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E24
A educação no Brasil e no mundo [recurso eletrônico] : avanços,
limites e contradições 5 / Organizadora Solange Aparecida de
Souza Monteiro. – Ponta Grossa, PR: Atena Editora, 2020. – (A
Educação no Brasil e no Mundo. Avanços, Limites e
Contradições; v. 5)
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Inclui bibliografia
ISBN 978-85-7247-935-6
DOI 10.22533/at.ed.356201701
1. Educação. 2. Sociedade. I. Monteiro, Solange Aparecida de
Souza. II. Série.
CDD 370
Elaborado por Maurício Amormino Júnior – CRB6/2422
Atena Editora
Ponta Grossa – Paraná - Brasil
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contato@atenaeditora.com.br
APRESENTAÇÃO
Ítaca
Se partires um dia rumo à Ítaca
Faz votos de que o caminho seja longo repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem lestrigões, nem ciclopes, nem o colérico Posidon te intimidem!
Eles no teu caminho jamais encontrarás.
Se altivo for teu pensamento
Se sutil emoção o teu corpo e o teu espírito tocar
Nem lestrigões, nem ciclopes
Nem o bravio Posidon hás de ver
Se tu mesmo não os levares dentro da alma
Se tua alma não os puser dentro de ti.
Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
Nas quais com que prazer, com que alegria
Tu hás de entrar pela primeira vez um porto
Para correr as lojas dos fenícios e belas mercancias adquirir.
[...] Tem todo o tempo Ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
Mas, não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
E fundeares na ilha velho enfim.
Rico de quanto ganhaste no caminho
Sem esperar riquezas que Ítaca te desse. [...]
(KAVÁFIS, 2006, p. 146-147)
Freud, em O mal-estar da civilização, obra renomada e publicada em inúmeras
edições, defende que a civilização é sinônimo de cultura. Ou seja, não podemos
desassociar a funcionalidade cultural em organizar um espaço, determinar discursos
e produzirem efeitos.
Por vivermos em tempos em que só o fato de existir já é resistir, seria
ingenuidade, tanto de assujeitamento, quanto social, acreditar que a cultura não vem
produzindo a resistência, principalmente na diferenciação social. Entre estudiosos,
um dos pontos mais questionáveis, entre pesquisadores das mais diversas áreas
do conhecimento, é sobre o papel do professor como agente cultural, no espaço
escolar, mas não podemos legitimar que a escola, bem como o professor, sejam os
principais influenciadores. Há, no social, trocas dialógicas, enunciativas e discursivas
que configuram e constituem o sujeito em meio sua adequação individual, ou seja,
o aculturamento perpassa por “muitas mãos”, instituições, sujeitos, ideologias que
atuam na formação estrutural.
De acordo com nossas filiações, determinamos culturas, determinamos não
culturas, assim como afirma Bourdieu (1989), que responsabiliza essas legitimações
aos próprios sujeitos que as vivem. Resistir seria, neste caso, transformar o mundo
no qual estamos inseridos.
A escola precisa ser transformada, há muito tempo ela serve à legitimação
da cultura dominante. É de fundamental relevância que a escola esteja cada vez
mais próxima daqueles que são, de certa forma, o coração que a faz pulsar, da
comunidade escolar que, ao garantir sua identidade cultural, cada vez mais se
fortalece no exercício da cidadania democrática, promovendo a transformação da
escola em uma escola mais humanizada e menos reprodutora, uma escola que
garanta, valorize e proteja a sua autonomia, diálogo e participação coletiva. Assim,
dentro dessa coletânea, buscou-se a contribuição do conceito de mediação como um
possível conceito de diálogo para com as problemáticas anteriormente explicitadas.
O termo ensino e aprendizagem em que o conceito de mediação em Vigotsky
(2009) dá início à discussão a uma discussão sobre mediação, que considera o
meio cultural às relações entre os indivíduos como percurso do desenvolvimento
humano, onde a reelaboração e reestruturação dos signos são transmitidos ao
indivíduo pelo grupo cultural. As reflexões realizadas, a partir dos artigos propostos
na coletânea, nos mostram que a validação do ensino da arte, dentro das escolas
públicas, deve se fundamentar na busca incessante da provocação dos sentidos, na
ampliação da visão de mundo e no desenvolvimento do senso crítico de percepção
e de pertencimento a determinada história, que é legitimada culturalmente em um
tempo/espaço.
A escola precisa fazer transparecer a possibilidade de relações sociais, despertar
e por assim vir a intervir nestes processos. Se deve analisar de maneira mais crítica
aquilo que é oferecido como repertório e vivência artística e cultural para os alunos,
bem como se questionar como se media estas experiências, ampliar as relações
com a arte e a cultura, ao contrapor-se ao exercício de associação exercido muitas
vezes pela escola nas práticas de alienação dos sujeitos diante de sua realidade.
Todos, no espaço escolar, atuando de maneira mais contributiva como lugar
propício para ressignificação, mediação, produção cultural e diálogos culturais, que
articulados junto a uma política cultural democrática podem vir a construir novos
discursos que ultrapassam os muros que restringem a escola a este espaço de
dominação, legitimado pelo atual sistema. A escola, dentro desta perspectiva, passa
a ser concebida como um espaço de dupla dimensão. Dentro desta concepção,
os processos de mediação potencializam a práxis de um pensamento artístico e
cultural. É, atuando atrelado ao cotidiano, em uma perspectiva de mediação, que
parte destes pressupostos apresentados que a escola passa a adquirir um carácter
de identidade, resistente à homogeneização cultural. A escola pode causar novas
impressões, pode abrir seu espaço para novos diálogos e conversações.
É preciso, no entanto, despertar esta relação, desacomodar-se do que é
imposto. Muitos são os fatores que teimam em desmotivar, no entanto, está longe
desta ser a 90 solução para um sistema educacional que precisa de maneira urgente
ser repensado. Ao acompanhar a ação nestas escolas, foi impressionante observar
como a movimentação contagiava todos, até mesmo aos que observavam a
movimentação e curiosos passavam pelo espaço, alunos de outras turmas apareciam
para ajudar e tudo era visto com grande expectativa. Os alunos que participaram do
processo aparentavam estar realmente coletivamente envolvidos, e isso pode ser
observado nos depoimentos. O movimento observado na montagem, na realização
da exposição e na ação educativa foi surpreendente e demonstra que a escola
carrega realmente consigo algo muito precioso, que é pouco valorizado, o cotidiano
real, o qual não está incluso em documentos, a parte viva da escola.
A presente ação demonstrou que a escola pode tomar rumos diferentes dos
quais ela é designada pelo sistema. Aponta que um destes caminhos é apostar
nos processos de mediação cultural que partam do cotidiano dos sujeitos que
constituem este espaço. Assim, os processos de mediação cultural atrelados
ao conceito de cotidiano não documentado atuam como exercício de partilha do
sensível e colaboram na formação da práxis de um pensamento artístico e cultural.
Esta concepção aqui analisada remete à tomada de uma nova postura frente ao
ensino da arte e a concepção de espaço escolar assinala à construção de narrativas
que possam contribuir para a construção de uma escola menos determinista e mais
humanitária. Ao se realizar uma ação como esta proposta, o espaço escolar permite
uma participação ativa e democrática entre seus autores, possibilitando a troca
de vivências e experiências na comunidade escolar, promovendo um diálogo que
potencializa a produção cultural dos alunos. A mediação dos trabalhos pelos alunos
foi, segundo os depoimentos, algo muito rica e satisfatória para eles, os quais se
mostraram maravilhados ao poderem partilhar de suas criações e apresentá-las à
comunidade escolar.
Na ação educativa os alunos mediam o processo criativo e estes momentos de
mediação, em absoluto, se configuraram como exercícios de partilha da sensível, que
carregados de significados possibilitam a troca e o contato com o outro. Diante do
que aqui se faz exposto, nada se tem a concluir como algo pronto e acabado, assim
o que se faz é concluir uma etapa, que se transformará em múltiplas possibilidades
de novos fazeres, desta teia de retalhos cabe, por agora, apreciar a parte que foi
tecida e refletir, para sem muito tardar, sair em busca de outros retalhos que possa
quiçá, um dia, tornar-se uma trama densa da práxis educativa e artística.
Boa leitura!
Solange Aparecida de Souza Monteiro
SUMÁRIO
CAPÍTULO 1 ................................................................................................................ 1
SEXUALIDADE, DISCURSO TRADICIONAL E RESISTÊNCIA: UM EMBATE ENTRE
FEMINISMO E A FAMÍLIA POR UMA ÓTICA FOUCAULTIANA
Solange Aparecida de Souza Monteiro
Heitor Messias Reimão de Melo
Paulo Rennes Marçal Ribeiro
Maria Regina Momesso
Débora Cristina Machado Cornélio
Andreza de Souza Fernandes
Monica Soares
Carlos Simão Coury Corrêa
Valquiria Nicola Bandeira
DOI 10.22533/at.ed.3562017011
CAPÍTULO 2 .............................................................................................................. 20
INGRESSO DE JOVENS NO ENSINO MÉDIO INTEGRADO: EXPERIÊNCIAS DE
ACOLHIMENTO
Itagiane Jost
Marcele Homrich Ravasio
DOI 10.22533/at.ed.3562017012
CAPÍTULO 3 .............................................................................................................. 32
ISOMERIA CIS-TRANS: EMPREGO DE PALAVRAS CRUZADAS COMO RECURSO
DIDÁTICO
Antônio Marcelo Silva Lopes
Meyriânne Silva Lopes
Sérgio Bitencourt Araújo Barros
Francisco de Assis Araújo Barros
DOI 10.22533/at.ed.3562017013
CAPÍTULO 4 .............................................................................................................. 43
LEI DOS GRANDES NÚMEROS: DEMONSTRAÇÃO APLICADA AO ENSINO
Julia Pereira Manenti
Ana Cristina de Castro
Zedequias Machado Alves
DOI 10.22533/at.ed.3562017014
CAPÍTULO 5 .............................................................................................................. 46
LEITURA E ESCRITA ENQUANTO OBJETOS SIGNIFICATIVOS E AFETIVOS:
TEORIA E EXPERIÊNCIA
Raimundo Nonato de Oliveira Falabelo
Elielton Brandão Serrão
Paula Soares Rodrigues
DOI 10.22533/at.ed.3562017015
CAPÍTULO 6 .............................................................................................................. 56
LESEX: LIGA DE EDUCAÇÃO SEXUAL
Beatriz dos Santos Melo
Beatriz Silva de Souza
SUMÁRIO
Carolina Habergric Folino
Lucas Rodrigues Tovar
Thainá Gulias Oliveira
Débora de Aguiar Lage
DOI 10.22533/at.ed.3562017016
CAPÍTULO 7 .............................................................................................................. 68
LETRAMENTO DIGITAL NO CURSO DE ARTESÃ E BORDADOS: UMA AÇÃO DE
ESTÁGIO DENTRO DO PROGRAMA MULHERES MIL DO IFRN
Edna Maria da Silva Araújo
Edícia Mariana de Moura Pereira
Diego Silveira Costa Nascimento
DOI 10.22533/at.ed.3562017017
CAPÍTULO 8 .............................................................................................................. 82
LETRAMENTO NO ENSINO FUNDAMENTAL II: DA LEITURA EXTRACLASSE À
PRODUÇÃO TEXTUAL
Adriana Ferreira de Souza
DOI 10.22533/at.ed.3562017018
CAPÍTULO 9 .............................................................................................................. 88
LIBERDADE DE EXPRESSÃO OU DISCURSO DE ÓDIO: TOLERAR OS
INTOLERANTES?
Morgana Rodrigues
Anna Beatriz Brandelero Giacomini
Rodolfo Denk Neto
DOI 10.22533/at.ed.3562017019
CAPÍTULO 10 .......................................................................................................... 100
MATEMÁTICA E INCLUSÃO SOCIAL: CURSO BÁSICO PARA CONCURSO
Adriana de Oliveira Dias
Exayne Santos Mourão
DOI 10.22533/at.ed.35620170110
CAPÍTULO 11 .......................................................................................................... 105
MULTIPLICAÇÃO NA HORTA: UM MODELO DE PRÁXIS EDUCATIVA
Robson Damasceno da Silva
Maria Eliana Soares
DOI 10.22533/at.ed.35620170111
CAPÍTULO 12 .......................................................................................................... 110
NAS SAIAS DE IEMANJÁ: VOZES E SABERES POÉTICOS DO FEMININO NA
EDUCAÇÃO SENSÍVEL UMBANDISTAS NA AMAZÔNIA
Denise Simões Rodrigues
Lívia Cristina Fonseca de Araújo Faro
DOI 10.22533/at.ed.35620170112
SUMÁRIO
CAPÍTULO 13 .......................................................................................................... 120
O CADERNO VIRTUAL NO CONTEXTO DE LIBRAS NA FORMAÇÃO DE
PEDAGOGOS
Keila Moura Grassi
DOI 10.22533/at.ed.35620170113
CAPÍTULO 14 .......................................................................................................... 132
O ENSINO DA ARTE – UM DESAFIO NO ATUAL CONTEXTO
Márcia Lenir Gerhardt
Pedro Henrique Graeff Machado
Mateus Silva do Carmo
DOI 10.22533/at.ed.35620170114
CAPÍTULO 15 .......................................................................................................... 143
O ENSINO DE QUÍMICA: UM OLHAR INVESTIGATIVO EM ALUNOS DE
GRADUAÇÃO
Tiago Barboza Solner
Liana da Silva Fernandes
Leonardo Fantinel
DOI 10.22533/at.ed.35620170115
CAPÍTULO 16 .......................................................................................................... 152
O LÚDICO COMO RECURSO METODOLÓGICO NA INCLUSÃO DE ALUNOS COM
DEFICIÊNCIA INTELECTUAL NO ENSINO FUNDAMENTAL
Vanussa Sampaio Dias da Silva
Ingrid Cibele Costa Furtado
DOI 10.22533/at.ed.35620170116
CAPÍTULO 17 .......................................................................................................... 170
O LUGAR DAS DISCIPLINAS PEDAGÓGICAS NA FORMAÇÃO DOS LICENCIANDOS
EM EAD
Maria Letícia Cautela de Almeida Machado
DOI 10.22533/at.ed.35620170117
CAPÍTULO 18 .......................................................................................................... 182
O MÉTODO TOTAL PHYSICAL RESPONSE (TPR) NO ENSINO DE INGLÊS PARA
CRIANÇAS (LIC): CONSIDERAÇÕES SOBRE A ATMOSFERA MOTIVACIONAL
POSSIBILITADA
Monique Vanzo Spasiani
DOI 10.22533/at.ed.35620170118
CAPÍTULO 19 .......................................................................................................... 198
O PIBID E O USO DOS RECURSOS DIDÁTICOS/TECNOLÓGICO NA SALA DE
AULA
Eronice Rodrigues Francisco
Sandra R. Hermes dos Santos
Sérgio S. S. Filho
DOI 10.22533/at.ed.35620170119
SUMÁRIO
CAPÍTULO 20 .......................................................................................................... 203
O PROCESSO DE INCLUSÃO SOCIAL DE PESSOAS COM DEFICIÊNCIA VISUAL:
O PAPEL DA INCLUSÃO DIGITAL
Anderson Barros da Silva
Geni Emília de Souza
DOI 10.22533/at.ed.35620170120
CAPÍTULO 21 .......................................................................................................... 220
O PROFISSIONAL DA EDUCAÇÃO BÁSICA COMO SUJEITO CAPAZ DE INTERVIR
NAS INJUSTIÇAS E PRECARIZAÇÕES DAS INFÂNCIAS, ADOLESCÊNCIAS E
JUVENTUDES EMPOBRECIDAS
Gabriela Fernanda do Carmo
Janaína Augusta Neves de Souza
DOI 10.22533/at.ed.35620170121
CAPÍTULO 22 .......................................................................................................... 235
O TRABALHO COM A GEOMETRIA PLANA NO ENSINO FUNDAMENTAL:
EXPERIMENTAÇÕES COM MATERIAIS MANIPULATIVOS E RECURSOS
TECNOLÓGICOS
Natasha Inês Buche
Carolina Hilda Schleger
Jeverton Iedo Dorr
Tanise da Silva Moura
Vanessa Volkweis Rodrigues
Elizangela Weber
Mariele Josiane Fuchs
Julhane Alice Thomas Schulz
DOI 10.22533/at.ed.35620170122
CAPÍTULO 23 .......................................................................................................... 245
O USO DE DIFERENTES ALTERNATIVAS PARA O ENSINO- APRENDIZAGEM EM
BIOLOGIA
Terezinha Tronco Dalmolin
Márcia Lenir Gerhardt
Pedro Henrique Graeff Machado
DOI 10.22533/at.ed.35620170123
CAPÍTULO 24 .......................................................................................................... 253
O USO DO LÚDICO NO PROCESSO DE ENSINO-APRENDIZAGEM DE
DIFERENTES FITOFISIONOMIAS EM UMA ESCOLA ESTADUAL DE ENSINO
MÉDIO NO MUNICÍPIO DE DIAMANTINO-MT
Caroline Xavier da Conceição
Áquila Pereira da Silva
DOI 10.22533/at.ed.35620170124
CAPÍTULO 25 .......................................................................................................... 259
PERCEPÇÃO DOS DOCENTES QUANTO A INFLUÊNCIA DO ESPAÇO ESCOLAR
NA EDUCAÇÃO INFANTIL
Gislaine Maria Lente Franco
Elisangela de Oliveira Silva
Marinalva Pereira dos Santos
SUMÁRIO
Silvana Mara Lente
Odenise Jara Gomes
Solange Teresinha Carvalho Pissolato
Vania de Oliveira Silva
Elivania Toledo Rodrigues
DOI 10.22533/at.ed.35620170125
CAPÍTULO 26 .......................................................................................................... 268
PERCEPÇÃO DOS PROFESSORES SOBRE O ATRASO NA LEITURA E ESCRITA
DOS ALUNOS EM ANOS INICIAIS DE UMA ESCOLA MUNICIPAL
Cecilma Miranda de Sousa Teixeira
Brauliene Araújo Neves
Francisco Hudson Coelho Frota
DOI 10.22533/at.ed.35620170126
CAPÍTULO 27 .......................................................................................................... 275
PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO PARTICIPATIVO (PEP) SOB A PERCEPÇÃO
DISCENTE QUANTO AOS OBJETIVOS ESTRATÉGICOS VALIDADOS EM UMA
INSTITUIÇÃO DE EDUCAÇÃO SUPERIOR
Marinalva Pereira dos Santos
Solange Teresinha Carvalho Pissolato
Silvana Mara Lente
Vania de Oliveira Silva
Elisangela de Oliveira Silva
Odenise Jara Gomes
Elivania Toledo Rodrigues
DOI 10.22533/at.ed.35620170127
CAPÍTULO 28 .......................................................................................................... 288
PARA QUE SE ESCREVE NA ESCOLA?
Leonarlley Rodrigo Silva Barbosa
Maria Alice de Sousa Carvalho Rocha
DOI 10.22533/at.ed.35620170128
CAPÍTULO 29 .......................................................................................................... 297
PRÁTICAS DE EDUCAÇÃO EM SAÚDE PARA A FORMAÇÃO INTEGRAL DE
DISCENTES DOS CURSOS TÉCNICOS INTEGRADOS DO INSTITUTO FEDERAL
FARROUPILHA CAMPUS JAGUARI
Fernanda Lavarda Ramos de Souza
Ricardo Antonio Rodrigues
DOI 10.22533/at.ed.35620170129
SOBRE A ORGANIZADORA................................................................................... 307
ÍNDICE REMISSIVO ................................................................................................ 308
SUMÁRIO
CAPÍTULO 1
doi
SEXUALIDADE, DISCURSO TRADICIONAL E
RESISTÊNCIA: UM EMBATE ENTRE FEMINISMO E A
FAMÍLIA POR UMA ÓTICA FOUCAULTIANA
Data de aceite: 06/01/2020
Solange Aparecida de Souza Monteiro
Heitor Messias Reimão de Melo
Paulo Rennes Marçal Ribeiro
Maria Regina Momesso
Débora Cristina Machado Cornélio
Andreza de Souza Fernandes
Monica Soares
Carlos Simão Coury Corrêa
Valquiria Nicola Bandeira
RESUMO: Tomando como base a teoria
discursiva de Michael de Foucault, a Análise
do Discurso Foucaultiana, compreendemos
que a família e o papel da mulher, dentro
desta instituição, constroem dispositivos que
são significados e se significam socialmente.
Ao falar de família e mulher, discursos como
jurídicos, religiosos, patológicos, moralistas e,
sobretudo, de verdades, emergem acerca de e
por meio deles, conceituando e determinando
o que é/deve ser a família e a mulher. Por isso,
recorremos à análise histórica de Foucault,
no qual, por meio dos dispositivos, nos auxilia
nos entendimentos das produções das leis
acerca das problemáticas envolvendo o lugar
social tanto da família, quanto da mulher. Para
tanto, tomamos como objetivo central, analisar
algumas configurações de atuação do sistema
jurídico, para a produção do entendimento
de família no Brasil contemporâneo. Como
conclusão desta pesquisa, observamos que
há uma regularização entre os discursos que
querem dizer acerca destes dispositivos, à
medida em que se colocam como verdadeiros.
Por mim, constatou que o jurídico, assim como
afirma Melo (2018), se torna um dispositivo que
se molda, estando em consonância com as
atualizações do mundo moderno.
PALAVRAS-CHAVE: Histórico; Mulher; Família;
Jurídico; Poder.
INTRODUÇÃO
A família, no Brasil contemporâneo,
especificamente o lugar que a mulher assume
nessa complexidade, resultante de vários
fatores, sendo um deles o alargamento jurídico
e político do conceito, se auto valida enquanto
tal, na construção imaginária em relação
à sociedade, o que acende uma amplitude
de possibilidades de reconhecimento de
diferentes arranjos familiares.
O debate sobre o significado de família,
frente
ao
reconhecimento
configurações
familiares,
das
tem
diversas
levantado
várias discussões em diferentes âmbitos
da sociedade brasileira. O campo jurídico e
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 1
1
legislativo, bem como ações da sociedade civil e religiosa, tem mobilizado debates
adversos, constituindo uma luta composta por dois lados antagônicos. De um lado,
grupos a favor da ampliação do conceito de família, de outro, grupos contra esse
movimento. Justamente porque, segundo Melo (2018):
[...] pensa-se que a Instituição Familiar, já resultando do funcionamento ideológico da
moralidade, valida seus discursos na configuração daquilo que é ideologicamente
entendido, pelos sujeitos dominantes da Instituição família – pai e mãe –, como
melhor para a criança que nascerá (e aqui se colocam as formas normais do
existir) e para a própria instituição em questão (que assegurando a normalidade da
existência permite a sua reprodução moral) (MELO, 2018, p 55).
Duas das formas de ação do poder do sistema jurídico sobre a família são a
produção de leis e as decisões jurídicas que tratam sobre essa instância, Assim,
a produção das relações entre sistema jurídico e família precisam, portanto,
ser analisadas a partir do modo como o poder desse se exerce na produção de
subjetividades. Melo (2018) afirma que:
Nas formações imaginárias, a família é uma instituição impossível de “agir sozinha”.
Ao se reagrupar sobre a égide racional do Discurso Jurídico, o Discurso Familiar é
impossibilitado de agir pela ilusão da autonomia, pois, ao longo das temporalidades,
a família foi o principal alvo das “ações” institucionais. Por isso, compreendemos
que Discurso Familiar tem se constituído em um Discurso Jurídico, no qual o poder
legal, a partir das relações de força, atesta e obriga o funcionamento civilizante da
família. Este funcionamento se impõe agora a partir da racionalidade estatal e não
mais da moralidade religiosa (MELO, 2018, p. 58).
Ao acercar-se o poder, não é no sentido de que ele atua na repressão, ou de
que alguns grupos ou indivíduos o detém sobre outros. Entendemos que o poder
produz e circula entre as pessoas. Foucault (2015b, p. 284) “o poder funciona e
se exerce em rede. Nas suas malhas, os indivíduos não só circulam, mas estão
sempre em posição de exercer esse poder e de sofrer sua ação”. Compreendendose que o poder, ao ser produz e ao circula em meio aos sujeitos, o sistema jurídico,
por meio das leis e decisões jurídicas, acerca da família, viabiliza significações,
que são produtos de relações de força, os quais colocam em disputa determinados
significados em torno de sua definição.
Nesse artigo, o empenho se dá sobre o entendimento do papel da mulher,
na família corroborado por algumas leis e decisões jurídicas, que versam sobre a
ampliação do conceito de família e da mulher e sobre o reconhecimento da união
homossexual, fatos que provocaram grupos religiosos e políticos em defesa da
família nuclear.
Nesse sentido, temos por objetivo analisar algumas configurações de
atuação do sistema jurídico, para a produção do entendimento de família no Brasil
contemporâneo. Para tanto, apresentamos, inicialmente, alguns subsídios históricos
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 1
2
sobre a produção da família moderna e estabelecemos relações com a noção
foucaultiana de dispositivo.
Em seguida, lançamos uma análise dessas leis e decisões jurídicas, visibilizadas
à modernização do dispositivo da família, constituinte pelo entendimento da
existência de diferentes configurações familiares. Contudo, essa modernização não
se exerce linearmente, já que sofre embates, lutas e forças contrários, derivados
de grupos que afirmam ser a família nuclear o modelo legítimo. Tais embates
também são próprios da atualização do dispositivo, já que ele se constitui por meio
das relações de poder e onde há poder, ou seja, há resistências. O Projeto de Lei
6.583/2013, conhecido como Estatuto da Família, amplia o conceito, tornando-o
mais abrangente. Entendemos que a produção do dispositivo da família, a partir do
sistema jurídico, resulta em processos de produção de diferentes subjetividades e
envolve a conquista ou negação de direitos, assim como a ação ou base à diferença
e, em última instância, o combate ao preconceito e à homofobia.
A FAMÍLIA SOB A LENTE FOUCAUTIANA
Para compreender a história da família, nos movimentamos pelas teorias do
discurso foucaultiano. Principalmente pela maneira de fazer história da teoria. De tal
modo, procuramos por uma origem, no sentido metafísico. Foucault (2015), aborda,
na genealogia, a busca de acontecimentos e suas dispersões, preocupa-se com as
condições de origem e emergência. Assim, ao olharmos para alguns elementos da
história da família, a partir da ótica de Michel Foucault e adotando como referência
a família contemporânea, pretende-se analisar as condições de possibilidade de sua
situação crítica.
Foucault (2001,2006), ao abordar a produção da família contemporânea,
nos permite identificar algumas condições de possibilidade de visualizar a família
enquanto condição sexualizada, que por meio da ciência psiquiátrica, produziu-se
uma articulação relacionada a produção da família ao dispositivo da sexualidade.
Melo (2018), ao citar Soares (2016), explica que:
O Discurso Familiar não agia na unicidade, estando, inicialmente, em concomitância
com o Discurso Religioso. Segundo o autor, ambas as instituições atuam na
classificação do gênero e da sexualidade, determinando os sentidos acerca do
que é ou não uma família e de qual seja ou não a sua imagem. Como fundante
dessa dinâmica, há o imaginário da família sagrada, advinda da concepção
ocidental, na Idade Média, que organiza a Instituição Familiar como o espaço da
dominação patriarcal masculina fundada na divisão e submissão entre os sexos.
É esse funcionamento das instituições e dos discursos que produzem as “bases
familiares” do mundo ocidental (MELO, 2018, p. 56-57).
Sobretudo, Foucault (2001) aborda, por volta do século XVIII, segundo
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 1
3
desenvolveu-se um novo aparelhamento do ambiente familiar, que buscou a
eliminação dos/as intercessores/as na relação pais-filhos, modificando o lugar da
família em espaço de continua vigilância, como família, hospitais, prisões e escolas
– também inseriu, nelas, mecanismos que os controlam e os mantêm na iminência
da punição (leia o quadro acima). Esses mecanismos formariam o quê Foucault
chamou de tecnologia política, com poderes de manejar espaço, tempo e registro de
informações – tendo como elemento unificador a hierarquia.
Assim como Melo (2018) afirmou, acerca da dominação masculina, família se
tornou o espaço de dominação feminina e controle destinado a suprimir ou domesticar
os comportamentos divergentes. Há, assim, por meio da perseguição e proibição da
sexualidade da mulher, a constituição de um novo corpo familiar, é a família-célula,
família restrita, família corporal e substancial (FOUCAULT, 2001). Para Foucault
(2001, p. 315), “trata-se de constituir uma família-canguru: o corpo da criança como
elemento nuclear do corpo da família”. Nasce, segundo Foucault (1987, p. 120),
uma técnica de poder específica sobre o corpo: a disciplina. A disciplina, diz ele “é a
anatomia política do detalhe”.
Uma das poucas definições que Foucault faz sobre o dispositivo, é feita em
uma entrevista em 1977, que Agamben localiza em Ditos e escritos 3, da edição
francesa.6 A partir das definições colocadas por Foucault, nessa entrevista. Agamben
(2005) destaca os seguintes pontos:
O dispositivo é: um conjunto heterogêneo, que inclui virtualmente qualquer coisa,
linguístico e não linguístico no mesmo título: discursos, instituições, edifícios, leis,
medidas de segurança, proposições filosóficas, etc. O dispositivo em si mesmo é a
rede que se estabelece entre esses elementos. (AGAMBEM, 2005, p. 9).
Segundo Agamben (2005), o dispositivo é uma rede estabelecida entre
diferentes elementos, e sua função é sempre estratégica e inscrita em uma relação
de poder. Justamente porque o poder se configura e se manifesta nas diferentes
maneiras hierarquizadas de relação social.
Foucault (2001) destaca que foi a problematização da relação corpo-a-corpo
entre pais e filhos/as que intensificou o tema do incesto, bem como tornar aceitável
a teoria psicanalítica nessa questão. Mas, para isso, colocou-se o desejo incestuoso
na criança para com os pais e tornou o incesto a origem das pequenas anomalias,
o que reforçou a ideia da necessidade de intervenção do saber médico na família.
Desse modo, a teoria psicanalítica do incesto, inscrevendo-se no interior da cruzada
antimasturbação, produzindo uma normalização médica da família. Contudo,
segundo Foucault (2001), essa campanha, que visava a aproximação entre pais e
filhos, esteve direcionada à família burguesa.
À família popular, a família do proletariado urbano que se constituía, teve
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 1
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uma outra campanha que teve por foco o casamento e sua solidificação. Essa
campanha de solidificação matrimonial do proletariado juntou-se ainda a outra,
voltada à especificação das relações familiares e diferenciação entre indivíduos,
idades e sexos. É assim que se deu outra relação entre pais e filhos/as nas famílias
proletárias. Foucault (2001, p. 344) escreve que “nada de corpo-a-corpo, nada de
contatos, nada de misturas”. O incesto muda de problemática, o perigo não reside
mais nas crianças, mas se volta à relação irmão-irmã e pai-filha. Nesse caso, não se
deve aproximar, mas sim afastar-se.
Se por um lado, nas famílias burguesas, a vigilância sobre o corpo da criança e
da mulher incentivou os pais a dormir com seus filhos e filhas, se possível na mesma
cama. Por outro, nas famílias do proletariado, a partir da produção do perigo do
incesto entre pai-filha ou irmã-irmã, a campanha foi no sentido de que o casal e seus
filhos e filhas dormissem em quartos separados (FOUCAULT, 2001).
Percebe-se, então, dois medos em relação ao incesto, de um lado a família
burguesa e, de outro, a família operária. No entanto, destaca Foucault (2001), que
em determinado momento elas sofrem uma influência mútua, formando um modelo
familiar de ‘interclasses’. “É a pequena célula pais-filhos, cujos elementos são
diferenciados, mas poderosamente solidários, e que são ao mesmo tempo ligados
e ameaçados pelo incesto” (FOUCAULT, 2001, p. 345). O elemento incesto é o que,
de certo modo, as unificam.
Porém, esse intercâmbio não significa que se apagam as diferenças, pois de
um lado a sexualidade da criança requer a união da família, de outro a sexualidade
do adulto pede a sua repartição. Sobre elas, passa a haver dois caráteres autoritários
de intervenção. No caso da burguesia, tem-se a medicina psicanalítica no controle da
mulher e da sexualidade infantil, e no caso do proletariado, tem-se o poder judiciário e
as instituições de policiamento das famílias populares, o controle. Tanto em um caso,
quanto no outro, a psiquiatria atua, pois mesmo que, aparentemente, ela não esteja
presente no controle da família proletária, ela está lá inserida ao exercer influência
também na produção do poder judiciário (FOUCAULT, 2001).
Foucault (2006), ao acentuar o modo como a psiquiatria se apropriou do discurso
da família para produzir saber e exercer poder sobre as mulheres, relaciona também
à emergência da família celular ao surgimento dos dispositivos disciplinares, tal como
a psiquiatria o é. Para ele, a família exerce uma função determinante e indispensável
na constituição dos dispositivos disciplinares, pois é ela que vincula os sujeitos a
esses dispositivos, bem como articula e faz circular os sujeitos entre um dispositivo
e outro. Conforme suas palavras,
Quero dizer que a família é a instância de coerção que vai fixar permanentemente
os indivíduos aos aparelhos disciplinares, que vai de certo modo injetá-los nos
aparelhos disciplinares. É porque a família existe, é porque vocês têm esse sistema
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 1
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de soberania que age na sociedade sob a forma da família (FOUCAULT, 2006, p.
100).
Para Foucault (2006), a família é essencial ao poder disciplinar, embora ela
não exerça esse tipo de poder. O poder que ela exerce é de tipo soberano, ou seja,
a família é uma célula de soberania. Na família “[...] o pai, enquanto portador do
nome e na medida em que exerce o poder sob seu nome, é o pólo mais intenso da
individualização, muito mais intenso do que a mulher e os filhos” (FOUCAULT, 2006,
p. 99). Esse tipo de relação, segundo o autor, é característico do poder soberano e
inverso ao poder disciplinar.
Na sociedade disciplinar, a família se concentrou, se intensificou e se limitou.
Sobre este processo, a lei teve um papel determinante. Foucault (2006) traz, como
exemplo, o código civil francês para afirmar que, pela ação da lei, “a família conservou
os esquemas de soberania: dominação, pertencimento, vínculos de suserania, etc.,
mas ela os limitou às relações homem-mulher e às relações pais-filhos” (FOUCAULT,
2006, p. 103). O código civil fez com que a família fosse definida pelo núcleo paimãe-filhos e, assim, “[...] constituiu um alvéolo de soberania pela ação do qual as
singularidades individuais são fixadas aos dispositivos disciplinares” (FOUCAULT,
2006, p. 103).
Duas imagens, portanto da disciplina, Num extremo, a disciplina – bloco a
instituição fechado, estabelecido à margem, e toda votada para funções negativas:
fazer para o mal, romper as comunicações, suspender o tempo. No outro extremo,
como o panoptismo, temos a disciplina – mecanismos: um dispositivo funcional que
deve melhorar o exercício do poder tornando-o mais rápido, mais leve, mais eficaz,
um desenho das coerções subtis para uma sociedade que está porvir.
O momento que vai de um projecto ao outro, de um esquema de exceção ao de uma
vigilância generalizado, repousa sobre uma transformação histórica: a extensão
progressiva dos dispositivos de disciplina ao longo dos séculos VXII e XVIII sua
multiplicação através de todo o corpo social, a formação do que se poderia chamar
grosso modo a sociedade disciplinar (FOUCAULT, 1997, p. 173).
Vemos assim o papel da lei na legitimação da família celular e da mulher
em torno de determinadas regras e padrões sociais específicos a cada sujeito, de
acordo com as condições de possibilidade dadas em tal momento histórico. E essa
força atribuída à família celular, segundo Foucault (2006), foi necessária para que os
sistemas disciplinares pudessem se sobrepor aos sistemas de soberania, mas eles
não os fizeram desaparecer. Podemos entender então que a família fortaleceu os
dispositivos disciplinares e, ao mesmo tempo, foi fortalecida por eles.
Conforme Foucault (2015b), um dispositivo se caracteriza por ser um tipo
de formação que tem, por finalidade, responder a uma urgência histórica. Nessa
direção, a emergência da família celular, articulada às instituições, normas e leis,
surge para responder a uma urgência histórica que está ligada, intrinsecamente, ao
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 1
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desenvolvimento dos dispositivos disciplinares, dentre eles a medicina psicanalítica;
o jurídico. Além disso, sua urgência também se liga à fixação do matrimônio e aos
novos sentidos atribuídos às crianças, ao seu corpo e a sua sexualidade, bem como
a própria constituição do dispositivo da sexualidade. Para Foucault (2015b, p. 364),
um dispositivo é,
[...] em primeiro lugar, um conjunto decididamente heterogêneo que engloba
discursos, instituições, organizações arquitetônicas, decisões regulamentares, leis,
medidas administrativas, enunciados científicos, proposições filosóficas, morais,
filantrópicas. Em suma, o dito e o não dito são os elementos do dispositivo. O
dispositivo é a rede que se pode estabelecer entre esses elementos.
Nesse sentido, um dispositivo corresponde a uma rede que se estabelece
entre distintos elementos, sendo instituições e leis, dois dos aspectos que o
compõem, dentre vários outros. Diante de nossa incursão histórica, a partir de um
olhar foucaultiano, podemos entender o dispositivo da família como uma rede que
articula e liga instituições médicas, jurídicas, religiosas e de policiamento[1], assim
como envolve normas e regras atribuídas a cada sujeito na família, por exemplo a
vigilância dos pais sobre o corpo da criança, o maior cuidado da mãe em relação
aos/às filhos/as. Nesta rede, também se valorizou o matrimônio, assim como
foram produzidos discursos acerca do incesto e da sexualidade, provocando uma
determinada organização arquitetônica dos espaços domésticos a partir do próprio
medo do incesto. Ou seja, conforme diz Melo (2018), houve uma necessidade em
criar um imaginário, acerca da família, respaldado no que essas mesmas instituições
consideram como “moral”.
Para Garcia Fanlo (2011), os dispositivos prendem os indivíduos a partir de
práticas discursivas e não discursivas, que produzem formas de subjetividade. Ao
capturá-los, os dispositivos produzem os sujeitos assujeitando-os a determinados
efeitos de saber e poder. Assim, eles se inscrevem nos corpos dos sujeitos modos
e nas formas de ser, muito em específicos, cuja finalidade é governar, administrar
e controlar os seus gestos, pensamentos e comportamentos, de acordo com um
sentido que se supõe útil – principalmente, útil pela determinação discursiva da
instituição que o assujeita. O dispositivo da família, permitiu, então, a construção
histórica e cultural das funções e papéis sociais específicos, atribuindos ao pai, à
mãe e aos filhos e filhas, por exemplo, prover e ser provido, cuidar e ser cuidado.
Garcia Fanlo (2011) nos ajuda a compreender que o dispositivo, como rede de
relações, que articula formas de exercício de poder e configurações de saber, torna
possível determinados efeitos de verdade e realidade. Este autor nos auxilia também
a entender a família como um dispositivo, ao afirmar que :
un dispositivo es un régimen social productor de subjetividad, es decir, productor
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 1
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de sujetos-sujetados a un orden del discurso cuya estructura sostiene un régimen
de verdad. De ahí que la familia, la fábrica, el hospital, la escuela, el cuartel, la
iglesia, el club de fútbol, el partido político, la universidad, son dispositivos [...].
(GARCIA FANLO, 2011, p. 7).
Nesse sentido, são inúmeros os dispositivos presentes na sociedade, pois dizem
respeito àquelas instâncias sociais que produzem subjetividade. O dispositivo da
família, assim entendido, produz sujeitos que são submetidos a regimes de verdade,
ancorados em uma determinada ordem do discurso. E que regime(s) de verdade
pode(m) ser este(s) que sustém o dispositivo da família e do papel da mulher?
Podemos pensar no sistema jurídico, como um de seus exemplos, por ser pela lei,
enquanto elemento do dispositivo, que se reconhece ou se exclui um significado
ou uma forma de família. Pela sua força, a lei controla, delega, determina, pune,
visibiliza e invisibiliza, enfim, produz subjetividades. Melo (2018), ao citar Althusser
(1985), aborda a legitimação da família, perante os dispositivos que determinam os
dizeres. A seguir:
Entende-se que a Instituição Jurídica é o “Aparelho que desempenha um
papel determinante na reprodução das re1ações de produção de um modo de
produção” (ALTHUSSER, 1985, p. 68), atribuindo à família a responsabilidade em
“desenvolver” os mecanismos que civilizam o mundo, que determina as ações
morais e que estabelece o funcionamento ideológico. Vale ressaltar que a família,
antes de desempenhar um papel determinante para desenvolver os mecanismos
de civilização, foi determinada pelas instituições que (queriam) falar por/acerca
dela (MELO, 2018, p. 59).
Por fim, podemos observar algumas formas da atuação do sistema jurídico
sobre a produção e regulação da família, e assim de subjetividades, no modo como
esse conceito tem sido ampliado nos últimos anos. A legalização do divórcio, o
reconhecimento de diferentes configurações familiares, a possibilidade da união civil
entre pessoas do mesmo sexo, são alguns exemplos de como a família, ou o que se
entende por ela, tem sido alterado. Em outras palavras, Melo (2018) diz que:
A sustentação de seus valores sinaliza como até mesmo o Discurso Jurídico foi se
“adaptando” às variações da modernidade, mas, ainda assim, institucionalizando e
determinando a concepção de família, prezando sempre pela manutenção de suas
formas consolidadas de produção da legitimidade/autoridade. De acordo com
Althusser (1985), a Instituição Familiar é a concentração do domínio ideológico e
o possível lugar de movimentação das relações de forças institucionais, pois não
se pensava apenas em uma configuração de instituição moral, mas também a uma
instituição que reproduzisse a força do trabalho (MELO, 2018, p. 59)
Ações jurídicas e legislativas para a família para a mulher: a modernização do
dispositivo
A família pode ser idealizada como um dispositivo que articula, em sua
produção, determinados discursos que são postos em disputa, em torno da sua
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 1
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definição. Ao entendermos que os discursos formam os objetos dos quais falam, a
família é, antes, produto dessa ordem do discurso, relacionado às relações de poder,
saber e produção de subjetividades, que a constituem. Para entendermos a família,
é preciso olhar para os discursos que sobre ela são produzidos.
A importância do pensamento de Michel Foucault para as teorias feministas é
inegável. Temas caros ao feminismo, como identidade, sujeição, sujeito e produção
de novas subjetividades, apoiam-se fortemente nas discussões produzidas pelo
pensador francês. Contudo, a relação dos teóricos e teóricas feministas com Foucault
é muitas vezes tensa, gerando rejeições, incompreensões ou apropriações tardias.
Esta tensão também serviu para redimensionar a interpretação do pensamento
foucaultiano ou apontar alguns de seus limites em resposta às críticas feministas.
Para Scott, seria preciso uma desconstrução dos termos da diferença sexual, o que
só poderia ser realizada pela História, mas apenas sob a condição de conseguir
construir e adequar um quadro teórico ao material histórico analisado, submetendo a
crítica permanente à oposição sexual binária, de maneira a deslocar sua construção
hierárquica. Scott apresenta, então, a sua definição do conceito de gênero, composta
de duas afirmações, sendo “gênero é um elemento constitutivo de relações sociais
baseado nas diferenças percebidas entre os sexos, e gênero é uma maneira
primordial [primary way] de significar relações de poder” (SCOTT, 1986, p. 1067).
Na produção da família encontramos, por exemplo, os discursos do Direito
e nele os enunciados jurídicos e legislativos. Enunciados são compreendidos não
como atos de fala, frases ou proposições (FOUCAULT, 2004), mas como uma função
que atravessa essas unidades, como algo maior que se articula aos discursos, de
modo que discurso e enunciado se formam e se constituem, mutuamente.
O pensamento feminista, aponta Butler (2007), instituiu uma disjunção entre
sexo e gênero. Enquanto o primeiro significaria o elemento biológico, gênero seria
o elemento cultural, a construção social da identidade. Mas não há correspondência
imediata entre os dois, de modo que é possível haver gênero masculino sobre um
sexo feminino (e vice-versa), ou até mesmo a possibilidade de uma cultura em que
existam mais de dois gêneros, a partir dos mesmos elementos sexuais biológicos;
gênero, assim é “a interpretação múltipla do sexo” (BUTLER, 2007, p. 8).
Enunciados jurídicos e legislativos, assim, constituem o discurso do Direito e são
constituídos por ele, ao mesmo tempo em que contribuem na formação do discurso
da família. Os enunciados, por sua vez, são compostos por alguns elementos, sendo
um deles a sua condição de materialidade, ou seja, “[...] as formas muito concretas
com que ele aparece” (FISCHER, 2013, p. 142).
Essa materialidade pode ser encontrada nas ações jurídicas e legislativas de
um determinado tempo e lugar, através das enunciações produzidas, isto é, nas
próprias frases, textos e decisões jurídicas e legislativas, as quais formam regimes de
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
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enunciação. Tomamos por ações legislativas a produção de leis e ações jurídicas as
decisões tomadas em âmbito jurídico, por exemplo, pelo Supremo Tribunal Federal
(STF).
Pelos discursos produzidos, por meio de ações legislativas e jurídicas, são
reconhecidas ou invisibilizadas formas de família, lhes garantindo ou não acesso aos
direitos constitucionais. A Constituição Federal de 1988 (CF/1988), nossa Lei Maior,
representou um avanço para a histórica negação da possibilidade de ampliação do
significado de família. Segundo Dias (2015, p. 32), a CF/1988 “instaurou a igualdade
entre o homem e a mulher e esgarçou o conceito de família, passando a proteger
de forma igualitária todos os seus membros”. A Constituição ampliou sua proteção
para as famílias constituídas para além do casamento, abarcando a união estável e
a família monoparental. Além disso, reconheceu o direito igualitário dos/as filhos/as
havidos fora do casamento ou por adoção. O reconhecimento das diversas formas de
família torna-se, assim, importante, pois está relacionado ao exercício da cidadania,
ao direito de liberdade e de dignidade (DIAS, 2015).
Aqui, recorremos a De Certeau (1998), no qual, por meio de seu livro a Invenção
do cotidiano – Artes do Fazer, compreendemos há um funcionamento de laicidade
das instituições públicas, no qual podemos incluir tanto a família quanto o jurídico.
Essa laicidade, segundo Melo (2018, p 56-57), “é o melhor exemplo da autonomia
que esses discursos vão conquistando”. Retomando De Certeau (1998), a laicidade
é a maneira pela qual dispositivo reproduz, se auto permitindo ou sendo permitido
pelos sujeitos assujeitados, os valores morais que, como visto, se interseccionaram
no/pelo funcionamento jurídico e religioso, respaldando-se na família. Para Melo
(2018):
Portanto, o discurso da laicidade é um efeito da intersecção entre as instituições e
exemplo da autonomia entre elas. Compartilham de uma origem comum, mas, para
fazer valer e efetivar, precisam, socialmente, negar essa origem como forma de
garantir e produzir a sua legitimidade. Sobre o domínio da liberdade, reproduzem
a força da submissão, da qual nenhum sujeito escapa.
É preciso, entretanto, problematizarmos essa abertura constitucional para
o reconhecimento de outros arranjos familiares para além do modelo nuclear.
Lembramos Foucault (2015), ao afirmar que
[...] as Constituições escritas no mundo inteiro a partir da Revolução Francesa, os
códigos regidos e reformados, toda uma atividade legislativa permanente e ruidosa
não devem iludir-nos: são formas que tornam aceitável um poder essencialmente
normalizador (FOUCAULT, 2015, p. 156).
Na sociedade disciplinar, o sistema jurídico opera no disciplinamento dos
corpos, tendo como objetivo a sua normalização. Nesse sentido, a CF/1988, ao
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
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viabilizar tal entendimento de família, representa uma estratégia que tem por objetivo
a normalização dessa instância e, com isso, colocar dentro das normas sujeitos que
estavam às suas margens. Ao afirmar que determinadas formas de organização,
entre as pessoas, passam a ser reconhecidas como família, enquadra-as dentro de
normas que não são aleatórias, mas produto de relações de saber e poder.
Respaldadas pela nossa Carta Magna, trazemos aqui duas leis que trazem a
ampliação do conceito de família. Essa ampliação só se tornou possível, nos termos
da Lei, pois a CF/1988, “[...] enlaçou no conceito de entidade familiar e emprestou
especial proteção à união estável (CF 226 § 3.º) e à comunidade formada por
qualquer dos pais e seus descendentes (CF 226 § 4.º) [...]” (DIAS, 2015, p. 131, grifo
da autora).
Assim, com essa “flexibilização conceitual” (DIAS, 2015, p. 131) da família,
foi possível expressar um entendimento amplo acerca do conceito nestas leis, que
exemplificamos a seguir. A primeira é a Lei 10.836/2004 que criou o Programa Bolsa
Família. Em seu artigo 2º, § 1, I, define família como
a unidade nuclear, eventualmente ampliada por outros indivíduos que com ela
possuam laços de parentesco ou de afinidade, que forme um grupo doméstico,
vivendo sob o mesmo teto e que se mantém pela contribuição de seus membros
(s/p).
A segunda, conhecida como Lei Maria da Penha, Lei n. 11.340/2006,
compreende família como “a comunidade formada por indivíduos que são ou se
consideram aparentados, unidos por laços naturais, por afinidade ou por vontade
expressa” (s/p).
Desse modo, apoiados em nossa Lei Maior, essas duas leis possibilitam que
a família seja entendida e visibilizada para além do modelo nuclear, composto por
pai, mãe e filhos/as, mas passe a comportar, como elementos que a definem, laços
de afeto e/ou parentesco, que vivam em um mesmo lar ou a constituam a partir do
próprio desejo de formá-la.
Assim, essas leis desvinculam a noção de família relacionada exclusivamente
ao casamento, da necessidade de laços biológicos e da função da reprodução,
ressaltando, entretanto, o compromisso entre seus membros. O elemento afeto
passa a ser, portanto, dentro do sistema jurídico, um argumento fundamental na
definição de família (DIAS, 2015).
A valorização de determinados aspectos na definição de família se torna
possível pois está engendrada a saberes que tornam possível verdades, produto de
práticas sociais. Segundo Foucault (2002)
[...] as práticas sociais podem chegar a engendrar domínios de saber que não
somente fazem aparecer novos objetos, novos conceitos, novas técnicas,
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 1
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mas também fazem nascer formas totalmente novas de sujeitos e sujeitos de
conhecimento (FOUCAULT, 2002, p.8).
Desse modo, tal definição de família produz subjetividades, mas, ao mesmo
tempo, só foi possível por derivar de saberes articulados às práticas sociais, práticas
que tornaram possível a problematização da noção tradicional de família como única
possível. Nessas práticas sociais encontramos relações de poder, pois “[...] por trás
de todo saber, de todo conhecimento, o que está em jogo é uma luta de poder. O
poder político não está ausente do saber, ele é tramado com o saber” (FOUCAULT,
2002, p. 51). Nessa direção, Machado (2015) nos ajuda a compreender que
Todo saber é político. E isso não porque cai nas malhas do Estado, é apropriado
por ele, que dele se serve como instrumento de dominação, descaracterizando seu
núcleo essencial, mas porque todo saber tem sua gênese em relações de poder
(MACHADO, 2015, p.28)
Para produzir, então, um saber que entende de tal ou qual forma o significado
de família, há toda uma articulação com relações de poder, o que possibilitou romper
com a restrição do conceito aos laços de conjugalidade e consanguinidade, fazendo
prevalecer os laços afetivos e o espaço doméstico como aspectos que a definem.
Assim, essa noção ampliada de família torna-se um marco ao possibilitar abarcar
outros arranjos para além do modelo pai-mãe-filhos/as.
A partir da existência de outros arranjos familiares, tais sujeitos passaram a
reivindicar por direitos, exercendo poder, de tal forma que o sistema jurídico, de
acordo com determinadas condições históricas, possibilitou a não restrição de um
modelo único. Esse processo também favorece que outros sujeitos, por exemplo
casais homossexuais, possam constituir união civil, realizar adoção ou exercer
outros direitos sociais.
Para Foucault (2014, p. 10), o discurso produz poder, “[...] o discurso não é
simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo
porque, pelo que se luta, o poder do qual nos queremos apoderar”. A produção
discursiva sobre família, assim, está envolvida em disputas adversas e não constitui
um consenso comum, de tal modo que, em termos legais, ainda encontramos uma
ênfase à noção de família relacionada à união entre homem e mulher.
Nesse sentido, evidenciamos o Código Civil como outra lei que regulamenta a
família e, assim, contribui na produção discursiva sobre tal instância. Em sua última
edição, do ano de 2003, está ainda registrada a noção de entidade familiar como união
estável entre homem e mulher. Contudo, ainda que faça essa referência ao sexo dos
cônjuges, aponta Dias (2015) que o Código Civil não determina a exclusividade do
casamento a partir dessa distinção sexual, não excluindo a possibilidade de união
civil entre pessoas do mesmo sexo.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 1
12
De qualquer modo, em contraposição a essa referência do Código Civil ao sexo
do/a cônjuge, no Senado, encontra-se em discussão o Projeto de Lei 612/2011, que
busca modificar essa redação na referida lei e reconhecer família como união entre
duas pessoas, excluindo a referência ao sexo e permitindo a legalização, no Código
Civil, do casamento homoafetivo[2]. Assim, em âmbito legal, há uma intensa luta em
torno da definição de família que corrobora essa instância como alvo de poder, na
qual a lei exerce um papel determinante.
Além da legislação evidenciada, merecem destaque também alguns marcos
jurídicos que têm influenciado na produção do discurso da família, e de seus poderes
e saberes, no âmbito da homoparentalidade.
Dias (2015) cita o reconhecimento, pela primeira vez no Brasil, feito pela
justiça gaúcha em 2001, da união entre pessoas do mesmo sexo como entidade
familiar. Em 2011, esse reconhecimento foi feito pelo Supremo Tribunal Federal
(STF), possibilitando a casais homossexuais de todo o Brasil constituírem união civil
(ADI 4.277 e ADPF 132). E em 2015, o STF tornou possível a adoção por casais
homossexuais.
Nesse contexto, em 2013, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) proibiu que os
cartórios se negassem em realizar o casamento de casais homossexuais, tornando
obrigatório a conversão da união estável em casamento (Resolução 175/2013)
(DIAS, 2015).
Portanto, tal configuração familiar é reconhecida, atualmente, por meio dessas
decisões jurídicas, possibilitando-lhes, cada vez mais, acesso aos direitos que, por
longos anos, foram reconhecidos apenas a casais heterossexuais.
Ao ser possível a determinados sujeitos exercer direitos, até então lhes
negados, o sistema jurídico viabiliza, por meio de suas operações nas malhas
do poder, que novas subjetividades possam ser produzidas. A possibilidade, por
exemplo, da adoção por casais homossexuais, contribui para que esses sujeitos
possam se produzir enquanto pais ou mães e seus filhos e filhas enquanto membros
de uma família homoparental. Inseridos em relações de poder e saber, questionam,
provocam e transformam as normas sociais.
Além disso, a possibilidade de não haver sempre um pai e uma mãe teve
reflexos também na redação da certidão de nascimento. Encontramos hoje as
expressões ‘filiação’ e ‘avós’, em substituição a ‘nome do pai’ e ‘nome da mãe’,
‘avós paternos’ e ‘avós maternos’. Desse modo, a redação desse documento abarca
outras possibilidades de constituição familiar, que fogem ao modelo nuclear.
O conjunto desses movimentos, que produz essa nova forma de compreender
e representar essa instância provocam a atualização do dispositivo da família. Em
relação à atualização de um dispositivo, Deleuze (2005) afirma que:
À novidade de um dispositivo em relação aos que o precedem chamamos
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 1
13
actualidade do dispositivo, a nossa actualidade. O novo é o actual. O actual não é
o que somos, mas aquilo em que nos vamos tornando, aquilo que somos em devir,
quer dizer, o Outro, o nosso devir-outro (DELEUZE, 2005, p. 92).
Essa atualização se dá na medida em que produz novas maneiras de vivenciar
a família, através de novas relações de saber-poder-subjetividade, que interpelam os
sujeitos, resultantes da possibilidade de visibilização do pluralismo de configurações
familiares.
Contudo, essas outras formas de falar e ver a família podem ser vistas
produzindo lutas de poder, que provocam grupos em defesa de um conceito unívoco
dessa instância. Ocorre que o reconhecimento da multiplicidade de configurações
familiares incitou grupos religiosos e políticos que defendem o modelo de família
nuclear como único aceitável. Assim, a desconstrução dos valores que apoiavam
a família nuclear tradicional, provocou “o medo e a ira dos defensores de uma
concepção de família naturalista e sagrada, fundada em valores religiosos e
encarregada da missão – primeira e insubstituível – de assegurar a coesão social e
a reprodução da espécie” (MELLO, 2005, p. 27). Tais grupos defensores ‘da família’,
muitas vezes, atribuem determinadas mazelas da sociedade como resultante desse
enfraquecimento da família em sua acepção nuclear.
Como produto da defesa desse modelo familiar, encontra-se o Projeto de Lei
(PL) nº 6.583/2013, de autoria do deputado Anderson Ferreira, mais conhecido como
Estatuto da Família. Este projeto foi aprovado em 2015, por Comissão Especial e
pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados. Atualmente,
encontra-se em tramitação no Senado Federal. Este projeto, em seu Art. 2º define,
por entidade familiar “o núcleo social formado a partir da união entre um homem e
uma mulher, por meio de casamento ou união estável, ou ainda por comunidade
formada por qualquer dos pais e seus descendentes” (PL 6.583/2013, p. 2).
Assim, busca excluir, no âmbito da lei, o reconhecimento da diversidade familiar
conquistado nos últimos anos. Não obstante, tem como justificativa o “enfrentamento
das questões complexas a que estão submetidas as famílias num contexto
contemporâneo”, sendo um desses fatores a “desconstrução do conceito de família”
(PL 6.583/2013, p. 6). Desse modo, esse projeto vem em combate ao pluralismo de
arranjos familiares, ao mesmo tempo em que atribui a essa flexibilização do conceito
a razão para as questões complexas da sociedade.
Vemos que a produção do discurso da família envolve, portanto, regimes de
enunciação de diferentes ordens, produzindo alguns enunciados. Ao observarmos
diferentes enunciados que compõem o discurso da família, podemos ver linhas de
força que articulam saberes e poderes, apoiados em distintos regimes de verdades.
Cada enunciado, assim, traz consigo, lutas de poder e produção de saber que tem
por base uma vontade de verdade (FOUCAULT, 2014).
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 1
14
Diante disso, podemos apreender a potencialidade do dispositivo da família na
produção das subjetividades, de como o discurso jurídico que compõe essa instância
atua sobre a produção dos sujeitos, de suas formas de ser e estar na cultura.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Analisar o dispositivo da família e mulher na contemporaneidade pode ascender
uma amplitude de possibilidades. Tal sistema jurídico produz discursos que instituem
verdades imersas em jogos de saber-poder e produção de subjetividades. Ao legitimar
um determinado conceito de família, que permite abarcar suas várias possibilidades,
produz essas relações entre sujeitos enquanto famílias. Mas, como afirma Melo
(2018), a verdade é uma construção social.
Problematizar essa instância como um dispositivo, nos possibilita perceber a
rede, quase onipresente, que a família representa na produção social. Uma rede
capilar que articula os sujeitos, entre outros dispositivos. E, este poder da família,
esta centralidade da família na sociedade, que é legitimada pelo sistema jurídico, que
confere a essa instância toda uma normatização, um sistema de direitos, deveres e
obrigações.
Evidenciamos a família e mulher como um dispositivo sobre o qual o sistema
jurídico atua para regulamentar, legislar e controlar os sujeitos, tornando-a alvo do
poder normalizador. A atuação desse sistema, na produção da família torna-se, de
um lado, um canal pelo qual se multiplicam as possibilidades de reconhecimento de
arranjos familiares e, de outro, o instrumento de regulação, normalização e controle
dessas unidades. A família só é família na forma da lei, o que possibilita a ela existir,
legalmente ou não, e ter acesso, ou não, aos direitos instituídos pela legislação.
Observar tais fatores mobiliza-se, portanto, a problematizar a produção do dispositivo
da família e da mulher na contemporaneidade, o que nos permitiu dar visibilidade à
sua atualização, a partir de leis e decisões jurídicas que legitimam a ampliação do
conceito de família.
Conforme a “história das mulheres” ganhava importância na elaboração
de uma nova história, era imediatamente desqualificada pelos historiadores nãofeministas – por um lado, pelo reconhecimento de que haveria sim uma história das
mulheres, mas esta constituiria um campo separado de estudos, que caberia apenas
às feministas desenvolver; por outro lado, pela desqualificação pura e simples,
uma vez que, segundo tais historiadores, o estudo do papel das mulheres em nada
afetaria a compreensão histórica já existente de grandes fenômenos como a política,
a economia, as revoluções etc.
As consequências de tal leitura do conceito de gênero encontram-se, no
contexto da teoria e do movimento feminista, no terreno da disputa pela identidade.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 1
15
Seria possível abrir mão da própria ideia de “mulheres” na luta política? E mais: pode
haver política sem o recurso a um sujeito estável? A teoria feminista há muito abriu
mão de estabelecer um conceito de “mulher” no singular, e mesmo de imaginar essa
possibilidade, uma vez que a identidade feminina também é atravessada por outras
clivagens, como raça, classe, orientação sexual. Ainda assim, por instável que seja,
a ideia de uma mulher a ser representada é um requisito essencial ao movimento
político feminista. Para Butler, entretanto, a mulher é igualmente construída dentro
do discurso de representatividade do movimento e da teoria feminista. A mulher é o
efeito do discurso que advoga sua opressão, produção discursiva engendrada pela
representação política. Seguindo a teoria de Foucault, e aplicando-a especificamente
ao conceito de gênero e feminismo, a mulher é tornada sujeito, não apenas no sentido
de sujeitada à lei (masculina) da opressão, mas portadora de uma subjetividade
feminina que a liga à condição de mulher.
Entendemos que o reconhecimento das diferentes configurações familiares
e o papel da mulher representa uma estratégia que possibilitou a atualização do
dispositivo da família. Em relação a esse processo de atualização de um dispositivo,
Garcia Fanlo (2011) afirma que:
todo dispositivo tiene una genealogía y una historicidad que explica su régimen
de aparición, reproducción, funcionamiento y crisis de la que resultará una nueva
configuración de la red de saber/poder y, conseguientemente, nuevas formas de
experiencias (GARCIA FANLO, 2011, p. 07).
Não realizamos aqui uma genealogia do dispositivo da família, mas
evidenciamos alguns aspectos históricos, partindo do olhar foucaultiano sobre
a família moderna. Foucault (2001, 2006) nos possibilitou compreender, assim,
seu regime de aparição, reprodução e funcionamento, que teve como centro a
preocupação com o corpo e a sexualidade da criança, resultando desse processo a
constituição da família celular-restrita-corporal-substancial (FOUCAULT, 2001).
Esse dispositivo, entretanto, entrou em crise por diversos fatores, não
aprofundados aqui, mas dentre os quais podemos identificar as lutas para pôr
em cheque a noção de família em sua acepção nuclear, exclusivamente ligada
ao casamento (heterossexual) e à filiação biológica. Assim, vemos surgir novas
noções de família e o reconhecimento legal das diversas configurações familiares,
possibilitando a atualização deste dispositivo, e com isso outras formas de ser e
existir, bem como outras relações de saber e poder.
Esses processos estão imbricados com a produção de discursos sobre a
família, enredados aos diferentes campos de saber, sendo um deles o sistema
jurídico. Reconhecemos neles, entretanto, lutas em defesa do conceito de família
restrito ao modelo nuclear, representado hoje pelo Projeto de Lei 6.583/2013, mas
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 1
16
que também encontra lugar em grupos que se intitulam contra a suposta Ideologia de
gênero que conforme Junqueira (2017), é uma expressão criada pela Igreja Católica
para se opor aos Estudos de Gênero. Segundo o pesquisador, trata-se de uma
“ofensiva [que] visa, além de recuperar espaço à Igreja em sociedades envolvidas
em distintos processos de secularização, conter o avanço de políticas voltadas a
garantir ou ampliar os direitos humanos de mulheres, pessoas não-heterossexuais
e outros dissidentes da ordem sexual e de gênero. Para tanto, tais cruzados morais
investem maciçamente na (re)naturalização das concepções de família, maternidade,
parentesco, (hetero)sexualidade, diferença sexual.” (JUNQUEIRA, 2017, p. 26).
Observar essa produção discursiva do dispositivo da família corrobora as
descontinuidades, as resistências, a instituição de verdades que tem por base lutas
de saber e poder em torno daquilo que pode ser denominado “família”. Lutas essas
que são contínuas e que vão provocando novas condições de possibilidade para a
emergência de novas conceituações sobre o termo e novas formas de existência.
Uma vez que as identidades se encontram estilhaçadas, e o sujeito, descentrado,
resta o problema da representação política (HALL, 2006).
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18
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Capítulo 1
19
CAPÍTULO 2
doi
INGRESSO DE JOVENS NO ENSINO MÉDIO
INTEGRADO: EXPERIÊNCIAS DE ACOLHIMENTO
Data de aceite: 06/01/2020
Data de submissão: 21/10/2019
Itagiane Jost
Mestranda do Programa de Mestrado Profissional
em Educação Profissional e Tecnológica PROFEPT
São Vicente do Sul– RS
http://lattes.cnpq.br/7751407219167290
Marcele Homrich Ravasio
Docente do Mestrado Profissional em Educação
Profissional e Tecnológica – PROFEPT
Santo Ângelo –RS
http://lattes.cnpq.br/8085073893881510
RESUMO: Este artigo apresenta uma análise
de uma pesquisa de mestrado no Programa de
Mestrado Profissional em Educação Profissional
e Tecnológica (PROFEPT) sobre práticas de
acolhimento nos cursos técnicos integrados
em um Instituto Federal de Educação, Ciência
e Tecnologia, localizado no estado do Rio
Grande do Sul. Embasado na metodologia da
pesquisa-ação este artigo visa compreender os
aspectos relacionados ao ingresso no ensino
médio integrado e a contribuição de práticas
de acolhimento. Os dados foram coletados
em 2019, através da produção textual de 262
estudantes matriculados no primeiro ano nos
Cursos Técnicos Integrados de Administração,
Agropecuária, Alimentos e Manutenção e
Suporte em Informática, que constituíram os
sujeitos da pesquisa. Os textos produzidos
foram submetidos à análise textual discursiva,
sendo possível identificar opiniões, ideias,
sentimentos e percepções sobre a transição
do ensino fundamental para o ensino médio
integrado e a contribuição das práticas de
acolhimento nessa passagem. A partir da
visão da totalidade de análise e ancorado nos
referencias teóricos da pesquisa emergiram
duas categorias: fatores facilitadores da
permanência nos cursos técnicos integrados,
sendo citados o período de acolhimento no
ingresso do ano letivo, o acolhimento no decorrer
do ano letivo. Constituindo-se como cuidados,
os serviços e atendimentos disponibilizados,
a alimentação gratuita e as perspectivas
futuras. Além disso, os fatores que dificultam
a permanência são a organização curricular, a
nova rotina, as responsabilidades e a distância
da família.
PALAVRAS-CHAVE: jovens; ensino médio
integrado; práticas de acolhimento.
HIGH SCHOOL STUDENTS’ ADMISSION:
HOSPITALITY EXPERIENCES
ABSTRACT: This article presents a Master
research fragment of the Professional Master’s
Degree in Technological and Professional
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 2
20
Education about hospitality practices in one of the integrated technician courses at the
Federal Farroupilha Institution in RS. Based on the action research methodology, this
article intends to understand the aspects related to the admission at high school and
the contribution to the admission practices. The data were collected in 2019 through
the textual production of 262 students enrolled in the first level of Business, Farming,
Computing and Food Technician Courses, which were the research individuals. The
texts produced were submitted to text and discourse analysis, being possible to identify
opinions, ideas, feelings and perceptions about the transition from elementary school
to high school and the contribution of hospitality practices in this educational move.
Observing the whole research theory and anchored by it emerged two categories:
permanence facilitator factors in the technician courses, referring to the hospitality period
in the beginning schoolyear, as well as the hospitality during the schoolyear. Consisting
of efficient services the attendance available, free food and future perspectives. In
addition, the factors that make difficult the permanence are the curriculum organization,
the new routine, the responsibilities and Family distance.
KEYWORDS: youth; high school, admission practices.
1 | INTRODUÇÃO
A experiência profissional enquanto pedagoga, servidora de um campus/
instituto federal proporcionou verificar que a entrada de estudantes nos cursos
técnicos integrados à educação profissional é marcado por aspectos que dificultam
a permanência na instituição escolar. As dificuldades apontadas por estudantes e
familiares relacionam-se a passagem do ensino fundamental para o ensino médio
integrado e de adaptação ao novo ambiente escolar.
O ensino médio integrado caracteriza-se como uma etapa que exige organização
e responsabilidade. No campus, locus da pesquisa as aulas estão organizadas de
segunda a sexta-feira, com nove períodos diurno, numa média de 14 disciplinas anuais
e 32 horas de aula semanal. Para essa organização os estudantes permanecem na
moradia da instituição, em pensões, são residentes da cidade ou viajam todos os
dias para estudar.
Percebendo a dificuldade de inserimento dos estudantes ao ambiente
institucional e a partir dos percentuais de 15.7% de transferências e de 28.46% de
repetência em 2014, a instituição foi percebendo que os dados sinalizavam para um
processo malsucedido em termos de inserção no ambiente escolar.
Entendendo a necessidade do estudante se inserir “ introduzir; incluir” e não
apenas adaptar “ajustar; acomodar; adequar” à instituição. (FERREIRA, 2004). E
compreendendo que:
O fracasso dos estudantes diante do que se exige deles e de como se exige equivale
à deterioração do sistema, isso sem se deter na análise do que essas exigências
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 2
21
significam para eles, que é quem realmente triunfa ou fracassa (SACRISTAN, 2005,
p. 15).
Constatou-se, que o acesso estava sendo garantido, entretanto, precisava
propiciar condições de permanência e êxito. Nesse sentido, constatou-se que os
primeiros momentos do jovem na escola têm fundamental importância para as
etapas seguintes. A partir dessa compreensão, a partir do ano letivo de 2015,
os ingressantes começaram a vivenciar a experiência de recepção diferenciada,
denominada “acolhimento” e, consiste em anteceder três dias o ingresso dos
estudantes de primeiros anos na instituição.
Assim, este trabalho tem como objetivo discutir o ingresso de jovens na
faixa etária de 14 anos de idade, a partir de uma perspectiva acolhedora, a fim
de possibilitar-lhes uma adequada ambientação escolar. Considerando tratar-se de
jovens que se encontram na fase da adolescência, primeira etapa da juventude,
fase marcada por muitas transformações biológicas, psíquicas e sociais (LEÃO e
CARMO, 2014).
2 | O ENSINO MÉDIO INTEGRADO
O ensino médio tem como objetivos consolidar e aprofundar os conhecimentos
do ensino fundamental, preparar para o trabalho, para a cidadania, aprimorar o
educando como pessoa humana através da formação ética, do desenvolvimento de
sua autonomia e do pensamento crítico. Além disso, possibilitar aos estudantes a
compreensão dos princípios científicos e tecnológicos de todas as disciplinas dessa
etapa. (BRASIL, 1996).
A possibilidade de integração entre a educação básica e a educação profissional
previstas no § 2º do art. 36 e os arts. 39 a 41 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro
de 1996 ocorreu a partir da regulamentação pelo decreto nº 5.154/2004. Através
de um currículo centrado na concepção de integração tendo como referência o
trabalho, a ciência, a tecnologia e a cultura (BRASIL, 2004). Esse decreto retoma
uma política de ensino na qual poder público e sociedade civil são chamados para
responsabilidade com vistas à construção de um ensino médio de qualidade e como
direito à cidadania a partir de um currículo que possibilite ao estudante perceber e
atuar diante das transformações do mundo do trabalho.
A Lei nº 11.892/201 que instituiu a Rede Federal e cria os institutos federais
apresenta como meta a garantia de no mínimo 50% de suas vagas para a educação
profissional técnica de nível médio, preferencialmente na forma de cursos técnicos
integrados aos jovens e adultos concluintes do ensino fundamental (BRASIL, 2014).
Nessa direção, Ramos (2008), contribui sugerindo que o Ensino Médio Integrado
seja compreendido através de três aspectos principais: num primeiro sentido, a
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 2
22
formação seria omnilateral, implicando a integração entre trabalho, ciência e cultura,
dimensões fundamentais da vida; num segundo sentido, a indissociabilidade entre
educação profissional e educação básica, ou seja, trata das formas de como integrar
o ensino médio com a educação profissional e num terceiro sentido: a integração
entre os conhecimentos gerais e específicos os quais não podem ser trabalhados
isoladamente.
2.1 Práticas de acolhimento como elemento mediador na transição do ensino
fundamental para o médio integrado
Os estudantes que ingressam no primeiro ano do ensino médio integrado à
educação profissional, na instituição local da pesquisa, têm em média 14 anos de
idade. Assim, é necessário entender esse processo para além de promover o acesso
e a permanência, também refletir sobre as dimensões dessa fase e a relação com a
escola.
A adolescência, é a primeira etapa da juventude, fase em que se encontra
grande parte dos estudantes do ensino médio integrado. Essa fase é marcada por
muitas transformações biológicas, psíquicas e sociais, o que levam a transformações
no corpo, alterações no humor, muitos desejos e também por erros e obstáculos que
levam o jovem a sofrimentos (LEÃO e CARMO, 2014).
Juntamente com a fase da adolescência os jovens vivenciam também a transição
do ensino fundamental para o ensino médio, aumentando os compromissos e as
responsabilidades escolares. Em tratando-se de curso integrado além da formação
básica o estudante realiza também as disciplinas técnicas profissionalizante através
de um currículo integrado.
Assim, as vivências de atuação enquanto servidora de um instituto federal
possibilitou observar que o ingresso no ensino médio integrado se apresenta como
uma ruptura considerando a escolarização anterior, exigindo do jovem organização e
responsabilidades. Trata-se de um momento distinto da escolarização, demandando
por mais tempo, dedicação e organização para os estudos.
