0% acharam este documento útil (0 voto)
32 visualizações15 páginas

Unidade 7

Fazer download em pdf ou txt
Fazer download em pdf ou txt
Fazer download em pdf ou txt
Você está na página 1/ 15

FILOSOFIA DA

EDUCAÇÃO

Bruna Koglin Camozzato


Trabalho e alienação
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:

„„ Reconhecer o conceito de alienação.


„„ Identificar os reflexos da alienação na sociedade.
„„ Descrever trabalhos alienantes.

Introdução
Você já refletiu sobre o seu trabalho, identificando o propósito de suas
funções? E como você descreveria as atividades que exerce e a importância
do trabalho na sociedade?
Neste capítulo, você vai estudar o conceito de alienação. Esse conceito
estabelece preliminarmente que o trabalhador não tem consciência do
processo de suas atividades profissionais, pois esse processo pertence
aos proprietários das organizações, ou seja, aos empregadores.

Conceito de alienação
Para iniciar seus estudos sobre o conceito de alienação, é necessário primeira-
mente que você conheça as possíveis relações desse conceito com a concepção
de trabalho. Afinal, a alienação se apresenta até os dias atuais como uma
ameaça para a consciência humana, principalmente se você considerar as
relações sociais e também os aspectos econômicos demandados na atualidade.
Para Aranha (1993), a natureza é transformada pelo trabalho do homem.
Nesse sentido, há aspectos que diferenciam os homens dos animais. Os homens,
por exemplo, realizam uma ação intencional, ou seja, dirigida por um projeto.
Além disso, eles antecipam suas ações por meio do pensamento.
Para que você entenda o contexto do sujeito e suas relações com o trabalho,
é primordial que compreenda seus papéis e status na sociedade. É possível
afirmar que todas as pessoas se encontram em diversas posições, dependendo
de seu status, conforme ressalta Vila Nova (2000). Elas ocupam diferentes
2 Trabalho e alienação

papéis: na família, podem ter o status de pais, filhos, entre outros; já na empresa,
ocupam determinada função e determinado cargo, que estão relacionados à
sua atividade profissional.

Saiba mais sobre esse assunto no livro Fundamentos da Sociologia (SCHAEFER, 2016).

Entre as noções básicas da sociologia está o conceito de relação social ela-


borado por Max Weber. Esse autor afirma que a relação social não é simétrica.
Ele utiliza como exemplo as relações de trabalho: na relação entre o chefe e o
subordinado, por exemplo, a conduta de cada um é estabelecida em virtude da
conduta do outro, podendo ainda haver distinções com base na individualidade
e de acordo com os papéis exercidos (TESKE, 1999).

Max Weber é reconhecidamente um dos nomes clássicos do pensamento sociológico.


Ele notabilizou-se na sociologia pela construção de um método a partir do qual o
entendimento da realidade social seria possível por meio da compreensão das ações
dos indivíduos. Saiba mais no link a seguir.

https://goo.gl/PEvTeq

Como você viu, o ser humano, durante a sua trajetória de vida, assume
diversos papéis e conquista diferentes status com base em suas relações so-
ciais, transformando ainda a natureza por meio do seu trabalho. Assim, é
importante você considerar agora algumas definições acerca da consciência,
especialmente diante dos estudos da teoria do conhecimento, em que se dife-
renciam o eu, a pessoa, o cidadão e o sujeito. Há também diferentes graus de
consciência (passiva, vivida, reflexiva), e o sujeito do conhecimento seria o
centro da consciência de si (reflexiva ou racional), que conhece e se reconhece
(CHAUÍ, 1995).
Trabalho e alienação 3

Com base na noção de relação social e na concepção de consciência de si, é


possível afirmar que o sujeito é consciente com relação ao trabalho que exerce
na sociedade? Para responder a esse questionamento, você vai ver algumas
concepções sobre a alienação. A ideia é que posteriormente você verifique
como a alienação se relaciona com o trabalho e a sociedade.

