (2004) o enfrentamento contra a
política militar se iniciou no âmbito trabalhista, reivindicando negociações sindicais. Mas saiu
das paredes das fábricas e atingiu dimensões correspondentes às condições de vida, aos abusos
praticados pelas autoridades municipais e estaduais (altas taxas de água e esgoto, falta de
assistência médica…) e ao alto nível de pauperização evidente nas cidades.
Na primeira metade da década de 1980, a preocupação com uma melhor condição de
vida mobilizou diferentes setores sociais em busca da redemocratização. Segundo Giulani
(2004) esse objetivo em comum fez com que aqueles que antes agiam separadamente se
unissem, configurando vários levantes populares. Mulheres trabalhadoras, grupos feministas,
organizações sindicais, partidos, setores que atuavam na administração do Estado, começaram
a pensar juntos a divisão sexual do trabalho. Esse movimento alavancou o feminismo, sobretudo
com a pauta da luta pelo direito das mulheres. Nesse momento, Pinto (2010) aponta que
inúmeros grupos e coletivos discutiam violência, sexualidade, igualdade no trabalho e no
casamento, direito à saúde materno infantil, denunciavam a precariedade dos serviços coletivos
municipais.
A discussão ganhou força com o apoio de profissionais das principais áreas que se
situavam as reivindicações - educadoras, médicas, advogadas, assistentes sociais - que junto
com o ideal feminista abriram o debate sobre mulheres-saúde-cidadania.
Não obstante, discutiram pela remodelação da relação entre família e trabalho,
buscaram novas proposições de equidade entre os sexos e por modificações na ordem cultural
e jurídica brasileira. Giulani (2004) discute também que foi proposto uma revisão da
feminilidade, sobretudo entre as trabalhadoras, entendendo que para renovar o conceito de
feminilidade era indispensável renovar também o conceito de masculinidade, era necessário
62
31
A partir do movimento historiográfico da Escola dos Annales.
63
trazia um discurso que transformava o homem em vítima frente aos impactos do feminismo,
expostos ao afeminamento do ser homem. Preciso nem dizer o quanto a sociedade dissipava
preconceito contra os homossexuais.
Na imprensa, na TV, na música e no cinema os temas amor, casamento, família e
sexualidade eclodiam revelando os conflitos em que a sociedade brasileira vivia. Segundo
Priore (2005), essa revolução tinha uma face oculta, que aparecia em discursos normativos,
através da pressão de grupos tradicionais, induzia culpas e instigava uma diferenciação entre as
mulheres certas e as mulheres erradas.32
Com a popularização da TV, surgiram as fabricações de novelas que traduziam em
seus episódios os papéis esperados na vida; valores e tradições. Tudo se repetia dramaticamente
nas telinhas. Elas incitavam um ideal de amor romântico e de relação a ser buscado, exprimiam
em seus capítulos beijos, prazer e orgasmos, sexo antes do casamento, segundas uniões e crises
amorosas. Se o sexo antes do casamento foi perseguido por toda a história, neste momento ele
foi se alterando lentamente, sua mudança foi possível através da sua desvinculação ao ideal de
procriação e submisso ao casamento.
Já no âmbito das estruturas, ainda estava impregnado na sociedade que o lar era o lugar
ideal da mulher, e a rua, o lugar do homem. Muitas revistas continuaram a investir na figura
materna e na dona-de-casa. Priore (2005) disserta que as revistas femininas tinham o homem
como ponto de referência, ele era a razão do ser mulher e o meio pelo qual elas seriam
felizes. Entretanto, as mulheres dessa época sentiam-se mais livres, sobretudo para quebrar
barreiras e para viver a sua sexualidade, tão oprimida ao longo da história. Esse movimento
“estimulou” a já antiga tendência masculina de não comprometimento, uma vez que se sentiam
ainda mais intimidados por estas serem conhecedoras de técnicas sexuais. Para mais, diminuiu-
se a tolerância frente às infidelidades masculinas.
Mas e a família tradicional católica frente à essas mudanças? Segundo Priore (2005)
ela ainda assumia (se ainda não assume) a sua função de moralização da sociedade. Entretanto,
percebemos um afrouxamento dessa instituição frente ao individualismo presente. Nesse
momento, muitas mulheres demonstram-se conscientes dos desafios da nova realidade a serem
enfrentados porque na prática tinham de atuar no sindicato, na empresa e na família. A nível
cultural e político tinham de defender as mudanças no âmbito das relações interpessoais e de
gênero, em que os papéis da mulher se diferiam (se ainda não diferem) nos três espaços.
32
As que “davam”, e as que “não davam”.
64
Nesse intenso debate social de gênero, Giulani (2004) indica que dois processos foram
extremamente significativos em fortalecer as consciências e os argumentos das mulheres. No
primeiro, concebe-se a necessidade de legitimar normas universais de igualdade por meio da
difusão de estudos e dados estatísticos: pesquisas acadêmicas; análises; redes de comunicação
de massa; aparelhos de administração pública; centros de pesquisas sindicais; etc. No segundo,
buscam investir na elaboração de regras - nas diferentes áreas da vida social -, medidas e
princípios que buscassem garantir o equilíbrio entre homens e mulheres; reivindicam que sejam
juridicamente formalizados em nível local, regional e nacional.
Já nas últimas décadas do século XX já era possível ver algumas vitórias do feminismo
brasileiro, como a criação do Conselho Nacional da Condição da Mulher (CNDM), em 1984
que tendo “[...] sua secretária com status de ministro, promoveu junto com importantes grupos
– como o Centro Feminista de Estudos e Assessoria (CFEMEA) 33, de Brasília – uma campanha
nacional para a inclusão dos direitos das mulheres na nova carta constitucional.” (PINTO, 2010,
p.17.)
Segundo Giulani (2004), houve a contribuição de muitas mulheres - de diversos
segmentos sociais e com críticas diversas à desigualdade sexual no mundo do trabalho e
relações familiares - no processo de elaboração da Constituição de 1988. Entretanto, a nova
Carta que deveria contribuir na ampliação da cidadania social das mulheres, em seu final
demonstrou grandes distâncias entre as demandas de cidadania e a redação conclusiva do
documento. Mas em sua teoria, é uma das que, no mundo, mais garante direitos para a mulher.
Em 1993 surgiu também a Central Única dos Trabalhadores (CUT) que desenvolveu
quotas mínimas de mulheres na disputa por cargos diretivos. Essa ação não garantia equilíbrio
numérico, mas se apoiava em um princípio de igualdade entre os sexos no trabalho.
Na década de 1990, a Terceira Onda do Feminismo é iniciada, se configurando como
uma resposta às supostas falhas da segunda onda, apresentando novas estratégias para
continuidade do movimento. Como já foi esclarecido, a Segunda Onda foi responsável pela
conquista de muitos direitos. A partir disso, as feministas da Terceira Onda deram enfoque às
mudanças de estereótipos, nos retratos da mídia e na linguagem usada para definir as mulheres.
Para mais, o movimento sofreu, segundo Pinto (2010), um processo de profissionalização por
meio de criação de Organizações Não-Governamentais (ONGs), conjuntamente com
intervenção do Estado. Fazia parte dos objetivos buscar espaços para maior participação política
das mulheres, assim como aprovar medidas protetivas para as mulheres, uma vez que uma das
33
O CFEMEA, formado para promover a igualdade de gênero, iniciou suas atividades em 1992, acompanhando o
percurso de 160 projetos.
65
questões centrais da época, era a luta contra a violência, principalmente a violência doméstica.
Na última década do século XX, o país já contava com Delegacias Especiais da Mulher. 34
No âmbito afetivo, homens e mulheres seguiam seus corações. Ampliaram-se os
espaços para conhecer possíveis cônjuges. Cresciam as iniciativas masculinas de namoro e
sexo, entretanto, ficava a cargo da mulher controlar essas iniciativas, para não ganhar fama de
“galinha”.
O casamento passou a se basear no diálogo, segundo Priore (2005) as relações verticais
entre e marido e mulher foram se extinguindo e juntos dividindo o entendimento sobre a
educação dos filhos, do orçamento doméstico e da rotina. Amor-paixão e prazer sexual foram
sendo cada vez mais valorizados e a família se modernizando.
Já nas televisões brasileiras, a década de 90 ficou marcada com seus programas e
propagandas sexualizando o corpo da mulher. Era muito comum programas de auditório que
exibiam as mulheres em micro biquínis, coagidas a serem sensuais, lutarem em piscinas de
gelatinas e obedecerem aos mais absurdos comandos dos apresentadores.
Na virada do século XXI já era possível ver a “[...] transição - muito lenta - entre o
‘amor idílico’ dos avós para a ‘sexualidade obrigatória dos netos’.” (PRIORE, 2005, p. 311).
Nesse momento, ninguém mais queria casar sem experimentar, mulheres discutiam os
orgasmos e a ciência foi ganhando maior visibilidade, apagando a ideia do sexo como pecado.
Considero de extrema complexidade falar de mulheres em um sentido geral no Brasil.
De fato, são muitas diferenças e disparidades entre as mulheres à respeito da disponibilidade de
recursos econômicos, sociais e culturais e, portanto são dessemelhantes as oportunidades, os
acessos e trajetórias. Entretanto, todas as mulheres tiveram sua contribuição pessoal - em maior
ou menor dimensão - na ressignificação do ser mulher e na luta por direitos durante o século
XX. Foi através da consciência e da solidariedade entre mulheres que foi possível uma
revolução, sobretudo no âmbito das relações entre os sexos. O século XXI teve seu início
embutido de ideias feministas na nossa cultura.
Para concluir, a autora Lygia Fagundes Teles (2004)35 desvenda que a revolução da
mulher foi a mais importante revolução do século XX:
A difícil Revolução da Mulher sem agressividade, ela que foi tão agredida. Uma
revolução sem imitar a linha machista na ansiosa vontade de afirmação e de poder
mas uma luta com maior generosidade, digamos. Respeitando a si mesma e nesse
respeito o respeito pelo próximo, o que quer dizer amor. (TELES, 2004, p. 562)
34
A primeira unidade foi inaugurada no estado de São Paulo em 6 de agosto de 1985 durante o governo Franco
Montoro.
