Artig7 RCB Des2021
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DE VIVER»
A ECONOMIA INFORMAL, O ESTADO
E A SEGURANÇA SOCIAL
Ruth Castel-Branco
Southern Centre for Inequality Studies, University of the Witwatersrand
Quero humildemente dirigir-me aos meus compatriotas que estão nos mercados... a todos esses eu
lanço este apelo: respeitem a vida, usem corretamente as máscaras, lavem frequentemente as mãos,
observem o distanciamento social. Se alguém está cansado de viver, é melhor ele próprio tomar uma
decisão do que prejudicar a maioria.
-Presidente Nyusi (2021)
«Se alguém está cansado de viver»: a economia informal, o estado e a Segurança Social Desafios para Moçambique 2021 177
Emergência, o Conselho Municipal da cidade de Maputo ordenou a retirada dos vendedores
dos passeios da zona comercial. Sem alternativas para o ganha-pão, os vendedores recusaram
cumprir com a ordem e a Polícia Municipal respondeu com gás lacrimogénio e balas de
borracha (Deutsche Welle, 2020).
A declaração do Estado de Emergência revelou e reforçou esta relação contraditória entre o
Estado e os trabalhadores na economia informal. Por um lado, os trabalhadores tornaram-se
mais visíveis politicamente, pois exercem funções essenciais: a produção e venda de bens de
primeira necessidade, a realização de funções de limpeza e segurança, a distribuição de produtos
para o combate à pandemia, etc. (RdM, 2020). Por outro, o Estado abdicou largamente da sua
função redistributiva e regulamentadora, obrigando os trabalhadores informais a escolherem
entre a doença e a fome. Apesar de o Governo ter aprovado o Programa de Acção Social
Direta Emergência (PASD-PE) – que visa distribuir uma transferência de 1500 meticais (MT)
a mais de um milhão de agregados familiares pobres e vulneráveis durante seis meses –, o
programa ainda não foi inteiramente implementado. Além disso, o Estado não investiu nas
infra-estruturas públicas necessárias para garantir a saúde e segurança dos trabalhadores
informais na linha da frente (Osório, Loforte & Vilanculo, 2021).
Países com sistemas eficazes de saúde e Segurança Social universal conseguiram proteger os seus
cidadãos contra os piores prejuízos socioeconómicos causados pela pandemia da COVID-19
(ILO, 2020). Infelizmente, estima-se que em Moçambique a incidência de pobreza disparou
para entre 75.5 % e 80.7 % (Mussagy & Mosca, 2020). Décadas de políticas neoliberais – a
liberalização da economia e do mercado de trabalho, a privatização e subfinanciamento dos
serviços públicos, a corrupção – fragilizaram a capacidade de resposta do Estado. Este artigo
analisa as opções políticas rumo a um sistema de Segurança Social mais robusto. A primeira
secção compara o sistema contributivo e não contributivo, enquanto a segunda analisa as
implicações de uma rede furada de Segurança Social para os trabalhadores informais, num
contexto de pandemia. A terceira e quarta secções avaliam as possíveis estratégias para a
expansão da Segurança Social Obrigatória e da Segurança Social Básica, e a quinta apresenta
uma discussão da responsabilidade redistributiva do Estado e o papel da Segurança Social na
construção de «vidas que não cansam viver». É verdade que os Estados foram apanhados de
surpresa pela pandemia, mas como diz o ditado «a vitória prepara-se, a vitória organiza-se».
178 Desafios para Moçambique 2021 «Se alguém está cansado de viver»: a economia informal, o estado e a Segurança Social
informal é extremamente diversa em termos do sector, da natureza das relações laborais e
das condições do trabalho. Uma pequena minoria é constituída por empregadores que têm
algum controlo sobre os meios de produção e podem definir o processo laboral. Os seus
rendimentos tendem a ser mais regulares e o risco de cair na pobreza inferior. Porém, a
maioria são subordinados a um patrão através de relações laborais ou comerciais, sendo eles
trabalhadores por conta própria sem empregados e trabalhadores familiares sem remuneração
(Figura 1). Dada a discriminação de género e a divisão sexual do trabalho, as mulheres estão
concentradas nas actividades mais precárias (Figura 2).
Empregador
478 439
Trabalhador
doméstico 4 261
797
Trabalhador por conta própria
sem empregados
1 568
Empresa pública
Administração pública
Empresa privada
Trabalhador doméstico
Empregador
0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 100%
Homem Mulher
Fonte: INE (2019)
«Se alguém está cansado de viver»: a economia informal, o estado e a Segurança Social Desafios para Moçambique 2021 179
Em Moçambique, a Segurança Social é um direito para todos os cidadãos (RdM, 2007a).
