Santidade de Deus

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Santidade

por

Dr. Joel R. Beeke

Há uma palavra simples, todavia profunda, que ocorre novecentas


vezes na Bíblia. Você a encontra primeiramente em Gênesis, quando
somos informados como Deus criou o céu e a terra. Você a encontra
pela última vez no capítulo final da Bíblia, onde nos é dito sobre a
criação de um novo céu e de uma nova terra por Deus. Um livro
inteiro, Levítico, é devotado ao assunto desta palavra.

Apesar disso, esta palavra é estranhamente negligenciada hoje.


Embora ela descreva a exclusividade de Deus e o chamado de todos os
Seus filhos, ela é amplamente ignorada.
Esta pequena, todavia maravilhosa, palavra é santo. Entre outras
palavras, santo, santificar e santificação são obtidas de sua raiz.

O que significa santo, santidade? Qual é o chamado bíblico à


santidade? Como se deve praticar a santidade? Por que as igrejas
necessitam tão desesperadamente da santidade em nossos dias?
Dividamos nosso assunto em cinco seções: (1) O que Santidade é:
Eliminando as Concepções Erradas. (2) Santidade na Escritura: Ser
separado. (3) Santidade na Teologia: Santificação. (4) Santidade na
História: O Entendimento da Igreja. (5) Santidade na Prática Hoje: A
Maior Necessidade da Igreja e Nossa.

O QUE SANTIDADE É: ELIMINANDO CONCEPÇÕES ERRADAS

Santo e santidade são termos que levam a uma considerável concepção


errada. Para alguns, a palavra santo parece arcaica; imaginam algo
antiquado e retrógrado. Para outros, santidade cheira a legalismo
moralista; isto é, santidade demanda uma longa lista de proibições. De
pessoa para pessoa, de grupo para grupo, esta lista variará, mas uma
lista sempre existirá onde quer que a santidade esteja. Ainda para
outros, a santidade é associada com uma repugnante atitude de “sou
mais santo que você”. Eles a vêem como uma ferramenta desprezível
com a qual se implementa a superioridade arrogante. Finalmente, para
alguns, santidade denota uma perfeição inatingível. Eles vêem a
santidade como uma doutrina desalentadora que não prega nada
senão o pecado e exige uma perfeição radical.

Embora haja fragmentos de verdade em certos aspectos destas


concepções, todas estas idéias falham em expressar o verdadeiro
conceito de santidade. De acordo com o uso original da palavra,
santidade em todas suas formas (isto é, quando aplicada a qualquer
pessoa, lugar, ocasião ou objeto) implica o ser separado do uso comum
secular para o propósito de ser devotado a Deus.

Santidade significa ser separado. Mas o que significa o ser separado?


Duas coisas. O sentido negativo de ser separado é o chamado da
santidade para nos separarmos do pecado. O sentido positivo de ser
separado é o chamado da santidade para nos consagrarmos a Deus.
Estes dois conceitos – separação do pecado e consagração (ou
separação) a Deus – compreendem a palavra santidade. Quando
combinados, estes dois conceitos fazem a santidade muito
compreensiva. De fato, a santidade cobre o todo da vida. Todas coisas,
nos diz Paulo, devem ser santificadas: “Porque toda a criatura de Deus
é boa, e não há nada que rejeitar, sendo recebido com ações de graças.
Porque pela palavra de Deus e pela oração é santificada” (1 Timóteo
4:4,5).

O chamado para santidade é um chamado absoluto, exclusivo. Deus


nunca nos chama para Lhe dar um pedaço de nossos corações. O
chamado para santidade é um chamado para todo o nosso coração:
“Filho meu, dá-me o teu coração” (Provérbios 23:26).