66
Diante do que foi apresentado neste capítulo, o próximo capítulo irá evidenciar a
relação entre o amor e a violência contra a mulher no Brasil, como sinônimos. Discutindo sobre
a legitimação dessa violência através de uma política e cultura patriarcal e misógina. Será
evidenciado os crimes passionais e os homicídios contra a mulher que se deram ao longo da
história do Brasil, sobretudo aqueles que se configuraram no século XXI, mesmo após as
transformações sociais, culturais e políticas decorrentes da revolução feminista. Usando como
fonte notícias reais do acervo do Jornal “O Globo”, a fim de discutir o impacto e a importância
de políticas públicas, assim como a superação dessa problemática lastimável através de uma
redemocratização social e cultural a fim de romper com essa posse e controle da vida mulher.
67
A violência contra a mulher ao longo dos séculos interrompeu milhares de vidas pelo
mundo. Atualmente, no século XXI, a violência ainda se faz presente, sobretudo no Brasil, onde
muitos homens ainda lavam sua honra com o sangue de suas mulheres. Segundo o Alto
Comissariado das Nações Unidas para Direitos Humanos (ACNUDH), atualmente o Brasil
ocupa o 5º lugar no ranking mundial de Feminicídio.
Segundo o Mapa da Violência do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), entre 2003 e
2013, registrou-se que o número de mulheres assassinadas no Brasil aumentou de 3.937 casos
para 4.762 mortes. Em 2016, uma mulher foi assassinada a cada duas horas no país.
Diferente de um homicídio comum, o que caracteriza o Feminicídio é a relação com o
autor do crime. Enquanto homens têm maior probabilidade de serem vítimas de desconhecidos,
com as mulheres é recorrente que o seu agressor seja da sua própria família, mais comum ainda
que seja seu parceiro ou ex-parceiro íntimo. Sabe-se que de 40 a 70% dos homicídios femininos
(DAY, 2003)36 no mundo são cometidos pelo cônjuge. A pobreza aumenta a probabilidade de
mulheres serem vítimas de violência. O abuso geralmente parte de um padrão repetitivo, de
controle e de dominação.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2002) a violência pode ser
definida como “o uso intencional da força física ou poder contra si próprio, contra outra pessoa
ou contra um grupo ou comunidade que resulte ou tenha possibilidade de resultar em lesão,
morte, dano psicológico, deficiência de desenvolvimento ou privação”.
No campo da Sociologia, a violência se caracteriza como imposição da força com a
finalidade de exploração/dominação, ou seja, como fruto ou consequência de uma relação
hierárquica e/ou assimétrica, ao qual o indivíduo que se posiciona inferiormente é tratado como
“coisa”, sendo anulado pelo opressor. Assim, a violência se caracteriza resultante de uma
relação de poder, em que o mais forte se sente no status de subjugar o mais fraco, como se fosse
uma justiça natural. Entretanto, este poder não é uma condição inata ao ser humano, mas um
comportamento aprendido e incorporado ao longo da história funcionando sobretudo como uma
ação disciplinadora e/ou punitiva (MARABEZZI, 2010).
Em “Direitos Humanos e Violência contra a Mulher: um estudo de gênero sobre o
homicídio passional no Código Penal Brasileiro”, a autora Natália M. Marabezzi (2010) disserta
68
que a violência contra a mulher é um aspecto central da cultura patriarcal, por ser praticada por
homens contra mulheres no cenário privado, se manifestando como um exercício de poder.
A construção do conceito feminicídio se tornou imprescindível para evidenciar um
problema antigo e recorrente do Brasil: a morte de mulheres por serem mulheres. Sancionada
em 2015, a Lei do Feminicídio (Lei 13.104/15) define o crime quando o assassinato envolve
violência doméstica e familiar, menosprezo ou discriminação à condição de mulher da vítima.
A pena para o autor desse crime varia de 12 a 30 anos.
37
Violência física, psicológica, moral, sexual, econômica e social. Como nos casos de violência doméstica em
que, geralmente, os atos de violência física podem vir acompanhados de violência psicológica, moral, sexual ou
econômica.
69
cometido por homens, que, segundo este autor, possui características que motivam “manter”
(até morta) a mulher que “amam”.
As teorias estruturalistas denotam que a violência se manifesta pela estrutura social.
Nesse sentido, Chung (2005) reforça que o amor romântico é uma instituição heterossexual,
que reforça o sistema patriarcal, naturalizando na sociedade o comportamento violento dos
homens como sinônimo de amor.
Já as teorias construcionistas sociais se contrapõem às justificativas biológicas e
complementam as estruturalistas, dissertando que o amor se expressa dentro de um contexto
social, cultural e histórico. Logo, segundo Lierberman e Hatfield (2006), a violência é articulada
com a cultura, ou seja, a violência pode ser vista como expressão do amor, porque atribuíram
esse significado a ela. Sobretudo com a romantização dos ciúmes. Esses autores concluem que
o que determina o que é abusivo e perturbador na relação não são os genes, mas a cultura que
autorizou e naturalizou os atos violentos.
A violência de homens contra as mulheres tem uma raiz sociocultural que legitima os
atos violentos. Por isso que não é recorrente ver casos inversos, de violência da mulher contra
o homem, uma vez que dentro da cultura patriarcal, as mulheres sentem-se menos poderosas
socialmente e menos proprietárias de seus parceiros. Desde pequenas, mulheres são educadas a
serem fiéis, compreendendo traições e sofrimentos, enquanto que os homens são estimulados a
ter muitas parceiras (como sinônimo de virilidade). Logo é possível perceber que há um
desencontro amoroso marcado entre homens e mulheres... Sendo assim, Oliveira e Bressan
(2014), apontam que essa questão faz com que os homens apresentem dificuldade em suportar
a rejeição, sentindo-se diminuídos na superioridade que pretendem ter sobre a companheira e,
por isso, busquem punir e/ou eliminar aquela que os desprezou.
A expressão máxima da violência contra a mulher - sua morte - geralmente não se dá
de forma isolada. O feminicídio decorre de um ciclo de violência que se faz presente dentro da
relação afetiva.
A agressão do parceiro íntimo - conhecida como Violência Doméstica - assinala atos
de maus-tratos ou espancamento da esposa, que é quase sempre, acompanhada de agressão
psicológica e, de um quarto a metade das vezes, também de sexo forçado.(DAY, 2003). Os atos
de violência contra a mulher se categorizam em violência física, psicológica, moral, sexual e
econômica.
O abuso pelo parceiro pode tomar várias proporções. As agressões físicas se dão pelo
uso da força, em que o parceiro direciona golpes, tapas, socos, chutes, empurrões, imobilização,
70
O homem sempre foi tomado como um protótipo de humanidade. Tudo, ou quase tudo,
foi feito sob medida para o homem. As relações de gênero definiram o espaço público como
um espaço masculino. Logo, a Justiça era feita por homens, prevalecendo um pensamento
masculino sobre leis, direitos e penalidades. A impunidade de crimes, envolvendo sobretudo
mulheres vítimas, não foi dada, e sim construída junto com a história do Brasil.
Na sociedade Colonial, segundo Priore (2005), empregava-se a Legislação Lusa, que
em sua essência constatava-se a assimetria na punição do cônjuge por adultério. Enquanto
mulheres não tinham possibilidade de defesa e perdão, o marido traído encontrava apoio na Lei
para lavar sua honra com o sangue da “amada”. Para mais, quanto maior a condição social e o
status do homem, maior sua impunidade.
Mas antes mesmo de falar de assassinato e impunidade, é necessário entender a
construção do tratamento da mulher no que diz respeito ao sistema legislativo, nas normas
concernentes às relações jurídicas de ordem privada: o Código Civil de 1916.
A sociedade brasileira em 1916 era conservadora e patriarcal, com sua atenção voltada
inteiramente para homens. Eles eram livres, independentes, podiam estudar, trabalhar, gerenciar
as finanças e controlar a família. Já à mulher, cabia o papel de submissão. Logo, as decisões
familiares ficavam a cargo do marido, sendo ele o chefe da conjugalidade (art. 233, CC/16). Ele
decidia sobre a criação dos filhos, sustentava a família e buscava seguir os padrões sociais.
O Código Civil de 1916 equiparava a mulher à uma criança, sendo relativamente
incapaz, como demonstra o artigo 6º. Assim, a ela era imposta extrema subordinação. A prática
de qualquer ato dependia da anuência do pai, e quando casada, do marido. Ingressar no mercado
72
de trabalho era uma decisão que precisava da autorização do marido, como indica o inciso VII
do artigo 242. A virgindade da mulher era exigência para o casamento. Os artigos 218 e 219,
previam a anulação do casamento se fosse constatado que a mulher não era virgem.
A Constituição Federal de 1891, vigente na época, foi a primeira do Brasil
Republicano. Ela fazia referência a igualdade, porém generalizada, não destacando nenhum
aspecto no que diz respeito ao tratamento desigual entre homens e mulheres. Até porque, não
consideravam mesmo a mulher como igual.
Passados alguns anos, constituiu-se o Código Penal de 1940, vigente até os dias atuais.
Apesar deste não mais excluir imputabilidade penal do homicídio praticado por paixão (art. 28,
inciso I), por muito tempo foi utilizado o argumento da legítima defesa da honra. Em
contraposição a esta alegação argumentava-se pela caracterização do homicídio passional como
um homicídio privilegiado, afinal, considerava-se ainda o estado passional como causa
atenuante e podia-se diminuir a pena (art. 65, III, c e 121, parágrafo 1 º).
Com o tempo, na década de 1990, a releitura do Código foi se desprendendo do crime
passional e passou a reputá-lo como crime hediondo, considerando-o homicídio
qualificado (Lei n. 8.072/90, art. 1º e art. 121, parágrafo 2° do Código Penal).
Para compreender como o amor/paixão se tornou legítimo de crime, faz-se necessário
um breve estudo histórico que evidencie o cenário jurídico e social brasileiro na qual se
desenvolveu os debates e os liames do crime passional.
O Código da República de 1890 foi constituído baseado nos princípios da Escola
Clássica - inspirada pelo pensamento iluminista - que enfatizava a igualdade dos indivíduos
perante a lei (MARABEZZI, 2010. P.96). O debate acerca da responsabilidade e livre arbítrio
de autores de crimes fundamentou as leis penais e as posições dos agentes jurídicos no Brasil.