No ensino fundamental, anos finais, que corresponde o 6º ao 9º Ano, e antecede
o ensino médio, os estudantes permanecem um turno na escola, frequentam na
mesma cidade em que reside a família o que facilita a aproximação com os colegas,
professores e da escola como um todo. Porém, no ensino médio integrado as
atividades letivas ocorrem em dois turnos diurno, o currículo prevê no primeiro ano
uma média de 32 horas de aula semanal e 14 disciplinas anuais.
Nesse contexto os estudos de Vygotsky são importantes por considerar o
sujeito em seus aspectos histórico-cultural e pelo desenvolvimento cognitivo e social
a partir da linguagem. Em suas teorias situa o homem como ser social a partir de um
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 2
23
contexto histórico-cultural em que o indivíduo constitui a sociedade e a sociedade
constitui o indivíduo. Vygotsky em sua teoria preocupa-se com o desenvolvimento
humano, o aprendizado e com as relações entre desenvolvimento e aprendizagem.
Procura compreender a origem e o desenvolvimento dos processos psicológicos ao
longo de toda a história humana e também da história individual (OLIVEIRA, 2010).
Para Vygotsky, desde o nascimento da criança o aprendizado está relacionado
ao desenvolvimento. Alguns aspectos do desenvolvimento são proporcionados pelo
processo de maturação individual do organismo, entretanto o aprendizado proporciona
o estímulo de processos internos de desenvolvimento (OLIVEIRA, 2010).
Essa relação entre desenvolvimento e aprendizagem tem bastante relevância
para as instituições de ensino, conforme destaca Sacristán (2005):
Vygotsky [...] estabelece que o desenvolvimento é o resultado de um processo
dialético entre os estímulos procedentes do meio cultural e social e o sujeito que vai
se construindo com esses materiais) é um exemplo da importância de adotar um
discurso ou outro sobre a forma como evoluímos, para conferir à educação o papel
de caminhar junto como processo de evolução, de propiciadora de um ambiente
no qual o sujeito se mostra, ou o papel de provocativa e beligerante construtora
deste. (p. 47)
Assim sendo, a aprendizagem não acontece de maneira isolada. Desde
o nascimento, o homem é considerado um ser social, pois, está em interação
com o outro e suas manifestações acontecem a partir de outra pessoa. Embora,
ainda não utiliza e ainda não tenha domínio da linguagem oral interage e procura
familiarizar com o ambiente em que vive. A partir da interação com um grupo social
vai construindo o seu conhecimento a partir de seu desenvolvimento psicológico e
biológico (VYGOTSKY, 2007).
Nesse sentido, pensar em estratégias que possibilitem a interação social
em direção a construção ao desenvolvimento de funções psicológicas superiores
é fundamental. Por isso, a importância dos espaços escolares no sentido da
socialização e para a formação de uma rede de contatos a fim de se construir novos
conceitos. A interação com o outro torna-se de grande significado aos estudantes em
processo de desenvolvimento cultural e social. Assim, é importante que o estudante
se sinta pertencente ao ambiente para que possa participar ativamente.
É nesse sentido que se propõe discutir as práticas de acolhimento, numa
perspectiva de mediação entre duas etapas de ensino que se apresentam
completamente distintas. Assim, os conceitos de instrumentos e de signos tornamse importante. De acordo com a teoria de Vygotsky, as funções mentais superiores a
partir de relações sociais ocorrem com a mediação dos instrumentos e de signos. Os
instrumentos seriam algo para se fazer alguma coisa e os signos aquilo que significa
alguma coisa (MOREIRA, 2014), conforme explicita o autor:
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 2
24
[...] instrumentos e signos são construções sócio-históricas e culturais; por meio
da apropriação (internalização) destas construções, via interação social, o sujeito
se desenvolve cognitivamente. Quanto mais o indivíduo vai utilizando signos, tanto
mais vão se modificando, fundamentalmente, as operações psicológicas das quais
ele é capaz. Da mesma forma, quanto mais instrumentos ele vai aprendendo a
usar, tanto mais se amplia, de modo quase ilimitado, a gama de atividades nas
quais pode aplicar suas novas funções psicológicas (p.109).
Para Vygotsky a relação do homem com o mundo é realizada através de uma
relação mediada, através de elementos mediadores, ou seja, os instrumentos e os
signos. Isso torna as relações mais complexas e ao longo do desenvolvimento do
indivíduo as relações mediadas passam a predominar em relação às relações diretas
(OLIVEIRA, 2010).
Fazendo um resgate dos usos e significações do termo acolhimento percebemos
que o Estatuto da Criança e do Adolescente – Lei Federal nº 8.069/90 (ECA) a partir
de considerar como direito à criança e ao adolescente o convívio com a família
e à comunidade e em caso de impedimento prevê o acolhimento institucional em
ambiente que garanta o seu desenvolvimento integral. Trata-se da efetividade de
um direito, exercida pelo Estado em situações de risco e vulnerabilidade, cujos pais
e familiares estejam impossibilitados de cumprir com suas funções (BRASIL, 1990).
Acolhimento é uma expressão frequentemente ouvida na área da saúde. Sua
origem ao que se tem de registro, leva a acreditar que foi por volta de 1990, na área
da saúde. Inicialmente o termo sugeria uma mudança do processo de trabalho a
partir do estabelecimento de vínculo entre profissional de saúde e usuário (FRANCO
et al., 1999).
Trazendo para o contexto da educação, a partir das produções da literatura
acadêmica observa-se que acolher remete ao cuidado e ao afeto, mas está limitada
à educação infantil, o que deve ser problematizado. Afinal, jovens são sujeitos que
precisam ser vistos a partir dos aspectos físicos, emocionais, ao contexto social,
étnico, de gênero entre outros.
Pensar em currículo integrado remete imediatamente a pressupor a
inseparabilidade entre cuidado e educação, pois, como refere Pacheco (2011) “a
referência fundamental para a educação profissional e tecnológica é o ser humano”
(p.29). Assim sendo, o que se propõe é uma ação educadora vinculada a um projeto
democrático de inclusão.
3 | METODOLOGIA
Este trabalho é um recorte de uma pesquisa de mestrado do Programa de
Mestrado em Educação Profissional e Tecnológica (PROFEPT), e segue os
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 2
25
fundamentos metodológicos da pesquisa qualitativa. Essa opção deve-se ao fato de
melhor retratar ao que essa pesquisa se propôs que é a compreensão das percepções
e dos significados que as ações de acolhimento provocam nos estudantes e como
isso reflete em termos de inserção, permanência e êxito na instituição.
Caracteriza-se como uma pesquisa-ação, através da qual é possível
desempenhar um papel ativo na realidade em que os fatos estão sendo observados,
possibilitando ao pesquisador aprimorar a prática a partir da intervenção dentro de
uma situação considerada problema. Desta forma, pode ser definida como um modo
de conceber e organizar uma pesquisa social (THIOLLENT, 1986).
Os sujeitos da pesquisa foram os estudantes que no ano letivo de 2019
ingressaram no primeiro ano do ensino médio, num total de 262 estudantes,
matriculados nos cursos técnicos integrados de administração, agropecuária,
alimentos e manutenção e suporte em informática.
O levantamento de dados ocorreu a partir de produção textual, desenvolvida
pelos estudantes, em que puderam expressar suas opiniões sobre como vivenciam
o ingresso no ensino médio integrado e como percebem o trabalho de acolhimento
realizado no ingresso do ano letivo. Para análise dos textos procedeu-se a análise
textual discursiva (ATD), que nas palavras de Moraes e Galiazzi (2011):
[...] propõe-se a descrever e interpretar alguns dos sentidos que a leitura de um
conjunto de textos pode suscitar. Sempre parte do pressuposto de que toda leitura
já é uma interpretação e que não existe uma leitura única e objetiva. Ainda que,
seguidamente, dentro de determinados grupos, possam ocorrer interpretações
semelhantes, um texto sempre possibilita construir múltiplos significados (p. 14).
Trata-se
de um exercício de produção e expressão de sentidos. A partir de um
conjunto de textos são produzidas compreensões e análises dos mesmos e a partir
disso a elaboração de sentidos e significados, o que depende tanto do autor do texto
quanto do pesquisador. Trata-se de um exercício de leitura a partir da perspectiva de
quem escreve o texto, desta forma, valorizando os sujeitos da pesquisa (MORAES
e GALIAZZI, 2011).
Compreende-se, desta forma, que a análise textual discursiva converge com
o caminho metodológico da pesquisa-ação por abranger o processo de construção
da pesquisa, possibilitando a análise de significados e sentidos sobre a temática em
questão.
4 | RESULTADOS E DISCUSSÃO
No sentido de procurar entender como se caracteriza o processo de transição
para o ensino médio integrado e como os estudantes vivenciam essa experiência
e ancorado no referencial teórico selecionado para essa pesquisa, procedeu-se
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 2
26
ao processo de leitura, seleção e análise das escritas dos estudantes. Nos textos
produzidos foi possível identificar as opiniões, ideias, sentimentos e percepções
referentes à questão central dessa pesquisa, ou seja, as práticas de acolhimento no
ingresso dos cursos técnicos integrados.
Com isso, a partir da leitura minuciosa de cada texto, elementos foram surgindo
a partir dos quais foram construídas categorias emergentes, a fim de subsidiar a
discussão. São dimensões em torno das quais foram organizadas as percepções
dos estudantes, sobre suas experiências quanto as práticas de acolhimento na
instituição e sobre a experiência em ingressar num curso técnico integrado.
Desse modo, as categorias forma assim definidas: Categoria 1: Fatores
facilitadores da permanência nos cursos técnicos integrados e Categoria 2: Fatores
que dificultam a permanência nos cursos técnicos integrados e serão discutidos,
conforme a ordem apresentada.
Quanto aos fatores que favorecem a permanência estão relacionados os
aspectos que exercem influência positiva no processo de inserção dos estudantes.
Nessa categoria foram citados: o acolhimento no período de ingresso, o cuidado
recebido pelos profissionais, constituindo-se como acolhimento no decorrer do
ano letivo e os serviços/atendimentos disponibilizados, a alimentação gratuita e as
perspectivas futuras, conforme se evidencia em alguns trechos das escritas:
“As atividades para conhecer o campus foram muito boas e importantes como
para mim que não tem ninguém dos primeiros anos da mesma cidade que eu, com
essas atividades tive oportunidade de fazer amigos e conhecer o campus”
“Eu gostei muito dos três dias de atividades isso é ótimo para nós que chegamos
“meio perdidos” e minha opinião é que continue assim, isso é ótimo e pelo menos
pra mim deixou mais certeza que eu queria estudar aqui”
Em relação às práticas de acolhimento, temática da pesquisa, observa-se a
percepção dos ingressantes sobre os três dias de acolhimento vai ao encontro daquilo
que a instituição se propõe, ou seja, proporcionar o conhecimento dos espaços da
instituição, seu funcionamento, da estrutura, dos serviços, dos servidores e dos
colegas. Chegar num ambiente novo causa estranheza a qualquer sujeito e com os
jovens não é diferente, por isso, os primeiros momentos exige atenção.
As escritas também revelaram a importância atribuída pelos jovens quanto ao
afeto e o cuidado. Pois, embora não necessite mais os cuidados básicos de quando
frequentava a educação infantil ou os anos iniciais também quer ser olhado e de
certo modo receber um cuidado. Isso fica evidente nos trechos abaixo:
“ O acolhimento que os alunos recebem aqui dentro é o que eu acho positivo,
receber esse carinho é importante especialmente para quem tem que ficar longe
de casa”.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 2
27
“Me sinto acolhida, pois, os professores nos tratam como filhos com muito carinho
e afeto, os servidores são queridos e simpáticos”.
Sobre cuidado Boff (2012) refere:
O que se opõe ao descuido e ao descaso é o cuidado. Cuidar é mais que um ato;
é uma atitude. Portanto, abrange mais que um momento de atenção, de zelo e de
desvelo. Representa uma atitude de ocupação, preocupação, de responsabilização
e de envolvimento afetivo com o outro. (p.37)
O autor destaca o fato da sociedade contemporânea e também chamada de
sociedade do conhecimento e da comunicação, ao contrário do que pudesse supor
está favorecendo a diminuição da comunicação e na solidão entre as pessoas. Cada
vez mais o mundo virtual tem facilitado em termos de tempo, a vida das pessoas,
mas por outro lado diminuído o contato humano (BOFF, 2012).
Vygotsky (2001) ao tratar da afetividade afirma que os estímulos mediados
a partir do meio sociocultural são demonstrados através das emoções, ou seja,
quando as palavras ouvidas tem a presença de sentimentos age sobre o sujeito de
forma positiva, diferente de quando não há sentimentos. E as emoções são divididas
em dois grupos: uma relacionada a sentimento positivos e outra aos sentimentos
negativos, conforme aponta Vygotsky (2001):
Se fazemos alguma coisa com alegria as reações emocionais de alegria não
significam nada senão que vamos continuar tentando fazer a mesma coisa. Se
fazemos algo com repulsa isso significa que no futuro procuraremos por todos os
meios interromper essas ocupações. Por outras palavras, o novo momento que
as emoções inserem no comportamento consiste inteiramente na regulagem das
reações pelo organismo. (p. 139).
Ter essa compreensão enquanto educadores se faz necessária para entender
como é possível contribuir com os sentimentos de prazer, alegria e de satisfação
ou quanto aos sentimentos de sofrimento ou depressão dos jovens. Para Vygotsky
(2001) as emoções vivenciadas têm caráter ativo e age como organizador interno
de reações, podendo estimulá-las ou inibi-las. Assim, para um processo de ensino
e aprendizagem ser significativo necessita de práticas pedagógicas mediadas por
relações afetivas.
Em relação a categoria 2, os fatores que dificultam a permanência foram
apontados a organização curricular, a necessidade de organizar-se com nova rotina
a partir de novas responsabilidades e a distância da família.
“Com certeza a dificuldade aqui é grande, porque além do estudo ser mais puxado,
o fato de estar morando longe de casa e longe dos pais dificulta muito, mas estou
me mantendo forte pois sei que isso é muito bom para mim”.
“Obviamente, senti um grande impacto ao se transferir para o IFF, pois além de ter
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 2
28
um ensino avançado em relação a minha antiga escola, a mudança de rotina e a
distância da família dificultaram um pouco em minha adaptação, mas hoje estou
feliz em fazer parte do IFF SVS”.
O ensino médio caracteriza-se pelas suas diferenças se comparado às etapas
anteriores, configurando para os jovens ingressantes uma transição com grande
impacto. No ensino fundamental, organizado com um currículo por competências
para cada área do conhecimento a presença na escola estava organizada para
um turno e as disciplinas organizadas para o ensino disciplinar. No ensino médio
integrado as aulas ocorrem nos dois turnos diurnos com uma média de 32 horas de
aulas semanais e 14 disciplinas anuais.
Desta forma, exige do estudante maior dedicação e maior envolvimento com as
tarefas escolares para além dos horários previstos em aula. Num primeiro momento
a dificuldade de organização para os estudos gera uma desmotivação necessitando
de auxílio dos profissionais da instituição para a organização tanto dos horários de
estudos quanto dos momentos de lazer.
Considerando, ainda que conforme levantamento realizado com os sujeitos
participantes apontou que 26.15% residem na moradia, 30.04% em pensões e apenas
43.82% reside com familiar. Destes que residem com a família 11.31% residem na
cidade em que se localiza o campus e os demais viajam todos os dias entre idas ao
campus e retorno para casa. Assim, a presença da família com menor frequência
causa desconforto aos jovens, considerando que a família é um fator essencial no
processo de aprendizagem do estudante.
Além disso, para muitos estudantes é a primeira experiência de sair de casa
para morar longe dos pais, nessa situação, Segundo Lima (2016):
Inicialmente, o adolescente acaba focando muito seus pensamentos na casa
dos pais e não consegue se concentrar e manter-se focado em outras coisas.
A possibilidade de voltar para casa dos pais aos finais de semana é encarada
de forma positiva, pois voltar a casa dos pais é percebido com um retorno a um
refúgio, no qual se busca um apoio e acolhimento neste momento marcado por
tantas mudanças (p. 42).
Por outro lado, sendo a autora “permite que os adolescentes adquirem maior
liberdade e conquistem autonomia pois, na maioria das vezes essa é a primeira vez
que eles passarão a gerir seu tempo e seus recursos econômicos, necessitando
desenvolver maturidade para isso (p. 44) ”.
5 | CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diante das informações trazidas especialmente das narrativas dos estudantes
pode-se afirmar que o ingresso no ensino médio integrado é marcado por várias
mudanças em nível pessoal, cognitivo, afetivo e também social. Nesse aspecto,
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 2
29
proporcionar práticas de acolhimento que visam contribuir com a ambientação no
espaço escolar, com o estabelecimento de laços de estudantes com colegas, amigos
e servidores são aspectos importantes no processo de inserimento ao curso e na
escola.
Desta forma, práticas de acolhimento podem contribuir para amenizar as
dificuldades enfrentadas no período de ingresso e proporcionar condições de
permanência e êxito. Por isso, se torna importante investigar, estudar e conhecer
os aspectos que estão envolvidos nesse processo. Pode-se afirmar, a partir das
narrativas que a maneira como o estudante se integra ao contexto e se relaciona
com a comunidade acadêmica torna-se mais confiante e motivado para desenvolver
o seu potencial e também aproveitar as oportunidades oferecidas.
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Capítulo 2
30
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A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 2
31
CAPÍTULO 3
doi
ISOMERIA CIS-TRANS: EMPREGO DE PALAVRAS
CRUZADAS COMO RECURSO DIDÁTICO
Data de aceite: 06/01/2020
Antônio Marcelo Silva Lopes
Universidade Federal do Rio Grande do Norte,
Instituto de Química,
Natal – Rio Grande do Norte
Meyriânne Silva Lopes
Instituto Federal de Educação, Ciência
e Tecnologia do Piauí, Campus Picos,
Departamento de Química
Picos – Piauí
Sérgio Bitencourt Araújo Barros
Universidade Federal do Piauí, Campus Senador
Helvídio Nunes de Barros, Departamento de
Biologia
Picos – Piauí
Francisco de Assis Araújo Barros
Instituto Federal de Educação, Ciência
e Tecnologia do Piauí, Campus Picos,
Departamento de Química
Picos – Piauí
RESUMO: O maior desafio do professor é
fazer com que seus alunos obtenham uma
aprendizagem significativa, para isso deve
lançar mão de metodologias que motivem e
desenvolvam neles as habilidades necessárias
para a compreensão do conteúdo químico.
Nessa perspectiva, esse trabalho teve como
objetivo a utilização de palavras cruzadas
como recurso didático, para o ensino de
Isomeria Geométrica por alunos do 3º ano
do Ensino Médio de uma escola pública do
município de Picos-PI. As palavras cruzadas
foram elaboradas de forma autoral aplicadas
em três turmas, totalizando 73 alunos,
seguido de aplicação de um questionário para
avaliação do recurso. A utilização do recurso
mostrou-se facilitador do processo de ensinoaprendizagem, de forma fomentar os alunos a
buscarem e criarem seus próprios conceitos,
desenvolvendo as habilidades necessárias
para uma aprendizagem significativa.
PALAVRAS-CHAVE:
Aprendizagem
significativa, Recurso didático, Isomeria
geométrica, palavras cruzadas.
CIS-TRANS ISOMERISM: USE OF
CROSSWORDS AS DIDACTIC RESOURCE
ABSTRACT: The greatest challenge of the
teacher is to make his students achieve
meaningful learning, for this he must use
methodologies that motivate and develop
in them the skills needed to understand the
chemical content. In this perspective, this work
had as objective the use of crossed words as
didactic resource, for the teaching of Geometric
Isomeria by students of the 3rd year of High
School in a public school in the municipality of
Picos-PI. The crossed words were written in an
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 3
32
authorial form applied in three classes, totaling 73 students, followed by the application
of a questionnaire to evaluate the resource. The use of the resource has proved to be
a facilitator of the teaching-learning process, in order to encourage students to seek
and create their own concepts, developing the skills necessary for meaningful learning.
KEYWORDS: Meaningful learning, educational Resource, geometric Isomer,
crosswords.
1 | INTRODUÇÃO
Em dias de mudanças sociais constantes, causadas principalmente pela
crescente expansão científico-tecnológica, o grande desafio do profissional da
educação é fazer com que o seu aluno relacione conhecimentos teóricos e críticos
sobre a realidade baseado em uma prática pedagógica eficiente, para que haja uma
aprendizagem satisfatória e significativa. Assim, o professor deve ser consciente de
que sua missão não se limita à mera transmissão de informações.
No Ensino de Química, não é diferente, uma vez que a aprendizagem de Química
deve propiciar aos educandos a compreensão integral e abrangente dos fenômenos
químicos ocorrentes no mundo físico, para que a partir desta, eles possam julgálos, podendo assim interagir com o mundo enquanto pessoas e enquanto cidadãos
(SILVA, 2013).
A Química é considerada pelos alunos a mais difícil das disciplinas de ciências
exatas e um dos principais fatores que contribuem para tal, é a carência de novas
metodologias para o Ensino da Química (JÚNIOR; COSTA; RODRIGUES, 2016).
Como resultado disso, a realidade tem mostrado alunos cada vez mais desmotivados
e desinteressados, principalmente quando os professores não trabalham o
conhecimento químico de forma contextualizada e interdisciplinar (JÚNIOR;
BIZERRA, 2015).
Isso se acentua em conteúdos que exigem do aluno, habilidades como a
interpretação, representação e visualização de moléculas como a Isomeria. A
Isomeria pode ser definida como a existência de dois ou mais compostos diferentes,
que possuam a mesma fórmula molecular, mas formas de conexões diferentes entre
seus átomos.
A International Union of Pure and Applied Chemistry (IUPAC), classifica os
grupos isômeros em dois tipos: Isomeria Constitucional e Estereoisomeria. A primeira,
diz respeito a compostos que podem ser diferenciados apenas observando sua
fórmula molecular. Já a segunda, abrange compostos na qual suas propriedades são
caracterizadas de acordo com o arranjo espacial dos átomos (isomeria geométrica)
e que tem relação direta com o desvio óptico da luz polarizada (isomeria óptica)
(NETO; CAMPOS; JÚNIOR, 2010). Para fins desse trabalho será tratada apenas a
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Capítulo 3
33
Isomeria geométrica cis-trans ou Z/E.
Para que se identifique a Isomeria geométrica, é traçado um plano de simetria
imaginário no composto, quando se têm dois substituintes iguais do mesmo lado do
plano trata-se do isômero cis, Figura 1 (a), por outro lado, quando estão em lados
opostos, trata-se do isômero trans, Figura 1 (b). Para compostos com todos os ligantes
diferentes, usa-se a denominação Z/E (sistema concebido por Chistopher Kelk
Ingold (1893-1970), Vladimir Prelog (1906-1998) e colaboradores). É determinada
aplicando-se uma ordem de precedência de número atômico aos ligantes. Caso
os ligantes com maior precedência estejam do mesmo lado do plano imaginário a
isomeria é do tipo Z, Figura 1 (c), caso estejam em lados opostos é do tipo E, Figura
1 (d) (CONSTANTINO, 2012).
Apesar das denominações diferentes, a IUPAC recomenda a utilização
simultânea dos dois sistemas, e isso pode às vezes acabar gerando ambiguidades
(CONSTANTINO, 2012). A Isomeria geométrica também pode ocorrer em compostos
inorgânicos, mas não é o foco deste trabalho.
Figura 1: Isomeria geométrica cis-trans e Z/E. Fonte: Adaptado de Constantino, 2012.
Pode-se atribuir as dificuldades apresentadas pelos alunos acerca do
isomerismo geométrico a problemas essencialmente básicos como a representação
de fórmulas estruturais e ligações químicas. Ao passo que, para isômeros planos a
diferenciação das moléculas ocorre naturalmente, em contrapartida, a diferenciação
de isômeros geométricos só é possível com a comparação entre representações
tridimensionais (CORREIA et al., 2010).
Contudo, existe um fator ainda mais preocupante: a dificuldade nos conceitos
isoméricos. Se um aluno não consegue estabelecer a relação entre conceito químico
e mundo físico, logicamente o mesmo não conseguirá compreender os fenômenos
químicos e muito menos suas representações.
Nesse contexto, surgem as atividades e os recursos lúdicos para o ensino
de conceitos. Estes estão cada vez mais presentes nas aulas de química, pois os
entendem que tais atividades motivam e despertam o interesse dos educandos pelo
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 3
34
conteúdo químico e tornam a aula mais dinâmica e interessante (NETO; MORADILLO,
2016).
Nossa proposta tem como recurso lúdico o uso de palavras cruzadas. O uso de
recursos lúdicos por meio do cruzamento de signos tem origem nos séculos XIII a.C e
XII a.C. As palavras cruzadas podem ser consideradas como o segundo jogo inventado
pelo ser humano, perdendo apenas para as frases de adivinhações e evoluíram até
a configuração que se conhece hoje (FILHO et al., 2009). Elas possuem estrutura
característica e se baseiam num sistema de regras que impõem determinada ordem,
incentivando a descoberta, a busca e o raciocínio (NASCIMENTO et al., 2008).
As palavras cruzadas são uma estratégia que além de fugir do modelo
tradicional de ensino, força o aluno desenvolver habilidades como pesquisa em
cadernos, livros, trabalho em grupo e fazer uso de conceitos já vistos e para isto,
fazer uso da memória, recordando assim os conceitos já estudados. Desta forma,
este trabalho buscou, através de palavras cruzadas elaboradas a partir de conceitos
pré-discutidos em sala de aula, a assimilação e melhor compreensão do conteúdo
químico por alunos do 3º ano do Ensino Médio.
2 | MÉTODOS
2.1 A natureza e campo da pesquisa
A pesquisa é de natureza quali-quantitativa, tratando-se de um estudo de caso.
O estudo de caso é uma modalidade de pesquisa amplamente utilizada e consiste
no estudo profundo de objetos visando obter seu detalhado conhecimento.
Assim, o estudo de caso é baseado em explorar situações cujos limites não estão
bem definidos, descrever a situação do contexto onde está sendo realizado o estudo
e explicar as variáveis que causam determinados fenômenos que não possibilitam
a utilização de experimentos (GIL, 2002). Foi realizada na Escola Normal Oficial de
Picos (ENOP), localizada na cidade e Picos – PI.
2.2 O foco e desenvolvimento da pesquisa
Esta pesquisa é parte integrante do Programa Institucional de Bolsas de
Iniciação à Docência (PIBID). O PIBID é um programa que se propõe a contribuir a
formação de professores, oferecendo bolsas aos alunos de graduação dos cursos
de Licenciatura e inserindo-os nas escolas de educação básica, proporcionando um
papel mais ativo no processo de ensino-aprendizagem revelando-se como importante
ferramenta para a formação de professores (AMBROSETTI, 2013).
Na escola em questão, os bolsistas desenvolvem algumas de suas atividades
dentro da sala de aula juntamente com o professor, nesse caso em específico nas
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 3
35
turmas de terceiro ano. Durante o acompanhamento das aulas em que a professora
ministrava o conteúdo isomeria, notou-se dificuldade pela maioria dos alunos em
compreender os conceitos ali apresentados.
Haja vista a importância da aprendizagem dos conceitos isoméricos, pois
além de mostrar aos estudantes a função de proteínas, aromatizantes, hormônios,
entre outros, facilita o aprendizado necessário para o estudo do conteúdo seguinte:
as reações orgânicas (CORREIA et al., 2010). Assim, o trabalho teve como foco
o desenvolvimento e aplicação de metodologia(s) que pudesse(m) facilitar esse
aprendizado, nesse caso foram escolhidas as palavras cruzadas, pois alternativas
devem ser buscadas para motivar os estudantes e para isso os docentes precisam
procurar metodologias que tenha a interação e a participação do aluno como ideia
principal (COSTA; FILHO; MOITA, 2017).
A pesquisa foi desenvolvida com alunos dos 3º anos A, B e C do Ensino Médio,
totalizando 73 alunos. O recurso foi elaborado com base no conteúdo que o professor
titular estava ministrando de acordo com o programa da escola: Isomeria geométrica.
As palavras cruzadas foram elaboradas usando o software Corel Draw x7 e de
forma autoral. Para a obtenção dos resultados, foi proposta a aplicação individual
em sala de aula durante 40 minutos, que corresponde ao tempo de duração médio
de uma aula na escola, seguido da aplicação de um questionário avaliativo.
O questionário era composto de quatro perguntas objetivas: 1- Algum outro
professor já havia utilizado este tipo de metodologia com vocês? 2 - Você acredita que
as palavras cruzadas facilitaram a fixação do conteúdo? 3 - Como você classificaria
as palavras cruzadas em nível de dificuldade? 4 - Você acha que o professor deveria
utilizar mais recursos como este em sala de aula? Após aplicação das palavras
cruzadas os dados foram recolhidos e tratados a fim da produção deste trabalho.
3 | RESULTADOS E DISCUSSÃO
Inicialmente à aplicação das palavras cruzadas, os alunos foram avisados que
estavam livres para consultar o caderno e/ou livro didático, por acreditarmos que
estando livre para pesquisar e encontrar as respostas, partindo da relação com seu
professor e com as situações provocadas na sala de aula, tais como experimentos,
debates, textos, seminários, fatos do quotidiano e até mesmo palavras cruzadas,
ele constrói seus próprios significados, direcionando-os assim aos conceitos que
queremos que eles aprendam (MALDANER, 1999).
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 3
36
Figura 2: Palavras cruzadas aplicadas na pesquisa.
Fonte: Própria, 2017.
A Figura 2 mostra as palavras cruzadas desenvolvidas e aplicadas, apresentase preenchida, porém, durante a aplicação apenas algumas letras ficaram preenchidas
para direcionamento dos alunos. O Quadro 1 apresenta as afirmações propostas
aos alunos, de acordo com o conteúdo estudado, para que lessem e preenchessem
nas lacunas que estavam em branco.
Horizontal
3. A isomeria cis/trans não pode ser aplicada à compostos cujos todos os ligantes são:
6. É o tipo de isomeria que acontece somente em alcenos.
8. É chamada assim por conta da ligação dupla rígida entre carbonos.
9. Neste tipo de compostos, para que haja a isomeria cis/trans é necessário que pelo menos
dois carbonos do ciclo tenham ligantes diferentes entre si e iguais aos de um outro átomo
de carbono.
Vertical
1. Indica que os átomos estão em posições transversais ou opostas em relação aos carbonos
da dupla.
2. Se os ligantes de maior prioridade estiverem no mesmo lado tem-se:
4. Se os ligantes de maior prioridade estiverem de lados opostos tem-se:
5. O que define a prioridade dos ligantes é o número de:
7. Neste tipo de isomeria são levados em consideração os ligantes que tem maior.
9. Indica átomos iguais de um mesmo lado em relação aos carbonos da dupla.
Quadro 1: Afirmações propostas aos alunos. Fonte: Própria, 2017.
As palavras cruzadas devem servir como motivação à pesquisa e ao estudo
em grupo, sendo desta forma, uma atividade diferenciada, por não ser tradicional ou
obrigatória, além do incentivo à leitura (SILVA et al., 2012).
% (no de alunos)
Número de acertos
78,1% (57)
06 ou mais acertos
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 3
37
13,7% (10)
Entre 03 e 06 acertos
8,2% (6)
Menos de 03 acertos
Tabela 1: Análise das respostas das palavras cruzadas. Fonte: Própria, 2017.
A evidência de que é possível desenvolver atividades sem pressionar os alunos
é evidenciada pelo número de acertos obtidos pelos discentes. Foram escolhidas as
quantidades de acertos que mais se repetiram (06, 03 e menos de 03) e calculado o
percentual de acordo com número de alunos, conforme a Tabela 1.
A análise do número de acertos sugere em um primeiro momento que a
discrepância dos acertos pode estar relacionada ao “nível conceitual” dos alunos.
Porém essa divergência pode ter relação direta com dificuldades em interpretar
textos, raciocínio lógico e na interligação do conhecimento para resolver as situações
problemas apresentadas (FILHO et al., 2013).
Alguns alunos não colaboraram com a atividade como deveriam, contudo, foi
informado pelo professor que os mesmos apresentam esse tipo de comportamento
comumente em grande parte das atividades propostas. Estes alunos correspondem
justamente ao número baixo de acertos, uma vez que a atividade foi com consulta
apenas quem não se propôs a fazê-la obteve resultados pouco expressivos.
Os resultados do questionário aplicado aos alunos estão apresentados e
discutidos a seguir. A análise do Gráfico 1, demonstra que a utilização desse tipo
de metodologia não é frequente no Ensino de química. Isso ocorre porque os
métodos adotados no ensino de Química priorizam a memorização de fórmulas e
conceitos, desconsiderando a necessidade de mostrar aos alunos a importância e
representatividade da disciplina para suas vidas (COSTA; SOUZA, 2013).
1 - A lgum outro professor já hav ia utiliz ado esse
tipo de metodologia com v oçês?
80,80%
59 alunos
N ão
15,10%
4,10%
11 alunos
3 alunos
N ão souberam
responder
D eixaram em
branco
Gráfico 1: Uso do recurso metodológico “palavra cruzada” em sala de aula.
Fonte: Própria, 2017.
Analisando os resultados do Gráfico 2, observa-se a efetivação do conhecimento
químico acerca dos conceitos. As palavras cruzadas além de ajudar a desenvolver
as habilidades necessárias para o progresso do aluno podem trazer essa relação de
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 3
38
proximidade entre o educando e o conteúdo químico, uma vez que não é encarada
pelo mesmo como algo não prazeroso e obrigatório (FILHO et al., 2009).
2 - V oçê acredita que as palavras cruzadas
facilitam a fixação do conteúdo?
91,80%
67 alunos
Sim
6,90%
1,30%
5 alunos
1 aluno
N ão
D eixaram em
branco
Gráfico 2: Respostas segunda pergunta do questionário.
Fonte: Própria, 2017.
Como se observa, no Gráfico 3, para 60,2 % dos alunos classificaram o nível
de dificuldade das palavras cruzadas foi considerado ótimo, isto se deu porque
quando o professor utiliza esse tipo de recurso como subsidio, ao ter que pesquisar
para preencher as palavras, os alunos preenchem as lacunas deixadas durante o
processo de ensino-aprendizagem (LIMA; BARBOSA, 2015), construindo assim seu
próprio conhecimento.
O nível de dificuldade das palavras cruzadas está relacionado apenas com os
conceitos trabalhados pela professora em sala de aula.
3- C omo v oçê classificaria as palav ras cruz adas em nív el de
dificuldade?
60,30%
44 alunos
Ó timo
17,80%
19,20%
13 alunos
14 alunos
2 alunos
Bom
R egular
R uim
2,70%
Gráfico 3: Respostas terceira pergunta do questionário.
Fonte: Própria, 2017.
Desta forma, a dificuldade enfrentada pelos alunos que classificaram o recurso
como médio, regular ou ruim, deve-se ao fato de o próprio conteúdo químico exigir
muitas habilidades, tais como a interpretação de texto e representação de fórmulas
e ligações, e essa dificuldade se dá mais acentuadamente para aqueles que ainda
não as desenvolveram, uma vez que cada aluno aprende de forma individual e no
seu próprio tempo.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 3
39
4 - V oçê acha que o professor deveria utilizar
mais recursos como este em sala de aula?
94,50%
69 alunos
5,50%
4 alunos
Sim deveria
N ão deveria
Gráfico 4: Respostas quarta pergunta do questionário.
Fonte: Própria, 2017.
Os discentes pesquisados demonstraram aprovação (94,5 %) no uso do lúdico
como recurso alternativo à aula tradicional, conforme Gráfico 4. Durante a aplicação
das palavras cruzadas, demonstraram desde o início interesse e entusiasmo em
respondê-la, a maioria dos alunos discutiam os acertos e erros, demonstrando
ansiedade para saber o resultado, consoante o Gráfico 4. Demonstrando que as
palavras cruzadas são uma ferramenta de grande potencial de atuação no processo
de ensino-aprendizagem de Química (ARAUJO; SILVA; SILVA, 2016).
4 | CONCLUSÕES
A utilização das palavras cruzadas relacionadas ao conteúdo Isomeria
geométrica configurou-se como facilitador do processo de ensino e aprendizagem,
mostrando potencial para esse fim. Porém, este necessita de alguns ajustes para
atrair os alunos que não participaram como se esperava da atividade.
Os resultados levam a crer que a atividade atingiu seus objetivos, uma vez que
fugindo do modelo tradicional de ensino, instigou os alunos a buscarem e criarem
seus próprios conceitos e significados e desenvolverem habilidades as quais são
características da aprendizagem significativa. Habilidades tais como “a resolução
de questões” baseadas em conceitos previamente estudados em sala, o que fica
evidente no número considerável de acertos, e na boa recepção da atividade por
eles.
Vale lembrar que o professor pode alterar este recurso de acordo com suas
necessidades e talvez aplicá-lo referente a outros conteúdos químicos, podendo
alterar os níveis de dificuldade.
5 | AGRADECIMENTOS
Agradecemos o suporte financeiro da agência CAPES, ao subprojeto IFPI/
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 3
40
PIBID/Química Campus Picos; somos também gratos à Escola Normal Oficial de
Picos e à professora da disciplina de Química.
REFERÊNCIAS
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do Ensino Médio. In: Congresso de Iniciação Científica do IFRN, 9, 2013. Anais… Currais Novos,
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viewFile/1037/76>. Acesso em: 16 abr. 2017.
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em quimica de alunos do Ensino Médio na escola Cônego Aderson Guimarães
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prévias dosestudantes do ensino médio e evolução conceitual. Revista Ensaio, v.12, n. 2, 2010,
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A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 3
41
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Nacional de Pesquisa e Ensino de Ciências, 1, 2016. Anais…Campina Grande, 2016. Disponível
em: < https://editorarealize.com.br/revistas/conapesc/trabalhos/TRABALHO_EV058_MD1_SA8b7_
ID427_17052016233131.pdf>. Acesso em: 05 fev. 2018.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 3
42
CAPÍTULO 4
doi
LEI DOS GRANDES NÚMEROS: DEMONSTRAÇÃO
APLICADA AO ENSINO
LAW OF LARGE NUMBERS:
Data de aceite: 06/01/2020
DEMONSTRATION APPLIED TO EDUCATION
Julia Pereira Manenti
Instituto Federal de Santa Catarina
Criciúma – Santa Catarina
Ana Cristina de Castro
Instituto Federal de Santa Catarina
Criciúma – Santa Catarina
Zedequias Machado Alves
Instituto Federal de Santa Catarina
Criciúma – Santa Catarina
RESUMO: A Lei dos Grandes Números
afirma que a média de uma quantidade ‘n’ de
amostras ‘x’ tendendo ao infinito se aproxima
de um valor real esperado, podendo ser
usada para tomadas de decisões, análise de
situações e previsões futuras. Para demonstrar
empiricamente a veracidade desta lei, montouse um recipiente contendo uma determinada
quantidade de amendoins achocolatados e
obteve-se as amostras em forma de pesquisa
em instituições de ensino. Com gráficos e
tabelas visualiza-se a convergência para este
valor, além de possibilitar uma análise de erros
da dispersão ocorrida.
PALAVRAS-CHAVE: Lei dos grandes números;
probabilidade, aplicação.
ABSTRACT: The Law of Large Numbers
states that the average of a quantity
‘n’ of samples ‘x’ tending to infinity approaches
an expected real value and can it be used for
decision making, situation analysis and future
predictions. In order to demonstrate empirically
the veracity of this law, a container containing
a certain amount of chocolate peanuts was
assembled so the samples could be obtained
in research form in educational institutions. With
graphs and tables, the convergence to this value
can be visualized, besides allowing an analysis
of errors of the dispersion that occurred.
KEYWORDS: Law of large numbers, probability,
application.
1 | INTRODUÇÃO
O
estudo
de
teorias
probabilísticas
presentes na área da estatística mostra-se
relevante para a tomada de decisões a partir
da análise dos dados disponíveis; dentro
desse âmbito a Lei dos Grandes Números
(LGN) torna-se uma peça fundamental para
relacionar os dados obtidos a partir de uma
pesquisa com o resultado real desta.
Esta lei foi desenvolvida pelo matemático
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 4
43
suíço Jacob (Jacques) Bernoulli (1654 – 1705) e publicada por seu sobrinho Nicolaus
(I) Bernoulli (1687 – 1759) após seu falecimento no livro “A Arte da Conjectura”
(“Ars Conjectandi”). Segundo Gadelha (2004) “Essa Lei é o primeiro teorema limite
da probabilidade, um resultado que estabelece uma relação entre os conceitos de
probabilidade e frequência relativa e que é fundamental para a teoria moderna de
amostragem.”.
De acordo com Duque (2014) à medida que o número de repetições de um
experimento aumenta, a frequência de um evento ‘A’ converge para a probabilidade
teórica P(A), dessa forma é possível estimar o valor real da probabilidade de um
evento A, baseando-se na frequência relativa de A em um número alto de repetições.
Basicamente a Lei dos Grandes números afirma que com uma quantidade ‘n’
de amostras ‘x’ tendendo ao infinito, tem-se que a média simples dessas amostras
se aproxima do valor real (E(x)) e, quanto maior o número de amostras, mais perto
a média estará do valor real.
Buscando demonstrar e comprovar empiricamente a validade desta lei, foi
realizado um experimento que através de um recipiente com doces, cada participante
dizia o valor de doces que achava conter. Através disso, iniciou-se o processo para
analisar a veracidade da lei.
2 | PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
Em um recipiente de formato não padrão e translúcido colocou-se, utilizando
luvas e em um local higienizado, uma quantidade de 684 amendoins achocolatados,
lacrando-o com fita transparente no final e pondo o valor numérico em um local não
visível abaixo do pote, a fim de se obter um experimento confiável.
De modo a incentivar as pessoas a colaborarem com a realização do experimento,
foi utilizado o próprio recipiente contendo os amendoins como premiação para aquele
que acertasse a quantidade real contida.
Com uma lista contendo espaço para preenchimento de nome, idade, palpite e
o número de telefone (para entrar em contato com o ganhador), deu-se início a coleta
de dados individualmente, de tal forma em que era possível visualizar os palpites já
realizados. O público-alvo foi servidores e alunos de instituições de ensino na cidade
de Criciúma, fazendo com que houvesse uma alta amplitude em variação da idade.
3 | RESULTADOS E DISCUSSÕES
Totalizando nove horas de experimento ao longo de uma semana, coletou-se
202 palpites. Com o objetivo de melhor visualizar a convergência das médias simples
para o valor real, montou-se o gráfico abaixo:
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 4
44
Gráfico 01: Média simples de grupos de 20 em 20 tentativas; média geral e valor real (de 684
amendoins).
Fonte: Autoria própria.
4 | CONSIDERAÇÕES FINAIS
No gráfico 01 visualiza-se a proximidade da média geral das tentativas (em
laranja) com o valor de 684 amendoins, mesmo que durante a pesquisa as médias
tenham oscilado bastante. Fica evidente, também, que o gráfico se assemelha a
uma senoide amortecida, como se oscilasse uma amplitude para cima e uma menor
para baixo, sempre diminuindo no entrar de uma nova onda.
A média de todas as tentativas foi de 641,168, sendo muito próxima do valor
real. A não exatidão deriva principalmente do número de dados coletados, sendo
202 tentativas e o ideal são números tendendo ao infinito. Porém pode-se concluir
que, visualizando o gráfico e fazendo uma previsão futura de acordo com os dados
coletados, que a amplitude das senoides ficará cada vez menor de forma com que o
valor médio das tentativas convergiria para o valor real.
REFERÊNCIAS
DUQUE, O. M. L. Uma Breve Análise do Movimento Browniano. 2014. 142 f. Dissertação
(Mestrado) - Curso de Pós-Graduação em Matemática, Universidade Federal do Espirito
Santo, Vitória, 2014. Disponível em: <http://repositorio.ufes.br/bitstream/10/7506/1/tese_8192_
movimento%20browniano-dissert.%20corrigida%2002-2015.pdf>. Acesso em: 23 maio 2019.
GADELHA, Augusto. Uma pequena história da probabilidade. 2004. 16 p. Notas de Aula. Disponível
em: <http://www.mat.ufrgs.br/~viali/estatistica/mat2006/material/textos/hist_prob_Gadelha.pdf >.
Acesso em: 29 maio 2019.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 4
45
CAPÍTULO 5
doi
LEITURA E ESCRITA ENQUANTO OBJETOS
SIGNIFICATIVOS E AFETIVOS: TEORIA E EXPERIÊNCIA
Data de aceite: 06/01/2020
Raimundo Nonato de Oliveira Falabelo
Universidade Federal do Pará. Faculdade
de Educação e Ciências Sociais/Campus de
Abaetetuba. Programa de Pós-Graduação em
Educação e Cultura/Campus de Cametá/ UFPA.
Coordenador do Grupo GEPLAES – CNPq –
Grupo de Estudos e Pesquisa em Linguagem,
Alfabetização, Emoções e Subjetividade.
Elielton Brandão Serrão
Programa de Pós-Graduação em Educação e
Cultura/Campus de Cametá/ UFPA. Membro do
Grupo GEPLAES – CNPq – Grupo de Estudos e
Pesquisa em Linguagem, Alfabetização, Emoções
e Subjetividade.
Paula Soares Rodrigues
Prefeitura Municipal de Abaetetuba/PA.
Pesquisadora do Grupo GEPLAES – CNPq –
Grupo de Estudos e Pesquisa em Linguagem,
Alfabetização, Emoções e Subjetividade.
RESUMO:
Aproximar
o
conhecimento
acadêmico da realidade das práticas
escolares, realizando-se, assim, o princípio da
articulação entre conhecimentos sistemáticos e
conhecimento/saberes/práticas dos professores
e as aprendizagens cotidianas das crianças,
deve constituir-se no esforço de todo processo
de formação do profissional da pedagogia.
Este trabalho tem por missão precípua - o que
justifica a sua relevância - articular, de forma
sistemática, ações teóricas e práticas, voltadas
a escolas municipais de ensino fundamental.
Como referencial teórico, assume-se como
pressuposto, o fato de que somos sujeitos
simbólicos, que nos constituímos nas relações
sociais, mediadas pela linguagem e pela cultura,
de forma que as ações pedagógicas devem
centrar-se no envolvimento rico e diversificado
das crianças com os suportes semióticos e
experimentados enquanto uma prática social,
cultural, significativa e afetiva. Em relação à
metodologia, utilizou-se diversos suportes
semióticos, de forma a envolver as crianças
na exploração da leitura e da escrita de forma
significativa, contextualizada, emocionalmente
prazerosa e afetiva. Os resultados mostram
que a aprendizagem flui, de forma significativa
e afetivamente prazerosa, quando se faz
interligando aos conhecimentos prévios das
crianças, quando se explora seu contexto sócio
cultural como suporte para a prática social
da leitura e da escrita. As atividades, ao não
assumirem um tratamento mecânico e artificial
da leitura e da escrita, como mera aquisição
de técnicas, desvinculadas da função social,
mostrou-se envolvente para as crianças,
levando-as a participarem das tarefas, lendo,
escrevendo, praticando e vivendo a leitura e a
escrita enquanto um objeto cultural significativo,
emocional e afetivo.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 5
46
PALAVRAS-CHAVE: Criança; Leitura; Escrita; Significação; Afetividade.
READING AND WRITING AS MEANINGFUL AND AFFECTIVE OBJECTS: THEORY
AND EXPERIENCE
INTRODUÇÃO
Em ternuras e palavras e,
em poética sedução cognitiva.
das crianças, nos aproximamos;
Este artigo tem por objetivo apresenta reflexões sobre Experiências didáticas
e pedagógicas, realizadas em articulação pesquisa, ensino e extensão, enquanto
ações universitária, cuja diretriz fundamental é a de instaurar, em ambientes
escolares e não-escolares, a relação de crianças – em dificuldades na aquisição e
domínio das habilidade de leitura e escrita –
com a cultura (Leitura e Escrita), de
forma rica e diversificada, possibilitando as mesmas a interação com os diversos
gêneros simbólicos, de forma que venham a ressignificar as suas relações com os
sabres, os conhecimentos, e a cultura historicamente acumuladas pela humanidade,
experimentando a leitura e a escrita como atividades sociais significativas, prazerosas
e afetivas, fundamentais a sua formação.
Com
base
nos
pressupostos
da
abordagem
histórico
cultural
do
desenvolvimento humano – de acordo com Vigotski e seus colaborares –, assumese como premissa o fato de que somos sujeitos simbólicos, que nos constituímos
nas relações sociais, mediadas pela linguagem e pela cultura, ações didáticas,
portanto, destinadas a essas crianças, em situação de repetência e ou atraso na
relação idade/ano escolar, deve centrar-se no envolvimento rico e diversificado das
mesmas com a cultura, com o conhecimento, de forma significativa.
Assim, aproximar o conhecimento acadêmico da realidade das práticas
escolares, realizando-se, assim, o princípio da articulação entre conhecimentos
sistemáticos e conhecimento/saberes/práticas dos professores e as aprendizagens
cotidianas das crianças, deve constituir-se no esforço de todo processo de formação
do profissional da pedagogia.
Em relação à metodologia, utiliza-se diversos suportes semióticos, de forma
a envolver as crianças na exploração da leitura e da escrita de forma prazerosa,
significativa, contextualizada. As crianças que participam dessas atividades são
oriundas de escolas municipais e são previamente selecionadas por seus professores
tendo em vista o fato de ainda não dominarem as habilidades de leitura e escrita,
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 5
47
algumas delas estando em situação de repetência.
BREVE INCURSÃO À TEORIA
A atividade leitora apresenta, ao contrário, todos os traços de uma produção
silenciosa: flutuação através da página, metamorfose do texto pelo olho que viaja,
improvisação e expectação de significados induzidos de certas palavras, intersecções
de espaços escritos, dança efêmera... Ele [o leitor] insinua as astúcias do prazer e
de uma reapropriação no texto do outro: aí vai caçar, ali é transportado, ali se faz
plural como os ruídos do corpo. Astúcia, metáfora, combinatória, esta produção é
igualmente uma ‘invenção’ de memória. Faz das palavras as soluções de histórias
mudas... Um mundo diferente (o do leitor) se introduz no lugar do autor (MICHEL DE
CERTEAU, 2002).
Para Vigotski (2000), a leitura e a escrita não são elementos inatos à criança,
sua aquisição depende das práticas sociais e culturais a qual a mesma está inserida.
A compreensão da leitura e da escrita não se dá de forma isolada, não é algo trazido em
seus aspectos biológicos, mas construído em suas relações sociais, em sua relação
com o outro/ outros e com os conhecimentos. É, pois, uma troca de experiência que
possibilita a aprendizagem e aquisição da escrita, o acesso ao mundo simbólico.
Por exemplo, crianças que se julgam “burras” (ou assim são identificadas) –
“Tia, não sei, tia, sô burra nisso” – por não ter domínio da leitura e escrita, parecem
acreditar não poder vir a adquirir essas habilidades, o que afeta sua autoestima.
O papel da escola é dar a essas crianças, num contexto sistemático,
possibilidades para que as mesmas possam se desenvolver, pois, devemos olhar
as crianças não apenas em suas dificuldades, mas “o que temos que buscar são
as forças positivas [...], dirigindo-nos para alcançar o que é socialmente valorizado,
construindo assim a autoestima perdida ou não estabelecida”. (PADILHA, 1998, p.
33).
O que parece acontecer no contexto escolar, é que só se consegue enxergar
as dificuldades que as crianças apresentam no processo de aquisição da leitura e
da escrita, sem se perguntar como ocorreu esse processo antes de sua entrada
na escola, em que contexto sócio-cultural estas crianças se encontravam e se
encontram inseridas.
É em um mundo de leitores ou em um mundo em que a leitura e a escrita são
pouco valorizadas? Em relação a essa situação, Vigotski chama a atenção para o
fato de que “o aprendizado volta-se para as deficiências da criança, ao invés de
se voltar para os pontos fortes...” (VIGOTSKI, 2000, p. 130). Pensar nos pontos
fortes, seguindo com esse autor, pois, significa relacionar as atividades de leituras
as experiências linguageiras das crianças; seus conhecimentos prévios; seus
conhecimentos cognitivos e afetivos que possuem sobre a escrita e a leitura.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 5
48
É necessário que o professor compreenda e aceite que seus alunos, ao entrarem
na escola, trazem consigo uma história de vida, história essa constituída no seu meio
sócio cultural na sua sociedade de uma forma muito particular, o que vai marcar as
diferenças entre as crianças em termos de conhecimentos e aprendizagens, ou de
desenvolvimentos cognitivos, afetivos e emocionais, morais, etc.. As crianças, assim,
chegam à escola com diferentes apreciações emocionais, afetivas e cognitivas sobre
essa tecnologia.
O indivíduo apropria-se de coisas do seu cotidiano que pode não ser de
interesse de outra pessoa, mas que deve ser respeitado, ou seja, devemos levar
em consideração os conceitos espontâneos da criança, ao ensinar os conceitos
científicos, pois, segundo Vigotski, “o desenvolvimento dos conceitos espontâneos
da criança é ascendente, enquanto o desenvolvimento dos conceitos científicos é
descendente.” (VIGOTSKI, 2000, p. 135).
Seguir essas orientações, significa compreender a criança em sua totalidade
emocional, cultural, afetiva e intelectual: suas leituras de mundo, suas iniciáticas
percepções que fazem dos objetos culturais, seus gostos preferências. Tomar
essas elaborações pré-conceituais, em sua génese – que vão se fazendo em ritmos
assistemáticos, espontâneos e que respondem às necessidades práticas de inserirse e participar da vida social – como condição básica para o aprendizado escolar da
tecnologia da leitura e da escrita.
As primeiras palavras, como por exemplo, pai, mãe, mamar, comer, etc., são
apreendidas e aprendidas em um contexto marcado, preponderantemente, pelo
vínculo afetivo-emocional e não cognitivo e reflexivo. Inspirando-se em Vigotski,
pode-se supor que as palavras chegam até a criança, desde o seu nascimento,
envolta em afetos, carinhos, emoções.
São as palavras ternas, em suaves modulações, ditas pelos pais, avós, irmãos,
irmãs, etc., que envolvem o pequeno ser em sua entrada no mundo das significações.
É a ternura parental, pois, que indicia a aquisição das primeiras palavras e dos
conceitos iniciais que a criança usa, de acordo com suas necessidades relacionais
e de sobrevivência.
Esses conceitos espontâneos são apropriados assistematicamente nas
relações cotidianas, não sendo mediados por um processo explicativo de causalidade
e relação, em que as palavras significam apenas um objeto ou uma ação percebida
diretamente pela experiência de vida da criança. É a utilização sem intervenção das
palavras ligada ao seu processo direto e aparente, sem uma tomada de consciência
sobre esse processo, que Vigotski chama de pensamento espontâneo.
A criança relaciona a palavra com o conhecimento que tem, com suas
experiências de vida, e isso precisa ser levado em consideração no ensino da leitura
e da escrita, pois sabemos que a palavra não se desenvolve em nós naturalmente.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 5
49
É nas nossas relações com o outro que ela vai sendo incorporada, vai ganhando
significados conscientes.
As palavras desempenham um papel central não só no desenvolvimento do
pensamento, mas também na evolução histórica da consciência como um todo, pois
“uma palavra é um microcosmo da consciência humana.” (VIGOTSKI, 2000, p. 132),
e “quando uma palavra nova é aprendida por uma criança, o seu desenvolvimento
mal começou...”, destaca o autor (2000, p. 71).
Ou seja, para Vigotski, uma palavra apresenta níveis complexos de significação.
A criança, inicialmente, vai se apropriando dos significados mais simples e, ao ser
inserida no processo formal de aprendizagem escolar, é que ela vai passar a ter
uma relação de reflexão com as palavras e, assim, vai desenvolvendo os diversos
significados que contém uma data palavra.
De forma que, o processo de construção do conhecimento pela criança é algo
complexo e não reduzido. Não se deve cair na falsa crença de que o aprendizado
de uma palavra ou de conteúdos seja o suficiente para a formação do indivíduo
e, principalmente, para a aquisição da leitura e da escrita, pois aprender a ler, a
escrever, é, antes de tudo, aprender a ler o mundo, compreender seu contexto, não
numa dominação mecânica de palavras, e sim numa relação dinâmica que ligue
linguagem e realidade. A palavra, pois, é a constituição da própria consciência, diz
Vigotski.
Nesta observação de Vigotski sobre a necessidade de se relacionar a
aprendizagem das palavras aos saberes prévios, conhecimentos iniciáticos do
mundo, pode-se identificar uma semelhança com o pensamento de Paulo Freire
quando o mesmo fala da importância da alfabetização. Para Freire,
A leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior leitura desta
não possa prescindir da continuidade da leitura daquele. Linguagem e realidade
se prendem dinamicamente. A compreensão do texto a ser alcançada por sua
leitura crítica implica a percepção das relações entre o texto e o contexto (FREIRE,
1989, p. 9)
Assim, para Vigotski e Freire, a escrita tem grande significado para as crianças,
despertando nelas necessidades próprias, pelo fato de se juntar a uma tarefa
necessária e importante para a vida e, assim desenvolver-se como uma forma nova
e complexa de linguagem.
Vigotski (2000) faz ácida crítica à maneira formal e mecânica como via o ensino
da escrita:
O ensino tem de ser organizado de forma que a leitura e a escrita se tornem
necessárias às crianças. Se for usado apenas para escrever congratulações
oficiais para membros da diretoria escolar ou para qualquer pessoa que o professor
julgar interessante (e sugerir claramente para as crianças) então o exercício da
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 5
50
escrita passará a ser puramente mecânico e logo poderá entediar as crianças,
suas atividades não se expressarão em sua escrita e suas personalidades não
desabrocharão. A leitura e a escrita devem ser algo de que a criança necessite (p.
155-156).
Em seu cotidiano, por estar inserida em uma sociedade letrada, semiótica,
profundamente tecnologizada, a criança sente a necessidade da leitura e da escrita
para tentar realizar algo que a ela é necessário. E ela busca o aprendizado de
forma a realizar-se enquanto ser humano e constituir-se enquanto indivíduo. Ela
vai ao encontro da escola com a expectativa de conseguir esse aprendizado, mas
infelizmente, depara-se com algo muito diferente da sua realidade, pois, a leitura e
a escrita – muitas vezes - são apresentadas de forma mecânica, vistas como uma
obrigação e não como desejo de adquiri-la, sem significado para ela, o que acaba
gerando o desinteresse, o fracasso e a evasão escolar.
A palavra, na sala de aula, parece perder a ternura, a emoção e a afetividade. E
por isso, apresenta-se, para muitas crianças, em seu desencanto, em sua expressão
de desinteressante objeto emocional.
Essa é a grande critica que Vigotski, na citação anterior, faz ao ensino da leitura
e da escrita: um processo mecânico e desvinculado das necessidades maiores das
crianças, do desenvolvimento de sua consciência. Vigotski parece nos dizer: é
preciso despertar, na criança, a paixão pela palavra e por meio da palavra. Essa
seria a alavanca pedagógica a um ensino transformador e formador.
A leitura e a escrita, como já mencionou anteriormente, são elaboradas pela
criança, inicialmente, nas suas relações sociais, necessitando sempre do outro como
mediador nesse processo. A elaboração ativa da escrita depende principalmente das
possibilidades que as crianças têm/ ou não de utilizar e compartilhar essa escrita em
suas interações.
Vigotski nos convida a pensar e viver, pedagogicamente, em sala de aula,
experiências alfabetizadoras que se conectem ao mundo vivencial, cotidiano, cultural
das crianças, em seus vínculos afetivos e percepções cognitivas ainda em frágeis
elaboração.
Claro que esse é o ponto de partida para que a escola, leve a criança para além
de seus conhecimentos assistemáticos, inserindo-a nas aprendizagens sistemáticas,
o que significa o domínio de um pensamento e raciocínios categoriais. A sala de
aula é o lugar da reflexão sobre o mundo, sobre a vida, sobre as aprendizagens
pragmáticas; é o lugar, portanto, do pensamento reflexivo, mediado pelos conceitos
sistemáticos, científicos, historicamente acumulados pela humanidade.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 5
51
RESULTADOS E CONCLUSÕES
Na gênese do projeto, foram selecionadas crianças do 4º. e 5º. anos que
apresentavam, segundo suas professoras, dificuldades no domínio da leitura e
da escrita. Houve a apresentação das atividades às crianças, sendo que nesta
apresentação estavam presentes a diretora da escola, pais e professora. Foram
discutidas as propostas a ser desenvolvidas pelo projeto, tendo como um dos
objetivos a ser alcançados: consolidar o domínio das habilidades de leitura e de
escrita dessas crianças, superando, assim, essa condição de “dificuldades”.
Já nos primeiros dias de atividades proporcionou-se que as crianças pudessem
interagir entre si, sendo que esta ação social educativa foi desenvolvida como
uma ferramenta essencial para
que as crianças fossem afetadas intelectual e
afetivamente pelas conhecimentos de leitura e escrita, já que segundo a teoria sócio
interacionista de Vigotski (2000), é fundamental a interação com o outro mediado
pelos objetos de conhecimentos para que o indivíduo possa vir a desenvolver suas
funções psicológicas superiores.
Nos primeiros encontros percebeu-se que algumas crianças apresentavam
comportamentos retraídos; algumas, de início, sentiam-se receosas por suas
dificuldades, não só aquelas dificuldades escolares, mas também aquelas que
dizem respeito a relacionar-se com os demais. Mas no decorrer das metodologias
desenvolvidas, e com o passar das semanas, estas foram agindo de forma espontânea
e assim começaram a participar ativamente das atividades.
De emoções e afetividades retraídas, surgem emoções e afetividades
participativas!
Observamos que uma sala é heterogênea, cada criança é única; o aprendizado
acontece de forma diferente entre elas; devemos ter a sensibilidade de notar isto e
buscar estratégias para passar os conhecimentos de forma que todos consigam se
apropriar de maneira significativa e que encontrem sentido no que fazem, mesmo
quando determinada atividade lhes exige paciência, esforço e dedicação.
Ressalte-se que o aprender não envolve somente afetos de prazer, mas afetos
de paciência, esforço, cansaço. No entanto, quando a criança compreende, emocional
e afetivamente, o significado da atividade, a emoção de esforço motiva a cognição ao
desenvolvimento da aprendizagem. Ou seja, a emoção e o afeto se inter-relacionam
nas atividades de aprendizagem. Para uma discussão mais aprofundada sobre essa
relação entre afetividade e cognição sugere-se o exame de textos como Falabelo
(2005), Falabelo (2015), Falabelo (2015), identificados nas Referências.
Compreendendo que essas crianças provêm de contextos diferenciados, que
tem domínio de conhecimentos prévios diversos, deve-se valorizar acontecimentos
prazerosos de forma que se sintam atraídas por estas ideias; que se busque fazer
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 5
52
um ensino contextualizado, levando a criança a ler e a compreender o que foi lido, ou
seja, desenvolver uma prática de leitura enquanto uma atividade social, trabalhando
a função social da leitura e escrita, excluindo-se o conceito de ensino da escrita e
da leitura mecanizadas, que por muitas vezes se faz presente na escola, conforme
Braggio (1992).
Buscamos enfatizar aqueles conhecimentos que as crianças traziam de suas
comunidades, tais como: fatos, acontecimentos, brincadeiras, gírias, e tudo que
pudesse aproximá-las das atividades de aquisição da leitura e da escrita, de forma
significativa, prazerosa e descontraída. E, para isso acontecer, o contexto social
e cultural das crianças deveria ser explorado enquanto materiais indispensáveis à
didática da leitura e da escrita.
Além disso, foram trabalhadas atividades de ensino aprendizagem com
metodologias diversificadas como: palavras cruzadas, caça-palavras, pesquisa e
colagem com jornais, leituras e interpretação de textos, produção de textos e etc..
Assim, por meio da execução dos métodos propostos, as crianças foram aos
poucos fazendo leituras de palavras, frases, pequenos textos e passaram a escreve,
também, pequenos textos, individuais ou em grupo. Procurava-se tomar como
material para a escrita a própria realidade das crianças; seus desejos; seus sonhos;
suas dificuldades; suas maneiras, ainda infantis, de ver e pensar sobre o vivido e
suas condições de existência (SMOLKA, 1999)
Uma das práticas que se buscava incentivar era: dar a oportunidade de a
crianças escolherem o que desejassem ler: “– escolha, visualize, busque o que
você quer” – eis a orientação. Isso contribuiu, significativamente, para despertar o
interesse maior pela leitura.
A leitura livre, em que livros e estorinhas eram trabalhados de acordo com
o gosto das crianças. Além do estímulo à leitura, valorizava-se a autoestima e o
comportamento de interesse, atenção, participação das crianças por meio de
atividades coletivas, despertando a cultura da socialização, da aceitação do outro,
pois conforme Charlot (2000), o desafio da aprendizagem é compreender-se como
parte de uma humanidade e, em seguida, compreender-se como membro de uma
sociedade e, por fim, saber-se em sua individualidade. Tarefa em três tempos.
Cooperar, competir, brincar e sorrir eram atitudes que, aos poucos, iam sendo
manifestadas e exteriorizadas pelos participantes. O domínio da leitura e da escrita
pelas crianças era bastante precário, conforme percebemos. Buscamos, no entanto,
não reduzir a oferta de atividades de leitura, propiciando atividades coletivas e
individuais de acesso ao texto escrito, ampliando, assim o domínio e consolidando
habilidades de leitura e escrita.
Notava-se, num crescendo, que as crianças começaram a interagir mais,
demonstrando interesse às atividades; passaram a manter interlocuções
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 5
53
espontâneas. interlocução tanto com os colegas quanto com os mediadores, e não
apenas verbal, mas também não verbal, através de olhares e de gestos. Isso revelava
mudanças significativas nos comportamentos intelectuais, afetivos e emocionais das
crianças. Mudanças atitudinais significativas!
Vigotski chama a atenção para um fato importante: o autocontrole da criança
é promovido pelo conhecimento. À medida que a criança vai desenvolvendo suas
funções psicológicas superiores, com a apropriação dos conhecimentos, ela via
se autorregulando em seus diferentes comportamentos atitudinais, socialmente
valorizados e esperados pelo seu grupo social.
Assim, para esse autor, o autocontrole emocional, afetivo, cognitivo, social
decorre do desenvolvimento das funções psicológicas superiores; e que esse
desenvolvimento dessas funções depende, primordialmente, da aprendizagem. É a
aprendizagem – escolar e cotidiana – que são responsáveis pelo desenvolvimento
da criança e todos os seus aspectos atitudinais.
Dessa forma, conforme Fontana (1997), baseada em Vigotski, a criança na
interação diversificada com os conhecimentos, auxiliada pelo adulto que lhe ensina,
vai se desenvolvendo e se apropriando das práticas sociais. Diante dos trabalhos
desenvolvidos, observou-se um visível aprofundamento no interesse das crianças
em relação às práticas de leitura e escrita que estavam sendo disponibilizadas.
A parceria entre escola e o projeto acadêmico tem possibilitado experiências
inovadoras no que se refere ao processo de alfabetização de crianças em situação
de “fracasso escolar”, expressão usada por Charlot (2000).
Foi um trabalho árduo, porque não se promove o que chamamos de uma
prática diferenciada, sem muito compromissos com aqueles crianças que precisam
do conhecimento e da cultura escolar como condição sine qua non para se
constituírem em sua humanidade, forjarem suas subjetividades e se fazem em suas
individualidades, como sujeitos únicos, históricos, socialmente partícipes de seu
grupo social.
Por fim, investimos, didaticamente, em palavras cheias de ternura, emoção e
afetividade, em poética sedução ao cognitivo movimento do aprender a Ser.
REFERÊNCIAS
BRAGGIO, S. L. B. Leitura e Alfabetização: da concepção mecanicista a sociopsicolinguistica. Porto
Alegre: Artes Médicas, 1992.
CERTEAU, Michel de. A Invenção do Cotidiano; 1. Artes de Fazer. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.
CHARLOT, B. Da relação com o saber: elementos para uma teoria. Porto Alegre: Artes Médicas,
2000.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 5
54
FALABELO, R. N. O. Vidas em Aberto: A indissociável Inter-Relação Emoções, Afetividade e
Cognição nos processos de leitura e escrita [Tese de Doutorado]. Piracicaba, SP, 2005.
________. Conhecimento, Emoções, Afetividade: Desejo de Escrever “Palavrinhas”. Revista
UNOPAR Cient., Ciênc. Human. Educ. , Londrina, v. 16, n.4, p. 327-337, 2015
_______. Considerations on affectivity in teaching relations: Vygotsky’s contributions. Acta
Scientiarum. Education Maringá, v. 37, n. 4, p. 391-399, Oct.-Dec., 2015
FREIRA, P. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. São Paulo: Autores
Associados: Cortez, 1989.
FONTANA, R. Psicologia e Trabalho Pedagógico. São Paulo: Atual, 1997.
PADILHA, Ana M. L. Possibilidades de histórias ao contrário – ou como desencaminhar o aluno da
classe especial. São Paulo: Plexus, 1998.
SMOLKA, A. L. B. A criança na fase inicial da escrita: São Paulo: Cortez, 1999.
VYGOTSKI, L. S. A formação social da mente. São Paulo : M. Fontes, 2000.
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Capítulo 5
55
CAPÍTULO 6
doi
LESEX: LIGA DE EDUCAÇÃO SEXUAL
Data de aceite: 06/01/2020
Beatriz dos Santos Melo
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Rio de Janeiro - RJ
Beatriz Silva de Souza
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Rio de Janeiro - RJ
Carolina Habergric Folino
Instituto Oswaldo Cruz
Rio de Janeiro - RJ
Lucas Rodrigues Tovar
Universidade Federal Fluminense
Niterói - RJ
Thainá Gulias Oliveira
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Rio de Janeiro - RJ
Débora de Aguiar Lage
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Rio de Janeiro - RJ
RESUMO: A educação sexual deve ser pautada
na diversidade, assim como na importância
de promover o cuidado com os corpos dos
estudantes, levando em consideração questões
de autoestima, saúde, e respeito às diferenças.
Desta forma, é válido considerar a educação
em sexualidade como parte da educação para
a saúde e também para os direitos humanos,
devendo ser incluída nos projetos educativos
das escolas, bem como nos currículos das
licenciaturas para a plena formação de
professores. Nesta perspectiva, a LESex, liga
acadêmica de educação sexual da UERJ, visa
estreitar os laços entre o ensino, a pesquisa e
a extensão, promovendo atividades dialógicas
e dinâmicas sobre os principais assuntos que
envolvem a sexualidade. Dentre as ações
desenvolvidas principalmente para estudantes
do ensino básico e superior e para profissionais
de educação destacam-se: oficinas, cinedebates, rodas de conversa, mesas redondas
e divulgação nas redes sociais. Deste modo,
a LESex acredita estar contribuindo para
a ampliação do diálogo e disseminação de
informações atualizadas sobre sexualidade no
ambiente escolar e acadêmico, favorecendo a
formação de cidadãos críticos e mais tolerantes
à diversidade.
PALAVRAS-CHAVE:
Sexualidade;
liga
acadêmica; ensino-pesquisa-extensão.
LESEX: SEX EDUCATION LEAGUE
ABSTRACT: Sex education should be based
on diversity as well as on the importance of
promoting student's bodies care and considering
issues related to self-esteem, health, and
respect differences. Thus, it is valid to consider
sex education as part of health and human right
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 6
56
education, being included in educational projects in schools and in teacher's training
curricula for a full teaching formation. In this perspective, Lesex, UERJ's academic
sex education league, seeks to strengthen the ties between teaching, research and
extension, promoting dialogical and dynamic activities about the main themes involving
sexuality. Among the actions developed mainly for elementary and higher education
students and education professionals, the following are highlighted: workshops, cinedebates, round of conversation, round tables lecture and dissemination in social
networks. Thus, Lesex believes it is contributing to the expansion of the dialogue
and dissemination of updated information about sexuality in school and academic
environment, favoring the formation of critical citizens and more tolerant to diversity.
KEYWORDS: Sexuality; academic league; teaching-research-extension.
1 | INTRODUÇÃO
A diversidade de conhecimentos, técnicas, práticas e pessoas em uma
universidade tem que ser tão vasta quanto o universo contido na palavra
“universidade”. Essa pluralidade compreende também as três bases do ensino
superior público brasileiro: o ensino, a pesquisa e a extensão. A articulação desses
pilares é de responsabilidade de toda comunidade universitária, dos discentes e
docentes, dos técnicos administrativos, da reitoria e dos conselhos universitários.
Sendo assim, cada uma dessas partes tem que se apropriar do tripé e, dentro de
suas funções universitárias, fazê-lo funcional. É nessa perspectiva que surge a
Liga de Educação Sexual da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (LESexUERJ), principalmente voltada para que alunos tenham domínio e conhecimento
sobre como fazer com que pesquisa, ensino e extensão permaneçam unidos no
fazer universitário.
A LESex, é uma liga acadêmica fundada em 2015 por alunos do curso de
Ciências Biológicas do campus Maracanã da UERJ, com um propósito que vai além
da pesquisa, ensino e extensão: trazer a sexualidade para dentro do debate curricular
e da vivência dos alunos deste curso. Neste contexto, entendemos a sexualidade
no âmbito mais amplo possível, desde saúde sexual/reprodutiva, até saúde mental/
emocional e a marginalização de sexualidades não heterossexuais e gêneros não
cissexuais. Segundo Figueiró (2006, p. 2):
Sexualidade, por sua vez, inclui o sexo, a afetividade, o carinho, o prazer, o amor
ou o sentimento mútuo de bem querer, os gestos, a comunicação, o toque e a
intimidade. Inclui, também, os valores e as normas morais que cada cultura elabora
sobre o comportamento sexual.
Segunda a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2005), a sexualidade pode
ser subdividida em três principais temáticas: a biológica, a psíquica e a sociocultural.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 6
57
Sendo assim, ela influencia atitudes, pontos de vista, pensamentos e relações,
podendo interferir diretamente na saúde física e mental do ser humano. Desta forma,
o debate sobre todo esse conteúdo se faz tão necessário e urgente, uma vez que
omitir o ensinamento das temáticas relacionadas à sexualidade é compactuar com
um Brasil menos tolerante e “doente”.