O termo “alienação”, que na linguagem comum significa perda de posse, de um


afeto ou dos poderes mentais, foi empregado pelos filósofos com certos significados
específicos (ABBAGNANO, 2007).

A partir de levantamentos históricos, é possível destacar que a alienação,


na Idade Média, foi empregada em relação à ascensão mística em direção a
Deus. Ricardo de S. Vítor preconizava que a alienação se apresentava como
o terceiro grau da elevação da mente a Deus e que também se relacionava
ao abandono da lembrança de todas as coisas finitas (ABBAGNANO,
2007).
Já o importante filósofo Jean-Jacques Rousseau pressupõe a concepção
de alienação traduzida na cessão dos direitos naturais à comunidade,
realizada por meio do contrato social, cujas cláusulas reduzem-se a uma
só, isto é, ambas as partes juntamente com todos os seus direitos (AB-
BAGNANO, 2007).
No tocante às concepções de Hegel, se destaca o apelo à consciência de si, que
parte da consciência até o estado de autoconsciência, isto é, refere-se à alienação
da autoconsciência (ABBAGNANO, 2007). Aranha (1993, p. 11) destaca que
para o teórico é o “[...] momento em que o espírito sai de si”, manifestando-se no
desenvolvimento da cultura (trabalho), e em que se sobrepõe de forma superior
com base na consciência de si.
4 Trabalho e alienação

Marx afirmava que Hegel, ao priorizar a consciência em suas teorias, possuía um


pensamento idealista, principalmente pela ocorrência da ruptura relacionada à ma-
terialidade do trabalho. Entretanto, tal posicionamento de Marx não está atrelado à
negação da relação entre trabalho e condição de liberdade, pois ele defende, a partir
de uma perspectiva humanista e não apenas individualista, que o homem precisa
trabalhar para si, no sentido de construir a si mesmo, sem ignorar a contribuição do
seu trabalho para a coletividade (ARANHA, 1993).

Com o objetivo de ampliar a definição de alienação, você pode considerar


ainda algumas definições fundamentadas a partir das mais diversas áreas. Em
psicologia e psiquiatria, por exemplo, a alienação refere-se ao estado mental
do sujeito que está “distante” do mundo no qual se insere (NOVA..., 1999).
A partir dessa concepção, você ainda deve levar em consideração que
a alienação está ligada ao conceito de inconsciência, criado por Freud, pai
da psicanálise. Em muitas sessões, o médico psiquiatra identificou que seus
pacientes, mesmo estando conscientes da necessidade de tratar seus males, de
alguma forma dificultavam o tratamento. Freud denominou isso de resistência
inconsciente à cura, o que permitiu o desenvolvimento de suas teorias acerca
das instâncias da vida psíquica (CHAUÍ, 1995).
A partir desses estudos, também se constataram relações entre o trabalho
e a inconsciência, de modo que as manifestações do inconsciente ocorrem
de forma a se caracterizarem, conforme Freud, como sublimação. Isto é, os
indivíduos, por meio de seus desejos inconscientes, externam suas produções,
suas realizações, seu trabalho (CHAUÍ, 1995).

É importante você conhecer a origem e a evolução das palavras, conforme destacado


por Aranha (1993, p. 12): “Etimologicamente a palavra alienação vem do latim alienare,
alienus, que significa que pertence a um outro. E o outro é alius. Sob determinado
aspecto, alienar é tornar alheio, transferir para outrem o que é seu”.
Trabalho e alienação 5

Chauí (1995) afirma que a alienação é como um fenômeno que se anuncia a


partir da criação e da produção de coisas pelo homem. Além disso, há a indepen-
dência de tal produção, como se ela existisse originariamente a partir de si mesma,
podendo ainda ter poder em si e por si. Isto é, essa produção não se identificaria
por meio dos que a criaram e ainda se tornaria superior e com prerrogativas
facultadas diante dos que a criaram. Em resumo, assume-se que os homens se
alienam, definindo alienação a partir das considerações do filósofo Feuerbach.
A autora aborda diversas definições do termo “alienação”, elencando alguns
aspectos interessantes. No campo jurídico, a alienação corresponde à perda de
um bem, como evidenciado a partir de anúncios voltados para os motoristas:
“[...] compramos seu carro, mesmo alienado”. Ou seja, alienação, nesse campo,
significa a perda de uma posse, a hipoteca (ARANHA, 1993, p. 12).