Nesse sentido, dentro dessa escola o crime era um uma infração, uma responsabilidade criminal
atribuída ao praticante do delito, independente do motivo que desencadeou sua prática.
Entretanto, a maioria dos juristas da época eram adeptos das teorias da Escola
Positivista38 que contrariava os ideais da escola clássica, gerando uma contradição entre as leis
codificadas e as práticas jurídicas. Essa corrente enfatizava que não deveria ser analisada apenas
a prática criminosa, mas também o agente do crime e suas motivações através de aspectos
antropológicos, sociológicos e psicológicos.
38
A Escola Positiva teve origem nos estudos de criminalistas europeus, do final do século XIX, como Lombroso,
Ferri e Garofalo. Para os adeptos desta vertente, “o crime é uma ação antisocial, promovida, num indivíduo de
resistência diminuída, por determinações.” (PEIXOTO, A Criminologia. Rio de Janeiro: Guanabara, 1933. p.31)
73
Assim, por força do artigo 27, Título III, que tratava “Da responsabilidade criminal;
das causas que dirimem a criminalidade e justificam o crime”, trazia em um de seus
oito parágrafos situações as quais pessoas não seriam consideradas criminosas, dada
à ausência de responsabilidade sobre seus atos. Dentre estes parágrafos, destaca-se o
§4° ao dispor que: “Não são criminosos: (...) § 4º. Os que se acharem em estado de
completa privação de sentidos e de inteligência no ato de cometer o crime.”
(MARABEZZI, 2010, p. 97)
Entretanto, não se trata de um amor romântico, sereno e calmo, aquele tido como o
amor santo, puro. É na verdade objeto de desejo desmedido, é selvagem, somado a desvios de
condutas e de comportamentos. Este sentimento é dito amor pelo fato de os homicidas
passionais serem emocionalmente imaturos, não aceitam a frustração de serem abandonados ou
o medo de serem traídos, aliado ainda ao meio social - e familiar - que tende a impulsionar essa
ação, geralmente possuem um histórico de violência contra a mulher, que se repete graças à
impunidade. Homicidas passionais são compulsivos e encontram sua essência no ato de matar
quem eles entendem amar.
76
Esta dependência emocional em parte pode ser explicada pelo modo como o
patriarcado codifica a “honra masculina”. Isto porque, pelos moldes ditados por uma
cultura onde predomina o masculino sobre o feminino a honra do homem condiciona-
se aos atos sociais praticados por sua companheira. As mulheres que se tornam boas
senhoras do lar, mães zelosas e mulheres com comportamentos sociais discretos e
politicamente corretos concedem a seus companheiros a honra perante o meio social
aos quais estão inseridos. Assim se explica a associação que o homicida passional
estabelece entre paixão, honra e virilidade masculina. No caso de rejeição ou
infidelidade ele considera sua honra masculina maculada por aquela que era seu objeto
de paixão, não aceitando ser deixado ou trocado por outrem, sentindo-se ferido como
homem, em sua virilidade. Assim sendo como forma de resgatar estes valores
apanhados lhe seria outorgado pela cultura onde prevalece o gênero masculino a
prerrogativa de ceifar a vida daquela que “o feriu”.” (MARABEZZI, 2010, p. 116)
Apesar do Código Penal de 1940 não prever o adultério como crime - como ainda será
explicado - o imaginário social com um código de ética contraditório que rechaça a infidelidade
feminina, legitimou como um ato nobre, por muitos anos, o homicídio praticado pelo homem
contra sua infiel companheira.
Nesse sentido, ao ser traído pela mulher, o homicida passional se transformava em
vítima da situação, ocorrendo no plano fático uma inversão de valores. Punir a traidora com a
morte significava justiça, preservando a ordem da sociedade patriarcal. Dessa forma,
demonstraria o controle da situação, que ao ser rejeitado e/ou traído, sente-se no direito de tirar-
lhe a vida, não abrindo mão de sua “posse” sobre ela, corrigindo o ato dela de deslegitimar sua
honra.
A percepção dos fatos do homicida passional é distorcida, o amor para ele reflete na
paixão por si próprio, seu objeto de desejo se revela na sua dependência e obsessão por sua
parceira. Assim como a questão da honra, ele procura convencer os demais indivíduos da
77
sociedade da apreciação que faz de si próprio, acarretando na tão almejada reputação. Dessa
forma, esta honra prevalecerá aos olhos da sociedade. Prova de que esta noção de honra é
distorcida, é que ele não se preocupa em manter esta honra no ambiente privado, com sua esposa
e família, mas tão somente no espaço público, no espaço considerado como aquele das decisões
masculinas. O sentimento nutrido pelo homicida passional é de egoísmo, raiva, rancor, ódio,
enfim, qualquer sentimento contrário ao amor. A posse se maquia de paixão. A legítima
defesa está prevista no Código Penal de 1940 no artigo 23, inciso II, dentre as causas
excludentes de ilicitude; e regulamentada pelo artigo 25 do mesmo diploma: “Entende-se em
legítima defesa quem, usando moderadamente dos meios necessários, repele injusta agressão,
atual ou iminente, a direito seu ou de outrem.”
A legítima defesa resguarda o direito primário do homem de se defender. A pessoa
que usa da autodefesa legítima como consequência da impossibilidade de cessar ou impedir a
injusta agressão, recebe proteção do Estado, a partir de uma análise subjetiva, que vai depender
de cada caso. Entende-se, desta forma, como sendo uma autorização dada pelo Estado ao
agredido para que possa, dentro dos limites estabelecidos por lei, se defender de uma eventual
agressão, sendo esta defesa determinada em razão de sua necessidade.
Segundo Marabezzi (2010), a principal característica da legítima defesa estrutura-se
na agressão injusta, ou seja, uma ação não aceita pelo ordenamento jurídico, lamentável pela
sociedade, abrangendo todo e qualquer interesse que possa ser tutelado juridicamente como: a
vida, a liberdade pessoal, o pudor, o patrimônio, a honra… Sendo necessário que a resposta da
vítima a esta injusta agressão seja imediata e moderada, a fim de apenas repeli-la. A cada
exagero cometido pelo agressor, justifica-se uma atitude correspondente em defesa. Entretanto,
a lei procura impedir excessos e abusos, limitando-se a tutelar apenas as reações justificáveis e
adequadas na defesa. Nesse sentido, a réplica do ofendido deverá apresentar característica de
defesa e não de vingança.
No caso do homicídio passional, não há de se invocar a legítima defesa, isto porque
sentimentos de desconfianças, ódio, paixão, ciúmes ou até mesmo o adultério não justificam
como resposta o assassinato da companheira. Entretanto, o emprego do instituto da legítima
defesa da honra em casos de homicídios passionais passou a ser utilizado como estratégia pelos
advogados de defesa do Brasil.
Esta estratégia de defesa apoiava-se em dois fatores, um de caráter social, se baseando
nos moldes patriarcais, e outro de caráter jurídico, pela construção dos advogados em resposta
contrária à regulamentação prevista no Código Penal de 1940. A legítima defesa da honra como
78
argumentação sustentada em bases sociais era o reflexo dos costumes e pensamentos da época,
e era aceito e legitimado, mesmo sendo uma brecha na lei de um crime injustificável.
A sociedade embriagada de suas raízes machistas, via o homicida passional como
vítima, que não tinha outra escolha, diante do atentado aos costumes de sua mulher, a não ser
agir em legítima defesa da honra, assassinando-a. Por meio deste discurso era possível alcançar
a tão almejada absolvição, era uma estratégia que ia além do privilégio. Nesses julgamentos, o
que se protegia era a honra como um modelo familiar, de ordem patriarcal, em que o crime não
se restringia tão somente à vítima, mas à sociedade como um todo.
Ela “pecou” contra a cultura patriarcal e por isso sua morte tornava- se legítima. [...]
A sociedade continuava a adotar o discurso que mirava os homicidas passionais como
vítimas de uma paixão desmedida, especificamente pelo fato de ter sido traído pela
mulher amada que não lhe dera outra opção que não o assassinato, lavando, assim, a
sua honra com o sangue de sua vítima. [...] Encontrando sua sustentação jurídica no
antigo Código (1890) no dispositivo referente à “perturbação dos sentidos e da
inteligência”, culminando na sua absolvição. A tese da legítima defesa da honra
sustentava-se no sentimento de honra como um modo de conduta capaz de levar o
indivíduo a defender os seus valores até as últimas conseqüências, valor este
determinado pela cultura, sexo e época. Por esta argumentação é que a infidelidade
masculina seria passível de tolerância, enquanto que a feminina era condenável a
ponto de pagar com a própria vida. (MARABEZZI, 2010, p. 134)
Não obstante, em meio a este pensamento social, o Código de 1940 já não admitia a
impunidade dos homicidas passionais, na teoria. O Decreto de 1942 passou a aplicar ao
criminoso passional a imputação da pena de seis anos de reclusão, referente ao homicídio
simples, porém, podendo ser diminuída de um sexto a um terço se o ato criminoso resultasse
de violenta emoção ou atendesse a relevante valor moral ou social. Dito isso, o novo diploma
não aceitava mais a absolvição, apenas a diminuição da pena. A emoção ou a paixão não exclui
a culpabilidade (artigo 28, inciso I).
No entanto, a sociedade da época não aderiu aos princípios do Código, assim os
advogados passaram a usar de uma argumentação empírica da legítima defesa da honra em
defesa de seus assassinos para diminuir ainda mais a pena prevista no homicídio privilegiado
ou até mesmo alcançar a absolvição. A tese de defesa nos casos de homicidas passionais
requeria uma análise extensiva dos artigos 138, 139 e 140 do Código Penal 39. Assim, ao
39
Calúnia: Art. 138 - Caluniar alguém, imputando-lhe falsamente fato definido como crime:
Pena - detenção, de seis meses a dois anos, e multa.
§ 1º - Na mesma pena incorre quem, sabendo falsa a imputação, a propala ou divulga.
§ 2º - É punível a calúnia contra os mortos.
Exceção da verdade
§ 3º - Admite-se a prova da verdade, salvo: I - se, constituindo o fato imputado crime de ação privada,
o ofendido não foi condenado por sentença irrecorrível; II - se o fato é imputado a qualquer das pessoas
79
interpretar que tais artigos resguardam a honra e esta é um direito do homem garantido em lei,
torna-se possível a legítima defesa.