Neste contexto, o presente artigo tem como objetivo apresentar o trabalho
desenvolvido pela LESex, a qual visa promover um diálogo entre ensino-pesquisaextensão, minimizando o déficit que existe no que tange à extensão universitária
quando o assunto é educação sexual.
2 | AÇÕES DESENVOLVIDAS
As atividades extensionistas realizadas pela LESex podem ser divididas em
cinco grandes grupos: oficinas, intervenções no curso de Ciências Biológicas, cinedebates, rodas de conversa, mesas redondas com especialistas e manutenção das
redes sociais com informações que permeiam a temática sexualidade e divulgação
das atividades realizadas.
As oficinas desenvolvidas para os estudantes do ensino básico e superior
foram planejadas e adaptadas a partir de diferentes materiais como o Manual do
multiplicador adolescente (BRASIL, 2000), a apostila Oficina de ideias - Manual de
dinâmicas elaborada pelo Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente (NESA/UERJ)
e da Revista adolescer - Metodologias para o trabalho educativo com adolescentes
(LOPES et al., 2001).
As ações para estudantes do ensino básico foram desenvolvidas a partir
de intervenções nas turmas de ensino médio do Centro Federal de Educação
Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (CEFET/Maracanã) e do Colégio Estadual
Antônio Prado Júnior. Na Escola Municipal Argentina, a LESex atuou com turmas
do ensino fundamental, enquanto na Feira de Ciências do Instituto de Aplicação
Fernando Rodrigues da Silveira (CAp-UERJ), atendeu um público bem diversificado,
uma vez que o evento era aberto a alunos e familiares. Assim, em consonância com
Louro (1999), consideramos a sexualidade como parte indissociável dos indivíduos,
sendo impossível "desligá-la" do espaço escolar.
Todas as atividades são realizadas em parceria com os professores das
instituições de ensino e baseia-se na execução de oficinas abordando os seguintes
temas: métodos contraceptivos, infecções sexualmente transmissíveis (IST),
identidade de gênero e diversidade sexual, assim como também efetuar atividades
alinhadas com as campanhas nacionais de prevenção contra suicídio, câncer de
mama e de próstata (setembro amarelo, outubro rosa e novembro azul).
Desta forma, de acordo com a demanda de cada professor, as oficinas são
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 6
58
adaptadas de forma a proporcionar aos alunos atividades criativas, que despertem
o interesse pelo conteúdo. Além disso, é fundamental que as atividades contribuam
para o estabelecimento de um ambiente confortável, para que os estudantes
possam vencer barreiras inibitórias baseadas em tabus, possibilitando a geração de
discussões do assunto abordado.
Com base nesse panorama, a LESex realiza, sempre que necessário, uma
explicação sobre a dinâmica que será executada e apresenta uma introdução
específica sobre o conteúdo relacionado à atividade. Porém, em alguns casos,
a melhor forma de abordagem do tema é fazer previamente a atividade e deixar
os alunos concluírem sobre o tema que foi abordado. Dentre as dinâmicas mais
utilizadas nas atividades, destacam-se:
Dinâmica "O Semáforo": consiste em uma dinâmica de sondagem, cujo
principal objetivo é identificar as principais dificuldades dos alunos nos temas de
interesse relacionados à sexualidade. Inicialmente são colocados no chão da sala
de aula 3 caixas de diferentes cores, que representavam o grau de dificuldade do
aluno em determinado tema. Assim, a caixa vermelha representa muita dificuldade
sobre o assunto, a amarela representa dificuldade média e a verde significa pouca
dificuldade. Em seguida, cada aluno recebe pedaços de papel, nos quais devem
escrever, em cada um, temas de interesse e/ou dificuldade referentes à sexualidade e
depositar na caixa colorida correspondente ao seu grau de interesse e/ou dificuldade.
A análise dos papéis contidos nas caixas, irá direcionar as próximas atividades a
serem aplicadas àqueles estudantes.
Dinâmica "Por que tanta diferença?": tem como objetivo servir como base
para discussão sobre os padrões de gênero presentes na sociedade e o porquê
de existir essas diferenças entre gêneros. Nessa dinâmica, a turma é dividida em
grupos de meninos e meninas, onde cada grupo deve discutir e listar as vantagens
e desvantagens de pertencer ao sexo oposto. Em seguida, as opiniões dos grupos
são apresentadas e discutidas com a turma.
Dinâmica "Métodos contraceptivos": a dinâmica se inicia perguntando aos
alunos o que eles entendem por fecundação. Em seguida, o conceito de fecundação
é explicado, discutido e os principais métodos de contracepção são apresentados.
Os estudantes aprendem sobre os métodos de barreira (camisinhas feminina e
masculina, diafragma e DIU), hormonais (pílula anticoncepcional, pílula do dia
seguinte e injeção hormonal, anel vaginal e DIU hormonal), cirúrgicos (vasectomia e
laqueadura) e aqueles considerados naturais (tabelinha e coito interrompido). Dessa
forma, espera-se que os alunos desenvolvam maior curiosidade e entendimento
sobre quais são os melhores métodos a serem utilizados para impedir a concepção.
Dinâmica "IST": o objetivo dessa dinâmica é a melhor compreensão da
transmissão das IST. Para cada aluno é entregue um pedaço de papel com o desenho
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 6
59
de uma figura geométrica: um círculo, um quadrado ou um triângulo. Os círculos, em
maior quantidade, representam uma pessoa não contaminada; os quadrados, em
quantidade menor que os círculos, representam uma pessoa portadora de alguma
IST; já os triângulos, em quantidade ainda menor que os quadrados, representam
uma pessoa especificamente contaminada pelo vírus HIV. Os alunos caminham
pela sala e em um determinado momento param e escrevem em seu papel a figura
geométrica que está no papel de uma pessoa aleatória por perto, terminando assim
com 2 figuras geométricas em seu papel. Repete-se o procedimento por mais 4
vezes e é pedido para que os alunos sentem e digam quais figuras geométricas
obtiveram. Ao final a legenda das figuras é colocada no quadro e explicada a forma
de transmissão das principais IST.
Dinâmica "O corpo": essa dinâmica propõe aos alunos conhecerem melhor a
anatomofisiologia dos aparelhos genitais feminino e masculino. Para tal, os alunos são
divididos em 4 grupos e cada grupo recebe uma parte do aparelho genital (genitália
masculina interna, genitália masculina externa, genitália feminina interna e genitália
feminina externa), papel pardo, massa de modelar e canetas. Em seguida, cada
grupo deverá desenhar no papel pardo a silhueta de uma pessoa e representar seu
respectivo aparelho genital com as massas de modelar. Dessa forma é possível ver
o quanto os alunos conhecem da anatomia de seus sistemas genitais e a importância
de cada órgão.
Dinâmica "Beleza e idealização": o objetivo dessa dinâmica é discutir sobre os
padrões de beleza presentes no mundo da moda e das mídias sociais e o impacto
disso na vida de cada um. Para isso, a turma é dividida em grupos de meninos e
meninas, onde cada grupo recebe uma revista, papel pardo, tesoura e cola. Os
grupos devem discutir entre si o tipo de característica que consideram ideal em
uma pessoa do sexo oposto (ou do mesmo sexo) e em seguida listá-las e fazer
uma colagem procurando na revista que receberam as características discutidas. Ao
final da atividade, abre-se uma discussão sobre as características selecionadas e os
desdobramentos que os padrões exercem sobre a saúde física e mental, como por
exemplo bulimia, anorexia e baixa autoestima.
Dinâmica “gênero e diversidade sexual”: aborda os conceitos ligados
a identidade de gênero, sexo biológico e orientação sexual no qual temos como
objetivo desmistificar o senso comum relacionado ao uso desses termos. Para
isso, utiliza-se um modelo conhecido em inglês como gender bread, no qual os
conceitos supracitados são visualizados em um boneco e posteriormente explicados
detalhadamente.
Dinâmica “promoção da saúde física e mental”: baseia-se na criação de
espaços de diálogo sobre a prevenção do suicídio, prevenção do câncer de mama
e do câncer de próstata. São utilizados vídeos de acesso público no Youtube sobre
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 6
60
autoestima, autoexame das mamas e cartazes falando sobre os exames de próstata
disponíveis.
Dinâmica “Relacionamento abusivo”: os estudantes assistem a curta
metragem Não confunda amor com abuso, disponível na plataforma YouTube, onde
a personagem principal vivencia o cotidiano de um relacionamento abusivo. Ao
final, abre-se a discussão com cada grupo de alunos sobre como aquelas atitudes
presentes no vídeo não deveriam ser toleradas e como proceder para ajudar algum
amigo que estivesse passando por situação semelhante.
Na universidade são realizadas intervenções no curso de Ciências Biológicas,
durante a recepção da turma de calouros do curso. Nestas atividades são abordadas
diferentes temáticas, nem sempre relacionadas diretamente à educação sexual, mas
sobre aspectos que permeiam a sexualidade humana. Dentre as ações, destacamse:
Dinâmica “corrida do privilégio”: nesta atividade os participantes são colocados
lado a lado em uma linha reta. Com os olhos fechados, estes devem dar um passo
para frente ou para trás de acordo com o comando das frases ditas pelo mediador.
As frases são relacionadas a situações de privilégio social. Ao final da dinâmica
é discutido o porquê de as pessoas estarem paradas em posições diferentes, e
de que forma é possível contribuir para diminuir a diferença entre as realidades
apresentadas pelo próximo.
Dinâmica “tipos de opressões”: nesta dinâmica são utilizadas frases e trechos
de músicas contendo falas polêmicas presentes no cotidiano e na cultura musical
brasileira. São separadas cerca de 60 frases ou trechos de músicas com conteúdo
machista, lgbtfóbico, racista ou xenofóbico, que são embaralhadas e entregues em
um papel para cada participante. Todos sentam em roda e devem ler sua frase em
voz alta e ao final comentar sobre o que estava escrito. Dessa forma abre-se o
debate sobre os tipos de opressões existentes em nosso cotidiano e como evitar
falar certos tipos de ofensa para o outro.
Ainda dentro da universidade, são realizados cine-debates, mesas-redondas
e rodas de conversa, voltadas para estudantes de diferentes cursos, sejam do ciclo
básico ou de cursos de pós-graduação, bem como para profissionais da educação.
Contudo, as atividades eram abertas para qualquer pessoa com interesse no tema.
O primeiro cine-debate realizado foi sobre transexualidade, com a exibição
do filme “Transamérica” e a presença de uma aluna transexual da UERJ e uma
integrante da coordenação do projeto transexualizador do Hospital Universitário
Pedro Ernesto (HUPE) da UERJ. O debate estimulou a reflexão sobre as dificuldades
de afirmação como pessoa trans e a luta constante de quem teve sua identidade
de gênero patologizada. Outro cine-debate realizado foi sobre o curta metragem
“Tudo vai ficar bem”. Em consonância com a proposta do filme, foi estabelecido um
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 6
61
local confortável para o diálogo sobre assuntos delicados que afligem a população
LGBTQIA+ no Brasil.
A roda de conversa intitulada “Precisamos falar sobre educação sexual”, surgiu
da necessidade de discutir a importância desta temática, especialmente nas aulas
de Ciências e Biologia, de forma não biologizante e reducionista, reconhecendo a
interdisciplinaridade do assunto.
Mais recentemente, preocupada com o cenário político atual e os ataques que
o ensino público, a liberdade sexual e o SUS vêm sofrendo, a LESex propôs dois
temas para debate em rodas de conversa: “Política e sexualidade” e “Prevenção
combinada e HIV no século XXI”. No primeiro evento, pôde-se discutir a situação
atual e estratégias possíveis para abordagem de educação sexual na escola como
instrumento de mediação de conflitos e bem-estar. No evento sobre prevenção
combinada e HIV, foi possível mostrar a importância do Sistema Único de Saúde
(SUS) para o tratamento e prevenção de IST, hepatites virais e a oferta de novas
técnicas de prevenção ao HIV, como a PreP (Profilaxia Pré-Exposição ao HIV) e a
PEP (Profilaxia Pós-Exposição ao HIV).
Quando as reações, efeitos colaterais e interações medicamentosas das pílulas
anticoncepcionais começaram a ser pauta de discussões principalmente em redes
sociais e a demonização do medicamento veio à tona, a necessidade de trazer um
evento sobre o assunto foi urgente. Nesse contexto a LESex promoveu a mesa
redonda intitulada “Direito reprodutivo e a pílula anticoncepcional”, com o objetivo
principal de elucidar algumas dúvidas geradas em torno da pílula que fez com que
muitas mulheres tivessem medo de utilizá-la. Além disso o evento visou dialogar
sobre direito reprodutivo e a autonomia que o advento da pílula trouxe para as
mulheres.
Ainda estimulados pela vontade de discutir como a educação pode ser
importante no meio escolar, a mesa redonda “Como a educação sexual pode ajudar
na saúde do ambiente escolar” demonstrou que não existe uma receita pronta para a
abordagem das temáticas que envolvem a sexualidade em sala de aula. Entretanto,
é fundamental para o aluno que o profissional de educação não se omita para as
diferentes situações que surgem no cotidiano escolar, banalizando os momentos
que requerem intervenção.
Para a divulgação das atividades desenvolvidas pela LESex e de informações
e atualidades sobre os diferentes temas que permeiam a sexualidade, utilizamos a
nossa página no Facebook e o nosso perfil no Instagram. Desta forma, espera-se
que seja possível que um maior número de pessoas tenha a oportunidade de obter
mais informações sobre os temas trabalhados e de conversar diretamente com os
membros da Liga. Além disso, a ampla divulgação do projeto pode proporcionar
parcerias com instituições de ensino e o diálogo com outros projetos semelhantes,
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 6
62
que poderão contribuir para o enriquecimento do trabalho da LESex.
3 | DISCUSSÃO
Apesar dos avanços na formação inicial e continuada dos professores, a
abordagem sobre educação sexual nas escolas brasileiras ainda é muito limitada
e cercada de tabus. Diversos autores apontam que as atividades realizadas no
contexto escolar ficam, muitas vezes, restritas ao enfoque biológico, enquanto os
aspectos sociais e psicológicos são negligenciados (MARTINS, 2017). Desta forma,
os projetos de extensão universitária têm tido papel fundamental na educação
em sexualidade, contribuindo de forma significativa na formação de estudantes e
professores do ensino básico e superior (TEIXEIRA et al., 2019).
Com sua origem na Inglaterra no século XIX, a Extensão Universitária tem como
intuito promover uma educação continuada para a sociedade, proporcionando uma
troca de benefícios e saberes entre os sujeitos (RODRIGUES et al., 2013). Assim,
com o desenvolvimento de ações que contribuem para a melhoria da qualidade de
vida dos cidadãos, os programas de extensão são de grande importância para a
efetivação do compromisso social da universidade. De acordo com Silva (2011, p. 2):
A relação da universidade com a comunidade se fortalece pela Extensão
Universitária, ao proporcionar diálogo entre as partes e a possibilidade de
desenvolver ações socioeducativas que priorizam a superação das condições
de desigualdade e exclusão ainda existentes. E, na medida em que socializa
e disponibiliza seu conhecimento, tem a oportunidade de exercer e efetivar o
compromisso com a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos.
Neste contexto, as atividades desenvolvidas pela LESex - Liga de Educação
Sexual da UERJ visam aproximar a relação entre ensino-pesquisa-sociedade,
rompendo as barreiras da sala de aula e dos muros da universidade, a fim de promover
a difusão de conhecimento de forma crítica, qualificada e livre de preconceitos. De
fato, “a extensão, enquanto responsabilidade social faz parte de uma nova cultura,
que está provocando a maior e mais importante mudança registrada no ambiente
acadêmico e corporativo nos últimos anos” (CARBONARI e PEREIRA, 2007, p. 27).
Para as intervenções realizadas com os estudantes da educação básica, optouse pelo desenvolvimento diferentes tipos de oficinas. Segundo Bastiani e Padilha
(2007), as oficinas caracterizam-se por atividades em grupo, que atuam em uma
concepção de aprendizagem compartilhada, em um ambiente agradável, dinâmico,
cordial e lúdico. Neste sentido, a realização das oficinas propiciou o estabelecimento
de um espaço de diálogo, de reflexão e de troca de conhecimento entre estudantes
e graduandos, contribuindo para um processo educativo-participativo, no qual os
estudantes foram estimulados a participar ativamente na construção do seu próprio
conhecimento.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 6
63
De acordo com Afonso (2000), no tocante à educação sexual, o emprego de
metodologias dialógicas, lúdicas e interativas constitui a melhor estratégia para atingir
os estudantes. Desta forma, diversos autores têm utilizado com sucesso esse valioso
recurso pedagógico para a abordagem do assunto na educação básica (OLIVEIRA,
2019; BERTOLLO; MARTINS; AYRES, 2018; SANTOS et al., 2017; CARNEIRO, et
al., 2015).
Embora tenha como função principal o entretenimento, cada vez mais o cinema
vem sendo empregado com objetivos educacionais, permitindo a inserção de temas
de interesse educacional e social, possibilitando a reflexão dos cidadãos de forma
crítica (ANDRADE e TEIXEIRA, 2019; BISPO e MELLO, 2019; TINÔCO e ARAÚJO,
2017). Para Andrade e Teixeira (2016, s/p):
O cinema permite passear por espaços e tempos desconhecidos, convidandonos a “sermos outros”, a nos colocarmos na posição do outro – de um estrangeiro,
de um índio, de um negro, de uma mulher, de um velho, de uma criança, de um
homossexual, de um imigrante, etc – de modo a trabalhar os preconceitos, ensinando
a ser aquilo que não somos, a ser múltiplos: o bom cinema pode colaborar para
desenvolver a alteridade e a empatia.
Desta forma, uma vez que que as obras cinematográficas alcançam todos
os níveis de escolaridade, influenciando na formação de valores, costumes e
comportamentos na sociedade (QUARESMA, 2010), o uso do cinema mostra-se
oportuno para o contexto educacional. Neste sentido, a realização de cine debates
na Universidade sobre temas polêmicos, como as questões de gênero, sexualidade,
autoestima e preconceito, torna-se fundamental especialmente nos dias de hoje,
já que o cinema é capaz de provocar profundos impactos sociais no público
(NAPOLITANO, 2009). Por esse motivo, os cine-debates vêm sendo cada vez mais
utilizados como recurso pedagógico para a abordagem de diferentes assuntos
(ANDRADE e TEIXEIRA, 2019; BISPO e MELLO, 2019; TINÔCO e ARAÚJO, 2017;
ANDRADE e TEIXEIRA, 2016).
Ampliar os espaços de discussão acerca dos diferentes temas que permeiam
a sexualidade humana a partir de rodas de conversas e mesas redondas torna-se
fundamental para a divulgação de informações de qualidade e troca de conhecimento,
contribuindo para a formação de cidadãos críticos e livres de preconceitos. Por
esse motivo, é preciso investir na formação inicial e continuada dos professores,
visando a capacitação desses profissionais para uma abordagem consciente e
abrangente acerca da sexualidade. Contudo, a construção de uma educação sexual
emancipatória constitui uma abordagem política, possibilitando a compreensão da
sexualidade em toda sua complexidade, para que os estudantes sejam capazes de
se posicionar na sociedade frente às questões sociais, emocionais e políticas que
envolvem a sexualidade humana (FIGUEIRÓ, 2006).
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 6
64
4 | CONSIDERAÇÕES FINAIS
A educação sexual deve ser pautada na diversidade sexual, assim como na
importância de promover o cuidado com os corpos dos estudantes, levando em
consideração questões de autoestima, saúde, e respeito às diferenças. Entretanto,
não é trivial que as instituições promovam este tipo de abordagem, sendo muitas
vezes atribuída aos docentes de Ciências e Biologia que acabam trabalhando as
questões biológicas em detrimento de outras discussões tão caras à saúde e à
formação dos adolescentes.
Neste sentido, considerando o contexto no qual a LESex foi criada, fica evidente
a sua importância para apresentar diferentes maneiras de abordar a sexualidade,
possibilitando a introdução deste tema na sala de aula. Com atividades práticas
e ludicidade, a Liga contribui para que professores e alunos possam superar
obstáculos ao tratarem de assuntos delicados, visto que muitos docentes não se
sentem confortáveis com o tema e com isso acabam o evitando no cotidiano escolar.
Em relação aos universitários, as atividades da LESex proporcionam um
livre diálogo e um ambiente propício para discussão das diferentes temáticas que
envolvem a sexualidade, favorecendo a formação de agentes propagadores de
informação, capacitados a desenvolverem argumentos fortes frente aos diversos
preconceitos e tabus existentes em nossa sociedade.
Por fim, acreditamos que a ampla divulgação das atividades promovidas pela
LESex pode estimular a criação de novas ligas, garantindo que temas tão importantes
como a sexualidade deixem de ser um tabu, para se tornar uma temática sem
preconceitos e com espaços para debates construtivos, formando cidadãos menos
omissos e intolerantes.
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Capítulo 6
65
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Prática, v. 20, n. 4, p. 835-852, 2017.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 6
67
CAPÍTULO 7
doi
LETRAMENTO DIGITAL NO CURSO DE ARTESÃ E
BORDADOS: UMA AÇÃO DE ESTÁGIO DENTRO DO
PROGRAMA MULHERES MIL DO IFRN
Data de aceite: 06/01/2020
Edna Maria da Silva Araújo
Instituto Federal de Educação, Ciência e
Tecnologia do Rio Grande do Norte
Natal – RN
Edícia Mariana de Moura Pereira
Instituto Federal de Educação, Ciência e
Tecnologia do Rio Grande do Norte
Natal – RN
Diego Silveira Costa Nascimento
Instituto Federal de Educação, Ciência e
Tecnologia do Rio Grande do Norte
Natal – RN
RESUMO: O presente artigo é um reflexo de
um relato de experiência do estágio docente
III. Analisa aspectos relacionados às principais
influências do ensino da informática básica
para as alunas do Projeto Mulheres Mil em
relação à inclusão social e ao letramento digital.
O Programa Mulheres Mil tem como objetivo
qualificar mulheres que estavam à margem da
sociedade, trazendo-as de volta para atuar no
mercado de trabalho. Esse programa atua na
qualificação de mulheres que aprendem além
da arte de bordados manual, outros assuntos
como: a informática, economia, segurança do
trabalho, português, matemática financeira
entres outros assuntos que certamente serão
de grande relevância para a vida pessoal e,
principalmente, profissional dessas mulheres.
PALAVRAS-CHAVE: Programa Mulheres Mil;
Formação docente; Letramento o Digital.
DIGITAL LETTERING IN THE CRAFTSMAN
AND EMBROIDERY COURSE: A
INTERNSHIP ACTION IN THE MULHERES
MIL IFRN PROGRAM
ABSTRACT: This article is a reflection of
an experience of teaching internship III that
analyzes related aspects as the main influences
of the basic informatics teaching for the
Mulheres Mil Project students in relation to
the digital literacy. The Mulheres Mil Program
aims to qualify women who were on the fringes
of the society brought - how to return to work
in the labor market. This program works on
the qualification of women who have learned
beyond the embroidered art manual, other
subjects such as: computer science, economics,
job security, Portuguese, financial mathematics,
entries, other subjects that will certainly have
great relevance for personal and especially
professional life of these women.
KEYWORDS: Mulheres Mil Program; Teacher
training; Digital Literacy.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 7
68
1 | INTRODUÇÃO
O presente artigo busca tratar primeiramente com autores que explicam
o conceito e a importância da inclusão digital e do letramento digital para alunas
do Projeto Mulheres Mil. Já na segunda parte do artigo será feito as análises do
questionário e da avaliação feita na plataforma Kahoot que foram aplicados em sala
de aula, que permitirá verificar as implicações que resultam dessas análises em
relação ao letramento digital do programa Mulheres Mil.
A partir disso a pesquisa bibliográfica terá um papel de ampliar o conhecimento
e as dificuldades sobre o tema a ser analisado. A análise das influências do ensino
da informática básica para as alunas será de extrema relevância para diminuir
as barreiras existentes da desigualdade social, pois a partir das dificuldades
encontradas nessa experiência de estágio atrelada a uma ação de estado do projeto
Mulheres Mil foi possível verificar como é feita a inclusão digital desse programa.
Assim se faz necessário primeiramente entender o conceito de Inclusão Digital
para uma melhor compreensão do tema: É importante observar também que o
modelo econômico vigente se utiliza de vários artifícios para fazer suas vítimas, e
nesse contexto, a informatização, é utilizada, genericamente, como fortíssimo meio
de exclusão. Desta forma, a inclusão digital torna-se uma ferramenta, também, de
inclusão social. Neste cenário, o computador deve ser visto como um amigo e não
somente como um desafio que não será enfrentado (WEIDEN, 2005).
Para De Luca em seu livro O que é Inclusão Digital? Cita: “a inclusão digital
deve favorecer a apropriação da tecnologia de forma consciente, que torne o
indivíduo capaz de decidir quando, como e para que utilizá-la”. Diz, também, que
doar computadores, periféricos e recursos financeiros, prover a conectividade e
encorajar o voluntariado interno são apenas algumas formas de promover a inclusão
digital como ação de responsabilidade social. Incentivar a produção e a troca de
conhecimento nas comunidades localizadas na área de entorno da empresa; fornece
dicas profissionais, compartilhar experiências, elaborar projetos em conjunto;
incentivar e influenciar a busca de auto sustentabilidade das comunidades; incentivar
o empreendedorismo e fornecer apoio tecnológico também são, hoje, valiosas ações
corporativas que contribuem para a prática de responsabilidade social, favorecendo
a inclusão digital e, consequentemente, a social (p.10) (DE LUCA,CRUZ, 2004).
E Cruz, na mesma obra, acrescenta que: para ser incluído digitalmente, não
basta ter acesso a micros conectados à Internet. Também é preciso estar preparado
para usar estas máquinas, não somente com capacitação em informática, mas com
uma preparação educacional que permita usufruir de seus recursos de maneira
plena (P. 13) (DE LUCA, CRUZ, 2004).
Assim com base na definição de inclusão digital tem-se que entender também
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 7
69
o conceito de letramento digital que está intrinsecamente interligado com a inclusão
social. Pois assim é possível compreender que o curso de informática básica do IFRN
não só proporciona noções de conhecimento básicos de informática mas vai muito
além, tendo em vista que proporciona uma capacitação eficaz no que diz respeito
às ferramentas de informática básica utilizadas e ao letramento digital das alunas
desse programa.
Pois a definição de letramento digital segundo Buzato (2003) é: "o conjunto de
conhecimentos que permite às pessoas participarem nas práticas letradas mediadas
por computadores e outros dispositivos eletrônicos no mundo contemporâneo".
Para Xavier (2002, p.2) “ser letrado digital pressupõe assumir mudanças nos
modos de ler e escrever os códigos e sinais verbais e não verbais, como imagens e
desenhos, se compararmos às formas de leitura e escrita feitas no livro, até porque
o suporte sobre o qual estão os textos digitais é a tela, também digital”. Assim pode
se entender que o letramento digital vai muito além de um conhecimento técnico
pois a pessoa letrada digitalmente desenvolver habilidades de pesquisa, aprender a
entender quais conteúdos são realmente úteis para si. Começa também a utilizar
os recurso que estão disponivel no mundo digital a seu favor, além de ter um olhar
mais atento criticamente as informações digitais e as ferramentas tecnológicas que
surgem todos os dias nesse mundo de informações aceleradas. Assim o próximo
autor confirma esse entendimento.
O letramento digital segundo Carmo (2003) são: “habilidades para construir
sentido a partir de textos multimodais, isto é, textos que mesclam palavras, elementos
pictóricos e sonoros numa mesma superfície. Inclui também a capacidade para
localizar, filtrar e avaliar criticamente informações disponibilizadas eletronicamente”
Já a segunda parte da pesquisa foi voltada para o levantamento dos dados que
foram colhidos na avaliação da plataforma Kahoot e de um questionário composto
de questões de múltiplas escolhas e questões abertas. Ambos foram aplicados as
alunas dos projetos a fim de inferir quais são as principais influências do uso da
informática básica para promover o letramento digital dessas mulheres no programa.
Assim o programa denominado Mulheres Mil ofertado pelo IFRN campus Natal
- Zona Norte tem como objetivo não só a introdução de noções de informática, mas
promove o letramento digital dessas mulheres. Através de metodologias de ensino e
aprendizagem que permitem a esse grupo de mulheres inclusão digital não apenas
dos conceitos do funcionamento do computador, mas vai muito além pois apresentam
ferramentas que auxiliam na divulgação de seu trabalho, orientações de segurança
sobre os benefícios e malefícios do uso da internet e redes sociais.Tudo isso são
forma de incluir socialmente essa mulheres. Logo esse curso de informática básica
além de promover o letramento digital das alunas promove também a experiência da
prática educativa realizada por alunos de licenciaturas em informática no programa
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 7
70
Mulheres Mil.
2 | DESENVOLVIMENTO
A metodologia adotada neste trabalho é qualitativa, de natureza aplicada com
os objetivos descritivo e exploratório do problema, utilizando de questionário, como
forma de procedimento técnico.
As atividades que foram desenvolvidas ao longo do estágio serviram como
embasamento para este artigo. Foram realizadas as seguintes atividades:
a) Apresentação dos estagiários as alunas da turma de bordados do programa
Mulheres Mil pelo professor responsável pela disciplina;
b) As práticas educativas foram realizadas no laboratório de ensino superiores,
onde as alunas tiveram noções não só de informática básica pelos dez
voluntários do curso de licenciatura em informática mas foi promovido
letramento digital dessas alunas;
c) Na última aula foi realizado uma avaliação online pela plataforma Kahoot
e foi aplicado um questionário para saber o que as alunas acharam do
curso e darem sugestões de aprimoramento da disciplina; e
d) Após as dez aulas realizadas no programa foi feito um relatório descrevendo
os principais acontecimentos em sala de aula que visa dar suporte aos
estagiários na formação docente na elaboração do relatório.
2.1 Dados gerais do estágio
O presente artigo relata uma síntese parcial das atividades realizadas no
estágio III no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do
Norte do Campus Natal - Zona Norte que está localizado em área urbana na: Rua
Brusque, 2926, Conj. Santa Catarina, Bairro Potengi, Natal/RN.
No
relatório do estágio docente III foram apresentados os resultados e
documentação relativos às ações realizadas no estágio curricular obrigatório
de docência, realizado no curso de Licenciatura em Informática. O estágio III foi
executado por um grupo de 09 alunos, com objetivo de ministrar aulas e aprender
na prática a rotina do professor. As aulas foram realizadas no Instituto Federal mais
precisamente no laboratório de informática dos cursos superiores à uma turma de
mulheres, participantes do projeto Mulheres Mil. Realizado no primeiro semestre do
ano de dois mil e dezenove, á turma tinha número de 30 (trinta) mulheres, com faixa
etária entre 30 a 65 anos. Estas mulheres são de renda econômica baixa que moram
na área urbana no entorno do instituto.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 7
71
Dessa maneira, o estágio de docência permitiu ensinar ao grupo de mulheres
noções de informática básica proporcionando também o letramento digital, dando
uma noção e entendimento do uso das novas tecnologias. Para as aulas, tiveramse uma preocupação de tornar o ambiente de ensino acolhedor uma vez que os
assuntos ensinados eram tirados do seu dia-a-dia para tornar algo mais semelhante
a rotina de bordadeiras, para assim, usar a tecnologia a favor de sua profissão. O
processo de ensinar durante o estágio tinha estratégia de um aluno de licenciatura
ensinasse os conteúdos, e a cada aula revezavam, e os outros oitos davam apoio no
manuseio do computador e elucidavam as dúvidas que aparecia durante as aulas.
Sendo assim, o estágio III possibilitou a descrição das primeiras impressões
sobre a relação de aluno e professor em sala de aula e as suas implicações e
contribuições para vida profissional dos futuros professores e das
alunas do
programa Mulheres Mil.
2.2 Atividades práticas desenvolvidas
28/03 - Na primeira aula, fizemos a apresentação da disciplina, utilizando as
informações contidas na ementa para orientar as alunas no tocante ao conteúdo
ministrado nas aulas. Além disso, iniciamos com os comandos básicos de ligar
e desligar o computador, observando a desenvoltura da turma com relação ao
conhecimento desses comandos. Por fim, orientamos as alunas sobre como fazer
o login nas máquinas, enfatizando a importância desse comando para as aulas
posteriores.
04/04 - Na segunda aula foi apresentado os periféricos do computador,
classificando-os em periféricos de entrada e saída, bem como, os periféricos que
fazem as duas funções. Em seguida, iniciou-se as orientações sobre os comandos
básicos de gerenciamento de arquivos (copiar, colar, recortar e renomear).
11/04 - Na terceira aula, abordamos de forma mais aprofundada os comandos
de gerenciamento de arquivos, criação de pastas e subpastas, organização de
arquivos e diretórios. Reforçamos os conceitos abordados na aula anterior com o
intuito de recapitular e reforçar o aprendizado para dar continuidade às atividades
em questão.
18/04 - Na quarta aula, iniciamos com o editor de texto. Apresentamos algumas
versões dessa ferramenta, sua aplicabilidade e suas funções básicas (copiar, colar,
utilizar letras maiúsculas e minúsculas, alterar fonte, alterar tamanho da fonte e
alterar a cor da fonte, negrito, itálico e sublinhado).
25/04 - Não houve aula (alunas liberadas devido as fortes chuvas)
02/05 - Na quinta aula continuamos utilizando o editor de texto, revisando
o assunto abordado na aula anterior e explanando sobre comandos um pouco
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 7
72
mais avançados de formatação de texto, como gerenciamento de cores, fontes,
alinhamento centralizado, à direita, à esquerda e justificado, inserção de tabelas e
imagens e divisão do texto em colunas.
09/05 - Na sexta aula apresentamos o conteúdo internet, explanando conceitos
que vão desde a de sua origem até a sua utilização nos dias de hoje. Além disso,
foram apresentados vários navegadores diferentes, outros utilitários de internet.
16/05 - Na sétima aula continuamos com o conteúdo internet. Abordamos os
conceitos de e-mail (endereço eletrônico) e de sua utilização como identificador
pessoal na internet. Por fim, realizamos a criação de contas daquelas que ainda não
possuíam uma.
23/05 - Na oitava aula, finalizamos o tema internet com a explanação a respeito
do YouTube e sites relacionados. Na ocasião, as alunas foram orientadas a criarem
um canal no site, com o intuito de divulgar o trabalho feito por elas no curso de
bordado.
30/05 - Na penúltima aula, abordamos o tema redes sociais. O surgimento e
orientações sobre o uso com segurança das redes sociais, com foco no Facebook,
WhatsApp e Instagram. Em seguida, as alunas foram orientadas a criarem uma
página própria em seus perfis no Facebook, com o intuito de divulgar as suas marcas
e os trabalhos feito com o bordado a mão.
06/06 - Na última aula, iniciamos com uma revisão de todo o conteúdo
ministrado nas aulas e, em seguida, fizemos uma dinâmica avaliativa com uma
ferramenta online chamada Kahoot. Trata-se de um quiz muito dinâmico que nos
permitiu avaliar o quanto os assuntos foram assimilados pelas alunas. As alunas
também responderam um questionário sobre curso.
2.3 Experiência negativa e positiva
Nessa experiência foi possível relatar alguns pontos negativos como a
necessidade de ter mais estagiários
para dar auxílio pois a dificuldade e o medo
de manusear o mouse é um dos primeiros obstáculos a ser quebrado. Há poucas
alunas que realmente não querem aprender seja por medo, seja por achar que
não consegue aprender e por até não saber bem ler e escrever suficiente. Essa
é uma triste realidade que ainda há pessoas que não sabem ler e nem escrever.
Pois ensinado a uma aluna alguns comandos ela confessou que não sabia escrever
havendo a necessidade de ditar letra por letra pra que ela pudesse fazer a atividade.
Outro ponto negativo é que o projeto tem uma grande diferença de faixa etária pois
existem mulheres com maior grau de dificuldade em aprender e outras que já sabem
um pouco mais. Assim os alunos que ministram as aulas têm uma maior preocupação
com as que não sabem e por consequência as que dominam ficam um pouco ociosas
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 7
73
esperando o próximo assunto.
Entre os pontos positivos dessa experiência pode se relatar a possibilidade
do estagiário atuar como docente e sentir a realidade diária do professor, pois
para ministrar uma aula tem todo um preparo por trás, desde a escolha do tema a
forma como o conteúdo vai ser passado, a elaboração do slides e a melhor forma
do assunto ser distribuído para que as alunas do programa Mulheres Mil possam
compreendê-lo. Pois é gratificante quando o professor ver nos olhos de algumas
alunas a satisfação de ter aprendido algo que para realidade de muitas era algo
distante e muitas vezes inatingível. Dessa forma, pode fazer com que elas entendam
que nunca é tarde para aprender mesmo que a turma seja mista, com mulheres
mais novas e mulheres mais idosas, e isso é mais um ponto positivo para essa
experiência. Além do mais, os conceitos de computação são transmitidos por alunos
do curso de Licenciatura em Informática, a única disciplina que são lecionada por
alunos estagiários, tal condição proporciona aos futuros professores uma experiência
que irá agregar em seu currículo, uma vez que, o contato com a alunas de diferentes
idades oferece uma experiência de prática educativa de inclusão digital a essas
mulheres.
3 | RESULTADOS
Neste artigo os resultados são baseados em parâmetros quanto à execução da
prática das aulas do estágio pelos graduandos. Isso são parâmetros relacionados às
respostas obtidas de um questionário e da avaliação aplicada na plataforma Kahoot .
Já no que se refere ao questionário aplicado e respondido após a última aula
possibilitou fazer uma tabulação desses dados para uma análise do que o curso
de informática básica proporcionou às alunas do programa. Pois as informações
coletadas resultaram na comprovação de que curso de informática básica vai muito
além dos conceitos iniciais, possibilitando um letramento digital das mulheres. Logo
pode-se inferir através dos gráficos os seguintes resultados do questionário. A
primeira questão foi aplicada as discentes do programa mulheres que foi indagado
qual era o grau de conhecimento de informática antes do curso.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 7
74
Gráfico 01: grau de conhecimento.
Como pode-se verificar através da análise do Gráfico 01, que a maioria das
alunas consideram ter um grau de conhecimento ruim antes do curso correspondendo
42%. Já a minoria correspondente a 11% diz ter grau de conhecimento bom e 21% e
26% diz ter um grau de conhecimento regular e ótimo respectivamente.
De acordo com resultado do gráfico da segunda pergunta aplicada às alunas do
programa mulheres mil. Foi indagado quais os assunto que mais gostaram durante
curso.
Gráfico 02: Assuntos que gostaram.
Como pode-se verificar através da análise do Gráfico 02 tanto a pesquisa quanto
internet tiveram 37% preferência cada. Já 16% diz gostar de ter estudados redes
sociais, os assuntos de Powerpoint e Word tiverem igualmente 5% de preferências
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 7
75
das alunas.
já a respeito do resultado do gráfico da terceira pergunta aplicada às alunas do
programa mulheres mil. Foi questionado, como as alunas avaliam a forma de ensinar
dos tutores.
Gráfico 03: Avaliação da forma ensino dos tutores.
Como pode-se verificar através da análise do Gráfico 03 que 89% dos estudantes
acharam ótima a metodologia de ensino dos tutores. Já 11% classificam com bom a
forma de ensino dos tutores.
Conforme o resultado do gráfico da quarta pergunta aplicada às alunas do
programa mulheres mil. Foi questionado as alunas se os assuntos abordados foram
de relevância para o aprendizado.
Gráfico 04: Relevância dos Assuntos.
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Capítulo 7
76
Segundo dados obtidos pelo Gráfico 04, pode-se perceber que 100% das
alunas concordam que os assuntos abordados foram relevantes para o aprendizado
possibilitando uma formação dessas mulheres em relação ao letramento digital.
Ainda a respeito do resultado do gráfico da quinta questão aplicada às alunas
do programa Mulheres Mil. Foi indagado como as alunas classificam o curso de
informática básica.
Gráfico 05:Classificação do curso.
A partir do Gráfico 05 depreende-se que cerca de 68%, diz classificar o curso
de informática básica como ótimo e 32% classificam como bom.
Ainda a respeito do resultado do gráfico da sexta pergunta aplicada às alunas
do programa Mulheres Mil. Foi questionado se o horário de aula uma vez por semana
é o ideal para o curso de informática básica.
Gráfico 06: Horário de aula.
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Capítulo 7
77
De acordo com Gráfico 06, depreende-se que as alunas preferem ter mais aulas
por semana pois 68% não concordam com um horário de uma vez por semana. Já
32% diz que é ideal o horário de aula uma vez por semana.
Ainda a respeito do resultado do gráfico da sétima pergunta do questionário
aplicado às alunas do programa mulheres mil. Foi questionado como elas classificaram
o grau de conhecimento de informática obtido depois do curso.
Gráfico 07:Classificação do conhecimento obtido.
Pode inferir-se que através da análise do Gráfico 07 a maioria das alunas
passaram a consideram como bom seu grau de conhecimento acerca 49%. Pois
quando é feita uma comparação com gráfico 01 verifica-se que 42% das mulheres
consideravam seu grau de conhecimento como ruim antes do curso, confirmando
assim que depois do curso elas além de adquirirem um conhecimento de informática
básica também houve um letramento digital dessas mulheres no programa Mulheres
Mil. Continuando a análise do gráfico 07, depreende-se que nenhuma das mulheres
consideram mais ter grau de conhecimento ruim. Tendo em vista que houve uma
variação positiva do grau de grau de conhecimento depois do curso 26% regular,
26% também para ótimo.
Já a respeito do resultado do gráfico da oitava pergunta aplicada às alunas do
programa Mulheres Mil. Foi questionado se elas faziam uso de computadores no seu
dia a dia.
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Capítulo 7
78
Gráfico 08: Uso de computadores.
Conforme o Gráfico 08 infere-se que a maioria das alunas, cerca de 89%, não
utilizam de computadores no dia a dia. Apenas 11% faz uso de computadores.
De acordo com o resultado do gráfico da nona pergunta aplicada às alunas do
programa Mulheres Mil. Foi indagado qual as sugestões das alunas para melhoria
do curso de informática básica.
Gráfico 09: Sugestões.
Conforme o Gráfico 09 infere-se que cerca 42% sugeriram ter aulas duas vezes
por semana pois assim teria um menor espaço de tempo entre uma aula e outra
durante a semana, além de um contato maior com os tutores. Já 11% acreditam que
seria ideal que as aulas se iniciaram nos primeiros horários da tarde, e 47% das
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 7
79
alunas não opinaram.
Em relação avaliação que foi aplicada na última aula, usando a plataforma
online Kahoot, foi possível inferir a percentagem da assimilação dos conteúdos pelas
alunas de acordo com classificação das médias das notas obtidas nas respostas das
alunas.
Gráfico 10: Assimilação dos Conteúdos.
Conforme o Gráfico 10 infere-se que 78% das alunas conseguiram obter nota
acima da média (que corresponde 6 pontos) refletindo um dado positivo em relação
a assimilação dos conteúdos e consequentemente na qualificação profissional
relacionada ao letramento digital dessas mulheres. Já 17% obtiveram nota na média
e apenas 4% da turma obteve nota abaixo da média.
4 | CONSIDERAÇÕES FINAIS
Como afirmado no começo da pesquisa os resultados e discussões da presente
trabalho, relata as experiências do projeto Mulheres Mil. Na verdade estas vivências
ultrapassam os viés acadêmicos pois ao longo do curso podemos ter contato com
suas vivência, histórias de vida. Uma vez que, este projeto proporcionou não apenas
um momento de preparação para o mercado de trabalho e seu potencial profissional,
mas também tiveram um momento de interação e crescimento como humano e
pessoa.
Referindo-se ao viés acadêmico é possível considerar que a realização do
projeto Mulheres Mil foi gratificante e produtivo para todos os lados, tanto para as
alunas, com a perspectiva de letramento digital e inserção á um mundo tecnológico
que elas passaram ter um contato maior através do projeto, que foi realizado para
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Capítulo 7
80
servir como instrumento e estímulo do uso das novas mídias sociais. E certamente,
foi gratificante para os estagiário do curso de Licenciatura em Informática que
mesmo com as dificuldades encontradas, enfrentou e as tornou como aprendizado
e crescimento dentro de sala de aula. Além disso, os estagiários iniciaram sua
carreira docente com proposta de interação e comunicação entre aluno e professor,
fortalecendo sua postura dentro e fora de sala de aula.
Conclui-se que, através da execução do projeto e análises resultados satisfatório
do projeto mulheres mil foi possível comprovar as ideias discutidas no artigo.
REFERÊNCIAS
LÉVY, Pierre. A Emergência do Cyberspace e as Mutações Culturais. Palestra realizada no
Festival Usina de Arte e Cultura, promovido pela Prefeitura Municipal de Porto Alegre. Outubro de
1994. Tradução Suely Rolnik. Revisão da tradução transcrita João Batista Francisco e Carmem
Oliveira. 1994. Disponível em: <http://caosmose.net/pierrelevy/aemergen.html> Acesso em: 14 dez.
2015.
MORAN, José Manuel; MASETTO, Marcos T.; BEHRENS, Marilda Aparecida. Novas tecnologias
e mediação pedagógica. Campinas: Papirus, 2000. _______ . Os novos espaços de atuação do
educador com as tecnologias anais 12º EDIPE, Curitiba, 2004.
MORAN, J. M. A educação que desejamos: Novos desafios e como chegar lá. São Paulo:
Papirus, 2007.
COSCARELLI, C. V.; RIBEIRO, A. E. (Orgs.)Letramento digital: aspectos sociais e possibilidades
pedagógicas. Belo Horizonte:Autêntica, 2011.
CARMO, Josué G. Botura. O letramento digital e a inclusão social. Disponível em: http://paginas.
terra.com.br/educacao/josue/ Acesso em: 27 jun 2011.
http://www.educacaoliteratura.com.br/index%2092.htm
BUZATO, Marcelo E. K. Letramento digital abre portas para o conhecimento. EducaRede.
Entrevista por Olivia Rangel Joffily. 23/01/2003 <www.educarede.org.br>
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81
CAPÍTULO 8
doi
LETRAMENTO NO ENSINO FUNDAMENTAL II: DA
LEITURA EXTRACLASSE À PRODUÇÃO TEXTUAL
Data de aceite: 06/01/2020
Adriana Ferreira de Souza
(UNEB-Campus II/Alagoinhas-BA)
RESUMO: O artigo trata de um relato de
experiência pedagógica sobre um projeto
de leitura extraclasse e produção textual, da
disciplina de Português, no 8º ano matutino,
desenvolvido na Escola Municipal Dr. Jairo
Azi, em Riacho da Guia, distrito de Alagoinhas,
Bahia. O presente texto tem por objetivo
refletir sobre o ensino de português, no que
concerne à aquisição de habilidades de leitura
e escrita no Ensino Fundamenta II. Para tanto,
apresentamos as linhas gerais da proposta de
trabalho e o desenvolvimento da mesma em
sala de aula. As atividades de leitura extraclasse
e produção textual do projeto da disciplina de
português buscam principalmente recuperar
o prazer pela leitura e, consequentemente,
desenvolver habilidades de leitura e escrita. O
projeto tem por base a metodologia qualitantiva,
fundamentando-se em autores que abordam
esse tema: Freire, Geraldi, Zilberman, Koch,
entre outros. Até o momento, os resultados
obtidos mostram um aumento na quantidade de
livros lidos pelos alunos, com suas respectivas
produções escritas com base nos livros lidos.
Assim, concluímos que os alunos podem
desenvolver a competência de leitura e escrita
que o auxiliará a ser um sujeito ativo do ato de
ler e escrever.
PALAVRAS-CHAVE: Competência de leitura e
escrita; Leitura extraclasse; Produção textual;
Sujeito ativo.
LITERACY IN ELEMENTARY EDUCATION
II: FROM EXTRA READING TO TEXTUAL
PRODUCTION
ABSTRACT: The article deals with a
pedagogical experience report about a project
of extraclass reading and textual production, of
the Portuguese discipline, in the 8th morning,
developed at Dr. Jairo Azi Municipal School,
in Riacho da Guia, Alagoinhas district, Bahia.
This text aims to reflect on the teaching of
Portuguese, with regard to the acquisition of
reading and writing skills in Elementary School
II. Therefore, we present the general lines of
the work proposal and its development in the
classroom. The activities of extraclass reading
and textual production of the project of the
Portuguese discipline seek mainly to recover
the pleasure of reading and, consequently, to
develop reading and writing skills. The project
is based on qualitative methodology, based on
authors addressing this theme: Freire, Geraldi,
Zilberman, Koch, among others. So far, the
results obtained show an increase in the number
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
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82
of books read by students, with their respective productions written based on the books
read. Thus, we conclude that students can develop reading and writing skills that will
help them to be an active subject of reading and writing.
KEYWORDS: Reading and writing skills; Extra class reading; Text production; Active
subject.
1 | INTRODUÇÃO
Muitos linguistas questionam sobre o que é ensinar português, uma vez que os
alunos já dominam a língua materna necessária para se expressarem e interagirem
com os seus interlocutores. O que seria necessário ensinar: Gramática? Literatura?
Expressão oral e escrita? São muitos os questionamentos que envolvem o ensino
de português. Com base nesse contexto, há professores que buscam um trabalho de
integração entre a prática de leitura e a produção de texto. Dessa forma, por meio da
leitura, a escola pressupõe que o aluno pode ter cada vez mais contato com a língua
escrita, aumentando seu repertório com relação as formas padrão que deseja que
ele aprenda (PONTY, 1999).
Assim, a escola não ensina o aluno a ler e produzir textos. São feitos exercícios
de interpretação e análise de textos e a produzir redações. O que significa que há
simulações de leituras e do uso da língua escrita (GERALDI, 1999). No entanto, a
leitura não deve ser uma decifração do sentido de um texto, ela deve partir da leitura
de mundo para a leitura da palavra, o que possibilita uma compreensão crítica e
interpretação do texto, finalizando em sua recriação (FREIRE, 2011). A utilização
do código da escrita não serve apenas para produzir textos, mas para entendê-los
a partir das experiências, do conhecimento e da visão de mundo do aluno (KOCH,
2002). Leitura e escrita estão vinculadas e sua prática se dá no ambiente escolar
(ZILBERMAN, 2009).
Para Barbosa e Rovai (2012), “a leitura não é um hábito, uma ação que repetimos
irrefletida e automatizamente. A leitura é uma prática social refletida, sentida, fruída,
que precisa ser internalizada e fazer sentido”. (BARBOSA; ROVAI, 2012, p. 51), mas
a resistência do aluno à leitura irá depender das experiências significativas ou das
dificuldades de compreensão que o aluno tiver com ela.
Para isso, a prática de leitura deve levar em consideração os interesses
dos alunos, desde as obras que valorizam a cultura local, assim como obras
contemporâneas, incluindo os clássicos, que podem ser selecionados pelos próprios
alunos de acordo com suas expectativas. Além disso, o professor continuará
exercendo a tarefa de mediador de leitura, ensinando a ler e criando condições
de interpretação, “o que passa pelo desenvolvimento de habilidades de leitura,
mas também pela oportunização de experiências estéticas significativas que nos
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Capítulo 8
83
permitam identificação e alteridade, que nos provoquem torcida, raiva, indignação,
alegria, que nos façam rir e chorar.” (BARBOSA; ROVAI, 2012, p. 53).
Desde de séculos passados, a leitura e a escrita ocupam um lugar relevante
na sociedade, cujo domínio dessas habilidades distingue as pessoas entre si.
Assim com a crise da leitura e da escrita que gera a crise da escola e vice-versa, as
desigualdades sociais se ampliam cada vez mais.
Diante desse contexto, é necessário que os profissionais de educação busquem
soluções para superar as dificuldades relacionadas ao domínio das habilidades de
ler e escrever textos.
O presente texto tem por objetivo refletir sobre o ensino de português no que
concerne à aquisição de habilidades de leitura e escrita no Ensino Fundamenta II. Para
tanto, apresentamos as linhas gerais da proposta de trabalho e o desenvolvimento
da mesma em sala de aula. As atividades de leitura extraclasse e produção textual
do projeto da disciplina de português buscam principalmente recuperar o prazer pela
leitura e, consequentemente, desenvolver habilidades de leitura e escrita.
A metodologia é de base qualitantiva, uma vez que parte da análise da
atividade de leitura e produção textual, aplicada com as turmas do 8º ano, onde
buscamos explicar o andamento da atividade de forma parcial e limitada, pois tornase imprevisível o desenvolvimento da atividade, ao mesmo tempo em que tentamos
quantificar, com base na análise de dados, o andamento da mesma entre as duas
turmas de 8º ano. A junção da pesquisa qualitativa e quantitativa nos permite ter
mais informações do que poderíamos ter se fossem aplicadas separadamente.
(GERHARDT, 2009).
2 | LINHAS GERAIS
O projeto de atividade de leitura extraclasse e produção textual, se iniciou a
partir de leituras que tratam sobre este tema, em especial, com base na leitura do livro
“O texto na sala de aula”, de Geraldi (1999), que apresenta sugestões de atividades
para o desenvolvimento de habilidades de leitura e escrita em sala de aula. Não é
um roteiro a ser seguido, como afirma o próprio autor, apenas serve de base para
a orientação da prática pedagógica de profissionais da área de Letras, que podem
adaptá-lo, criando seus próprios projetos, levando em conta a realidade de cada um.
Foi aplicado na Escola Municipal Dr. Jairo Azi, do ensino fundamental II, em
Riacho da Guia, distrito de Alagoinhas, Bahia, com as turmas do 8º ano, do turno
matutino. Consiste na leitura de dez livros de narrativas longas (romances, novelas,
peças teatrais), que contemplem estilos variados: romances de aventura, policial,
amor, drama, entre outros, distribuídas entre as quatro unidades do ano letivo: dois
livros na I e IV unidades, três livros na II e III unidades. Os livros utilizados pelos
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 8
84
alunos pertencem em parte à biblioteca da escola, pois a mesma não dispõe de
um grande acervo, livros dos próprios alunos, emprestados ou que baixaram na
biblioteca virtual, através do celular.
Com base na leitura do livro selecionado, o aluno escolhe uma atividade
sugerida para a produção textual que, no final do ano letivo, deverá escolher uma
das atividades realizadas para apresentar à turma e outra para expor no mural da
sala ou da escola.
São essas as atividades propostas aos alunos com base na leitura dos livros
selecionados para a leitura extraclasse:
1. Escrever uma carta para o autor, falando sobre o livro, questionando as
personagens, suas atitudes, pedindo informações sobre a vida dele.
2. Transformar o livro em história em quadrinhas, procurando destacar os
aspectos mais importantes, aqueles que merecem mais atenção.
3. Fazer uma colagem (ou desenho, ou pintura...) que recrie trechos decisivos
na história.
4. Escolher uma música bem conhecida e fazer uma paródia, recontando a
história do livro.
5. Escrever a história em forma de cordel.
6. Selecionar uma música de sucesso que tenha letra relacionada a momentos
da história do livro.
7. Fazer a propaganda do livro.
8. Confeccionar a primeira página de jornal, contendo manchetes, texto com
ilustração sobre fatos que compõem a história do livro.
9. Criar uma nova versão da história lida.
10. Escrever um poema com base na história do livro lido.
11. Compor uma letra de música (hip-hop, rap, funk) considerando a história
do livro.
Consta também de um regulamento que os alunos devem seguir para um bom
desempenho das tarefas.
1. Primeiramente, os alunos deverão ler, no mínimo, dez livros durante o ano
letivo para realizar as atividades propostas, escolhendo uma atividade
diferente para cada livro lido.
2. Na quarta unidade, cada aluno escolherá uma atividade realizada para
apresentar em sala de aula e outra para expor no mural da sala ou da
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 8
85
escola.
3. As atividades realizadas no caderno pelos alunos e a apresentação da
atividade escolhida pelos mesmos em sala de aula serão avaliadas e
pontuadas pelo professor.
4. Para isso, os alunos devem escolher narrativas com histórias variadas:
histórias românticas, policiais, de aventura, de ficção científica, de
suspense de humor, de terror, etc.
5. A seleção dos livros deve ser feita sob a orientação do professor.
6. Devem ler livros, de preferência, que ainda não leram.
3 | RESULTADOS
Até o momento, temos como resultados obtidos, a quantidade de livros lidos
pelos alunos até a terceira unidade e as produções escritas com base nos romances
lidos. No entanto, há alunos que ainda não completaram a leitura dos livros e,
consequentemente, não fizeram as respectivas produções. Mas há casos de alunos
que já ultrapassaram o mínimo de leitura estabelecida com as produções escritas.
Observamos que há uma quantidade significativa de alunos que ficam na “lista de
espera” e que pegam mais de um livro para ler simultaneamente, mas isso não
ocorre em todas as turmas.
A tabela abaixo representa o andamento dessa atividade nas duas turmas de
8º anos A e B, do turno matutino.
Esclarecemos que a terceira unidade ainda está em andamento, o que pode
alterar os resultados até o encerramento da mesma.
Tabela 1: Andamento do projeto nas turmas
Com base na tabela acima, podemos observar que a turma do 8 ano A, até o
momento, é a que tem o maior número de alunos que já completaram as atividades
propostas, onde muitos ultrapassaram a quantidade mínima de romances lidos já na
terceira unidade. O mesmo não ocorre com os alunos do 8º ano B, pois os mesmos
estão atrasados na leitura e na produção dos textos. Mas se comprometeram em ler
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Capítulo 8
86
a quantidade mínima de romances estabelecida na unidade, com suas respectivas
produções.
No início da atividade de leitura extraclassse, muitos alunos se queixaram de
suas mães, uma vez que não permitiam que os mesmos lessem os romances quando
estavam, alegando que tinham que cumprir com as tarefas domésticas. Diante
dessa situação, propomos que conversassem com suas mães ou responsáveis
sobre a atividade e, em comum acordo, gerenciassem o seu tempo. Dessa forma, foi
possível que os alunos dessem continuidade a atividade, sem deixarem de cumprir
suas obrigações domésticas.
Além dessas análises, ao conversar com os alunos a respeito da atividade,
alguns disseram que passaram a ler mais rápido, compreendendo melhor o que está
escrito.
4 | CONCLUSÕES
O objetivo dessa atividade não é formar escritores, embora as produções
escritas sejam resultados de sugestões de atividades aplicadas no final do exercício
de leitura que tem por objetivo auxiliar o aluno a construir adequadamente um texto,
de acordo com o gênero textual solicitado. A prioridade está na formação de leitores
para que passem a ter um comportamento ativo, criativo, com a capacidade de
refletir, de forma crítica, sobre o mundo que o cerca.
Com o projeto de leitura extraclasse e produção textual, acreditamos estar
contribuindo para o aperfeiçoamento do profissional de Letras que se preocupa em
criar condições que levem o educando a desenvolver competências de ler, interpretar
e produzir textos, para que o mesmo não seja apenas um receptor de conteúdo, um
ser passivo durante as aulas.
REFERÊNCIAS
BARBOSA, J. P.; ROVAI, C. F. Gêneros do discurso na escola: rediscutindo princípios e práticas. –
1ª ed. – São Paulo: FTD, 2012.
FREIRE, P. A importância do ato de ler. Editora Cortez. 51ª edição, vol. 22.
GERALDI, J. et al (Org.). O texto na sala de aula. Editora Ática. Coleção na sala de aula. 3ª ed.
1999.
GERHARDT, T. E.; TOLFO, D. S. [organizadores] Métodos de pesquisa / coordenado pela
Universidade Aberta do Brasil – UAB/UFRGS e pelo Curso de Graduação Tecnológica – Planejamento
e Gestão para o Desenvolvimento Rural da SEAD/UFRGS. – Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2009.
KOCH, I. G. V. A argumentação e linguagem. Editora Cortez. 8ª edição, 2002.
ZILBERMAN R.; ROSING T. M. K. et al (Org.). Escola e leitura: velhas crises, novas alternativas. –
São Paulo: Global, 2009. (Coleção Leitura e Formação).
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 8
87
CAPÍTULO 9
doi
LIBERDADE DE EXPRESSÃO OU DISCURSO DE ÓDIO:
TOLERAR OS INTOLERANTES?
Data de aceite: 06/01/2020
Morgana Rodrigues
Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC) –
Câmpus Xanxerê
Xanxerê – Santa Catarina
Anna Beatriz Brandelero Giacomini
Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC) –
Câmpus Xanxerê
Xanxerê – Santa Catarina
Rodolfo Denk Neto
Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC) –
Câmpus Xanxerê
Xanxerê – Santa Catarina
RESUMO: A presente pesquisa tem o objetivo
de contextualizar e discutir o entendimento
acerca dos conceitos da liberdade de
expressão e tolerância. Para tal, foi aplicado um
questionário com os alunos do IFSC – Câmpus
Xanxerê, baseado na revisão bibliográfica
que o precedeu, tendo como eixo central
as ideias de Rainer Forst. Após a aplicação
do questionário, procedeu-se uma análise
qualitativa, sendo que nesta etapa usou-se a
análise crítica para se interpretar os conceitos
de liberdade de expressão e tolerância.
Com isso, foi possível quantificar o nível de
tolerância/intolerância no grupo pesquisado
e propor um critério de demarcação entre
os discursos que são agressivos ou odiosos
daqueles que seriam polêmicos e complexos,
mas não intoleráveis. Isso somente foi possível
verificar após as análises dos resultados
obtidos quantitativamente. A importância do
levantamento dos dados desta pesquisa mostra
a relevância em nossa atual conjuntura social
e política de um debate mais aprofundado
sobre os conceitos de liberdade de expressão e
tolerância, pois com esses conceitos poderemos
visar efetivamente a uma formação cidadã para
a construção de uma sociedade democrática,
justa e, claro, tolerante.
PALAVRAS-CHAVE: Liberdade de expressão.
Discurso de ódio. Tolerância. Intolerância.
FREEDOM OF SPEECH OR HATE SPEECH:
TOLERATE THE INTOLERANT?
ABSTRACT: This research aims to contextualize
and discuss the understanding of the concepts
of freedom of speech and tolerance. To this
end, a questionnaire was applied with students
from IFSC – Câmpus Xanxerê, based on
the bibliographic review that preceded it,
having as central axis Rainer Forst’s ideas.
After the application of the questionnaire, an
analysis of the data was first performed and
a critical analysis of the concepts directed to
freedom of expression and tolerance was done
subsequently. Thus, it was possible to quantify
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the level of tolerance/intolerance and propose a demarcation standard between the
aggressive or odious discourses of those that would be controversial and complex
but not intolerable. This was only possible after after analyzing the results obtained.
The importance of this research’s data survey shows the relevance of a more in-depth
debate about the concepts of freedom of speech and tolerance in our current social
and political conjuncture, because with these concepts we can effectively target citizen
formation for the construction of an effectively democratic, fair and, of course, tolerant
society.
KEYWORDS: Freedom of speech. Hate speech. Tolerance. Intolerance.
1 | INTRODUÇÃO
A Constituição Federal Brasileira de 1988, em seu parágrafo IX do artigo 5°,
estabelece que a liberdade de expressão consiste em um direito fundamental,
exercido independentemente de censura ou licença. Entretanto, mesmo que esse
direito garanta tal liberdade, ele não se refere à ideia de fornecer uma “licença” na
qual todos seriam detentores do direito de praticarem discursos que condizem com
tudo aquilo que pensam, isto é, o direito que cada um teria em expressar tudo que
lhe convém.
Sendo assim, por mais que a liberdade de expressão seja entendida muitas vezes
como uma licença para expressar o que se quer, a mesma deve ser compreendida
com cautela e prudência, pois dada a garantia de que todos podem efetivamente
sem censura ou licença se expressar, isso não lhes dá automaticamente o direito de
ofender ou prejudicar alguém pelo fato de que, os que defendem uma concepção
libertária, a liberdade de expressão permite tudo. Afinal, a exteriorização de ideias é
um “ato de fala” (falar é um ato e consequentemente todo ato é uma ação) e, sendo
uma ação, isso pode gerar danos, ou seja, algo que prejudica algo ou alguém. Falar
gera consequências factuais que podem ser desastrosas. Você pode pensar o que
quiser (liberdade de pensamento), mas não pode falar tudo o que quiser (liberdade
de expressão), sendo que este valor não é absoluto, pois uma fala racista ou que
faça apologia a morte de determinadas pessoas ou grupo por causa da sua raça,
etnia ou religião, gera consequências que podem produzir danos morais e materiais.
Percebe-se que há então uma colisão entre a liberdade de expressão e a garantia
de determinados direitos, ou seja, são elementos que devem ser considerados
na ponderação entre a liberdade de expressão de um lado, e os direitos à honra,
à intimidade, à vida privada, imagem e a segurança, de outro. A partir dessa
diferenciação, podemos nos colocar a questão dos limites da tolerância: podemos
tolerar os intolerantes?
Segundo Araújo (2018), a liberdade de expressão “é uma liberdade de espírito,
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de intelecto. É liberdade de tornar públicas, de exteriorizar crenças, suposições,
juízos, hipóteses e, de modo geral, o pensamento”. A liberdade de expressão
é essencial, pois permite o debate e a refutação de ideias equivocadas, a fim de
garantir seu progresso. Porém, não é através de ofensas, agressões e discriminações
que se constrói uma sociedade democrática, mas sim com a desconstrução dos
preconceitos, criando-se assim, uma sociedade equitativa, tolerante e justa.
Desta maneira, procurou-se investigar a interrelação entre a liberdade de
expressão e a tolerância. Isso ocorre, justamente, pelo motivo de que exteriorizar ideias
é um direito individual, mas sua manutenção está diretamente ligada ao interesse
coletivo, pois proporciona a maximização de discussões, um dos requisitos para
a existência de uma sociedade democrática pluralista que exige responsabilidade,
razoabilidade e bom senso.
A partir disso, acredita-se, a presente pesquisa visa defender a ideia de que
não se pode tolerar os intolerantes. Essa tese parte da ideia de que deve haver um
critério de demarcação, utilizado como uma “régua” que separa o que é considerado
um discurso intolerante e intolerável de um discurso que seja razoável e tolerante.
Para tanto, é necessário defender uma razão prática pública partilhável que possa
ser aceita por todos os concernidos, ou seja, por todos que participam do debate
público. Quando o debate livre e amplo ocorre, imediatamente as pessoas começam
a defender seus próprios interesses individuais e egoístas, e juntamente com
eles aparecem algumas ideias e concepções que podemos dizer que se tornam
“intolerantes” e “intoleráveis”. Com essas duas categorias, se pode construir a “régua
da tolerância”, pois a partir dessa métrica, certas expressões preconceituosas e
intolerantes, que se configurariam como discursos de ódio, devem ser reprimidas
e ao fim, proibidas. Estes discursos odiosos devem ser proibidos, pois para a
construção de uma cultura efetivamente democrática e liberal, fundada na virtude
política da tolerância, ou melhor dizendo, na admissão individual de que a diferença
do outro acerca de seu pensar seja permitido, é necessário impedir que uma cultura
do ódio e do preconceito seja endossada pelo entendimento equivocado do que
seja a tolerância. Com isso, os críticos poderiam objetar que a tolerância cairia num
paradoxo, pois para ser tolerante, a pessoa que se diz tolerante deve permitir que a
intolerância se expresse, ao preço de se tornar ela mesma uma pessoa intolerante.
Na próxima seção, buscamos responder a essa objeção.
2 | TOLERÂNCIA COMO CONCEPÇÃO LIBERAL DEMOCRÁTICA
Há duas maneiras de perceber o que seja a tolerância. A primeira, seria a
concepção que foi proposta pelo filósofo inglês John Locke (1689) e, a segunda,
seria a abordagem proposta pelo filósofo francês Voltaire (1763). Assim, temos
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na concepção de Voltaire, a tolerância entendida como um conceito que procura
garantir efetivamente a pluralidade de ideias e religiões, ou seja, uma concepção
tolerante acerca das diferentes religiões, defendendo ainda que as ideias diversas
das suas devam ter espaço para serem ditas e vivenciadas por seus seguidores,
reconhecendo as diferenças do outro e procurando, dessa forma, internalizar em sua
própria estrutura social e pessoal as dissimilitudes do seu contrário (tolerância como
coexistência, aproximando-se da estima).
Segundo Forst (2013), existem quatro tipos de tolerância historicamente
constituídas: a) a tolerância como permissão: sendo a forma mais perniciosa de se
entender a tolerância, pois não permite que formas de pensamento distintas da sua
possas ser defendidas, pois a permissão dada é estritamente controlada; b) tolerância
como coexistência: como o próprio conceito apresenta, deixa-se que as culturas
e ideias minoritárias coexistam mutuamente dentro de uma estrutura já definida e
hierarquicamente constituída, sem contudo haver um respeito pelas ideias e culturas
distintas da maioria, tornando-se assim uma espécie de modus vivendi, produzindo
uma forma de convivência precária e instável; c) tolerância como respeito: essa
perspectiva defende a concepção de que todos têm um “direito à justificação”, sendo
que isso significa que qualquer ideia ou forma de vida deve ser respeitada dando-lhe
o direito de se justificar na esfera pública perante todos, e a partir disso poderemos
racionalmente decidir se a demanda é razoável ou não; e finalmente d) tolerância
como estima: nesta forma de tolerância devemos reconhecer e estimar todas as
formas de vida e cultura, de modo que seríamos irmanados numa forma de monismo
multicultural. A ideia que mais nos aproximamos é a concepção de tolerância como
respeito.
Retornando a concepção da tolerância lockeana, esta ideia defende uma
postura de tolerância restrita, na qual qualquer ação que aparente trazer algum
malefício deve ser prontamente constrangida. Com isso, pode-se perceber o quão
complexas são as repercussões que envolvem a história da tolerância, não apenas no
que diz respeito à variante do "medo de Locke", que teme que a tolerância excessiva
possa levar à dissolução da vida ético político-moral, mas sim no que diz respeito a
uma terceira visão, qual seja, quando ambos os lados de um conflito alegam ter o
entendimento correto da tolerância e acusam um ao outro de intolerância, entrando
assim, em uma disputa violenta. A tolerância, nesse caso, é ignorada e surgem
propostas de uma solução política final para os dissidentes de minhas ideias ou
mesmo dos que pensam de forma diversa da minha. Mas isso não é mais tolerar,
é eliminar o seu contrário. Nessa perspectiva, do medo de Locke, há somente a
mobilização das forças majoritárias contra algo que eu tolero e o início da eliminação
e supressão do contraditório, porque é infiel e não confiável.
Disso, surge a forma mais básica de tolerância, a permissiva. Mas afinal, tolerar
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é aceitar doutrinas opostas às que eu acredito e deixá-las que existam cada uma ao
seu próprio modo? O conceito de tolerância pode ainda ser usado, ou outro conceito
deveria ser mobilizado para substituí-lo? Caso aceite e entenda as ideias e crenças
que estão em disputa, mas que são contrárias as minhas mais profundas e arraigadas
crenças, ainda neste caso eu estaria tolerando essas ideias ou seria outra atitude
que estou exercitando? Seria a tolerância um conceito estreito demais, devendo em
seu lugar lançar mão da ideia do reconhecimento?
Para exemplificar essas questões, pense nas disputas pela diversidade sexual,
política, religiosa, etc., sendo que essas questões tocam diretamente em algumas
ideias centrais que foram trabalhadas por Charles Taylor e outros teóricos, como Axel
Honneth e Nancy Fraser, que buscam redefinir e recolocar o debate da tolerância
pela ideia mais promissora do reconhecimento, pois não é possível tolerar os grupos
historicamente marginalizados, seja em razão da sua orientação sexual, da sua
identidade de gênero, da cor da sua pele, da sua origem étnica ou religiosa ou
de outros marcadores sociais da diferença, devemos reconhecê-los como pessoas
com dignidade. Essas lutas por reconhecimento são hoje parte central da gramática
dos conflitos sociais no mundo contemporâneo. No entanto, essa luta identitária
ao invés de apaziguar e trazer efetivamente a igualdade e reconhecimento destes
grupos subalternizados, acabou por aumentar ainda mais os conflitos e, para alguns,
reanimou os movimentos conservadores e reacionários. Isso ocorre justamente porque
colocou em destaque as minorias que ganharam muito espaço e voz, possibilitando
que suas pautas sociais fossem implementadas. A partir disso, surgiu uma reação
curiosa, sendo que os movimentos conservadores e alguns reacionários começaram
a ganhar força e destaque, e essa maioria, que é a classe média e média alta das
sociedades ocidentais, sentiram-se enganados e perceberam que seus privilégios
estavam sendo perdidos, e assim, os que se sentiram ofendidos pelas políticas
identitárias, iniciaram uma reação. O discurso reacionário hoje é que as minorias
se transformaram em maioria, o que ofende a proporcionalidade do maior para o
menor ou do mais importante em relação ao marginal e subalterno. Essa maneira de
raciocinar é a maneira dos ressentidos pensarem e lutarem por seus privilégios. Ou
seja, a maioria define a pauta, e a minoria aceita, calada e constrangida, sendo que
as minorias devem suportar o papel social ao qual foram identificados e relegados.
Dessa forma, o ideal de reconhecimento parece ter ficado ainda mais distante e difícil
de ser implementado na realidade. Portanto, a perspectiva que defende a tolerância
torna-se interessante novamente, pois aparentemente é a mais viável, visto que
os indivíduos querem ser diferentes e lutam por isso, e não querem ser iguais, no
sentido de haver uma teoria unitária que una todos de maneira a estimarmos os que
pensam e vivem diferente de nós. Não sendo possível realizar a máxima bíblica de
“amar os seus inimigos”, pelo menos não no sentido da socialização interpessoal
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das complexas e contraditórias sociedades contemporâneas, acreditamos ser mais
razoável utilizar a ideia da tolerância, porém, não em sua versão permissiva, mas
sim baseada no respeito.