Na filosofia política, a alienação é a condição do trabalhador que, por exemplo, assim


como uma peça de engrenagem, integra a estrutura de produção sem ter nenhum
poder de decisão sobre sua própria atividade nem direitos sobre o que produz. Nesse
sentido, ao considerarmos a alienação presente nas sociedades, podemos observar
a alienação também em relação às decisões políticas sobre o destino da sociedade,
das quais as grandes massas permanecem alijadas, e mesmo ao âmbito das vontades
individuais, orientadas pela publicidade e pelos meios de comunicação de massa
(NOVA..., 1999, p. 259).

Você viu até aqui alguns dos principais conceitos, definições e elementos
que constituem os pressupostos básicos para o uso do termo “alienação”,
considerando os mais diversos campos do saber. Além disso, viu as relações
desse termo com a teoria do conhecimento, o entendimento sobre consciência
e inconsciência do sujeito, seu status na sociedade e suas relações sociais.
Consequentemente, verificou como a alienação se relaciona com a atividade
profissional, ou seja, o trabalho.

Reflexos da alienação na sociedade


O conceito de alienação teve muitos reflexos, principalmente no tocante aos
aspectos mercantis e econômico-financeiros, uma vez que as relações em
sociedade são deliberadas cada vez mais a partir desses aspectos. Histori-
6 Trabalho e alienação

camente, o capitalismo levou a comportamentos sociais que passaram a ser


considerados alienantes (NOVA..., 1999).

Conforme Aranha (1993), o capitalismo refletiu a potencialização da busca do lucro


e levou o trabalhador a exercer suas atividades profissionais na indústria, fazendo-o
perder a posse do produto de seu trabalho. A autora reforça ainda a ideia de que, além
da perda do seu produto, o sujeito perde o centro de si mesmo, uma vez que não
pode determinar seu salário, seu horário de trabalho e seu ritmo, pois estes passam
a pertencer a outros, isto é, aos seus empregadores.

Marx apresenta a alienação como resultado de elementos materiais predomi-


nantes da sociedade capitalista, em que a atividade humana ocorre a fim de desen-
volver coisas que são afastadas imediatamente da instância de quem as produziu,
tornando-se mercadorias. Diferente de Hegel, Marx “situa o homem na raiz da
história”, tendo o sujeito como algo concreto e como alguém que estabelece sua
relação com os outros e com o mundo a partir do trabalho (NOVA..., 1999, p. 260).
A partir da exposição da dialética de Hegel, Marx defendia que por meio
do trabalho os seres humanos seriam capazes de se emancipar da natureza,
opondo-se aos objetos naturais. Afirmava que tais relações entre o ser humano
e a natureza oportunizavam uma ação transformadora (mulheres/homens/
natureza). Embora concordasse com Hegel sobre trabalho, opunha-se no que
diz respeito à suprema importância dada ao trabalho intelectual, pois não se
considerava nessa instância o seu sentido físico e material. Marx resumida-
mente entendia que o único trabalho considerado por Hegel era um trabalho
abstrato do espírito (TESKE, 1999). Veja:

Segundo Marx, Hegel cometeu o erro de confundir objetivação, que é o pro-


cesso pelo qual o homem se coisifica, isto é, exprime-se ou exterioriza-se na
natureza através do trabalho, com a alienação, que é o processo pelo qual o
homem se torna alheio a si, a ponto de não se reconhecer. Enquanto a objeti-
vação não é um mal ou uma condenação, por ser o único caminho pelo qual
o homem pode realizar a sua unidade com a natureza, a alienação é o dano ou
a condenação maior da sociedade capitalista (ABBAGNANO, 2007, p. 26).