Evandro Lins e Silva, dentre muitas coisas, foi um advogado especializado em defesa
de autores de homicídios passionais. Chegou até a escrever um livro para orientar outros
advogados dessa área, se baseando no seu maior caso: O assassinato de Ângela Diniz por Doca
Street, ocorrido em 1976. O livro com o título “A Defesa Tem A Palavra”, dizia muitas coisas,
entre elas, o autor aponta que não fazia sentido permitir uma condenação a uma pena exagerada
quem agisse por motivo aceito e compreendido pela sociedade.
Do outro lado, advogando contrário a maioria dos juristas de sua época, o advogado
Léon Rabinowicz, (MARABEZZI, 2010) desde suas primeiras obras sobre homicídios
passionais, utilizava-se da tese de que o homicida passional não pode merecer absolvição da
Justiça, pois o autor do delito pensa no assassinato e saboreia o prazer da vingança, atrelado ao
domínio do poder.
Usavam do amor como válvula de impunidade… e a tese de legítima defesa da honra
não tem nenhum registro de fundamento legal que permitisse seu uso. Enquanto o cenário
jurídico era contraditório, injusto e misógino, no plano social, a imprensa explorou arduamente
os crimes por amor. Os jornais da segunda metade do século XX extravasavam os sentimentos
mais íntimos e estimulavam no imaginário social a complacência pelo homem que “amou tanto,
coitado, que matou”.
indicadas no nº I do art. 141; III - se do crime imputado, embora de ação pública, o ofendido foi absolvido por
sentença irrecorrível.
Difamação: Art. 139 - Difamar alguém, imputando-lhe fato ofensivo à sua reputação:
Pena - detenção, de três meses a um ano, e multa.
Exceção da verdade.
Parágrafo único - A exceção da verdade somente se admite se o ofendido é funcionário público e a ofensa é relativa
ao exercício de suas funções.
seus elementos, aparentemente corriqueiros: formato, papel, letra, ilustração, tiragem, sugerem
indagações que prenunciam a carga de historicidade presente no periódico. É necessário ir além
da análise do discurso, pois em um país como o Brasil, com uma fraca população leitora, a
imagem e a ilustração garantem rápida absorção das mensagens. A apreensão da imagem nos
possibilita entender as diversas representações da realidade e a construção de imaginários
acerca de um determinado período.
Segundo Laura Maciel (apud CRUZ; PEIXOTO, 2007, p. 258) na prática da pesquisa,
não podemos tomar a imprensa como um espelho ou expressão de realidades passadas e
presentes, é necessário ver como uma prática constituinte da realidade social, na qual modela
formas de pensar e agir, que define papéis sociais, generaliza posições e interpretações que se
pretendem compartilhadas e universais. Não convém apontar que a imprensa “tem uma
opinião”, mas que em sua atuação é capaz de delimitar espaços, demarcar temas, mobilizar
opiniões, constituir adesões e consensos. É mais que papel, é um campo de ação que intervém
nas diferentes esferas da vida social, política e cultural da sociedade moderna.
Fazer o uso do jornal como documento histórico, é analisar o que ele tem a nos dizer
enquanto representação de uma época. Em seu texto, Vieira (2013 p. 2) se ampara fortemente
nos escritos de De Luca, para quem “a imprensa periódica escolhe, ordena, estrutura e narra, de
uma determinada forma, aquilo que se elegeu como digno de chegar até o público.”
Segundo De Paula (2015) a imprensa tornou- se uma indústria poderosa de informação
com papel privilegiado de formadora cultural de opinião. Seu lugar é essencialmente político,
considerando que as matérias são um evento discursivo comprometido com as influências dos
diversos domínios da sociedade “pois seus textos, opiniões, conceitos e apreciações são
carregados de intencionalidades dos proprietários, editores, colunistas, leitores, anunciantes e
demais financiadores.” (2015, p. 2). Logo, nenhum discurso da mídia é neutro.
Apesar de procurar demonstrar uma imagem de comprometimento apenas com o seu
público, a imprensa não é independente. A análise do discurso dos profissionais da imprensa
permite visualizar além do que está explícito, de maneira a ver os conteúdos conscientes e
inconscientes, as publicações em destaque, o espaço e o local distribuído para cada temática.
Para mais, buscar os sentidos implícitos, os imaginários e as representações.
Sobre a subjetividade do acervo documental da imprensa, Burke (1992) aponta que é
necessário atentar-se que elas representam a visão da elite da época, são mediatizadas. E ao
expressar princípios e opiniões de seus proprietários, colaboradores e financiadores, “a
imprensa constitui um instrumento de manipulação de interesses e intervenção na vida social.”
(CAPELATO, 1988 apud DE PAULA, 2015 p. 2). Ainda segundo Capelato ao usar os jornais
82
como fonte de pesquisa, deve-se atentar-se que o seu valor não consiste apenas em repassar
informações, mas em produzir acontecimentos com uma compreensão do mundo, somada à
subjetividade, interesses e intenções. Deve-se relacionar texto e contexto.
Como já foi explorado neste trabalho, o assassinato de mulheres por seus
companheiros é uma problemática recorrente na história do Brasil. Por séculos, homens
matavam suas mulheres sem qualquer punição, se tornando algo naturalizado e recorrente em
nossa cultura. Para evidenciar essa questão, analisarei um caso de feminicídio pelas páginas do
jornal O Globo. Esse caso foi um divisor de águas na vida de muitas mulheres e que causou
profundas mudanças quanto aos direitos e a proteção das mulheres no Brasil.
O caso se refere ao assassinato de Ângela Diniz, pelo seu namorado, Raul Fernando,
conhecido como ‘Doca’ Street, em 30 de dezembro de 1976, em Búzios, estado do Rio de
Janeiro.
A escolha do jornal “O Globo” 40 como fonte e objeto deste trabalho se deu pela sua
grande popularização, pelo seu alto índice de circulação, por sua repercussão de nível nacional
e sua forte influência de opinião. Sobretudo acerca da questão de que o jornal no período do
recorte deste trabalho, entre 1976 a 1981, se via como instrumento de linguagem dos interesses
do governo vigente e também pelo fato do público-alvo deste jornal ser as classes A e B, no
sentido que isso diz muito sobre a construção dos seus discursos, uma vez que, segundo Baczko
(1984) os meios de comunicação difundem ideias, opiniões e conceitos de um determinado
segmento social e legitimam seu discurso de poder.
Para mais, a escolha do jornal O Globo para este trabalho se deu pela quantidade alta
de matérias noticiando o caso da Ângela Diniz. Não só o jornal, mas a rede Globo de televisão
fez uma cobertura completa do caso. Inclusive, foi o primeiro julgamento televisionado da
história do Brasil.
Antes de falar do caso em si, é preciso delinear o contexto social e político da época.
Coloca-se necessário evidenciar que O Globo se tornou a maior empresa jornalística do Brasil
durante a ditadura militar e é uma das principais fontes históricas para a compreensão da
40
O Jornal O Globo teve a sua fundação em 29 de julho de 1925, por Irineu Marinho.Com a morte do fundador,
seu filho, Roberto Marinho assumiu a administração, em 1931, permanecendo no cargo até sua morte em 2003.
Desde a sua fundação, as relações do jornal “O Globo” com a política e os interesses políticos foram primordiais
para o seu desenvolvimento e modernização. O jornal O Globo era publicado de segunda a sábado, mas a partir de
julho de 1972 começou a publicar sua edição dominical consolidando o projeto de publicar em dias ininterruptos.
Sua divisão compreendia: cadernos semanais e editoriais diários, que dividiam o conteúdo do jornal de acordo
com o assunto e público-alvo. Os editoriais diários consistiam em O País, Grande Rio, O Mundo, Economia,
Cultura e Esporte. Durante o recorte da pesquisa (1976-1977), o alto escalão do jornal, exposto nas capas, era
composto por: Roberto Marinho (Diretor-Redator-Chefe), Rogério Marinho e João Roberto Marinho (Vice-
Presidentes), Ricardo Marinho (Diretor- Secretário) e Evandro Carlos de Andrade (Diretor de Redação).
83
participação da mídia no golpe civil-militar que instituiu uma ditadura no país. A partir de 1964,
logo nos primeiros dias após o golpe, a perseguição aos meios de comunicação que
representavam o mínimo de oposição ao governo foi iniciada. Segundo Sodré (1999) jornais e
revistas foram perseguidos e fechados, houve forte censura no rádio e na televisão, muitos
jornalistas foram presos, torturados, exilados e alguns tiveram seus direitos políticos cassados.
Mesmo com esse contexto, algumas empresas da imprensa conseguiram se manter
operando e no caso do O Globo, crescer. O grupo era uma grande empresa jornalística herdada,
com grande participação do capital estrangeiro através da publicidade e, não só apoiava o golpe
militar, como foi o seu principal porta-voz. Além dos interesses pessoais dos donos, dos
interesses estrangeiros, neste momento, o Governo Militar passava a atuar na imprensa
brasileira.
Sabemos que Ditadura partia de uma concepção conservadora, que reduziu o acesso à
cidadania social. Nesse sentido, Giulani (2004), aponta que esse governo reafirmou a assimetria
entre homens e mulheres, com políticas voltadas para a família institucionalmente constituída
em torno do chefe da família. É nesse contexto que Ângela Diniz foi assassinada com 4 tiros
no rosto pelo seu namorado, na Praia dos Ossos, em Búzios/RJ.
O crime ficou famoso porque as pessoas envolvidas pertenciam aos grupos sociais de
maior poder aquisitivo, aos círculos sociais ditos requintados e de prestígio e frequentemente
estavam nas colunas sociais da imprensa. Essa não é só uma história de coluna social, mas não
deixa de ser uma história sobre a imprensa. É também sobre o sistema judiciário brasileiro,
sobre como nasce uma mobilização, sobre como as mulheres viviam e morriam nesse país nos
anos 1970.
Ângela Diniz era uma socialite brasileira, nasceu em Belo Horizonte em 10 de
novembro de 1944. Entrou para as colunas sociais por se destacar por sua beleza, charme e
alguns escândalos (para a época). Aos 17 anos, ela se casou com Milton Villas Boas, 31 anos,
teve 3 filhos e se separou após 7 anos. Sem ainda a existência do divórcio, ela se desquitou,
perdendo a guarda dos filhos.