Porém, apenas 3 % dos trabalhadores informais usufruem deste mesmo direito, quer através
do subsistema da Segurança Social Obrigatória, quer através do subsistema da Segurança
Social Básica (R. Castel-Branco & Sambo, 2020). A Segurança Social Obrigatória assenta
num paradigma social trabalhista e numa lógica de seguro social. Na função pública, o
regime contributivo está a cargo do Instituto Nacional de Previdência Social, sob a tutela do
Ministério de Economia e Finanças. No sector privado, o regime contributivo está a cargo
do Instituto Nacional de Segurança Social (INSS), sob a tutela do Ministério do Trabalho
e Segurança Social. As prestações são financiadas pelas contribuições dos trabalhadores e
empregadores, e correspondem, respectivamente, a 3 % e 4 % do salário mensal. O direito a
prestações depende do historial contributivo do segurado. Os subsídios tendem a ser de curto
prazo e, portanto, requerem menos meses de contribuições, enquanto as pensões tendem a ser
vitalícias e requerem um histórico contributivo mais alargado. Por exemplo, para receber uma
pensão por velhice, o segurado precisa de pelo menos 240 meses de contribuições. O valor da
pensão é calculado com base no número de contribuições e a remuneração média mensal nos
últimos 60 meses (RdM, 2017). Um contribuinte com um historial contributivo fragmentado,
o que é comum dada a casualização do emprego assalariado em Moçambique (Ali, 2017),
dificilmente poderá cumprir com os critérios de elegibilidade (R. Castel-Branco & Vicente,
2019). Em 2015, o Governo decidiu estender a Segurança Social Obrigatória aos trabalhadores
informais (RdM, 2015). Como explicou a antiga Ministra do Trabalho Helena Taípo, esta
modificação foi prevista na Lei da Protecção Social (RdM, 2007a), mas não foi implementada
dada a dificuldade de definir um único protocolo para um sector tão diferenciado:
A Lei da Protecção Social decidiu criar uma cláusula referente ao sector informal... Um estudo
foi feito pela própria OIT e ficou-se a saber que a robustez do sistema da Segurança Social ...
condicionava a fazer a contribuição por conta própria da mesma taxa contributiva... A mulher,
no sector informal, deveria contribuir em 7 % para ter uma assistência a 100 %, igual àquela que
é feito por conta de outrem. (2015)
O Decreto n.º 14/2015 fixou uma taxa contributiva de 7 % do rendimento mensal declarado
pelo trabalhador. Segundo o Decreto, o rendimento declarado não pode ser inferior ao
salário mínimo do sector em que o trabalhador está enquadrado, que varia entre 4266,68 MT
para o sector de pesca de kapenta, e 12 760,18 MT para o sector de serviços financeiros. Os
trabalhadores informais usufruem dos mesmos benefícios que os trabalhadores formais, o que
garante a fácil articulação entre os dois regimes contributivos.
180 Desafios para Moçambique 2021 «Se alguém está cansado de viver»: a economia informal, o estado e a Segurança Social
FIGURA 3: OS BENEFÍCIOS E CRITÉRIOS DE ELEGIBILIDADE PARA A SEGURANÇA SOCIAL OBRIGATÓRIA.
Tipo de benefício Condições de elegibilidade Nível do benefício
Subsídio por doença não 6 meses, seguidos ou interpolados, nos últimos
70 % do salário médio até 365 dias
profissional 12 meses
12 meses, seguidos ou interpolados,
Subsídio por maternidade 100 % do salário médio até 60 dias
nos últimos 12 meses
Subsídio por 3 meses, seguidos ou interpolados, De acordo com a taxa diária do Sistema
internamento hospitalar nos últimos 12 meses Nacional de Saúde
3 meses, seguidos ou interpolados,
Subsídio de funeral Definido por Diploma Ministerial
nos últimos 12 meses
3 meses, seguidos ou interpolados, 6x a remuneração média mensal ou pensão
Subsídio por morte
nos últimos 12 meses no mês de falecimento
(Número de contribuições/420) x remuneração
240 meses
Pensão por velhice média mensal nos últimos 60 meses.
120 meses (pensão reduzida)
Pensão reduzida é igual a 50 %.
(Número de contribuições/420) x remuneração
Pensão por invalidez 30 meses de contribuições
média mensal nos últimos 60 meses
Temporária de 5 anos, se idade inferior a 45 ou
Pensão por sobrevivência 60 meses de contribuições
50 anos; vitalícia se superior a esta idade.
«Se alguém está cansado de viver»: a economia informal, o estado e a Segurança Social Desafios para Moçambique 2021 181
A Segurança Social Básica proporciona transferências monetárias aos cidadãos incapacitados
para o trabalho e a pessoas vulneráveis vivendo em situação de pobreza absoluta (RdM,
2007a). Financiada principalmente pelo Orçamento Geral do Estado, a Segurança Social
Básica é um instrumento redistributivo, gerido pelo Instituto Nacional de Acção Social, sob
a tutela do Ministério do Género, Criança e Acção Social (RdM, 2018). O maior programa
é o Subsídio Social Básico que proporciona uma transferência incondicional de entre 540
MT e 1000 MT a agregados familiares permanentemente incapacitados para o trabalho. O
segundo maior programa é a Acção Social Produtiva, que proporciona uma transferência
de 1050 MT a agregados familiares com capacidade para o trabalho, condicionada a sua
participação a trabalhos públicos de mão-de-obra intensiva. Finalmente, o Programa de Apoio
Social Direto proporciona prestações monetárias ou em espécie a agregados familiares em
situação de pobreza e vulnerabilidade transitória (UNICEF & ILO, 2020). O subsistema da
Segurança Social Básica segue uma abordagem assistencialista, que aplica critérios de selecção
extremamente complexos, de modo a racionalizar o número de possíveis beneficiários. Por
exemplo, o Programa de Acção Social Produtiva aplica uma focalização categórica, geográfica,
de pobreza, e comunitária. São elegíveis homens e mulheres com capacidade para o trabalho, que
vivem em agregados identificados como pobres pela comunidade, e verificados pelo Instituto
Nacional de Acção Social, em zonas onde o programa está a ser implementado (RdM, 2012).