Com base na crítica de Marx e considerando ainda o capitalismo, é possível


afirmar que a propriedade privada determina a alienação do trabalhador,
Trabalho e alienação 7

uma vez que altera a relação deste com o seu produto. Esse produto passa a
pertencer ao capitalista e o trabalho se conserva exterior ao operário, ou seja,
não faz mais parte de sua personalidade. Dessa forma, o sujeito não mais se
afirma, não mais se constrói; ao contrário, ele se nega, se desconecta e torna-se
insatisfeito; mesmo “[...] junto de si mesmo, sente-se fora de si no trabalho”
(ABBAGNANO, 2007, p. 26).
Você pode ainda considerar que Marx, segundo Aranha (1993, p. 170):

[...] não se interessou apenas pela alienação religiosa, mas investigou sobretudo
a alienação social. Interessou-se em compreender as causas pelas quais os
homens ignoram que são os criadores da sociedade, da política, da cultura
e agentes da História. Interessou-se em compreender por que os humanos
acreditam que a sociedade não foi instituída por eles, mas por vontade e
obra dos deuses, da natureza, da razão, em vez de perceberem que são eles
próprios que, em condições históricas determinadas, criaram as instituições
sociais — família, relações de produção e de trabalho, relações de troca,
linguagem oral, linguagem escrita, escola, religião, artes, ciências, filoso-
fia — e as instituições políticas — leis, direitos, deveres, tribunais, Estado,
exército, impostos, prisões. A ação sociopolítica e histórica chama-se práxis
e o desconhecimento de sua origem e de suas causas, alienação.

A partir dessas análises, você deve se questionar sobre o que leva o ser humano
a não se reconhecer como sujeito de uma sociedade e como agente criador de tal
realidade. Você deve se questionar também sobre o motivo que induz os seres
humanos a se submeterem às condições impostas pela sociedade, transformando
estas em figuras, em seres dotados de vida própria (ARANHA, 1993).
Ainda é possível refletir sobre a definição de alienação social entendendo-a
como a percepção do sentido incógnito das condições histórico-sociais reais,
relacionadas elas próprias a reflexos de acontecimentos passados.
Retomando ainda alguns pontos concernes ao capitalismo, é possível afir-
mar que num sistema capitalista o trabalho não é considerado voluntário, e
sim exclusivamente obrigatório. Afinal, ele não atende à satisfação de uma
necessidade, consolidando-se apenas como um meio de satisfazer outras
necessidades (ABBAGNANO, 2007).

“O trabalho exterior, o trabalho em que o homem se aliena, é um trabalho de sacrifício


de si mesmo, de mortificação” (ABBAGNANO, 2007, p. 26).
8 Trabalho e alienação

O termo “alienação” é utilizado no cotidiano da sociedade atual de


forma muito frequente. O seu emprego ocorre não apenas na descrição
do trabalho operário, reforçado em ocasiões e estágios da denominada
sociedade capitalista. Seu uso passou a ter como principal intenção a des-
crição da relação entre o homem e as coisas, especialmente considerando
o surgimento da era tecnológica, em que se constata ainda a prevalência
da técnica. Nesse sentido, a técnica “[...] aliena o homem de si mesmo”, ou
seja, o homem passa a fazer parte de uma engrenagem de uma máquina
(ABBAGNANO, 2007, p. 27).
Com base nesse mesmo pensamento, você pode considerar ainda os pres-
supostos de Sartre, que retomou o conceito hegeliano da alienação, sendo esta
compreendida como “[...] um caráter constante da objetivação, seja ela qual
for”. O “objetivação” diz respeito a todo tipo de relação entre o homem e as
coisas e os outros homens (ABBAGNANO, 2007, p. 26).
Numa abordagem filosófica e política contemporânea, a alienação possui
vastos e distintos significados, principalmente em decorrência da diversidade
de definições do homem. Resumidamente, você deve refletir que:

Se o homem é razão autocontemplativa (como pensava Hegel), toda relação


sua com um objeto qualquer é alienação. Se o homem é um ser natural e social
(como pensava Marx), alienação é refugiar-se na contemplação. Se o homem
é instinto e vontade de viver, alienação é qualquer repressão ou diminuição
desse instinto e dessa vontade; se o homem é racionalidade operante ou
ativa, alienação é entregar-se ao instinto. Se o homem é razão (entendida de
qualquer modo), alienação é refugiar-se na fantasia; mas, se é essencialmente
imaginação e fantasia, alienação é qualquer disciplina racional. Enfim, se o
indivíduo humano é uma totalidade autossuficiente e completa, alienação
é qualquer regra ou norma imposta, de qualquer modo, à sua expressão. A
equivocidade do conceito de alienação depende da problematicidade da noção
de homem (ABBAGNANO, 2007, p. 27).

Trabalhos alienantes
Como você viu, o homem sofre modificações sob a influência do trabalho,
isto é, o trabalho modifica a perspectiva do homem sobre o mundo e ainda
altera o seu entendimento sobre si mesmo. Agora, cabe estabelecer que, pri-
meiramente, a natureza exprime-se enquanto destino para o homem e, diante
disso, o trabalho corresponde à condição da superação dos determinismos.
Com base nisso, a transcendência do homem está relacionada à liberdade
(ARANHA, 1997).
Trabalho e alienação 9

“[...] a liberdade não é alguma coisa que é dada ao homem, mas o resultado de sua
ação transformadora sobre o mundo, segundo seus projetos” (ARANHA, 1997, p. 9).

A seguir, você pode ver como ocorreu o desenvolvimento histórico do tra-


balho. Algumas formas de trabalho alienante fizeram parte de toda a trajetória
de vida dos seres humanos e seguem a impactar as atividades profissionais até
hoje, trazendo, na maioria das vezes, consequências negativas. Nos primórdios,
você pode considerar a passagem bíblica que enaltece, por exemplo, a expulsão
de Adão e Eva do paraíso por conta dos pecados. Ressalta-se a expressão de
suor de seu rosto quando Eva realiza o trabalho de parto (ARANHA, 1997).

A etimologia da palavra trabalho vem do vocábulo latino tripaliare, do subs-


tantivo tripalium, aparelho de tortura formado por três paus, ao qual eram
atados os condenados, e que também servia para manter presos os animais
difíceis de ferrar. Daí a associação do trabalho com tortura, sofrimento, pena,
labuta (ARANHA, 1997, p. 9).

Na Antiguidade Grega, o trabalho manual era encarado de forma negativa


e desvalorizado, tendo em vista que era executado pelos escravos. Já os tra-
balhos intelectuais, isto é, as atividades teóricas, eram concebidos com base
numa perspectiva mais positiva, uma vez que eram considerados uma forma
mais digna do homem, especialmente por contemplarem em sua essência
fundamentos relacionados à racionalidade. Conforme apregoa Platão (apud
ARANHA, 1997, p. 10), “[...] a finalidade dos homens livres é justamente a
contemplação das ideias (teoria do conhecimento)”.
Em Roma, no período de escravidão, o trabalho também era desvalorizado
a partir de um pensamento relacionado ao significado da palavra negotium.
Essa palavra aponta a negação do ócio, ou seja, reforça-se o caráter de ausência
de lazer, dessa forma o ócio se difere como prerrogativa dos homens livres
(ARANHA, 1997).
A partir da Idade Média, principalmente considerando o posicionamento e
as estratégias da burguesia, bem como os avanços das navegações e descobertas
de novos territórios, ocorreram significativas evoluções, especialmente entre
os séculos XV e XVII. Destacavam-se na época intensas preocupações no que
dizia respeito ao tempo e ao espaço. Nesse sentido, houve aperfeiçoamento,
10 Trabalho e alienação