Mesmo com esse refluxo no ideal do reconhecimento, não seria mais prudente
usar o conceito de reconhecimento como substituto da tolerância quando se trata
de promover a aceitação racional da diferença de crenças filosóficas, religiosas
ou éticas? Essa é a concepção que Charles Taylor defende em seu livro de 1993,
“O multiculturalismo e a política do reconhecimento”. A tolerância não é a solução,
pois, para Taylor, a mera tolerância não modifica nada na estrutura social. Seria
desejável um liberalismo que fosse diferente do modelo atual, capaz de evitar a
simples homogeneização da diferença e que seja mais adequado às sociedades
multiculturais da atualidade. Numa entrevista, em 2015, para o jornal El País, Taylor
afirmou que:
[...] a tolerância não é a melhor palavra. Uma democracia não é tolerante, é um
regime de direito, algo superior à tolerância. A questão é se somos capazes de
manter um verdadeiro regime de direito. Caso contrário, a melhor solução disponível
é a tolerância. Mas o objetivo deve ser uma democracia na qual todos tenham o
direito de expressar sua opinião, votar como quiser, praticar a religião que aceitar.
(TAYLOR, 2015)
Para Taylor, somente a busca por reconhecimento possibilitará uma efetiva
e real transformação da sociedade na direção de uma sociedade mais justa e
igualitária. A questão que fica é: isso é factível, não se exige demais dos indivíduos
nessas condições? Trocar a tolerância pelo reconhecimento é esperar demais da
humanidade? Acreditar que podemos chegar sempre numa unanimidade não seria
ingênuo? Contudo, não queremos cair na visão polarizada ou naquela conhecida
metáfora do antropólogo Clifford Geertz de que “não é porque um ambiente cem
por cento asséptico seja possível, que iremos realizar cirurgias no esgoto”. Não
criticamos o reconhecimento por ser uma postura difícil de ser alcançada ou mesmo
que o melhor a se fazer é abandonar essa perspectiva, por ser idealista e utópica.
Mas o que se coloca aqui é o problema de estimar modos de vida tão distintos que
alguns tornam-se inaceitáveis, pois há concepções de mundo que são divergentes
e razoáveis, mas, por outro lado, existem divergentes e não razoáveis, valendo
isso igualmente para as esferas filosóficas e religiosas. Perceber que a luta pelo
reconhecimento das identidades se choca e produz aquela ideia há muito tempo
deixada de lado, o choque de civilizações é não levar a sério que existem razões que
não são razoáveis. A luta se trava agora entre duas formas de identidade: uma seria
aquilo que podemos definir como as identidades particulares (éticas) e a segunda,
seria a busca por uma identidade universal (política):
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Uma vez que o ideal republicano do bem comum teria se provado inatingível –
ou pior, um engodo, o melhor que teríamos a fazer é investir na defesa ferrenha
do (nosso) particularismo. Essa dicotomia caminha a par com outra, igualmente
cara à política identitária: dado que toda afirmação com pretensão à validade
universal esconde uma vontade de poder imperialista e subjugante, só nos restaria
a defesa intransigente de nossos próprios pontos de vista. (ENGELKE, 2017)
Usamos intencionalmente a ideia de identidade, pois seja na sua vertente
individualista, seja em sua versão universalizante, sempre se acaba por produzir
uma identidade. O exemplo é a identidade nacional, como sendo a identidade
cidadã democrática daquele país ou a defesa de um grupo minoritário que deve ser
reconhecido. Uma possibilidade para tentar mediar e justificar uma saída a esse
impasse, seria colocar a discussão em outro nível. A razão prática, quando chamada
a se pronunciar nesse caso, pode nos fornecer uma saída a esse aparente dilema,
pois o que ocorre é algo parecido com a diferenciação entre moral e política. Deixada
a razão funcionar de forma linear, ela imediatamente vai buscar categorizar e colocar
uma sobre a outra, de modo verticalizado. Temos que superar essa forma de razão
teórica e levá-la a ser coproduzida tanto pela razão teórica quanto prática. Neste
caso, a moral e a política são cooriginárias e interdependentes, pois a moral sem
política é uma ficção e política sem moral é opressão tirânica.
A partir disso, podemos nos fazer o seguinte questionamento: há tolerância
somente dentro de uma democracia? Obviamente a resposta será negativa, pois
há “tolerância” fora dos regimes democráticos, basta pensar em estados não
democráticos que tem alguma forma de tolerância. Obviamente, não do modo como
procuramos defender. Para citar um exemplo, reflita sobre como alguns Estados
islâmicos, moderados, toleram que algumas mulheres possam ter o direito de
dirigir. Os homens e a sociedade como um todo toleram isso, desde que não seja
excessivo. O caso mais emblemático dos últimos anos foi o caso da Arábia Saudita,
o qual permitiu que as mulheres pudessem ter o direito de dirigir automóveis e ir aos
estádios de futebol. Esses seriam, pois, exemplos de tolerância fora da democracia.
Temos ainda casos de sociedades que toleram a violência, como por exemplo
a sociedade brasileira e norte americana. Tanto o Brasil como os Estados Unidos,
toleram a violência, tanto que na esfera política, desde 2016, nos EUA, com as
ideias e discursos de Donald Trump, e no Brasil, desde 2018, principalmente com o
surgimento de “novas” figuras políticas, as quais têm um discurso com aberto elogio
à violência e ao endurecimento de práticas e costumes. Aqui temos uma linha tênue
entre o que se tolera e o que é tolerável. A partir dessa constatação, temos que
demarcar a linha onde podemos falar da tolerância e qualificar afinal o que se está
dizendo quando se usa este conceito. Teremos que, ao fim e ao cabo, traçar uma
linha entre aquilo que pode ser efetivamente uma prática e exercício da tolerância
e aquilo que excede isso e deve ser de alguma forma recolocado e esclarecido no
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debate público.
Para exemplificar com um problema prático, podemos pensar nos limites do
que definimos como tolerável e o que é intolerável. Temos a seguinte situação,
conhecida como o fenômeno do “efeito silenciador.” Grosso modo, a suposta
defesa da liberdade de expressão em sua forma absoluta, acaba com a liberdade
de expressão. Por exemplo, em nome de poder dizer tudo, de pregar o ódio contra
uma minoria, extingo a possibilidade de que essa minoria tenha acesso a um lugar
de fala, pois ela é sistematicamente atacada e ao fim, silenciada ou em caso limite,
extinta. Nesse contexto, um transexual ou um indígena terão dificuldade em ter
acesso a um cargo público, pois a sociedade em que ele se insere não permite
que ele se expresse ou que consiga as mesmas condições e oportunidades, pois é
estigmatizado e, portanto, acaba por ter a sua igual liberdade reduzida ou mesmo
negada e suas chances reduzem-se drasticamente ou mesmo se extinguem pela
diferença gritante do que lhe é oportunizado.
A delimitação da concepção da tolerância deve ser definida como uma questão
política, e não ética. Tendo como pressuposto que estamos imersos em um Estado
democrático, é necessário posicionar-se através de uma ordem prática, que é
intrínseca a qualquer forma de democracia. Para tal tarefa, o princípio da justificação
não precisa utilizar nem da ideia de valores nem da verdade. A validade da concepção
de tolerância se dá intersubjetivamente dentro de uma esfera política democrática.
Para evitar essa compreensão hierárquica e contraditória do "estado de tolerância",
parece mais sensato entender o "imperativo da tolerância" como sendo endereçado
exclusivamente para os cidadãos, enquanto um "imperativo de neutralidade" que
deve ser dirigido ao Estado. Finalmente, essa neutralidade deve ser entendida
não de tal maneira que o Estado, em todas as suas decisões, deve buscar a
'neutralidade de efeitos' em todos os indivíduos e grupos possivelmente afetados, o
que seria impossível, mas tal 'neutralidade de justificativa' é necessário no sentido
de que apenas razões reciprocamente e geralmente aceitáveis, e não avaliações
éticas controversas, podem ser o fundamento de normas gerais. (FORST, 2013, p.
519-520)
Assim, a atitude de tolerância, de acordo com a concepção de respeito, exige
que cada um de nós possa pedir e oferecer razões e justificativas para as normas
que podemos ou não compartilhar moralmente e politicamente. Nós chamamos isso
de capacidade de reconhecer razões adequadas no uso político teórico e prático, e
descobri-los conjuntamente na razão do discurso. Portanto, a tolerância, entendida
corretamente, é uma virtude do uso público da razão. Esta capacidade, juntamente
com o senso de justiça dentro de uma compreensão do que pode ser justificado para
os outros como iguais, é indispensável. Isso implica trabalho discursivo, porque o que
não é generalizável, não pode, por regra geral, ser determinado a priori, tornando
necessária a tolerância. Esse fato pressupõe a integração em uma comunidade
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discursiva na qual há pelo menos tanto em comum que até mesmo uma crítica das
estratégias discursivas dominantes e vocabulários em uma linguagem comum tornase possível. Essa base comum de respeito mútuo é indispensável em uma sociedade
democrática tolerante, visando à justiça política (FORST; BROWN, 2015).
3 | DELIMITAÇÃO DA TOLERÂNCIA NA DEMOCRACIA
A tolerância refere-se ao ato de agir com respeito perante opiniões ou
comportamentos idiossincráticos. Desta forma, se pensada em conjunto com o
conceito de democracia e de justiça política, tem, indubitavelmente, um papel
multifacetado e de uma importância imensa no contexto das sociedades democráticas
modernas. Estas que, de acordo com a ONU, promovem um ambiente favorável à
proteção e realização efetiva dos direitos humanos, pois pressupõe uma sociedade
política pluralista que não se rompe em meio a conflitos decorrentes de visões de
mundo diferentes (BRUM, 2011), nas quais os cidadãos se confrontam continuamente
em busca de conciliar suas reivindicações (WERLE, 2012).
Nesse âmbito, o conceito de tolerância, para ganhar uma configuração e
conteúdo, é normativamente dependente da ideia de democracia (FORST, 2018).
Esta que se liga principalmente à ideia de justiça, para que assim, a democracia seja
instituída de maneira justificável a todos, reciprocamente. Isto é, justiça e democracia
liberal andando lado a lado resultam na tolerância.
Em vista disso, a busca pelos limites da tolerância dar-se-á por meio de
procedimentos democráticos deliberados pelos próprios cidadãos, não como uma
prática essencialmente teórica, mas sim, por meio de ações praticadas conforme
razões aceitáveis por todos os cidadãos, uma prática discursiva, fundadas nos atos
de fala.
Sendo assim, é imprescindível notar que esse conceito normativo da tolerância,
estabelece o principal motivo de lutarmos por uma tolerância justa: o de sermos
tratados corretamente e reconhecidos como sujeitos ético-morais. Sujeitos, que
também oferecem e exigem razões para serem tolerados, além de acreditarem
na necessidade e também na possibilidade de justiça (FORST, 2018) apesar da
permanência de divergências profundas de opiniões ou comportamentos.
4 | METODOLOGIA
Para obtenção dos resultados acerca da pesquisa, a metodologia empregada
foi a bibliográfica e documental, ligada a análise qualitativa, além da perspectiva
quantitativa, através da aplicação de um questionário semiestruturado. A análise
bibliográfica focou nas ideias e pressupostos teóricos que apresentaram significativa
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importância na definição e construção dos conceitos discutidos na problemática da
pesquisa, utilizando-se de referenciais digitais, bem como de revistas científicas,
livros e artigos.
Em relação a parte quantitativa, esta foi feita por meio da elaboração e
aplicação de um questionário que foi posteriormente analisado estatisticamente,
buscando descrever o entendimento dos inquiridos sobre liberdade de expressão e
discurso de ódio. Os resultados da pesquisa promoveram uma melhor interpretação
e entendimento de como são e foram construídos os conceitos de tolerância,
intolerância, democracia e liberdade de expressão.
5 | RESULTADOS E DISCUSSÕES
Foi realizado um questionário envolvendo 222 alunos do Ensino Médio
Integrado no IFSC – Câmpus Xanxerê, com foco na análise das opiniões acerca do
tema proposto. Com base nos dados levantados, 93,7% dos participantes percebem
no Brasil atual um cenário marcado pela intolerância em relação ao outro. Ademais,
63,5% acreditam que o relativismo não é um pré-requisito para a manutenção da
tolerância, ou seja, tolerar não é sinônimo de manter uma postura passiva e omissa.
Isso pode ser observado na Figura 1 e Figura 2.
Figura 1
Cenário de intolerância brasileiro.
Fonte: Autoria própria (2019).
Figura 2
Tolerância não pressupõe relativismo.
Fonte: Autoria própria (2019).
Essas estatísticas concordam, portanto, com aquilo que a pesquisa busca
defender: não se pode tolerar os intolerantes, justamente pelo fato de que defender
ideias que levam a eliminação de um grupo (discurso de ódio) levaria a um ciclo de
violência, não possibilitando a construção de uma sociedade tolerante e razoável,
logo, decente.
Essa questão pode ser entendida como um paradoxo, ou seja, uma declaração
aparentemente verdadeira, mas que nos leva a uma contradição lógica. A tolerância
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deve ou não tolerar a intolerância? Neste contexto, Karl Popper publicou a obra de
filosofia política “The Open Society and Its Enemies” (“A Sociedade Aberta e Seus
Inimigos”) em 1945 que, apresenta um pensamento semelhante por meio da ideia de
que, no meio social, o desaparecimento da tolerância é decorrente, paradoxalmente,
de uma tolerância ilimitada. Assim, para que uma sociedade exerça a autodefesa
frente a ameaças intolerantes, é indispensável que seja aberta e tolerante, no entanto,
deve preservar, em nome da tolerância, a intransigência para com a intolerância:
Tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância. Se estendermos
ilimitada tolerância mesmo aos intolerantes, se não estivermos preparados para
defender a sociedade tolerante do assalto da intolerância, então, os tolerantes serão
destruídos e a tolerância, com eles. — Nessa formulação, não insinuo, por exemplo,
que devamos sempre suprimir a expressão de filosofias intolerantes; desde que
possamos combatê-las com argumentos racionais e mantê-las em cheque frente
a opinião pública, suprimi-las seria, certamente, imprudente. Mas devemos nos
reservar o direito de suprimi-las, se necessário, mesmo que pela força; pode ser
que eles não estejam preparados para nos encontrar nos níveis dos argumentos
racionais, mas comecemos por denunciar todos os argumentos; eles podem proibir
seus seguidores de ouvir os argumentos racionais, porque são enganadores, e
ensiná-los responder argumentos com punhos e pistolas. Devemos, então, nos
reservar, em nome da tolerância, o direito de não tolerar o intolerante. (POPPER, 2012).
Portanto, defender ideias intolerantes é algo auto-contraditório, moralmente
falando, pois levaria essas mesmas ideias a serem perseguidas e ao fim, destruídas.
A livre exposição de ideias – desde que as mesmas sejam razoáveis – caracteriza
uma sociedade democrática, na qual discussões e posições das mais diversas
matrizes teóricas podem ser discutidas e consensuadas. Isso ocorreu rotineiramente
durante a pesquisa, tanto por meio da revisão bibliográfica, como das discussões
com o orientador e das dúvidas levantadas pelos entrevistados, atendendo, assim,
aos objetivos propostos, pois percebe-se que nessas interrelações as mais diversas
posições aparecem.
6 | CONSIDERAÇÕES FINAIS
Após a realização da pesquisa, os dados obtidos durante o processo de análise
promoveram debates com os envolvidos no projeto e tiveram a finalidade de verificar
conhecimentos e opiniões a respeito do tema da pesquisa. No que se refere aos
esforços aplicados para alcançar os resultados, a reconstrução dos conceitos acerca
da liberdade de expressão mostrou sua diferenciação daqueles discursos que são
agressivos ou odiosos (que defendem a eliminação do discurso contrário).
Outro ponto a ser considerado é a originalidade da temática e a importância
do levantamento desses dados, uma vez que a discussão sobre a liberdade de
expressão está em voga no cenário atual, pois visa a formação cidadã para constituir
uma sociedade efetivamente democrática, justa e, claro, tolerante.
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REFERÊNCIAS
ARAÚJO, Márcio Schusterschitz da Silva. Como entender a liberdade de expressão. 2018.
Disponível em: <https://marcioschusterschitz.com/2018/09/17/como-entender-a-liberdade-deexpresSao/>. Acesso em: 30 set. 2019.
ARROYO, Francesc (Ed.). Charles Taylor: As pessoas hoje não têm claro o sentido da vida.
El País. Madrid, 10 ago. 2015. Disponível em: <https://brasil.elpais.com/brasil/2015/08/06/
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BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Promulgada em 5 de outubro de 1988.
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BRUM, Luíza Ribeiro. O conceito de tolerância: a visão de Habermas. X Congresso Nacional de
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A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 9
99
CAPÍTULO 10
doi
MATEMÁTICA E INCLUSÃO SOCIAL: CURSO BÁSICO
PARA CONCURSO
Data de aceite: 06/01/2020
Adriana de Oliveira Dias
Universidade do Estado de Mato Grosso –
Unemat, Faculdade de Letras, Ciências. Sociais e
Tecnológicas
Alto Araguaia – MT
Exayne Santos Mourão
Universidade do Estado de Mato Grosso –
Unemat, Faculdade de Letras, Ciências. Sociais e
Tecnológicas
Alto Araguaia – MT
RESUMO: Este trabalho apresenta os resultados
do projeto de extensão intitulado Matemática
Básica para Concurso. Muitas pessoas veem
no concurso público uma forma de melhorar de
vida pois a situação de insegurança perante a
instabilidade das empresas privadas e a falta
de cumprimento das leis trabalhistas provocam
ainda mais o aumento na competitividade para
ingressar neste setor. Devido ao grande número
de pessoas que prestam concurso público e as
exigências cobradas pelas provas, os cursinhos
voltados especificamente para concursos
públicos têm sido muito procurados. Entretanto
esses cursos geralmente são pagos, o que
resulta na exclusão de pessoas com baixa renda
que também desejam se preparar para passar
nesses processos seletivos. Atualmente o perfil
dos ingressantes no serviço público em sua
grande maioria são pessoas com renda familiar
média ou alta. Em contrapartida pessoas com
renda baixa receberam ao longo da vida um
ensino de baixa qualidade, não possuem prática
de estudo e tem pouco acesso a materiais e a
cursos preparatórios de qualidade. Em virtude
dos fatores apresentados, nota-se a importância
da aplicação deste projeto de extensão, visto
que oferece o curso preparatório na área de
matemática gratuitamente e auxilia na superação
das desigualdades sociais existentes.
PALAVRAS-CHAVE:
Concurso
Público,
Matemática, Inclusão social.
MATHEMATICS AND SOCIAL INCLUSION:
BASIC COURSE FOR PUBLIC TENDER
ABSTRACT: This paper presents the results
of the extension project entitled Basic Math
for Public Tender. Many people see the
public tender as a way to improve their lives
because the insecurity situation due to the
instability of private companies and the lack of
compliance with labor laws further increase the
competitiveness to enter this sector. Due to the
large number of people providing public tender
and the demands. For the tests, the courses
aimed specifically at public competitions have
been much sought after. However, these courses
are usually paid, which results in the exclusion of
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 10
100
low-income people who also want to prepare to go through these selection processes.
Currently the profile of the new entrants to the public service are mostly people with a
medium or high household income. In contrast, low-income people have received lowquality education throughout their lives, have no study practice and have little access
to quality materials and preparatory courses. Due to the factors presented, it is noted
the importance of applying this extension project, since it offers the preparatory course
in the area of mathematics for free and helps in overcoming existing social inequalities.
KEYWORDS: Public Tender, Mathematics, Social Inclusion.
1 | INTRODUÇÃO
O sonho de se tornar um funcionário público é algo ainda almejado por muitos
brasileiros. A estabilidade que essa situação traz faz com que a concorrência a
cargos públicos seja sempre grande. Em nossa região não há um grande número
de empresas e acaba que o funcionalismo público se torna um atrativo aos cidadãos
aqui instalados. Este projeto teve como objetivo trabalhar os conteúdos matemáticos
básicos que são exigidos em alguns concursos, não foi diferenciado nível de
dificuldade dos conteúdos, bem como ensino fundamental, médio ou superior. A
intenção era atender a demanda dos inscritos, dessa forma, o curso não teve uma
programação definida, a mesma foi construída de acordo com os concursos nos
quais nossos participantes tinham interesse. Ao final foi prevista a confecção de uma
apostila contendo os assuntos que foram abordados, a mesma foi disponibilizada
aos participantes do curso.
O mercado de trabalho brasileiro tem se tornado cada vez mais exigente
com critérios de seleção mais rígidos, e isso se reflete também no funcionalismo
público que possui como meio de ingresso os denominados concursos públicos, cuja
finalidade é além de selecionar os melhores candidatos para as vagas disponíveis,
nivelar conhecimentos básicos. Em 21 de agosto de 2009 foi editado o Decreto
Federal nº 6944 que institui normas gerais para concursos públicos no âmbito da
União.
Segundo Castelar (2010), em geral esses concursos possuem um grande
número de inscritos gerando um alto índice de concorrência. Essa atração se dá
pelo fato de o setor público pagar melhores salários que os praticados em níveis
similares no setor privado. Os cargos públicos em geral proporcionam benefícios
como estabilidade financeira, e em alguns cargos específicos planos de saúde,
previdência diferenciada e período de férias mais prolongado.
Apesar do grande número de concorrentes existentes nesses concursos, uma
pesquisa feita por Castelar (2010) com relação ao perfil dos candidatos aprovados
em um concurso que exigia como formação o ensino médio demonstrou que
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 10
101
a alta renda familiar, escolaridade acima do ensino médio, ser oriundo de região
metropolitana, ter cursado o ensino médio em escola privada e ser jovem, são fatores
que contribuem para aumentar a chance de passar no concurso. Por outro lado,
ter renda pessoal abaixo de dois salários mínimos e ser oriundo de escola pública
contribui negativamente.
Neste contexto evidencia-se como relevante o fator econômico, os que têm
mais acesso a uma educação de base de melhor qualidade tem mais probabilidade
de serem aprovados. “Ainda assim o concurso público é o meio mais democrático e
igualitário de que o cidadão dispõe para ter acesso a cargos e empregos públicos”
(BARATA, 2009).
No entanto, apenas os conhecimentos adquiridos na escola ou na Universidade
não são suficientes para atender as exigências do cargo pretendido, pode ser que o
concurso exija um conteúdo que não foi contemplado na formação do estudante ou foi
ensinado de maneira muito superficial. Assim a maioria das pessoas que almeja um
cargo público recorre a cursos preparatórios para concursos. Esses cursos podem
ser oferecidos de maneira presencial ou à distância e na sua grande maioria são
pagos, o que só acentua o fator econômico como ponto positivo para a aprovação
no concurso.
Apesar dos inúmeros cursos preparatórios para os diversos tipos de concursos
existentes no Brasil, os mesmos são em quase sua totalidade particular, deixando de
lado uma grande parte da população que não pode arcar com o custo dos mesmos.
A comunidade do Município de Alto Araguaia, Santa Rita do Araguaia e região
não contavam com cursos gratuitos com esse caráter, sendo esta proposta pioneira.
Oferecendo cursos gratuitos onde foram abordados conteúdos básicos de matemática
com os temas pedidos nos principais concursos públicos em geral, colaborou para o
bom desempenho dos inscritos nos mais diversos tipos de concursos que envolveram
conteúdos matemáticos.
2 | MATERIAL E MÉTODOS
O projeto previu a elaboração de dois cursos preparatórios para concurso, cada
um deles com uma carga horária de 40 horas, sendo divididas em 10 encontros
semanais de 4 horas aos sábados à tarde das 14:00 às 18:00 horas. As inscrições
foram feitas gratuitamente nas dependências da Universidade, qualquer membro da
comunidade interna ou externa pode se inscrever.
Quanto ao conteúdo dos cursos, foi elaborado de acordo com o interesse da
turma, inicialmente analisamos quais concursos as turmas tinham interesse em
prestar. Em seguida era analisado o edital, verificando os conteúdos referentes à
disciplina de matemática e então preparada as aulas voltadas para esses temas e
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 10
102
também a resolução de questões das provas de concursos anteriores.
As aulas foram expositivas, com utilização de quadro negro, giz e projetor
multimídia. Foram planejadas priorizando um espaço para que o aluno pudesse
interagir, questionar e também trazer seus próprios materiais para que fossem
sanadas suas dúvidas, com um momento de diálogo no qual o aluno não se sentia
com receio de fazer seus questionamentos por mais óbvios que eles fossem.
3 | RESULTADOS E DISCUSSÃO
O curso colaborou para um bom desempenho dos inscritos nos mais diversos
tipos de concursos que envolviam conteúdos matemáticos. Além disso, foi
disponibilizada gratuitamente aos participantes do curso uma apostila elaborada
pela equipe executora com conteúdos e exercícios resolvidos.
A primeira turma contou inicialmente com a presença de 12 participantes, ao
final havia 4 alunos. Em relação aos alunos que concluíram o curso foi notado seu
progresso quanto a interpretação das questões, o raciocínio lógico e resolução dos
problemas. Uma das maiores dificuldades apresentadas por eles era a interpretação
das questões e a realização de operações básicas, principalmente quando envolviam
números extensos e/ou com vírgulas, esta segunda dificuldade se dava pelo uso
frequente de calculadoras.
Foto1. Alunos durante a aula do projeto
A importância desse tipo de curso e a qualidade com que foi dado o primeiro
se refletiu na segunda turma que recebeu 48 inscrições, e finalizou com 20 alunos.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 10
103
4 | CONCLUSÃO
Constata-se então, que o curso teve grande importância para a comunidade
participante, a acadêmica bolsista teve a oportunidade de transmitir seus
conhecimentos, desenvolver uma melhor didática e dispor de uma nova experiência
fomentada pela universidade. Este projeto foi de suma importância para os
participantes, alunos e acadêmica, isto é notado pela troca de aprendizagem e
experiências de todos, além de aproximar a Universidade da comunidade.
REFERÊNCIAS
BARATA, Ana Maria. Questões relevantes sobre concurso público. Revista do Ministério Público
do Estado do Pará - Ano IV - Vol. I – 2009.
CASTELAR, Ivan; VELOSO, Alexandre Weber Aragão; FERREIRA, Roberto Tatiwa; SOARES,
Ilton. Uma análise dos determinantes de desempenho em concurso público. Revista Economia
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esforço pessoal. Revista Jus Navigandi, Teresina, ano 17, n. 3226, 01 de maio de 2012. Disponível
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IAHN, Luciene Ferreira; MAGALHÃES, Luzia Eliana Reis; BENTES, Roberto de Fino. Educação a
distância x Educação presencial: estudo comparativo entre dois cursos preparatórios para
concurso. Relatório de pesquisa apresentado ao setor de Educação Continuada em Geral da
Fundação de estudos Sociais do Paraná – FESP. Curitiba – PR, 2008.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 10
104
CAPÍTULO 11
doi
MULTIPLICAÇÃO NA HORTA: UM MODELO DE PRÁXIS
EDUCATIVA1
Data de aceite: 06/01/2020
Robson Damasceno da Silva
Universidade Federal do Pará - Campus
Universitário de Castanhal (CUNCAST)Faculdade de Pedagogia
através da práxis educativa aprendam com
maior facilidade os assuntos matemáticos, em
específico a multiplicação. Os resultados deste
estudo fomentam mudanças significativas no
processo de ensino e aprendizagem.
PALAVRAS-CHAVE: Educação do Campo.
Didática. Matemática.
Maria Eliana Soares
MSc. em Docência em Ciências e Matemáticas.
Profª de Magistério Superior
Universidade Federal do Pará - Campus
Universitário de Castanhal (CUNCAST)
RESUMO: Este trabalho apresenta um recorte
de uma pesquisa de campo de abordagem
qualitativa realizada numa escola Municipal
na região rural de Castanhal – Pará. O mesmo
visa à exploração do cotidiano escolar para o
ensino de conteúdos matemáticos, e tem como
objetivo utilizar a horta como instrumento de
ensino matemático. A intenção é contribuir para
uma educação de cunho adaptativo e inovador.
Para tanto, buscamos apoio em Ribeiro (1972),
Freire (1987); Brasil (2007); Freire (2008);
Morin (2011) dentre outros. A finalidade deste
trabalho é apresentar a matemática como uma
disciplina conveniente e inovadora através
da linguagem própria da realidade e da
didática adaptada, com o intuito de deixar no
passado o pensamento negativo atribuído a
esta disciplina, e fazer com que os educandos
ABSTRACT: This paper presents a clipping of
a field research of qualitative approach carried
out in a municipal school in the rural region of
Castanhal - Pará. Mathematical teaching. The
intention is to contribute to an adaptive and
innovative education. To this end, we sought
support in Ribeiro (1972), Freire (1987); Brazil
(2007); Freire (2008); Morin (2011) among
others. The purpose of this paper is to present
mathematics as a convenient and innovative
discipline through the proper language of reality
and adapted didactics, in order to leave in the past
the negative thinking attributed to this discipline,
and to make learners through educational
praxis. More easily learn mathematical subjects,
in particular multiplication. The results of this
study foster significant changes in the teaching
and learning process.
KEYWORDS: Rural Education. Didactics.
Mathematics.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 11
105
INTRODUÇÃO
Este relato versa sobre uma pesquisa de campo, realizada durante a disciplina
de Fundamentos Teóricos e Metodológicos do Ensino de Matemática (FTM) em
maio e junho de 2017, e consiste no complemento das discussões teóricas e
metodológicas da disciplina, pela qual tivemos a oportunidade de ministrar aulas
expositivas e dialogadas para alunos do 3º ano do ensino fundamental de uma
escola da rede municipal, localizada na zona rural do município de Castanhal, cuja
atividade caracterizou-se uma intervenção pedagógica no ensino de matemática
impulsionada pela interrogação: Como fazer uma metodologia inovadora em uma
escola do campo, de modo a tornar o ensino relevante para a realidade local?
A perspectiva foi proporcionar aos educandos um ensino de matemática
diferenciado despertando curiosidades e lhes proporcionando entendimento do
assunto a partir da utilização da horta como instrumento de ensino da matemática,
considerando a cultura local.
Sendo a cultura por fazer parte de nossa vida, criamos, aperfeiçoamos e
transmitimos esta cultura, por isso torna-se essencial elaborar uma metodologia em
cima desse ponto crucial, que segundo Ribeiro (1972), cultura é a herança social
de uma comunidade humana, representada pelo acervo coparticipado de modos
padronizados de adaptação à natureza para o provimento da subsistência, de normas
e instituições reguladoras das reações sociais e de corpos de saber, de valores e de
crenças com que explicam sua experiência, exprimem sua criatividade e se motivam
para ação.
Além do mais, segundo Cruz (2016) o docente, precisa ser forjado também no
chão da escola, num movimento de alternância de tempos e espaços pedagógicos
que possibilite o diálogo do saber acadêmico com o contexto vibrante, complexo,
tencionado das instituições de ensino da educação básica.
Para isso os PCNs, dentre seus objetivos busca a capacidade dos alunos de
“questionar a realidade formulando-se problemas e tratando de resolvê-los, utilizando
para isso o pensamento lógico, a criatividade, a intuição, a capacidade de análise
crítica, selecionando procedimentos e verificando sua adequação” (BRASIL, 2007).
PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
O presente trabalho segue a abordagem qualitativa que segundo Minayo por
se tratar de uma pesquisa social, consiste num tipo de pesquisa, cujo objeto é
essencialmente qualitativo, isto porque “A realidade social é o próprio dinamismo
da vida individual e coletiva com toda a riqueza de significados dela transbordante”
(MINAYO, 2001, p 15).
Conforme o objetivo estabelecido esta proposta toma a horta como instrumento
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 11
106
de apoio para o ensino da matemática, especificamente da multiplicação, pois
a mesma por ser algo que faz parte da realidade social e cultural será de suma
importância para os alunos, bem como da professora que pode melhorar a qualidade
do ensino a partir desta metodologia.
Vale ressaltar que a pedagogia enquanto arte de ensinar e de aprender
pode levar a uma prática educativa libertadora ou conservadora, cabe ao educador
direcionar tal prática, e optar por aquela que vai tirar seu educando da passividade. E,
nos aproximando de Freire (1987), sobre a existência da prática neutra, consideramos
também que a pedagogia não o é, uma vez que é esta que dá a direção às práticas
educativas e formativas.
Ao utilizarmos a horta como ferramenta de ensino confiamos que podemos
conhecer a realidade da família do assentamento através dos alunos, e contribuir
de alguma maneira para a melhoria daquela realidade, considerando o que afirma
MORIN (2011, p. ) que “A condição humana deveria ser o objeto essencial de todo
o ensino. Conhecer o humano é, antes de mais nada situá-lo no universo, e não
separá-lo dele”.
O direcionamento curricular a partir da realidade social e cultural define a
pesquisa de cunho exploratório, pois como o referente acima, devemos explorar o
cotidiano, de modo que os alunos assimilem o conteúdo de matemática, e a coleta
de dados foi por meio de um relatório e um questionário aplicado a professora da
turma que resultou nesta produção.
A avaliação das questões e das interações com os estudantes durante a
realização da atividade se deu pela análise de discurso, a partir da linguagem dos
interlocutores, cuja linguagem individual e coletiva Orlandi (2009) define e caracteriza
“[...] como mediação necessária entre o homem e a realidade natural e social. Essa
mediação, que é o discurso, torna possível tanto a permanência e a continuidade
quanto o deslocamento e a transformação do homem e da realidade em que ele
vive” (ORLANDI, 2009, p. 15).
Com relação aos estudantes, identificamos o resultado do projeto de forma
positiva pelo envolvimento e criatividade dos educandos na hora da atividade, e
com relação à professora, o resultado foi de contribuição, segundo a mesma, essas
atividades contribuem de forma riquíssima com a aprendizagem das crianças.
Nessa percepção, reforçamos em nossa formação acadêmica a necessidade
de que nossas práticas futuras sejam recheadas desses sentimentos, para intervir
na formação de nossos educandos, tornando-os protagonistas de seu processo
de aprendizagem, de modo que esta esteja entrelaçada com a vida em sociedade.
Sobre isso também nos orienta os PCN:
[...] um currículo de Matemática deve procurar contribuir, de um lado, para a
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 11
107
valorização da pluralidade sociocultural, impedindo o processo de submissão
no confronto com outras culturas; de outro, criar condições para que o aluno
transcenda um modo de vida restrito a um determinado espaço social e se torne
ativo na transformação de seu ambiente (BRASIL, 2007, p. 25).
Com base nas orientações de Brasil (2007) nos deteremos a partir daqui a
relatar os detalhes desta atividade, elencando fatos e situações que nos serviram de
inspiração e contribuíram para resultados satisfatórios diante do que nos propomos
a realizar.
Relato da experiência
A priori conhecemos a escola, a turma, e fomos saber quais a dificuldades dos
alunos e o conteúdo que a professora estava trabalhando com os estudantes, bem
como as formas que ela desenvolve e quais recursos ela manuseia para as atividades
aplicadas em sala de aula. Embora, pensássemos ser esta uma metodologia
inovadora, mas não tínhamos a certeza de sua aceitação pelos educandos, a qual
consiste em esquecer o método tradicional e inovar dentro da sala de aula, fazendo
com que os alunos sejam o centro desse processo.
Contudo, ao colocá-la em prática, imediatamente observamos que os alunos
ficaram perplexos, pois queriam copiar ou estudar a tabuada, modelo tradicional
que a maioria dos professores ainda utiliza. Por um momento chegamos a ficar
intimidados, mas logo nos recompomos, e nos conduzimos na ação com empenho
e confiança, o que evidenciou a pertinência do projeto, a ponto de que os alunos se
envolvessem e se apropriassem da ideia a partir das situações problemas. Duas
dessas expressões que ilustram aquele momento são:
Professor, se são 40 frascos para o plantio, e se nós colocamos 3 sementes em
cada frasco, quantas mudas podem nascer? (Aluno A)
E, se nascerem todas as sementes, mas depois morrer a metade. Com quantas
mudas ficaremos? (Aluno B)
Com relação ao primeiro argumento, trabalhamos com a noção de probabilidade,
pois não sabemos exatamente quantas sementes germinarão, e com relação à
segunda, trabalhamos o cálculo de duas operações. Com a atividade, os alunos
souberam interligar a matemática com o plantio das sementes, resolvendo problemas
elaborados por eles mesmos.
Trabalhamos a multiplicação a partir da realidade dos educandos, pois todos
veem seus pais plantando mudas cotidianamente, por isso consideramos de suma
importância manter este método na escola e torná-lo rotineiro em aulas de áreas
rurais, uma vez que trabalhando com o cotidiano, qualquer disciplina pode adaptarA Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 11
108
se naturalmente.
Segundo a professora da turma as atividades realizadas por qualquer outro
professor, desde que seja planejada é de grande valor à aprendizagem dos alunos.
E, considerando que há vários níveis de aprendizagem numa classe, as inovações
e tecnologias educacionais contribuem diretamente para aprendizagem individual e
coletiva.
NOSSAS IDEIAS CONCLUSIVAS
A experiência de envolver a matemática no plantio de sementes foi bem
interessante, pois as crianças foram estimuladas a calcular a multiplicação a partir
do agrupamento das sementes, e esta contribuiu com aprendizagem das mesmas.
Tornar o ensino das escolas do campo mais propício e motivador aos estudantes,
obtendo resultados significativos, contribui para mudar a concepção de ensino
tradicionalista que ainda é muito forte atualmente.
O Projeto Político Pedagógico das escolas do campo deve ter a finalidade
de ser mais prática, cujas ações devem ser adaptadas a partir de recursos das
comunidades campesinas que possam auxiliar o currículo, bem como na formação
continuada dos educadores do campo, de modo a adequar-se às condições culturais
dos educandos.
REFERÊNCIAS
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Brasília: MEC/SEF, 1997. 142p.
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FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia. 37ª ed. São Paulo: Paz e Terra, 2008.
MINAYO, Maria Cecília de Souza (org.). Pesquisa Social. Teoria, método e criatividade. 18 ed.
Petrópolis: Vozes, 2001.
MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. Editora: Cortez. 2005.
RIBEIRO, Darcy. O processo Civilizatório: Etapas da Evolução Sociocultural. 10º ed., Petrópolis:
Vozes, 1987.
MACHADO, Carmem Lúcia Bezerra; CAMPOS, Christiane Senhorinha Soares; PALUDO, Conceição
(Orgs.). Teoria e prática da educação do campo: análises de experiências. Brasília: MDA, 2008.
236 p.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 11
109
CAPÍTULO 12
doi
NAS SAIAS DE IEMANJÁ: VOZES E SABERES
POÉTICOS DO FEMININO NA EDUCAÇÃO SENSÍVEL
UMBANDISTAS NA AMAZÔNIA
Data de aceite: 06/01/2020
Denise Simões Rodrigues
Universidade Do Estado do Pará, Departamento
de Filosofia e Ciências Sociais
Belém- Pará
Lívia Cristina Fonseca de Araújo Faro
Secretaria Municipal de Educação de Belém,
Diretoria de Educação
Belém- Pará
RESUMO: Este estudo, vinculado ao Programa
de Pós-Graduação em Educação, Linha de
Pesquisa de Saberes Culturais da Amazônia,
da Universidade do Estado do Pará, emergiu
da seguinte problemática: Como as dimensões
simbólicas e poéticas do feminino contidas em
narrativas do mito de Iemanjá na Umbanda
podem contribuir para a Educação Sensível de
filhas e filhos da Orixá? A perspectiva teórica
de análise dos dados coletados baseia-se em
Bachelard (1989), Cabrera (2004), Campelo
e Luca (2007), Castoriadis (1982), Duarte
Júnior (2001), Eliade (1991; 2016), Ferreira
(1994-95), Halbwachs (2004), Maffesoli (1998),
Ortiz (1999), Prandi (2001), Salles (2005),
Boaventura Santos (2010), Silva (2015),
Thompson (1995), Verger (2012) e Zumthor
(2010), ajudou compreender sobre memória,
cultura e educação sensível fora do espaço
escolar e elucidar experiências religiosas
como fenômenos culturais, considerando
uma ciência que valorize o senso comum e
os saberes marginalizados historicamente:
o mítico, o poético, o feminino e os da
tradição oral afrodescendente na Amazônia. A
pesquisa de campo qualitativa, de abordagem
etnometodológica (WATSON; GASTALDO,
2015), fez uso do método das poéticas
orais (FARES; PIMENTEL, 2014), a partir
da observação participante e de entrevistas
narrativas. Teve como sujeitos filhas e filhos da
Sagrada Orixá Iemanjá que participam como
membros de Umbanda, pretendeu ao ouvir
suas narrativas sobre a Grande Mãe, tecer uma
análise que torne possível a “mediunização”
entre o terreiro e a academia, na perspectiva
de contribuir na superação da visão dual do
pensamento moderno que separa sensibilidade
e racionalidade e, assim, deflagrar, para além
dos terreiros, vozes urdidas e silenciadas
historicamente.
PALAVRAS-CHAVE: Educação Sensível.
Iemanjá. Feminino. Poética Oral. Amazônia.
IN IEMANJÁ SKIRTS: VOICES AND POETTIC
KNOWLEDGE OF WOMEN IN UBANDIST
SENSITIVE EDUCATION IN AMAZON
ABSTRACT: This study, linked to the Post
Graduation Program in Education, in the
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 12
110
research line Cultural Knowledge of Amazon, of the Universidade do Estado do Pará,
emerges from the following problematic: How the symbolic and poetic dimensions of the
feminine, contained in narratives of the myth of Iemanjá in Umbanda, can contribute to
the sensitive education of daughters and sons of the Orixá? The theoretical perspective
that helped in the analysis of the collected data and in the elaboration of the thesis are
Bachelard (1989), Cabrera (2004), Campelo e Luca (2007), Castoriadis (1982), Duarte
Júnior (2001), Eliade (1991; 2016), Ferreira (1994-95), Halbwachs (2004), Maffesoli
(1998), Ortiz (1999), Prandi (2001), Salles (2005), Boaventura Santos (2010), Silva
(2015), Thompson (1995), Verger (2012) e Zumthor (2010) who will help to understand
memory, culture and sensitive education outside the school space and to elucidate
the religious experiences as cultural phenomena, considering a science that enriches
the comum sense and historically marginalized knowledge: the mythical, the poetic,
the feminine and those from the Afrodescendant oral tradition in Amazon. The field
research qualitative of ethnomethodological approach (WATSON; GASTALDO, 2015)
used the oral poetic method (FARES; PIMENTEL, 2014) from participant observation
and narrative interviews. It had as subjects daughters and sons of the Sacred Orixá
Iemanjá and those who participate as members of Umbanda, intend just listening to
its narratives about the Great Mother, to make an analysis that makes possible the
"mediumshipness" between the sacred space of the terreiro and the academy, with
the perspective of contributing to overcoming the dual vision of modern thought that
separates sensibility and rationality and thus to trigger, beyond the terreiros, voices
historically deformed and silenced.
KEYWORDS: Sensitive Education. Iemanjá. Female. Oral Poetics. Amazon
1 | TRILHAS DE CONCHAS: CAMINHOS DA PESQUISA
Esta investigação, parte integrante da dissertação de mestrado intitulada Entre
saias de espumas e trilhas de conchas: vozes e saberes poéticos do feminino
na Educação Sensível das filhas e filhos umbandistas de Iemanjá na Amazônia,
do Programa de Pós-Graduação em Educação, Linha de Pesquisa de Saberes
Culturais da Amazônia, da Universidade do Estado do Pará, emergiu da seguinte
problemática: Como as dimensões simbólicas e poéticas do feminino contidas em
narrativas do mito de Iemanjá na Umbanda podem contribuir para a Educação
Sensível de filhas e filhos da Orixá? Tal pergunta conduziu à reflexão sobre as
possibilidades de encontrar, dentro da academia, um espaço para o debate de uma
Educação Sensível, que se dá por meio da poética oral, da tradição narrativa, dos
sentidos, e ao movimento de pôr à escuta, na academia e na sociedade para além
dos terreiros, os saberes constitutivos das identidades que constituem o feminino
em mulheres e homens que se educam na Umbanda. Para me ajudar a responder
a esta pergunta, aponto as seguintes questões norteadoras: 1) Quais saberes
simbólicos do feminino estão presentes em narrativas da Orixá Iemanjá na Umbanda
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Capítulo 12
111
na Amazônia paraense? 2) Como esses saberes poéticos podem contribuir para a
formação da identidade de filhas e filhos da Orixá? 3) Como acontece o processo de
educação (do) sensível na concepção do feminino em filhas e filhos de Iemanjá na
Umbanda na Amazônia? Como objetivo geral esta pesquisa propõem-se a analisar
as dimensões simbólicas e poéticas do feminino contidas em narrativas orais de
filhas e filhos da Orixá Iemanjá na Umbanda na Amazônia Paraense. Concebe como
objetivos específicos: 1) Desvelar a importância do simbólico e do poético no mito
da Orixá para a educação (do) sensível da expressão do feminino nessas práticas
religiosas; 2) Identificar os saberes inscritos na estrutura das narrativas orais de
filhas e filhos de Iemanjá na Umbanda; 3) Elucidar como os saberes presentes nas
narrativas sobre Iemanjá contribuem para a educação (do) sensível de filhas e filhos
de Orixá na Umbanda.
A pesquisa de campo e documental é qualitativa, de abordagem
etnometodológica (WATSON; GASTALDO, 2015), fez uso do método das
poéticas orais (FARES; PIMENTEL, 2014), a partir da observação participante e
de entrevistas narrativas, de modo a perceber a linguagem poética, observando o
que Zumthor (2010) chama de "voz em presença", uma voz encarnada em toda a
estética narrativa ̶ corpo, entonação, silêncios, espaço, tempo ̶ que envolve uma
relação com o outro. Requisitou da pesquisa, por assim dizer, uma arqueologia,
a medida que busca indícios para enxergar a interpretação da realidade daquele
que porta a voz (FARES; PIMENTEL, 2014). Desafio possível esse de realizar uma
análise poético-sociológica a que se oferece. Teve como sujeitos filhas e filhos da
Sagrada Orixá Iemanjá e que participam como membros de Umbanda na região
metropolitana de Belém, e pretendeu ao ouvir suas narrativas sobre a Grande Mãe,
tecer uma análise que torne possível a “mediunização” entre o terreiro e a academia,
na perspectiva de contribuir na superação da visão dual do pensamento moderno
que separa sensibilidade e racionalidade e, assim, deflagrar, para além dos terreiros,
vozes urdidas e silenciadas historicamente.
A partir dessa abordagem, enfatizou o objeto de estudo como produto da cultura
e o analisou seguindo o raciocínio poético que o embasa na prática cotidiana ̶ os
traços culturais, as normas, os sistemas de crenças, os costumes, as tradições, os
hábitos e os padrões culturais dos grupos ̶ da qual os sujeitos participam. Assim
foi possível realizar uma pesquisa de campo ouvindo as vozes de filhas e filhos de
Iemanjá, acompanhando os rituais de terreiro, para tornar possível a análise de como
constituem as suas rotinas como descendente da Orixá. Ocupando-se também, com
as diferentes e múltiplas formas de como tais sujeitos, de uma sociedade específica,
contextualizada culturalmente ̶ o terreiro de Umbanda ̶ constroem o mundo social
em que vivem. A pesquisa teve como lócus uma casa de Umbanda, localizada em
Ananindeua, área periférica da região metropolitana de Belém, onde o trabalho de
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Capítulo 12
112
campo deu-se por três meses e meio em dois cultos públicos semanais. As Vozes do
Mar, como foram nomeadas as pessoas que colaboraram com suas narrativas para
este trabalho, são filhas e filhos da Iabá Iemanjá, inicialmente, apenas as/os que
faziam parte da Corrente da Tenta do lócus apresentado, mas o percurso da pesquisa,
solicitou ouvir o reverberar vozes de diferentes terreiros, portanto, de modos de
organização religiosa diferentes. Utilizou-se nesse estudo como técnica delimitadora
a análise não probabilística por acessibilidade e tipicidade. A produção de dados
foi realizada mediante a disponibilidade dos sujeitos em participar da pesquisa e
narrarem suas experiências como filhas e filhos de Santo. A perspectiva teórica que
ajudou na análise dos dados coletados está baseada em Bachelard (1989), Cabrera
(2004), Campelo e Luca (2007), Castoriadis (1987), Duarte Júnior (2001), Eliade
(2016), Fares e Pimentel (2014), Ferreira (1994-95), Halbwachs (2004), Maffesoli
(1998), Ortiz (1999), Prandi (2001), Salles (2005), Boaventura Santos (2010),
Thompson (1995), Verger (2012) e Zumthor (2010), que ajudaram a compreender
sobre memória, cultura e educação sensível fora do espaço escolar e elucidar as
experiências religiosas como fenômenos culturais, considerando uma ciência que
valorize o senso comum e os saberes marginalizados historicamente: o mítico, o
poético, o feminino e os da tradição oral afrodescendente na Amazônia, tendo a
sociologia como suporte a analisar o aspecto mítico do fenômeno na produção de
uma educação Sensível.
2 | POR UMA ECUCAÇÃO SENSÍVEL: UM MERGULHO PARA OUVIR AS VOZES
DO MAR
Iabá Iemanjá, útero etéreo, lugar do princípio, significa, vibra e guarda a geração
da Vida em si, isto é, Ela é a matriz, o ventre pelo qual passa a Criação. Do manancial
de sua força cria e desfaz. É calma e fúria. Tudo acomoda. Seu hálito fresco é
um refrigério que guarda vida e morte num infinito movimento (CABRERA, 2004).
Campbell (1990), afirma sobre quando se tem uma Deusa como Criadora “o próprio
corpo dela é o universo. Ela se identifica com o universo. [...]. Ela é toda a esfera
dos céus que abarcam a vida [...]. Tudo quanto você vê, tudo aquilo em que possa
pensar, é produto da deusa" (CAMPBELL, 1990, p.). Rosalira Oliveira (2005) lembra
que não há divisão, porque não se separa realidade divina da realidade material,
humana, que também é natureza divina, portanto, o princípio gerador feminino em
Iemanjá se funda como um modelo para Suas filhas e filhos, dando-lhes sentido de
ser e de se reconhecerem como tal. Daí a necessidade de os mitos precisarem ser
olhados e analisados sob um olhar histórico-religioso, como uma possibilidade de
explicar e justificar as condutas e comportamentos de um dado grupo. Esta ótica,
de acordo com Eliade (2016), permite superar a visão de mito como um desvio da
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Capítulo 12
113
natureza, da normalidade, do padrão e admiti-lo como um fenômeno cultural.
O mito é revelador da palavra criadora, primordial, que fundamenta a vida social,
embora racionalmente criticado pela sociedade devido a sua extrema subjetividade.
É, pois, o mito, uma criação sagrada que constitui o ser humano. Resulta disto a
importância de compreendê-lo. Segundo a audição das Vozes do Mar, o maternal,
princípio gerador, está, nessa perspectiva, para além da possibilidade ou desejo de
ser mãe no plano físico, mas sustenta as qualidades do Princípio Gerador da Vida,
em todo o seu processo de gerar e manter vida o tempo todo. O mito, como fica
evidente, constitui e regula o modo de ser dessas pessoas, independentemente de
seu gênero. Eliade (2016) provoca ainda a perceber e atentar para o tempo em que
o mito é cantado, narrado ou recitado, “[n]um lapso de tempo sagrado”, pois que é
nesse tempo quando os entes Sobrenaturais – o próprio sagrado – são convocados
à presença pela palavra.
Na Umbanda, no momento ritual, Iemanjá é evocada pela narrativa do Ponto
cantado. Sendo assim, é indispensável olhar a poética da voz, da palavra sagrada,
do verbo criador, primordial pronunciada pelos filhos da Iabá sobre sua Grande
Mãe. A voz, por suas características de maleabilidade, por ser ponte entre as
realidades, mostra-se como uma interessante expressão para o desejo de mediação
a que este trabalho se propõe. O verbo, voz poética, palavra primordial, a matéria
mãe-complacente de maior plasticidade no mundo físico é pois, que conduz a
educação no terreiro. O basilar sobre o feminino em Iemanjá a que se dedica este
estudo é o Princípio divino criador em seu caráter: gestador, gerador, acomodador,
maternal, revelado em sua própria materialidade de seu Reino: o Mar. Princípio
que Bachelard (1989) nomina de “a água maternal e a água feminina”, portanto,
como princípio criativo feminino, a Orixá constrói as identidades de Suas filhas e
de Seus filhos, Seus descendentes. A água é substância materna, não obstante,
abranda, refresca, dá vida, nutre, lava, proporciona saciedade, bem-estar e paz,
o alimento sem esforço, Grande Mãe. A Saia-Mar da Deusa, portanto, congrega
todas as significações já mencionadas e as inalcançáveis pela condição humana.
A Saia, nas narrativas míticas da tradição Yorubá em que Iemanjá cria a noite e
em que repreende Xangô, para além da vestimenta da Mãe, é Ela a própria Mãemar transfigurada, é o Reino manifesto, gerador do conforto, criador e acomodador
das polaridades, impositor de seus limites. O imaginário, portanto, grita entre os
que persistem firmemente em mostrá-lo, brota feito olho d’água, incontrolável, se
derrama pelas frestas impossíveis de calafetar. O imaginário irrompe a vida dos
homens e das mulheres, o Princípio ancestral pulsa fulgurante nas células, ainda
que negado. Não é mais suficiente, como lembra Maffesoli (1998), nos rendermos à
exigência platônica de elevar o sensível ao inteligível. A vida nos impulsiona à busca
da relação ecológica, por assim dizer, entre afeto e intelecto, daí a necessidade
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114
de que as Vozes do Mar, vocalizadas da vivência e do senso comum, negadas na
modernidade, guardem o mesmo status que a cientificidade, que os demais autores
reconhecidos e legitimados academicamente. O que o autor chama “o sim” a tudo
que vive, que pulsa nas relações sociais, carregando aí o “programa da incerteza”,
do desconhecido, do imaginado, do que não é dado, o imprevisível. A transformação
das experiências sensíveis de filhas(os) de Santo cuja coroa pertence à Orixá Mãe
em narrativa (um texto, uma codificação inexata) e estas, por sua vez, em análise/
apreciação numa dissertação (outro texto, outra codificação inexata) requer perfazer
o caminho apontado pela leitura de Ferreira (1994-95) a respeito dos pressupostos
de Lotmam sobre cultura como informação, codificação, transmissão e memória.
Cada uma dessas tarefas, quer das Vozes do Mar, quer da pesquisadora, se colocam
a serviço de uma tradução de um sistema de signos. Uma tradução possível do
vivido pelo sensível e pelo inteligível – que cria potenciais patrimônios memoriais,
mas também que é criado sob o efeito de outros. Ao narrar, o texto vocalizado cria
a realidade. Muitas dessas imagens intraduzíveis, aparentemente disformes, sem
nexo e que, por isso, não entram na narrativa, porque não ganham significação,
mas, mesmo que não entrem, vivem e alimentam a narrativa, constroem o clima
narrativo porque compõem a experiência sensível. Vivem no narrado o dizível e o
indizível, a memória e o esquecimento, o dito e o interdito, a palavra e o silêncio e,
entre as aparentes dualidades, desdobra-se outras, como caleidoscópio. A vivência
traduzida pelo pensamento binário nesse contexto, portanto, não se divide em
dois, mas é múltipla. O que não foi traduzido, não se adere ao tecido grupal e,
portanto, é esquecido. Carlos Rodrigues Brandão (2002), ensina que a educação
é um processo e que ao participar de “eventos culturais fundadores de práticas
sociais”, nós (re)criamos a nós mesmos e a essas práticas, por meio da dimensão
pessoal e coletiva. Em vista disso, a “interação (muito mais do que de “estocagem”)
de afetos, sensações, sentidos e saberes, algo mais e mais desafiadoramente denso
e profundo destes mesmos atributos” (BRANDÃO, 2002, p. 26), o motivo e o sentido
desse processo. Entre a situação, as pessoas e o grupo, sendo assim, aprendemos
a ser quem somos e produzimos os modos de ser do grupo.
A educação, nessa acepção, é como um processo criativo que compreende
a interação com o outro e com as formas simbólicas fundantes das e nas relações
socioculturais. Uma educação como trans-curso, como a passagem que se dá em
um determinado contexto sócio-histórico, em um determinado tempo, e que carrega
outros tempos e outros contextos, conforme a necessidade e escolhas individuais
e coletivas da comunidade, portanto, um processo de aprender a ser e aprender
a ser com o outro. Ao falar de educação dentro de um terreiro de Umbanda,
a pesquisa carreia o foco para, fora do contexto escolar, ocupar-se dos saberes
sensíveis que afetam e são afetados, constroem e são construídos pelas Vozes do
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Capítulo 12
115
Mar na comunidade religiosa em questão. Um saber, como alumia Maffesoli (1998),
enraizado no senso comum, no afetual, no emocional da comunidade. Um saber
encarnado no corpo, cuja organicidade cria e é criada pelo corpo social, enraizado
tanto quanto movente na memória social.
Este paradoxo saber, despe-nos do conforto usual, o põe a toda prova e se
propõe à recusa ou, no mínimo, à tensão do paradigma dominante convencionado
na ciência e na educação. Segundo Maffesoli (1998), requer de nós coragem
para desapegar do conhecido das velhas superstições do modo de aprender para
“arriscar”, subverter à ordem, dar-se ao inesperado, impalpável, reconhecendo,
assim, o afeto e o intelecto em um mesmo nível, mais do que isso, reconhecendo a
comunhão entre eles. É um “saber afectual”, que se apresenta se não pela metáfora.
A metáfora, carregando as imagens vivas, faz o “transporte dos sentidos” e, embora
não seja possível a explicação racionalista para a vivência no terreiro de Umbanda,
como repetem em uníssono as Vozes do Mar, unidas, palavra e imagem, erguem
a metáfora, para nomear o improvável com suas potências de criação e intuição.
Mostra-se uma Educação Sensível pela qual aprendem e passam a relacionar-se
com o sagrado, consigo e com o mundo de maneiras diferentes.
A perspectiva de contribuir com essa pesquisa para uma educação mais aberta
à vida cotidiana, a propósito de “reencantar o mundo”, na tarefa mesma de educar,
encontra no sentido como matriz, como o canal que inaugura a experiência espiritual,
é um princípio na Umbanda, um modo de acessar os fundamentos religiosos. Ao
enunciar que sobre a deidade se fala por imagens emocionais – por metáfora – reitera
o que dizem as(os) filhas(os) de Santo quando narram o possível de suas vivências,
uma vez que estas são um jorro de imagens imprecisas. Maffesoli (1998, p. 149) em
sua análise juntando as pontas entre o insondável e o social: similar a isso, “do social
não se pode falar senão por evitação, por alusão de maneira indireta.”. É por isso
que a metáfora é tão cara para nós, porque oferece incerteza no trato com a vida.
Ao narrar, essas Vozes contam também de sua relação com o organismo social vivo.
Considerando as intenções deste trabalho de “mediunizar” entre esses dois espaços
sociais de conhecimento (academia e terreiro) e, para além, reconhecer a conexão
entre eles, bem como a de contribuir com uma educação mais ampla e inclusiva, é
irremediável constatar para atingir tal percurso a necessidade de enxergar e entender
a mediação entre o saber sensível e o conhecimento intelectivo na construção das
identidades das Vozes do Mar, afinando-se pois, com a posição de Duarte Júnior
(2000) que aponta a pertinência de ambos complementarem-se.
3 | NAS SAIAS DE IEMANJÁ: SABERES POÉTICOS DO FEMININO
Assumindo essa proposição de mediunizar entre o terreiro e a academia, para
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 12
116
tornar visível dentro desse universo acadêmico uma centelha do vivido, a pesquisa
apresenta os saberes dionisíacos, porém, não sem recomendar um leitura entregue às
Vozes do Mar, deixando que elas alimentem o imaginário do leitor, para que encontre
saberes consoantes a ele. Assim expõe os 4 (quatro) saberes sensíveis trazidos
pelas Vozes do Mar, por meio de signos bastante conhecidos, os três primeiros
metaforizam o fluxo da onda do Mar, o outro, a navegação. A saber: Para formar a
onda: o saber da criação. Quando o sopro (da vida, o início ̶ Olorum) faz vibrar e
mover suas moléculas, o Mar cria a forma: a onda. Diretamente ligada ao princípio
gerador, a Mãe Sereia e seus descendentes geram, dão forma, não apenas ao filho
no corpo físico, mas formas novas: projetos, ideias, expressões artísticas, resolução
de problemas (característica muito forte de seus descendentes). É um saber de gerar
no sentido de principiar, criar. Para mover a onda: o saber da espera. A confluência
de energia da água e do vento se articulam numa combinação para crescer e mover
as ondas, que podem encontrar outras forças, que podem aumentá-las ou destruílas antes de chegarem à praia. O paradoxo da espera não guarda estaticidade, a
espera é movente, como a onda, porém, aguarda o tempo daquilo que não é possível
mover por si mesma: a outra onda que a ela se junta ou a desfaz, um nova rajada de
vento... É a entrega à que as Vozes do Mar, em unanimidade, ecoaram. Há espera
para trazer ao mundo sua criação, há espera para gerar as formas no tempo mais
ecológico possível, há espera pelos tempos internos e externos da criação, de esperar
os filhos voltarem para casa, esperar a enchente, esperar a vazante, há a espera do
tempo do outro (nascer, viver, caminhar). A maternidade carece e exige um tempo e
espaço de espera. Para quebrar na praia: o saber do cuidar. É, por assim dizer,
a qualidade mesma do acolher, do proteger. É onda quebrando na praia: ao mesmo
tempo que deixa presentes-conchas, solta sua criação, abraça a areia para dentro
de si, lambe e suga o que a força da espera entregou. A mãe que coloca no colo,
nesse movimento de acolher, cuidar e proteger, em que pese a insegurança da areia
sumindo sob os pés ou o banzo da onda nova que chega de surpresa. O princípio
que gera, cria, espera, cuida, entre preamar e baixa-mar, carreia saberes sensíveis
em um mar-caleidoscópio: seus elementos mudam de posição e criam diferentes
imagens ao menor movimento. E as filhas e os filhos da Iabá não apenas vivem este
movimento por ser sua natureza, mas o buscam porque o movimento é o que funda
todos os saberes. O movimento nada mais é que para navegar no mar: o saber
do fundamento de ciclo. Este é o fundamento do próprio mar: um ciclo incessante.
Então, a busca do princípio do ciclo é a busca do equilíbrio, é onde se mantém, onde
se encontram os saberes que traduzidos pelo estudo. Metaforizando a vivência do
movimento da vida: o fundamento do ciclo, a Voz do Mar Inaê, relembra o conselho
do Guia Marinheiro pertencente à Linha de Iemanjá, sobre como conduzir a vida,
ancorada pelos princípios descendidos da Deusa, quando anuncia que precisava
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Capítulo 12
117
aprender a navegar no intermitente Mar de sua Mãe: “Quando ele foi me dar o axé,
ele disse: 'Feche os olhos e sinta o mar da sua Mãe, Ela vai lhe ensinar a navegar
em águas revoltas e águas calmas e você não vai mais ter medo!”. Uma chave, o
saber de navegar sobre o mar da vida lhe foi oferecida para usar em seu cotidiano.
O aprendizado dos Fundamentos da Mãe passa a ser vivo, cotidiano, constituindo do
modo em que ela conduz seu destino. Ao incluir um e outro aspecto da vida, a filha
de Santo se acalma, se aconchega nos braços da Mãe, porque assente tudo que é.
Entrega-se totalmente à sua origem e passa pelo momento de dor sem desequilíbrio,
sem sucumbir como seria de seu movimento habitual. Manter-se no Princípio de ciclo
é onde se encontra o equilíbrio das filhas e dos filhos de Iemanjá enquanto criam,
esperam e cuidam. Essas dimensões simbólicas e poéticas reveladas na pesquisa
pelas Vozes do Mar, traduções metafóricas das vivências narradas por elas em sua
performance, e as traduções da pesquisadora a partir da experiência no terreiro e
da escuta dessas vozes, foram vividas pelo e a partir do sentir e contribuem para
a construção de sua identificação como descendentes da Orixá, pelas vias de uma
razão sensível. Esse processo acontece a partir da vivência da palavra Sagrada, do
verbo primordial, ou seja a vivência da Orixá, assim como pela evocação e vocalização
sobre tal vivência que desperta a compreensão pessoal e coletiva do fenômeno. A
vivência se dá, inicialmente, pelo contato com o jorro de imagens, pelos sentidos
conhecidos ou não. Depois, às partilhas nas vivências com os irmãos de Santo,
deu significado e ancoram, por uma razão sensível, o entendimento que tornam a
vivência significativa em suas práticas cotidianas. O saber sensível da vivência de
in-corpo-oração incorpora-se na vida das filhas e filhos de Mamãe Sereia.
O aprendizado no e do terreiro de Umbanda, portanto, não acontece de uma
forma racionalmente organizada. Tais saberes apresentam a presença de uma
estética própria do e no terreiro de Umbanda, uma estética que educa. Nessa
estética do e no terreiro de Umbanda, onde a estesia (estética) conduz à educação, à
metáfora, ao poético, é um fio condutor para a construção das identidades de filhas e
filhos da Orixá. Na Umbanda na Amazônia Paraense, os saberes do feminino estão
ligados diretamente ao Princípio Gerador da Vida, cuja tradução mais significativa
para a humanidade é a maternidade. Essa experiência constitui os saberes que
fazem filhas e filhos se reconhecerem descendentes de Janaína, que os assenta no
fundamento Dela, já que vivem a Orixá em seu corpo, o que torna o saber encarnado.
As imagens da Grande Mãe evocadas neste trabalho, entretecidas de simbolismo,
provocam a um mergulho nas Águas da tradição afro-brasileira na perspectiva de
encontrar esses fatores não ditados pelo real, do ponto de vista funcional, mas pelo
imaginário. E é nesse imaginário que, como aponta Castoriadis (1987), a sociedade
encontra o complemento necessário para a sua ordem. No terreiro de Umbanda o
processo de educação se dá por todos os sentidos vividos/experimentados quando
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 12
118
as histórias são narradas pela voz ou pelo ritual, quando todo o conhecimento passa
pelos sentidos, se constituindo como uma educação (do) sensível para lembrar
Duarte Júnior (2000) e, por isto, ganha impressões profundas e profusas em sua
constituição das identidades de filhas e filhos de Iemanjá Umbanda.
REFERÊNCIAS
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Programa Raízes, 2005.
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Capítulo 12
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CAPÍTULO 13
doi
O CADERNO VIRTUAL NO CONTEXTO DE LIBRAS NA
FORMAÇÃO DE PEDAGOGOS
Data de aceite: 06/01/2020
Keila Moura Grassi
kmgrassi.76@gmail.com
RESUMO: Este artigo objetiva apresentar a
utilização de uma ferramenta midiática para a
formação docente. Com o advento da internet
e a evolução das Tecnologias Digitais da
Informação e Comunicação permitiram que o
processo de ensino/aprendizagem não ficasse
limitado apenas aos recursos tradicionais
em salas de aula. A proposta desta pesquisa
perpassou pela necessidade de reverberar como
um instrumento que se utiliza de processadores
de texto, contribuiu na aplicação virtual de
uma Oficina Online de Introdução à LIBRAS
na formação de pedagogos. Objetivou-se
verificar, através da metodologia de abordagem
qualitativa e a análise de conteúdo da aplicação
do Caderno Virtual numa plataforma online e
de um questionário também aplicado nesse
repositório à relevância e aplicabilidade deste
objeto como uma nova mídia digital educativa,
promovendo argumentos e possibilidades de
interação professor/aluno-cursista a formação
docente. Constatou – se que tal ferramenta,
apesar de algumas dificuldades de acesso
e interação, será muito útil na formação
pedagógica, apostando na aplicabilidade
produtiva e eficaz, não só na formação docente
como na sua prática em sala de aula com seus
alunos, poiso Caderno possibilita adequações
para qualquer área, além de oficinas cursos e
minicursos.
PALAVRAS-CHAVE: Mídia digital educativa.
Caderno Virtual. Língua de Sinais. Formação.
VIRTUAL NOTEBOOK IN THE CONTEXT OF
POUNDS IN PEDAGOGICAL TRAINING
ABSTRACT: This article aims to present the use
of a media tool for teacher education. With the
advent of the internet and the evolution of Digital
Information and Communication Technologies,
the teaching / learning process was not limited
to traditional classroom resources only. The
purpose of this research was the need to
reverberate as a tool that uses word processors,
contributed to the virtual application of an Online
Workshop of Introduction to LIBRAS in the
training of educators. The objective was to verify,
through the qualitative approach methodology
and content analysis of the application of the
Virtual Notebook in an online platform and a
questionnaire also applied in this repository to
the relevance and applicability of this object
as a new educational digital media, promoting
arguments and possibilities of teacher / studentstudent interaction teacher education. It was
found that, despite some difficulties in access
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 13
120
and interaction, such a tool will be very useful in the pedagogical formation, betting on
the productive and effective applicability, not only in the teacher formation but also in
its classroom practice with its students. adaptations for any area, besides workshops
courses and short courses.
KEYWORDS: Educational digital media. Virtual notebook. Sign language. Formation.
1 | INTRODUÇÃO
Esse artigo perpassou pelo tema de estudo sobre mídias digitais nas práticas
educacionais e desenvolvimento das bases práticas e teóricas de uma mídia
educacional, denominada Caderno Virtual, desenvolvida na Especialização em
Produção de Mídias para Educação Online (UFBA/UAB), por um grupo de discentes,
guiados pelo Tutor Luís Cerqueira, que nos apresentou essa ideia considerando
reflexões sobre a produção de uma mídia baseada no uso incomum de processadores
de texto, para trabalhar na perspectiva de formação do pedagogo, a fim de dinamizar
o estudo de conteúdos numa Oficina de Introdução à LIBRAS online, para estudantes
de Pedagogia.
O tema escolhido versou sobre a linha de pesquisa: Ambientes de
Aprendizagem: novas Linguagens e Tecnologias no Ensino. Esta escolha permeou
a discussão de se produzir uma ferramenta através de um processo coletivo no uso
de processador de texto, proporcionando a interação digital durante sua utilização,
caracterizando-a por ser uma mídia possivelmente inovadora e acessível aos sujeitos
do âmbito educacional.
Com base no tema escolhido, estudo das mídias digitais nas práticas
educacionais, o artigo em questão integra esforços de um grupo de estudantes que
almejam construir exemplares contextualizados desta nova mídia educacional –
Caderno Virtual, que viabilize a sua aplicação na educação, em diversas e específicas
áreas de acordo com o campo de atuação de cada um, contando com a atuação em
grupo via WhatsApp, youtuber e presencialmente.
O Caderno Virtual – CV é um conjunto de documentos criados em
processadores de texto que tem por função ser um material didático voltado à
mediação de processos de aprendizagens, tais como aulas, treinamentos, oficinas
dentre outras, que possui um tema central, onde sua construção é feita com uso
do que temos chamado por “unidades de CV”, como: Caixa de texto; fragmento de
texto para fixar; links para acesso externo, vídeos, podcast, dentre outros recursos.
Deve ser construído em paralelo ao desenvolvimento de estratégias de aplicação e
levando em consideração amplo espaço para expressão, interação e colaboração
entre os sujeitos envolvidos, conforme afirma Cerqueira:
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 13
121
Um novo recurso educacional agregando diversos recursos midiáticos,
viabilizando a construção do conhecimento conjuntamente entre o docente e o
aluno, possibilitando também a criação de um roteiro singular para manejo de
conteúdos curriculares, para tornar o acesso ao caderno possível em qualquer
lugar, utilizando meios digitais para difundir o conhecimento. É um convite para
autoria docente e discente. Permiti que o alunado interaja, inserindo suas ideias
dentro dos espaços editáveis dos cadernos, proporcionando maior interação e
prazer na aprendizagem, baseando - se no caderno convencional físico, sendo
adaptado para o ambiente virtual (CERQUEIRA et al., 2018).
O advento da internet e a evolução das TDIC permitiram que o processo de
ensino/aprendizagem não ficasse limitado apenas aos recursos tradicionais em
salas de aula, conduzindo mudanças na área educacional. Sendo assim, segundo
Uliano (2016), a tecnologia ganha espaço como ferramenta importante no cotidiano
escolar. Por meio da informação, o professor pode propor alternativas que busquem
a socialização e interação dos alunos no processo de ensino e aprendizagem.
E para que tais mudanças acontecessem surgiu a necessidade de refletir sobre
práticas pedagógicas inovadoras que possibilitem melhor qualidade desta práxis,
nesse sentido, Caderno Virtual traz uma proposta potencialmente inovadora da
utilização de processadores de texto como ferramenta didática voltada à mediação
de processos de aprendizagens, tais como aulas, treinamentos, oficinas, cursos e
minicursos.
Almejando que o uso dessa mídia enriquecesse a teoria pedagógica e a
formação dos futuros pedagogos, principalmente, no caso desta pesquisa, no que
tange a Língua de Sinais, levando em consideração amplo espaço para expressão,
interação e colaboração entre os sujeitos envolvidos, objetivou-se analisar a
aplicabilidade do produto construído. Portanto, o objetivo deste artigo foi analisar a
relevância e aplicabilidade do Caderno Virtual como recurso didático-pedagógico em
cursos para a formação de professores num ambiente virtual, elaborou-se uma mídia
através de um processador de texto, formando um conjunto de atividades para uma
oficina virtual com estudantes de Pedagogia, apresentou-se a LIBRAS.
Através do CV construído, verificou-se a interação do público-alvo na participação
da oficina online. Através da proposta deste e de um pequeno questionário, buscouse entender a pertinência desse tipo de mídia em cursos para a formação de
professores. Versamos no entendimento do que é o Caderno Virtual, como uma
mídia digital, sua aplicabilidade, interatividade e inovação na educação online e na
formação de profissionais da educação, bem como modelo híbrido de educação.
2 | FUNDAMENTOS TEÓRICO-PRÁTICOS
Antes de conceituar o Caderno Virtual como uma mídia para educação,
precisamos entender o significado de como este pode se tornar uma mídia. Mídias
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 13
122
é um termo usado para referenciar um vasto e complexo sistema de expressão e
de comunicação. Na atualidade, mídias é uma terminologia usada para: suporte
de difusão e veiculação da informação como rádio, televisão, jornal para gerar
informação através de máquina fotográfica e filmadora. A mídia também é organizada
pela maneira como uma informação é transformada e disseminada, mídia impressa,
mídia eletrônica, mídia digital, além do seu aparato físico ou tecnológico empregado
no registro de informações (Almeida, 2018).