Apesar de Moçambique ter um índice de pobreza extremamente elevado, apenas 121 557
agregados familiares estão inscritos neste programa (UNICEF & ILO, 2020). Esta abordagem
reduz o impacto dos programas e reproduz as dinâmicas assimétricas de poder entre e dentro
de agregados familiares (Cunha et al., 2015). Reconhecendo as limitações da actual abordagem
de focalização, a Estratégia Nacional de Segurança Social Básica 2016-2024, aprovada pelo
Conselho de Ministros, propôs a expansão da cobertura da Segurança Social Básica a 3,3
milhões de moçambicanos até 2024 (RdM, 2016). Segundo a Estratégia, uma focalização mais
alargada teria um maior impacto e reduziria o risco de erros de inclusão e exclusão, dada a
fraca diferenciação nos níveis de consumo dos quintis mais baixos da população (RdM, 2016).
Para financiar esta expansão, a Estratégia previu um aumento das alocações orçamentais para
cerca de 2,57 % do Produto Interno Bruto até 2024 (RdM, 2016). Porém, a crise financeira
relacionada com as dívidas ilícitas resultou na introdução de práticas de austeridade adicionais
e na redução das alocações orçamentais para os programas do Instituto Nacional de Acção
Social (UNICEF & ILO, 2020). Hoje, as alocações orçamentais para a Segurança Social Básica
continuam por volta dos 0,5 % do Produto Interno Bruto (Figura 5) e são crescentemente
dependentes de fundos externos (Figura 6). Consequentemente, houve uma estagnação na
expansão dos programas e no valor das transferências monetárias, que são insuficientes para
responder às necessidades básicas dos agregados familiares beneficiários (Figura 7).
182 Desafios para Moçambique 2021 «Se alguém está cansado de viver»: a economia informal, o estado e a Segurança Social
FIGURA 5: ALOCAÇÕES ORÇAMENTAIS AOS PROGRAMAS DO INAS, % DO OE E PIB, 2020.
2,00
1,80
1,60
1,40
1,20
1,00
0,80
0,60
0,40
0,20
0,00
2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018 2019 2020
% OE % PIB
Fonte: OIT (2020).
FIGURA 6: FUNDOS INTERNOS E EXTERNOS PARA O FINANCIAMENTO DOS PROGRAMAS DO INAS, 2021.
100
90
80
70
60
% 50
40
30
20
10
0
2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018 2019 2020
«Se alguém está cansado de viver»: a economia informal, o estado e a Segurança Social Desafios para Moçambique 2021 183
FIGURA 7: NÚMERO DOS AGREGADOS FAMILIARES COBERTOS PELOS PROGRAMAS DO INAS, 2020.
Programa do INAS Cobertura (agregados) Agregado (tamanho) Valor (MT)
PSSB 445 085 1 pessoa 540
2 pessoas 640
3 pessoas 740
4 pessoas 840
5 pessoas 1000
PASP 121 557 - 1050
PASD 18 438 - -
PAUS 7 099 - -
Na última década, Moçambique tem feito alguns avanços significativos a caminho de um sistema
compreensivo de Segurança Social (R. Castel-Branco, 2016). Porém, 97 % dos trabalhadores
informais não tem acesso a qualquer forma de segurança de rendimento, quer por vias contribu-
tivas, quer por vias não contributivas. Por um lado, não se enquadram facilmente na Segurança
Social Obrigatória: não têm uma entidade empregadora, os seus salários são baixos e irregulares
e os custos de formalização são proibitivos. Por outro, a maioria dos trabalhadores informais
não são considerados suficientemente pobres para beneficiar da Segurança Social Básica. Por
tanto, constituem um «vazio intermédio»: invisibilizados por um paradigma social trabalhista e
excluídos por uma assistência social assistencialista (ILO, 2019). Sem apoio do Estado, a respon-
sabilidade pela Segurança Social dos trabalhadores informais recai sobre os ombros da família
alargada. Mas hoje, a rede familiar de apoio encontra-se cada vez mais fragmentada, pela po-
breza, o desemprego, a migração e a nuclearização familiar (Cunha & Orton, 2011). A próxima
secção analisa as implicações de uma rede furada de Segurança Social, no contexto da pandemia
da COVID-19.
184 Desafios para Moçambique 2021 «Se alguém está cansado de viver»: a economia informal, o estado e a Segurança Social
familiares e amigos, mas dado que todos estavam a enfrentar a mesma contingência, a rede
«tradicional» de protecção social tornou-se ainda mais fragilizada (OIT, 2020).
Além disso, os vendedores informais sofreram um aumento de violência pelas forças de
ordem e segurança, incluindo a extorsão e confisco de produtos, a expulsão dos passeios e
mercados, e a violência física e sexual. Em Agosto, o Estado anunciou a requalificação dos
mercados, de modo a reduzir a incidência de contaminação. Mas em vez de melhorar os
locais, os vendedores informais foram relocados para espaços recônditos, sem infra-estruturas
adequadas, como casas de banho, água canalizada, e produtos de higiene (Osório, Loforte
& Vilanculo 2021). O Estado também definiu normas para o distanciamento espacial nos
transportes públicos, o que aumentou ainda mais o tempo de espera. A abordagem autoritária
do Estado e do conselho municipal reflecte uma falta de sensibilidade e desprezo histórico
pelos trabalhadores na economia informal, exacerbado pelo Estado de Emergência.