por exemplo, com aparelhos como bússolas e relógios, máquinas de calcular,


imprensa. Esse período é demarcado também pelo deslumbramento diante
das máquinas (ARANHA, 1997).
Junto à evolução das máquinas, ocorreram importantes transformações
nas relações sociais, principalmente relacionadas à passagem do feuda-
lismo para o capitalismo. Passou a ser possível acumular capitais e adquirir
matérias-primas e máquinas, o que deu origem a novos empreendimentos
para muitas famílias, que passaram a vender sua força de trabalho para
sobreviver (ARANHA, 1997).
Importantes mudanças na economia e no contexto do trabalho ocorreram
durante os séculos XVIII e XIX. Neste último, em especial, se destaca o
resplendor do progresso, mas também aspectos extremamente negativos
das relações sociais, como a exploração do trabalho e o aparecimentos de
condições sub-humanas de vida. Há, por exemplo, extensas jornadas de
trabalho, ausência de férias, sem garantia para velhice, doença e invalidez
(ARANHA, 1997).
Você ainda deve notar que, a partir da Revolução Industrial e da moder-
nização, surgiu, nas ciências humanas e sociais, a expressão “sociedade de
massas”. A compreensão dessa expressão se faz extremamente necessária
para caracterizar as ações humanas e os interesses padronizados que foram
estabelecidos para sociedade (OLIVEIRA, 2018).

O século XVIII foi marcado pelo início da Revolução Industrial, na Inglaterra, a partir da
mecanização dos sistemas de produção. Enquanto na Idade Média o artesanato era
a maneira mais usual relacionada à produção, na Idade Moderna ocorreram muitas
transformações. A burguesia industrial, que buscava maiores lucros, menores custos e
produção acelerada, procurou maneiras de melhorar a produção de mercadorias. Nesse
período também houve crescimento populacional e maior demanda por produtos.

A expressão “sociedade de massa” refere-se a uma sociedade imersa num


processo de produção e de consumo em larga escala, tanto de bens de consumo
como de serviços, sendo ainda submetida a um modelo de comportamento
padronizado e generalizado. Em especial, o termo “massa” é utilizado para
caracterizar indivíduos sem autonomia de ação, ou seja, que são manipulados
(OLIVEIRA, 2018).
Trabalho e alienação 11

Em termos históricos, a sociedade de massa surgiu em um momento tardio


no processo de modernização, quando do aumento populacional, ao lado do
surgimento dos meios de transporte modernos e da imprensa. Entre os prin-
cipais aspectos, citamos o desenvolvimento econômico resultante do rápido
processo de industrialização com foco na produção de bens de consumo em
massa e de serviços. O processo de urbanização e a concentração da população
nas grandes cidades — gerando fenômenos como metrópoles, megalópoles
e centros — culminaram em diferentes formas de relações entre sujeitos,
sociedade e instituições (OLIVEIRA, 2018, p. 41).

Nesse processo da Revolução Industrial, ocorreu o predomínio do for-


dismo, modelo que evidenciava a produção em série de produtos, assim como
a produção em massa de carros. Tal modelo proporcionava significativos
rendimentos financeiros, oportunizados pelo desenvolvimento dos processos
de padronização da produção. Como exemplo, você pode considerar o apare-
cimento das linhas de montagem (OLIVEIRA, 2018).
Nesse contexto, a sociedade de massas objetivava produzir maneiras de
vida padronizadas e massificadas. Isso, num segundo momento, levaria ao
surgimento do consumismo e à influência dos meios de comunicação de massa,
estes ainda se destacando como “[...] estratégia de alienação ideológica na vida
nos grandes centros urbanos” (OLIVEIRA, 2018, p. 41).

Outros impactos também foram percebidos nesse contexto. Houve elevada burocra-
tização da vida social, além da potencialização de um formalismo nas relações, o que
se refletiu no enfraquecimento das ações individuais e autônomas, tendo em vista
a necessidade de um comportamento padronizado das pessoas. Esses elementos
provocaram ainda um processo de fragilização das culturas tradicionais, uma vez que
as pessoas foram submetidas a um controle alienante e massificador, caracterizado
por um processo de aculturação (OLIVEIRA, 2018).