“No que se refere à área educacional, a mídia esteve sempre presente na
educação formal, porém, não raras vezes, sofreu certa resistência, em relação
a sua aplicação na escola. Porém, o impacto social causado pela penetração
da tecnologia de informação e comunicação (TIC) nos últimos anos, ocasionou
intensas transformações nas principais instituições sociais. A família foi invadida
pela programação televisiva em seu cotidiano, a Igreja se rendeu ao caráter de
espetáculo da TV, a escola que pressionada pelo mercado utiliza a informática com
um fim em si, e a essas influências se associa à Internet, com intensa possibilidade
de uso.” (DORIGONI e SILVA, 200, p.2)
O conceito de mídia digital refere-se a qualquer material que utiliza um
computador ou equipamento digital para criar, explorar, finalizar, ou dar continuidade
a um projeto que tem como suporte a internet, comunicação online ou off-line,
produção gráfica, videogames, conteúdos audiovisuais e afins (ALMEIDA, 2018).
Nesse entendimento, podemos pensar que o Caderno Virtual pode sim ser uma mídia
educativa, pois muitos dos elementos citados por Almeida contemplam tal afirmação
e sendo considerada uma mídia digital educativa, devemos entender agora o que é
essa nova ferramenta.
Como já citado, o Caderno Virtual – CV é um conjunto de documentos criados
em processadores de texto que contêm múltiplas atividades, dispostas através de
vídeos, podcast, imagens, charges, links, podendo ser utilizado de forma colaborativa
e interativa pelos usuários, possibilitando a criação de um roteiro singular para manejo
de conteúdos curriculares, onde os envolvidos têm um direcionamento, utilizando
recursos móveis (smartphone, tablets, notebooks e outros) para tornar o acesso ao
caderno possível em qualquer lugar, sobretudo em ambientes virtuais, como blogs,
salas de aulas online interativas, Moodle e afins. Segundo Cerqueira, et al (2018), “é
um instrumento de interação professor-estudante, objetivando a aprendizagem de um
tema específico, apresentando roteiros curriculares de forma lúdica e interativa”. De
acordo com Manovich (2001. p. 55), o conceito de interatividade é tautológico, visto
que as modernas HCI (Human Computer Interface) são, por definição, interativas,
ao contrário das interfaces mais antigas como as de processamento de dados. Já
as modernas interfaces humano/computador permitem ao usuário controlar a mídia
em tempo real pela manipulação da informação mostrada na tela. Assim, uma vez
que o objeto está representado em uma mídia, Manovich sustenta que esse objeto
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 13
123
se torna interativo.
Para Primo (1997,1998, apud Primo 2003. p.2), “a interação é uma ‘ação entre’
os participantes do encontro (...) o foco se volta para a relação estabelecida entre os
interagentes, e não nas partes que compõem o sistema global”. E assim entendendo
interação, a proposta do autor é buscar na comunicação interpessoal sua base
de análise, a partir de uma abordagem que ele denomina sistêmico-funcional.
Nesse caso, o que importa é, segundo o próprio autor, “investigar o que se passa
entre os sujeitos, entre o interagente humano e o computador, entre duas ou mais
máquinas.” Portanto, concepções de comunicação calcadas em modelos como o
transmissionista, ou em quaisquer dos elementos individualmente compreendidos
neste modelo, estariam fora da linha de abordagem do autor. Laborando sobre
esse novo recurso educacional e refletindo o conceito de inovação, nos deparamos
com as considerações de Menezes, Campos e Ribeiro, (2012), que dependendo,
principalmente da sua aplicação, a inovação pode ser considerada como exploração
com sucesso de novas ideias. Dentre as várias possibilidades de inovar, aquelas que
se referem as inovações de produto ou de processo são conhecidas como inovações
tecnológicas.
As informações e inovações encontram-se disponíveis nos ambientes virtuais
via rede, produzindo uma infinidade de dados que precisam ser compreendidos,
discutidos e trabalhados coletivamente, para serem apreendidos criticamente. É
possível afirmar que as Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação - TDIC
podem levar à constituição de ambientes colaborativos inovadores. A respeito disso,
Lemos e Cunha (2003, p.13) acrescentam:
Vivemos uma nova conjuntura espaço-temporal marcadas pelas tecnologias digitais
telemáticas onde o tempo real parece aniquilar, no sentido inverso à modernidade,
o espaço de lugar, criando espaços de fluxos, redes planetárias pulsando no
tempo real, em caminho para a desmaterialização dos espaços de lugar. Assim na
cibercultura podemos estar aqui e agir à distância. A forma técnica da cibercultura
permite a ampliação das formas de ação e comunicação sobre o mundo.
Dessa forma, existem diversos pontos relevantes para dimensionar um
trabalho que reúna o processo de ensino-aprendizagem nas escolas por meio da
tecnologia, estudos mais recentes desconstroem os estereótipos da educação
tradicional e reconstroem no mesmo meio uma mistura personalizada do ensino e
do aprendizado utilizando as tecnologias, conforme dimensiona Bacich, Tanzi Neto,
Trevisani, (2015). Essa junção denominada de ensino híbrido, dinamiza cenários
diferenciados para que os estudantes desenvolvam, com melhor aproveitamento
dos conteúdos, as suas capacidades. O ensino híbrido destaca a interação do ser
humano com as tecnologias, assim, essa mistura não necessariamente precisa
acontecer entre quatro paredes, ela pode ser adaptada a qualquer ambiente.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 13
124
Neste caso, incluímos o CV elaborado no Google Classromm (https://classroom.
google.com/c/MTYwMTUyMTY5MjRa). Nos últimos anos, a Google tem lançado e
melhorado ferramentas de suporte tecnológico nas mais diversas áreas. No campo
da educação, o destaque está no Google Sala de Aula que oferece um conjunto de
ferramentas de comunicação e produtividade destinadas a promover a colaboração
e criatividade, conforme afirma Witt (2015). E nesse universo digital, disseminar a
importância da LIBRAS para a formação do pedagogo é imprescindível.
Para Campello (2009, p. 40) “a cultura surda deve ser inserida nos currículos
escolares”, aqui sendo entendida enquanto representação linguística, que apresenta
a necessidade da construção da identidade de uma comunidade, que se manifesta
através de valores, atitudes e vivências sociais. Um personagem fundamental na
elaboração e execução de uma prática pedagógica inclusiva é o professor, pois ele
está diretamente lidando com os desafios do processo de ensino e aprendizagem,
sendo detentor de saberes e conhecimentos teórico-metodológicos que fundamentam
a sua prática de sala de aula, assim há a necessidade de que o docente busque em
sua trajetória de trabalho, recursos e estratégias didático-pedagógicas que incluam
toda a clientela, seja ela ouvinte ou surda.
Destaca-se que as tecnologias contribuem muito com a disseminação da
LIBRAS, pois através dela tanto os ouvintes quantos os surdos podem compreender
a Língua de Sinais com toda sua estrutura. A criação de Softwares Educacionais
em língua de sinais e em escrita de sinais é um dos recursos que ajudam nessa
compreensão. Reforçando, Stumpf (2010, p. 02) acrescenta:
Do ponto de vista dos surdos o uso do computador e da Internet inaugurou uma
nova dimensão às suas possibilidades de comunicação, pois são tecnologias
acessíveis visualmente. Se, para os ouvintes, elas abriram perspectivas que
levaram a modificações profundas nos usos e costumes de toda a sociedade, para
os surdos, essas mudanças podem ser ainda mais significativas.
De acordo ainda com Marchesi (2004, p. 48) “Os bons professores manifestamse com mais facilidade nas escolas que dispões das condições adequadas para
apoiar o esforço de cada professor e para criar um ambiente de colaboração”. Assim,
a criação de uma ferramenta educacional que ajude o pedagogo na sua formação de
forma enriquecedora e produtiva fortalece sua práxis.
3 | METODOLOGIA
Sabe-se que a escola deve ser um espaço democrático de interações entre
saberes, favorecendo a aprendizagem em qualquer modalidade, considerando ainda
a diversidade cultural de sua clientela, revelando-se um espaço de inclusão. Para
alcançar os objetivos propostos nesse artigo, foi utilizada a metodologia de análise
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 13
125
de conteúdo de abordagem qualitativa. Segundo Godoy (1995):
A pesquisa qualitativa envolve a obtenção de dados descritivos sobre pessoas,
lugares e processos interativos pelo contato direto do pesquisador com a situação
estudada, procurando compreender os fenômenos segundo a perspectiva dos
sujeitos, ou seja, dos participantes da situação em estudo. Visando à compreensão
ampla do fenômeno que está sendo estudado, considera que todos os dados da
realidade são importantes e devem ser examinados. (GODOY, 1995. p.58)
Para Moraes (1999), a análise de conteúdo constitui uma metodologia de
pesquisa usada para descrever e interpretar o conteúdo de toda classe de documentos
e textos, que vai além de uma leitura comum.
Para a fundamentação teórica, foram utilizados textos que abordavam o conceito
de mídia/digital, um texto colaborativo explanando sobre o que é Caderno Virtual,
perpassando pela interação e interatividade, discutindo um pouco sobre educação
híbrida e por fim contextualizando a LIBRAS.
3.1 Produção da Mídia
Buscou-se criar uma mídia que contribuísse para a formação docente através
de uma oficina de introdução de LIBRAS com alunos do Curso de Pedagogia da
UNEB e sua aplicação para a área do conhecimento da Língua de Sinais, foram
produzidas atividades interativas com conteúdos relacionados à língua dos sujeitos
surdos, servindo-se das ferramentas existentes num processador de texto formando
um Caderno Virtual. É iniciado com um podcast introdutório explicando o conteúdo
proposto, um breve histórico sobre a Língua de Sinais, apresentação do Alfabeto
de Sinais e atividades correlatas para aprimoração, números em LIBRAS, também
com atividades correlatas, além de vídeos explicativos e textos para conhecimento e
reflexão do cursista (figuras 1 e 2).
Figura 1: início do CV
Fonte: A autora
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 13
126
Figura 2: final do CV
Fonte: A autora
O Caderno Virtual foi depositado no repositório do Google Classroom - https://
classroom.google.com/c/MTYwMTUyMTY5MjRa, ambiente online muito interessante
de trabalhar com aulas interativas. Essa sala de aula virtual possui espaços para
que o professor/oficineiro possa anexar suas atividades/tarefas, com prazos e notas
avaliativas caso queira, mural para postar mensagens e o espaço das pessoas, onde
ficam registrados os e-mails dos alunos/cursistas convidados para a sala virtual. Os
mesmos podem interagir nas atividades e tarefas propostas, respondendo o proposto
e dando a devolutiva no mesmo ambiente (figuras 3), foi adicionado também a este
ambiente um questionário simples, com 5 perguntas, para a análise das impressões
dos cursistas.
Figura 3: Tela do Ambiente Virtual
Fonte: A autora
A partir da produção da mídia houve a motivação da escrita deste artigo científico
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 13
127
com todas as observações e reflexões da proposta em relação à concretização do
Caderno Virtual e sua aplicabilidade.
4 | RESULTADOS
Após todo o percurso metodológico na construção do Caderno Virtual como
possibilidade de uma mídia inovadora na perspectiva de formação docente, o
ambiente utilizado para depositar a mídia construída foi muito importante para a
investigação da aplicabilidade do Caderno Virtual como recurso didático-pedagógico
em cursos para a formação de professores num ambiente virtual, sendo este o
objetivo principal desta pesquisa.
O acesso à sala virtual Google Classroom foi através de convite impetrado há
alguns futuros pedagogos e estendido para alguns amigos que tiveram interesse em
descobrir como funcionaria uma oficina virtual. A princípio a intenção da aplicação do CV
seria de forma síncrona, pois a intenção inicial era realizar a oficina presencialmente,
interagindo ao mesmo tempo com o cursista, porém como o propósito do Curso de
Especialização é Produção Online, optou-se por uma interação assíncrona com o
cursista num ambiente virtual, com participação voluntária dos mesmos.
Nessa perspectiva, a educação ocupou, como seu outro território de cotidiano
do saber, o Ambiente Virtual de Aprendizagem. Nesse, os (as) estudantes são
estimulados(as) a aprender e construir conhecimentos em/na rede, o que favorece
a autonomia e o processo de uma aprendizagem significativa. É na potencialidade
dessas múltiplas formas de interação e comunicação propiciadas pelos ambientes
virtuais que reside a principal diferença da prática educativa em rede. (ROCHA et
al. 2017,p.36)
A maioria dos cursistas convidados tiveram certa dificuldade em acessar o
ambiente/repositório escolhido, inclusive a autora no início sentiu a mesma dificuldade
em manuseá-lo, mas após domínio do espaço virtual manusear as atividades
propostas na mídia e responder ao questionário, para alguns dos participantes
encaminhou-se com mais tranquilidade,. Interagindo com as atividades propostas no
Caderno, o cursista respondeu a cinco simples perguntas relacionadas ao contexto
deste artigo.
A primeira pergunta foi: Você já conhecia o Caderno Virtual? Se sim, como
conheceu, se não o que achou? Os que responderam, informaram não conhecer e
afirmaram que é uma proposta “interessante”, “dinâmica”, “interativa”, com várias
ideias para exercitar. Percebe-se nas respostas dadas que essa forma de mídia ainda
é desconhecida e que se mostrou positiva nas palavras supracitadas, ressaltando
assim a utilidade e valorização da mesma.
Na segunda pergunta questionou-se: Teve dificuldade em realizar as atividades
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 13
128
do Caderno Virtual? A maioria respondeu que sim, principalmente na hora de editar
o caderno, pois dependendo do processador de texto utilizado, podem ocorrer
reconfigurações ocasionando a não realização a contento.
O terceiro questionamento foi: Você já tinha conhecimento sobre a LIBRAS?
Se sim, como conheceu, se não, o que achou? A maioria respondeu não ter um
profundo conhecimento, sendo o básico e que a proposta da oficina online despertou
o interesse e que consideraram uma forma dinâmica de conhecê-la.
À LIBRAS é uma Língua dinâmica e como tal consegue encantar os ouvintes
e até mesmos o sujeito surdo que não possuem domínio sobre ela. Deste modo,
evidencia-se a diversidade educacional, no âmbito de uma cultura homogênea, única
e global, no uso de ferramentas de fácil acesso e aplicabilidade construtiva.
O quarto questionamento refere-se: Você considera o Caderno Virtual uma mídia
inovadora que ajudou ou ajudaria na sua formação? As respostas foram positivas com
relação a ser uma mídia inovadora, principalmente por dispor de muitos recursos em
um só arquivo, considerando uma excelente ferramenta de ensino-aprendizagem.
Por fim, foi solicitado que deixassem um comentário sobre o que achou de uma
oficina de LIBRAS on-line, utilizando o CV. E as respostas foram precisas em afirmar
que gostaram da forma lúdica e dinâmica que a oficina foi apresentada, conforme
abaixo:
“Caderno Virtual consegue reunir atividades limitadas apenas pela criatividade
do professor, então podemos ter ótimos trabalhos e resultados surpreendentes”
(cursista 1)
“A oficina apresenta um conteúdo muito rico, a formatação do CV chama
atenção para aprender de forma lúdica” (cursista 2)
“Achei fantástico, porém melhoraria o desempenho do caderno virtual, para
realizar as atividades” (cursista 3)
“Acredito que é uma ótima iniciativa, e faz com que o aluno se interesse mais
pelo assunto, pelo leque de informações disponibilizadas nele. É uma boa ferramenta
para ensino-aprendizagem” (cursista 4)
“Interessante ter uma oficina on-line, sem precisar sair de casa. Gostei!”
(cursista 5)
As questões levantadas apontam para o que Manovich (2001) sustenta sobre
interatividade e que Primo (2003) reforça que há relação estabelecida entre os
interagentes, apresentando assim a aplicabilidade do produto na construção da
formação do pedagogo e da comunidade participante, como um todo, mesmo com
alguns percalços como a questão do processador de texto utilizado e de como
converter de um tipo para o outro, mas que objetiva-se resgatar as interações das
diversas formas, independente do tempo e do espaço físico que esteja inserido.
No sentido da aplicabilidade do Caderno Virtual, percebeu-se que o repositório
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 13
129
escolhido funcionou como sala de aula, porém não funcionou como acessibilidade
prática ao mesmo, pois dependeu de convite individual, por e-mail e liberação pela
autora/professora, mas com relação ao CV em si, só não houve uma boa aplicação
com os cursistas que possuíam processador de texto incompatível ao arquivo
apresentado o que apresenta uma fragilidade a ser trabalhada no mesmo.
5 | CONCLUSÃO
Percebeu-se o quanto essa nova possibilidade de recurso educacional,
pode ajudar na formação tanto no âmbito educacional básico como na formação
docente, de forma interativa, dinâmica e colaborativa, conclui-se que, mesmo com
os vários obstáculos e as adaptações que sempre surgirão, a proposta do Caderno
Virtual como uma possível mídia inovadora que agrega vários recursos num só
arquivo, é sim aplicável no ambiente acadêmico e de formação, pois independente
de ser depositada ou não em um repositório virtual, o CV possibilita acesso pelo
smartphones, tablets, pelo whatsapp, e-mail, drives e afins, desde que haja internet
e um aplicativo de processador de texto, pode-se utilizá-lo em qualquer lugar e na
hora que desejar.
Através da análise realizada e a possibilidade que este recurso deve oferecer,
compreende-se que o Caderno Virtual é útil na aprendizagem, seja ela virtual ou
presencial, buscando ser mais um aliado não só na formação do pedagogo, como
também na sua práxis, oportunizando assim mais dinamismo e compartilhamento de
saberes entre professor e aluno, ressaltando que essa mídia pode ser dinamizada
para todo tipo de conhecimento, com conteúdos variados e de entretenimento,
levando em conta que para produzi-la precisa-se buscar elementos atrativos.
Diante disto, faz - se necessário apropriar-se das tecnologias, identificandoas como elementos essenciais na comunicação e produção de conhecimentos
compartilhados, possibilitando assim ao usuário manusear de forma criativa um
processador de texto criando “unidades de CV” imagináveis e surpreendentes.
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A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 13
131
CAPÍTULO 14
doi
O ENSINO DA ARTE – UM DESAFIO NO ATUAL
CONTEXTO
Data de aceite: 06/01/2020
Márcia Lenir Gerhardt
Colégio Politécnico da Universidade Federal de
Santa Maria
Santa Maria – Rio Grande do Sul/RS
Pedro Henrique Graeff Machado
Colégio Politécnico da Universidade Federal de
Santa Maria
Santa Maria – Rio Grande do Sul/RS
Mateus Silva do Carmo
Colégio Politécnico da Universidade Federal de
Santa Maria
Santa Maria – Rio Grande do Sul/RS
RESUMO: A arte é um tema que causa
estranhamento quando é trabalhada e/ou
discutida nos diferentes públicos. Em sala
de aula é desafiador diante dos diferentes
propósitos dos educandos. No Ensino Médio do
Colégio Politécnico da UFSM, no Município de
Santa Maria/RS, é perceptível a preocupação
dos educandos em ter foco num processo
seletivo para o Ensino Superior. Dessa forma,
torna-se maior o desafio diante dos conceitos
e pré-conceitos construídos historicamente
na sociedade, sobre a importância das
diferentes disciplinas trabalhadas durante
a Educação Básica, em especial no Ensino
Médio. Sendo assim, objetivou-se, nessa
discussão apresentar como ocorre o ensino da
Arte no Ensino Médio no Colégio. O estudo é
de cunho qualitativo, descritivo e realizado de
forma colaborativa utilizando-se da observação
para as análises e reflexões. A observação é
realizada durante o período letivo, a cada aula
e atividade trabalhada. A presente discussão se
ampara em Freire (1996), Rios (2003), Barbosa
(2005) entre outros. As aulas são amparadas
teoricamente em diferentes autores. Buscamse artigos da área das artes e das demais áreas
do conhecimento. Os resultados, desse tipo de
trabalho desenvolvido, mostram a formação
de adolescentes mais críticos, sensíveis aos
fatos do cotidiano, com uma visão politizada e
interdisciplinar. Pode-se concluir que ensinar
arte interdisciplinarmente, com o olhar voltado
ao educando e ao seu, e nosso entorno é
desafiador e, proporciona a todos os envolvidos
uma leitura social, ética, política, estética,
cultural mais aguçada do meio no qual vivemos,
o que faz com que todos sintam-se sujeitos
atuantes e transformadores da sociedade.
PALAVRAS-CHAVE:
Ensino
de
Arte.
Educação. Ensino Médio.
THE TEACHING OF ART - AT CURRENT
CONTEXT CHALLENGE
ABSTRACT: Art is a subject that causes
strangeness when worked and/or discussed in
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 14
132
different audiences. In the classroom it's challenger in front of different purposes from
the students. At Colégio Politécnico da UFSM's high school, in Santa Maria/RS/Brazil,
it's noticeable the concern from the students for having focus in a select process to
college. This way, it becomes harder the challenge in front of the historical construction
of conceptions and prejudices in society, about the importance of different subjects
worked during the school period, especially at the high school. Therefore, it aims to
present how the Art's teaching occurs at high school. The study is qualitative in nature,
descriptive and performed collaboratively using observation to analysis and reflection.
The observation ocurred during the school year, in each class and activities proposed.
The present discussion is supported by Freire (1996), Rios (2003), Barbosa (2005)
and others. The classes are theoretically supported on different authors. Art and others
subjects' articles are searched. The results of this kind of work developed have showed
the formation of teenagers more critical, sensetive to the everyday facts, with a politicized
and interdisciplinary vision. It can be concluded that teaching art interdisciplinarily,
looking to the students and to their and our surrounding is challenger and provides to
each one involved a sharper social, ethical, political, aesthetical, cultural reading of the
environment we live, what makes us all fell acting and transforming the society.
KEYWORDS: Art's teaching. Education. High school.
1 | INTRODUÇÃO
Falar sobre arte é um desafio no atual contexto. E sobre o ensino e aulas de arte?
O que mais ouvimos é: aulas de arte servem para que? Não tem muitas questões
no ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio)! Não serve para nada mesmo! Vamos
estudar Matemática, Química, Física, ...!
Esses pré-conceitos, já estabelecidos se tornam um desafio quando vamos
planejar uma aula de arte. Na sala de aula se torna maior o desafio, frente aos
diferentes propósitos dos educandos.
De acordo com Dal’Maso e Oliveira (2011, p.725)
A concepção moderna de conhecimento racional estabelece uma divisão entre
a racionalidade e sensibilidade, razão e emoção, ciência e arte. Na escola esta
separação é compreensível, uma vez que o processo educacional se orientou e
orienta no sentido da transmissão de conhecimento objetivo, racional e universal,
sendo a arte considerada, na maioria das escolas apenas como atividade lúdica
tendo como finalidade, a vivência artística, o prazer recreativo.
Ainda é significativa a visão de que o conhecimento objetivo e racional se
sobrepõe aos demais tipos de conhecimentos, e a arte é uma das disciplinas que se
envolve em uma eterna luta de sobrevivência nesse cenário, em diferentes escolas
do país.
A presente discussão ocorre a partir das aulas de artes desenvolvidas no
Ensino Médio do Colégio Politécnico da UFSM (Politécnico). O Politécnico é uma
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 14
133
das Unidades de Educação Básica, Técnica e Tecnológica localizada dentro da
Universidade Federal de Santa Maria/UFSM, no Município de Santa Maria/RS. O
Politécnico oferece e desenvolve a Educação Básica (ensino médio), a Formação
Inicial e Continuada, a Educação Profissional Técnica de nível médio (subsequente)
e a Educação Profissional Tecnológica (14 cursos Técnicos subsequentes, 4 cursos
Tecnólogos, 2 cursos de Pós-Graduação).
No Ensino Médio do Politécnico, há uma preocupação, por parte dos educandos,
com os processos seletivos para o ensino superior. E então, como ensinar/trabalhar
a arte em tal contexto?
Diante disso, o presente texto objetiva relatar como ocorre o ensino da arte e
como é trabalhada a disciplina de Artes no Ensino Médio do Politécnico.
2 | O ENSINO DA ARTE ATRAVÉS DA VIVÊNCIA/EXPERIÊNCIA EM E COM AS
ARTES
Os educandos que chegam ao Politécnico ingressam através de um processo
seletivo realizado pela instituição. Dessa forma, os ingressantes são de diferentes
escolas e de diferentes municípios.
Essa particularidade é observada e trabalhada nas aulas de artes para
identificar o que os alunos vivenciaram e aprenderam sobre arte até então, e para
se conhecerem melhor.
Para o desenvolvimento das atividades, inicialmente apresenta-se o objetivo
da disciplina para o ano todo. E, a partir de cada uma das aulas, o planejamento é
realizado considerando o que os educandos discutiram durante a aula anterior. O
tema, que é observado nessas discussões com os educando, é teorizado e discutido
novamente com maior intensidade. Os educandos são instigados para que façam
suas observações/contribuições a partir de sua realidade, ressaltando a importância
do respeito à opinião do outro, à cultura do outro.
Vivemos em uma sociedade multicultural. Nós educadores, temos o desafio de
educar com uma ética para a diversidade, porque o ser humano precisa ser capaz
de ouvir, despertar sensações, sentimentos e conviver com o diferente. Respeitar
a sociedade, o professor, o aluno, a escola, as famílias, os diferentes credos é ser
ético, pois, “o ético está muito ligado ao estético” (FREIRE, 2000, p.34), “uma rigorosa
formação ética ao lado sempre da estética. Decência e boniteza de mãos dadas”, ou
seja, “a prática educativa tem de ser, em si, um testemunho rigoroso de decência e
de pureza” (FREIRE, 1996, p.36).
Esse movimento estabelecido entre os envolvidos exige um esforço de ambos,
pois esses se conhecerão e reconhecerão no próximo. Ao emitir minha opinião terá
alguém ouvindo e interagindo e da mesma forma quando alguém emitir sua opinião
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 14
134
eu estarei ouvindo e interagindo com esse e os demais envolvidos. Esse ouvir e
interagir faz parte das aulas e do planejamento para os diferentes momentos, das
diferentes séries.
Na 1ª série trabalhamos inicialmente os conceitos de arte. A partir de estudos
bibliográficos, observação, pesquisa de imagens, linguagens das artes, através de
questionamentos se estimula o educando a refletir sobre dos temas que surgem
em cada aula, para que eles construam o seu próprio conceito de arte, embasados
naquilo que eles mesmos ajudaram a explorar. As diferentes linguagens da
arte são vivenciadas por meio de visitas aos museus, exposições em diferentes
espaços, oficinas com profissionais da área, com a construção artística, apreciação
de diferentes documentários, vídeos, poesia. Durante esse processo a leitura de
imagem é apresentada aos educandos, e esses vão realizando suas leituras a partir
do que já vivenciaram até então.
Na 2ª série os educandos trabalham a História da Arte através da leitura de
imagens. Explorar as imagens de cada um dos períodos que constituem a História
da Arte e identificar as características dessas épocas, o contexto social, científico,
cultural, político proporciona ao educando uma possibilidade de relacionar, de forma
interdisciplinar, o que ele estudou nas demais disciplinas daquele ano, dos anos
anteriores e com o seu próprio contexto.
O estudo de mídias e de imagens de obras de arte e de diferentes gêneros para
o aprendizado de arte e da História da Arte desenvolve, nos sujeitos do processo,
a percepção visual não somente da obra analisada, e sim do mundo a sua volta e,
de seu entorno, contribuindo assim, à “construção de um olhar crítico no exercício
de sua cidadania”; pensamento que vai ao encontro de Buoro (2003, p. 16) em seu
estudo.
Para Barbosa (2005, p. 142), interpretar uma obra de arte consiste em situá-la,
não só historicamente,
[...] mas também social, biológica, psicológica, ecológica, antropológica etc., pois
contextualizar não é só contar a história da vida do artista que fez a obra, mas
também estabelecer relações dessa ou dessas obras com o mundo ao redor, é
pensar sobre a obra de arte de forma mais ampla.
Nas diferentes visitas a museus, à exposições, com as vivências do cotidiano,
o educando é estimulado a fazer relações do que está presenciando com o que
foi trabalhado nos diferentes períodos da história da arte e assim realizando a
contextualização em um aspecto, artístico, social, político, filosófico, cultural,
científico, etc.
O Museu se constitui, nesse processo, em uma instituição e/ou elemento
importante para os educandos construírem suas diferentes concepções do que é
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 14
135
arte e como essa tem influência no desenvolvimento do ser humano e da própria
história do Homem, bem como, o resultado da relação do homem com as diferentes
épocas, culturas, espaços.
Na 3ª série estuda-se a arte brasileira através de documentários, artigos
científicos e das vivências nos museus, exposições, pesquisas que o próprio
educando realiza. Nessa série é trabalhada com maior afinco a Iniciação Científica,
na disciplina de Projetos, enquanto que nas séries anteriores os educandos são
estimulados a Iniciação Científica para irem conhecendo e familiarizando-se com o
processo investigativo e a construção metodológica do conhecimento.
3 | VIVÊNCIAS/EXPERIÊNCIAS
COM
ARTES
REALIZADAS
PELOS
ADOLESCENTES DO ENSINO MÉDIO DO COLÉGIO POLITÉCNICO DA UFSM
PARA APRENDER, CONHECER/RECONHECER, SENTIR, COMPREENDER A
ARTE
Trabalhar com a adolescência é uma experiência na docência muito instigadora
e ao mesmo tempo desafiadora. Adolescentes conectados com as diferentes mídias
tecnológicas são os sujeitos desse processo de aprendizado, assim como, o docente
que ensina e aprende ao mesmo tempo com essa geração de adolescentes.
Como docentes precisamos ter consciência que estamos juntos em um
processo de construção e formação constante e contínua, indo ao encontro de
Freire (1996) quando ele trata a respeito da inconclusão do ser humano. E, a cada
momento trabalhado com os educandos sinto, como professora, o quanto temos
para aprender com eles, sendo assim “a consciência do inacabamento entre nós,
mulheres e homens, nos fez seres responsáveis, daí a eticidade de nossa presença
no mundo” (FREIRE, 1996, p.56).
Para o desenvolvimento das atividades nas aulas de Artes apresenta-se
o objetivo da disciplina para o ano todo e, de cada encontro. O planejamento é
realizado a partir de cada aula, considerando a discussão realizada na aula anterior.
O tema, observado nas discussões é teorizado, discutido com maior intensidade
e os educandos são instigados a investigar e a realizarem suas observações/
contribuições a partir de sua realidade.
No início do ano faz-se uma exposição, em algum espaço disponível do
Politécnico, com trabalhos de educandos do ano anterior, objetos de arte indígena,
africana, objetos da natureza, uma instalação envolvendo objetos industrializados
e da natureza (Imagens 1, 2, 3, 4). Os educandos, da 1ª série sentem-se, em um
primeiro momento, surpresos, por iniciarmos uma discussão teórica a partir de uma
exposição e não o contrário.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 14
136
Imagem 1: Atividade realizada pelos
alunos
Imagem 2: Atividade realizada pelos
alunos
Esse momento foi muito construtivo porque o inesperado ocasionou
estranhamento e com isso a reflexão de cada um foi a partir do que ele sentiu naquele
momento, não foi a partir do conceito apresentado por um autor.
Esse diálogo que se construiu entre os educandos – professor – educandos
– educandos a respeito dos diferentes conceitos de arte nos fez entender, também
que é possível uma formação ética e estética. Para Freire (2002) a formação ética
e estética acontece na sala de aula, no momento em que o aluno, o professor, a
escola, a sociedade lutam juntos por uma educação conscientizadora e dialógica.
Imagem 3: Atividade realizada pelos
alunos
Imagem 4: Atividade realizada pelos
alunos
Desde o início do ano letivo são trabalhados os conceitos de arte. Esses, por
sua vez, a partir da vivência, de estudos bibliográficos, observação, pesquisa de
imagens, linguagens das artes, questionamentos, visitas a museus e exposições.
Estimula-se a reflexão sobre diferentes temas para que os alunos construam os
próprios conceitos.
Nas reflexões dos grupos em questão, polemizou-se o que é e não é arte, o
grafite e a pichação. As dimensões que se destacam nesse processo são, de acordo
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 14
137
com Freire (1996), a epistemológica, a política e a estética.
No presente ano (2019), por ocasião de uma visita ao Museu de Artes do Rio
Grande do Sul (MARGS) uma das salas de exposição do museu trazia obras sobre
pichação e grafite. Esse momento foi aproveitado para continuarmos a discussão,
surgida em uma aula anterior, sobre o grafite ser ou não ser arte, assim como a
pichação.
Esse tema foi abordado com maior intensidade trazendo para eles, através de
documentários e de vídeos, como é tratado o grafite e a pichação. No ano anterior,
havia surgido essa mesma polêmica a respeito do grafite e dapichação como sendo
ou não arte. No mesmo período, foi publicado nos jornais locais, a respeito desse
tema em Santa Maria/RS trazendo espaços que adotaram o grafite em suas fachadas
e muros. Após a reflexão, os alunos foram levados a esses espaços da cidade, que
tem grafites e pichações, e eles puderam fazer a relação e diferenciação do que é
grafite e pichação e como essas manifestações se relacionam com o espaço urbano
e com a sociedade.
Nesse processo de construção o professor e o aluno estão engajados crítica e
criativamente; ambos percebem suas realidades com um olhar crítico e constroem
conhecimentos através desse diálogo. Para Freire (1996) o ato de criar, recriar
objetos, de conhecer faz da educação uma arte. A educação assim é uma teoria e
uma prática, um ato político, estético e ético.
Os educandos fizeram suas reflexões sobre a temática após as visitas aos
diferentes espaços, e na sequência construíram propostas/projetos de pichação e
de grafite.
Nesse aspecto, a tarefa fundamental da educação, da escola, ao construir,
reconstruir e socializar o conhecimento, é formar cidadãos para que possam contribuir
e atuar criticamente e criativamente no contexto social de que fazem parte, exercer
seus direitos (RIOS, 2003).
Para a atividade avaliativa, os educandos escolheram um tema polêmico (na
ótica deles) na atual sociedade e criaram um projeto de grafite e como o mesmo
tema pode ser representado em forma de pichação.
Durante esse processo de construção, os educandos utilizaram das aulas
de matemática onde foram estudados e trabalhados a geometria e as proporções
espaciais com a finalidade de desenvolver a noção de espaço, de simetria, de escala,
utilizados para a construção da proposta do grafite assim como da pichação. Outras
áreas aparecem conjugadas na construção do conhecimento, como a química, a
física, linguagens, a educação física, a sociologia, a filosofia, política, economia,
entre outras em diversos aspectos da sociedade, da cultura e do ensino.
Os alunos realizaram tanto na aula de matemática como na aula de artes o
estudo de escala de como adaptariam seus projetos em muros e/ou paredes, sempre
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 14
138
visando uma interdisciplinaridade e um olhar tanto crítico como preciso da imagem a
ser construída. Sendo assim foi possível perceber que o grupo de educandos teve a
oportunidade de rever e formar uma opinião a respeito das diferentes expressões, no
caso do grafite e da pichação. Essa atividade foi realizada pelas três séries, sendo
que cada uma delas trouxe as suas concepções de acordo com o que é proposto
para cada uma delas.
Neste ano, a turma iniciante irá explorar os espaços da cidade de Santa Maria/
RS, que são ocupadas por grafites e pichações, e realizarão um documentário a
respeito do tema defendendo a sua concepção de grafite e de pichação naquele
espaço.
A proposta desenvolvida por um dos grupos sobre esse tema, no ano de 2018
(Imagens 5, 6), foi submetida ao evento 2ª Mostra de Ciências e Matemática de
Santa Maria, promovida pelo Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e
Matemática (PPGECIMAT) da Universidade Franciscana de Santa Maria/RS (UFN),
que tem por objetivo “contribuir para alfabetização científica dos jovens na Educação
Básica; despertar vocações científicas e tecnológicas; estimular os estudantes para
que sigam uma carreira científico-tecnológica” (UFN, 2019). A proposta, com o título
“Arte e Matemática: como trabalhar as semelhanças de dois diferentes?” foi uma das
vencedoras e os alunos autores (3 alunos) receberam como prêmio uma bolsa de
iniciação científica, do CNPq / Ensino Médio durante todo o ano de 2019.
Imagem 5: Atividade realizada pelos
alunos
Imagem 6: Atividade realizada pelos
alunos
A leitura de imagem, trabalhada concomitantemente com a História da Arte
Universal e Brasileira, se dá, nos diferentes espaços e ferramentas. As diferentes
tecnologias são utilizadas como meio para aprender e valorizar a arte criada a partir
das diferentes tecnologias e a possibilidade de visitar sites de museus nacionais e
internacionais.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 14
139
A leitura de imagem é estudada, também, nas exposições e museus locais
(Imagens 7), nas ruas da cidade, em museus de outras cidades como Porto Alegre
(Imagens 7), Pelotas, Rio Grande, todos no RS e outros locais onde surgem
exposições artísticas. Esses espaços são visitados com autorização dos familiares
dos alunos e da própria direção do Colégio que oportuniza esse tipo de atividade,
quando é possível.
Imagem 7: Aula/visita no Museu de Artes
de Santa Maria/MASM.
Imagem 8: Aula/visita no Museu de Artes
do Rio Grande do Sul/MARGS.
Essas aulas realizadas nos museus são momentos oportunos e enriquecedores
para a formação do ser humano no seu processo de ensino-aprendizagem. É um
momento de resgate da nossa própria história como seres humanos e momento de
contextualização.
[...] é preciso resgatar a dimensão do homem como ser social e cultural, leitor e
intérprete, criador e criatura.
A obra de arte parece ser um objeto especialmente facilitador desse resgate, não
só porque aglutina múltiplas formas do saber, mas principalmente porque uma obra
de arte não é apenas objeto de apreciação estética; é fruto de uma experiência de
vida desvelada pelo processo de criação do artista e pelo sistema se signo da obra
(BUORO, 2003, p. 31).
O museu é um espaço que apresenta a arte de uma outra maneira, que nem
sempre é possível na escola. Mostra a arte, nas suas diferentes linguagens, de
outro ponto de vista, e essa oportunidade enriquecedora se torna um diferencial na
formação do educando e do educador.
4 | CONCLUSÃO
Pode-se concluir que os desafios na Educação são molas propulsoras para não
desistirmos desta tortuosa e doce profissão que é ser professor, por vezes ingrata,
porém apaixonante a cada dia. No caso de ensinar arte, não é diferente, somos
eternos aprendizes em um mundo que não para e, como sujeitos, que exercemos
nosso exercício cidadão, temos o compromisso de não deixá-lo parar.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 14
140
Trago algumas palavras dos próprios alunos para concluir a respeito dessa
breve apresentação sobre como acontece o ensino da arte em um espaço, dentre
todos os demais. Em um espaço, constituído por diferentes que convivem no respeito
mútuo que a Educação exige para que a Escola tenha a oportunidade de acontecer/
funcionar. Todos os professores, inclusive eu, professora de Artes, trabalhamos no
ensino médio e, também dedicamos nossos saberes para fazer aulas nos cursos
técnicos, tecnólogos, pós-graduação, que o Colégio Politécnico da UFSM oferece
para a sociedade.
Esse tipo de aulas de artes realizadas na instituição proporciona aos educandos,
no olhar dos mesmos, “uma oportunidade de questionar o nosso mundo a volta”; da
mesma forma de “não se contentar com respostas rasas e sempre buscar mais”.
As aulas desenvolvem um “ensino como uma forma de desenvolvimento pessoal,
social e político e não somente por uma nota”; “estimula a iniciação científica” o que
faz com que o educando tenha a possibilidade de ir além de um único conceito e
desenvolver suas concepções.
“Nos faz sair do nosso quadrado e buscar ver além do que nos está apresentado,
o que pode estar além do que é visível”, isto é, a leitura de e do mundo. Proporciona
ao educando “algo relacionado com o nosso melhor aprendizado e mais experiências
para vida”. “Acho que as aulas de arte são importantes principalmente para o nosso
repertório sociocultural”.
“Uma saída da ‘visão de cabresto’ em relação à arte em si e suas manifestações,
como foi com a questão do grafite e pichação que a gente tinha aquela visão de que
picho é aquilo feio e picho é crime. Por meio das visitas a museus a gente começa a
ser inserido nesse meio que é algo quase impossível, porque normalmente a gente
não procura esses lugares para lazer ou apreciar mesmo. Outra coisa legal, também,
é a aula fora da sala de aula. É como se a gente tivesse uma aula de alguma ciência
da natureza no laboratório vendo as coisas na prática. Nesse caso, a gente vê a arte
na prática não só na teoria”.
Esse ensino da arte nos proporciona “algo relacionado a aprender com
as vivências e tirar uma reflexão de cada uma” e é assim que, como educadora,
me constituo diariamente onde aprendo com as vivências do cotidiano pessoal e
profissional, e refletindo sobre cada uma delas me constituo um ser que continuo
acreditando na Educação e em um mundo melhor.
REFERÊNCIAS
BARBOSA, Ana Mae. Arte educação contemporânea: consonâncias internacionais. São Paulo:
Cortez, 2005.
BUORO, Anamelia Bueno. O olhar em construção: uma experiência de ensino e aprendizagem da
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 14
141
arte na escola. 6. ed. São Paulo: Cortez, 2003.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz
e Terra, 1996.
_____________ A educação na cidade. 5 ed. São Paulo: Cortez, 2000.
_____________ Pedagogia da esperança: um reencontro com a pedagogia do oprimido. 9 ed. Rio
de Janeiro: Paz e Terra, 2002.
DAL’MASO, Eunice Maria; OLIVEIRA, Ana Arlinda. Ensinar e aprender arte no ensino médio. In: X
Congresso Nacional de Educação – EDUCERE. I Seminário Internacional de Representações Sociais,
Subjetividade e Educação – SIRSSE. Anais. (p. 724-736), PUC/PR, Curitiba, 2011. Disponível em:
https://educere.bruc.com.br/CD2011/pdf/4626_2410.pdf Acesso em: 01 de out. 2019.
RIOS, Terezinha Azeredo. Compreender e ensinar: por uma docência da melhor qualidade. 4. ed.
São Paulo: Cortez, 2003.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 14
142
CAPÍTULO 15
doi
O ENSINO DE QUÍMICA: UM OLHAR INVESTIGATIVO EM
ALUNOS DE GRADUAÇÃO
Data de aceite: 06/01/2020
Tiago Barboza Solner
Universidade Franciscana (UFN)
Santa Maria – Rio Grande do Sul
Liana da Silva Fernandes
Universidade Franciscana (UFN)
Santa Maria – Rio Grande do Sul
e dez de Engenharia Química de uma
Univerisade do município de Santa Maria/RS.
Através deste estudo pode-se perceber que
no cenário atual, os professores não utilizam
recursos diferenciados, talvez pelo receio do
novo, o que compromete o processo de ensino
aprendizagem dos estudantes em sala de aula.
PALAVRAS-CHAVE:
Metodologias;
Contextualização; Ensino Médio e Superior.
Leonardo Fantinel
Universidade Franciscana (UFN)
Santa Maria – Rio Grande do Sul
RESUMO: O Ensino de Química vem
sendo abordado por muitos pesquisadores
atualmente, sendo alvo de discussões e
preocupações no que diz respeito à maneira
de ensinar um determinado conteúdo, e
que esse seja significativo na formação dos
estudantes. Para tanto, esse trabalho tem
como objetivo investigar como está ocorrendo o
ensino de química no Ensino Médio a partir da
abordagem com alunos ingressantes no Ensino
Superior. O instrumento de coleta de dados
foi composto por um questionário estruturado
contendo questões de múltipla escolha com
alternativas claras e objetivas, a fim de obter
respostas mais próximas da realidade de cada
participante. O questionário foi aplicado aos
alunos da graduação, sendo nove do curso
de Farmácia, nove da Engenharia Biomédica
CHEMICAL TEACHING: AN INVESTIGATIVE
LOOK AT GRADUATE STUDENTS
ABSTRACT: Chemistry Teaching has been
approached by many researchers today,
being the subject of discussions and concerns
regarding the way to teach a certain content,
and that this is significant in the formation
of students. Therefore, this work aims to
investigate how is teaching chemistry in high
school from the approach with students entering
higher education. The data collection instrument
consisted of a structured questionnaire
containing multiple choice questions with clear
and objective alternatives, in order to obtain
answers closer to the reality of each participant.
The questionnaire was applied to undergraduate
students, nine from the Pharmacy course, nine
from Biomedical Engineering and ten from
Chemical Engineering in a University of Santa
Maria / RS. Through this study it can be seen
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 15
143
that in the current scenario, teachers do not use different resources, perhaps for fear of
the new, which compromises the process of teaching students learning in the classroom.
KEYWORDS: Methodologies; Contextualization; High and Higher Education.
1 | INTRODUÇÃO
O Ensino de Química vem sendo abordado por muitos pesquisadores
atualmente, sendo alvo de discussões e preocupações no que diz respeito à maneira
de ensinar um determinado conteúdo, e que esse seja significativo na formação dos
estudantes.
Ensinar química nos dias atuais requer muita dedicação e estudo por parte dos
professores em sala de aula, visto que, a maneira como se aborda um determinado
conteúdo, pode ser muito positivo ou negativo na vida dos estudantes. Nessa
perspectiva, Chassot (1990) destaca que, de modo geral, o que se encontra é
um ensino de química que muito pouco tem contribuído para a transformação dos
estudantes em cidadãos críticos, afirmando ainda que, da forma como tem sido
praticado, esse ensino resulta em algo literalmente “inútil”, ou no paradoxo útil/
inútil, realmente útil, para manter o “status quo”. À continuação, o autor argumenta
a favor de um ensino de química questionador que deve se transformar num ensino
libertador.
Para verificar como está ocorrendo o ensino de química na atualidade, bem
como, analisar os tipos de metodologias que estão sendo trabalhadas em sala de
aula, esse trabalho apresenta o seguinte objetivo: investigar como está ocorrendo
o ensino de química no Ensino Médio com alunos ingressantes no Ensino Superior.
Ao traçar o perfil dos alunos frente à temática de um grupo de acadêmicos
do Ensino Superior, devidamente matriculados no primeiro semestre dos cursos de
graduação, de uma Instituição de Ensino Superior, localizada na região central do
estado do Rio Grande do Sul, buscamos primeiramente, conhecer um pouco do
perfil de cada estudante, bem como, investigar como vem ocorrendo o Ensino de
Química no Ensino Médio.
Nosso interesse em recolher as informações que subsidiam o objetivo geral
dessa pesquisa foi em um primeiro momento entrevistar alunos que continham
disciplinas de Química em sua grade de horários em seus cursos de graduação,
sendo eles, Engenharia Biomédica, Engenharia Química e Farmácia, contando com
a participação de 27 alunos matriculados nos três cursos.
Investigar o que os acadêmicos trazem em sua bagagem escolar a respeito do
tema Ensino de Química pode nos ajudar a compreender melhor como vem sendo
trabalhado esse conteúdo em sala de aula e as metodologias que estão sendo
inseridas por professores em suas práticas pedagógicas.
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Capítulo 15
144
2 | O ENSINO DE QUÍMICA
O ensino de química vem sendo investigado com muita cautela nos últimos
anos, mostrando muitas vezes que a geração de alunos avançou e o ensino nem
sempre acompanha tal avanço. Esse avanço muitas vezes acontece devido a estes
alunos fazerem parte de um mundo mais interativo, onde o acesso de informações
e as novas tecnologias invadem suas vidas de maneira muito rápida. E cabe ao
professor avançar da mesma forma, seja na maneira como aborda determinado
conteúdo, ou até mesmo na busca por metodologias mais atualizadas, que visam na
contribuição de ensino e aprendizado mais dinâmico e que o mesmo fortaleça esse
processo.
Silva (2011) ao falar de avanços no ensino de química, traz alguns fatores
que podem influenciar nesse processo de declínio que a química vem sofrendo
atualmente: o baixo salário, metodologias de ensino em sala de aula ultrapassadas,
falta de interdisciplinaridade e contextualização, redução na formação de licenciados
em química, poucas aulas experimentais e desinteresse dos alunos.
Ensinar química nos dias atuais ainda é considerado uma tarefa muito difícil
para professores, visto que, as aulas ainda são desenvolvidas, em muitas escolas,
por meio de atividades de repetição, fragmentação e esvaziamento do caráter social
(SANTOS e MALDANER, 2010). E para tanto, ficam evidentes as dificuldades
apresentadas no processo de ensino aprendizagem de química. A maioria dos
professores faz a opção por uma metodologia tradicional, e os alunos por sua vez
costumam ter certa dificuldade em adequar-se aos conteúdos apresentados por esta
disciplina, por considerá-la abstrata e de difícil compreensão. Isso nos leva a uma
busca incessante por alternativas que permitam reverter ou modificar essa realidade.
Neste contexto, muitos estudos têm sido realizados com o objetivo de desenvolver
alternativas metodológicas que possam contribuir para esse ensino (WANDERLEY
et. al., 2005).
Outro fator que pode estar contribuindo para uma evolução não positiva no
ensino de química, é a maneira como grande parte dos professores de química
acabam dando uma ênfase maior nos conceitos a serem transmitidos aos alunos
e muitas vezes esquecem-se de apontar a aplicação no conteúdo. Seja na vida
das pessoas, nos avanços tecnológicos e nos processos industriais, tais maneiras
de ensinar não abordam totalmente a essência do objetivo principal do ensino de
Química (PORTO, et al., 2014).
Uma das grandes dificuldades no processo de ensino-aprendizagem da
química é relacionar os conteúdos ministrados em sala de aula com o cotidiano.
Diante deste contexto, torna-se necessária uma mudança metodológica utilizada por
professores desta área, uma vez que, é apontada como um dos principais motivos
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 15
145
do descontentamento dos alunos no que tange ao desinteresse e ao baixo nível do
aprendizado.
Atualmente, o que se deseja é que as aulas de química sejam mais atrativas,
possibilitando, assim, que o ensino comece a avançar de maneira mais significativa.
Para isso, a inserção de tecnologias educacionais poderá fornecer um dinamismo
necessário às mesmas, ou ainda a criação de materiais de baixo custo, visando
atrair a atenção dos alunos.
De
acordo
com
os
Parâmetros
Curriculares
Nacionais
(PCN+)
a
contextualização no ensino não deve se basear na promoção de uma ligação artificial
entre o conhecimento e o cotidiano do aluno. Deve ir muito além da utilização de
simples exemplos ao final de cada capítulo abordado em sala de aula, isto é, propor
“situações problemáticas reais e buscar o conhecimento necessário para entendêlas e procurar solucioná-las” (PCN+, 2002, p.93).
Ainda segundo os documentos oficiais que regem a educação, “[...], no Brasil,
a abordagem da Química escolar continua praticamente a mesma. Embora às vezes
maquiada com uma aparência de modernidade, a essência permanece a mesma,
priorizando-se informações desligadas da realidade vividas pelos alunos e pelos
professores” (BRASIL, 1999, p.64).
Pode-se perceber que é preciso que o professor comece a buscar a inserção
de ferramentas educacionais e metodologias diferenciadas que visem essa
desconstrução de aula ministrada somente por intermédio de conceitos e sem
contextualização, de forma que os alunos comecem a gostar de química, conseguindo,
por fim, utilizar alguns conceitos em sala de aula de forma a associar com o seu
cotidiano, motivando-os no que diz respeito a sua aprendizagem.
Ainda no que diz respeito à contextualização, o referido documento afirma:
“Nunca se deve perder de vista que o ensino de Química visa a contribuir para
a formação da cidadania e, dessa forma, deve permitir o desenvolvimento de
conhecimentos e valores que possam servir de instrumentos mediadores da
interação do indivíduo com o mundo. Consegue-se isso mais efetivamente ao se
contextualizar o aprendizado, o que pode ser feito com exemplos mais gerais,
universais, ou com exemplos de relevância mais local, regional. (BRASIL, 1999, p.
38)”.
Neste contexto, é possível verificar a atual importância de incluir novas práticas
e estratégias para ensinar química, avaliando como professores podem contribuir
com a aprendizagem de forma a contextualizar os conteúdos ministrados em sala de
aula, aumentando o interesse em aprender um determinado conteúdo, fortalecendo
assim o processo de ensino- aprendizagem desse aluno.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 15
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3 | METODOLOGIA
Com o objetivo de investigar como está ocorrendo o ensino de química no
Ensino Médio com alunos ingressantes no Ensino Superior, o presente estudo
foi desenvolvido com alunos de graduação, matriculados no primeiro semestre
nos cursos de Farmácia, Engenharia Biomédica e Engenharia Química em uma
Instituição de Ensino Superior localizada na região central do Estado do Rio Grande
do Sul, ambos na disciplina de Química Geral.
Para se obter uma compreensão mais ampla dos resultados, o trabalho foi
divido em três etapas que embasaram a realização dessa pesquisa. A primeira etapa
foi constituída na elaboração de um questionário estruturado contendo 10 questões,
o qual teve como objetivo verificar os conhecimentos químicos de ingressantes no
Ensino Superior, assim como investigar o tipo de metodologias que os professores
abordam em sala de aula com seus alunos na disciplina de Química. Os cursos
escolhidos possuem em sua grade curricular ementas que contemplem disciplinas
de química.
O instrumento de coleta de dados foi composto por um questionário
semiestruturado contendo questões de múltipla escolha com alternativas claras e
objetivas com a finalidade de se obter respostas mais aproximadas da realidade de
cada participante. O questionário foi aplicado com 9 alunos do curso de Farmácia, 9
de Engenharia Biomédica e 10 de Engenharia Química.
A abordagem desta pesquisa caracteriza-se em caráter qualitativo e quantitativo.
Segundo Deslauriers (1991) a análise qualitativa apresenta como objetivo da amostra
a produção de informações aprofundadas e ilustrativas: seja ela pequena ou grande,
tendo como enfoque a produção de novas informações.
Fonseca (2002) descreve uma visão diferenciada sobre este de abordagem:
“Diferentemente da pesquisa qualitativa, os resultados da pesquisa quantitativa
podem ser quantificados. Como as amostras geralmente são grandes e consideradas
representativas da população, os resultados são tomados como se constituíssem
um retrato real de toda a população alvo da pesquisa. A pesquisa quantitativa se
centra na objetividade. Influenciada pelo positivismo, considera que a realidade
só pode ser compreendida com base na análise de dados brutos, recolhidos com
o auxílio de instrumentos padronizados e neutros. A pesquisa quantitativa recorre
à linguagem matemática para descrever as causas de um fenômeno, as relações
entre variáveis, etc. A utilização conjunta da pesquisa qualitativa e quantitativa
permite recolher mais informações do que se poderia conseguir isoladamente”
(FONSECA, 2002, p. 20).
Baseado no exposto, é possível perceber que a pesquisa quali e quantitativa,
embora possuam diferentes abordagens metodológicas, não são excludentes e
podem, dependendo dos objetivos que a investigação propõe, ser utilizadas em
conjunto.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 15
147
4 | RESULTADOS E DISCUSSÕES
Para obtenção e análise dos resultados, conforme mencionado anteriormente,
foi aplicado aos acadêmicos um questionário semiestruturado. Esse questionário
foi divido em duas categorias, a primeira que visa conhecer o perfil dos acadêmicos
participantes desse estudo e a outra que aborda questões relacionadas as aulas de
química durante o seu percurso no Ensino Médio.
Os acadêmicos participantes desse estudo apresentaram uma faixa etária entre
17 e 31 anos de idade, sendo que a predominância é entre 17 e 20 anos de idade.
Com relação aos participantes dessa pesquisa, 32% dos estudantes são
oriundos de escola pública e que 68% de escola privada.
Outra questão que foi abordada aos alunos, foi se em sua escola havia laboratório
de Ciências/Química, onde 74% dos estudantes informaram que sua escola havia
laboratório de Ciências/Química e que 26% não. Um dado que vale ressaltar, é que
desses 74%, 4 deles afirmaram que em sua escola “até tinha laboratório, porém este
era utilizado para outros fins”.
A preocupação com essa questão do não uso do laboratório nas aulas de
Química vem se mostrando preocupante ao longo dos anos. Diferentes autores,
como Moreira e Diniz (2003); Silva e Machado (2008); Maia (2010) e Santana (2011)
destacam com preocupação o mau uso destes laboratórios, ou a sua utilização para
outros fins. Desconsiderando a utilização do ambiente laboratorial como um recurso
para ensinar uma determinada disciplina.
Também foi investigada a forma como os professores utilizavam em seu
planejamento as aulas experimentais como auxílio para explicar algum conteúdo.
Pôde-se perceber que 55,55% dos estudantes responderam que sim, e 44,45% não.
Este dado revelou que, por mais que exista uma porcentagem maior de professores
que apliquem determinado experimento, ainda é pouco numeroso. Uma vez que os
experimentos são atividades que deveriam fazer parte do cotidiano de um professor
de Química.
A falta de experimentação nas aulas de Química, vem sendo questionada
durante muito tempo por alguns pesquisadores da área, como Pessoa et al. (1985),
Galiazzi et al. (2001), Maldaner (2003) e Borges (2002). Estes descrevem diversos
relatos em suas pesquisas sobre este tema, destacando algumas justificativas,
tais como: a falta de atividades experimentais já preparadas e de fácil acesso aos
professores, pouco tempo do professor para planejar e construir seus experimentos,
visto que a carga horária é menor que o necessário, recurso insuficiente para
reposição e compra de equipamentos e materiais.
Um dos fatores essenciais para a compreensão do conhecimento químico é
a contextualização em sala de aula, utilizar exemplos do cotidiano faz com que os
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 15
148
alunos associem o conhecimento químico e aprendam de forma mais eficaz e com
uma maior compreensão. Devido a essa questão, foi perguntado aos estudantes
se o professor trabalha a disciplina de maneira contextualizada. De acordo com as
respostas, 44,45% dos estudantes informaram que seus professores não trabalham
de forma contextualizada em sala de aula. E quando se fala em contextualizar não
podemos pensar em somente associar um determinado conteúdo com o cotidiano
do aluno, contextualizar é muito mais que isso, é propor “situações problemáticas
reais e buscar o conhecimento necessário para entendê-las e procurar solucionálas” (PCN+, p.93).
Uma das perguntas respondidas pelos alunos é se a Química do Ensino Médio
está agindo como um mediador para a química estudada no Ensino Superior. Essa
questão merece uma reflexão, pois, 51,86% dos estudantes informaram que a
Química ministrada no ensino médio não foi mediadora. A falta de contextualização
durante a abordagem de um determinado conteúdo em sala de aula, pode ter sido
o fator determinante para essa quantidade expressiva de alunos que responderam
não ao questionamento.
Foi questionado, também, nesta pesquisa sobre os tipos de recursos
diferenciados utilizados pelo professor em sala de aula. O livro didático foi sinalizado
como o recurso mais utilizado por 74,04% dos estudantes. Seguido pelos experimentos
químicos, com 14,81% e 11,15% utilizando filmes.
As respostas dos alunos frente a este questionamento, está em acordo com
os relatos publicados pelos autores Delizoicov, Angotti e Pernambuco (2007), os
quais apresentam em suas pesquisas que na maioria das salas de aula, o principal
instrumento de trabalho do professor é o Livro Didático.
5 | CONCLUSÃO
A disciplina de química apresenta a experimentação como uma grande
ferramenta para compreenção de conceitos mais abstratos, a qual está sendo muito
pouco utilizada, mantendo, ainda, o livro didático como o recurso mais utilizado.
Através dos resultados obtidos neste estudo, pode-se constatar que o ensino
de química não tem apresentado muitas inovações em sala de aula quando referese a metodologias diferenciadas.
No cenário atual, os professores não utilizam recursos diferentes, talvez pelo
receio do novo, o que pode dificultar o processo de ensino-aprendizagem. Pois
a utilização de tais recursos favorecem o desenvolvimento da aprendizagem dos
alunos, pois propiciam meios de motivá-los e envolvê-los com o conteúdo que está
sendo abordado em sala de aula.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 15
149
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A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 15
151
CAPÍTULO 16
doi
O LÚDICO COMO RECURSO METODOLÓGICO
NA INCLUSÃO DE ALUNOS COM DEFICIÊNCIA
INTELECTUAL NO ENSINO FUNDAMENTAL
Data de aceite: 06/01/2020
Vanussa Sampaio Dias da Silva
Psicóloga. Especialista em Psicopedagogia
vanussa30@yahoo.com.br
Ingrid Cibele Costa Furtado
Prof. Esp. Orientadora
Ingridcosta2011@hotmail.com
RESUMO: Este artigo objetiva refletir a
importância do lúdico como aliado no ensino e
inclusão de alunos com deficiência intelectual
no nível do fundamental, idade de grandes
descobertas e intensa relação como meio. Em
se tratando de um alunado com deficiência
intelectual, como em qualquer nível, o desafio
é a oferta de um ensino com metodologias
que atendam melhor as suas especificidades
e favoreça o processo de inclusão. Segundo
a perspectiva inclusiva, aceitar as diferenças
implica respeitar as características, os
interesses, as motivações e os projetos de vida
de cada criança, o que só é possível criando
estratégias e recursos. A partir daí pensa-se em
uma escola de qualidade como sendo aquela
que oferte em seus espaços de aprendizagem
salas de aula comum que contemple entre
seus recursos metodológicos o lúdico. Temse como referência neste trabalho: Montessori
(1965), Rosamilha (1979), Cunha (1998),
Maluf (2003), Dalabona e Mendes (2004),
Kishimoto (apud LUCENA, 2004), Antunes
(2005, 2006), Kishimoto (2005), autores que
defendem o brincar como importante atividade
para o desenvolvimento e o reconhecem como
atividade experiencial e caminho para o trabalho
pedagógico. Este estudo está fundamentado
em pesquisas bibliográficas de metodologia
qualitativa buscando uma melhor compreensão
da realidade do objeto em questão. A linha
de Pesquisa utilizada segue a LP3 Práticas
educativas e de prevenção processos e
problemas. Conclui-se que a atuação do método
lúdico tem uma importante função de favorecer
o desenvolvimento cognitivo, físico, psicológico
e social, fundamentais para a inclusão da
pessoa com deficiência intelectual.
PALAVRAS-CHAVE:
Lúdico.
Recurso
metodológico. Deficiência intelectual.
THE LÚDICO AS A METHODOLOGICAL
RESOURCE IN THE INCLUSION OF
STUDENTS WITH INTELLECTUAL
DEFICIENCY IN FUNDAMENTAL TEACHING
ABSTRACT : The present article aims to reflect
the importance of play as an ally in the teaching
and inclusion of students with intellectual
deficiency at the fundamental level, the age
of great discoveries and intense relation with
the environment. In the case of a group of
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 16
152
students with intellectual disabilities, as at any level, the challenge is to offer a teaching
methodologies that better meet their specific needs and favor the process of inclusion.
According to the inclusive perspective, accepting the differences implies respecting the
characteristics, interests, motivations and projects of life of each child, which is only
possible by creating strategies and resources, from there we think of a quality school
as being that that offers in its spaces of learning common classrooms that contemplate
between its resources methodological the ludic. We have as reference in this work
Montessori (1965), Rosamilha (1979), Cunha (1998), Maluf (2003), Dalabona and
Mendes (2004), Kishimoto (apud LUCENA, 2004), Antunes (2005, 2006), Kishimoto
(2005), as an important activity for development and recognize it as an experimental
activity and way to the pedagogical work. This study is based on bibliographic
researches of qualitative methodology seeking a better understanding of the reality of
the object in question. The line of research used follows the LP3 Practical educational
and prevention processes and problems. It is concluded that the action of the play
method has an important function of favoring the cognitive, physical, psychological
and social development so important for the inclusion of the person with intellectual
disability.
KEYWORDS: Playful. Methodological. Intellectual deficiency.
1 | INTRODUÇÃO
É direito de todas as crianças uma educação em sala de ensino regular, em
escolas da comunidade, com oferta de um ambiente educativo enriquecedor e que
atenda às necessidades pedagógicas de cada aluno com sua especificidade, além
de ofertar experiências significativas de qualidade. Este estudo buscou compreender
“O lúdico como recurso metodológico na inclusão de alunos com deficiência
intelectual no ensino fundamental” por meio sistêmico de pesquisa bibliográfica
com os principais autores que abordam o lúdico, o desenvolvimento da pessoa com
deficiência intelectual e a utilização e benefícios desse lúdico enquanto recurso de
aprendizagem e inclusão. Segundo a perspectiva inclusiva, aceitar as diferenças
implica respeitar: características, interesses, motivações e os projetos de vida de
cada criança, o que só é possível criando estratégias e recursos. A partir daí pensase em uma escola de qualidade como sendo aquela que oferte em seus espaços de
aprendizagem salas de aula comum e salas de recursos que contemplem entre seus
recursos metodológicos, o lúdico.
O lúdico é um recurso metodológico muito utilizado por profissionais da
educação por suas importantes contribuições na aprendizagem de alunos com
deficiência intelectual e no avanço do processo inclusivo. Comprovadamente, autores
como: Montessori (1965), Rosamilha (1979), Cunha (1998), Maluf (2003), Dalabona
e Mendes (2004), Kishimoto (apud LUCENA, 2004), Antunes (2005, 2006), Kishimoto
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 16
153
(2005) têm demonstrado sua eficácia em diversas áreas do desenvolvimento humano.
As práticas lúdicas usadas no método de aprendizagem educacional
possibilitam a qualquer aluno, independente de suas limitações, uma aprendizagem
significativa. E, sendo esta uma necessidade, cabe ao professor permitir que seus
alunos participem de atividades importantes, condizentes com uma aprendizagem
mais significativa. Na verdade, o lúdico como proposta metodológica, é uma oposição
à escola que é tão uniformizadora quanto excluidora. Ao inverter o processo de
aprendizagem, impondo valores e conteúdos universais sem partir da prática social
e cultural da criança, a escola desconsidera sua identidade e diferenças. Acredita-se
que para instigar o sujeito e proporcionar seu desenvolvimento e inclusão é preciso
propor atividades prazerosas, desafiadoras, significativas, que despertem o interesse
e a sociabilização. Desse modo, as atividades lúdicas podem ser uma excelente
ferramenta pedagógica de desenvolvimento e inclusiva.
É nítido que a abordagem lúdica seja integradora dos aspectos motores,
cognitivos, afetivos e sociais, partindo do pressuposto de que é brincando e jogando
que a criança aprende e ordena o mundo à sua volta, percebendo experiências
e conhecimentos e, sobretudo, introduzindo princípios, atitudes e valores entre os
alunos, favorecendo a aceitação, o acolhimento, a valorização e inclusão de alunos
com deficiência intelectual.
Na busca de refletir sobre questões como estas, propôs-se o desenvolvimento
de uma pesquisa de revisão bibliográfica, de metodologia qualitativa buscando
conhecer o objeto e fenômeno real seguindo uma linha de pesquisa PL3 por focar
nas Práticas educativas e de prevenção, processos e problemas. Se bem aplicado
e compreendido, o recurso lúdico poderá se constituir em um importante recurso
para melhoria da aprendizagem e inclusão do aluno com deficiência intelectual em
atividade escolar na sala de aula regular.
2 | O LÚDICO NO ÂMBITO ESCOLAR
As brincadeiras e os jogos são muito utilizados como recurso de ensino,
principalmente, na Educação Infantil e nas séries iniciais do Ensino Fundamental.
Utilizar a brincadeira como recurso no processo de ensino é aproveitar a motivação
interna que as crianças têm para tal comportamento e tornar mais atraente a
aprendizagem de conteúdos escolares, além de favorecer a interação entre elas
(CORDAZZO; VIEIRA, 2007).
Dentro do campo dos avanços que a educação já apresenta, observa-se que
há uma nova maneira de valorização da criança e do lúdico, fruto de lutas sociais
de constantes reivindicações para que a criança fosse reconhecida em suas
necessidades, dentre elas a de brincar na escola:
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 16
154
Apesar do compromisso com um “resultado escolar” que a escola prioriza e
que, em geral resulta numa padronização, estão em jogo na Educação da criança as
garantias dos direitos ao seu bem-estar, à expressão, ao movimento, à segurança, à
brincadeira, à natureza, e também ao conhecimento produzido e a produzir (ROCHA,
2001, p. 32).
Para Kishimoto (apud LUCENA, 2004, p. 43),
A utilização do jogo potencializa a exploração e a construção de conhecimento,
por contar com a motivação interna, típica do lúdico, mas o trabalho pedagógico
requer a oferta de estímulos externos e a influência de parceiros, bem como a
sistematização de conceitos que não jogos. Ao utilizar de modo metafórico, a forma
lúdica (objeto suporte de brincadeira) para estimular a construção do conhecimento,
o brinquedo educativo conquistou um espaço definitivo na educação infantil.
Nesta referida perspectiva, o brincar na educação pode ser considerado um
instrumento de motivação e estímulo a diversas habilidades como a expressão do
pensamento e a linguagem, a compreensão do mundo à sua volta, a percepção de
si e dos outros, a resolução de conflitos e na construção de valores éticos, que vão
refletir em toda sua vida social também.
Jesus (2011) chama a atenção para alguns teóricos que defendiam a perda do
caráter funcional lúdico ao brinquedo, quando este era desenvolvido com finalidade
educativa de desenvolver alguma habilidade, entre estes autores Kishimoto (1998,
p. 15) ao afirmar que o
[...] jogo educativo apresenta duas funções: a lúdica, que implica na escolha
voluntária do jogo e a educativa, sendo que o jogo é colocado como algo que
auxilia na aprendizagem e na noção de mundo. O jogo educativo ocorre pela união
das características da educação e do jogo, sendo necessário o equilíbrio entre a
liberdade característica do jogo e o objetivo de ensinar conteúdos da educação.
Quando ocorre o desequilíbrio entre essas características o brinquedo utilizado no
jogo deixa de ser brinquedo para se tornar um material pedagógico ou didático e
isso acaba interferindo na aprendizagem, uma vez que as características principais
se perdem.
A necessidade de compreender, conhecer e reconhecer as particularidades na
atividade lúdica de cada criança como forma de estarem no mundo, de serem, de se
empregarem em uma atividade útil a favor e não contra a sua própria natureza, é o
que Rosamilha (1979, p.
77) enfatiza, ao dizer que:
Criança é antes de tudo, um ser feito para brincar. O jogo, eis ai um artificio que
a natureza encontrou para levar a criança a empregar uma atividade útil ao seu
desenvolvimento físico e mental. Usemos um pouco mais esse artifício, coloquemos
o ensino mais ao nível da criança, fazendo com que seus instintos naturais sejam
aliados e não inimigos.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 16
155
Como no ambiente escolar, o professor é o encarregado da aprendizagem das
crianças e será ele quem fará o convite para a realização das atividades lúdicas e
quem irá promover “as condições de sustentação da experiência lúdica que está na
origem do processo de conhecer” (ROSA, 2002, p. 104 apud JESUS, 2011, p. 23).
Ao se apresentar uma brincadeira a uma criança, individual ou grupal, não
há passividade nesta ação, a criança é convidada a pensar, dialogar, se mexer, rir,
interagir ou se concentrar, de forma que aja e reaja no meio onde está, proporcionando
um crescimento global. Desta forma desenvolve processos mentais superiores,
ao mesmo tempo em que se torna participante efetivo do seu meio sociocultural,
avançando para outras formas de aprendizagem. Maranhão (2005, p. 33), destaca
o pensamento de Vygotsky que entende a brincadeira como uma atividade social
da criança, por meio desta, a criança adquire elementos imprescindíveis para a
construção da sua personalidade e para compreender a realidade da qual faz parte.
Ele apresenta a concepção da brincadeira como sendo um processo e uma atividade
social infantil.
Carmo (2015, pg 17) traz uma importante citação a respeito de como Piaget
abordou a importância do lúdico em sua concepção a respeito do estágio evolutivo
na criança:
“A brincadeira representa um fator de grande importância no processo de
desenvolvimento e socialização dos alunos, proporcionando-lhes descobertas
marcantes, estruturadas em estágio evolutivo, seguindo a abordagem de Piaget.
No início é predominante o jogo de exploração, por meio do estágio sensóriomotor, onde o aluno manipula e explora os objetos, consolidando os movimentos
de repetição e reorganização; no pré-operatório a atividade dominante é o jogo
simbólico, nele a criança pode perceber que um objeto pode figurar qualquer outra
coisa; e, por fim, as operações concretas: nesse período a atividade dominante é
o jogo de regras, sendo fundamental para o desenvolvimento das capacidades
intelectuais. Nele a criança começa a compreender suas obrigações perante o
coletivo.
As brincadeiras e os jogos, por conseguinte, constituem-se indispensáveis
ao processo de desenvolvimento infantil, dos quais a criança atravessa estágios
caracterizados por situações de desenvolvimento específicas da fase para a
construção de sua aprendizagem.
A respeito do brinquedo, Jesus (2011) traz a classificação de Kishimoto (2001),
ao afirmar que este pode ser de dois tipos: o primeiro é aquele utilizado de forma
livre, onde o professor valoriza a socialização das crianças; e o outro é aquele no
qual ocorre a valorização e aquisição de conteúdos, que a autora chama de brincar
dirigido e jogo.
A criança também pode sinalizar por meio do lúdico que a sua sociabilização
não anda boa, assim como possa está passando por algum problema ou conflito
dentro da própria sala. Muller (2006, p. 51), no capítulo destinado a brincadeira
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 16
156
e a autoestima chama atenção para uma importante função da brincadeira como
um fator importantíssimo e indispensável ao desenvolvimento intelectual, afetivo e
social:
“A brincadeira é a via natural da expressão das crianças, produz nelas alegria e
as estimula a explorar o mundo que as rodeia. Quando brinca, a criança se sente
contente com ela mesma, e quando brinca com os outros se sente parte de um
grupo, o que tem sido descrito como mais relacionados à auto-estima”.
A inclusão da criança em uma atividade lúdica favorece o contato dela consigo
mesma e sua liberdade emocional como explicitado pelo autor. O brinca a leva a se
expor e torna qualquer outra atividade posterior mais fácil. A recusa de participar
de atividades lúdicas pode sinalizar que algo emocionalmente não vai bem com
a criança no campo social e emocional. Muller (2006, p. 52) prossegue afirmando
que a brincadeira proporciona à criança um meio para expressar seus sentimentos,
suas ideias e é uma mostra do enorme impulso para auto-realização que existe na
infância.