Mesmo em sectores regulamentados pela Lei do Trabalho (2007b), a não aplicação de
protecções laborais resultou numa quebra de rendimento. Num estudo conduzido pela
Federação Internacional do Trabalho Doméstico, Castel-Branco e Acciari (2021) constaram
que quase metade dos trabalhadores domésticos sofreram quebras de rendimento, suspensões
ou despedimentos, pois 92,7 % dos trabalhadores inquiridos não tinha um contrato escrito. É
interessante notar que um terço dos trabalhadores domésticos sindicalizados estava inscrito
no subsistema da Segurança Social Obrigatória. Porém não receberam qualquer segurança de
rendimento do Estado até Janeiro de 2021. Por um lado, não existe um subsídio de desemprego
através da via contributiva; e por outro, poucos trabalhadores domésticos foram incluídos no
Programa de Acção Social Direta Emergência e, os que foram ainda estão à espera de receber
o primeiro pagamento. Segundo o Sindicato de Trabalhadores Domésticos, seis meses após o
fim do “lockdown” muitos continuam desempregados:
Com a COVID-19, a situação piorou porque muitas pessoas perderam emprego. Temos registo de
cerca de 4638 trabalhadores que ficaram sem emprego e, até aqui, só 268 foram chamados de volta,
mas outros ainda não sabemos qual destino vão ter. (R. Castel-Branco & Acciari, 2021)
O impacto foi agravado pelo aumento dos preços dos produtos de primeira necessidade, com o
encerramento das fronteiras com a vizinha África do Sul. Na ausência de apoio do Estado, dois
terços dos trabalhadores domésticos recorreram aos sindicatos e comunitárias. Embora muitos
trabalhadores já tenham regressado ao trabalho, 81 % declararam que se sentem inseguros ou
muito inseguros devido à falta de equipamento de protecção individual, transporte seguro e
a natureza íntima do trabalho doméstico. Além disso, a maioria dos trabalhadores não tem
acesso a dias de enfermidade remunerados, o que aumenta o risco de infecção e prejudica a sua
capacidade de cuidar de si e das suas famílias. O trabalho doméstico é extremamente stressante
«Se alguém está cansado de viver»: a economia informal, o estado e a Segurança Social Desafios para Moçambique 2021 185
e muitos trabalhadores têm comorbilidades, incluindo hipertensão, doenças respiratórias e
diabetes. O risco à saúde é ainda agravado pela fraca qualidade dos serviços de saúde e acesso
à medicação. Como já foi mencionado, a quebra de rendimento teve um impacto profundo
na pobreza e no bem-estar (Mussagy & Mosca 2020). Segundo um estudo realizado pelo
Observatório do Meio Rural, 43 % dos inquiridos no meio suburbano tiveram de reduzir o
número de refeições por dia.
A expansão da cobertura da Segurança Social foi uma das demandas da sociedade civil
moçambicana face à pandemia da COVID-19. Cinquenta e duas instituições apoiaram a
proposta de um subsídio de desemprego através do subsistema da Segurança Social Obrigatória,
o aumento do valor das transferências monetárias para os beneficiários inscritos no subsistema
da Segurança Social Básica, e a introdução de uma nova transferência para trabalhadores
que sofreram uma redução de rendimento, mas que não estavam inscritos em nenhum dos
sistemas. Segundo a AliançaC19, era materialmente impossível, moralmente inadmissível
e politicamente perigoso implementar um lockdown (confinamento) sem introduzir alguma
forma de segurança do rendimento (AliançaC19 2020):
Havendo vontade política e articulação de esforços entre os diferentes actores sociais, crises como
esta que hoje vivemos podem oferecer uma oportunidade de expansão da função redistributiva do
Estado, através do alargamento do acesso aos serviços sociais básicos, da expansão do sistema de
protecção social, da reorientação dos processos de produção. (AliançaC19, 2020)
As propostas feitas pela sociedade civil partiram do quadro legislativo e administrativo, mas
também reconheceram a necessidade de reforçar o papel redistributivo do Estado através da
socialização dos serviços sociais e a reconceptualização do modelo de desenvolvimento.
20%
50%
Outro
Confinamento remunerado
Trabalho normal
Redução de rendimento
25%
Despedimento
186 Desafios para Moçambique 2021 «Se alguém está cansado de viver»: a economia informal, o estado e a Segurança Social
FIGURA 9: PERCEPÇÕES DE SEGURANÇA NO TRABALHO ENTRE OS TRABALHADORES DOMÉSTICOS, 2021.
1%
8% 5%
0%
13%
Outro
Não sei
Seguro
Inseguro
73%
Muito seguro
Muito inseguro
Poucos meses depois, o Governo aprovou o alargamento do Programa de Apoio Social Direto
Emergência. Dada a dificuldade de identificação dos mais pobres num contexto de pandemia,
o Estado optou por uma cobertura quase universal de agregados familiares vulneráveis em
distritos prioritários. Foram incluídos agregados chefiados por idosos e pessoas com deficiência,
mulheres com crianças menores de 12 anos ou com um elevado número de dependentes,
e pessoas deslocadas. Os distritos prioritários eram aqueles com elevadas taxas de pobreza
multidimensional nas zonas urbanas, periurbanas e fronteiriças, incluindo a província de Cabo
Delgado. Embora a taxa de pobreza seja mais elevada no meio rural, o pressuposto foi que,
como as medidas de bloqueio entraram em vigor durante o período de colheita, as famílias
rurais não teriam dificuldade em pagar as despesas (R. Castel-Branco, 2020b).