Antes de seu assassinato, Ângela Diniz esteve exposta na mídia com um tom de novela
policial por três envolvimentos com a polícia. Esses envolvimentos foram fundamentais na
construção negativa da sua imagem, sendo usados como argumentos para a defesa de Doca.
84
No primeiro caso, em junho de 1973, em sua casa, em Belo Horizonte, seu caseiro foi
assassinado a tiros pelo seu namorado “Tuca” Mendes, que era casado. Em um primeiro
momento, Ângela assumiu a culpa para preservar a imagem do parceiro, que depois admitiu-se
culpado (mas isso não apagou para a sociedade o seu envolvimento). No segundo caso, já
morava no Rio de Janeiro, e após visitar os filhos, em 1974, sua filha do meio, Cristiana, insistiu
que a mãe a levasse embora junto. Após alguns dias, Ângela Diniz havia sido indiciada pelo
seu ex-marido por sequestro. Foi condenada a 6 meses de prisão e foi assassinada antes de
cumprir a pena. Em setembro de 1975, houve uma denúncia anônima que dizia que portava
tóxicos em casa. Quando a polícia bateu em sua porta, ela entregou a maconha que tinha para a
polícia e foi detida por tráfico, tendo que assumir sua posição de usuária.
Raul Street, o Doca, era da alta sociedade paulista, casado com Adelita Scarpa, com
quem tinha um filho. Nasceu em 1934, se envolveu com Ângela Diniz ainda casado, em agosto
de 1976, quando tinha 42 anos. Largou a mulher, o emprego e o filho em São Paulo e foi viver
com ela no Rio de Janeiro, o relacionamento durou cerca de 3 meses.
De acordo com os relatos das fontes (imprensa e processo criminal), após uma
discussão, na antevéspera do Ano Novo, no dia 30 de dezembro de 1976, Ângela quis terminar
o relacionamento e pediu que o namorado fosse embora. Segundo o depoimento de Doca, eles
estavam na casa dela, em que moravam juntos, na Praia dos Ossos, em Búzios. Ele fez a mala,
ligou o carro… Porém, voltou para dentro da casa, pediu que reconsiderasse e o aceitasse de
volta. Neste momento, segundo Doca, ela disse que voltaria desde que a dividisse com outros
homens e mulheres, e comentou: “seu corno”. Em seguida, ela teria batido nele com uma bolsa
que guardava um revólver. Ele caiu, a bolsa caiu aberta e ao se levantar, fê-lo atirando,
disparando 5 tiros, 3 no rosto, 1 na nuca e 1 no braço. Doca, com o carro já ligado, fugiu e só
se entregou para a polícia meses depois.
Ao utilizar a imprensa como fonte, fica evidente de que as publicações do periódico
não são neutras. Os seus discursos são construídos diante dos fatos, com “filtros” que envolvem
interesses, princípios morais, contexto político e social. É necessário analisar a crítica interna
do jornal, de que maneira ele organiza as informações. O que ele quer relatar além da notícia?
Como ele nos constitui a realidade?
Esse caso vai dizer sobre como a sociedade da época via a morte de mulheres,
sobretudo daquelas que não se encaixavam no padrão social e moral. Esse caso reflete a cultura
de violência que foi construída no Brasil.
Em 31 de Dezembro de 1976, na capa do jornal O Globo, no canto superior direito da
página, contornado por um quadrado de linha preta, uma manchete: “Ângela Diniz morre em
85
Búzios, assassinada a tiros pelo marido.” (O Globo, Rio de Janeiro, 31 de Dezembro de 1976,
p. 1). Acima do título, duas fotos, uma de Ângela com uma feição pouco feliz e outra de Doca
sorrindo e segurando uma cerveja. No enunciado, dizia:
Ângela Diniz, milionária mineira, foi morta a tiros ontem à noite, por seu marido Raul
(Doca) Street. [...] Raul pertence a uma família tradicional de São Paulo e nos últimos
anos teve movimentada e acidentada vida social em São Paulo e no Rio. Ângela
tornou-se conhecida em todo Brasil em 1973, quando o vigia de sua mansão em Belo
Horizonte foi morto a tiros por Arthur Vale Mendes, amante da milionária. (O Globo,
Rio de Janeiro, 31 de Dezembro de 1976, p. 1)
41
Na linguística ilocutório é designativo do ato de fala em que o falante introduz uma intenção de realizar um
objetivo comunicativo, como perguntar, pedir, aconselhar, avisar, prometer, etc. Em linguística e filosofia da
linguagem, ato perlocucionário é a designação dada à categoria dos atos de fala que agrupa o efeito produzido
sobre o interlocutor: reações da audiência em relação ao ato proferido por algum ator social.
86
42
Segundo Ball-Rokeach e DeFleur (1982; 1993), o consumo das mensagens mediáticas visa a satisfação
individual de três objetivos e dele decorrem diferentes formas de dependência:
1. Compreensão da própria pessoa, dos outros e do ecossistema (para compreender a história, antecipar o futuro,
etc.);
2. Orientação, ou seja, a capacidade de direccionar acções (votar, comprar coisas, etc.) e de interagir com outras
pessoas (como comportar-se, etc.);
3. Play, na medida em que nas sociedades contemporâneas os indivíduos, em grande medida, dependem da
comunicação social quer para aprenderem as normas e valores que permitem a sua integração social quer para se
entreterem.
87
como vantagem estratégica, uma vez que o restante das tentativas de significados dos
acontecimentos vão ser construídas em função dessa primeira definição.
Voltando ao caso, eram os anos 1970, Ditadura Militar, pós revolução sexual… o que
nos cabe apontar um termo nesse momento, o “Backlash”, que consiste na ideia de que todo
avanço gera também um rebote, um ricochete – no caso, uma reação conservadora. Então, cada
vitória vem também com um retrocesso. Segundo Mary Del Priore (2004) há dois momentos
do século XX em que a violência contra a mulher ficou mais em evidência: nos anos 20 e 30 –
que foi justamente o auge do movimento sufragista e nos anos 70 e 80, logo depois de um
grande momento de liberação sexual.
Ângela Diniz, desde que se separou do marido, aos 26 anos, recebeu o nome de
“Pantera de Minas”, por conta de seus envolvimentos amorosos, sobretudo com homens
casados. Ela era o tipo de mulher que apesar de não ser feminista, gostaria de ser livre e foi,
com a consequência dos olhares tortos da sociedade que queria manter a “tradicional família
brasileira”. O jornal O Globo contribuiu para construir a imagem da vítima como ré, afinal, o
julgamento moral como mulher foi maior do que o julgamento pela sua morte. Por ser uma
notícia de grande valor noticioso, o jornal fez uma cobertura completa do caso, seguindo cada
passo do assassino e montando uma história de romance policial.
A página 11 do jornal, do dia 31 de dezembro de 1976 contava sobre o assassinato,
com três pequenas colunas no canto superior esquerdo que dizia:
de maio de 1973. Ela e o seu amante Artur Vale Mendes, rico empresário mineiro,
mataram a tiros o vigia da mansão de Ângela. [...] Inconformado com a versão dada
pelos matadores de José Avelino, o então diretor do departamento de Investigações,
delegado Inácio Prata Neto, pediu exames periciais na faca. Encontrou uma rara
impressão digital em forma de delta e das mais difíceis de serem encontradas.
Confrontada com as pessoas que frequentavam a mansão, conferiu com a impressão
digital de Ângela Diniz. (O GLOBO, Idem.)
De forma sútil o jornal, que estaria ali noticiando uma morte, já aponta que a vítima
dispunha de “suas façanhas como mulher da sociedade”. Este é um indício de que o Globo está
construindo um discurso acerca de uma mulher que não correspondia as expectativas do seu
papel social para a sociedade da época. Além disso, ela estaria envolvida no homicídio de seu
caseiro, o texto do jornal assevera que ela estava envolvida com a “prova” da sua impressão
digital... Entretanto, as investigações do caso não tinham essa “prova concreta”.
Para mais, o texto aponta a relação dela de amante de um homem casado “rico
empresário mineiro.” É impressionante como a construção do discurso do jornal sempre aponta
as qualidades dos homens citados, inclusive do assassino, como veremos mais à frente.
Essa mesma matéria também trazia um pouco de história de Ângela, com ênfase na
sua beleza, com a manchete: “Desde os 15, a mais bela de BH”.
Desde então ela se tornou também a mulher mais famosa e comentada de Belo
Horizonte. Casou-se com o milionário Milton Villas Boas, um austero engenheiro
metodista que nunca concordou com sua paixão pelas festas, incompatibilidade que
foi se agravando até resultar num desquite. [...]” (O GLOBO, Ibidem.)
Neste trecho, é possível perceber que o jornal continua construindo essa imagem da
mulher fora do “padrão aceito”, dizendo que ela se casou com um “austero engenheiro
metodista”, mas ela queria festas, o que não condizia com o papel da mulher, logo essa
“incompatibilidade” resulta em um desquite. Mais uma vez, vale ressaltar que uma mulher
desquitada não era bem vista.
Neste momento, a matéria continua falando de sua beleza, que frequentava festas, que
fora solicitada para posar em capas de revista e que esta havia se tornado conhecida como a
“Pantera de Minas”. E volta a falar do seu envolvimento na morte de seu caseiro, terminando a
matéria com o ocorrido da denúncia de sequestro por ter buscado a filha. Abaixo disso, outra
manchete: “Doca, em setembro, o amor em Búzios”. A matéria começa contando um pouco de
Doca, que era de São Paulo, tinha 40 anos…
89
Há seis anos viajou para os Estados Unidos e em Miami, devido seu físico atlético,
trabalhou algum tempo como salva-vidas. Retornando ao Brasil em 1972, casou-se
com Adelita Scarpa, filha do industrial Nicolau Scarpa e prima de Francisco
(Chiquinho) Scarpa, nomes também muito conhecidos na sociedade paulista. [...]