A brincadeira nas atividades de aprendizagem dá segurança à criança frente ao
aprender e lhe permite associar aprendizagem com prazer, o que é uma característica
das crianças com uma boa autoestima acadêmica. Na medida em que se sentem
inteligentes e capazes elas apresentam interesse em continuar aprendendo.
A escola atualmente tem a responsabilidade de perceber e aceitar seus
alunos com suas necessidades e motivações diferenciadas e, a partir daí, ofertar
também metodologias distintas que atendam a essas necessidades para seu bom
desempenho educacional e global. O lúdico, por conseguinte, tem se mostrado como
importante recurso de desenvolvimento e inclusão.
3 | O DEFICIENTE INTELECTUAL E A INCLUSÃO
Várias crianças em idade para o ensino fundamental matriculadas nas escolas,
nem sempre se encontram inseridas, somente passam por lá. Não aproveitam
realmente aquilo que aquele espaço poderia proporcionar-lhes, seja porque a
forma de ensinar não lhes seduz ou não é a mais adequada, seja porque possuem
comportamentos fora do padrão esperado, como comportamentos que Winnicott
(1987) denomina de antissociais e, igualmente, possuem dificuldades expressivas
na aprendizagem, que as estigmatizam na maioria das vezes (MAIA, 2009 apud
MAIA, 2014).
Discorrendo historicamente da educação do deficiente intelectual, Pessotti
(1984 apud ROSA, 2017), quando destaca a educação de 1839 com SÉGUIN que
abriu a primeira escola do mundo para crianças e jovens com deficiência intelectual,
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 16
157
onde desenvolveu um método de tratamento e, mais tarde, apresentou a pedagogia
baseada nas funcionalidades da inteligência, ilustrada com vários exemplos de sua
aplicação. Tal educação era voltada para o diagnóstico, avaliação e higiene destes
e, posteriormente, é criada a educação do sistema muscular e ginástica e ainda a
educação do sistema nervoso. SÉGUIN trata da “idiotia” pelo método fisiológico,
afirmando que seu método “aliviava” as dificuldades encontradas pelas pessoas com
deficiência intelectual. Ele propunha uma educação que considerasse a pessoa
integralmente em todos os aspectos e interesses. Nesse sentido, ele construiu as
bases que tramitam entre saúde e educação da pessoa com deficiência intelectual
que delineou, posteriormente, a educação especial e influenciou teóricos como
Maria Montessori que posteriormente criaria uma teoria baseada no concreto e uso
de recursos lúdicos.
Em seu trabalho com destaque às considerações de Pessotti (1984, p. 24 apud
ROSA (2017, p. 34) prossegue discorrendo historicamente e diz que foi principalmente
na Europa, a educação da pessoa com deficiência, iniciada no Século XVIII, apontava
como esses indivíduos eram segregados e protegidos em instituições residenciais
e hospitalares: “Não se pune nem se abandona o deficiente, mas também não se
sobrecarrega o governo e a família com sua incômoda presença”.
Já no Século XIX há uma ruptura do modelo com enfoque clínico para uma
proposta pedagógica, pois florescem os ideais do naturalismo na época, e é com Itard,
médico reconhecido, que nasce o conceito da educação especial entendida como
intervenção pedagógica, mas ele desafia a visão estática e irreversível a respeito
da pessoa com deficiência intelectual por meio da experiência educativa com Victor,
o selvagem de Aveyron. Garoto este que foi acompanhado em uma escola para
surdos-mudos por uma equipe multiprofissional, dentre eles o psiquiatra Pinel que
o diagnosticou com deficiência Intelectual. Foi com Itard, aluno de Pinel, que Victor
passou por um processo educacional para reintegração na sociedade. Seu trabalho
marcou importantes avanços na Educação Especial (ROSA, 2017).
Durante décadas, vários autores trouxeram concepções variadas acerca do
que seria a deficiência intelectual, alguns de visões e vertentes biológicas, médicas
e institucionais. Atualmente vem sendo muito bem aceita a definição da Associação
Americana de Deficiência Mental (AAMR) e o Manual Diagnóstico e Estatístico
de Transtorno Mentais (DSM - V), podendo-se conceituar a deficiência hoje de
deficiência intelectual como sendo um estado de redução notável do funcionamento
intelectual inferior à média, associado a limitações pelo menos em dois aspectos
do funcionamento adaptativo de comunicação, cuidados pessoais, competência
doméstica, habilidades sociais, utilização dos recursos comunitários, autonomia,
saúde e segurança, aptidões escolares, lazer e trabalho.
Conforme preconizam esses mesmos critérios de classificação internacional,
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 16
158
sabe-se que este se trata de um transtorno do desenvolvimento, um rebaixamento da
função intelectiva que aparece antes dos 18 anos. Para tanto, se faz necessário um
diagnóstico mais técnico, minucioso e cauteloso com a presença de vários aspectos.
Na Deficiência Intelectual, quando comparada a parâmetros de quociente
de inteligência (QI) ela se apresenta inferior a 70, média presente na população
considerada sem deficiência mental, conforme testes psicométricos que vão de
provas, roteiros e escalas baseados em teorias da psicogenética. Vale lembrar que
aqui no Brasil e em muitos países já se abandonou mais esses referenciais de QI
como determinantes no diagnóstico.
Vários são os quadros apresentados por alunos que apresentam como
dificuldade a deficiência intelectual, dentre eles a Síndrome de Down, alguns autistas,
outras síndromes e deficiências múltiplas.
Contudo, o paradigma da inclusão já é algo bem presente no nosso tempo e
tem ganhado espaço, em diferenciação com a integração, que só inseria esse aluno
no espaço da escola. Esse paradigma trabalha a conscientização de que a escola
é para todos, aberta às diferenças, prima pelas especificidades de cada aluno,
especialmente aqueles excluídos do sistema tradicional e pela sociedade.
Com a Constituição Federal de 1988, oficializou-se o princípio da inclusão na
educação, assegurando aos portadores de deficiência a preferência em estudar
na rede regular de ensino, com garantia de atendimento especializado e outras
adaptações e remoções de barreiras, entre outros. Daí em diante percebe-se uma
série de documentos que surgiriam para promoção do atendimento educacional
especializado na rede regular de ensino. Para discorrer sobre esse importante
momento de fomento da inclusão, Carmo (2015, p.15) cita Aranha (2004, p.7):
“A escola inclusiva é aquela que garante a qualidade de ensino educacional a cada
um de seus alunos, reconhecendo e respeitando a diversidade e respondendo a
cada um de acordo com suas potencialidades e necessidades. Segundo a autora
a escola só poderá ser considerada inclusiva quando estiver organizada para
favorecer a cada aluno, independentemente de etnia, sexo, idade, deficiência,
condição social ou qualquer outra situação.
É por meio da educação inclusiva que se integram e efetivam ao ambiente
escolar, conceitos como aceitação e valorização das diferenças, desenvolvimento
de potencialidades, integração, respeito, que é o que transforma o espaço escolar
em um espaço igualitário e de oportunidade a todos. Desta forma, enquanto parte
de uma sociedade, a escola inclusiva tem contribuído com a aceitação, a inclusão e
acessibilidade das pessoas com deficiência.
Atualmente é perceptível a presença de crianças com deficiência na escola em
classes regulares, em salas de atendimento educacional especializado (AEE), mas
ainda se fazem necessários à continuidade dos estudos e a melhoria das leis que
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 16
159
asseguram esse importante direito à pessoa com deficiência.
“Pressupõe-se, conceitualmente, que todos, sem exceção, devem participar da
vida acadêmica, em escolas ditas comuns e nas classes ditas regulares onde deve
ser desenvolvido o trabalho pedagógico que sirva a todos, indiscriminadamente”
(CARVALHO, 1998, p. 170).
Para Antunes (2006), a inclusão significa que o aluno esteja na escola,
participando, aprendendo e desenvolvendo suas potencialidades. Um outro aspecto
da inclusão consiste em identificar barreiras que impedem os alunos de adquirirem
conhecimentos acadêmicos, podendo ser estas: a organização da escola, o prédio,
o currículo, a forma e os recursos utilizados e o próprio preconceito presente entre
profissionais e alunos da escola.
Dentro da dinâmica de ensino inclusivo não se pode perder de vista o aluno
enquanto sujeito único e com suas necessidades individuais. E, para tanto, as
escolas devem estar preparadas para ser espaço inclusivo, mas nem todas estão
adequadas para receber e incluir seus alunos com deficiência, grande parte alega
falta de estrutura e preparo dos professores. Indo mais além percebe-se, que estão
despreparados também sobre a utilização do recurso lúdico em sala em benefício da
inclusão de seus alunos. E por que não levar essas questões à escola e mostrar os
benefícios desse importante recurso na inclusão?
4 | O LÚDICO COMO METODOLOGIA NA EDUCAÇÃO INCLUSIVA
Nos primórdios das antigas civilizações já se retratavam a utilização dos jogos
como parte da vida das crianças e adultos e como forma de os apresenta-los e
inseri-los à sociedade. Dentro desse contexto a criança participava ativamente, como
numa espécie de ritual de passagem para a vida adulta, utilizando os mais diversos
tipos de jogos. Ferreira (1997, p.16) explicita melhor esse rito e prática em sua obra:
“Uma outra atividade, de caráter ritualístico, na qual estava presente o lúdico de
forma muito significativa para o homem antigo, foi a dança, onde este exibia suas
qualidades físicas, seus sentimentos pela caça e pela pesca feliz, ou a dramatização
de qualquer evento que merecesse destaque, como os nascimentos e os funerais.
A dança representava, pelo que se pode perceber, um papel fundamental no
processo de educação, por se fazer presente em todos os ritos que preparavam
para a vida social”.
Na citação acima, percebe-se que as antigas civilizações adotavam em seus
afazeres ritualísticos, inúmeros procedimentos que envolviam o lúdico, destacandose principalmente a brincadeira proporcionada pela dança, que representava,
entre outras coisas, o prazer e a diversão da caça e da pesca, simbolizando em
suas coreografias, elementos da educação tribal, necessários para os indivíduos
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 16
160
pertencentes ao Clã. A dança, nesse contexto adquiria um caráter do rito de
passagem, de cerimônia de transformação (onde o adolescente aprendia a ser
adulto), cuja utilidade expressava-se, ainda, na estruturação do caráter dos jovens já
em idade quase adulta, preparando-os oficialmente para uma inclusão/apresentação
a sociedade.
O brincar é necessidade inata humana, é uma forma de expressão, de
comunicação que os seres humanos possuem desde o nascimento. É uma atividade
humana social de contexto cultural, em que os homens utilizam a imaginação e a
fantasia para interagir com a realidade que o cerca e redimensionar com novas ações,
e indo mais além, servia de atividade ritualística para apresentá-la a sociedade.
Segundo o Referencial Curricular Nacional para Educação Infantil, quando
se trata da educação de crianças, as atividades deverão ser apropriadas às suas
necessidades (BRASIL, 1998):
Brincar é uma das atividades fundamentais para o desenvolvimento da identidade e
autonomia. O fato de a criança, desde cedo poder se comunicar por meio de sons,
gestos e mais tarde representar determinado papel nas brincadeiras faz com que
este desenvolva a imaginação. Nas brincadeiras as crianças podem desenvolver
algumas capacidades importantes, tais como atenção, a imitação, a memória, a
imaginação, amadurecem também algumas capacidades de socialização, por
meio da interação e da utilização de experimentação de regras e papéis sociais.
[...] o aprendizado desperta vários processos internos de desenvolvimento, que são
capazes de operar somente quando a criança interage com pessoas em seu ambiente
e quando em cooperação com seus companheiros. Uma vez internalizados, esses
processos tornam-se capazes de aquisições do desenvolvimento independente da
criança. (VYGOTSKY, 2002, p. 117-118).
Neste sentido com o lúdico, a criança interage com o mundo, favorecendo a
iniciativa, a autoconfiança e a autonomia, fatores significativos para a aprendizagem
(JULIANI; PAINI, [2008]). O brincar na sala torna-se um importante momento de
aprendizado por meio da coletividade e cooperação.
A importância do brincar consiste em desenvolver por meio das relações que
vão consolidando sua identidade, sua autonomia, imagem de si e do mundo que o
cerca (MALUF, 2003).
O grande potencial de desenvolvimento que tem o brinquedo nas mãos de uma
criança é destacado na obra de Cunha (1994 ) apud Maluf, (2003), quando esta diz
que brincando a criança desenvolve suas potencialidades. Os desafios ocultos no
brincar fazem com quem a criança pense e alcance melhores níveis de desempenho.
A autora segue com o pensamento de outro grande teórico a respeito do brincar;
Winnicott (1975) quando traz uma contribuição ao formular que a criança, dentro
do seu mundo, tem o prazer em todas as experiências de brincadeiras, um prazer
que é físico e mental. Quando brincam, as crianças demonstram sua criatividade,
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 16
161
imaginação e inteligência. Desenvolvem capacidades e habilidades para sua futura
atuação profissional, tais como atenção, concentração, memória etc. É por esses
fatores, que o brincar como elemento criativo é importante mobilizador de ações,
consegue desencadear processo de aprendizagem, torna a criança um sujeito ativo
no processo de aprender, à medida que pratica uma atividade ativadora de prazer e
de vários sistemas cognitivos desencadeadores do desenvolvimento.
Desse modo, Davýdov (1982, p. 180) destaca o papel importante da forma
com que se ensina, da relevância deste, para se desenvolver funções psíquicas
superiores, no processo de apropriação da aprendizagem. Quando pensado na
importância de desenvolver habilidades intelectivas é de fundamental importância à
escolha da metodologia e do recurso: “A maneira pela qual o ensino está organizado
intervém no desenvolvimento intelectual do sujeito, ou seja, “o ensino constitui a
forma internamente indispensável e geral de desenvolvimento intelectual”.
Rosa (2002) destaca que se nem o aluno nem o professor tiverem a capacidade
de brincar não haverá um “espaço potencial”, não havendo a comunicação e o
desenvolvimento necessário para a aprendizagem dentro da atividade lúdica. Assim,
o brincar é a tarefa do dia a dia da criança que nem pais e educadores ou professores
conseguirão transmitir, pois é vivência.
O professor enquanto mediador do processo de aprendizagem e inclusão em
sala deverá estar atento e ser o maior incentivador da atividade lúdica, respeitando
o tempo do seu aluno, sobretudo a criança com deficiência intelectual e/ou múltipla,
fazendo cumprir importantes orientações norteadoras do nosso ensino.
Kishimoto (2011 apud JESUS, 2011, p. 23) ressalta a importância de o professor
participar e mediar às atividades lúdicas em sala:
[...] podemos perceber que o jogo educativo é um recurso que pode ser bastante
produtivo; contudo, não adianta possuir o melhor jogo educativo se o professor
não souber estimular as crianças, torna a sua utilização significativa e participar
dos jogos e brincadeiras propostos. Para o jogo ser realmente eficiente o professor
tem que participar durante o desenvolvimento da atividade lúdica, sendo que deve
ocorrer a mediação entre a atividade lúdica e o aprendizado que ela trará. Sendo
que esta mediação pode ser realizada por meio de sujeitos (como o professor, a
mãe ou um amigo), de objetos e artefatos, por que a mediação é importante no
processo educativo. Em especial no processo inclusivo.
Toda a aprendizagem e preparo para ações futuras que o brincar proporciona
para o desenvolvimento educativo da criança é fundamental para a sua formação e
etapas de vida, torna o ambiente acolhedor, encorajador e desmistificador de receios
e medos. Dalabona e Mendes (2004, p. 109) destacam:
É preciso respeitar o tempo da criança ser criança, sua maneira absolutamente
original de ser e estar no mundo, de vivê-lo, de descobri-lo, de conhecê-lo, tudo
simultaneamente. É preciso quebrar alguns paradigmas que foram sendo criados.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 16
162
Brinquedo não é só um presente, um agrado que se faz a criança: é investimento
em crianças sadias do ponto de vista psicossocial. Ele é a estrada que a criança
percorre para chegar ao coração das coisas, para desvelar os segredos que lhe
esconde um olhar surpreso ou acolhedor, para desfazer temores, explorando o
desconhecido.
No desenvolvimento escolar elas começam a demonstrar seus dotes criativos
em atividades individuais ou em grupos, observa-se um melhor desempenho
nas atividades que requeiram inteligência, imaginação, atenção e concentração,
habilidades psicomotoras que, consequentemente, desenvolverão capacidades
indispensáveis à sua futura atuação acadêmica e profissional.
Segundo Rolim, Guerra e Tassigny (2008, p. 45),
O brincar relaciona-se ainda com a aprendizagem. Brincar é aprender; na
brincadeira, reside à base daquilo que, mais tarde, permitirá à criança aprendizagens
mais elaboradas. O lúdico torna-se, assim, uma proposta educacional para o
enfrentamento das dificuldades no processo de ensino-aprendizagem.
Ainda com Abrantes (2010 apud Carmo, 2015, p. 17) podemos inferir que:
“O jogo possui vários objetivos pedagógicos como: trabalhar a ansiedade dos
alunos por meio das atividades que exigem concentração; rever limites, pois é
pelo jogo que o aluno se enquadra em regras, reagindo com suas emoções para
aprender a ganhar e perder, aprendendo inclusive a respeitar e ser respeitado;
proporcionar confiança em si e nos outros, estimular a autoestima; confeccionar
jogos, fazendo que a criança tenha oportunidade de errar, acertar, construir,criar,
copiar, desenvolver planos aumentando sua autoestima, acreditando que é capaz
de fazer muitas coisas para si; desenvolver a autonomia, proporcionando ao aluno
a oportunidade de responsabilizar-se por suas escolhas e atos; ampliar o raciocínio
lógico, exigindo
planejamento e estratégias para raciocinar”.
Os mais diversos mecanismos e objetivos pedagógicos, desencadeados
pela atividade lúdica citados acima, são a base para uma educação igualitária,
participativa, inclusiva, de respeito e estimulo a valorização das diferenças. Desta
maneira, observa-se o quão rico se torna a exploração do lúdico na sala de aula.
Silva, Cabral e Christoffel (2008 apud PASCULLI; BALEOTTI; OMOTE, 2012),
conforme acima explicitado, reafirmam que o brincar proporciona eficazmente
essa interação social com outras crianças da família, amigos, colegas da escola
e vizinhança, e com estes adquire habilidades que não seria capaz de aprender
sozinha. E, dentro do processo de inclusão, é preciso que a criança tenha todas as
condições necessárias para desenvolver seu potencial e consiga integrar-se à turma
de forma efetiva e eficiente.
O lúdico não se refere apenas ao brincar, jogar e ao movimento espontâneo.
O lúdico é essencial no desenvolvimento humano acrescentando ingredientes
indispensáveis no relacionamento interpessoal, facilitando também a criatividade
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 16
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e estabelecendo relações. A ludicidade é uma necessidade do ser humano,
independentemente, da idade e não pode ser vista como mera diversão, pois está
ligada ao processo dinâmico da educação a fim de estabelecer relações concretas
no processo de construção do conhecimento, e ainda é indispensável à saúde física,
emocional e intelectual, uma vez que está presente na cultura dos povos, desde os
tempos mais remotos. É importante lembrar que no caso do deficiente intelectual,
este aprende melhor quando em contato com recursos concretos.
Davýdov (1982) ao discorrer sobre os elementos essenciais para o
desenvolvimento da potencialidade do sujeito, afirma que esta se inicia pela
apropriação dos conhecimentos teóricos, representadas nas inter-relações entre o
interno e o externo, entre a totalidade e a aparência, entre o original e o derivado.
O mesmo autor a respeito do método considera que este permite a produção
teórica das formas de representação e contemplação sensorial. Para ele o concreto
real é o método de ascensão do abstrato ao concreto, o que o considera um dos
princípios necessários para o sucesso e organização do ensino para se chegar a um
pensamento teórico.
No capítulo destinado à brincadeira e à autoestima, Müller (2006, p. 51), chama
atenção para uma importante função da brincadeira como um fator importantíssimo
e indispensável ao desenvolvimento intelectual e afetivo das crianças:
A brincadeira é a via natural da expressão das crianças, produz nelas alegria e
as estimula a explorar o mundo que as rodeia. Quando brinca, a criança se sente
contente com ela mesma, e quando brinca com os outros se sente parte de um
grupo, o que tem sido descrito como mais relacionado à autoestima.
Como se pode perceber, a inclusão da criança em uma atividade lúdica favorece
o contato dela consigo mesma e sua liberdade emocional. O brincar leva a se expor
e torna quaisquer outras atividades posteriores mais fáceis. A recusa de participar
de atividades lúdicas pode ser um sinal importante de que algo emocionalmente não
vai bem com a criança.
Muller (2006) prossegue afirmando que a brincadeira proporciona à criança
um meio para expressar seus sentimentos, suas ideias e é uma mostra do enorme
impulso para autorrealização que existe na infância. Na inclusão, muitos são os
desafios e sentimentos oriundos deste processo, e o lúdico viabiliza esse espaço
expressivo para que o professor e técnicos percebam essas vivências em seu aluno.
A utilização da brincadeira nas atividades de aprendizagem dá segurança à
criança frente ao aprender e lhe permite associar aprendizagem com prazer, o que
é uma característica das crianças com uma boa autoestima acadêmica. Na medida
em que se sentem inteligentes e capazes elas apresentam interesse em continuar
aprendendo.
O aluno com deficiência intelectual e/ou múltipla que apresentar
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 16
164
um rebaixamento da sua autoestima poderá ter no lúdico um importante aliado
para auxiliar no regaste desta, assim o lúdico é a via de ensino onde o ambiente
proporcionado cria condições de igualdade.
Segundo Silva (2004) ensinar por meio de jogos é um caminho para o educador
desenvolver aulas mais interessantes, descontraídas e dinâmicas, podendo competir
em igualdade de condições com inúmeros recursos a que o aluno tem acesso fora
da escola, despertando ou estimulando sua vontade de frequentar com assiduidade
a sala de aula e incentivando seu desenvolvimento no processo de ensino e
aprendizagem, já que aprende e se diverte, simultaneamente.
Nesse sentido, de acordo com os autores, o brincar se constitui em um recurso
pedagógico também favorecedor da inclusão. No brincar o pedagogo pode e deve,
quando necessário, direcionar a ação, fazer intervenções por vezes impondo limites
claros e objetivos, dependendo do momento da criança para que esta, por meio do
lúdico, possa trabalhar sua impulsividade, agressividade, assim como aprender a
lidar com as próprias dificuldades e limitações na ação pedagógica.
Foi possível perceber que os autores já citados, concordam e veem como
importante a utilização de brinquedos, brincadeiras e jogos como recurso pedagógico
no desenvolvimento da aprendizagem e inclusão de alunos com deficiência intelectual,
propondo que os pedagogos façam uso desses materiais com conhecimento
adequado, não só colocando apenas por colocar os brinquedos para as crianças,
mas sabendo abstrair, do momento lúdico, o melhor da criança, as hipóteses para
melhor uso como recurso na aprendizagem e na inclusão.
5 | METODOLOGIA
Este estudo está fundamentado em pesquisas bibliográficas de metodologia
qualitativa buscando uma compreensão da realidade do objeto em questão.
Referida metodologia parte do pressuposto de que tanto os pesquisadores como os
pesquisados apresentam noções e concepções em relação ao objeto de estudo que
são coerentes e pertinentes a discursões e reflexões a respeito deste. Seu principal
foco é interrogar sobre os fenômenos que ocorrem com os seres humanos na sua
vida social e possibilitar estabelecer outras marcas teóricas a partir das informações
estudadas desta realidade e posteriormente servir de referencial a outros trabalhos.
As bibliografias utilizadas contemplam autores que abordam a importância da
atividade lúdica enquanto recurso metodológico na aprendizagem da criança com
deficiência intelectual, fazendo a ponte com a possibilidade de este recurso contribuir
enquanto metodologia para o aluno da educação inclusiva. A leitura dos autores será
sistemática, com fichamento de cada obra, ressaltando os pontos sobre a temática
abordada.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 16
165
A partir dessa questão, pontos importantes devem ser citados como norte de
todo trabalho como a importância do lúdico no âmbito escolar e suas repercussões
de aprendizagem na escola, enfatizando seu diferencial e sua eficiência, trazendo à
tona no aluno habilidades, potencialidades e organização social. Em seguida, será
abordada a deficiência intelectual e a inclusão. Por fim, o estudo fundamenta-se
teoricamente em importantes autores para explicar o lúdico como metodologia na
educação inclusiva, de que forma este contribui para viabilizar a boa adaptação e
sucesso da pessoa com deficiência intelectual no ensino regular.
Considera-se que a pesquisa bibliográfica utilizada possa descrever a importância
do lúdico na inclusão de alunos com deficiência intelectual, suas preferências, o que
pensam os educadores e técnicos, como a escola avalia a importância desse recurso
utilizado na inclusão. Posteriormente, à pesquisa bibliográfica serão analisadas as
informações, e discussões teóricas, consideração final e referência bibliográfica.
De semelhante forma, espera-se, também, contribuir para melhoria da consciência
coletiva nas escolas, à medida que temas como estes são alvos de debates entre
profissionais da educação.
6 | CONCLUSÃO
A atuação do método lúdico tem uma importante função para a inclusão da
pessoa com deficiência intelectual, uma vez que favorece o desenvolvimento
cognitivo, físico, psicológico e social, e por meio deste estudo, verificou-se que a
ludicidade pode e deve ser utilizada nas salas de aula regulares, pois visa favorecer
não só o processo inclusivo, mas ajuda a melhorar no ensino-aprendizagem.
Nesse sentido, a ludicidade enquanto recurso metodológico apresenta
atribuições importantíssimas no desenvolvimento de habilidades, porque busca
aperfeiçoa ações motoras, ao mesmo tempo em que torna a criança mais criativa, com
maiores habilidades de criticidade e avaliação de situações problemas e articulação
de regras, pois o enredo das atividades lúdicas são criadas a partir de ações que
envolvem o concreto, situações reais com problemas simulados por meio das
atividades lúdicas sobre determinadas realidades, percebido nos jogos simbólicos e
em outra fase na operacionalização do concreto, dependendo do estágio em que se
encontra esse aluno. E aí residem, as preferências destes.
Levando em consideração a lentidão no processo de maturação cognitiva do
aluno com deficiência intelectual e suas necessidades específicas de uma metodologia
prazerosa que atenda essa especificidade, o lúdico contribui nesse processo de
estimulação e maturação. Assim, torna-se indispensável a utilização deste recurso
didático numa instituição educacional com propostas pedagógicas, principalmente se
sua filosofia for sócio interacionista, pelo caráter de espaço de aprendizagem formal
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 16
166
e de motivação ao protagonismo do próprio conhecimento, sendo necessário e viável
por meio desta metodologia lúdica um trabalho estimulativo, de desenvolvimento de
habilidades importantes para seu dia a dia, autonomia e aquisição de conteúdos
acadêmicos, independente da limitação cognitiva.
Deste modo, pode-se contar com o uso de tal recurso como um importante
instrumento no espaço escolar formal e inclusivo, tornando-o mais acolhedor,
convidativo, atraente, prazeroso por despertar o interesse inicial de se aventurar
na atividade seja ela individual ou coletiva. Todavia, cabe ao professor buscar mais
conhecimentos sobre a melhor forma de dispor deste recurso, buscar capacitar-se,
desenvolver habilidades para direcioná-lo à determinada área do conhecimento na
perspectiva de um retorno em forma de aprendizagem. Assim, o lúdico na condição
de recurso não terá um fim em si mesmo, mas é imprescindível que promova
conhecimento e favoreça a melhoria nas relações afetivas e sociais em sala,
promovendo de forma natural e sadia o processo de desenvolvimento e de inclusão.
O que se observa é que a escola, ainda é um espaço formal, pois conserva em
seu arcabouço metodológico e de proposta curricular atividades mais formais como
as de cunho curricular acadêmico, voltadas para a didática de recursos impressos
e audiovisuais. No caso da inserção do lúdico, este cria outras possibilidades de
aprender com prazer, desenvolve melhor a fantasia e o imaginário de forma natural,
de viabilidade para narrativas de experiências que podem ser bem pessoais e
próximas da sua realidade, de sua história e saberes.
Observa-se também, que no processo inclusivo ainda há muitas etapas a serem
percorridas e que grande parte das escolas não estão preparadas para receber os
alunos com deficiência intelectual, sobretudo, não dispõem de metodologias como o
lúdico no auxílio à inclusão.
Considera-se, por fim, que, para que o professor veja o brincar como uma
ação experiencial no cotidiano da educação fundamental e seja um facilitador dessa
experiência com seu aluno, a escola incentive a prática como forma de enriquecer
sua dinâmica metodológica em sala e promova a inclusão de seus alunos com
deficiência intelectual, uma vez que este encontre no lúdico um espaço para seu
desenvolvimento.
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Capítulo 16
169
CAPÍTULO 17
doi
O LUGAR DAS DISCIPLINAS PEDAGÓGICAS NA
FORMAÇÃO DOS LICENCIANDOS EM EAD
Data de aceite: 06/01/2020
Maria Letícia Cautela de Almeida Machado
Universidade do Estado do Rio de Janeiro,
Faculdade de Educação, Departamento de
Estudos Aplicados ao Ensino.
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro
RESUMO: Este artigo se justifica pela
atual demanda, no campo educacional, de
estabelecimento de uma relação entre os
componentes curriculares de formação de
professores nas licenciaturas, as formas
contemporâneas de organização curricular
em modelos educacionais à distância (EAD)
e a diversidade de repertório instrumental que
estes modelos podem favorecer. O objetivo
é discutir os componentes curriculares
relacionados às disciplinas pedagógicas
que compõem as diferentes licenciaturas do
Consórcio CEDERJ, de modo a contribuir para
a formação de professores na modalidade
à distância, articulando atualidades sociais
e culturais aos conhecimentos educacionais
contemporâneos. Realizou--se um estudo de
natureza teórico-prática, cujo levantamento de
dados se deu a partir da análise das salas de
aula da Plataforma CEDERJ, bem como pelo
exame detalhado das ementas das disciplinas
pedagógicas. Verificou-se que os componentes
curriculares pedagógicos que compõem as
licenciaturas CEDERJ apresentam-se em três
grandes blocos: os Fundamentos da Educação,
as Práticas Pedagógicas e os Estágios
Supervisionados. Tais disciplinas pedagógicas
buscam integrar conceitos, metodologias e
práticas e subsidiar o exercício do pensamento
crítico sobre teorias e práticas pedagógicas,
bem como a construção de uma prática reflexiva,
autônoma e criativa. Conclui-se que a formação
para o exercício da docência na atualidade
demanda toda uma articulação teórico-técnicopedagógica que possibilite a análise das
relações entre os conteúdos de ensino e os
diferentes modos de ensinar, bem como das
possibilidades de fomentar a construção do
vínculo entre o professor e o aluno na educação
a distância.
PALAVRAS-CHAVE: Formação Pedagógica;
Licenciatura; Educação a Distância.
THE PLACE OF PEDAGOGICAL
DISCIPLINES IN THE TRAINING OF
LICENSORS IN EAD
ABSTRACT: This article is justified by the current
demand in the educational field to establish a
relationship between the curricular components
of teacher education in undergraduate
degrees, the contemporary forms of curricular
organization in distance educational models
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 17
170
and the diversity of instrumental repertoire that these models have can favor. The
objective is to discuss the curricular components related to the pedagogical disciplines
that make up the different degrees of the CEDERJ Consortium, in order to contribute
to the formation of teachers in the distance modality, articulating social and cultural
news with contemporary educational knowledge. A theoretical and practical study
was carried out. Data were collected through the analysis of the CEDERJ Platform
classrooms, as well as through the detailed examination of the pedagogical subjects'
menus. It was found that the pedagogical curricular components that make up the
CEDERJ degrees are presented in three major blocks: the Fundamentals of Education,
Pedagogical Practices and Supervised Internships. Such pedagogical disciplines
seek to integrate concepts, methodologies and practices and support the exercise of
critical thinking about pedagogical theories and practices, as well as the construction
of a reflexive, autonomous and creative practice. It is concluded that the formation for
the teaching practice nowadays demands a whole theoretical-technical-pedagogical
articulation that allows the analysis of the relations between the teaching contents and
the different ways of teaching, as well as the possibilities to foster the bond building.
between teacher and student in distance education.
KEYWORDS: Pedagogical Formation; Graduation; Distance education.
1 | INTRODUÇÃO
A produção de conhecimento educacional em tempos de multimídias,
hipertextos e contextos transdisciplinares de formação, nos convida a repensar
os valores de base da cultura escrita, considerando sua origem no pensamento
científico, vislumbrando novos modos de conceber os processos de ensino e de
aprendizagem. Interessado na relação entre ciência, tecnologia e os processos
de construção dos conhecimentos, Berticelli (2004) destaca que “os contínuos
avanços da comunicação informática eletrônica nos conduzem por novas veredas
interpretativas do tempo, do espaço, do real e do virtual” (p. 383), o que se torna
incessantemente desafiador. Esse vertiginoso desenvolvimento das tecnologias de
comunicação tem sido um poderoso instrumento para a ciência expandir-se para
novos olhares sobre o conhecimento e os modos de conhecer.
As plataformas de ensino a distância representam, assim, um desafio para
todos os envolvidos nos cursos de formação de professores porque chamam a
atenção para as bases tanto conceituais de produção de conhecimento quanto
didáticas que reestruturam caminhos de ensinar a ensinar. Trata-se de um conjunto
de posturas pedagógicas que não apenas usam diferentes mídias e recursos
tecnológicos no espaço da sala de aula virtual, mas que as contemplam como
oportunidades para conhecer um pouco mais sobre as infinitas possibilidades de
formulação de conceitos (Vygotsky, 2008), que configuram múltiplas formas de
aprender e de interagir no mundo.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 17
171
As multimídias contemporâneas incorporam fluidez a tudo, o que inclui conceitos,
valores, objetos materiais de consumo e até mesmo as relações sociais. Segundo
Rodrigues (2003), a noção de bem permanente abre espaço à provisoriedade das
coisas e das relações, às mudanças constantes nos discursos e no estilo de vida,
como movimentos inerentes aos seres humanos.
Assim, as formas dinâmicas de produção e de interação com o conhecimento,
especialmente os advindos de suportes da Internet, são incorporadas como
legítimas no cotidiano das pessoas exatamente por atenderem às necessidades
reais de agilidade, intencionalidade e aproximação entre os pares. No entanto, este
é exatamente o ponto em que essa conta não fecha. Não fecha porque há a escola
como a instituição do “ainda” (RODRIGUES, 2003, p. 38-9), porque “ainda” reproduz
ideários de currículos e paradigmas metodológicos que não conversam com as
Ciências, as Artes, as Tecnologias, nem, tampouco, com o mundo por trás de seus
muros. Enquanto isso, inteiramente ocupadas em viver contextualmente, as pessoas
procuram espaços em que possam buscar informações e construírem conceitos
reais por viverem desafios diários também reais. Estes espaços são diversos e
incluem as multimídias mediadas via Internet. É exatamente sobre este hiato entre o
conhecimento escolar que persiste como exigência curricular e a complexidade das
diferentes formas de aprender que constituem a vida real que a pesquisa que deu
origem a este artigo busca se aprofundar.
Como assinala Miranda (2000), a existência de uma extensa e moderna
infraestrutura de acesso à informação, por si só, já desencadeia forças criativas e
produtivas em escala considerável, mas também requer estratégias adequadas para
fomentar a melhor distribuição das oportunidades. Entre tais estratégias, pensar a
formação do professor na modalidade a distância (EAD) certamente figura entre as
mais efetivas, contribuindo para minimizar a exclusão social, de forma a atenuar
ou superar as disparidades regionais, ampliando-se as oportunidades de acesso e
de uso das fontes disponíveis nas redes e sistemas de informação e comunicação
digital.
Desta forma, para a elaboração deste artigo realiza-se um recorte da pesquisa
em andamento. O desafio posto é o de discutir os componentes curriculares
relacionados às disciplinas pedagógicas que compõem as diferentes licenciaturas
do Consórcio CEDERJ, de modo a contribuir para a formação de professores
na modalidade à distância (EAD), articulando atualidades sociais e culturais aos
conhecimentos educacionais contemporâneos.
Tal objetivo está atrelado ao movimento educacional contemporâneo que
busca conversas necessárias junto às diversas teorias convergentes na relação
escola-sociedade-tecnologias de informação. Estes diálogos se constroem na
medida em que atendem à construção de um porvir de práticas educacionais mais
coerentes com as múltiplas identidades dos estudantes, em processos mediados por
multimídias que imprimem marcas específicas, tanto nas interações sociais quanto
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 17
172
na elaboração dos conhecimentos.
2 | O CONTEXTO DA PESQUISA: AS LICENCIATURAS A DISTÂNCIA QUE
COMPÕEM O CONSÓRCIO CEDERJ
O consórcio CEDERJ constitui um dos projetos da Fundação CECIERJ - Centro
de Ciências e Educação Superior a Distância do Estado do Rio de Janeiro. Reúne
as universidades e instituições de ensino superior (IES) públicas com o objetivo de
ofertar educação superior pública, gratuita e de qualidade para todo o Estado do Rio
de Janeiro, por meio de cursos na modalidade EAD (Educação a Distância).
O consórcio é composto por cursos de graduação a distância por intermédio
de parceria formada entre o Governo do Estado do Rio de Janeiro e sete instituições
públicas de Ensino Superior (Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow
da Fonseca – CEFET; Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ; Universidade
Estadual do Norte Fluminense – UENF; Universidade Federal Fluminense – UFF;
Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – UNIRIO; Universidade Federal
do Rio de Janeiro – UFRJ; e Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – UFRRJ).
Atualmente o CEDERJ oferta quinze cursos de graduação na modalidade a
distância em trinta e três polos regionais, estando prevista, para 2020, a ampliação
para trinta e cinco polos e dezessete cursos.
A pesquisa que constitui base para a discussão deste artigo tomou como objeto
de investigação os oito cursos de licenciaturas que fazem parte do consórcio, a
saber: Letras (UFF), Matemática (UFF e UNIRIO), Física (UFRJ), Química (UFRJ
e UENF), Ciências Biológicas (UFRJ, UERJ e UENF), Geografia (UERJ), História
(UNIRIO) e Turismo (UFRRJ e UNIRIO). Excluiu-se a licenciatura em Pedagogia,
uma vez que tal curso apresenta uma matriz curricular com especificidades que
o diferencia dos demais cursos de licenciatura. As licenciaturas pesquisadas são
ofertadas em vinte e nove polos do consórcio.
As matrizes curriculares que compõem cada uma dessas licenciaturas
são constituídas por um núcleo de estudos de formação das áreas específicas e
interdisciplinares e por um núcleo de formação pedagógica, além de uma carga
horária destinada à prática como componente curricular, aos estágios supervisionados
obrigatórios e às atividades teórico-práticas de aprofundamento em áreas específicas
de interesse dos alunos, em consonância com o que aponta a Resolução CNE/CP nº
02/2015 (BRASIL, 2015).
O foco de interesse deste artigo recai especificamente sobre os componentes
curriculares relacionados às disciplinas pedagógicas que constituem os cursos de
licenciaturas CEDERJ.
De acordo com o Art.13º, § 5º, da Resolução CNE/CP nº 02/2015, “nas
Licenciaturas o tempo dedicado às dimensões pedagógicas não será inferior
à quinta parte da carga horária total” (BRASIL, 2015, p.12). Tal proporção visa
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 17
173
garantir a formação do futuro professor, uma vez que os cursos de licenciaturas não
diplomam simplesmente matemáticos, biólogos, químicos, etc., mas professores de
matemática, biologia, química e demais áreas do conhecimento.
A gerência da formação pedagógica dos alunos dos oito cursos de licenciaturas
que compõem o consórcio CEDERJ se distribui entre as Coordenações Pedagógicas
UERJ, UFRRJ e UENF, conforme a localização dos vinte e nove polos (que oferecem
os cursos) nas áreas de abrangência de cada uma dessas universidades. A autora
desta pesquisa é a atual responsável pela Coordenação Pedagógica UERJ, o que
viabilizou a realização da investigação.
A Coordenação Pedagógica UERJ atualmente é responsável pelos cursos
de licenciatura oferecidos em quatorze polos CEDERJ: Angra dos Reis, Duque de
Caxias, Magé, Miguel Pereira, Nova Friburgo, Nova Iguaçu, Paracambi, Petrópolis,
Piraí, Resende, Rio das Flores, Saquarema, São Pedro d'Aldeia e Volta Redonda.
A Coordenação Pedagógica UFRRJ é responsável pelos cursos de licenciatura
oferecidos em oito polos CEDERJ: Barra do Piraí, Belford Roxo, Cantagalo, Campo
Grande, Niterói, Rio Bonito, São Gonçalo e Três Rios. E a Coordenação Pedagógica
UENF gerencia a formação pedagógica dos cursos de licenciatura oferecidos em sete
polos CEDERJ: Bom Jesus de Itabapoana, Itaocara, Itaperuna, Macaé, Natividade,
São Fidelis e São Francisco de Itabapoana.
De qualquer forma, independente de qual seja a Coordenação Pedagógica
responsável pela licenciatura, a formação pedagógica desses cursos/polos é
constituída pelo mesmo rol de disciplinas pedagógicas, baseadas nas mesmas
ementas curriculares. Todavia, tais disciplinas são oferecidas por diferentes
professores, conforme as três Coordenações Pedagógicas, e, deste modo,
apresentam algumas variações didático metodológicas. Ainda assim, as três
coordenações buscam trabalhar de forma articulada, em busca de formações com
qualidade congênere.
Para que o leitor tenha uma ideia da grandeza destas coordenações, no semestre
letivo de 2019.2, a Coordenação Pedagógica UERJ tinha sob sua responsabilidade
um total de 7.726 alunos inscritos em suas disciplinas pedagógicas. Por sua vez,
a Coordenação Pedagógica UFRRJ contava com 2.983 alunos e a Coordenação
Pedagógica UENF com 1.131 licenciandos. Deste modo, as três coordenações
totalizavam 11.840 alunos.
A seguir, discute-se sobre os componentes curriculares relacionados às
disciplinas pedagógicas que compõem as diferentes licenciaturas do Consórcio
CEDERJ.
3|
A FORMAÇÃO PEDAGÓGICA DAS LICENCIATURAS DO CONSÓRCIO
CEDERJ
A pesquisa descrita neste capítulo constituiu um estudo de natureza teóricoA Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 17
174
prática. O levantamento de dados se deu a partir da observação e análise das salas
de aula da plataforma CEDERJ, bem como pelo exame detalhado das matrizes
curriculares dos cursos de licenciaturas do consórcio e das ementas das disciplinas
pedagógicas, através da Coordenação Pedagógica UERJ.
Verificou-se que a formação pedagógica dos cursos de licenciaturas do
consórcio CEDERJ se materializa nas matrizes curriculares a partir dos seguintes
componentes curriculares obrigatórios: os Fundamentos da Educação, as Práticas
de Ensino e os Estágios Supervisionados.
O componente curricular Fundamentos da Educação visa introduzir fundamentos
teóricos-conceituais das áreas filosófica, psicológica, histórica e sócio antropológica,
de modo que se constitui por quatro disciplinas.
A disciplina Fundamentos da Educação I - Filosofia da Educação - tem uma carga
horária teórica de sessenta horas/aula. A Filosofia é a base de todo o pensamento
ocidental. Todos os campos do saber conhecidos na atualidade são tributários do
pensamento filosófico. No campo da Educação isto fica ainda mais explícito pois
toda teoria ou prática pedagógica sustenta-se numa concepção filosófica. Deste
modo, o objetivo geral da disciplina é possibilitar ao licenciando travar contato com o
pensamento filosófico, percebendo sua relevância para a formação humana e para
a reflexão sobre os sentidos da prática educacional.
A segunda disciplina deste bloco, Fundamentos da Educação II - Psicologia
da Educação – também apresenta uma carga horária teórica de sessenta horas/
aula. Em linhas gerais, a Psicologia investiga o desenvolvimento da personalidade
do indivíduo, a formação de seu caráter, seu desenvolvimento cognitivo e suas
relações sociais, bem como ocorre os processos de ensino e de aprendizagem.
Deste modo, suas diferentes correntes teóricas formam um complexo conhecimento
científico que contribui de forma significativa para a formação dos professores das
diferentes licenciaturas, na medida em que tal conhecimento possibilita uma visão
ampla sobre as singularidades dos alunos e sua constituição biopsicossocial, bem
como a criação de estratégias pedagógicas adequadas aos diversos grupos sociais.
Em vista disso, o objetivo geral da disciplina é abordar a produção de conhecimento
sobre a natureza humana e sua condição sociocultural, bem como os processos de
ensino e de aprendizagem.
A disciplina Fundamentos da Educação III - História da Educação – também tem
a carga horária teórica de sessenta horas/aula. O objetivo geral da disciplina é enfocar
os principais processos históricos, políticos e sociais que envolvem a Educação
no mundo ocidental, a fim de problematizar as práticas e situações educacionais
atuais. O conhecimento da história da Educação é fundamental não apenas para se
entender os contextos atuais educacionais, como também apontar direcionamentos
futuros, a partir de uma visão democrática. Desta maneira, contribui-se para que
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 17
175
o licenciando esteja atento à realidade em devir - viva, dinâmica e em constante
construção - do espaço escolar.
A última disciplina deste bloco, Fundamentos da Educação IV - Sociologia da
Educação – do mesmo modo, tem a carga horária teórica de sessenta horas/aula.
O estudo da cultura, da ética e da estética em Educação são o foco desta disciplina,
bem como as relações entre escola, aluno, professor e sociedade. Deste modo,
busca-se entender sociologicamente as relações indivíduo e sociedade tomando
como foco à Educação enquanto fenômeno social. Intenta-se, ainda, possibilitar
uma reflexão sobre a Sociologia da Educação em seus diversos contextos políticosociais, identificando sua contribuição para a formação de educadores que irão
formar indivíduos para uma realidade em transformação.
Assim, essas quatro disciplinas constituem o componente curricular
Fundamentos da Educação, que perfaz um total de duzentos e quarenta horas/aula
teóricas nas matrizes curriculares dos cursos de licenciaturas CEDERJ. No entanto,
embora tal componente se constitua por carga horária teórica, faz-se necessário
salientar que seus conteúdos são trabalhados de forma contextualizada.
Segundo Ritto (2010), as questões do mundo atual, por serem de grande
magnitude e igualmente complexas, precisam ser tratadas através de um processo
de contextualização.
Segundo o autor, só através da contextualização que as
demandas sociais penetram no processo de pesquisa, influenciando a formulação
dos problemas, a implantação de soluções e a avaliação de resultados.
Trata-se, portanto, da formação de um professor pesquisador que assume a
sua realidade escolar como um objeto de pesquisa, de reflexão e de análise. No
entanto, para que o professor possa refletir sobre sua prática, é necessário que
sua formação lhe possibilite a construção de embasamento teórico que lhe dê
sustentação para tal análise. Todavia, como assinala Moran (2007), os novos meios
de comunicação na Educação exigem do professor novas formas de lidar com a
informação e o conhecimento. Assim, o mundo globalizado exige cada vez mais
professores dotados de discernimento e de poder de decisão e iniciativa (MORAN,
2007).
Tal perspectiva representa uma forma diferenciada de compreender a pesquisa,
para além da produção de conhecimento científico, mas, como processo que deve
estar implicado num compromisso ético e social para o entendimento de um mundo
complexo e permeado por sujeitos plurais. Entendida desta maneira, “a pesquisa é
um elemento essencial na formação do professor” (ANDRÉ, 2005, p.55).
É nesse sentido que Libâneo (2009) defende que desde a formação inicial
o professor precisa unir cultura geral, especialização disciplinar e a busca de
conhecimentos conexos com a sua disciplina de formação porque para formar o
cidadão de hoje é preciso formá-lo para lidar tanto com noções e problemas surgidos
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 17
176
nas mais inusitadas situações profissionais quanto sociais, culturais e éticas.
Diante de tal perspectiva, compete ao professor não apenas dominar os
conteúdos específicos e pedagógicos, mas também as abordagens teóricometodológicas do seu ensino, de forma interdisciplinar e adequada às diferentes
fases do desenvolvimento humano e à diversidade de alunos que constituem as
salas de aula (BRASIL, 2015, Art. 8º).
Nesse sentido, a formação pedagógica dos cursos de licenciaturas do consórcio
CEDERJ também se constitui pelo componente curricular Práticas de Ensino. Tal
componente é constituído por três disciplinas: Didática, Currículo e Avaliação da
Aprendizagem. Tais disciplinas são constituídas, cada uma, por 30 horas/aula de
conteúdo prático e 30 horas/aula de conteúdo teórico, perfazendo um total de cento
e oitenta horas/aula nas matrizes curriculares de tais cursos.
Em Prática de Ensino I, a disciplina Didática tem o objetivo geral de articular os
princípios teóricos do campo da Didática ao cotidiano da prática escolar, de modo a
produzir saberes sobre o processo de ensino, envolvendo as relações entre teoria
e prática e conteúdo e forma, com fins de atuação humana, técnica, pedagógica e
política no exercício do magistério.
A Prática de Ensino II – Currículo - complementa essa formação, com o
objetivo específico de abordar a problemática curricular como campo de pesquisa,
investigação e atuação. Trata-se de reconhecer as diferentes teorias curriculares
e identificar as tendências e questões atuais nesse campo; analisar as políticas
públicas de currículo e discutir as relações entre: currículo e cultura, currículo e poder,
currículo e ideologia, currículo e controle social. Desse modo, a disciplina não lida
com o currículo apenas de forma teórica, mas busca articular os princípios teóricos
do campo do currículo ao cotidiano da prática escolar, correlacionando produção
curricular, saberes profissionais e formação de professores. Deste modo, intenta-se
destacar o currículo como espaço de produção cultural e práticas interculturais.
Em Prática de Ensino III - Avaliação -, o objetivo geral é aprofundar o estudo
crítico de concepções e tendências avaliativas, bem como analisar e elaborar
instrumentos de avaliação de aprendizagem. Trata-se de conceituar a avaliação
como uma modalidade de investigação no contexto que envolve os processos de
ensino e de aprendizagem; bem como analisar epistemologicamente as concepções
e tendências avaliativas e suas consequências na prática da avaliação. Sobre
esse aspecto, é necessário que o licenciando compreenda que a opção por
determinada avaliação é feita em conformidade com determinados fins educacionais
e estes precisam estar relacionados ao cotidiano da prática escolar e às realidades
socioculturais dos alunos. A disciplina envolve ainda a identificação das avaliações
institucionais externas e sua importância.
Cabe ainda salientar que as três disciplinas que compõem o componente
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 17
177
Práticas de Ensino envolvem uma parte prática de análise e elaboração de
instrumentos de ensino e de avaliação de aprendizagem. Trata-se da construção de
ideário didático-metodológico - e não de um modelo metodológico -, tendo em vista o
planejamento diversificado e as práticas inclusivas e contextualizadas em Educação.
Tal perspectiva de formação vai de encontro a uma visão instrumental e
tecnicista de formação do professor. Segundo Libâneo (2013, p.92), nesta concepção
“basta que o professor seja um bom técnico que saiba aplicar conhecimentos
produzidos por outros”. Contrariamente a tal posicionamento, a formação pedagógica
que aqui se discute defende a atividade docente como forma de trabalho intelectual,
em contraste com sua definição em termos puramente instrumentais ou técnicos. Os
professores como intelectuais assumem todo o seu potencial como pesquisadores,
estudiosos e profissionais ativos e reflexivos e devem ser vistos como “cidadãos
que legitimam na sua atividade de ensino a natureza do seu discurso, em termos
políticos e ideológicos (MOUSINHO, 2018, p.31).
Outro componente curricular obrigatório que constitui a formação pedagógica
das licenciaturas do consórcio CEDERJ são os Estágios Supervisionados. Trata-se
de “um conjunto de atividades de formação, realizadas sob a supervisão de docentes
da instituição formadora, e acompanhado por profissionais, em que o estudante
experimenta situações de efetivo exercício profissional” (BRASIL, 2015b, p.32).
Desse modo, “supõe uma relação pedagógica entre alguém que já é um profissional
reconhecido em um ambiente institucional de trabalho e um aluno estagiário” (ibidem,
p.31). A Resolução CNE/CP nº 02/2015 complementa que:
O estágio curricular supervisionado é componente obrigatório da organização
curricular das licenciaturas, sendo uma atividade específica intrinsecamente
articulada com a prática e com as demais atividades de trabalho acadêmico
(BRASIL, 2015, Art.15, § 6º, p. 13).
Portanto, não se trata de uma atividade facultativa sendo uma das condições
para a obtenção da respectiva licença. No entanto, segundo Mousinho (2018), o
reconhecimento de que o estágio supervisionado é essencial para uma formação
docente contemporânea e qualificada, por intermediar a relação entre o conhecimento
teórico e a prática adotada, precisa primeiro desconstruir a visão que lhe atribui
um sentido exclusivamente prático e reprodutivo e entendê-lo como pesquisa.
Na Resolução CNE/CP nº 02/2015 (BRASIL, 2015) está expressa a ideia de que
teorias e práticas devem compor uma relação indissociável, bem como há ênfase
na valorização da atuação prática constituindo-se não como forma de reprodução,
mas de criação. Ou, pelo menos, como forma de recriação do conhecimento, como
assinala Mousinho (2018), na elaboração de um programa de curso e de planos de
aula ou na participação na construção de um projeto pedagógico, que envolvem
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 17
178
pesquisa bibliográfica, seleção de material, etc.
Pimenta e Lima (2005/2006) nos auxilia a compreender o estágio enquanto
teoria e prática, ao sinalizar que é preciso entender a imbricação entre sujeitos e
instituições, ação e prática. A autora explica que a prática é institucionalizada e as
ações referem-se aos sujeitos; em sentido amplo, ação designa a atividade humana,
está vinculada efetivamente ao fazer. Entretanto, em uma compreensão filosófica
e sociológica, a noção de ação é sempre referida a objetivos, finalidades e meios,
implicando a consciência dos sujeitos para essas escolhas, supondo um certo saber
e conhecimento. Deste modo, num processo de reflexão das ações pedagógicas,
as teorias contribuem para o questionamento das práticas institucionalizadas e das
ações pedagógicas dos sujeitos (PIMENTA & LIMA, 2005/2006).
Nos cursos de Licenciaturas CEDERJ, esse componente curricular busca
exatamente essa relação dinâmica entre teoria e prática, bem como imprimir aos
estágios supervisionados uma perspectiva de pesquisa da prática e das ações
pedagógicas. Para tanto, o componente é dividido em quatro disciplinas. O Estágio
Supervisionado I, volta-se apenas para a observação do espaço escolar, com uma
carga horária de sessenta horas/aula. O Estágio Supervisionado II envolve, além da
observação, atividades de coparticipação, perfazendo um total de noventa horas/
aula. O Estágio Supervisionado III exige a participação efetiva do licenciando na
atividade pedagógica, perfazendo uma carga horária total de cento e vinte horas/
aula e o Estágio Supervisionado IV também se constitui de atividade de participação
em prática pedagógica, num total de cento e cinquenta horas/aula.
Portanto, o componente curricular Estágio Supervisionado das licenciaturas
CEDERJ, em suas quatro disciplinas, perfazem quatrocentas e vinte horas/aula
e tem por objetivos gerais: observar, analisar e vivenciar o cotidiano escolar e
as ações pedagógicas empreendidas, relacionando-os aos princípios teóricos e
metodológicos estudados; bem como proporcionar experiências de aplicação de
conhecimentos ou de desenvolvimento de procedimentos próprios ao exercício da
docência. Deste modo, é o estágio supervisionado que apresenta ao licenciando os
diferentes espaços, sujeitos e práticas presentes no ambiente escolar, bem como os
principais conflitos do cotidiano escolar, possibilitando-lhe observar a relação teoria
e prática.
Além dos componentes curriculares obrigatórios descritos acima, a formação
pedagógica dos licenciandos do Consórcio CEDERJ é também constituída por
quatro disciplinas complementares, oferecidas pela Coordenação Pedagógica
UERJ: Educação Especial (60h/aula); Políticas Públicas em Educação (60h/aula);
Fundamentos da Educação de Jovens e Adultos (60h/aula) e Tópicos sobre a
diversidade na Educação (60h/aula).
Tais disciplinas apresentam-se como obrigatórias em alguns cursos de
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 17
179
Licenciatura/CEDERJ e em outros constam como eletivas, muito embora devam ser
transformadas em obrigatórias a qualquer momento, em decorrência do processo de
reforma curricular. Tal mudança se justifica pelo que define a Resolução CNE/CP nº
02/2015, em seu Art. 13º § 2º:
Os cursos de formação deverão garantir nos currículos conteúdos específicos
da respectiva área de conhecimento ou interdisciplinares, seus fundamentos e
metodologias, bem como conteúdos relacionados aos fundamentos da educação,
formação na área de políticas públicas e gestão da educação, seus fundamentos
e metodologias, direitos humanos, diversidades étnico-racial, de gênero, sexual,
religiosa, de faixa geracional, Língua Brasileira de Sinais (Libras), educação
especial e direitos educacionais de adolescentes e jovens em cumprimento de
medidas socioeducativas (BRASIL, 2015, p. 11).
Conclui-se, assim, que o rol de disciplinas que compõem a formação pedagógica
dos cursos de licenciaturas do Consórcio CEDERJ buscam integrar conceitos,
paradigmas, metodologias e práticas e subsidiar o exercício do pensamento crítico
sobre teorias e práticas pedagógicas. Trata-se de pensar não apenas a formação
profissional, mas também a formação humana e integral do futuro professor. Deste
modo, os componentes curriculares pedagógicos constituem base para que os futuros
professores construam com seus alunos, de forma mais consciente, os saberes que
envolvem a sua área, formando-os para a prática docente reflexiva, autônoma e
criativa.
4 | CONSIDERAÇÕES FINAIS
Finaliza-se tal artigo ratificando a importância dos componentes pedagógicos
na composição das matrizes curriculares dos cursos de licenciatura do Consórcio
CEDERJ, uma vez que não é possível vislumbrar a formação do professor a partir
de um currículo constituído apenas pelos conteúdos específicos de cada área. Tratase de assegurar aos futuros professores a possibilidade de pensar criticamente
sua prática docente, bem como fazer escolhas consistentes quanto ao modo, as
estratégias e os recursos que utilizarão no contexto escolar, com vistas a contribuir
para os processos de aprendizagem de seus alunos.
Refletir sobre a formação docente requer necessariamente pensar em um
espaço-tempo de possibilidades múltiplas de ensino e de aprendizagem. Há
conhecimentos inerentes à formação do professor relacionados a saberes e
práticas especificamente ligados ao ensino, tanto quanto aqueles concernentes às
individualidades que se encontram na escola.
Assim, a formação para o exercício da docência na atualidade demanda toda
uma articulação teórico-técnico-pedagógica que possibilite a análise das relações
entre os conteúdos de ensino e os diferentes modos de ensinar, bem como das
possibilidades de fomentar a construção do vínculo entre o professor e o aluno na
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 17
180
educação a distância.
REFERÊNCIAS
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continuada. Brasília: MEC, 2015.
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A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 17
181
CAPÍTULO 18
doi
O MÉTODO TOTAL PHYSICAL RESPONSE
(TPR) NO ENSINO DE INGLÊS PARA CRIANÇAS
(LIC): CONSIDERAÇÕES SOBRE A ATMOSFERA
MOTIVACIONAL POSSIBILITADA
Data de aceite: 06/01/2020
Monique Vanzo Spasiani
Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)
São Carlos – SP
RESUMO: Apesar de seu crescente e mundial
reconhecimento linguístico e pedagógico, o
ensino de Língua Inglesa (LI) no Brasil ainda se
mostra bastante problemático, principalmente
se observarmos a esfera educacional pública
do país. Ao transpormos essa questão para o
ensino de LI para Crianças (LIC), o problema
se agrava ainda mais. Assim, este trabalho
pretende investigar os possíveis resultados
de uma adaptação do método Total Physical
Response (TPR), desenvolvido por James
Asher, no ensino-aprendizagem de LIC,
oferecendo ao docente maior sistematização
e não o deixando à mercê do livro didático
ou de sua formação insatisfatória. Segundo
Larsen-Freeman (2000), o TPR propõe o
ensino de LE em um contexto de comandos e
ações, aproximando o seu aprendizado com
o da Língua Materna (LM) e proporcionando
uma experiência agradável e motivadora
aos alunos. Por meio de uma metodologia
qualitativa de cunho interpretativista, fez-se
isso em contexto de um instituto de idiomas,
com alunas de aproximadamente 9 anos de
idade, por um período de aproximadamente 2
meses. Concluiu-se que o TPR é um método
bastante útil no ensino-aprendizagem de LIC,
sobretudo porque ele possibilita um ambiente
de aprendizagem motivador; e crianças
tendem a aprender melhor quando se sentem
confortáveis, livres de pressão e motivadas
(ROCHA, 2009, p. 250). Entende-se que os
resultados aqui alcançados podem em muito
contribuir para o ensino-aprendizagem de LIC
no contexto brasileiro, orientando as práticas
pedagógicas dos profissionais da área de
ensino de LE e apresentando-lhes diferentes
maneiras de lidar com essa faixa-etária em sala
de aula.
PALAVRAS-CHAVE: Ensino-aprendizagem de
LE. Ensino de inglês para crianças. LIC. TPR.
Motivação.
THE TOTAL PHYSICAL RESPONSE (TPR)
METHOD IN THE ENGLISH TEACHING
FOR CHILDREN (ELC): CONSIDERATIONS
ABOUT THE PROVIDED MOTIVATIONAL
ATMOSPHERE
ABSTRACT: Despite its growing and worldwide
pedagogical and linguistic recognition, the
teaching of English Language (EL) in Brazil is
still quite problematic, especially if we look at
the public educational sphere of the country.
By looking at the issue in teaching EL for
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 18
182
Children (ELC), the problem is further aggravated. Thus, this paper aims to investigate
the possible results of an adaptation of the method Total Physical Response (TPR),
developed by James Asher, in the teaching and learning of ELC, providing the teacher
more systematization and not leaving him/her at the mercy of his/her unsatisfactory
formation. According to Larsen-Freeman (2000), TPR proposes FL teaching in a context
of commands and actions, approaching its learning with Mother Language (ML) and
providing an enjoyable and motivating experience to students. Through a qualitative
methodology of interpretative nature, we did it in the context of a language institute
with students from about 9 years old, for a period of approximately 2 months. It was
concluded that the TPR is a very useful tool for teaching and learning ELC, particularly
because it enables a motivating learning environment; and children tend to learn better
if they feel comfortable, free from pressure and motivated (ROCHA, 2009, p. 250). It is
understood that the results here achieved can contribute to the teaching and learning
of ELC in the Brazilian context, guiding the pedagogical practices of professionals of
the LE teaching area and showing them different ways to deal with this age group in
classrooms.
KEYWORDS: Foreign language teaching and learning. Teaching EL for children. ELC.
TPR. Motivation.
1 | INTRODUÇÃO
O interesse em aprender uma Língua Estrangeira (LE) sempre esteve presente
no decorrer da história da humanidade, desde suas civilizações iniciais até o momento
presente, o chamado mundo globalizado. De certo, ao longo desse percurso, os
objetivos e finalidades desse aprendizado foram os mais distintos (cf. Richards e
Rodgers, 2001).
Por uma questão política e econômica, o inglês tem se apresentado como a LE
de maior interesse entre os aprendizes de lingua. Embora outros idiomas também
componham a nossa contemporaneidade, o inglês logra de uma posição privilegiada,
sobretudo se ponderarmos que a globalização se efetiva com sua utilização (ORTIZ
apud ASSIS-PETERSON e COX, 2007). Isso faz com que o ensino de Língua Inglesa
(LI) esteja presente em diversos contextos e para diversas faixas-etárias, ganhando
notoriedade e promovendo inúmeras discussões e reflexões acerca do seu fazer.
Apesar disso, o ensino-aprendizagem de Língua Inglesa - sobretudo para
Crianças (LIC), que é a faixa-etária alvo deste trabalho - ainda enfrenta algumas
barreiras. Primeiramente, há a não obrigatoriedade do ensino de LE nos anos iniciais
do Ensino Fundamental (EF) da rede pública de ensino, estabelecida pela Lei nº
9.394, de 20 de dezembro de 1996. No entender de Rocha e Tílio (2009, p. 296), o
caráter facultativo do ensino de LE nas séries iniciais do EF brasileiro:
[...] implica a ausência de bases mínimas comuns de referência, política
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 18
183
e teoricamente sustentadas, o que enfraquece o processo e intensifica
desigualdades, permitindo-nos caracterizar sua concretização em âmbito nacional
como excludente. (ROCHA e TÍLIO 2009, p. 296)
É importante ressaltar que tal ausência de bases mínimas comuns de referência
não só afeta o ensino público, mas também outros domínios educacionais, como
o particular, colocando em xeque os conteúdos mínimos necessários para que o
aprendiz se desenvolva como aluno e como cidadão.
Em segundo lugar, tem-se a ausência de profissionais certificados para ensinar
LE na infância. Muitos autores têm discutido sobre isso (CAMERON, 2001; SANTOS,
2005; FERNÁNDEZ e RINALDI, 2009; LIMA, 2010, SHIMOURA, 2005), enfatizando
sempre a importância de uma formação específica e adequada quando se trata de
promover o aprendizado nessa faixa-etária tão peculiar.
Sob essa perspectiva, surgem dúvidas acerca da qualidade do ensino de
LIC no contexto atual. Já que os conteúdos não são claramente estabelecidos e a
formação profissional é deficiente, ele acaba se baseando em intuições ou no livro
didático (LD) adotado. Pesquisas apontam para a relevância do material didático
(MD) no processo de ensino-aprendizagem de LE (CORACINI, 1999, 2003; LEFFA,
2003; RAMOS E ROSELLI, 2008; ROCHA E TÍLIO, 2009), todavia, o que era para
ser utilizado apenas como um recurso facilitador, hoje vem regulando o trabalho
docente, ditando não só o conteúdo que os professores devem trabalhar, mas
também a forma.
Nesse sentido, este trabalho objetivou investigar os possíveis resultados de
atividades alternativas no ensino-aprendizagem de LIC, oferecendo um respaldo
ao docente e não o deixando à mercê do LD ou de sua formação insatisfatória.
Para isso, testou-se uma adaptação do método Total Physical Response (TPR),
desenvolvido por James Asher, em sala de aula. Gattolin (1998) já havia evidenciado
a atmosfera afetuosa e motivadora propiciada pelo método, a mesma que favorece
a aprendizagem significativa.
2 | PERSPECTIVAS TEÓRICAS
Com a globalização e o surgimento das novas tecnologias, fez-se crescente o
(re)conhecimento linguístico e o interesse pelo ensino de LE, revelando, inclusive, a
tendência de que ele se manifeste para os aprendizes cada vez mais cedo (ROCHA,
2006).
Em âmbito nacional, estudiosos como Shimoura (2005) e Rinaldi (2006) tratam
da questão da formação de professores e das habilidades necessárias para se
ensinar LE na infância. Já Rocha (2006) busca elaborar justificativas e provisões
teóricas para o ensino de LE nos dois primeiros ciclos do Ensino Fundamental, bem
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 18
184
como oferecer propostas teórico-práticas para esse campo. Santos (2009) discute em
sua tese a expansão da oferta de inglês para crianças como uma maneira de incluílas na sociedade contemporânea, proporcionando-as igualdade de conhecimento
e oportunidades de interação social. Figueira (2002), por sua vez, investiga a
construção do processo de ensino-aprendizagem de LE com crianças na faixa-etária
de 8 a 10 anos, ou seja, crianças alfabetizadas.
Em termos de prática pedagógica, objeto também desta pesquisa, temos os
trabalhos de Tonelli (2005) e Scaffaro (2006), que incluem, respectivamente, as
histórias infantis e a atividade de contar histórias no processo de ensino-aprendizagem
de língua inglesa para crianças (LIC), sendo esta última como recurso na retenção
de vocabulário novo na língua inglesa em crianças na fase pré-escolar. Gattolin
(1998) já havia trabalhado com o ensino e aprendizagem de vocabulário e mostrado
a importância de que ele fosse motivador.
Nessa esfera prática, destaca-se ainda Szundy (2005), que propõe uma
discussão profunda sobre a utilização de jogos de linguagem (jogos de nomear,
jogos de reconhecimento e jogos de descrever) como instrumentos de ensinoaprendizagem na sala de aula de LE com crianças entre 7 e 9 anos, concluindo que
os mesmos têm a função de co-construtor do conhecimento. Luz (2003) também se
faz importante nesse meio, já que, analisando as atividades em sala de aula com
crianças aprendendo inglês como LE, aponta que os professores devem desenvolver
práticas de ensino-aprendizagem em que os alunos, ao interagirem com os colegas,
tornem-se mais colaborativos e usem a língua-alvo de forma mais criativa.
Diante disso, faz-se necessário que as características inerentes à criança sejam
consideradas pelo professor em seu fazer pedagógico, uma vez que, convergindo
com Santos (2005), se o ensino de LIC seguir os mesmo moldes e objetivos do
ofertado em séries mais avançadas, este estará fadado ao fracasso, correndo o
risco de desenvolver no aluno uma aversão à língua ou prejudicar seu aprendizado,
momentâneo ou futuro.
A verdade é que ensinar LE para uma criança está longe de ser uma tarefa
fácil e que dispensa qualificações e habilidades específicas, como já advertiram
Rocha (2008), Cameron (2001) e Silva (1997). É preciso que o professor considere
e respeite a sua natureza como aprendiz, refletindo sempre sobre as maneiras mais
propícias de ensiná-la (WOOD, 1998). Rocha (2008), ancorada em estudiosos do
campo, discorre sobre tal natureza, pontuando as caraterísticas infantis que tornam
o processo de ensino-aprendizagem de LIC tão delicado e singular. Dentre elas, está
o fato de a criança ser naturalmente curiosa, mas engajar-se apenas em atividades
que lhe despertam o interesse. Por seu foco ser curto, todavia, essas atividades
precisam envolver a construção ativa do conhecimento e o uso efetivo da linguagem
para que o aprendizado se dê de maneira satisfatória (VYGOTSKY, 1998, 2001) e
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 18
185
para que ele, principalmente, faça a criança compreender seu papel de indivíduo
ativo no mundo multilíngue contemporâneo.
Ademais, contesta-se aqui a ideia de que pequenos aprendizes somente
aprendem uma linguagem simples, destituída de qualquer complexidade, e que o
ensino de língua na infância deva ser apenas divertido. Sobre isso, Cameron apud
Rocha (2009) adverte que a criança tem um imenso potencial de aprendizagem “[...]
podendo interessar-se por tópicos complicados, difíceis e também abstratos, desde
que se sintam confortáveis, ou seja, livres de pressão e motivadas.” (ROCHA, 2009,
p. 250).
Destarte, os aspectos afetivos e sociais da criança ocupam posição especial no
processo de ensino-aprendizagem de LIC, pois eles influenciam diretamente no seu
desempenho como aprendiz, revelando que nenhuma atividade seria bem executada
se eles não fossem considerados.
Sob essa perspectiva, deve-se atentar para a questão da motivação do
aprendiz. Dörnyei (2005) diz saber por que ela é importante: pois ela proporciona
o impulso inicial para se estudar uma nova língua, além de orientar as forças que
servem de base para o longo e complexo processo de aprender. Segundo o autor,
sem motivação suficiente, até mesmo os indivíduos mais habilidosos podem acabar
por não alcançarem seus objetivos. Nas palavras de Williams e Burden (2001), o
status privilegiado da motivação ainda permanece:
Se eu pedisse para identificar as mais poderosas influências na aprendizagem,
a motivação provavelmente estaria no topo da lista da maioria dos professores.
Parece sensato assumir que a aprendizagem é mais provável de ocorrer quando
queremos aprender (WILLIAMS E BURDEN, 2001, p. 111, tradução do autor).
Em uma tentativa de definir o termo motivação, que abrange uma variedade
de significados, Dörnyei (2001, 2003) explica que este é abstrato e ligado a fatores
contextuais, sendo usado para esclarecer o motivo das pessoas agirem da forma que
agem. Então, faz-se fundamental a presença da motivação no contexto de ensino de
LIC, conforme pontuaram Gattolin (1998) e Norte (1992) quando evidenciaram que
um método - como o TPR, de James Asher – era capaz de trazê-la para o ambiente
educacional e torna-lo ainda mais propicio à aprendizagem significativa.
Conforme Richards e Rodgers (2001), James Asher foi um professor de
psicologia da Universidade Estadual de San José, na Califórnia, o qual se dedicava, por
exemplo, ao estudo da psicologia do desenvolvimento, das teorias de aprendizado e
da pedagogia humanística, tendo se utilizado desse conhecimento para desenvolver
o TPR, método fortemente ligado a teorias da memória em psicologia que serve ao
ensino de LE em um contexto de comandos e ações. Relaciona-se também com
a aquisição de Língua Materna (LM), já que Asher acreditava que adultos podiam
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 18
186
aprender uma nova língua da mesma forma que uma criança aprendia a sua primeira:
respondendo fisicamente a um comando para depois produzi-lo verbalmente:
Não tente forçar a fala dos alunos. À medida que os alunos internalizarem um
mapa cognitivo da língua-alvo por meio de entender o que é ouvido, haverá um
ponto de prontidão para falar. O indivíduo começará espontaneamente a produzir
enunciados. (ASHER, p. 2, 1986, tradução do autor)
No TPR, os comandos feitos por meio do verbo no imperativo, aliados aos
movimentos corporais, são o ponto central da linguagem e do aprendizado, pois são
eles que introduzem os conhecimentos iniciais em LE, tornando a aprendizagem
acessível e agradável aos alunos. Asher (1986) postula que os comandos devem ser
variados e devem ser dificultados aos poucos. Ex: “Maria, point to the table”; “Maria,
point to the table and the chair”; “Maria, go to the board and draw a spider”; “Maria,
can you draw a spider on the board?; “João, if Maria goes to the board, go after her
and draw a dog.”