A partir do aprimoramento dos meios de comunicação de massa, foram


intensificados os processos de alienação e propagação de formas de consumo.
Com isso, ocorreu também a homogeneização de práticas, costumes e idiomas,
o que esmaeceu as diferenças individuais. A esse respeito, conforme destaca
Oliveira (2018, p. 41), “[...] o filósofo espanhol José Ortega y Gasset utilizou
o conceito do homem-massa, no século XX, na obra Rebelião das massas,
para descrever o sujeito em uma sociedade de massa”.
12 Trabalho e alienação

A partir da constituição da denominada sociedade moderna, surgiram


novas ordenações sociais, principalmente relacionadas à divisão do trabalho
(especialização), o que influenciou as relações de trabalho e a alienação dos
trabalhadores. Com base nesses preceitos, principalmente no de Max Weber,
você pode considerar alguns exemplos:

Especialistas realizam tarefas específicas. Na burocracia de uma faculdade,


o responsável pelas admissões não faz o trabalho de secretário e o orientador
não cuida da manutenção do prédio. Trabalhando em uma tarefa específica,
as pessoas têm maior probabilidade de se tornarem altamente qualifica-
das e de executarem um trabalho com a máxima eficiência. Essa ênfase na
especialização é tão elementar em nossas vidas que talvez nem percebamos
que se trata de uma evolução relativamente recente na cultura ocidental. O
lado negativo da divisão do trabalho é que sua fragmentação em tarefas cada
vez menores pode dividir os trabalhadores e cortar qualquer vínculo que
possam ter com o objetivo geral da burocracia. Em O manifesto comunista
(escrito em 1848), Karl Marx e Friedrich Engels afirmavam que o sistema
capitalista reduz os trabalhadores a um mero “apêndice da máquina” (Feuer,
1989). Segundo eles, essa forma de organização do trabalho produz uma
alienação extrema — uma condição de estranhamento ou dissociação da
sociedade ao redor. Tanto Marx como os teóricos do conflito sustentam que,
ao se restringir os trabalhadores a tarefas muito pequenas, fragiliza-se sua
segurança no emprego, pois é muito fácil treinar novos empregados para
substituí-los (SCHAEFER, 2006, p. 135).

Ao longo deste capítulo, você pôde identificar os principais fatores e fa-


tos históricos que contribuíram para a concepção de trabalho. Além disso,
conheceu diversas formas de alienação às quais a sociedade foi submetida.
Conforme Aranha (1993), é possível enfatizar: a alienação na produção, es-
timulada a partir da divisão do trabalho; a alienação no consumo, provocada
pelas influências dos meios de comunicação de massa; e também a alienação
no lazer, disposta em virtude dos excessivos controles e do tempo despendido
durante a jornada de trabalho.
Trabalho e alienação 13

ABBAGNANO, N. Dicionário de filosofia. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.


ARANHA, M. L. A. Filosofando: introdução à filosofia. 2. ed. São Paulo: Moderna, 1993.
ARAUJO, M. J. F. Karl Marx. [2018]. Disponível em: <https://www.infoescola.com/
biografias/karl-marx/>. Acesso em: 7 jun. 2018.
CHAUÍ, M. Convite à filosofia. 2. ed. São Paulo: Ática, 1995.
NOVA Enciclopédia Barsa. São Paulo: Encyclopaedia Britanica do Brasil, 1999. v. 1
OLIVEIRA, C. B. de. Fundamentos de sociologia e antropologia. Porto Alegre: Sagah, 2018.
SCHAEFER, R. T. Sociologia. 6. ed. Porto Alegre: McGraw-Hill, 2006.
SVITRAS, C. A análise social de Max Weber. 2017. Disponível em: <http://sociologiacien-
ciaevida.com.br/a-analise-social-de-max-weber/>. Acesso em: 7 jun. 2018.
TESKE, O. (Coord.). Sociologia: textos & contextos. Canoas: ULBRA, 1999.
VILA NOVA, S. Introdução à sociologia. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2000.

Leituras recomendadas
REVOLUÇÃO industrial. [2018]. Disponível em: <https://www.suapesquisa.com/in-
dustrial/>. Acesso em: 7 jun. 2018.
SCHAEFER, R. T. Fundamentos de sociologia. 6. ed. Porto Alegre: McGraw-Hill, 2016.

Você também pode gostar