Segundo informações de amigos de Doca, ele conheceu Ângela Diniz há quatro meses
durante um jantar social em São Paulo. Em setembro se separou de Adelita Scarpa,
disse aos amigos que havia ‘descoberto o amor’ e passou a viver com Ângela em
Búzios. A notícia de que Doca assassinara Ângela Diniz em Búzios foi recebida como
um ‘choque brutal’ por Ricardo Amaral, dono da boite Hipopótamus e amigo de
infância de Raul Street. (O GLOBO, Ibidem.)
Ao analisar essa matéria já está evidente a construção da imagem de mulher que não
cumpre o seu papel social, é baladeira, é desquitada, sua beleza é perigosa, como uma Pantera,
tem envolvimento com a polícia e usa drogas. Enquanto Doca é o salva-vidas que largou a
mulher, o filho e o emprego para viver o amor. É nesse contexto de romance policial dessa
história de feminicídio que as representações são divulgadas para o público.
“Doca, de joelhos, a Ângela: - Você não devia ter feito aquilo” é a manchete na capa
do jornal do dia 2 de janeiro de 1977. Contornado por um quadrado de linha preta no canto
superior esquerdo. Na página 21, a matéria completa. No campo superior direito, ocupando
quase um terço da página, uma foto de Ângela, morta, estirada no chão, de bruços, apenas de
blusa e calcinha.
Parentes de Raul Street, o Doca, o homem acusado de ter morto Ângela Diniz na Praia
dos Ossos em Búzios, telefonaram ontem para a delegacia de Cabo Frio, para informar
que ele irá se apresentar à polícia local na tarde de terça-feira. Disseram também que
ele está ‘muito traumatizado’ com o crime que cometeu. [...] A polícia já sabe o
motivo da briga: durante uma festinha na praia, promovida pelos moradores da praia,
e da qual o casal participou, Ângela - que vestia apenas a parte inferior de um biquini
e uma blusa transparente - se ausentou por meia hora, em companhia de um francês
chamado Pierre. Durante a briga Raul Street se ajoelhou aos pés da mulher e lhe disse:
“Você não devia ter feito aquilo”.” (O GLOBO, Rio de Janeiro, 2 de Janeiro de 1977,
p. 21)
moralidade da época, apesar dela estar na praia... Mas não só o discurso, mas a foto dela morta,
apenas de calcinha, nos revela claramente a imagem que eles querem construir dela, sem pensar
na exposição e no sofrimento da família.
A questão do tal Pierre também foi explorada, mas ao longo das investigações não
houve sequer indícios da existência desse homem. A construção do discurso buscava trazer a
motivação apropriada para o crime. Uma vez que na história do país era comum e com tom de
justiça que o homem matasse a sua mulher frente a uma traição.
No dia 04 de janeiro de 1977, trazendo mais indagações para essa novela, a capa do
jornal saiu com a seguinte manchete: "Empregada: ‘Doca’ Street explorava Ângela”. Na página
11, vemos a matéria completa, onde a empregada apresenta nova versão para o crime, que trazia
para a história, o ciúme possessivo de Doca e o fato de só ela pagar tudo. Ela conta: “Esse tal
de Pierre - ela comentou - pra mim não existe. Pra começar que ele não desgrudava dela um
minuto sequer. Era impossível ela ter encontro com outros homens.” (p.11). O texto continua
com o relato dos episódios de agressão que Ângela vinha sofrendo por Doca.
Era a palavra de uma empregada negra contra a de um homem empresário, da alta
sociedade paulista. A matéria traz também o parecer dos advogados dele, dizendo que este
apareceria em dez dias para a polícia. Com o subtítulo “Medo”, o jornal conta:
Para evitar que o paciente consolide, atestada pelos médicos que o assistem, Raul
Street encontra-se em tratamento sonoterápico. Eu não me surpreenderia inclusive, se
amanhã, recebesse a notícia de que ele conseguiu suicidar-se. [...] Em seu caso, a auto-
destruição é vista como solução mais prática para todos os problemas, após a
destruição do objeto mais amado. A declaração é do advogado Paulo da Costa Jr.,
encarregado pela família Street, de defender ‘Doca’. (O GLOBO, Rio de Janeiro, 04
de Janeiro de 1977, p. 11)
Mais abaixo da matéria, o jornal conta que Doca tinha 2 processos em ficha policial
em São Paulo. Contando que ele é um réu “tecnicamente primário”. Em 1963, atropelou um
comerciante e em 1956, foi detido por agressão. No primeiro caso, o jornal conta que ele foi
absolvido e no segundo, condenado ao pagamento de uma multa de 20 centavos. A impunidade
do homem branco e rico era comum (se ainda não é) na sociedade brasileira. É possível ver o
contraste dos discursos. O Globo, na primeira notícia do caso, já aponta os envolvimentos
policiais da vítima, com manchete e tudo. Enquanto que, só 5 dias depois, em poucas linhas,
sem muito alarde, apontam o assassino como tecnicamente primário. Uma vez que cometeu um
crime, um homicídio, seria de maior conveniência explorar o histórico policial dele, ao invés
da vítima. Mas não, nesse momento, o intuito era construir a imagem do homem arrependido.
91
Ressalto ainda a expressão “objeto mais amado”, na qual o jornal reproduz a fala de
um advogado que explicitamente compara a mulher a um termo que indica posse.
Durante todo o mês de Janeiro de 1977, houve poucos dias em que as capas não
falassem de Ângela e divulgassem o caso com seu rosto. Na página 15 do dia 05 de janeiro de
1977, o jornal informa em manchete “Juiz decreta prisão preventiva de Doca”. Logo abaixo um
subtítulo com letras bem maiores que o texto e em negrito: “Advogado:- Raul está sob
tratamento médico”. Um trecho da matéria diz:
Se Raul for preso, será um homem morto - afirmou o advogado Costa Jr. [...] O
psiquiatra de Raul não responde por sua vida caso ele venha acordar da sonoterapia.
Segundo o médico, isto só pode ocorrer quando for sentido no paciente algum novo
interesse pela vida. [...] Segundo ele, “Raul está transformado em um farrapo humano,
morto desde o último dia trinta, após a destruição daquilo que ele mais amava”. (O
GLOBO, Rio de Janeiro, 05 de Janeiro de 1977, p. 15)
Pela segunda vez, agora um médico, que durante muito tempo, não tinha o nome
revelado, se referiu a Ângela não como mulher, mas como objeto. Anunciar o quão ruim Doca
Street estava quase nos faz esquecer que o viúvo inconsolável só ficou viúvo por conta de suas
próprias ações. Logo abaixo do subtítulo “a Família”, o jornal disserta sobre a estratégia do
advogado:
Fica evidente, que os advogados de defesa de Doca estavam construindo uma imagem
destorcida e negativa de Ângela. O jornal colabora reproduzindo esse discurso, explorando essa
ideia. Coletivamente, já estava implícito que a vítima era a principal causadora de sua morte,
“personalidade psicopática”, “alvo de ira dos homens”, como se fosse algum tipo de
justificativa...
O jornal O Globo não contente em noticiar sobre o caso nas páginas da “Grande Rio”,
neste dia também fez uma matéria no editorial “Cultura” com autoria de Ibrahim Sued,
namorado de Ângela Diniz na época quando ela se envolveu com Doca. Na coluna, na página
38 do jornal a manchete dizia: “A Imagem de Ângela Diniz” que sucediam subtítulos como:
“A Pantera de Minas”, “Sequestro da própria filha”, “Um charme terrível”, “Maconha”,
“Destino Marcado”, cada subtítulo continha um único parágrafo remontando um pouco a
trajetória da vida dela. Entretanto, mesmo que o autor tenha exposto que:
92
Ao decidir fazer este relato, eu o fiz para que fiquem bem claros os traços da
personalidade de uma mulher, que, mesmo depois de morta, não escapou ao noticiário
sensacionalista, apresentada ao público com uma imagem que não foi verdadeira
imagem de Ângela Diniz. Seus amigos, embora poucos, tinham adoração por ela. (O
GLOBO, Ibidem, p. 38)
Raul, depois de ter matado Ângela, tinha intenção de se apresentar a polícia. Ele estava
transtornado e quando deixou a casa dirigiu-se para a delegacia de Cabo Frio. Parou
seu carro na porta, e somente percebeu que usava shorts. Quando vestiu uma calça,
passou a chorar. Queria somente ver seus pais. Acelerou e deixou aquele local. Esta
versão da fuga foi apresentada ontem pelo advogado Paulo José da Costa Junior. [...]
- Raul não é uma pessoa perigosa. Pelo que sabemos não tem antecedentes criminais,
pois nas duas vezes que se envolveu com a polícia, foi absolvido. Além disso, existe
um detalhe muito importante: o autor de um crime passional nunca repete outro. Raul
está arrependido do que fez. (O GLOBO, Rio de Janeiro, 06 de Janeiro de 1977, p.
11)
A construção deste texto parece mais com o trecho de um livro de ficção do que uma
matéria de notícia de jornal. Volto a ressaltar a questão que já citei acerca do O Globo criar uma
lógica de representação, ele conta sobre os atores, os atos, as cenas e os motivos... conta da
maneira que uma pessoa comum contaria uma história. Sua gramática organiza os fatos,
condiciona a atenção, explora as expectativas e significados para o seu público. Esse trecho nos
revela o efeito afetivo que o jornal pretende gerar.
93
O delegado Tito Lívio, de São Pedro da Aldeia, esteve em Cabo Frio, e disse que sua
equipe está empenhada na captura de Doca; o maior problema, segundo ele, é a falta
de gasolina para seus carros [...]. À porta da delegacia, os policiais disputam, embora
sem meios, a captura de Doca. Para eles, a prisão de Doca é uma questão de honra,
mas nenhum deles nega a possibilidade de Doca ser preso […]. (O GLOBO, Rio de
Janeiro, 10 de Janeiro de 1977, p. 17)
família Street para defender Doca. No dia 26 de janeiro de 1977, na página 13, O Globo aponta
a visão do advogado, sempre adjetivado pelo jornal ao longo das matérias, com a palavra
“mestre”, no subtítulo: “Evandro Lins e Silva: - Um passional de romance” no texto abaixo o
jornal relata uma fala do advogado: “Quem acompanhou meus júris e leu meus trabalhos já
sabe que tenho grande experiência na defesa de réus envolvidos em crimes passionais. O de
Raul Street foi um crime passional, e em torno desse aspecto, que a defesa será orientado.”