Ramiro Garcia (1985), baseado nos ensinamentos e estudos de Asher, afirma
que há 4 estágios de aquisição de linguagem por meio do TPR. A primeira é a
compreensão, sendo necessário que os alunos compreendam a língua antes de
produzi-la. O segundo passo é a produção oral (fala), promovida apenas quando
os alunos se sentirem confiantes. A terceira e última fase é a leitura e, finalmente,
a escrita, facilitadas quando a aprendizagem é iniciada pela compreensão. Ainda
segundo o autor, os alunos que aprendem por meio do método são: alunos mais
espontâneos ao falarem, alunos mais dispostos a participarem de exercícios orais e
alunos mais autoconfiantes para arriscarem a fala.
Apesar de ser rotulado como um método funcional apenas para o início da
aprendizagem de LE, haja vista a dificuldade de se ensinar conceitos abstratos e
tempos verbais mais complexos por meio dele (OLIVEIRA, 2014), Asher (1977) e outros
pesquisadores da área (GATTOLIN, 1992; NORTE, 1992; entre outros) concordam
que o TPR é um método que, por excelência, produz uma atmosfera altamente
motivadora em sala de aula, o que supera as limitações por ele apresentadas e se
faz conveniente quando se trata da aprendizagem de LE para crianças, seres tão
peculiares e com necessidades, fisiológicas e psicológicas, tão específicas.
[...] Um método que é pouco exigente em termos de produção linguística e que
envolve movimentos semelhantes aos realizados em jogos reduz o stress do
aluno, ele [Asher] acredita, e cria um clima positivo no aprendiz, o que facilita a
aprendizagem. (RICHARDS E RODGERS, 2001, tradução da autora)
Deste modo, como fornecer aos alunos oportunidades para que eles se sentissem
mais confortáveis e motivados em sala de aula a fim de avaliar a atmosfera gerada
em consequência eram nossos objetivos com este trabalho, pareceu-nos acertado,
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 18
187
diante do exposto, elaborar atividades que tivessem como base o TPR, método o
qual tem a motivação como uma de suas consequências principais.
3 | ASPECTOS METODOLÓGICOS
Entende-se que o caráter desta pesquisa é estritamente qualitativo, pois
buscou-se compreender fenômenos sociais inseridos em um contexto (BORTONIRICARDO, 2008). Não obstante, há ainda o seu traço interpretativista, uma vez
que se pretendeu retratar e refletir sobre o cotidiano de uma sala de aula por meio
da observação e interpretação desta pesquisadora. É de se considerar que aqui
o pesquisador refletiu e dissertou sobre suas próprias práticas como professor,
tornando-se professor-pesquisador (PP) deste estudo. Tal singularidade nos parece
bastante conveniente, posto que:
O docente que consegue associar o trabalho de pesquisa a seu fazer pedagógico,
tornando-se um professor pesquisador de sua própria prática ou das práticas
pedagógicas com as quais convive, estará no caminho de aperfeiçoar-se
profissionalmente, desenvolvendo uma melhor compreensão de suas ações como
mediador de conhecimentos e de seu processo interacional com os educandos.
(BORTONI-RICARDO, 2008, p. 32-33).
A Tabela 1 descreve os instrumentos de registro de dados utilizados neste
trabalho, bem como os objetivos principais de cada um e a linha teórica que eles se
baseiam.
Instrumento
Diário
pesquisa
Justificativa
Baseado em
Utilizado para que o PP pudesse fazer anotações rápidas
logo após as aulas, fossem elas de cunho descritivo ou
não, de maneira que os acontecimentos ainda estivessem
de
B O R T O N I guardados na memória e tivessem fácil resgate. Além
RICARDO, 2008
de reproduções de diálogos, perguntas realizadas e
comentários feitos pelos alunos, o PP registrou também
as sequências interpretativistas.
Utilizado como um complemento ao primeiro instrumento,
uma vez que é um instrumento de coleta que permite a
obtenção de dados que podem ser de difícil percepção P I N H E I R O ,
Gravações em
e apreensão, como os comportamentos individuais e KAKEHASHI
e
vídeo
grupais, as expressões faciais, a linguagem não-verbal, ANGELO, 2005
os quais são valiosos subsídios para as interpretações
posteriores.
Ao final das práticas, aplicou-se, também, um questionário B O R T O N I Questionário
com os pais objetivando indagá-los sobre as aulas e sobre RICARDO, 2008,
com os pais
a motivação de seus filhos.
p. 61
Tabela 1 - Instrumentos de registro de dados
Fonte: Elaborado pela autora (2019)
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 18
188
As práticas ocorreram em um instituto de idiomas localizado em uma cidade
de médio porte, no interior do estado de São Paulo, com professores graduados
(ou graduandos) em Letras e com uma turma de crianças composta por 2 alunas
de aproximadamente 9 anos de idade. Os encontros aconteceram semanalmente
(duas aulas de uma hora e quinze minutos cada por semana), por um período de
aproximadamente 2 meses, totalizando 19 aulas.
4 | ANÁLISES E RESULTADOS
De fato, a motivação dos alunos é um dos aspectos mais importantes
possibilitados pelo TPR. Para esta pesquisa, considera-se com relação à motivação
os estudos desenvolvidos por Gardner e seus associados sintetizados no Modelo
Socioeducacional de Motivação (GARDNER, 1985 apud GATTOLIN, p. 154, 1998):
Esse modelo incorpora as crenças culturais do aprendiz, suas atitudes com relação
à situação de aprendizagem, sua integratividade e sua motivação. O autor enfatiza
que o fator mais importante desse modelo é a motivação, a qual ele define como
sendo uma combinação de esforços mais o desejo de atingir o objetivo de aprender
a língua-alvo mais atitudes favoráveis em relação à aprendizagem dessa língua.
Assim, utilizou-se uma adaptação do TPR em sala de aula a fim de investigar o
ambiente proporcionado pelo método, observando, sobretudo, os esforços, desejos
e atitudes dos alunos em relação a sua utilização. Observou-se a presença de três
fatores relacionados ao TPR fundamentais para o ambiente motivador em sala de
aula: o envolvimento físico, a compreensão da língua-alvo e a realidade dos alunos.
4.1 O envolvimento físico
Como já exposto, o TPR é um método que propõe o ensino de LE em um contexto
de comandos e ações, em que os alunos respondem com movimentos corporais
a comandos orais e, assim, vão compreendendo e assimilando a língua-alvo. Em
sua dissertação, Norte (1992) discorreu sobre as influências do movimento físico no
aprendizado dos alunos, enfatizando, principalmente, a retenção do conteúdo que
ele possibilita, já que permite aos alunos fazerem associações de forma a tornar o
insumo compreensível. Além disso, tratou da questão da diminuição do stress e da
atmosfera de tensão quando ele está presente:
[...] [o movimento corporal] é uma forma de tornar o insumo compreensível e
minimizar o stress. Além de fornecer um contato estreito entre os participantes,
permite maior mobilidade dentro da sala de aula. Esses movimentos satisfazem a
necessidade de ação, principalmente quando se trata de crianças. (NORTE, p. 97,
1992).
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 18
189
Certamente, se os aprendizes tivessem que ficar sentados apenas fazendo
exercícios escritos ou ouvindo a explanação do professor, eles se cansariam e
produziriam muito menos. De fato, a turma antes das aplicações era muito agitada e
inquieta fisicamente, quadro que se modificou quando as aplicações se iniciaram, o
que é bastante emblemático para a nossa pesquisa. Isso indica que a movimentação
utilizada na aula satisfazia a necessidade de ação das alunas, fazendo-as ficarem
atentas e motivadas com os conteúdos.
Em outros momentos, antes do início das aulas, as alunas questionavam se
eles iriam fazer “algo diferente” nelas, referindo-se ao desempenho físico das ações,
como mostra a transcrição a seguir:
PP: Hello, students! How are you?
A1: Teacher, vai ter alguma coisa diferente hoje na aula?
PP: Diferente como?
A1: Ah, coisa diferente. Diferente de aula normal.
PP: Como assim?
A1: Ah, igual a aula passada, que tinha aqueles cartazes e a gente fazia mimica do
nosso dia com as coisas lá.
A1, utilizando os termos “mimica” e “coisas”, estava se referindo, respectivamente,
às ações dos comandos e os objetos utilizados para tal. Os movimentos físicos e
a utilização de objetos reais rompem com a ideia de sala de aula tradicional, ou
seja, com a rotina de sala de aula tradicional, tornando os alunos mais motivados e
receptivos ao conteúdo, já que encaram a aula como um evento muito semelhante
a brincadeiras.
A maneira como o professor desempenha esses comandos também é essencial
para que se garanta um ambiente relaxante e agradável de ensino. Norte (1992)
postula que os comandos proferidos por ele devem ser bastante variados, oscilando
de sérios, tolos a até malucos. Compreendendo a importância dessa questão, a PP
desempenhava seus comandos de maneira cômica e divertida, provocando inúmeras
reações positivas nas crianças:
A1: [dando risada]. Teacher, você é crazy. Bem loucona, einh teacher?
A2: [dando risada] Faz de novo!
Nesse sentido, os movimentos corporais, aliados aos objetos utilizados e a
execução dos comandos, contribuem muito para um ambiente motivador e de baixa
ansiedade em sala de aula, sendo favoráveis ao ensino de LI para crianças, o que
vem de encontro com autores como Gattolin (1999), Norte (1992), entre outros.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 18
190
4.2 Compreensão da língua-alvo
Convergindo com autores como Norte (1992) e Gattolin (1998), a análise
de nossos dados comprovou que uma das causas da motivação nos alunos
é a compreensão da língua-alvo. O aluno se sente muito mais motivado e,
consequentemente, aberto ao aprendizado de uma língua quando ele consegue
compreendê-la. Compreendendo-a, ele consegue tanto se engajar na produção oral
da mesma quanto no desenvolvimento das atividades propostas, principalmente
porque ele se sente confiante. Sobre isso, Krashen (1983, p. 1) afirma:
Nós aprendemos a língua quando obtemos input compreensível, quando nós
entendemos o que nós ouvimos ou lemos em outra língua. Isso significa que a
aquisição é baseada primeiramente no que ouvimos e entendemos.
Há inúmeras maneiras de se garantir que os alunos compreendam a língua por
meio do TPR, mas destacam-se aqui a repetição e o envolvimento físico. Sobre a
repetição, ao contrário do de que se pode imaginar, ela tem:
[...] um papel fundamental dentro do ensino de línguas, especialmente quando
se trata do ensino formal de uma LE no qual, devido ao período muito limitado de
contato entre o aprendiz e a língua-alvo, a repetição fornecida em sala de aula
representa um caminho mais curto para o uso efetivo dessa língua (GATTOLIN, p.
143, 1998).
Por meio da análise das gravações em vídeo, notou-se que, ao dar os comandos,
o professor se utilizava da repetição para promover a compreensão e retenção do
insumo pelos alunos, estratégia que pareceu funcionar muito bem.
PP: A1, point to Wednesday Addam’s mother. [erra]
PP: A2, point to Morticia Addam’s mother. [acerta]
PP: A1, point to Wednesday Addam’s mother. [erra]
PP: A2, point to Wednesday Addam’s mother. [acerta]
PP: A1, point to Wednesday Addam’s mother. [acerta]
PP: A1, point to Pugsley Addam’s mother. [acerta]
PP: A1, point to Gomez Addam’s mother. [acerta]
No excerto anterior, percebe-se que A1, apesar de saber o significado da palavra
mother, estava com dificuldades de relacioná-la à pessoa. Assim, a PP repete os
comandos para que o foco se desse só na parte da sentença em que ela estava com
dúvidas.
Tal prática de repetição foi recorrente ao longo das aplicações e surtia efeitos
positivos na compreensão dos alunos, sobretudo porque, na hora de darem os
comandos aos colegas, eles desempenhavam instantaneamente os comandos mais
utilizados pelo professor-pesquisador, ou seja, aqueles os quais ele mais repetia
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 18
191
(como point to, touch the, go to, sit on, jump in etc).
Sobre o envolvimento físico, pudemos comprovar que ele também é um dos
grandes responsáveis pela compreensão da língua, como apontou Asher em seus
estudos sobre o TPR. O aprendiz, ao observar a execução do comando, passa a
entender seu significado, o que funciona como “uma poderosa ferramenta alternativa
à tradução” (ASHER, 20--).
A1: Teacher, não tô lembrando o que é “Put your hands up to speak”.
PP: A2, do you know? [responde que sim com a cabeça]. So... Put your hands up to
speak, A2! [A2 faz a ação]
A1: Ah, já entendi. Faz comigo, Teacher.
PP: Put your hands up to speak, A1. [A1 faz a ação e acerta]
Essa retenção de insumo, tanto devido à repetição quanto ao envolvimento
físico dos alunos, era comprovada ainda mais durante as sessões de revisão no
começo de cada aula, nas quais os alunos lembravam de imediato o que havia sido
aprendido na aula anterior sem que para isso fosse necessária uma nova explicação
do professor.
PP: Do you remember the actions? Wake up, get up, take a shower, go to the
kitchen…? Do you remember…? I will mime them for you. [explicando gestualmente
o que seria feito]
A1: Não, Teacher. Deixa a gente... A gente sabe.
PP: Do you know?
A1: Vai, A2. Fala pra mim que eu faço as ações. Depois a gente troca. [A2 consente
e elas desempenham os comandos e ações com sucesso]
Destarte, os alunos, compreendendo mais a língua-alvo, sentem-se mais
confiantes e se engajam mais nas atividades propostas, o que indica um aumento
da motivação em relação ao aprendizado da língua-alvo. No questionário, ao ser
interrogada se sua filha cantava as músicas que aprendia em sala de aula em casa,
a mãe escreveu:
MA: Sim, canta bastante. Não tem vergonha de soltar a voz. Isso eu acho que já é
confiança no que aprendem.
Na aula 13, por exemplo, em que os alunos foram solicitados a irem para a
área externa da escola e ajudar o professor a desenhar uma minicidade no chão,
a qual deveria ser grande o suficiente para que elas pudessem andar sobre ela, o
professor, após explicar os procedimentos da atividade, não conseguiu dar nem três
comandos às alunas que elas já queriam produzi-los por si só:
PP: Go to the bank/ Run to the school/ Sit in...
A1: Teacher, deixa a gente dar os comandos.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 18
192
PP: Ok! Give the commands to A2.
A1: A2, go to the school and study English.
Além da vontade das alunas de produzirem os comandos e de não somente
responder a eles, tem-se a questão de suas extensões. A princípio, era solicitado
que as alunas apenas usassem os lugares aprendidos nos comandos, e não as
ações relativas a cada um. Observamos que elas se anteciparam, o que indica, além
da retenção das ações aprendidas na aula anterior, um engajamento e motivação
maiores naquela atividade. Gardner (1985) já havia definido a motivação como uma
combinação de esforços mais o desejo de atingir o objetivo de aprender a línguaalvo mais atitudes favoráveis em relação à aprendizagem dessa língua, o que se
encaixa perfeitamente nesse contexto.
4.3 Realidade dos alunos
Intentou-se, durante o desenvolvimento dos planos de aula, aliar, sempre que
possível, as atividades à realidade das alunas, pois acredita-se na importância
dessa questão: “[...] a escola deve trabalhar com o conhecimento do cotidiano, mais
próximo da realidade dos alunos concretos que frequentam as escolas [...]” (MELO
e URBANETZ, 2008, p. 115). Assim, ao longo das aplicações, pareceu-nos claro
que as alunas se motivavam ainda mais quando as atividades faziam parte de suas
realidades ou elas podiam fazer associações com elas.
No início, por exemplo, o tema principal das práticas era verbos de rotina (como
wake up, get up, take a shower, have lunch, have breakfast, have dinner, go to
school, do the homework etc.), o que fez com que as alunas se identificassem muito
com essas aulas, porque eram ações que, em maior e menor grau, faziam parte de
suas realidades. Objetos utilizados em seus cotidianos (como esponjas, escovas de
dente, escova de cabelo, touca de banho, pratos, talheres e canecas) foram trazidos
fisicamente para o desempenho dos comandos, demonstrando seus desejos de
desempenhá-los ainda mais. Além disso, ansiavam por mostrarem aos colegas e
professor de que maneira desempenhavam aquela ação em suas casas, de que
maneira tomavam banho, de que maneira tomavam café da manhã, se tomavam café
da manhã etc., promovendo, até mesmo, uma discussão sobre diferentes costumes
e culturas em sala de aula.
Em inúmeros momentos, conteúdos foram cortados das aulas, pelas próprias
alunas, por não fazerem parte de seus cotidianos. Lugares, como Sports Center, por
exemplo, foram substituídos por Park ou Shopping Mall, dado que as alunas não têm
referência de Sports Center em suas rotinas. O comando Catch the bus, por sua vez,
só foi utilizado durante a explanação do professor e em mais nenhum momento e
isso se deve ao fato de que a ação de pegar o ônibus não era uma ação recorrente
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 18
193
naquele contexto e, da mesma forma que o aluno se motiva com um conteúdo que é
parte de sua realidade, ele acaba não se interessando por aquele que não é.
Na verdade, a intenção das alunas era desempenhar ações que fossem bem
próximas de suas realidades, o que fazia com que elas questionassem o professor
de maneira ainda mais específica:
AA: Como é “ir para a escola de carro”? / Como é “almoçar na casa da minha vó”? /
Teacher, como é “fazer a lição de ciências”?
Na aula 16, em uma apresentação de sentenças as quais podiam acontecer
na escola (Listen to the teacher/ Work with a partner/ Copy the sentences/ Ask
the teacher/ etc) feita pelo professor por meio de imagens e ações, há a seguinte
anotação do professor no diário de pesquisa:
PP: Alunas ficaram empolgadas para comentarem o lugar de cada ação em seus
próprios cotidianos escolares, contavam como aconteciam aquelas ações em suas
turmas/escolas e questionavam sobre como dizer outras ações que não estavam no
planejamento, mas que elas executavam na escola.
Tal passagem, juntamente com a análise das gravações em vídeo desse
momento, demonstra um engajamento das alunas naquela atividade, principalmente
pelo fato de ela ter possibilitado uma relação com seus próprios cotidianos escolares.
A atividade, então, foi significativa a elas e, sendo significativa, reteve em maior grau
suas atenções e facilitou seus aprendizados.
A aula 13, em que os alunos foram dirigidos à área externa da escola para
desenharem a minicidade com giz no chão, foi uma aula bastante emblemática para
a nossa pesquisa, porque ela nos mostrou que, para além dos aspectos linguísticos
da língua, as atividades aplicadas também foram capazes de trazer uma formação
cidadã aos alunos. Certamente, ensinar língua estrangeira não é apenas ensinar a
língua pela língua,
[...] é procurar auxiliar a criança [ou qualquer aprendiz] a construir caminhos que
a ajudem a ampliar o conhecimento de si própria e da sociedade em que vive,
a compreender melhor os contextos que a cercam, fortalecendo-a com a visão
positiva e crítica de si mesma e das diferenças, a integrá-la no mudo plurilíngüe,
pluricultural e densamente multisemiotizado em que vivemos [...] (ROCHA, 2008,
p. 20)
Ao desenharem a minicidade no chão, elas consideraram, sozinhas, que nela
deveria haver faixas de pedestres, semáforos, lixeiras nas ruas, além de nomearem
cada lugar na cidade de acordo com suas imaginações (Grandpa’s Bakery, Maria’s
Park etc). Além disso, ao andarem pela minicidade e responderem aos comandos
feitos pelos colegas, elas optavam por andarem na mão correta da via, parar nos
semáforos ou deixar pedestres atravessarem na faixa. Quando alguma aluna dizia,
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 18
194
por exemplo, “Go to the bank and get some money”, a outra aluna ia até o banco,
passava pelo detector de metais, aguardava na fila e só depois tirava o dinheiro no
caixa.
5 | CONSIDERAÇÕES FINAIS
Intentando trazer contribuições significativas para essa discussão, esta
pesquisa propôs o ensino de LIC por meio da utilização de uma adaptação do TPR em
sala de aula, oferecendo ao docente maior sistematização e não o deixando à mercê
do livro didático ou de sua formação insatisfatória. Investigou-se, principalmente,
qual seria a atmosfera de ensino proporcionada pelo método.
Concluiu-se que o TPR é uma ferramenta bastante útil no ensino-aprendizagem
de LIC, sobretudo porque ele possibilita a motivação das crianças, a qual é garantida
por meio do envolvimento físico, da compreensão da língua-alvo e da inserção da
realidade dos alunos nas atividades.
Entende-se que os resultados aqui alcançados podem em muito contribuir
para o ensino-aprendizagem de LIC no contexto brasileiro, orientando as práticas
pedagógicas dos profissionais da área de ensino de LE e apresentando-lhes
diferentes maneiras de lidar com essa faixa-etária em sala de aula.
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A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 18
197
CAPÍTULO 19
doi
O PIBID E O USO DOS RECURSOS DIDÁTICOS/
TECNOLÓGICO NA SALA DE AULA
Data de aceite: 06/01/2020
Eronice Rodrigues Francisco
Professora da Escola Estadual Maria
Auxiliadora – Supervisora Pibid-Informática.
Alto Araguaia – MT – Brasil
Sandra R. Hermes dos Santos
Professora da Escola Estadual Maria
Auxiliadora – Supervisora Pibid-Informática.
Alto Araguaia – MT – Brasil
Sérgio S. S. Filho
Docente do curso de Licenciatura em
Computação e Bacharelado em Ciência da
Computação – Universidade do Estado de Mato
Grosso – Alto Araguaia – MT – Brasil.
daquele tradicionalismo. O papel do supervisor
do PIBID é possibilitou intermediar o trabalho dos
bolsistas, professores e alunos, proporcionando
a interação, socialização e contribuição para
um aprendizado significativo. Percebeu-se que
as atividades aplicadas abordando os gêneros
textuais pelos bolsistas do projeto PIBID foram
significativas e dinâmicas. A experiência como
supervisora do PIBID está sendo única e muito
significante, pois o envolvimento e o empenho
de todos causou um impacto positivo na escola.
PALAVRAS-CHAVE:
Experiência.
Aprendizagem. Recursos pedagógicos.
PIBID AND THE USE OF TEACHING /
TECHNOLOGICAL RESOURCES IN THE
RESUMO: Neste artigo é apresentado um relato
de experiência como supervisora do Subprojeto
PIBID-Informática do Campus Universitário
de Alto Araguaia- MT. O objetivo deste é
apresentar algumas atividades desenvolvidas
pelos bolsistas IDs com aplicação de conteúdos
didáticos por meio de uma metodologia
diferenciada utilizando recursos/tecnologias
digitais. A metodologia utilizada foi à expositiva
e ativa, pois colocou o discente no centro do
aprendizado. Os resultados evidenciaram
que as aulas planejadas e executadas com
os recursos tecnológicos despertaram os
interesses dos alunos em aprender, e assim
possibilitando que o professor inove e saia
CLASSROOM
ABSTRACT: This article presents an experience
report as supervisor of the PIBID-Informatics
Subproject of the Alto Araguaia University
Campus-MT. The purpose of this is to present
some activities developed by IDs scholars with
the application of didactic content through a
different methodology using digital resources
/ technologies. The methodology used was
expository and active, because it placed the
student at the center of learning. The results
showed that the classes planned and executed
with the technological resources aroused the
students' interest in learning, thus enabling the
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 19
198
teacher to innovate and leave that traditionalism. The role of the supervisor of PIBID
is to make it possible to intermediate the work of the fellows, teachers and students,
providing interaction, socialization and contribution to meaningful learning. It was
noticed that the applied activities addressing the textual genres by the PIBID project
fellows were significant and dynamic. The experience as a PIBID supervisor is being
unique and very significant as everyone's involvement and commitment has had a
positive impact on the school.
KEYWORDS: Experience. Learning. Pedagogical resources.
1 | INTRODUÇÃO
A utilização de recursos tecnológicos vem ganhando cada vez mais espaço
nas escolas. Por isso, o contato do aluno com a tecnologia é muito importante desde
cedo, mantendo-o ao longo de sua formação. O uso de novas tecnologias faz a
diferença ao proporcionar práticas pedagógicas inovadoras.
Somos desafiados a todo instante. É possível fazer algo mais pela educação,
sem medo de novos desafios, pois o professor deve estar em constante busca pelo
conhecimento.
Cada vez mais a escola está passando por transformações do ponto de vista
tecnológico, onde o professor e o aluno estão cada vez mais inseridos na lógica
informacional e tecnológica da produção do conhecimento.
Faria (2004) explica que os recursos tecnológicos facilitam a passagem do
modelo mecanicista para uma educação sócio interacionista. É importante criar um
ambiente de ensino e aprendizagem instigante, que proporcione oportunidades para
que os alunos participem.
Neste trabalho apresentaremos algumas das práticas realizadas pelos bolsistas
do Subprojeto PIBID-Informática do Campus Universitário de Alto Araguaia-MT. O
objetivo deste artigo é apresentar algumas atividades desenvolvidas pelos bolsistas
IDs com aplicação de conteúdos didáticos por meio de uma metodologia diferenciada
utilizando recursos/tecnologias digitais. A metodologia utilizada foi a expositiva e
ativa, pois colocou o discente no centro do aprendizado. Os resultados evidenciaram
que as aulas planejadas e executadas com os recursos tecnológicos despertam os
interesses dos alunos em aprender.
2 | METODOLOGIA
O planejamento das aplicações foi organizado em dois momentos:
Planejamento didático e tecnológico: Foi sugerido para cada trio um recurso
tecnológico a ser aplicado em sala de aula e laboratório de informática.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 19
199
Foram apresentados alguns recursos tecnológicos: Lousa Digital, LibreOffice
Impress, LibreOffice Writer, sempre utilizando Datashow, sugerimos os conteúdos
didáticos a serem aplicados, onde foi optado por trabalhar os gêneros textuais,
porque conforme as diretrizes dos PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais) de
Língua Portuguesa, para o Ensino Fundamental I, “[...] é papel da escola possibilitar
o acesso do educando às diversas formas textuais que circulam na sociedade,
ensinando-o a produzi-las e compreendê-las”.
Os gêneros textuais trabalhados foram: paródia musical, histórias em
quadrinhos, fábulas e poemas.
As bolsistas IDs que trabalharam o gênero paródia musical usaram o
Data Show para explicar e exemplificar sobre a origem e sobre os diversos tipos
de parodia; trouxeram vários exemplos impressos e cada aluno pode perceber a
variação do gênero. Para que os alunos produzissem foi escolhido: Paródia musical
e então foram apresentadas várias parodias musical, alguns vídeos e os alunos
foram incentivados a cantarem as paródias que foram trazidas pelos bolsistas. Após
a fase de explicação, foi dado um tempo para que os alunos escolhessem a música
para fazer a paródia musical usando temas como: escola; meio ambiente e direito
das crianças.
O segundo momento foi de criação, cada dupla começou a escrever sua
paródia musical, tendo como consultar a letra original da música e como já sabiam
praticamente de cor as músicas a maioria das duplas não teve dificuldade para
produzir belas paródias. Na sequência da aplicação, os alunos foram levados para
o laboratório de informática onde puderam fazer a digitação e formatação usando
LibreOffice Writer. Para finalizar puderam cantar suas paródias, pois as bolsistas
levaram o Play Black das músicas parodiadas e foi um verdadeiro festival de música.
Houve também gravação de vídeo com as apresentações das paródias. Muito
produtiva e encantadora, pois os alunos aprenderam se divertindo.
Os bolsistas IDs que trabalharam o gênero Histórias em Quadrinhos iniciaram
as aulas com uma roda de Leitura onde os alunos recontaram com riqueza de
detalhes as histórias que leram nos gibis, com isso trabalhou a oralidade. Com a
utilização da lousa Digital e o Datashow multimídia passaram os slides para aplicação
do conteúdo, ensinaram a estes alunos um pouco mais sobre HQs, por exemplo, as
onomatopeias, tipos de gêneros textuais, tipos de balões e exemplos em dois vídeos
de como elaborar HQs entre outros. Após esta aplicação de aula em laboratório, os
alunos produziram uma história que posteriormente se tornaria uma HQ (História em
quadrinho) com o aplicativo online Toondoo, disponível em http://www.toondoo.com.
Para próxima etapa levaram os alunos para o Laboratório onde eles tiveram
acesso a um login e senha, podendo assim acessar a página de criação de HQs onde
puderam transportar do papel para o site, escolhendo os personagens, animações
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 19
200
e fundos que o aplicativo oferecia. As HQs produzidas por eles demonstraram
criatividade, imaginação e surpreenderam ao escreverem, mostrando interesse em
escrever mais HQs.
Os bolsistas que trabalharam com o gênero Fábula apresentaram aos alunos
atividades de leitura e interpretação de algumas fábulas, foram apresentados
também alguns vídeos. Os alunos tiveram a oportunidade de realizar leitura individual
em um site da Internet, o qual oferecia histórias com áudio e movimentação dos
personagens. Após as conclusões das atividades, os alunos criaram suas próprias
Fábulas. Os alunos foram auxiliados nas produções e foi sugerido que os mesmos
representassem a fábula que produziram em cartolina. Em outro momento os
alunos foram levados ao laboratório de informática para que fizessem a digitação,
formatação e a ilustração usando LibreOffice Writer e o Kalourpaint.
O outro grupo de bolsista trabalhou como o gênero Poema. Iniciou a aplicação
do conteúdo questionando se os alunos conheciam poema e se já viram alguém
recitando. Isto estimulou os alunos a refletir sobre o gênero. Distribuíram cópias das
poesias de Manuel Bandeira, Manoel de barros e outros autores para que pudessem
ler e interpretar. Na sequência explicaram a definição poema, verso e estrofe e
mostraram alguns vídeos que reproduziam a leitura de poemas. Após esta etapa,
as crianças foram separadas em duplas e fizeram a leitura em voz alta da poesia
escolhida, ressaltando o ritmo e a entonação na leitura do gênero. Finalizaram a
aplicação pedindo que cada dupla produzisse e ilustrassem seu poema dentro dos
temas sugeridos (primavera, criança, estações do ano, Alto Araguaia, E essa turma
também foram levados ao laboratório de informática para digitação e formatação
usando LibreOffice Writer o Kalourpaint.
3 | RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os resultados evidenciaram que as aulas planejadas e executadas pelos
bolsistas utilizando os recursos tecnológicos despertaram os interesses dos alunos
em aprender, pois os alunos demonstraram mais interesses e motivação em participar
e desenvolver as atividades propostas.
A partir das vivências proporcionadas pelo PIBID, foi possível perceber a
importância e a emergência do uso das tecnologias em sala de aula e como estas
se apresentam como um instrumento de mediação pedagógica, servindo tanto para
o professor como para o aluno.
O PIBID vem nos ajudando a concretizar práticas pedagógicas que podem
contribuir com o nosso processo educativo, sobretudo, na melhoria da qualidade
das aprendizagens dos alunos da Escola Estadual “Maria Auxiliadora”.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 19
201
4 | CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os recursos tecnológicos na educação escolar contribuem na inovação da
prática do professor na sala de aula, pois eles trazem para o processo de ensino
aprendizagem uma mudança significativa da função do educando, pois o torna
partícipe do processo educativo, bem como impulsiona o professor a buscar novos
conhecimentos e se adequar às constantes mudanças que a sociedade tem passado
e que a escola não pode ficar indiferente. As tecnologias estão cada vez mais
presentes em nossas vidas sendo assim também inseridos na escola e o professor
cada vez mais precisa se atualizar, Segundo THOALDO (2010);
“A educação no mundo de hoje tende a ser tecnológica, por isso, exige entendimento
e interpretação, tanto dos professores quanto dos alunos em relação a essas
novas tecnologias. Através do uso da tecnologia no ambiente escolar, ficam claros
os diversos sentimentos em relação a postura dos professores frente a novos
desafios, como a satisfação de estar participando de uma realidade tecnológica
ou a ansiedade por enfrentar novas mudanças. E em relação aos alunos também
ocorrem transformações, pois passam a ficar mais motivados para estudar e
aprender, e as aulas não ficam tão expositivas.”
Como professora supervisora, aprendi muito, pois percebi a importância do
professor estar sempre se atualizando, pois o conhecimento adquirido é nosso, mas
a educação está sempre em processo de formação, logo o professor mesmo depois
de formado, não está pronto, é um processo contínuo, que não acaba no final da
graduação. Estando na era da tecnologia, nossos alunos estão chegando as nossas
salas de aula, cada vez mais curiosos, pois eles têm acesso a vários meios de
informação. Daí a importância de nós professores estarmos sempre se atualizando.
O uso dos recursos tecnológicos/tecnologias digitais vem ganhando cada vez
mais espaço nas escolas. O contato do aluno com a tecnologia é muito importante
desde cedo. Qualquer que seja a disciplina, matéria ou conteúdo pode ter atividades
preparadas, construídas e realizadas com recursos tecnológicos aplicados de forma
pedagógica. As atividades realizadas pelos bolsistas IDs na escola enriqueceram e
facilitaram o aprendizado dos alunos e também causou motivação em nós professores
contribuindo assim para o nosso desenvolvimento profissional, pois notamos que
teríamos que (re) aprender muitas de nossas metodologias de ensino.
REFERÊNCIAS
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séries. 3ª ed. Brasília. MEC- Secretaria de Ensino Fundamental, 2001.
FARIA, E. T. Professor e as novas Tecnologias. In: ENRICONE, D. (org.) Ser Professor. Porto.
Thoaldo, D.L.P.B. (2010) O uso da tecnologia em sala de aula. Trabalho de Monografia apresentado
na pós-graduação em Gestão Pedagógica da Universidade Tuiuti do Paraná 1: 1-35.
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Capítulo 19
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CAPÍTULO 20
doi
O PROCESSO DE INCLUSÃO SOCIAL DE PESSOAS
COM DEFICIÊNCIA VISUAL: O PAPEL DA INCLUSÃO
DIGITAL
Data de aceite: 06/01/2020
Data de submissão: 19/10/2019
Anderson Barros da Silva
Graduado em Gestão de Recursos Humanos
e Psicologia (Bacharelado) pela Universidade
Cruzeiro do Sul. Licenciado em Pedagogia pela
Universidade Cidade de São Paulo. Especialista
em Educação a Distância e Mestrando em Ensino
de Ciências e Matemática pela Universidade
Cruzeiro do Sul
Universidade Cidade de São Paulo – UNICID, São
Paulo – SP. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.
br/0216402976395965
Geni Emília de Souza
Graduada em Serviço Social (Centro Universitário
UniFMU-SP), Mestre em História Econômica
(FFLCH- USP), Especialista em Violência
Doméstica contra a Criança e Adolescente VDCA
(LACRI/IPUSP), Especialista em Informática na
Educação ((Universidade Cruzeiro do Sul).
Universidade Cruzeiro do Sul – UNICSUL, São
Paulo – SP. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.
br/6414434352749200
RESUMO: Dentre os vários aspectos ligados
à inclusão social, elegeu-se como objeto desta
investigação o papel ocupado pela inclusão
digital de pessoas com deficiência visual,
devido à sua relevância social e necessidade
de abordar o tema, buscando-se compreender
os possíveis impactos na vida dos sujeitos
com essa deficiência, a partir das perspectivas
teóricas que se debruçaram e que permitem
compreender essa realidade. O percurso
metodológico passou pelo levantamento
bibliográfico, seguido de uma revisão da
literatura pertinente ao tema pesquisado. A
análise pauta-se nos conceitos desenvolvidos
por Sawaia (1999), Martin-Baró (2003) e pela
legislação brasileira. O presente estudo teve
como objetivo analisar metodologicamente o
papel da inclusão digital no processo de inclusão
social de pessoas com deficiência visual, a
partir de uma visão sociocultural comprometida
com a promoção da cidadania. As tecnologias
assistivas colaboram para a inclusão digital de
pessoas com deficiência visual, o que possibilita
a sua inclusão social. Como resultado, constatase que a inclusão digital é um forte constituinte
e garantidor da inclusão ou exclusão social,
embora haja a necessidade de produzir novas
pesquisas qualitativas e quantitativas, nas
quais se busque compreender a efetividade
do processo de inclusão digital no processo de
inclusão social das pessoas com deficiência
visual, na perspectiva desses sujeitos e a sua
representatividade nos dados estatísticos.
PALAVRAS-CHAVE: Inclusão social, inclusão
digital, deficiência visual, tecnologias assistivas.
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THE PROCESS OF SOCIAL INCLUSION OF PERSONS WITH VISUAL DISABILITY:
THE ROLE OF DIGITAL INCLUSION
ABSTRACT: Among the various aspects of social inclusion, was elected as the object of
this research the role occupied by the digital inclusion of people with visual impairment
due to their social relevance and the need to address the issue, seeking to understand
the possible impacts on the lives of individuals with this deficiency, from the theoretical
perspectives that have studied and allow us to understand this reality. This was
literature. The analysis staff on the concepts developed by Sawaia (1999), Martin-Baro
(2003) and by Brazilian law. This study aimed to analyze methodologically the role of
digital inclusion in the process of social inclusion of people with visual impairment, from
a sociocultural vision committed to the promotion of citizenship. Assistive Technologies
collaborate to the digital inclusion of people with visual impairments, enabling social
inclusion of these people. As a result, it appears that digital inclusion is a strong
constituent and guarantor of inclusion or social exclusion, although there is the need
to produce new qualitative and quantitative research, in which seeks to understand the
effectiveness of the process of digital inclusion in the inclusion process social of people
with visual disabilities, in view of these subjects and their representation in statistical
data.
KEYWORDS: social inclusion, digital inclusion, visual impairment, assistive
technologies.
1 | INTRODUÇÃO
O processo de globalização, também conhecido como mundialização dos
capitais, trouxe consigo novos paradigmas e conceitos, que cobram da sociedade
novas formas de inserção social. Neste mundo globalizado, a informação está a
apenas um clique, no entanto, deve-se pensar o papel da inclusão digital de pessoas
com deficiência visual no processo de inclusão social, pois os sujeitos com deficiência
visual não podem ser ignorados ou negligenciados no cenário atual.
Além disso, devem-se analisar sistematicamente os caminhos a serem
percorridos, para que se possa promover a cidadania de forma efetiva, sem que
se inicie um processo de inclusão perversa, que sustenta ideologias violentas no
encobrimento da violência perpetrada na dialética da inclusão/exclusão, que por
muitas vezes ocorre conjuntamente (SAWAIA, 1999).
A partir da análise sistemática dos dados, poder-se-á, por fim, pensar novas
estratégias de desenvolvimento social e educativo.
Embora Morcelli e Seabra (2014), considerem que diversas pesquisas recentes
estejam sendo produzidas na área, devido a necessidade e tamanha importância
do tema, percebe-se uma carência igualmente grande de materiais significativos
que abordem o assunto de forma clara e satisfatória em língua portuguesa. Pode-se
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Capítulo 20
204
pensar que o entrave possa existir no uso da tecnologia, ou apenas nas dificuldades
de inserir sujeitos cegos no uso das tecnologias, no entanto, é necessário considerar
o processo sócio-histórico do país e seus desdobramentos na construção da
cidadania e identidade social da população em geral.
Para que se possa tratar o tema de forma satisfatória, é necessário analisar
a forma como o processo de inclusão digital é tratado frente à inclusão social e
consequentemente, analisar o papel da inclusão digital de deficientes visuais na
promoção da cidadania. Entretanto, devem-se observar os reais resultados na
prática social e nas vidas dos sujeitos participantes.
Sendo assim, deve-se verificar se os resultados são de fato de valor positivo na
vida do sujeito ou se apenas contribuem para manutenção da ideologia dominante,
utilizando-se dados das pesquisas nacionais publicadas.
Os objetivos específicos do trabalho de pesquisa em questão versam sobre uma
melhor compreensão das dificuldades e necessidades existentes no processo de
inclusão digital de pessoas com deficiência visual, visando à promoção da cidadania.
É necessário observar quais são os obstáculos a serem superados para que a
inclusão ocorra de forma efetiva e não seja um processo que reafirme a exclusão, ou
seja, para que não ocorra uma inclusão perversa (SAWAIA, 1999).
Além disso, deve-se observar o papel da inclusão digital no processo de
inclusão social, uma vez que, o processo de globalização avança de forma cada
vez acelerada, solicitando à sociedade, cidadãos bem preparados para as novas
demandas, não podendo o sujeito cego ser excluído do sistema social.
Essa é uma pesquisa bibliográfica de abordagem qualitativa, pois se considera
que seja a mais adequada para tratar a questão, devido à escassez de materiais
publicados no Brasil sobre o tema.
Buscou-se analisar metodologicamente o papel da inclusão digital no processo
de inclusão social de pessoas com deficiência visual, a partir de uma visão
sociocultural comprometida com a promoção da cidadania.
Para que seja possível abordar o papel da inclusão digital no processo de
inclusão social de pessoas com deficiência visual, enquanto prática de cidadania
é necessário fundamentar as bases de pesquisa, muito embora, é possível se
perceber a necessidade de tratar o tema justamente pelo fato de pouco material ter
sido produzido em língua portuguesa.
Este trabalho é organizado em seções. A seção 2 apresenta os aspectos
históricos acerca da deficiência. A seção 3 aborda a dialética inclusão / exclusão a
partir dos pressupostos teóricos de Sawaia (1999) e Martin-Baró (2003).
Na seção 4 será discutido o processo de inclusão digital de pessoas com
deficiência visual, partindo-se de um contexto mais amplo para abordar de forma
satisfatória como esse processo ocorreu e ocorre no Brasil, destacando-se o papel
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das tecnologias assistivas.
Por fim, são apresentadas as considerações finais e as referências que deram
sustentação a esse trabalho.
2 | ASPECTOS HISTÓRICOS SOBRE A DEFICIÊNCIA
“Há aqueles que lutam um dia; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam muitos dias; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam anos; e são melhores ainda;
Porém há aqueles que lutam toda a vida; esses são os imprescindíveis” (Bertolt
Brecht).
De acordo com Amiralian (1986), no percurso histórico da humanidade, as
pessoas com deficiência têm percorrido caminhos tortuosos, com diversos obstáculos
e limitações sociais, ou seja, restrições que ultrapassam as condições físicas e
psíquicas do sujeito, pois os entraves que dificultam a aceitação social das pessoas
com deficiência ao longo da história se deram, e se dão, no âmbito biopsicossocial.
Biológicas por causa das limitações físicas dessas pessoas, psicológicas e sociais
porque se deve considerar o psiquismo e as interações sociais estabelecidas na
produção de sentido para o que se compreende como deficiência, bem como o papel
social das pessoas com essas condições.
Amaral (1995), aponta que há algum tempo, existe uma tendência entre diversos
autores em considerar a necessidade de compreender o contexto no qual a situação
do deficiente emerge, necessidade essa que está para além da compreensão do
conceito, por considerarem que toda deficiência é social. Entretanto, essa é uma
consideração atual e nem sempre foi assim.
Os registros históricos comprovam que as pessoas com deficiência foram
excluídas e segregadas socialmente por muito tempo, sendo que nos dias atuais
ainda se evidencia os processos de exclusão por meio da discriminação e preconceito
que essas pessoas sofrem.
Embora não haja registros do modo como os sujeitos com deficiência viviam e
eram tratados na pré-história, considerando-se as condições físicas e climáticas da
época, pode-se inferir a inexistência de abrigos que os protegesse durante os dias e
as noites, de modo que as pessoas estivessem expostas ao calor e a frio intensos.
A escassez e o fato de não se cultivar alimentos obrigava as pessoas a caçarem
e a mudarem periodicamente. A caça fornecia não somente o alimento, que deveria
ser cultivado durante o inverno, mas também como material para proteção ao frio.
A partir da manifestação da inteligência, o homem demonstrou ser um sujeito
gregário, inicialmente sugiram os pequenos grupos de caça, até que preocupados
com a sobrevivência, saúde e segurança dos membros do grupo, surgiram as tribos.
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Todavia, considera-se que devido às condições ambientais, a sobrevivência
das pessoas com deficiência nesse período fosse impossível, pois além das
atividades de caça, pesca e colheita de frutos, folhas e raízes, havia a necessidade
de deslocamentos constantes, em busca de melhor ambiente para viverem.
Sendo assim, essas pessoas eram percebidas como um fardo para o grupo.
Dessa forma, se desfazer das crianças que nasciam com deficiência era prática
comum em certas tribos, pois somente os mais fortes sobreviviam. Com o passar
do tempo, essas pessoas continuaram a ser percebidas como obstáculos para a
sociedade (AMARILIAN, 1986).
De acordo com Silva (2010), o Egito antigo é uma exceção, pois há evidências
arqueológicas que fazem referência ao fato de que as pessoas com deficiência
estavam presentes nas diferentes hierarquias sociais. Entretanto, nas demais
civilizações, Grécia e Roma antiga, por exemplo, o abandono e sacrifício dessas
pessoas eram práticas comuns. As crianças que não eram sacrificadas ficavam
escondidas.
Na Idade Média, existia uma ambiguidade no modo como as pessoas com
deficiência eram vistas e tratadas. Ora a ideia de castigo divino era utilizada para
justificar a condição dessas pessoas, ora atribuía-se a elas poderes especiais.
Foi durante o reinado de Luís IX (1214 – 1270), que foi criado o primeiro hospital
para pessoas cegas, o Quinze-Vingts (15 x 20 = 300), em referência ao número de
soldados que retornaram cegos da Sétima Cruzada (SILVA, 2010).
Durante o século XIX, no Instituto Nacional dos Jovens Cegos de Paris, Charles
Braille (1809 – 1852) desenvolveu o sistema de escrita padrão utilizado por pessoas
cegas até os dias atuais, o BRAILLE, após ter seu pedido de aperfeiçoamento do
sistema de escrita noturna, negado por Charles Barbier 1(1764 – 1841).
A criação do sistema Braille, em 1829, inaugurou “a era moderna” da história das
pessoas cegas, promovendo uma verdadeira revolução no processo de ensino e
aprendizagem dos cegos. A partir de então, a institucionalização da educação
e da profissionalização dos cegos ganhou impulso, e o Braille se configurou
como a forma mais efetiva de escrita e leitura para pessoas cegas. No entanto, a
progressiva proliferação das instituições especializadas em educação de cegos
em todo o mundo, por si só, não lhes garantiu integração na sociedade, acesso
a direitos, nem fim do preconceito e do estigma associado à cegueira (JÚNIOR;
MARTINS, 2010, p.28).
Nas Idades Moderna e Contemporânea, muitos foram os avanços quanto ao
processo de inclusão social das pessoas com deficiência, por conta disso, este
trabalho concentrar-se-á nos estudos que tratam sobre a deficiência visual e o
processo de inclusão dessas pessoas.
Charles Barbier desenvolveu o código de comunicação noturna a pedido de Napoleão. O código deveria ser utilizado para transmitir mensagens à noite durante as batalhas, mas foi rejeitado pelos
militares por ter sido considerado complexo demais.
1
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A frase em epígrafe declara que há lutas diárias, mensais e anuais e que essas
lutas tornam os sujeitos muito bons e melhores ainda, do que eram antes delas.
Porém há ainda, aqueles que lutam e lutarão por toda a vida e, por isso, podem ser
chamados de imprescindíveis, de excepcionais.
Entretanto, não se deve esquecer que, apesar dessas lutas, essas pessoas
são pessoas, cidadãos e cidadãs de direito, que merecem ser conhecidas e para
conhecê-las, é necessário compreender o caráter dessas lutas, nas quais, de modo
mais ou menos violento, se encontra a exclusão que os marca e os marcará para
sempre e, por conseguinte, o seu desdobramento, que nem sempre é uma inclusão.
3 | A DIALÉTICA INCLUSÃO / EXCLUSÃO SOCIAL
“Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens
que o comprimem” (Bertolt Brecht).
De acordo com Sawaia (1999), a inclusão social pode ser compreendida
como a transmutação do processo de exclusão. Portanto, para que se possa falar
do processo de inclusão, a qual os deficientes visuais estão submetidos dentro da
lógica social, torna-se necessário compreender o seu desdobramento, ou seja, o
processo de exclusão social.
Sobre a exclusão, Sawaia (1999, p. 9), reflete que:
[...] é processo complexo e multifacetado, uma configuração de dimensões
materiais, políticas e subjetivas. É processo sutil e dialético, pois só existe em
relação à inclusão como parte constitutiva dela. Não é uma coisa ou um estado,
é processo que envolve o homem por inteiro e suas relações com os outros. Não
tem uma única forma e não é uma falha do sistema, devendo ser combatida como
algo que perturba a ordem social, ao contrário, ele é produto do funcionamento do
sistema.
Dessa forma, entende-se a inclusão como forma constituinte da exclusão,
uma vez que só existe como processo oposto ao primeiro, portanto, dependente da
exclusão, que está para além das desigualdades sociais.
Segundo Sawaia (1999), em lugar da exclusão, existe uma dialética inclusão/
exclusão, que produz subjetividades específicas, que poderão revelar sentimentos de
inclusão ou até de discriminação e revolta, de modo que a determinação econômica
não dará conta de explicar essas subjetividades, uma vez que, são determinadas
e determinam diferentes formas de legitimação social e individual em suas
manifestações de identidade, sociabilidade, afetividade, consciência e inconsciência
que se manifestam no cotidiano, ou seja, nas relações sociais.
Pode-se então inferir que para determinar se um processo é efetivamente
inclusivo, deve-se buscar conhecer as perspectivas e vivências dos sujeitos aos
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208
quais esse processo se destina, dando-lhes recursos para que possam analisar o
binômio inclusão/exclusão como um processo complexo.
Nesse sentido, Martin-Baró (2003), aponta para a urgência em perceber o
que definiu como violência estrutural, que para o autor é a violência que deriva da
estrutura social e da forma como a sociedade organiza os meios de produção e
consumo. Segundo o autor, a valorização social ou justificação, são definidas como
o valor atribuído a um ato, de modo que seja aceito em determinada sociedade ou
funcione como justificativa para este, influencia na percepção dos sujeitos e dificulta
o processo reflexivo.
Sawaia (1999, p. 8), enfatiza que esse binômio não é em si subjetivo nem
objetivo, individual nem coletivo, não sendo também racional nem emocional. Mas “é
processo sócio-histórico, que se configura pelo recalcamento em todas as esferas da
vida social, mas é vivido como necessidade do eu, como sentimentos, significados
e ações” (1999:8).
Uma vez recalcado, esse conteúdo deve ser ressignificado. Entretanto, de
acordo com Martin-Baró (2003), a estrutura do ato tem em si amplitude, de modo
que o ato pode ou não ser percebido como violento, sendo que o que determina o
caráter agressivo do ato não é o uso de força física, mas a presença da opressão e
a submissão que ele condiciona para atingir determinada finalidade.
Ao resgatar a frase em epígrafe com base nesse pensamento, pode-se pensar
que o rio que tudo arrasta é a expressão da violência, a ação, a força física, o ato
violento. Enquanto que, pelas margens que o comprimem, se compreende a maneira
como a sociedade se estrutura, se organiza, na qual está presente a opressão social
e submissão dos sujeitos excluídos.
Sendo assim, pode-se pensar que se o processo de inclusão não considerar o
sujeito em sua inteireza, de modo a permitir a práxis, mas ao invés disso condicione
a uma submissão, esse caracterizar-se-á por uma inclusão perversa, que inclui para
excluir.
4 | INCLUSÃO DIGITAL DE PESSOAS COM DEFICIÊNCIA VISUAL
“Quando eu digo que vejo um objeto à distância, quero dizer que já o possuo ou
que ainda o possuo, ele está no futuro e no passado ao mesmo tempo em que está
no espaço” (MERLEAU-PONTY, 1997, p. 306).
Os avanços do mundo na era global demandam que o cidadão saiba utilizar as
Tecnologias da Informação e da Comunicação – TICs, para que tenha sucesso em
uma sociedade cada vez mais competitiva, conectada e autônoma, no que se refere
ao uso das tecnologias.
Todavia, deve-se considerar que:
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A característica específica da cegueira é a qualidade de apreensão do mundo
externo. As pessoas cegas precisam utilizar-se de meios não usuais para
estabelecerem relações com o mundo dos objetos, pessoas e coisas que as
cercam: esta condição imposta pela ausência da visão se traduz em um peculiar
processo perceptivo, que se reflete na construção cognitiva e na organização e
constituição do sujeito (AMIRALIAN, 1997, p. 21).
Nesse sentido, as pessoas com deficiência visual necessitam lançar mão do
uso de tecnologias que lhes permitam sair da condição de excluídos digitais.
Considerando que a inclusão digital é uma necessidade inerente desse século,
então isso significa que o cidadão do século XXI, entre outras coisas, deve considerar
esse novo fator de cidadania, que é a inclusão digital. Esse fator constitui, ainda,
uma questão ética, a de oferecer essa oportunidade a todos, ou seja, todo indivíduo
tem direito à inclusão digital, e o incluído tem o dever de reconhecer que esse direito
deve ser estendido a todos.
A frase de Merleau-Ponty (1997), que se encontra em epígrafe, imprime um
sentido conotativo à visão, não se trata de um sentido ligado a um órgão físico.
Para ver um objeto à distância e possuí-lo, ou ainda possuí-lo, é necessário que se
abstraia, que a representação do objeto, que também não é físico, seja introjetada,
ou assim permaneça, simbolicamente.
Ao habitar uma consciência, um objeto poderá estar no futuro e no passado,
ao mesmo tempo em que está no espaço. O espaço virtual também permite tal
flexibilidade de tempo ao objeto. Sendo assim, para uma pessoa com deficiência
visual, que vivencia tempo e espaço de modo distinto do vidente, deveria ser mais
fácil compreender o espaço virtual. Entretanto, existem barreiras que devem ser
rompidas por meio da inclusão digital.
Dessa forma, inclusão digital é um processo que deve levar o indivíduo à
aprendizagem no uso de um programa que leve a sociedade brasileira a entrar na
sociedade da informação, possibilitando o fortalecimento da comunidade.
4.1 O processo de inclusão das pessoas com deficiência visual no Brasil
O processo de inclusão social das pessoas com deficiência visual no Brasil
possui as suas peculiaridades, pois ao mesmo tempo em que foi pioneiro em algumas
ações, outras foram implantadas mais tardiamente, observando-se diretrizes e
modelos internacionais.
De acordo com Júnior e Martins (2010), durante o século XIX, foi criado de
forma pioneira na América Latina, o Imperial Instituto de Meninos Cegos, conhecido
atualmente como Instituto Benjamin Constant, por meio do Decreto Imperial nº 1.428,
de 12 de Setembro de 1854.
Durante a primeira metade do século XX, as ações educativas, caritativas
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
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210
e assistencialistas, caracterizavam as ações existentes para o atendimento das
pessoas com deficiência.
Todavia, segundo os mesmos autores (2010, p. 29), no Brasil, a partir da década
de 1970:
Observa-se um novo modelo de organização das pessoas com deficiência visual
– o modelo associativista. As primeiras associações de cegos surgiram no Rio
de Janeiro, resultado de interesses eminentemente econômicos. Os associados
eram, em geral, vendedores ambulantes, artesãos especializados na fabricação
de vassouras, empalhamento de cadeiras, recondicionamento de escovões de
enceradeiras e correlatos.
As novas associações distinguiam-se das ações do governo, caridade e
filantropia da sociedade civil, pois surgiam do desejo dos próprios sujeitos cegos,
que almejavam melhoria de condições e posição na sociedade.
A Fundação Dorina Nowill para Cegos, que atualmente é uma referência tanto
na produção de livros nos formatos braille, áudio e digital, como no atendimento às
pessoas com deficiência visual, é um exemplo de associação fundada nesse modelo.
O modelo associativista dos cegos nasceu em um momento de transição de duas
visões de mundo: do modelo médico ao modelo social com base nos Direitos
Humanos. Nessa época de transição, houve aumento na impressão de livros em
Braille, com a instalação da imprensa Braille na Fundação para o Livro do Cego
no Brasil, criada em 1946 – atualmente denominada Fundação Dorina Nowill para
Cegos –, para possibilitar a educação dos cegos e ampliar o acesso à leitura. A
Fundação foi criada por iniciativa de algumas normalistas do colégio Caetano de
Campos, em São Paulo. Entre as normalistas estavam Neith Moura e Dorina Nowill
que, durante o curso normal, criaram um grupo experimental de educação de
cegos que desenvolvia metodologias de ensino e transcrevia manualmente livros
para o Braille. O trabalho de transcrição para o Braille transformou-se, após algum
tempo, na Fundação para o Livro do Cego no Brasil (JÚNIOR; MARTINS, 2010, p.
29).
A efetiva garantia de direitos e a possibilidade de se criar dispositivos que
permitam a promoção da acessibilidade desses sujeitos veio com a Constituição
Cidadã, de 1988.
Entretanto, a Damian, Galvão Filho e Rezende (2007, p. 12), apontam que
O processo de construção dos direitos humanos das pessoas com deficiência, no
entanto, assim como o de outros grupos discriminados da população, não começa
com a legalidade de textos, mas com a legitimidade de ações de pessoas e grupos
organizados que, por meio da pressão social, reivindicam direitos humanos e
impulsionam a mudança, adequação e implementação da legislação.
Segundo Drezza (2007), a Constituição de 1934 já garantia os direitos à
saúde, educação e trabalhos dos sujeitos com deficiência, enquanto que, a Emenda
Constitucional nº 12, de 1978, possibilitou o reconhecimento constitucional desses
direitos.
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211
A consolidação das normas de proteção e a definição e distinção de deficiência,
deficiência permanente e incapacidade, bem como, a definição explícita dos tipos de
deficiência veio com o Decreto n. 3.298, de 20 de Dezembro de 1999.
O Decreto n. 5.296, em seu Art. 5º, § 1º, classifica a deficiência visual como:
Cegueira, na qual a acuidade visual é igual ou menor que 0,05 no melhor olho, com
a melhor correção óptica; a baixa visão, que significa acuidade visual entre 0,3 e
0,05 no melhor olho, com a melhor correção óptica; os casos nos quais a somatória
da medida do campo visual em ambos os olhos for igual ou menor que 60o; ou a
ocorrência simultânea de quaisquer das condições anteriores (BRASIL, 2004).
De acordo com Morcelli e Seabra (2014, p. 204), a deficiência visual pode ser
compreendida como “a perda ou redução da capacidade visual em ambos os olhos,
com caráter definitivo, não sendo susceptível de ser melhorada ou corrigida com
o uso de lentes e/ou tratamento clínico ou cirúrgico”. Sendo que, distingue-se a
cegueira da visão subnormal ou baixa visão.
Chama-se visão subnormal (ou baixa visão, como preferem alguns especialistas)
à alteração da capacidade funcional decorrente de fatores como rebaixamento
significativo da acuidade visual, redução importante do campo visual e da
sensibilidade aos contrastes e limitação de outras capacidades (GIL, 2000, p. 6).
A cegueira e a baixa visão não são os únicos distúrbios da visão, que podem
dificultar o acesso às TICs. Segundo Rocha, Alves e Duarte (2011) deve-se considerar
o daltonismo como um dos distúrbios da percepção visual, pois ele caracteriza-se
pela incapacidade de distinção de cores. Campêlo et al (2011), corroboram com
essa ideia.
Sendo assim, deve-se compreender que o espectro deficiência visual abriga
distintos distúrbios da visão. A cegueira é o mais grave desses distúrbios, pois isso
compromete o desempenho do sujeito de forma mais severa.
A compreensão dos sujeitos cegos deve se iniciar pelo entendimento de sua
deficiência básica: uma limitação perceptiva. As pessoas cegas são portadoras
de uma deficiência sensorial – a – ausência de visão -, que as limita em suas
possibilidades de apreensão do mundo externo, interferindo em seu desenvolvimento
e ajustamento às situações comuns da vida (AMIRALIAN, 1997, p. 21).
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, por meio da Pesquisa
Nacional de Saúde – PNS, realizada em 2013, divulgou que 6,2% da população
brasileira possui algum tipo de deficiência (auditiva, visual, física e intelectual),
sendo que, a deficiência visual a mais representativa, atinge 3,6% dos brasileiros.
Na avaliação por tipo, o Censo mostrou que a deficiência visual atingia 35.774.392
de pessoas (IBGE, 2010).
A PNS considerou como deficiência visual “os casos de cegueira de ambos os
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Capítulo 20
212
olhos, cegueira de um olho e visão reduzida do outro, cegueira de um olho e visão
normal do outro e baixa visão de ambos os olhos” (IBGE, 2015).
De acordo com Rocha, Alves e Duarte (2011), o Decreto 5.296/2004, é a
primeira iniciativa legal brasileira que visa à promoção da acessibilidade web. Por
meio do referido decreto, foi concedido um prazo de doze meses, prorrogável por
igual período, a partir da sua data de publicação, em 2 de dezembro de 2004, para
que os websites governamentais estabelecessem a acessibilidade.
A iniciativa brasileira surgiu em conformidade com as diretrizes internacionais
do World Wide Web Consortium - W3C/WAI - Web Accessibility Initiative (MORCELLI
e SEABRA, 2014; ROCHA, ALVES e DUTRA, 2011).
O World Wide Web Consortium - W3 é um consórcio de empresas, fundado
em 1994 por Tim Berners Lee, que tem como finalidade regulamentar os assuntos
ligados à Web e elaborar normas padrão para a construção de seus conteúdos. Já o
Web Accessibility Initiative (WAI), é um grupo de trabalho criado pelo W3C em 1999,
com a misão de criar estratégias, diretrizes, orientações e recursos que auxiliem na
construção e implementação da acessibilidade web (ROCHA, ALVES e DUARTE,
2011).
O Modelo de Acessibilidade do Governo Eletrônico (e-MAG) foi lançado
em 2005, objetivando “atender e proporcionar acessibilidade dos sites e portais
governamentais” (MORCELLI e SEABRA, 2014), já que, embora o Decreto
5.296/2004, “determine a acessibilidade em websites governamentais brasileiros”
(ROCHA, ALVES e DUARTE, 2011, p. 81), mas não apresenta as orientações para
sua implantação.
Em 2010 o Governo Eletrônico (e-GOV) lançou a cartilha Padrões Brasil e-Gov:
Cartilha de Usabilidade, que fornece recomendações de boas práticas na área
digital, com o objetivo de aprimorar a comunicação, o fornecimento de informações e
serviços prestados por meios eletrônicos pelos órgãos do Governo Federal (BRASIL,
2010).
Cabe então diferenciar os termos acessibilidade e usabilidade, que embora
estejam relacionados, são distintos.
De acordo com a Associação Brasileira de Normas Técnicas – ABNT (2004),
acessibilidade é a “possibilidade e condição de alcance, percepção e entendimento
para a utilização com segurança e autonomia de edificações, espaço, mobiliário,
equipamento urbano e elementos”. Sendo assim, compreende-se como “acessível
tudo aquilo que pode ser usado por qualquer pessoa, independentemente de sua
condição física” (ROCHA, ALVES e DUARTE, 2011, p. 79).
A Lei nº 13.146, de 6 de Julho de 2015, que institui a Lei Brasileira de Inclusão
da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência), sancionada pela
presidenta da República, Dilma Roussef, amplia o conceito de acessibilidade. De
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 20
213
acordo com a referida lei:
Acessibilidade: possibilidade e condição de alcance para utilização, com segurança
e autonomia, de espaços, mobiliários, equipamentos urbanos, edificações,
transportes, informação e comunicação, inclusive seus sistemas e tecnologias,
bem como de outros serviços e instalações abertos ao público, de uso público
ou privados de uso coletivo, tanto na zona urbana como na rural, por pessoa com
deficiência ou com mobilidade reduzida (BRASIL, 2015).
A ABNT por meio da NBR 15599/2008, define usabilidade como:
Medida da experiência e satisfação de um usuário ao interagir com um produto ou
um sistema, seja um site, um software ou todo dispositivo operado por um usuário.
A usabilidade é uma combinação dos fatores que afetam a experiência do usuário
com o produto ou o sistema, quais sejam: facilidade de aprendizagem, eficiência
do uso, memorização, frequência de erros e severidade, satisfação subjetiva
(ABNT, 2008).
Dessa forma, enquanto a acessibilidade diz respeito a tornar disponíveis,
locais, produtos, serviços e informações ao maior número de pessoas, independente
de suas capacidades físico-motoras, perceptivas e culturais, a usabilidade refere-se
à avaliação da qualidade da interação entre os usuários e as interfaces (BRASIL,
2010).
Embora o processo de acessibilidade dos sujeitos com deficiência visual tenha
ocorrido de forma mais expressiva a partir do sistema braile, diversos foram os
avanços no sentido de romper as barreiras impostas pela sociedade.
A evolução dos diversos elementos tecnológicos do cotidiano da pessoa com
deficiência visual teve como ponto de partida a bengala, e hoje, com os avanços
proporcionados pela informática, abrange tecnologias muito conhecidas como a
escrita Braille, o ábaco, a impressora Braille, leitores de tela, computadores de
mão, mouses para cegos, teclados especiais etc (DAMIAN, GALVÃO FILHO E
REZENDE, 2007, p. 51).
Uma das ferramentas de acessibilidade é a e-acessibilidade ou acessibilidade
web.
Seu propósito é possibilitar acesso democrático a ferramentas, websites, aplicativos
e serviços baseados na grande rede mundial de computadores. Objetiva a
percepção, compreensão, navegação e interação de pessoas com deficiência
(permanentes ou temporárias) com o conteúdo oferecido pelos websites. Tem a
missão de remover barreiras que dificultam ou impossibilitam a compreensão e o
acesso à informação em ambientes Web (ROCHA, ALVES e DUARTE, 2011, p. 80).
Considerando que o acesso à informação é um direito garantido por lei e que os
critérios de acessibilidade e de usabilidade determinam que qualquer pessoa deva
ter acesso às ferramentas que tornam as informações acessíveis, deve-se ponderar
sobre as tecnologias que cumprem tal função.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 20
214
4.2 Tecnologias Assistivas
Em seu art. 63, a Lei nº 13.146, de 6 de Julho de 2015, que institui a Lei Brasileira
de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência),
sancionada pela presidenta da República, Dilma Roussef, determina que:
É obrigatória a acessibilidade nos sítios da internet mantidos por empresas com sede
ou representação comercial no País ou por órgãos de governo, para uso da pessoa
com deficiência, garantindo-lhe acesso às informações disponíveis, conforme as
melhores práticas e diretrizes de acessibilidade adotadas internacionalmente
(BRASIL, 2015).
Entretanto, para que uma pessoa com deficiência visual possa utilizar bem
a internet, será necessário fazer uso de ferramentas que proporcionem maior
acessibilidade e usabilidade ao meio tecnológico e à informação, a fim de possibilitar
uma maior independência dessas pessoas. A essas ferramentas, atribui-se o nome
de tecnologias assistivas.
Nesse sentido, tecnologias assistivas são ferramentas de apoio que possibilitarão
que uma pessoa com deficiência possa realizar uma tarefa específica, como acessar
a internet. Esses recursos podem ser dispositivos físicos, softwares etc.
Cabe destacar que, por tecnologias, considera-se a perspectiva adotada por
Lévy (1993), que as percebe como tecnologias intelectuais que ampliam e modificam
as funções cognitivas dos sujeitos, na medida em que favorecem a criação e a
invenção de problemas.
As tecnologias assistivas mais utilizadas (ROCHA, ALVES e DUARTE, 2011;
MORCELLI e SEABRA, 2014), são: a impressora Braille, ferramenta capaz de
imprimir os textos exibidos no computador em Braille; o thermoform, dispositivo
similar a uma copiadora que produz mapas, formas e figuras em alto-relevo; os
monitores especiais, que por serem maiores que os convencionais, ampliam o
conteúdo exibido e, os famosos leitores de tela, que são softwares que acessam os
conteúdos exibidos na tela do computador e por meio de sintetizadores de voz, os
transforma em áudio.
De acordo com Rocha, Alves e Duarte (2011), os leitores de tela mais utilizados
no Brasil, por pessoas com deficiência visual são Jaws for Windows2, Virtual Vision3,
NVDA4 e Orca5. Já Morcelli e Seabra (2014), citam o Dosvox6, o Virtual Vision e o
Jaws.
Os softwares possibilitaram que os sujeitos com deficiência visual tivessem
2
asp>
3
4
5
6
Consulte maiores informações em: <http://www.freedomscientific.com/products/fs/jaws-product-page.
Consulte maiores informações em: <http://www.virtualvision.com.br/index.html>
Consulte maiores informações em: <http://www.nvda-project.org/>
Consulte maiores informações em: <http://live.gnome.org/Orca>
Consulte maiores informações em: <www.intervox.nce.ufrj.br/dosvox/intro.htm>
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 20
215
mais autonomia e independência, pois com o auxílio desses, esses sujeitos podem
realizar tarefas sem depender de outras pessoas, como usar bem o computador e
acessar à internet. Entretanto, a pesquisa realizada por Morcelli e Seabra (2014),
evidenciou um limitador, uma vez que todos os participantes da pesquisa declararam
que o Jaws é o melhor software disponível no mercado, mas que nem todos o utilizam,
devido a seu alto custo (por volta de R$ 600,00 a licença de uso), preferindo Dosvox
e o Virtual Vision por serem gratuitos, porém sem contar com o mesmo desempenho.
5 | CONSIDERAÇÕES FINAIS
O respeito aos direitos humanos não pode se limitar aos direitos civis e políticos.
A simples existência de leis que visam a garantia de direitos, como por exemplo, as
leis de acessibilidade, não garantem que os direitos humanos sejam atendidos em
todas as suas dimensões e demandas.
A Constituição Federal em seu artigo 5º dispõe que “todos são iguais
perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e
aos estrangeiros residentes no país a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade,
à igualdade”, entre outros. Sendo assim, em teoria, o deficiente visual possui os
mesmos direitos que os demais cidadãos. Entretanto, segundo Damian, Galvão Filho
e Rezende (2007, p.12), deve-se considerar que a discriminação enfrentada por eles
“é resultado de um longo processo histórico, de exclusão”, que criou vulnerabilidades
sociais.
Nesse sentido, as tecnologias assistivas colaboram para a inclusão digital de
pessoas com deficiência visual, o que possibilita a inclusão social dessas pessoas.
Entretanto, as fragilidades percebidas devem ser consideradas para que não se faça
uma inclusão perversa, que tende a gerar o inverso da ideia inicial, que é o de incluir
em sua plenitude. Dessa forma, caso não seja garantido o acesso às tecnologias,
os sujeitos que não podem pagar pela tecnologia com o melhor desempenho, que
supre as suas reais necessidades, estarão dentro, mas não incluídos. Permanecerão
à margem por terem sido incluídos de qualquer maneira, por fazerem parte de um
processo que inclui para excluir.
Deve-se considerar ainda que, “no caso das pessoas com deficiência, a
acessibilidade ou o direito à reabilitação, por exemplo, podem permitir ou viabilizar o
exercício de outros direitos: o acesso ao trabalho, à educação, ao lazer” (DAMIAN,
GALVÃO FILHO e REZENDE, 2007, p. 11).
Sendo assim, considerando-se a expressividade da deficiência visual no
Brasil, que atinge 3,6% dos brasileiros, a garantia de acesso das pessoas com
essa deficiência às tecnologias, dentro dos critérios de acessibilidade e usabilidade,
permitirá um processo de inclusão social mais efetivo e coeso. Portanto, avalia-se
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 20
216
a inclusão digital um forte constituinte e garantidor da inclusão ou exclusão social.
Entretanto, para que se possa compreender a efetividade do processo de
inclusão digital no processo de inclusão social das pessoas com deficiência visual,
há a necessidade de produzir novas pesquisas qualitativas e quantitativas, nas quais
se considere a perspectiva desses sujeitos e a sua representatividade nos dados
estatísticos.
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da acessibilidade das pessoas portadoras de deficiência ou com mobilidade reduzida, e dá outras
providências. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2004/decreto/
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A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 20
219
CAPÍTULO 21
doi
O PROFISSIONAL DA EDUCAÇÃO BÁSICA COMO
SUJEITO CAPAZ DE INTERVIR NAS INJUSTIÇAS E
PRECARIZAÇÕES DAS INFÂNCIAS, ADOLESCÊNCIAS E
JUVENTUDES EMPOBRECIDAS
Data de aceite: 06/01/2020
Data de Submissão: 14/10/2019
Gabriela Fernanda do Carmo
Universidade Federal do Tocantins –
Miracema do Tocantins – TO http://lattes.cnpq.
br/4399095123049363
Janaína Augusta Neves de Souza
Orientadora: Profª. Ms. Universidade Federal do
Tocantins – Miracema do Tocantins – TO
http://lattes.cnpq.br/3471504418421372
RESUMO: Este artigo aborda o tema
“Educação, Pobreza e Desigualdades Sociais”,
tendo como objetivo de ilustrar o profissional da
Educação Básica como sujeito capaz de intervir
nas injustiças e precarizações das infâncias,
adolescências e juventudes empobrecidas.
O professor é o mediador do processo de
ensino aprendizado ocorrido em sala de aula,
por isso deve mostrar a importância que o
processo da educação tem na vida de seus
alunos, sendo este o caminho para diminuir
a pobreza e acabar com as desigualdades. A
metodologia utilizada para a produção deste
artigo foi pesquisa teórica, pesquisa de campo,
com visita a escola e entrevista, e por meio dela
pode-se conhecer as dificuldades encontradas
pelos professores em sala de aula, sendo
que a falta de interesse dos alunos foi a mais
enfatizada na pesquisa, por isso, foca-se nela.
Permitiu, também, conhecer as metodologias
utilizadas pelos professores e as possíveis
causas da falta de interesse dos alunos pela
educação escolar. Por meio da leitura de alguns
autores, pode-se conhecer novas metodologias
para auxiliar estes professores a envolverem os
alunos no processo de ensino aprendizagem,
levando-os a refletirem sobre o seu papel de
cidadão consciente. Pode-se perceber que
os alunos precisam ter o discernimento que a
diminuição da pobreza e das desigualdades só
será possível por meio da educação, e este é o
papel do professor em sala de aula, intermediar
o conhecimento e as informações, para que
este aluno tenha a possibilidade de sair da linha
da pobreza e da desigualdade.
PALAVRAS-CHAVE: Educação; Professor;
Pobreza; Desigualdade.