O alargamento do Programa de Apoio Social Direto Emergência constituiu uma resposta
inédita. As metas de cobertura mais do que duplicaram o actual número de beneficiários
inscritos no subsistema da Segurança Social Básica; e a transferência era incondicional, mesmo
para adultos em idade activa. Além disso, o valor da transferência foi fixado em 1500 MT,
o que é superior às outras transferências monetárias e reflecte o reconhecimento de que as
outras são insuficientes. Finalmente, a sua implementação requereu uma maior articulação
entre os eixos contributivos e não contributivos da protecção social. Para poder identificar
os beneficiários rapidamente, o Estado recorreu a três listas: a lista de espera para outros
programas de assistência social, as listas de trabalhadores informais fornecidas pelo Instituto
Nacional de Segurança Social; e as listas de agregados familiares vulneráveis compiladas por
estruturas do bairro.
O Programa de Apoio Social Direto Emergência foi financiado na sua totalidade por recursos
externos. As agências internacionais defenderam que a terceirização e digitalização do
pagamento das transferências monetárias seria mais eficiente, dada a necessidade de garantir
«Se alguém está cansado de viver»: a economia informal, o estado e a Segurança Social Desafios para Moçambique 2021 187
o distanciamento social. Porém, até ao início de 2021, apenas 20 000 famílias tinham recebido
o primeiro pagamento (R. Castel-Branco, 2021b). O primeiro desafio foi que o programa
era financeiramente dependente de um fundo fiduciário multi-doador presidido pelo Banco
Mundial, cujas condicionalidades provocaram atrasos no desembolso de fundos. Em segundo
lugar, o processo de contratação de um prestador de serviços privados foi extremamente
complicado. Porque se trata de uma nova área de operação, os provedores de serviços não
dispunham das infra-estruturas necessárias: enumeradores para registar beneficiários, sistemas
integrados de gestão de informação, pontos de pagamento com a liquidez necessária, etc.
Logo, os prestadores cobraram uma taxa exorbitante, tornando os pagamentos electrónicos
mais dispendiosos para o Estado do que os pagamentos manuais por funcionários do Estado.
Além disso, muitos dos beneficiários são pessoas idosas ou analfabetas e têm dificuldade
em utilizar um telemóvel; enquanto outros vivem em regiões sem rede de telefonia móvel
e eléctrica, tornando os pagamentos electrónicos inviáveis. Em última análise, é necessário
alargar a presença do Instituto Nacional de Ação Social a nível local. No entanto, isso exigiria
um aumento das dotações orçamentais e uma expansão da função pública – improvável num
contexto de austeridade. Como explica um representante da Associação Moçambicana de
Operadores e Produtores do Sector Informal, estes atrasos aumentam a falta de confiança num
Estado já descredibilizado:
O Governo tem falha porque promete uma coisa e não cumpre. Nós ouvimos que haveria um
subsídio de MT 1.500 para as famílias por causa dessa questão da COVID, vieram aqui e
andaram a inscrever pessoas e até hoje nada aconteceu. A iniciativa de apoiar as famílias é boa
porque muitos com essa pandemia não conseguem trabalhar, não conseguem viajar pra comprar
seus produtos e tudo mais, mas o problema é não cumprir. (R. Castel-Branco & Sambo, 2020)
188 Desafios para Moçambique 2021 «Se alguém está cansado de viver»: a economia informal, o estado e a Segurança Social
informais (ILO, 2015). A próxima secção analisa umas das ferramentas para a formalização: a
reorientação da Segurança Social Obrigatória aos operadores e trabalhadores informais.
Falta de informação
Custo da contribuição
Falta de confiança
Falta de tempo
Benefícios inadequados
0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100
«Se alguém está cansado de viver»: a economia informal, o estado e a Segurança Social Desafios para Moçambique 2021 189
A FALTA DE INFORMAÇÃO E DE CONFIANÇA NAS
INSTITUIÇÕES DO ESTADO
Para os trabalhadores informais que ainda não foram inscritos, o principal desafio é a falta de
informação compreensiva, fidedigna e acessível. Mais de 80 % dos entrevistados já tinham
ouvido falar do Instituto Nacional de Segurança Social, mas apenas um terço sabia que a
instituição provia prestações para trabalhadores informais, e só 7 % sabia dizer qual era a
taxa de contribuição. O Instituto Nacional de Segurança Social tem realizado campanhas de
sensibilização em colaboração com organizações de trabalhadores na economia informal.
Ademais, tem memorandos de entendimento com a Administração Nacional de Pescas,
a Associação da Economia Informal de Moçambique, a Confederação de Sindicatos
Independentes e Livres de Moçambique, o Mukhero, o Projecto «Sustenta» do Ministério
da Agricultura e Desenvolvimento Rural, e a Secretaria do Estado da Juventude e Emprego.
Além disso, tem colaborações informais com outras instituições, como o Sindicato Nacional
de Empregos Domésticos:
O INSS tem ajudado muito porque os nossos trabalhadores não precisam formar bichas no INSS
para se inscreverem nem pra fazerem o levantamento das guias. O INSS facilita a nossa inscrição
quando fazemos campanhas conjuntas e mensalmente trabalhamos em conjunto na emissão das
guias. Isso ajuda porque os trabalhadores domésticos entram muito cedo e saem muito tarde, muitas
vezes não tem tempo para irem ao INSS no tempo de expediente. Mas se nós ficamos com as guias,
a qualquer hora eles podem passar levar mesmo com os nossos guardas aqui na OTM.
(R. Castel-Branco & Sambo, 2020)
190 Desafios para Moçambique 2021 «Se alguém está cansado de viver»: a economia informal, o estado e a Segurança Social
implementação de actividades educativas e de sensibilização adaptadas a grupos específicos,
como as mulheres. Além disso, criou-se parcerias com as associações e organizações dos
trabalhadores informais, sindicatos e instituições religiosas que facilitaram a organização de
palestras (ILO, 2019).
