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Francisco Mignone: Congada

Francisco Mignone – Congada Texto publicado no Programa de Concerto da - OSESP - Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, Fevereiro de 2000. Projeto Criadores do Brasil. Susana Cecilia Igayara A Congada é mais um exemplo de uma parte que sobressai ao conjunto. Parte do episódio sinfônico presente no 2o Ato da ópera O Contratador de Diamantes, a Congada adquiriu vida própria, e foi adaptada e arranjada para diversas formações instrumentais e vocais. Mignone tinha 24 anos quando escreveu sua primeira ópera, em 1921, ainda estudante em Milão. Com o subtítulo Dança Afro-brasileira, são evidentes os parentescos com o Batuque de Nepomuceno. O autor aproveita um tema de lundu para a cena em que um grupo de negros dança no adro da Igreja. Como característico da dança afro-brasileira, há uma aceleração constante do movimento, procedimento já utilizado por Nemopuceno. Mignone, por sua vez, faz com que a aceleração rítmica seja acompanhada de uma igualmente crescente densidade sonora, com a inclusão de toda orquestra em seus registros mais brilhantes. Mignone utiliza uma grande orquestra, com muita percussão, usando ainda os efeitos característicos da harpa, celesta e carrilhão. O mesmo tema é apresentado em diferentes formações instrumentais, mostrando sua preocupação com a exploração timbrística da orquestra, o que será uma constante em sua produção sinfônica. Tudo isto resulta numa música dançante, radiante e grandiosa. Os diferentes aspectos musicais merecem a mesma atenção, por parte do compositor. Assim, embora o ritmo seja uma característica marcante, Mignone procura elaborar temas dentro da estruturação tradicional, colocando elementos secundários, elementos de contraste temático e harmônico, delimitando seções que demonstram sua preocupação formal, sem perder a característica dançante. Ao contrário do Imbapara de Lorenzo Fernandez, aqui a mudança e a escolha dos timbres instrumentais não possui intenção programática, ou seja, a Congada retrata uma cena da ópera, mas sua música não pretende descrever ou comentar a ação. No bem humorado retrospecto sobre sua ópera O Contratador de Diamantes, feita no texto autobiográfico A parte do anjo, o autor comenta a Congada, julgada por ele mesmo como o melhor momento da ópera.