O chamado para a santidade é holístico. Isto é, nossa vida inteira está


envolvida – corpo e alma, tempo e eternidade. E também em cada
esfera de nossa vida na qual somos chamados a atuar: em privacidade
com Deus, na confidencialidade de nossos lares, na competição de
nosso trabalho, nos prazeres da amizade social, bem como na adoração
dos domingos. O chamado à santidade é um chamado de sete dias por
semana e de 365 dias por ano. Ele é radicalmente compreensivo; como
tal, o chamado à santidade pertence à essência da fé e da prática
religiosa.

Assim, você pode ver quão erradas são as concepções erradas de


“arcaísmo, legalismo e superioridades” com respeito à santidade. A
santidade nunca se apresenta na Escritura como um conceito farisaico
com uma lista sem fim de “fazer” e “não fazer” combinada com uma
atitude de justiça própria. Pelo contrário, a santidade é um
compromisso para toda a vida de nos separarmos para o senhorio de
Jesus Cristo. A santidade não é uma lista, mas um estilo de vida.
Santidade significa viver para Deus. Santidade é a religião por
excelência. É a relação com Deus – uma relação pactual, certamente –
manifestada pela graça em fé e prática, através de todas as esferas da
vida.

Isto se tornará mais cristalino à medida que examinar o conceito da


Escritura de santidade.

SANTIDADE NA ESCRITURA: SER SEPARADO

No Antigo Testamento, se fala de santidade primariamente com


relação a Deus. “O SENHOR nosso Deus é santo” (Salmos 99:9).
Santidade é a própria natureza de Deus – o próprio fundamento de
Seu ser. Três vezes santo, intensamente santo é o Senhor (Isaías 6:3).
Deus é santidade. Santidade é a coroa permanente de Deus. Ela é o
“brilho de todas as Suas perfeições”, como os Puritanos costumavam
dizer. Santidade é o pano de fundo para tudo mais que a Bíblia declara
sobre Deus.

O conceito de santidade divina do Antigo Testamento apresenta três


verdades cardinais sobre Deus: Primeiro, denota a separação ou a
diferença de Deus de toda a Sua criação. A palavra hebraica mais
comum para santo é qadosh, a qual tem como seu significado mais
fundamental o ser separado ou apartado. Deus está acima e além de
toda a Sua criação. Nada é como Ele. “A quem, pois, fareis semelhante
a Deus, ou com que o comparareis?” (Isaías 40:18). “O SENHOR é
Deus; nenhum outro há senão Ele” (Deuteronômio 4:35,39; 1 Reis 8:60;
Isaías 45:5,6,14,18,21,22; 46:9; Joel 2:27).

Em segundo lugar, denota a total “separação” de Deus de tudo que é


impuro ou mal. Deus é a perfeição moral. Sua santidade é total retidão
e pureza (Isaías 5:16). Seus olhos são muito puros para contemplar o
mal (Habacuque 1:13).

Em terceiro lugar, por causa de Deus ser separado por natureza de


todo pecado, Ele é inacessível para os pecadores, aparte de um
sacrifício santo (Levítico 17:11; Hebreus 9:22). Somente com um
sacrifício sangrento e vivificar o Deus santo pode habitar justamente
entre os pecadores (porque o salário do pecado é a morte, Romanos
6:23) – e isto por causa de Cristo, o Sacrifício que haveria de vir. Em e
através da vinda do Messias, o único e perfeito Deus de Israel pode
viver entre o Seu povo escolhido: “Eu sou Deus e não homem, o Santo
no meio de ti” (Oséias 11:9). Esta aparente contradição – o Santo em
vosso meio – é explicável somente através de Jesus Cristo, o sacrifício
apontado por Deus, porque o Santo vê somente um Cristo perfeito
quando Ele olha para o Seu povo (cf. Catecismo de Heidelberg, Q. 60).