Em Moçambique, o INSS poderia assinar um memorando de entendimento com o governo
do distrito, posto administrativo e localidade, para facilitar o acesso à Segurança Social. No en-
tanto, esta abordagem requererá um maior investimento na formação e supervisão de pessoal
que não faz parte do quadro, de modo a garantir a divulgação de informação fidedigna. Seria
também importante que houvesse uma estrita articulação entre os funcionários do Instituto
Nacional de Segurança Social, os líderes ao nível do distrito e localidade, e os representantes
das organizações dos trabalhadores informais. A falta de articulação é uma das causas princi-
pais da falta de confiança no subsistema.
A questão de acesso a informação compreensiva, fidedigna e acessível é também uma preo-
cupação para os trabalhadores informais já inscritos no subsistema contributivo. Segundo os
entrevistados, uma das razões principais da fraca confiança na Segurança Social Contributiva é
a falta de clareza sobre os procedimentos administrativos e como aceder aos benefícios. Uma
opção para melhorar a qualidade de comunicação é a introdução de uma linha de consulta
gratuita, como a linha verde introduzida pelo Ministério de Saúde durante a pandemia. Outra
opção para reforçar a partilha de informação é o desenvolvimento de uma aplicação em que
os segurados podem aceder à sua informação pessoal e simular o valor dos benefícios a que
têm direito. Dada a fraca penetração digital em Moçambique, uma plataforma baseada na
tecnologia USSD/SMS e API seria preferível.
No Uruguai, o Governo lançou um aplicativo móvel gratuito que também facilita a inscrição
dos trabalhadores informais e o pagamento das suas contribuições. Juntamente com as ac-
tividades de sensibilização e uma campanha de divulgação, estas medidas resultaram numa
redução de evasão contributiva de 60 % em 2006 a 24 %, em 2017 (ILO, 2019).
«Se alguém está cansado de viver»: a economia informal, o estado e a Segurança Social Desafios para Moçambique 2021 191
trabalhadores assalariados contribuem com 3 % do seu rendimento mensal, os trabalhadores
informais contribuem com 7 %. O raciocínio é que os trabalhadores informais são simulta-
neamente empregadores e trabalhadores. Porém, como já aludido, a economia informal é
extremamente diferenciada e, para a maioria, a taxa de contribuição é insustentável. Segundo
o Presidente da Associação Moçambicana de Operadores e Produtores do Sector Informal, é
necessário reduzir a taxa:
Na economia formal, o empregador paga 4 % e o trabalhador 3 %, mas nós temos que pagar 7 %
porque não temos um empregador. Isso é injusto e acaba pesando para os trabalhadores por conta
própria. Há trabalhadores com dificuldade de cumprir com a poupança diária de MT 60 ou 100,
quanto mais 7 % ao fim de cada mês. Por isso, muitos começam a contribuir, mas acabam parando
no meio porque não conseguem. O nosso maior desafio agora é advogar para a redução da taxa. (R.
Castel-Branco & Sambo, 2020)
Os rendimentos irregulares também contribuem para a elevada taxa de desistência. Por exem-
plo, os rendimentos de camponeses seguem um ritmo sazonal, conforme as safras e épocas
de colheita, o que dificulta o pagamento de contribuições mensalmente. Durante a época de
produção, o dinheiro é escasso, mas após a venda das suas culturas ou animais têm capacidade
contributiva. Do mesmo modo, a oscilação dos rendimentos dos trabalhadores informais pode
dificultar o pagamento de contribuições regulares. A irregularidade de rendimento também
é uma questão para trabalhadores assalariados na economia informal. Como explica a repre-
sentante do Sindicato Nacional de Empregados Domésticos, neste caso a irregularidade é o
resultado do não cumprimento do Regulamento do Trabalho Doméstico (RdM 2008):
Sabe-se que os nossos contratos são verbais e, por isso, muitas vezes há essa incerteza em relação aos
dias do pagamento e mesmo em relação ao próprio salário. Há meses em que a pessoa recebe no dia
25 e outros nos dias 5 e os valores também oscilam. Assim fica difícil para o trabalhador doméstico
ser um contribuinte regular no INSS. (R. Castel-Branco & Sambo, 2020)
Uma opção para reduzir o custo das contribuições é a definição de diferentes pacotes de bene-
fícios. Por exemplo, em Angola, diferenciam entre o esquema parcial e o esquema alargado, o
que dá aos trabalhadores informais uma maior flexibilidade (R. Castel-Branco 2018). O pacote
básico requer uma contribuição de 6 % pelo empregador e 2 % pelo trabalhador, enquanto o
pacote alargado requer uma contribuição de 8 % e 3 %, respectivamente. Os benefícios do pa-
cote básico incluem pensão por invalidez, pensão por velhice, pensão por sobrevivência e sub-
sídio por morte. Os benefícios do pacote alargado também incluem subsídio de maternidade,
subsídio de aleitamento materno e subsídio de funeral. Porém, esta diferenciação discrimina as
192 Desafios para Moçambique 2021 «Se alguém está cansado de viver»: a economia informal, o estado e a Segurança Social
mulheres trabalhadoras, pois para usufruir da licença de maternidade, têm de contribuir para
o pacote alargado.