Assim que saiu da clínica e voltou à prisão, O Globo conseguiu entrevista exclusiva
com ele, evidenciando seu estímulo ao desenvolvimento dessa trama amorosa catastrófica:
O Globo:- Qual o conselho que você daria a um homem apaixonado que estivesse em
desespero?
Doca:- O melhor conselho que eu poderia dar seria que saísse do desespero. Para que
não haja uma tragédia, para que evite o que aconteceu comigo, uma coisa que me
deixou arrependido. Sim, eu me arrependo muito do meu desespero. (O GLOBO, Rio
de Janeiro,05 de fevereiro de 1977, p. 14)
Barbeado, de calça creme e camisa azul clara, aparentando muita tranquilidade [...].
O par constante de Doca nesta temporada de pesca é uma loura muito bonita, filha de
Jorge Moraes Dantas. (O GLOBO, Rio de Janeiro, 14 de setembro de 1977, p. 10)
O advogado Evandro Lins e Silva [...] dirá no julgamento de seu cliente, dia 17
próximo, em Cabo Frio, que Ângela ‘dependia de medicamentos tóxicos e tinha
personalidade neurótica instável’, segundo diagnóstico de um médico que ele pretende
mostrar ao júri. (O GLOBO, Rio de Janeiro, 10 de outubro de 1979, p. 13)
95
O que me veio à mente é como o médico, que seria apresentado pela defesa, iria dar o
diagnóstico de uma pessoa morta? Com que evidências e sem a “consulta” com a vítima seria
possível dar esse diagnóstico? Mesmo assim, a gramática do texto sugere credibilidade, uma
vez que a fala de um advogado e um médico tem mais relevância do que de uma mulher,
sobretudo uma mulher de beleza provocante e conduta imoral.
Neste momento, já faltando poucos dias para o julgamento, o jornal traz no seu dia 15
de outubro de 1979, um parecer público das pessoas sobre o caso. Estabelece-se uma relação
entre mídia e sociedade, desvendando uma visão, segundo o jornal, que escolhe o que é
relevante para relatar em uma matéria, como homens e mulheres estavam vendo a morte de
Ângela e o julgamento de Doca. A página 14, referente a esta data foi inteiramente dedicada ao
caso, a manchete dizia: “Cabo Frio: Uma cidade à espera de um julgamento”. Logo abaixo da
manchete, um parágrafo em letras maiores e em negrito que dizia:
Esse trecho aponta explicitamente que as falas do jornal não eram singulares, elas
remontam a pluralidade do pensamento acerca da imagem construída da vítima e do acusado.
A sociedade compactuava com o que era exposto nos discursos do O Globo, a imagem da
mulher louca e vulgar e do homem que matou por amor.
No dia 17 de outubro de 1979 começou o julgamento de Doca. Parecia mais um evento
do que o julgamento de um assassinato. No jornal O Globo, mais páginas dedicadas ao caso.
Neste dia, na página 14, a manchete: “Começa hoje o julgamento de Doca Street”. Ao longo da
matéria, o jornal relata o projeto de defesa de Doca:
A tese a ser sustentada pelo advogado Evandro Lins e Silva será de que houve
‘participação da vítima na eclosão do crime.’
- Há pessoas que querem se matar, não tem coragem de fazê-lo pessoalmente e
decidem que essa morte deve ser executada pelas mãos de outros. O júri vai ficar
estarrecido com detalhes da personalidade de Ângela Diniz. Isto é lamentável, mas o
júri deve ser informado de tudo - disse ele. [...]
- Ninguém pode ser desmoralizado tanto tempo por uma mesma pessoa. Às vezes, a
reação violenta é a única saída - disse Evandro Lins e Silva, que pretende seja esta
última participação num Tribunal do Júri. (O GLOBO, Rio de Janeiro, 17 de outubro
de 1979, p. 14)
96
Neste momento, não existe mais fala neutra, já estava claro para toda a sociedade de
que quem matou Ângela, foi ela mesma, por sua conduta inadmissível, usando o Doca como
instrumento para isso. “O júri vai ficar estarrecido com detalhes da personalidade de Ângela.”,
essa fala nos mostra que o que estava em evidência era a vítima, não o crime, construindo
fundamentos para justificar a “reação violenta” como “a única saída”. Quase é possível esquecer
os 3 tiros que ele disparou no rosto dela. Inclusive, em casos em que se fere o rosto da pessoa,
este é um indicador de que o sujeito quer ferir a sua imagem. Ângela sempre foi reconhecida
por sua beleza, o que motivava os ciúmes possessivos de Doca. Se o crime fosse “acidental”,
como ele relata, que levantou disparando sem saber onde, o que justifica esses 3 tiros, que
desconfigurou o seu belo rosto? Mas essa questão não é levantada em nenhum momento.
Mais abaixo na matéria, um quadrado sublinhado com o título “Opinião das ruas”
trazia o posicionamento das pessoas. Uns eram a favor da condenação, como diz José Antônio
Ramos, de 19 anos, vendedor de camarão na Praia do Forte: “A mulher pode ser tudo o que
falam dela, mas Doca não tinha o direito de matá-la”. Claudinei dos Santos, de 47 anos, corretor
de seguros, reforçou o argumento: “Ele vai ser condenado porque ninguém tem o direito de
matar seu semelhante, mesmo que ela seja uma prostituta.” Já outras pessoas eram a favor da
absolvição, Édson Dias, professor, diz: “Absolvo, Acho que ele agiu movido pelo amor”. Jacira
Roldão, 42 anos, complementava: "Absolveria, é claro. Ele é um pão, Eu o vejo andando de
bugre nas praias de Cabo Frio. Ela o fazia sofrer. Ele a matou por amor, que por amor também
se mata. Acho que vai ser absolvido. Deve ter muita gente romântica nesse júri.”
Esse parecer das pessoas que o jornal traz nos mostra um pouco do contexto cultural
da época, em que as pessoas, mesmo que defendam uma condenação para o crime, expõem suas
considerações sobre uma mulher que não seguia o seu papel social imposto. Como já foi citado,
o julgamento de Ângela como mulher na sociedade, a exploração e distorção de sua imagem
foi muito maior do que o julgamento de quem tirou sua vida.
Foram dois dias de julgamento, e no dia 19 de outubro, a manchete com o resultado:
“Doca, condenado a dois anos, permanece em liberdade”. Na matéria dizia: “A suspensão da
sentença beneficiou o réu com liberdade condicional. Os jurados reconheceram que Doca ‘agiu
em legítima defesa de sua honra’ ao matar Ângela, por quatro votos a três." (O GLOBO, Rio
de Janeiro, 19 de outubro de 1979, página 14) Mais abaixo na página, com fotos da multidão
que estava ao redor do Tribunal e uma manchete “Na rua, cartazes e faixas saúdam Doca”. No
texto: “Na rua, em frente ao prédio do Foro, cerca de 500 pessoas já aguardavam com faixas e
97
cartazes: ‘Cabo Frio saúda Doca Street’, ‘Doca, Cabo Frio está contigo’, ‘A justiça de Cabo
Frio está de parabéns’.”
Na página 15, na edição do mesmo dia, no canto inferior esquerdo da página um
subtítulo que dizia: “Uma análise do julgamento” o jornal relatava: “As manifestações de rua e
à porta do Fórum já prenunciavam o resultado colhido pela defesa. E sendo o júri a
representação do sentimento da sociedade.” O jornal não mentiu, ele estava certo em dizer que
o júri e o resultado desse julgamento era reflexo do sentimento da sociedade, que banalizou a
morte de uma mulher e exaltou seu assassino.
3.5 O PÓS-JULGAMENTO
43
A Lei de Anistia de 1979, permitiu o retorno de todos os acusados de crimes políticos no período do regime
militar.
98
Esses dois casos, da Eloísa e da Regina 44, aconteceram em 1980, o ano seguinte do
primeiro julgamento do Doca Street. Elas sim, eram mulheres que cumpriam com seu papel
social, de esposa, mãe e dona de casa. Esses casos encaixavam dentro do padrão de moralidade,
capazes de comover as pessoas. Essas duas vítimas foram o rosto de uma mobilização de
mulheres que decidiram às ruas denunciar e lutar contra a violência e o assassinato de mulheres.
E esse movimento das mineiras acabou sendo fundamental para o clima que se armou
enquanto corria o processo pro segundo julgamento do Doca. Pela primeira vez a violência era
o foco. O slogan do movimento era “Quem ama não mata”, mostrando o contra-argumento
frente a justificativa de defesa de Doca Street, que dizia ter matado por amor. A violência
consistente e as mortes de mulheres pelos seus companheiros, que vinham sendo tacitamente
aceitas por todo mundo há séculos, de repente começaram a gerar revolta.
Neste momento, não só o elenco no tribunal tinha mudado, mas o lado de fora e a
plateia. No segundo julgamento, que ocorreu no dia 06 de novembro de 1981, havia uma legião
de mulheres feministas de fora do tribunal. Na capa do jornal desse mesmo dia, uma foto de
Doca limpando os olhos com um lenço e uma manchete “15 anos para Doca”. A matéria do
jornal, na página 8 relata o desenvolvimento do julgamento. Os defensores de Ângela usaram
de acusação o slogan das feministas “Quem ama não mata”, enquanto que os defensores de
Doca, com Evandro Lins e Silva fora do caso, continuavam a defender a “violenta emoção”.
No dia 7 de novembro de 1981, já passados 5 anos do assassinato de Ângela, na página
8, a manchete do jornal O Globo é a seguinte: “Agora, 15 anos de reclusão pela morte de
Ângela”. No canto inferior esquerdo, um pequeno quadrado sublinhado, com o subtítulo
“Feministas fazem sua comemoração”. Nesse momento, o jornal com sua postura sempre
buscando pela neutralidade, expõe descaradamente sua visão sobre essas mulheres:
[ilegível] Pinheiro, que liderava um grupo de feministas mineiras, ficou a noite toda
acordada, ‘fazendo a cabeça do pessoal’, Disse que a condenação de Doca foi uma
vitória para as mulheres [...] ‘que nunca se calaram diante do ridículo que representou
o primeiro julgamento.” (O GLOBO, Rio de Janeiro, 7 de novembro de 1981, p. 8)
44
Eloísa Ballesteros tinha 32 anos, fora casada com Márcio Stancioli, tinham 2 filhos, eram casados há poucos
anos e moravam em Belo Horizonte, seu assassinato foi no dia 27 de julho de 1980.