Deste triplo conceito de Deus como o Santo, se deduz naturalmente


que tudo associado com Deus (isto é, fenômeno divino) deve ser
também santo. Por conseguinte, o descanso instituído é “um repouso
santo” (Êxodo 16:23); Sua morada é o “santo céu” (Salmos 20:6); Ele se
senta num “santo trono” (Salmos 47:8); Sião é Seu “santo monte”
(Salmos 2:6); Seu próprio Nome é santo (Êxodo 20:7). Assim, também,
Sua igreja é chamada a ser uma “santa assembléia” (Êxodo 12:16) e Seu
povo do pacto um “povo santo”: “Porque povo santo és ao SENHOR
teu Deus; o SENHOR teu Deus te escolheu, para que lhe fosses o seu
povo especial, de todos os povos que há sobre a terra” (Deuteronômio
7:6).

Israel, o povo do pacto de Deus, é chamado à santidade por meio de


uma santa separação do pecado (Deuteronômio 7:6), através de uma
santa consagração a Deus (Levítico 11:44), de uma santa adoração a
Deus (cf. a maior parte de Levítico), e de uma santidade ou limpeza
interior (Levítico 16:30; Salmos 24:3-4).

O Novo Testamento

O Novo Testamento ressalta todo o ensino do Antigo Testamento


sobre a santidade. Ele desenvolve uma maior ênfase, contudo, sobre os
temas da santa Trindade e dos santos consagrados. A santidade é
sempre atribuída a uma Pessoa da Deidade. O Deus de amor é o Pai
Santo (João 17:11); Jesus Cristo é o Santo de Deus (Marcos 1:24; João
6:69); e o Espírito de Deus é denominado Santo noventa e uma vezes!

Em termos de santos, o Novo Testamento destaca três temas. Primeiro,


ele acentua a dimensão ética da santidade. A ênfase recai sobre o
interno em lugar da santidade ritual. Básico para isto é o testemunho
do próprio Jesus, que como o Filho do homem viveu uma vida de
completa santidade, porque Ele “não cometeu pecado, nem na sua
boca se achou engano” (1 Pedro 2:22). Ele é “santo, inocente,
imaculado, separado dos pecadores” (Hebreus 7:26). Como resultado
de Sua obra redentora, os crentes nEle são declarados justos e entram
na santidade: “Na qual vontade temos sido santificados pela oferta do
corpo de Jesus Cristo, feita uma vez por todas” (Hebreus 10:10).

Em segundo lugar, o Novo Testamento enfatiza o caráter normativo da


santidade entre os crentes. A santidade pertence a todos os
verdadeiros seguidores de Cristo. Um termo comum para todos os
crentes é santo (hagioi), geralmente traduzido por “santo”. Santos,
portanto, não se refere a pessoas preeminentes na santidade, mas ao
crente típico que é santo em Cristo (1 Coríntios 1:30). Santidade é uma
realidade interna para todos os que estão unidos com Cristo. Embora
um filho de Deus sinta freqüentemente quão ímpio ele é em si mesmo
e possa não ousar se chamar um “santo”, Deus vê todos os Seus eleitos
como santos e santificados em e através da perfeita obediência, ativa e
passiva, de Seu Filho amado. Por amor de Cristo, seu estado é santo
diante de Deus e sua condição é feita santa pelo Espírito que habita
neles.

Em terceiro lugar, o Novo Testamento contempla a santidade como


transformadora de toda a pessoa: “E o mesmo Deus de paz vos
santifique em tudo; e todo o vosso espírito, e alma, e corpo, sejam
plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso
SENHOR Jesus Cristo” (1 Tessalonicenses 5:23). Embora esta
“santidade completa” esteja além do alcance do crente nesta vida, ela
sempre continua sendo seu objetivo e oração. Ele se deleita em buscar
a santidade e procura o “aperfeiçoamento da santidade no temor de
Deus” (2 Coríntios 7:1).

SANTIDADE NA TEOLOGIA: SANTIFICAÇÃO

SANTIDADE NA HISTÓRIA: O ENTENDIMENTO DA IGREJA

SANTIDADE NA PRÁTICA HOJE: A MAIOR NECESSIDADE DA


IGREJA E NOSSA

Tradução livre: Felipe Sabino de Araújo Neto


Cuiabá-MT, Junho de 2004.

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