Outra opção é a subvenção das contribuições pelo Estado, usando, por exemplo, os fundos de
reserva do Instituto Nacional de Segurança Social. A subvenção das contribuições incentivará
a inscrição dos trabalhadores informais no subsistema da Segurança Social Contributiva, o que
reduzirá o encargo para o subsistema da Segurança Social Básica, financiado pelo orçamento
do Estado a médio prazo. É preferível que os trabalhadores informais com alguma capacidade
contributiva tributem para o regime contributivo, mesmo sendo uma taxa reduzida. Existem
várias abordagens para subvencionar as contribuições dos trabalhadores, incluindo a redução
da taxa contributiva a 3 % e a definição de garantias mínimas independentemente do seu his-
torial contributivo.
Na China, foi criado um Regime de Pensões Básicas para residentes rurais e residentes urbanos
não assalariados, com o objectivo de expandir a Segurança Social a estratos da população que
até então não estavam cobertos por outros regimes de pensões. A adesão ao regime é voluntá-
ria, mas o Governo criou fortes incentivos à participação, incluindo subsídios. Após a reforma,
os segurados recebem uma pensão social financiada pelo Governo e uma pensão de poupança
individual financiada através das suas contribuições individuais e do Governo local e central
(R. Castel-Branco & Sambo, 2020).
Um outro desafio é que o INSS não oferece um subsídio de desemprego. De facto, Cabo Verde
é um dos poucos países com subsídio de desemprego em África. O valor é pago a segurados
que perderam o seu emprego involuntariamente, não têm outra actividade económica e se
inscreveram no Centro de Emprego e Formação Profissional. O valor do subsídio correspon-
de a 65 % da remuneração em referência. O período de atribuição varia entre 60 e 150 dias,
dependendo da idade do segurado e do registo de remunerações imediatamente antes da
apresentação do requerimento. Para poder pedir o subsídio de desemprego, é necessário apre-
sentar uma declaração do empregador que comprove a situação de emprego e partilhe o nível
de remuneração. O segurado deve comparecer quinzenalmente, comprometer-se a procurar
emprego activamente e aceitar emprego conveniente (R. Castel-Branco & Sambo, 2020). Não
existe uma única abordagem para a inclusão dos trabalhadores informais no subsistema contri-
butivo, pois o sector é extremamente diferenciado e quaisquer medidas devem ser elaboradas
em estrita colaboração com as organizações de trabalhadores informais.
«Se alguém está cansado de viver»: a economia informal, o estado e a Segurança Social Desafios para Moçambique 2021 193
Segurança Social tem tentado facilitar o acesso através de colaborações com as organizações
de trabalhadores informais e a alteração dos requisitos de inscrição. Para se inscreverem, os
trabalhadores informais apenas precisam do seu Bilhete de Identidade, Número Único de
Identificação Tributária e uma declaração do bairro ou outro documento a confirmar a sua
actividade económica. No entanto, alguns entrevistados reclamaram que, nas zonas rurais, os
custos relacionados à emissão de Bilhetes de Identidade são inibitivos e sugeriram a aceitação
do Cartão de Eleitor como documento oficial de identificação. Além disso, os entrevistados
afirmaram que os processos de pagamento de contribuições são morosos. O contribuinte
tem de levantar uma declaração de pagamento ao Instituto Nacional de Segurança Social,
preenchê-la e deslocar-se a um banco para fazer o pagamento. Entretanto, para receber o
benefício, é necessário apresentar vários documentos e não existe um mecanismo eficaz de
reclamação.
Os procedimentos eficientes são ainda mais importantes num contexto onde as contribuições
não são obrigatórias e, portanto, os trabalhadores podem facilmente desistir do subsistema,
como explica a representante do Sindicado Nacional de Empregados Domésticos:
O INSS fala de 30 dias, mas no fim acaba levando 6 meses. Veja que nós temos uma colega que teve
bebé e entrou de licença de maternidade, mas quando apresentou os documentos primeiro falaram
que ela não tinha pago alguns meses. O SINED apoiou no sentido de perceber quantos meses
faltavam e ela conseguiu completar o pagamento. Mas ainda assim, o subsídio não chegou a sair.
Isso descredibiliza o INSS e faz com que quem queira se inscrever perca o interesse.
(R. Castel-Branco & Sambo, 2020)
Não é fácil construir um sistema de Segurança Social com base em contribuições voluntárias.
No entanto, vários Estados têm optado por esta via por causa dos rendimentos baixos e irregu-
lares dos trabalhadores por conta própria. A morosidade nos processos administrativos reduz
o grau de confiança no subsistema e incentiva a desistência, especialmente durante momentos
de crise. Nas Filipinas, o Estado introduziu um Cartão de Contribuinte com o qual os segu-
rados podem obter informações sobre as suas contribuições e os saldos, bem como realizar
pagamentos e requisitar prestações. Em Cabo Verde, foram abertos centros de atendimento
para facilitar o registo e pagamento de prestações. Todos os centros estão equipados com um
sistema informático integrado que permite a efectuação de cerca de 80 % dos procedimentos
administrativos no local. Os centros estão localizados em zonas de aglomeração dos trabalha-
dores informais.