Mary Del Priore deu entrevista ao Podcast “Praia dos Ossos”, de 2019, apresentado por Branca Vianna que fez
uma pesquisa profunda acerca do caso de Ângela, e que apresentou esses outros casos de feminicídio. Sobre o de
Eloísa, a historiadora diz: “Ele disse que ele começa a desconfiar dela em '78, depois que ela passa alguns dias
sozinha em São Paulo. E aí ela volta com um corrimento, que ele associa a doença venérea. E depois, é óbvio, a
coitada da mulher é examinada, não tem doença venérea nenhuma, né.” Em 1980, Eloísa quis se separar. Priore
continua sua fala: “Depois de tomar uma garrafa de whisky para relaxar, ele descarrega cinco balas nela, e recarrega
a arma, e ainda dá mais dois tiros para ter certeza que ela morreu.”
Duas semanas depois do assassinato de Eloísa, também em Belo Horizonte, Maria Regina, que tinha 30 anos, foi
assassinada por seu marido Eduardo de Souza Rocha. A motivação teria sido ciúmes.
99
Doca cumpriu seus 15 anos de prisão, escreveu um livro “Mea Culpa” em que ele
conta sua versão dos fatos. O caso do assassinato de Ângela Diniz entrou para história de
diversas formas e representações, virou livro em maio de 1977 por Aguinaldo Silva: “Romance
do crime de Búzios”. Também virou filme, em 1977: “Os amores da Pantera” uma trama
ficcional que reencenava o caso, retomando especulações bizarras sobre o assassinato. Em
1982, a TV Globo pegou o slogan do movimento feminista e fez uma minissérie chamada
“Quem ama não mata.”
No plano social e político, as mulheres conquistaram muitos direitos desde então. As
mulheres criaram o Centro de Defesa da Mulher em Belo Horizonte, que se propunha a ser um
centro de estudos, de reflexão, e de elaboração de políticas públicas para o enfrentamento da
questão da violência. O objetivo comum era atender mulheres vítimas ou ameaçadas de
violência, antes que elas fossem mortas. Vários desses grupos vieram a se chamar “SOS
Mulher”. Em muitos casos, uma das coisas que esses grupos faziam era abrir uma linha
telefônica e ter voluntárias se revezando para atender. Só que essas mulheres que ligavam pro
SOS Mulher, não estavam fazendo uma denúncia pra polícia.
A repercussão desse movimento, que não foi apenas sobre Ângela, Eloísa ou Regina,
mas sobre todas as mulheres que tiveram seus sangues derramados nesse país, marcou a nossa
história feminista e de luta. O movimento deixou claro que novas medidas deveriam ser
tomadas, que as mulheres não iam mais aceitar a violência.
Segunda a autora Eva Blay (2003), logo em 1983 foi criado o primeiro Conselho
Estadual da Condição Feminina em São Paulo. Em 1985, criou-se a primeira Delegacia de
Defesa da Mulher, órgão voltado para reprimir a violência contra a mulher. Mas segundo a
mesma autora, o serviço das DDM’s era - e é - “prestado por mulheres, mas isto não bastava,
pois muitas destas profissionais tinham sido socializadas numa cultura machista e agiam de
acordo com tal padrão.” (2003, p. 7) Em 1991, segundo Rodrigues (2019), o STF decidiu que
“honra” é atributo pessoal e, no caso, a honra ferida é a da mulher.
Alguns anos depois dessas medidas, em 1998, Maria da Penha, vítima de violência
doméstica por 23 anos, que ficou paraplégica após uma tentativa de assassinato pelo marido,
com apoio de duas organizações não governamentais (CEJIL e CLADEM) entraram com uma
petição contra o Estado Brasileiro na Comissão Interamericana de Direitos Humanos,
denunciando a tolerância do Estado Brasileiro com a violência doméstica. Assim, ainda
segundo Rodrigues (2019), o governo brasileiro se viu obrigado a criar e aprovar um novo
dispositivo legal que trouxesse maior eficácia na prevenção e punição de violência doméstica,
100
resultando em agosto de 2006 a Lei 11.340, nomeada “Lei Maria da Penha”. Mesmo assim,
nesse mesmo ano, no estado de Pernambuco, 291 mulheres foram mortas em apenas cinco dias.
(RODRIGUES, 2019)
No dia nove de março de 2015, entrava em vigor a lei do feminicídio (Lei 13.104/15),
o assassinato de mulheres por serem mulheres. Segundo o site do Instituto Brasileiro de Direito
da Família, na publicação do dia 19 de outubro de 2020:
Ângela Diniz não era feminista, não conhecia o movimento e nem procurava entender
os ideais que vinham dele. Desde que este foi introduzido no Brasil, foi recebido pela maioria
da população de cultura machista e patriarcal, que era um movimento de feias, ressentidas, mal-
amadas, lésbicas... então não era nem um terço das mulheres do país, que se identificavam e/ou
entendiam quais eram seus objetivos. Mas Ângela era mulher, era consciente de que queria ser
livre, de que queria ser independente, de que a vida de esposa, trancada em casa não era pra ela.
Ela quis terminar o relacionamento com o Doca porque estava consciente de que não podia
mais aceitar os seus abusos, o seu controle.
Da mesma maneira que estampou os jornais com seu belo rosto viva, também o fez
com a sua morte. Essa foi sua grande contribuição para esse movimento. Ângela não pode ser
o rosto do movimento porque para a sociedade, ela não estava de acordo com os padrões de
moralidade, como se isso fosse justificava. Mas enquanto mulheres morriam por “debaixo dos
panos”, sem nenhuma repercussão, ela trouxe à tona, estampou as capas de jornais com mais
um caso de assassinato de mulheres, só que dessa vez, era o sangue de uma mulher rica e famosa
das colunas sociais. E isso foi uma grande chama para mostrar à sociedade que ela não era a
única e que ela não morreu por desviar dos padrões, ela morreu pelo machismo, pelo controle,
ela morreu por ser mulher.
São tão recorrentes os casos de feminicídio, desde as raízes da colonização até o século
atual, que é perceptível que não é um problema de ordem apenas política e jurídica. Afinal,
mesmo depois desse caso, que estampou nas mídias a morte de mulheres, resultando em
políticas públicas para cessar o problema, ficou evidente que mesmo com leis que assegurem a
punição de agressores e homicidas, a violência contra as mulheres e o feminicídio ainda é um
problema recorrente. Os homens continuam matando suas mulheres.
101
Diante disso, Auad (2016) disserta que as visões naturalistas sobre os sexos
representam travas para a superação dessa situação, pois a reprodução de atividades, atitudes e
ações segregadas ao machismo faz com que a violência perpetue nas práticas sociais, políticas
e jurídicas. Ainda segundo a mesma autora, educar homens e mulheres para uma sociedade
democrática e igualitária requer reflexão coletiva, dinâmica e permanente, abrangendo todas as
instâncias sociais.
É um problema de ordem social e cultural, pois as leis mudam, mas o essencial
continua intocado. E quando tocamos nesse problema, é evidente que as mulheres são vítimas
desse sistema, mas os homens também o são, logo a solução não deve apenas partir da
consciência das mulheres e da punição dos agressores. Exige ações voltadas à prevenção e
medidas de apoio. Entender a percepção do sujeito que permeou a violência é fundamental para
a compreensão do fenômeno, além de buscar uma assistência social, psicológica e jurídica, pois
apenas a punição não resolve o problema.
103
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
festa em 2018. No seu julgamento, foi considerado inocente. Segundo o promotor responsável
pelo caso, não havia como o empresário saber, durante o ato sexual, que a jovem não estava em
condições de consentir a relação, não existindo, portanto, intenção de estuprar – ou seja, uma
espécie de ‘estupro culposo’. Essa expressão não foi fundamento da sentença criminal,
entretanto, justificou o ato do agressor. A defesa do empresário mostrou cópias de fotos sensuais
produzidas pela jovem enquanto modelo profissional antes do crime como reforço ao
argumento de que a relação foi consensual.
Perceba como a sociedade muda, mas os seus discursos não. Pois, da mesma maneira
que Ângela Diniz foi culpada por seu comportamento, por suas vestimentas, por não se
enquadrar nos padrões de moralidade, Mariana Ferrer também foi acusada como culpada. Suas
atitudes como mulher – numa sociedade que hoje vê com mais credibilidade o feminismo, que
possui políticas públicas a fim de proteger mulheres nesses casos – foi utilizado como
argumento para justificar uma violação ao seu corpo, sendo que nenhuma atitude livre pessoal
é capaz de justificar uma agressão ou uma morte.
Essa problemática continua recorrente porque agressores e assassinos saem impunes
dessa situação, justamente pelo fato das leis e dos agentes de ordem jurídica terem sido
socializados na cultura. E é através dessa impunidade e naturalização dessa violência que a
sociedade ainda está sendo moldada. Enquanto o pensamento machista for maior que as leis,
enquanto o comportamento da mulher for usado como justificativa dos atos, não haverá
mudança na sociedade.
Além disso, existem muitas brechas na legislação capazes de reduzir a pena. Logo,
quando a mulher registra uma queixa de agressão, além de ter que provar para a instituição a
gravidade do problema, está sujeita a ameaças do parceiro, que muitas vezes, com raiva, acaba
saindo da prisão em pouco tempo e inferindo a expressão máxima da violência contra a mulher,
o assassinato.
Santos e Izumino (2005) propõem uma análise do papel das mulheres na condução das
queixas e dos processos penais. Elas observam que há diferenças significativas entre os
depoimentos prestados pelas mulheres nas diferentes fases dos processos e analisam a forma
como essas diferenças influem nas decisões judiciais. A absolvição do agressor muitas vezes
vem pela mudança no relato apresentado pela mulher no decorrer do processo. Isso porque,
quando a mulher presta a queixa, está machucada, sozinha e quer uma punição. Mas, sabemos
que sobretudo na violência doméstica, existe um ciclo de dependência e durante o processo, as
mulheres tendem a não ter mais um sentimento tão vívido de punição.
105
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