Em termos do pagamento das prestações, a maioria dos trabalhadores entrevistados salien-
taram a necessidade de diminuir a morosidade dos procedimentos, através da introdução de
prazos fixos e processos de reclamação eficientes. Os entrevistados também apontaram as
194 Desafios para Moçambique 2021 «Se alguém está cansado de viver»: a economia informal, o estado e a Segurança Social
vantagens de pagamentos electrónicos, seja através do Mpesa/Mkesh/Mmola ou de um Car-
tão de Beneficiário. Esta secção analisou as possibilidades de expansão do subsistema da Segu-
rança Social Obrigatória e propôs algumas inovações administrativas que poderão facilitar um
aumento da cobertura da Segurança Social Contributiva. Porém, as medidas aqui discutidas
não serão suficientes para garantir uma cobertura universal a curto prazo, dada a fraca capaci-
dade contributiva da maioria dos trabalhadores informais. A próxima secção analisa as opções
políticas rumo a expansão da Segurança Social não contributiva.
«Se alguém está cansado de viver»: a economia informal, o estado e a Segurança Social Desafios para Moçambique 2021 195
transferências monetárias reflecte a falta de compromisso político para com a Segurança Social.
No entanto, a estagnação das alocações orçamentais aos programas da Segurança Social Bási-
ca também reflecte as contradições de uma economia extractiva, dependente na expropriação
de recursos naturais, a exclusão social da maioria dos expropriados e a exploração de mão-
-de-obra barata. Estima-se que 90 % do investimento privado em Moçambique seja direccio-
nado à indústria extractiva e infra-estruturas adjacentes, que contribuem para apenas 15 % do
emprego assalariado, apesar de representarem 65 % do Produto Interno Bruto (C. N. Castel-
-Branco, 2017). Além disso, o núcleo extractivo da economia beneficia de isenções fiscais e
fluxos financeiros, que subvertem a capacidade redistributiva do Estado. Sem alterar o modelo
de acumulação e a organização de produção, o Estado não tem como expandir a Segurança
Social Não Contributiva a todos os trabalhadores informais sem acesso à Segurança Social
Obrigatória. Por exemplo, se o Estado alargasse a cobertura do Programa de Acção Social Di-
reta Pós-Emergência a todos os trabalhadores informais actualmente excluídos do subsistema
contributivo, requereria 129 % do orçamento e 47 % do Produto Interno Bruto, sem ter em
conta os custos administrativos adicionais (Figura 11).
Reconhecendo o desafio enfrentado por países de baixo rendimento com economias extracti-
vas, as Nações Unidas propuseram a criação de um fundo global de protecção social, assente
nas estruturas já existentes que se desenvolveram de forma ad hoc:
...os países de baixos rendimento podem não ter espaço fiscal suficiente para garantir tais direitos,
uma vez que as necessidades sociais são tipicamente elevadas e as receitas públicas são relativamen-
te baixas. Além disso, estes países podem ter uma economia pouco diversificada, particularmente
vulnerável a vários tipos de choques – económicos, climáticos e sanitários – que podem ameaçar a
viabilidade dos regimes de proteção social quando conduzem a um aumento súbito das despesas
combinadas com a redução das receitas públicas.
196 Desafios para Moçambique 2021 «Se alguém está cansado de viver»: a economia informal, o estado e a Segurança Social
O fundo poderia ajudar a estabelecer e manter pisos nacionais de protecção social, segundo a
Recomendação 202 da Organização Internacional do Trabalho. Segundo a proposta, o apoio
internacional deve ser encarado como o lançamento de um processo que permitirá aos países
beneficiários aumentar gradualmente os níveis de mobilização dos recursos domésticos: em
vez de criar uma nova forma de dependência, garantiria um nível previsível de apoio aos países
empenhados em estabelecer pisos nacionais de protecção social e cuja capacidade de financiar
a protecção social melhoraria a tempo. Mas se por um lado a proposta não analisa como é
que os países poderão melhorar a sua capacidade de financiar a protecção social; por outro,
não reconhece o papel das agências de desenvolvimento na despolitização da protecção social.
Curiosamente, os trabalhadores informais entrevistados consideravam o sistema de Segurança
Social contributivo e não contributivo como dois lados da mesma moeda. No entanto, os
decisores políticos, os funcionários do Estado e as instituições de desenvolvimento tratam-nos
como marcadamente diferentes. Enquanto os termos da Segurança Social Contributiva são
definidos numa instituição tripartida, com a participação activa de representantes de traba-
lhadores e empregadores, cujo objectivo é proporcionar benefícios de qualidade em resposta
a contingências ao longo do ciclo de vida; os termos da Segurança Social não-contributiva
são definidos por uma instituição semiautónoma, influenciada por agências internacionais de
desenvolvimento.
«Se alguém está cansado de viver»: a economia informal, o estado e a Segurança Social Desafios para Moçambique 2021 197
processos e meios de trabalho, sendo estes da sua propriedade, no todo ou em parte; não estão
sujeitos a horários de trabalho, salvo se os mesmos resultarem da lei ou regulamentos; não se
integram na estrutura produtiva ou cadeia hierárquica de uma única empresa, nem constituem
elemento essencial ao desenvolvimento dos objectivos de qualquer entidade empregadora; e
podem fazer-se substituir livremente. Esta inconsistência reflecte o poder negocial da classe
empregadora na definição do Regulamento. Apesar de não serem trabalhadores informais, os
trabalhadores domésticos são informalizados pela falta de protecções laborais e sociais ade-
quadas e a sua devida aplicação. Portanto, é crítico garantir que medidas orientadas à expansão
da Segurança Social – seja a Segurança Social Contributiva ou Não-Contributiva – estejam
articuladas com medidas para reforçar os direitos laborais num contexto de fraca fiscalização,
informalização e informalidade generalizada.
198 Desafios para Moçambique 2021 «Se alguém está cansado de viver»: a economia informal, o estado e a Segurança Social
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