THE BASIC EDUCATION PROFESSIONAL
AS A SUBJECT ABLE TO INTERVENE IN
THE INJUSTICES AND PRECARIZATIONS
OF IMPOVERISHED CHILDHOOD,
ADOLESCENCES AND YOUTH
ABSTRACT: This article deals with the theme
“Education, Poverty and Social Inequalities”,
aiming to illustrate the Basic Education
professional as a subject capable of intervening
in the injustices and precariousness of
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 21
220
impoverished childhood, adolescence and youth. The teacher is the mediator of the
teaching-learning process that takes place in the classroom, so he should show the
importance that the education process in the students’ lives, which is a way to reduce
poverty and end inequalities. The methodology used for the production of this article
was theoretical research, field research, visits to the school and interview, and through
this methodology one can get to know the difficulties encountered by the teachers in the
classroom, and the lack of interest from students was one of the most emphasized topic
in the research therefore we focuses on it. It also allowed knowing the methodologies
used by the teachers and the possible causes of the students' lack of interest in school
education. By reading some authors, we can learn about new methodologies to help
these teachers to involve students in the teaching-learning process, leading them to
reflect on their role as conscious citizens. It can be seen that students need to have
the insight that the reduction of poverty and inequality will only be possible through
education, and this is the role of the teacher in the classroom, mediate knowledge and
information, so that the students have the possibility to get out of the line of poverty and
inequality.
KEYWORDS: Education; Teacher; Poverty; Inequality.
1 | INTRODUÇÃO
O presente artigo aborda o tema “Educação, Pobreza e Desigualdades Sociais”,
com a temática “O profissional da Educação Básica como sujeito capaz de intervir nas
injustiças e precarizações das infâncias, adolescências e juventudes empobrecidas”,
partindo de estudos e pesquisas focados nos alunos que são beneficiados com o
Programa Bolsa Família.
Compreende-se que o profissional da Educação Básica, aquele que se dedica
a tarefa de ensinar com dedicação e habilidade, por meio da análise do contexto
concebendo o melhor plano para alcançá-lo, utilizando os recursos e ferramentas
para envolver os alunos, deve considerar a relação da educação com a pobreza,
uma vez que ele é corresponsável pelo ensino aprendizagem de seus alunos. Ou
seja, o professor deixou de ser um mero transmissor do conhecimento, passando
a ser um orientador, um estimulador de todos os processos que levam os alunos a
construírem seus conceitos, valores, atitudes e habilidade que lhes permitam crescer
como pessoas, como cidadãos. Por isso, faz-se necessário que o professor busque
alternativas para erradicar as injustiças impostas aos alunos de famílias pobres,
para que os mesmos tenham as mesmas oportunidades de aprendizagem.
Segundo Duarte (2013, p. 69), de forma mais ou menos consciente, com
mecanismos mais ou menos objetivos, a relação da educação com a pobreza precisa
ser visibilizada. Desta forma, o artigo debate sobre o profissional da educação como
sujeito de intervenção a pobreza por meio do seguinte questionamento: “Como
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 21
221
o professor da Educação Básica contribui para o interesse escolar dos alunos
beneficiados Pelo programa Bolsa Família?”. Por meio deste questionamento,
o objetivo geral é: Ilustrar sobre o profissional da Educação Básica como sujeito
capaz de intervir nas injustiças e precarizações das infâncias, adolescências e
juventudes empobrecidas, seguido pelos objetivos específicos: 1) Conhecer os
métodos utilizados pelos professores para aumentar o interesse dos alunos pela
aprendizagem; 2) Identificar possíveis motivos que levem os alunos a não se
interessarem pelo processo de ensino aprendizagem; e 3) Apontar métodos que
ajudem os professores a levarem seus alunos a se interessarem pelo processo de
aprendizagem, partindo da relação que há entre educação e pobreza.
Assim, o artigo pretende contribuir na formação acadêmica dos discentes, por
meio de pesquisas e metodologias, trazendo conhecimento em relação à educação,
pobreza e desigualdade, no sentido de esclarecer a existência destes no âmbito
educacional. Contribuirá com a sociedade no sentido de demonstrar os índices
relacionados à pesquisa em relação à diminuição da pobreza através do Programa
Bolsa Família. Quanto ao profissional, pretende contribuir para a produção de novas
ideias e conhecimentos para a área pedagógica, assim, de certa forma, informar e
coletar dados demonstrando a situação detectada na pesquisa.
2 | REVISÃO TEÓRICA
2.1 Educação
Do ponto de vista semântico, a palavra educação tem sua origem nos verbos
latinos educare (alimentar, amamentar, criar), significando algo que se dá a alguém,
e educere que expressa à ideia de conduzir para fora, fazer sair, tirar de (GARCIA,
2012).
Educação engloba os processos de ensinar e aprender, é o processo contínuo
de desenvolvimento das faculdades físicas, intelectuais e morais do ser humano, a
fim de melhor se integrar na sociedade ou no seu próprio grupo.
Segundo Nunes (1998, p.36) educação significa a atividade desempenhada
pelos adultos para assegurar a vida e o desenvolvimento da geração mais nova,
das crianças, dos adolescentes e jovens, para despertar e fazer crescer as suas
habilidades e poderes físicos e espirituais.
A educação, em sentido mais amplo, representa tudo àquilo que pode ser feito
para desenvolver o ser humano e, no sentido restrito, representa a instrução e o
desenvolvimento de competências e habilidades.
Para Freire (1996, p.51), educar é construir, é libertar o homem do determinismo,
passando a reconhecer o papel da História e a questão da identidade cultural, tanto
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 21
222
em sua dimensão individual, como na prática pedagógica proposta. A concepção de
educação de Paulo Freire percebe o homem como ser autônomo.
A educação, fundamentada na Constituição Federal, e amparada por princípios
que buscam uma sociedade mais justa, é direito de todos, dever do Estado e da
família, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício
da cidadania e sua qualificação para o trabalho (artigo 205 da Constituição Federal).
O artigo 205 da Constituição Federal (BRASIL, 2007) dispõe que:
A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e
incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento
da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o
trabalho.
O artigo 205 da Constituição Federal estabelece três objetivos básicos da
educação: pleno desenvolvimento da pessoa, preparo da pessoa para o exercício
da cidadania e qualificação da pessoa para o trabalho.
Assim, a educação de qualidade deve ser percebida não apenas como o acesso
ao conhecimento, mas, sobretudo, como instrumento fundamental na transformação
e no desenvolvimento do homem, permitindo-lhe uma formação cidadã e humana.
É por meio da educação que o ser humano irá lutar contra a pobreza e a
desigualdade social que existe em nosso país.
2.2 Pobreza e Desigualdade
Primordialmente é necessário destacar alguns pontos fundamentais para
o entendimento do que vêm a ser os temas Pobreza e Desigualdade, fazendo,
assim, as suas distinções e suas analogias, no meio social e apontar os problemas
e soluções que podem ser feitas para diminuição ou, quem sabe, a extinção dos
supramencionados conteúdos.
Segundo Demo (2003, p.197) a pobreza é uma situação social e econômica
caracterizada por uma carência material e insatisfação das necessidades básicas
para se viver, em outras palavras é a falta de riqueza de bens e serviços úteis para
a vida. Sendo assim, caracterizada como o problema mais agudo da economia do
país. Já a desigualdade está figurada como a falta de equilíbrio no padrão de vida
de seus habitantes. Em outro conceito ela existe na sociedade quando as formas de
viver se tornam diferentes entre as pessoas, gerando assim, o termo desigualdade
social, além disso, ela é um problema de estrutura do país.
Desse modo, se percebe que existe uma ligação entre os temas, pois onde
há pobreza provavelmente há desigualdade e onde existe a desigualdade poderá
ter pobreza, assim, o autor busca fazer alguns destaques no que diz respeito a
responsabilidade pública no intuito de conseguir um melhor entendimento acerca da
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 21
223
erradicação desse problema.
De acordo com Demo (2003, p.202) há um grande questionamento: será possível
erradicar a pobreza ou a desigualdade? Conforme se observa, por completo é algo
que fica fora da realidade de qualquer país, acabar de vez com esses dois problemas
é de fato quase que impossível, pois no regime capitalista, onde a acumulação de
riqueza é algo incentivado, fica meio que inviável que o governo consiga resolver
essa adversidade.
Por outro lado acredita-se que seja possível controlar ou reduzir o índice da
pobreza e desigualdade de uma localidade, mesmo sendo algo complicado de ser
feito, mas com políticas públicas voltadas para a redistribuição de renda, pode-se
dar o primeiro passo, pois o sistema de crescimento econômico deve ser estudado
para não ferir ou deixar de lado essas classes que mais necessitam de ajuda.
No Brasil existem esses dois problemas: a pobreza e a desigualdade. Os
idealistas defendem uma corrente visando que o primeiro deve-se erradicar e o
segundo combater. Demo (2003), por sua vez, traz uma reflexão que diz respeito à
riqueza que aqui é vasta e porquê de existir pobreza na sociedade brasileira:
[...] O argumento maior era que o Brasil não é carente de recursos: não é país pobre,
mas injusto com muitos pobres. Se pobreza é carência de renda e o país não é
carente de renda, logo, em raciocínio econométrico linear, pobreza é excrescência.
(...) (DEMO 2003, p.201).
Essa saliência que se destaca no texto é entendida da seguinte forma: o
governo é rico e deixa a pobreza e a desigualdade possuir um índice alto por falta de
responsabilidade, dessa forma, cria-se programas de natureza compensatória como
o famoso “Bolsa Família”, visando à distribuição de renda.
Nesse entender, não se tem certeza que a pobreza pode ser provocada pelos
entes públicos ou pela falta deles, mas se todos os habitantes do planeta tivessem
o mesmo padrão de vida (alto), as consequências para a sustentabilidade seriam
prejudicadas, e provavelmente a vida na terra poderia ter sérios problemas, pois o
alto consumismo levaria a escassez dos recursos.
Portanto, a redução da pobreza é um caminho mais viável e possível de se
existir, pois depende diretamente do crescimento econômico e da diminuição do
grau de desigualdade. No Brasil, o índice da população pobre está na casa dos 30%,
segundo dados da Pnad, 1999, mas em uma comparação social entre países com o
mesmo ou quase a mesma riqueza que o nosso país possui, o percentual teria que
cair para apenas 8% de pessoas ou famílias com renda mínima inferior a linha da
miséria, se tornando um absurdo para uma nação como a nossa.
Voltando a distribuição de renda como fator de redução da pobreza e combate
à desigualdade, muitos autores partilhavam de ideais fabulosas e fantasiosas onde
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 21
224
o Estado conseguiria identificar todos os indivíduos da população pobre e transferir
a renda de maneira precisa entre as famílias para retirá-los da linha da pobreza,
algo que posteriormente foi deixado de lado tempos depois, em razão da grande
dificuldade que os entes públicos teriam para fazer um levantamento desse nível.
Segundo Demo (2003, p. 224) a erradicação e diminuição da pobreza e do
índice de desigualdades ainda é algo que fica apenas em teorias futuras. Por meio
de seus estudos, percebe-se que é meio complexo mostrar ganhos visíveis no
plano do combate à desigualdade, embora ele consiga apresentar que a pobreza
(material) pode sofrer algumas melhorias nos parâmetros, em razão do incentivo da
redistribuição de renda.
Um fator muito questionado é que não é só a desigualdade social a principal
causadora da pobreza material, mas a corrupção e os gastos exagerados que
acontecem nos Estados. De acordo com a Pnad - 1999, os 30% da população que
são considerados pessoas pobres ou que vivem abaixo da linha da pobreza poderiam
ser combatidos se o Brasil tivesse menos políticos corruptos.
Dessa forma, acredita-se que a diminuição da pobreza em nosso país e no
restante do mundo é possível, mas sua erradicação é tratada como fato impossível
de acontecer em razão da falta de interesse que alguns sistemas possuem em tratar
esse tema.
Enfim, a pobreza é algo que existiu, existe e existirá podendo essa ser reduzida
com métodos de inovação na redistribuição de renda, mas não poderá ser extinta.
Já a desigualdade poderá ser combatida através da inclusão de todo, em novas
oportunidades e modificação da cultura, principalmente, na diminuição do preconceito
com as classes mais pobres.
Assim, acredita-se que para diminuir a pobreza e as desigualdades faz-se
necessário a intervenção da justiça, uma vez que esta é o princípio básico que
mantém a ordem social através da preservação dos direitos e sua forma legal.
2.3 Justiça
Justiça é a virtude de dar a cada um aquilo que é seu, é a faculdade de julgar
segundo o direito e melhor consciência, entretanto não é possível definir com precisão
o seu real significado.
Justiça muitas vezes é confundida com igualdade, o que é um grande engano.
Apesar de seguirem uma mesma linha de ideias não podem ser confundidas, já que
a expressão igualdade, não propaga uma ideia de justiça.
Acredita-se, que desde a antiguidade, existia um sistema regulador, que nem
sempre foi escrito ou enunciado expressamente, mas sempre existiu, em todos os
tempos e entre todos os povos.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 21
225
Segundo a revista Mundo Educação (2008, p.80), o conceito de justiça social
está fundamentado em certos preceitos morais e políticos que cuidam de questões
como igualdade de direitos, garantia de direitos básicos e, ainda, solidariedade
coletiva. De várias maneiras, a noção de justiça social deriva da luta pela melhoria
das condições sociais daqueles que vivem em situação precária. As maneiras como
esse objetivo pode ser alcançado variam de acordo com os meios propostos, o que,
por sua vez, está relacionado com o contexto ideológico daqueles que adotam a
visão.
De forma geral, a ideia de justiça social vai de encontro com a ideia de justiça
civil. Enquanto a imagem da justiça civil é concebida como “cega” em relação às
diferenças dos indivíduos, pois busca a imparcialidade em seu julgamento, a justiça
social está disposta a observar o contexto e a situação dos envolvidos de forma que
seja possível atribuir à resolução mais apropriada para cada caso. Isso quer dizer
que as ações de justiça social são de caráter corretivo ao atribuir medidas protetivas
para certas camadas sociais que possuem dificuldades econômicas ou que sofrem
com estigmas sociais relacionados com a cor ou etnia, por exemplo.
As cotas raciais são o exemplo mais explícito e mais polêmico que temos de
ações que buscam justiça social em nosso país. A medida parte da constatação de
que a grande maioria da população, menos favorecida economicamente, é composta
por negros e pardos, enquanto as escalas mais altas da hierarquia social e econômica
são compostas majoritariamente por pessoas brancas. O exemplo mais visível está
no acesso da população negra ao ensino público superior. Segundo o IBGE, em
2001, da população inserida no sistema de ensino brasileiro, apenas 10,2% dos
estudantes de nível superior eram negros, enquanto 39,6% eram brancos. Após a
implementação de ações de mediação, como o estabelecimento das cotas raciais
para o vestibular, em 2011, verificou-se o aumento de estudantes negros no ensino
superior para 35,8%.
O que vemos com essa medida é o início da democratização do acesso ao
ensino público, em que a disputa por vagas torna-se injusta no momento em que
aqueles que dispõem de melhor condição econômica dispõem também de mais
oportunidades de preparo para a disputa das vagas. Essa disparidade também é
vista quando observamos a distribuição de renda em relação à cor de pele. Verificase que, segundo o Censo nacional de 2010, a média salarial de pessoas que se
identificam como brancas (R$ 1.538) ou amarelas (R$ 1.574) é quase o dobro do
valor verificado para os grupos de pretos (R$ 834), pardos (R$ 845) ou indígenas
(R$ 735).
As dificuldades, que se somam às desigualdades que a parte mais carente
da população sofre, somam-se também aos estigmas sociais associados à cor ou
à condição econômica. Isso vitimiza a população pobre em mais de uma forma: a
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 21
226
exclusão deixa de ser apenas econômica e passa a ser social quando o acesso
dos indivíduos mais pobres é dificultado diante das diferenças de oportunidade que
existem no contexto social.
Com isso, relaciona-se o conceito de justiça ao conceito de cidadania, uma vez
que cidadania é a condição de cidadão, com seus direitos e obrigações. Restringese, neste artigo, o direito à educação, a qual é fundamental para a formação e
desenvolvimento da capacidade física, moral e intelectual do ser humano visando à
integração social, papel este desenvolvido pelo professor.
2.4 Professor
Segundo Guimarães (2011, p.26) o professor é um profissional cujo espaço
principal de trabalho é o ensino. É um profissional que ensina, ou cuja função é
ensinar.
Para Freire (2013, p.24), ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as
possibilidades para a sua produção ou construção pessoal. Ser professor é fazer
trocas de conhecimentos, ao mesmo tempo em que se ensina se aprende alguma
coisa também. Ser profissional da educação é ter a capacidade de educar e estudar
ao mesmo tempo. Ser educador é uma tarefa árdua, profissão essa que na maioria
das vezes não é reconhecida pela sociedade, ou o meio em que vivemos.
A função do educador é ensinar por meio de pesquisas, formando um cidadão
crítico, para que ele possa ter uma visão crítica sobre a sociedade. Formar no
sentido de buscar, adquirir conhecimento. Ensinar exige respeito aos saberes do
educador e do educando em questão, exige também risco, o que quer dizer que o
educador não pode somente estar voltado a seguir um cronograma, deve arriscar-se
em trazer sempre algo novo, algo que chame a atenção e que desperte o interesse
dos educandos.
Todavia, um bom educador não deve somente estar voltado para as teorias
postas no decorrer de sua formação acadêmica, um bom profissional tem que saber
lidar com as teorias e principalmente com a prática, pois nenhuma segue caminho
sem a outra, para se ter prática é necessário ter teorias.
Ser professor é ter a competência de exercer seu papel da melhor maneira
possível, ter a consciência que ensinar não é somente chegar a sala de aula e
passar exercícios, avaliações, trabalhos, e sim, saber lidar com as dificuldades de
cada aluno, tentar sempre melhorar o desempenho buscando novas propostas de
ensino para aprimorar seu conhecimento.
Libâneo (1998, p.29) afirma que o professor medeia à relação ativa do aluno com
a matéria, inclusive com os conteúdos próprios de sua disciplina, mas considerando
o conhecimento, a experiência e o significado que o aluno traz à sala de aula, seu
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 21
227
potencial cognitivo, sua capacidade e interesse, seu procedimento de pensar, seu
modo de trabalhar. Nesse sentido o conhecimento de mundo ou o conhecimento
prévio do aluno tem de ser respeitado e ampliado.
Ensinar bem não significa repassar os conteúdos, mas levar o aluno a pensar,
criticar. Percebe-se que o professor tem a responsabilidade de preparar o aluno para
se tornar um cidadão ativo dentro da sociedade, apto a questionar, debater e romper
paradigmas. Cury (2003, p.127) afirma que “a exposição interrogada gera a dúvida,
a dúvida gera o estresse positivo, e este estresse abre as janelas da inteligência.
Assim formamos pensadores, e não repetidores de informações”
Assim, o papel do professor é de ser um mediador do conhecimento no processo
de ensino aprendizagem, não um mero transmissor de informação, para que os
alunos se apropriem das ferramentas necessárias à transformação da realidade
social.
3 | RESULTADOS
A partir das exigências da disciplina de Seminário de Pesquisa I, em se
construir um artigo, foi necessário coletar informações e, por meio delas, alcançar
os objetivos proposto neste artigo. O primeiro passo foi escolher uma escola e fazer
o conhecimento de sua realidade segundo o tema proposto.
Na primeira visita, o objetivo foi de conhecer o Centro de Ensino Médio Dona
Filomena Moreira de Paula, que localiza-se na rua Hosana Cavalcante, Nº 176 –
Setor Santa Filomena, na cidade de Miracema do Tocantins. A escola foi criada pela
lei Nº 405, de 10 de setembro de 1982, hoje com 34 anos. No ano de 1998 foi escola
referência Nacional em gestão. Em 1999 e 2000 recebeu o Prêmio Gestão.
Atualmente a escola atende a segunda fase do Ensino Fundamental (6º ao 9º
ano), o Ensino Médio (1ª a 3ª série) e a EJA – Educação de Jovens e Adultos – no
terceiro segmento (1ª a 3ª série do Ensino Médio). Seu funcionamento ocorre nos
três turnos. Segue, abaixo, tabela da distribuição de turmas na escola.
TURNO
SÉRIE
MATUTINO
VESPERTINO
NOTURNO
6º ano – E.F.
-
1
-
7º ano – E.F
-
1
-
8º ano – E.F.
-
1
-
9º ano – E.F.
-
1
-
1ª série – E.M.R.
4
-
1
2ª série – E.M.R.
3
-
1
3ª série – E.M.R.
2
-
1
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 21
228
1ª série- E. M. EJA
-
-
1
2ª série – E.M. EJA
-
-
1
3ª série – E.M. EJA
-
-
1
Visita técnica à escola, 2016.
A escola possui uma boa infraestrutura, contendo 10 (dez) das salas de aula,
1(uma) sala para diretora, 1(uma) sala para a coordenação, 1(uma) sala para a
orientação pedagógica, 1(uma) sala para o coordenador financeiro, 1(uma) sala
para os professores, 1(uma) sala para a secretaria, 1(uma) biblioteca, 1(uma)
sala de audiovisual, 1(um) laboratório de informática, 1(uma) sala para laboratório
de ciências, mas este é incompleto, 1(uma) sala de recurso para atender alunos
especiais, 1(uma) cozinha e 1(uma) quadra coberta. O pátio é grande. Há 4 (quatro)
banheiros para os alunos, sendo 2(dois) masculinos e 2 (dois) femininos e, dois
banheiros para uso dos servidores 1 (um) masculino e 1 (um) feminino.
O quadro de servidores da escola é composto por 29 servidores do setor
administrativo e 21 professores. Segue, abaixo, tabela com informações quanto a
formação dos professores.
Sexo
Graduação
Especialização
Mestrado
Masculino
12
05
00
Feminino
09
03
01
Visita técnica à escola, 2016.
Quanto aos alunos, há um total de 584 matriculados e, destes 150 são atendidos
pelo Programa Bolsa Família. De acordo com os dados fornecidos pela secretária, 68
alunos atendidos pelo Programa Bolsa Família têm até 15 anos de idade e 82 alunos
acima dos 15 anos. Para ser mais preciso, 65 alunos são do Ensino Fundamental e
85 são do Ensino Médio. A EJA não possui nenhum aluno, pois atende alunos acima
de 18 anos.
Numa segunda visita a instituição de ensino, foi realizada uma pesquisa com 2
(dois) professores e com a diretora da escola, a fim de conhecer melhor a realidade
do processo de ensino aprendizagem dos alunos relacionando com a temática
proposta neste artigo.
As perguntas1 feitas focaram-se em saber se a escola atendia a alunos
contemplados com o Programa Bolsa Família, com o objetivo de conhecer o
1
Existem crianças/adolescentes/jovens de famílias que recebem o Programa Bolsa Família na Unidade
Escolar? Quantos? Como é o rendimento escolar deles? A escola tem estrutura física, de pessoal, de custeio, para
garantir o sucesso escolar destas crianças/adolescentes, jovens? Como os professores veem essas crianças/
adolescentes/jovens de famílias que recebem o Bolsa Família? Quais as principais dificuldades que os professores
enfrentam com esses alunos?
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 21
229
rendimento escolar destes alunos e o papel do professor em contribuir com eles, no
que diz respeito a injustiça e precarizações das infâncias, adolescências e juventudes
empobrecidas.
Por meio da entrevista, tivemos a oportunidade de saber que os professores
não têm conhecimento de quais são os alunos contemplados pelo Programa Bolsa
Família. Desse modo, percebe-se que o professor não tem como fazer acepção
destes alunos, ou seja, a educação de qualidade é garantida a todos, independente
de o aluno ser contemplado ou não por algum programa social.
O professor deve desenvolver o seu papel de mediador do conhecimento,
ou seja conduzir o seu aluno no processo de ensino aprendizagem, para que a
educação atenda os seus objetivos básicos e seja o instrumento de transformação
no desenvolvimento do homem, para que ele tenha uma formação cidadã e humana.
Percebe-se que o Centro de Ensino Médio Dona Filomena Moreira de Paula
possui uma estrutura física mediana, se compararmos a outras escolas que têm
condições bem mais precárias. Esta escola está situada em um bairro de periferia,
ou seja, as famílias ali localizadas são de classe social baixa o que já deixa explícito
que a escola apresenta um risco social relacionado a pobreza e desigualdade, o que
pode afetar o processo de ensino aprendizagem de seus alunos.
A entrevista mostrou que o rendimento escolar dos alunos não está relacionado
aos alunos que são contemplados pelo Programa Bolsa Família, mas a todos
os alunos matriculados. Assim, buscou-se conhecer as principais dificuldades
encontradas pelos professores no processo de ensino aprendizagem, e dentre elas,
temos a ausência dos pais no acompanhamento de seus filhos, a não realização das
tarefas enviadas para serem realizadas em casa e, a maior dentre elas, é a falta de
interesse.
A partir desta informação buscou-se conhecer os motivos que levam os alunos
a não se interessarem pelo processo de ensino aprendizagem e a conhecer as
metodologias utilizadas pelos professores para tornarem suas aulas mais atrativas.
Segundo um professor entrevistado, os alunos não sabem a importância que
a educação escolar tem em suas vidas, o poder de transformação que pode ser
exercido por meio dela. Outro fator seria de eles não terem perspectivas de vida,
uma vez que sua condição social não os leve a sonhar com uma vida mais digna
e promissora. Também pode ser citado a falta de motivação aos alunos por parte
dos professores, uma vez que estes são corresponsáveis pelo processo de ensino
aprendizagem. E dentre outros motivos, a falta de recursos destinados à educação,
como por exemplo, com este calor do Tocantins, faz-se necessário que as salas sejam
climatizadas, para que se tenha um ambiente propício a troca de conhecimento.
Fica claro que estes fatores influenciam os alunos a não se desenvolverem
intelectualmente, pois não buscam conhecimentos e recursos necessários, através
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 21
230
de uma formação acadêmica e profissional, para que, por meio da educação haja a
redução da pobreza e o combate à desigualdade.
Depois de conhecer que a falta de interesse é o grande “calcanhar de Aquiles”
dos alunos do Centro de Ensino Médio Dona Filomena Moreira de Paula, foi
necessário conhecer as metodologias que os professores utilizam para despertar o
interesse dos alunos, tornando, assim, suas aulas mais atrativas.
De acordo com a entrevista feita a um professor, ele relata que muitas vezes,
tornar a aula interesse é um desafio, haja vista os alunos estarem mais envolvidos
com as novas tecnologias. Destacou que para os alunos terem um bom rendimento,
faz-se necessário a interação entre professor e aluno em sala de aula, para que o
aluno tenha uma boa participação, tanto oral quanto escrita. Outra metodologia é
ter uma aula descontraída, mas que não fuja ao controle. A fala do professor não
pode ser linear, deve-se alterar em tons diferentes, para que o aluno não canse.
O professor tem a responsabilidade de preparar uma boa aula, ou seja, fazer um
planejamento, e isto inclui domínio do conteúdo, para que o aluno sinta segurança
no que o professor está ensinando. As atividades em sala devem ser diversificadas,
como por exemplo, individual, em dupla, em grupos, dentre outras.
A escola não tem como oferecer metodologias que envolvam as novas
tecnologias, como a internet, uma vez que a rede wifi da escola não comporta um
grande número de usuários. Outro fator é que nem todos os alunos têm celulares
que se conectam a internet. O laboratório da escola possui 22 computadores,
mas somente 10 estão em bom funcionamento. Assim, o professor tem de usar os
recursos tradicionais.
O professor precisa despertar o interesse dos alunos pelo processo de ensino
aprendizagem por meio de suas aulas, nos momentos de reflexão e de debates,
deixando claro que a educação é a grande arma para a erradicação e diminuição da
pobreza e do índice de desigualdades.
Depois de conhecer os problemas que afetam o rendimento escolar e as
metodologias utilizadas pelos professores, para tornar suas aulas mais atrativas, foi
mostrado aos professores uma lista de nome de alunos que são comtemplados com
o Programa Bolsa Família, com o objetivo de conhecer o seu rendimento escolar.
Para surpresa de muitos, cerca de 75% dos alunos contemplados pelo Programa
Bolsa Família têm um bom rendimento escolar, são assíduos as aulas, participam
com o professor no processo de interação do conhecimento, conseguem atingir a
média proposta.
Os três entrevistados citaram uma aluna que é contemplada pelo Programa
Bolsa Família como sendo a aluna destaque da escola. É esforçada, busca além
do que é ofertado em sala de aula, tem uma postura crítica, se utiliza de bons
argumentos, é convincente. Vê-se que esta aluna está buscando alcançar sonhos e
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 21
231
objetivos de vida que a tirem da linda da pobreza e da desigualdade, isto, por meio
da educação.
Neste relato, fica claro o empenho dos professores ao transmitirem o
conhecimento não como detentores deste, mas como mediadores, uma vez que
levam o aluno a pensarem e refletirem sobre suas ações, tornando-o um cidadão
crítico. Assim, a igualdade de todos os cidadãos será cumprida por meio da justiça.
Numa sociedade que está sempre em transformação, o professor contribui com
seu conhecimento e sua experiência, tornando o aluno crítico e criativo. Deve estar
voltado ao ensino dialógico, uma vez que os seres humanos aprendem interagindo
com os outros. É o processo aprender a aprender. O professor deve provocar o
aluno passivo para que se torne num aluno sujeito da ação.
Com isso, fez-se necessário buscar metodologias mais eficazes para que os
alunos interajam e se interessem mais pelo processo de ensino aprendizagem, não
se esquecendo que é por meio da educação que eles irão desenvolver a capacidade
crítica da realidade, para que possam utilizar o que aprenderam na escola em
diversas situações e/ou lugares.
Os métodos que ajudam os professores no processo de ensino são aqueles
que têm um grau considerável de aceitação dos estudantes, baseadas em formas
diferenciadas de transmissão do ensino, pois é necessário que o professor vivencie a
realidade dos alunos para poder buscar meios para melhor aplicabilidade do conteúdo.
Assim, deve sempre observar o plano de aula para não sair do planejamento, pois
é através dos estímulos que os mestres irão contribuir para o desenvolvimento da
capacidade de aprendizagem dos alunos. Dessa maneira, as suas características
são:
• Vivenciar a realidade do aluno;
• Instigar no desenvolvimento da leitura e a escrita;
• Lidar com as diferenças;
• Entender que cada aluno possui um tempo de aprendizagem;
• Buscar formas para incitar habilidades pessoais; artes, esportes, teatro,
músicas;
• Desenvolver habilidades necessárias para serem pensadores;
• Utilizar inovações no ensino como: tecnologias, aulas práticas e expositivas;
• Estimular os educandos para a melhoria da relação em sociedade;
• Conscientizar os alunos que a escola é um meio de transformação da
realidade.
O professor precisa mostrar a beleza e o poder das ideias, mesmo que use
apenas os recursos de que dispõe: quadro-negro e giz. Observa-se nessa afirmação
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 21
232
que a aula pode ser bem positiva e agradável, sem os grandes recursos que permeiam
todas as atividades humanas e em todos os lugares: os recursos tecnológicos.
Com isso, ressaltamos a grande importância que o professor tem como sujeito
capaz de intervir nas injustiças e precarizações das infâncias, adolescências e
juventudes empobrecidas, por meio da educação, uma vez que está é responsável
pela formação e desenvolvimento da capacidade física, moral e intelectual do ser
humano visando à integração social.
4 | CONCLUSÃO
A educação é de suma importância na vida de qualquer cidadão, mas é
necessário que ela se torne importante na vida dos educandos desde cedo, pois é
por meio dela que a sociedade terá cidadãos críticos e atuantes.
Este artigo abordou o papel do profissional da Educação Básica como sujeito
capaz de intervir nas injustiças e precarizações das infâncias, adolescências e
juventudes empobrecidas, relatando sua relevante presença, assim como sua
intervenção na produção do conhecimento, uma vez que este conhecimento é
construído em parceria com o aluno.
Relatou-se ainda, nesta pesquisa, o rendimento escolar dos alunos, tendo
conhecimento que a falta de interesse é o que leva os alunos a não se interessarem
mais pelo processo de ensino aprendizagem. Este rendimento não está relacionado
somente aos alunos contemplados pelo Programa Bolsa Família, mas a uma grande
maioria dos alunos matriculados.
Observou-se também, que a atuação do professor no processo de ensino
aprendizagem não pode ser restrita a repassar conhecimento, mas orientar e
valorizar as habilidades do aluno, para que eles possam tornar-se cidadãos críticos
e conscientes, a fim de diminuir a pobreza e acabar com as desigualdades.
Freire (1996, p.52) diz que “saber que ensinar não é transferir conhecimento,
mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção”. O
professor aberto às indagações dos alunos e a curiosidade.
Percebe-se que as metodologias utilizadas pelos professores, para atrair os
alunos para o processo de ensino aprendizagem, precisam ser melhoradas, uma vez
que, eles precisam conhecer a verdadeira realidade de seus alunos, para, a partir
dela elaborar e planejar aulas atrativas e interativas.
Por meio deste artigo, pode-se conhecer o rendimento escolar dos alunos
contemplados pelo Programa Bolsa Família, que dentre muitos deles, se interessam
pelos estudos e querem realizar seus sonhos e objetivos de vida.
A pesquisa foi de grande relevância para o âmbito acadêmico, uma vez que
possibilitou conhecer a realidade da educação básica, os desafios dos professores
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 21
233
em sala de aula, como intermediários do conhecimento, a falta de importância que
os alunos dão aos conhecimentos adquiridos na escola e, as metodologias utilizadas
pelos professores para atrair a atenção dos alunos.
A partir das experiências vivenciadas nesta pesquisa, conclui-se que o professor
deve refletir sobre seu papel na constituição do conhecimento de seu aluno e sobre a
forma de desenvolver seu trabalho, a fim de levar seus alunos a serem líderes de si
mesmos e serem questionadores – enfim, cidadãos que farão a diferença no mundo,
intervindo nas injustiças e precarizações das infâncias, adolescências e juventudes
empobrecidas.
REFERÊNCIAS
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Associados, 2004.
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Paz e terra, 1996.
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MENESES, João Gualberto de Carvalho (org.). Estrutura e funcionamento da educação básica –
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SOUZA, Ruth Catarina Ribeiro de. MAGALHÃES, Solange Martins Oliveira (org.) Professores e
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A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 21
234
CAPÍTULO 22
doi
O TRABALHO COM A GEOMETRIA PLANA NO ENSINO
FUNDAMENTAL: EXPERIMENTAÇÕES COM MATERIAIS
MANIPULATIVOS E RECURSOS TECNOLÓGICOS
Julhane Alice Thomas Schulz
Data de aceite: 06/01/2020
Natasha Inês Buche
Instituto Federal de Educação, Ciência e
Tecnologia Farroupilha – IFFar/Campus Santa
Rosa - RS
Carolina Hilda Schleger
Instituto Federal de Educação, Ciência e
Tecnologia Farroupilha – IFFar/Campus Santa
Rosa - RS
Jeverton Iedo Dorr
Instituto Federal de Educação, Ciência e
Tecnologia Farroupilha – IFFar/Campus Santa
Rosa - RS
Tanise da Silva Moura
Instituto Federal de Educação, Ciência e
Tecnologia Farroupilha – IFFar/Campus Santa
Rosa - RS
Vanessa Volkweis Rodrigues
Instituto Federal de Educação, Ciência e
Tecnologia Farroupilha – IFFar/Campus Santa
Rosa - RS
Elizangela Weber
Instituto Federal de Educação, Ciência e
Tecnologia Farroupilha – IFFar/Campus Santa
Rosa - RS
Mariele Josiane Fuchs
Instituto Federal de Educação, Ciência e
Tecnologia Farroupilha – IFFar/Campus Santa
Rosa - RS
Instituto Federal de Educação, Ciência e
Tecnologia Farroupilha – IFFar/Campus Santa
Rosa - RS
RESUMO: Esta produção decorre de
experiências em oficinas pedagógicas de
Matemática desenvolvidas por acadêmicos
do curso de Licenciatura em Matemática,
bolsistas do Programa Institucional de Bolsas
de Iniciação à Docência (PIBID) do Instituto
Federal Farroupilha - Campus Santa Rosa. As
referidas oficinas foram realizadas com alunos
do 8° ano do Ensino Fundamental de uma Escola
da Rede Municipal localizada no município de
Santa Rosa/RS, tendo como objetivo motivar
os alunos para o estudo da Matemática
através de atividades diferenciadas utilizando a
metodologia da Investigação Matemática aliada
ao uso de jogos, materiais didáticos e recursos
tecnológicos. As atividades desenvolvidas
tentaram buscar significação para os conceitos
matemáticos, sendo elas: atividade do caça ao
tesouro, construção do Tangram, visualização
da representação dos polígonos no software
GeoGebra, jogo Kahoot e o jogo “Trilha da
Área e Perímetro”. No decorrer das oficinas
observou-se a superação das dificuldades
apresentadas pelos alunos referente aos
conceitos de Geometria Plana, principalmente
na diferenciação entre os conceitos de área e
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 22
235
perímetro. Vislumbrou-se ainda a satisfação, animação, desempenho e participação
dos alunos mediante as atividades propostas. Percebeu-se maior participação dos
alunos ao longo das oficinas, uma vez que apresentaram evolução no domínio desses
conceitos. Aos bolsistas, a cada oficina percebeu-se a necessidade de incluir no
planejamento seguinte explicações para auxiliar nas dúvidas que surgiam por parte dos
alunos. Além disso, a vivência dos bolsistas enquanto prática docente proporcionou
discorrer sobre a atuação do professor, o qual exige estabelecer diálogo constante
sobre conhecimentos teóricos, didáticos e metodológicos no processo de ensino e
aprendizagem.
PALAVRAS-CHAVE: Aprendizagem, Material Manipulativo, Tecnologias, Geometria
Plana.
THE WORK WITH FLAT GEOMETRY IN AN ELEMENTARY SCHOOL:
MANIPULATIVE MATERIALS AND TECHNOLOGICAL RESOURCES
EXPERIMENTS
ABSTRACT: This production stems from experiments in pedagogical workshops of
mathematics developed by academics of the undergraduate course in mathematics,
scholarship holders of the Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência
(PIBID) from Instituto Federal Farroupilha - Campus Santa Rosa. These workshops
were carried out with students of the 8th grade of elementary Municipal School located
in the city of Santa Rosa/RS, aiming to motivate students to study mathematics through
differentiated activities using of mathematical research methodology allied to the use
of games, didactic materials and technological resources. The activities developed
attempted to seek meaning for the mathematical concepts, being them: Treasure
Hunt activity, Tangram construction, visualization of the polygon’s representation in
GeoGebra software, Kahoot game and the game " Trilha da Área e Perímetro". During
the workshops, we observed the overcoming of the presented difficulties by the students
regarding the concepts of flat geometry, especially in the differentiation between
the concepts of area and perimeter. It was also observed the students’ satisfaction,
enthusiasm, performance and participation through the proposed activities. A greater
students’ participation was perceived throughout the workshops, since they presented
evolution in the domain of the activities’ concepts. To the scholarship holders, noticed
in each workshop the need to include in the following planning explanations to assist
in the doubts that arose on the part of the students. In addition, the experience of the
scholarship holders as a teaching practice provided the discussion about the teacher's
performance, which requires establishing a constant dialogue on theoretical, didactic
and methodological knowledge in the teaching and learning process.
KEYWORDS: Learning, Handling Material, Technologies, Flat Geometry.
1 | INTRODUÇÃO
A presente produção tem o intuito de relatar oficinas de práticas pedagógicas
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 22
236
realizadas com os alunos do 8º ano de uma Escola da Rede Municipal localizada
no município de Santa Rosa/RS, pelos bolsistas do Programa Institucional de
Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID). O objetivo das intervenções consistia em
trabalhar com os conceitos de área e perímetro através de atividades diferenciadas,
com a finalidade de auxiliar os alunos na busca pelo entendimento dos conceitos
matemáticos e suas aplicabilidades em situações cotidianas.
Com o intuito de auxiliar os alunos a construírem seu conhecimento de maneira
significativa, compreendendo os porquês dos conceitos matemáticos, as oficinas
foram planejadas. Considerou-se, ainda, a dificuldade dos alunos em aprender
determinados conceitos da Matemática, principalmente em compreender a diferença
entre os conceitos de área e perímetro.
Assim, o professor precisa rever as metodologias que utiliza no processo
de ensino, fazendo novos planejamentos, propondo situações diversificadas, na
busca por uma melhor ação em sala de aula. Importante, também, considerar o
conhecimento prévio que o aluno tem, pois segundo os Parâmetros Curriculares
Nacionais – PCN (BRASIL, 1998) muitas vezes alguns professores subestimam este
conhecimento dos alunos, não analisando que esta bagagem conceitual torna-se de
grande valia para auxiliar no processo de aprendizagem de novos conceitos.
Para tanto, as oficinas foram planejadas de modo a explorar o raciocínio lógico
envolvendo o cálculo de área e perímetro, as propriedades das figuras planas, bem
como suas definições. Dessa forma, na primeira oficina os alunos foram subdivididos
em grupos, na qual realizavam um circuito de atividades com questões sobre figuras
planas, descobrindo pistas e deslocando-se por diferentes caminhos, para então
encontrar o tesouro escondido. Na segunda oficina, os alunos construíram um
Tangram em papel quadriculado a fim de visualizar a área, o perímetro e as variações
destas medidas a cada novo recorte, além de identificar as figuras planas obtidas
e posteriormente realizar o cálculo da área e perímetro das mesmas. Na terceira
oficina, a qual foi realizada nas mediações do IFFar/Campus Santa Rosa enfocou-se
a construção de figuras planas no software GeoGebra, bem como a realização de
dobraduras em papéis coloridos para o cálculo e visualização dos conceitos de área
e de perímetro.
2 | REFERENCIAL TEÓRICO
Ao fazer a abordagem da Geometria Plana, especialmente dos conceitos de
área e perímetro, alguns professores costumam apresentar este assunto com a
sequência de definições e exercícios, utilizando o livro, o caderno e a régua para
realização das atividades. Acabam, por vezes, não utilizando outros recursos para
explicar o conteúdo, implicando no não entendimento dos alunos acerca do cálculo
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 22
237
da área e do perímetro, levando-os a confundir o real significado de cada uma destas
conceituações.
Alguns desses erros e dificuldades foram também evidenciados em pesquisas
realizadas no Brasil. Tais trabalhos investigaram questões relacionadas ao estudo
das grandezas, em particular as grandezas geométricas: área e comprimento,
apontando para a existência de dificuldades dos alunos brasileiros nos conceitos
citados, quando estão procurando solucionar problemas envolvendo esses
conteúdos (BARROS, 2006, p.11).
Os conceitos de área e perímetro estão presentes em diversas aplicações do
cotidiano, se relacionando as mais diversas áreas de conhecimento, dentre elas
a Física, a Agronomia, as Engenharias entre outras. Apesar de serem abordados
em diferentes etapas da escolarização, a compreensão destes conceitos poderá
apresentar algumas lacunas, pois é recorrente alguns deles apresentarem dificuldades
na sua distinção, principalmente no seu cálculo e na seleção das unidades de medida
adequadas. Tem-se que a área é a:
Extensão de uma superfície que é medida em unidades próprias. A medida de
uma área é um número real que resulta da comparação desta área com uma área
tomada para unidade. Normalmente a área de uma superfície identifica-se com a
medida dessa área (ALBUQUERQUE; CARVALHO, 1990, p. 19).
Já para determinar o que é perímetro, Albuquerque e Carvalho (1990, p. 95)
falam que é o “comprimento da linha que define uma figura plana. Por exemplo,
o perímetro de um triângulo é a soma dos comprimentos dos seus três lados; o
perímetro do círculo é o comprimento da circunferência”. O perímetro é observado
em figuras bidimensionais, isto é, figuras geométricas planas, e é caracterizado como
medida de comprimento porque seu resultado é a medida do contorno de uma figura
geométrica. Para poder calcular o perímetro quando as medidas não são descritas,
precisamos medir a figura com régua, trena, metro ou qualquer outro objeto que
possa ser usado para medição.
Com vistas a aprendizagem dos alunos, considerando o trabalho com estes
conceitos, ressalta-se a importância de utilizar metodologias que proporcionem
o aprendizado de modo significativo, sendo uma possibilidade a utilização da
Investigação Matemática.
Cabe lembrar que em um processo investigativo, o desenvolvimento da parte
conceitual “(...) desenvolve-se usualmente em torno de um ou mais problemas. O
primeiro grande passo de qualquer investigação é identificar claramente o problema
a resolver”. (PONTE; BROCARDO; OLIVEIRA, 2009, p.16), sendo o aluno o principal
autor da construção de seu conhecimento e o professor o mediador deste processo,
no qual ele poderá utilizar recursos didáticos manipulativos, pois:
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 22
238
Qualquer material pode servir para apresentar situações nas quais os alunos
enfrentam relações entre objetos que poderão fazê-los refletir, conjecturar, formular
soluções, fazer novas perguntas, descobrir estruturas. Entretanto, os conceitos
matemáticos que eles devem construir, com a ajuda do professor, não estão em
nenhum dos materiais de forma a ser abstraídos deles empiricamente. Os conceitos
serão formados pela ação interiorizada do aluno, pelo significado que dão às ações,
às formulações que enunciam, às verificações que realizam (PASSOS, 2006, p. 81).
Portanto, o uso de materiais precisa estar alicerçado em um planejamento
intencional do seu uso, com vistas aos objetivos a serem alcançados a partir da
intervenção docente. Nesse viés, cabe a inserção de recursos tecnológicos para
além dos manipulativos, pois
A era da informação é fruto do avanço das novas tecnologias que estocam, de
forma prática, o conhecimento e gigantescos volumes de informações. (...) Estas
novas tecnologias permitem-nos acessar não apenas conhecimentos transmitidos
por palavras, mas também por imagens, sons, vídeos, dentre outros. (VIANA, 2004,
p. 11, 12)
A curiosidade pelo estudo de um conteúdo poderá emergir de um trabalho
diferenciado, quando realizado fora do habitual, e o uso das tecnologias contribui
para o encantamento. E isso não seria diferente com os alunos da Educação
Básica, que estão em fase de descobertas tanto na vida pessoal quanto na escola.
Os alunos, cada vez mais, anseiam por uma aula com atividades atrativas, que
propiciem aprendizagens de forma mais rápida e com facilidade.
Para Toledo (2015) uma das diversas formas de aperfeiçoar a construção do
conhecimento nas escolas é a partir do:
(...) uso de recursos tecnológicos (computador, recursos multimídias, softwares
educativos), que auxiliam tanto o professor quanto o aluno durante o processo de
aprendizagem, proporcionando condições, ao professor, para ministrar aulas de
forma mais criativa, acompanhando as transformações e mudanças que ocorrem
quando o aluno passa a exercer sua independência na procura e seleção de
informações e na resolução de problemas, tornando-se assim o ator principal na
construção do seu conhecimento (TOLEDO, 2015, p. 26).
Assim o professor tende a utilizar os recursos tecnológicos em sala de aula como
auxiliar no processo de aprendizagem do aluno. Importante ressaltar que nem todos
os professores têm acesso a estes recursos, situação esta, ainda muito presente
nas escolas. Todavia, os educadores vêm recebendo cada vez mais formação para
estudar e aprender a utilizar os recursos tecnológicos em sala de aula de forma
positiva e consciente.
Nos estudos da Matemática, vale destacar a importância do uso de recursos
tecnológicos na construção de figuras planas para o desenvolvimento de conceitos
e procedimentos para a construção. O software GeoGebra, por sua vez, nos
proporciona uma construção precisa e boa visualização das figuras, permitindo
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 22
239
alterar cores, fazer ampliações, dinamizações das representações, o que permite
identificar conceitos, elementos e propriedades.
3 | DISCUSSÕES E ANÁLISE
Partindo das concepções discutidas anteriormente, foram planejadas as oficinas.
A primeira oficina intitulada como “Caça ao tesouro” teve como propósito o cálculo da
área e do perímetro, a soma dos ângulos internos e diagonais de polígonos como o
retângulo, o losango, o triângulo e o hexágono.
Os alunos foram organizados em grupos e identificados por cores. Cada grupo
recebia, em um local diferente, uma pergunta matemática relacionada aos polígonos
e um desafio para responder ou realizar. Se respondessem corretamente, ganhavam
um polígono referente a próxima localização e uma pista que o bolsista indicava. No
final, todos eram encaminhados para o mesmo local, no qual havia um prêmio para
todos, pois o jogo apesar de competitivo tinha o objetivo de premiar a todos pelo seu
esforço.
Foi possível perceber que os alunos foram participativos, souberam trabalhar em
grupos e classificar os três tipos de triângulos existentes, o que pode ser observado
na Figura 1. No entanto, demonstraram dificuldades em recordar os conceitos
matemáticos de área e perímetro e suas fórmulas de cálculo.
Figura 1: Registro do grupo Verde.
Fonte: PIBID (2018).
Na segunda oficina realizada foi abordado o conceito de área e perímetro de
diferentes polígonos através da manipulação do Tangram, com vistas a sanar as
dificuldades apresentadas nas atividades da oficina anterior. Após a socialização
da proposta, os alunos foram organizados em grupos e cada um recebeu um papel
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 22
240
quadriculado. Seguindo as instruções concedidas por um bolsista, conseguiram
confeccionar o Tangram, o qual foi manipulado para responder um questionário
relacionado aos conceitos que estavam sendo explorados, especialmente para que
calculassem a área e perímetro de cada figura e a área total do material construído.
Na Figura 02 pode-se visualizar um aluno construindo o material.
Figura 02: Atividade com o Tangram.
Fonte: Pibid (2018).
Observou-se certa facilidade, por parte dos alunos, em responder o questionário,
pois quando estavam construindo o Tangram eram questionados sobre os conceitos
geométricos que poderiam ser abordados em cada peça confeccionada, percebendose mediante as exposições orais, um entendimento por parte dos mesmos. Além
disso, durante a atividade mostraram organização com a disposição das peças do
Tangram e foram solidários uns com os outros em momentos de dificuldade, sendo
este um ponto positivo já que, mesmo estando em grupos, auxiliavam os colegas
que pertenciam ao grupo vizinho.
Para a terceira oficina, a proposição foi de que os alunos viessem ao IFFar/
Campus Santa Rosa para uma oficina diferenciada, em que os conceitos de área
e perímetro, bem como propriedades dos polígonos fossem exploradas através de
jogos e no software GeoGebra. Para tanto, este encontro foi desenvolvido em dois
momentos: o primeiro no Laboratório de Matemática e o segundo no Laboratório de
Informática.
No primeiro momento, no Laboratório de Matemática, cada aluno recebeu
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 22
241
uma folha de color set e uma régua para representar diferentes polígonos a partir
de dobraduras. Os polígonos construídos partiram inicialmente da representação
de um quadrado, emergindo na sequência, o retângulo, o losango, o triângulo e
o hexágono. A partir das figuras construídas, os alunos eram questionados sobre
como poderíamos generalizar a fórmula para o cálculo de área e perímetro de cada
polígono representado.
Figura 03: Atividade para representar polígonos.
Fonte: Pibid (2018).
Nesta atividade os alunos apresentaram dificuldades em formular os cálculos de
área e perímetro, sendo necessário que os bolsistas intervissem no desenvolvimento
dos registros, ora de modo individual ora no coletivo, para que pudesse compreender
o que estava sendo solicitado, bem como na distinção entre os conceitos que estavam
sendo explorados.
No segundo momento da oficina, realizado no Laboratório de Informática, cada
aluno recebeu um roteiro com o passo a passo para as construções que seriam
realizadas no software Geogebra, conforme construções ilustradas na Figura 04.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 22
242
Figura 04: Representando retângulo e quadrado no GeoGebra.
Fonte: Pibid (2018).
A atividade consistia em representar os polígonos explorados nas oficinas
anteriores e calcular suas respectivas áreas e perímetros, visualizando assim suas
propriedades. Ao concluírem estas explorações, os alunos realizaram um jogo
interativo na plataforma Kahoot, o qual consistia em um conjunto de perguntas e
respostas referente aos conceitos trabalhados ao longo das três oficinas.
Com relação a atividade realizada no software Geogebra analisou-se que os
alunos manusearam o software com facilidade, já que até então não o conheciam,
conseguindo visualizar mediante as representações realizadas, a diferença entre
a área e o perímetro. Já no jogo Kahoot, ficaram eufóricos em desenvolve-lo,
mostraram que conheciam o seu funcionamento e a partir da efetivação do mesmo,
demonstraram entendimento acerca dos conceitos abordados.
As oficinas, de forma geral, buscaram trazer a compreensão de alguns conceitos
geométricos de forma manipulativa, com caráter instigante e desafiador. A partir dos
registros apresentados pelos alunos e de suas exposições orais, observou-se a
concretização dos objetivos previamente elaborados no planejamento da proposta,
visto os entendimentos dos alunos sobre a parte conceitual envolvida, emergidos a
partir das oficinas realizadas.
4 | CONSIDERAÇÕES FINAIS
No decorrer da realização das oficinas constatou-se a construção de
conhecimentos pelos alunos sobre a geometria plana, os quais superaram suas
dificuldades sobre os conceitos explorados, principalmente na diferenciação entre
os conceitos de área e perímetro.
As contribuições evidenciadas mediante as atividades práticas realizadas
reafirmam a importância de ofertar meios diferenciados de aprender, mediante
perspectivas didáticas e metodológicas diversificadas e, por vezes, distintas do
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 22
243
trabalho realizado em sala de aula. Além de primar por construções/explorações
que exijam dos alunos a elaboração de escritas e generalizações sobre os conceitos
matemáticos, de modo que saibam relatar suas características e conceituações com
suas próprias palavras.
Enquanto bolsistas, as oficinas proporcionaram a experiência de como planejar
uma aula atendendo ao tempo, ao conteúdo, as formas de ensinar e considerando
possíveis imprevistos que poderão surgir durante seu desenvolvimento. Ressalta-se,
também, a importância de dominar a parte conceitual a ser explorada, relacionando-a
com situações problema contextualizadas e de caráter histórico, de modo que cative
o aluno para o processo de aprendizagem da Matemática.
REFERÊNCIAS
ALBURQUERQUE, T. O.; CARVALHO, R. F. Dicionário Elementar - Matemática. Lisboa: Texto
Editora, 1990.
BARROS, A. L. S. Uma análise das relações entre área e perímetro em livros didáticos de 3° e 4°
ciclos do ensino fundamenta. Disponível em: https://repositorio.ufpe.br/bitstream/123456789/4473/1/
arquivo5323_1.pdf> Acesso em: 01 mar. 2019.
PASSOS, C. L. B. Materiais manipuláveis como recursos didáticos na formação de professores de
matemática. In: LORENZATO, S. (Org.). Laboratório de Ensino de Matemática na formação de
professores. Campinas: Autores Associados, 2006, p. 77-92.
PONTE, J.P.; BROCARDO, J.; OLIVEIRA, H. Investigações Matemáticas na sala de aula. 2 ed.
Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2009.
TOLEDO, B. S. O uso de softwares como ferramenta de ensino-aprendizagem na educação do
ensino médio/técnico no Instituto Federal de Minas Gerais. Dissertação (Mestrado em Sistemas
de Informação e Gestão do Conhecimento). Universidade FUMEC. 2015. 114f.
VIANA, M. A. P. Internet na Educação: Novas formas de aprender, necessidades e competências
no fazer pedagógico. In: MERCADO, L. P. L. (Org.) Tendências na utilização das tecnologias da
informação e comunicação na educação. Maceió: EDUFAL, 2004. 228p.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 22
244
CAPÍTULO 23
doi
O USO DE DIFERENTES ALTERNATIVAS PARA O
ENSINO- APRENDIZAGEM EM BIOLOGIA
Data de aceite: 06/01/2020
Terezinha Tronco Dalmolin
Colégio Politécnico da Universidade Federal de
Santa Maria
Santa Maria – Rio Grande do Sul/RS
Márcia Lenir Gerhardt
Colégio Politécnico da Universidade Federal de
Santa Maria
Santa Maria – Rio Grande do Sul/RS
Pedro Henrique Graeff Machado
Colégio Politécnico da Universidade Federal de
Santa Maria
Santa Maria – Rio Grande do Sul/RS
RESUMO: Vivemos a biologia em todos os
espaços e momentos. Somos também parte
da biologia. Estudar e aprender os diferentes
eixos da biologia se torna mais enriquecedor
quando contextualizados com a realidade dos
envolvidos, com fatos do cotidiano. Em sala de
aula não é diferente. No Ensino Médio do Colégio
Politécnico da UFSM, cenário da presente
discussão, a preocupação dos educandos em
ter um bom desempenho no aprendizado é
um fator positivo para a criação de alternativas
para a aprendizagem. Sendo assim, objetiva-se
apresentar como são desenvolvidas algumas
das atividades trabalhadas na disciplina de
Biologia de forma que a interdisciplinaridade
se faça naturalmente presente. A discussão se
configura em um estudo de cunho qualitativo,
com características descritivas, o mesmo foi
realizado de forma colaborativa utilizando-se
da observação para as análises e reflexões.
Teoricamente se ampara em Freire (1996),
Vygotsky (1996) entre outros. Como resultados,
os educandos, a partir de uma temática
trabalhada nas aulas de Biologia, realizaram a
construção de diferentes células, considerando
os tipos, conceitos, estruturas das mesmas
que foram trabalhadas e investigadas durante
o período letivo. Os materiais escolhidos para
a confecção foi opção de cada educando,
desde que o mesmo tivesse uma identificação
com o mesmo. Pode-se concluir que durante
esse processo de construção, em que o
educando protagonizou junto com educadores
que se envolveram, tanto o ensino como a
aprendizagem se tornaram mais significativas
e contextualizadas. O educando teve a
possibilidade de ressignificar os conceitos
trabalhados e recontextualizar no seu meio,
independente das suas particularidades.
PALAVRAS-CHAVE: Ensino-Aprendizagem.
Biologia. Ensino Médio.
THE USE OF DIFFERENT ALTERNATIVES
TO THE TEACHING-LEARNING IN BIOLOGY
ABSTRACT: We live biology everywhere and
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 23
245
every time. We are part of Biology too. Studying and learning the different branches of
Biology become more enriching when contextualized with the reality of those involved
with the everyday facts. In the classroom it's not different. At Colégio Politécnico da
UFSM's high school/Santa Maria city/ RS state/Brazil, scenario of this discussion, the
concern of the students to have a good performance on learning is a positive factor to
the creation of learning alternatives. This way, it aims to present how some activities
worked in Biology class are developed in a way that interdisciplinary is naturally present.
This discussion is a study of qualitative nature, with descriptive characteristics, realized
in a collaborative way using observation to analysis and reflection. It is theoretically
supported on Freire (1996), Vygotsky (1996) and others. As results, starting from
a thematic worked in biology class, the students have constructed different cells,
considering the kinds, conceptions, and their structures that were worked and studied
during the school year. The material chosen to the cells' making was of students' option
[...]. It can be concluded that, during this making process, the students stared with the
involved educators and the teaching and learning have become more signified and
contextualized. The students have had the possibility of ressignify the concepts worked
and recontextualize them in their environment, regardless of their particularity.
KEYWORDS: teaching-learning. Biology. High school
1 | INTRODUÇÃO
Ao falarmos em Biologia, logo nos lembramos de Ciência. Talvez, pela
configuração estrutural que os currículos escolares, no transcorrer dos tempos,
tinham. Hoje permanece, ainda, essa ideia. Ao discutirmos o ensino dessas, e das
demais áreas pensamos como isso ocorreu no transcorrer histórico das diferentes
instituições.
Observamos que o ensino de Ciências, e demais áreas do saber, perduraram,
por muito tempo, somente no campo teórico. Os educandos, na sua maioria, eram
instigados a somente receber e reproduzir o conhecimento, atuando, assim, como
sujeitos passivos desse processo.
A preocupação com a construção de um conhecimento significativo para que
o aluno fosse capaz de utilizá-lo e contextualizá-lo em diferentes situações de seu
cotidiano, veio a se configurar em uma educação, uma escola mais recente.
A aprendizagem pela memorização ou mecânica mostrou-se ineficiente, no
transcorrer da história, para a compreensão dos conteúdos, dos temas trabalhados
nas diferentes áreas do conhecimento e para a formação do cidadão intelecto e
sujeito protagonista. Nesse viés, as políticas educacionais, também foram se
redesenhando, configurando outro cenário para a educação, com outras abordagens
educativas.
Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), foram precursores de uma nova
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 23
246
abordagem educativa, sendo um dos exemplos de documento criado para orientar
os educadores.
Buscou-se, então, e ainda está se trabalhando para que o conhecimento seja
trabalhado e (re) construído de forma significativa, através da utilização de materiais
didáticos alternativos e recursos tecnológicos da realidade escolar e dos educandos.
O ensino e aprendizagem, nesse cenário, torna-se um processo constante e
inacabado para o educando e o educador. No caso da disciplina de Biologia, foco
dessa apresentação, não é diferente, como veremos no transcorrer do texto.
A biologia faz parte de nós, ou nós dela. Estudar e aprender biologia se torna
mais enriquecedor quando contextualizada com a realidade dos envolvidos, com o
cotidiano. Em sala de aula também é assim. A prática apresentada aconteceu com
os alunos do Ensino Médio do Colégio Politécnico da UFSM (Politécnico).
O Colégio Politécnico da UFSM é uma das Unidades de Educação Básica,
Técnica e Tecnológica localizada dentro da Universidade Federal de Santa Maria/
UFSM, no Município de Santa Maria/RS. O Colégio oferece e desenvolve a Educação
Básica (ensino médio), a Formação Inicial e Continuada, a Educação Profissional
Técnica de nível médio (subsequente) e a Educação Profissional Tecnológica (14
cursos Técnicos subsequentes, 4 cursos Tecnólogos, 2 cursos de Pós-Graduação).
No Ensino Médio do Politécnico, cenário da presente discussão, os educandos
buscam sentido no aprendizado, o que é um fator positivo para a criação de
alternativas diferentes para a aprendizagem. Sendo assim, objetiva-se, no transcorrer
dessa conversa, apresentar como foi desenvolvidas uma das diversas atividades
trabalhadas na disciplina de Biologia de forma que a interdisciplinaridade se faz
naturalmente presente.
2 | SE EU TENHO RETALHOS DE TECIDO, UMA MELANCIA, MACARRÃO, BALAS,
ARAME, BATATA DOCÊ, CEBOLA; EU CONSIGO ENSINAR/APRENDER SOBRE
“AS CÉLULAS”?
A disciplina de Biologia, no Politécnico tem um programa a ser seguido e dentro
desse os educandos são motivados à construção com materiais diversos. A temática
é apresentada e trabalhada pelo docente com os educandos, e esses exploram
em diferentes espaços, desde o livro didático a outras fontes de pesquisa que eles
próprios buscam, alertados sempre, de observarem para que sejam confiáveis.
A heterogeneidade dos grupos de educandos tornam o trabalho mais
interessante e desafiador, pois, como esclarece Vygotsky (1996), o educador deve
buscar metodologias de ensino diferentes para que todos os estudantes consigam
realizar seu aprendizado, visto que ninguém aprende da mesma forma e no mesmo
espaço de tempo. Para Freire (2002, p.18), “...ensinar é um ato criador, um ato
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 23
247
crítico e não mecânico. A curiosidade do e dos alunos, em ação, se encontra na base
do ensinar-aprender”.
Buscando atender as diferentes expectativas tanto professor como educando
se constituem juntos, onde todos ensinam e aprendem. O diálogo e o respeito são
essenciais para que esse processo de trabalho conjunto dê certo.
Com as demandas educacionais na sociedade atual, o ensinar e aprender
deixam de ser simples processos de repetição de informação e se constituem em
processos de reconstrução ou de mudanças na estrutura do conhecimento de quem
aprende. Esse tipo de processo vai se configurando em um aprendizado que, além
do conhecimento específico, o aluno é submetido a alfabetização científica (POZO,
1996).
No Politécnico, os educandos vivenciam essa alfabetização científica em uma
disciplina específica, Projeto, com presença curricular na 3ª série, sendo que nas
anteriores, a alfabetização científica é estimulada de diferentes formas durante as
atividades pedagógicas e as diferentes formas de avaliações.
Os educandos precisam da informação correta e, sobretudo, há a necessidade
de desenvolver a capacidade de buscá-la, selecioná-la e interpretá-la a fim de que
possam ter uma assimilação crítica da realidade e fenômenos a que ela se refere
(POZO; CRESPO, 2009).
Uma dentre as diversas propostas de atividades desenvolvidas com os
educandos é o uso de diferentes alternativas para o ensino e aprendizagem. Para
Moran (2008, p.1), “a escola precisa reaprender a ser uma organização efetivamente
significativa, inovadora, empreendedora”.
Cientes da necessidade de inovar, dentro e fora da sala de aula, busca-se
trabalhar com os educando não somente o livro didático e o laboratório, e sim
outras formas. Nesse momento será apresentada uma das atividades de biologia
que envolveu, além das demais disciplinas, a de Biologia e a de Artes (Imagens
de 1 a 10) em que os alunos construíram a representação de célula esquemática
elaboradas a partir de diferentes materiais.
A partir da observação e de estudos bibliográficos e questionamentos se
estimulou o educando a refletir sobre o tema, células, que se estudou. O estudo
sobre o tema aconteceu em sala de aula, no laboratório, com pesquisas realizadas a
partir de diferentes fontes, em que os educandos investigam desde o seu celular aos
computadores oferecidos na escola, na biblioteca, no próprio livro didático.
A partir desse processo o educando teve condições de explorar ao máximo a
temática e identificar os elementos constituintes da célula. Com esse embasamento
foi escolhido o tipo de material para ser usado na construção das células.
Essa forma de trabalhar com o aluno, possibilita autonomia, maior confiança,
contextualização com o seu meio e consigo mesmo, tornando-o um protagonista do
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 23
248
seu processo de aprendizagem. “O respeito à autonomia e à dignidade de cada um
é um imperativo ético e não um favor que podemos ou não conceder uns aos outros”
(FREIRE, 1996, p. 59).
Imagem 1: Papel machê.
Os grupos de educandos, a partir de sua realidade, buscaram elementos que
constituíam o objeto representativo, estudado já teoricamente, e assim o construir,
considerando cada uma de suas partes, ocasionando assim uma releitura das
diferentes células em um contexto próprio, releitura que pode ser lida como arte, um
processo de investigar, criar e ressignificar.
Buoro (2003, p.29) ressalta que arte e ciência sempre estiveram presentes na
vida do ser humano, isto é,
Se nas primeiras relações do homem com a Natureza a Ciência se fez presente,
o mesmo ocorreu com a Arte [...]. Na verdade, no percurso da história não há
civilização que não tenha produzido Arte e Ciência, embora as ideias positivistas
nos tenham feito crer durante muito tempo que só a Ciência era capaz de contribuir
para o conhecimento humano e, consequentemente, para a evolução da sociedade,
ficando a Arte restrita ao campo das formas e da sensibilidade, sem outro domínio
que não o estético.
O ensino-aprendizado interdisciplinar propicia uma relação consciente do
educando/educador, com o seu meio e as inter-relações com as diferentes áreas do
conhecimento e com o mundo. Dessa forma, contribuímos com uma educação para
a formação de sujeitos criativos que atuarão de forma mais crítica, como cidadãos e
futuros, profissionais nos diferentes espaços que ocuparão.
Imagem 2:
Retalhos de
tecido.
Imagem 3: Materiais
recicláveis e gelatina.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Imagem 4: Materiais
recicláveis e gelatina.
Capítulo 23
249
Cada grupo de educandos definiu um tipo de célula e materiais para a
representação e/ou releitura da mesma e toda a sua composição, de acordo com o
que fora estudado em sala de aula e laboratório.
Houveram diferentes escolhas de materiais: células comestíveis construídas
com biscoitos, pizzas, macarrão, frutas, balas. Outras de almofadas de tecido, retalhos
de tecidos, papel, isopor, linhas, arames, rolinhos de papel higiênico, saquinhos
plástico, etc. A reciclagem, o reaproveitamento foi um tema muito destacado pelos
alunos durante o processo da construção.
Imagem 5: Materiais
recicláveis.
Imagem 7: Chocolate,
bala, creme e bolo de
chocolate.
Imagem 6: Materiais
recicláveis.
Esses alunos haviam trabalhado, também, anteriormente, a temática do lixo
e da reciclagem na disciplina de Artes, através de documentários a respeito do
assunto, documentários com pessoas que vivem da atividade da reciclagem. Foram
trabalhadas obras de artistas como Vik Muniz e como essa reconstrução pode mudar
a vida de pessoas que sobrevivem à margem da sociedade.
Após concluídas, os educandos expuseram para a comunidade escolar,
suas construções/leituras/releituras das células e os mesmos foram questionados
a respeito pelos visitantes. Para Freire (1996) o ato de criar, recriar objetos, de
conhecer faz da educação uma arte. A educação assim é uma teoria e uma prática,
um ato político, estético e ético.
Nesse processo de construção os próprios educandos reconhecem seu
aprendizado e entendem melhor como cada uma das partes é importante para
constituir o todo, independente da temática abordada.
Imagem 5:
Pizza
Imagem 5: Pizza doce
com bala e chocolate.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Imagem 5: Melancia e
espaguete
Capítulo 23
250
As alternativas para o desenvolvimento das propostas partiram dos educandos,
que com a mediação do professor, quando o caso mais de um, relacionaram com as
outras disciplinas, houve uma construção conjunta, interdisciplinar sendo tratadas
com cuidado as diferenças e particularidades. O educando teve a possibilidade de
ressignificar os conceitos trabalhados e recontextualizar com o seu meio, sendo
também o protagonista deste ensinar/aprender e aprender/ensinar.
3 | CONCLUSÃO
A educação no Brasil e no mundo, vai se construindo e reconstruindo na
constituição da sua história. As escolas são, um dos palcos das diferentes cenas
educacionais, pedagógicas, de sucessos e de fracassos, que vão acontecendo, nos
diferentes roteiros escritos e vivenciados pelas diferentes gerações, nos diferentes
contextos, sejam, educacionais, sociais, políticos, econômicos.
No presente contexto, no qual estamos vivendo mudanças no nosso ensino,
nas escolas, na política, o ato de ensinar e aprender vão se reconfigurando conforme
os diferentes atores.
Na presente discussão apresentou-se como ocorreu o desenvolvimento de uma
das diversas atividades trabalhadas na disciplina de Biologia com reconhecimento
da participação das demais áreas do saber, presentes no currículo do politécnico.
Pode-se concluir, de forma positiva, que é possível e viável a construção de
ferramentas pedagógicas, fundamentadas nas concepções dos alunos, a qual tem
por objetivo tornar a aprendizagem mais atrativa, lúdica, significativa, respeitando o
contexto de cada um.
A atividade apresentada, assim como outras que são desenvolvidas nas
diferentes aulas, mostram-se como possibilidades didático-pedagógicas no processo
educativo desses adolescentes.
A aprendizagem não ocorre simplesmente pela repetição (decorar), é um
processo de construção cognitiva que trará mudanças no educando e no educador.
As concepções alternativas servem para embasar qualquer aprendizagem, uma
vez que, além de influenciar, são propulsoras para um conhecimento científico. É
importante ressaltar que, devido ao contexto que o aluno se encontra, muitas das
suas concepções são equivocadas e, portanto, cabe aos educadores modificá-las
visto que elas são muito resistentes.
Foi perceptível entre os estudantes que a motivação é um elemento que afeta
a aprendizagem significativa. Observado isso, cabe aos educadores, elaborar
ferramentas pedagógicas, que permitam que os alunos possam compreender
criteriosamente os conceitos para aproximá-los através de suas ideias, o seu
contexto, ao conhecimento científico.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 23
251
É preciso que, como educadores, analisamos a maneira como estamos
abordando o que pretendemos ensinar, evitando a reprodução de um conhecimento
pré-estabelecido. Além disso, é fundamental a criação de atividades interdisciplinares
com disciplinas que contribuem nesse processo para que os alunos relacionem seus
conhecimentos.
Sem concluir, consideramos que o papel do professor em sala de aula seja
para a formação de um aluno reflexivo, crítico, protagonista baseando-se em seu
contexto cultural a partir do diálogo, contribuindo para que os educandos sejam
futuros transformadores de sua realidade e de seu meio ambiente. Diante disso,
estamos sempre na busca de novos desafios para junto com os educandos nos
tornarmos educadores melhores.
REFERÊNCIAS
BUORO, Anamelia Bueno. O olhar em construção: uma experiência de ensino e aprendizagem da
arte na escola. 6. ed. São Paulo: Cortez, 2003.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz
e Terra, 1996.
____________. Pedagogia da esperança: um reencontro com a pedagogia do oprimido. 9 ed. Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 2002.
MORAN, J. Aprendizagem significativa Entrevista ao Portal Escola Conectada da Fundação Ayrton
Senna, publicada em 01/08/2008, em Disponível em <http: www.escola2000.org.br/comunique/
entrevistas/ver_ent.aspx?id=47> Acesso em 03 de nov. 2015.
POZO, J. I. Aprendices y maestros. Madrid: Alianza/ Psicologia Minor. 1996.
POZO, J. I.; CRESPO, M. Á. G. A aprendizagem e o ensino de ciências: do conhecimento cotidiano
ao conhecimento científico. Porto Alegre: Artmed, 2009.
VYGOTSKY, L. S. A Formação Social da Mente: O Desenvolvimento dos Processos Psicológicos
Superiores. 5.ed. São Paulo (Brasil): Martins Fontes, 1996.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 23
252
CAPÍTULO 24
doi
O USO DO LÚDICO NO PROCESSO DE ENSINOAPRENDIZAGEM DE DIFERENTES FITOFISIONOMIAS
EM UMA ESCOLA ESTADUAL DE ENSINO MÉDIO NO
MUNICÍPIO DE DIAMANTINO-MT
Data de aceite: 06/01/2020
Caroline Xavier da Conceição
Secretaria de Estado de Educação – SEDUC
Diamantino – MT
Áquila Pereira da Silva
Secretaria de Estado de Educação – SEDUC
Diamantino – MT
RESUMO: O processo de ensino e
aprendizagem deve proporcionar ao aluno uma
maior notoriedade e participação nos processos
formativos. Os Jogos didáticos são ferramentas
importantes para serem utilizados em sala
de aula de forma a priorizar o aprendizado
significativo dos conceitos e conteúdos
trabalhados. A partir disso, o presente trabalho
tem como objetivo explicitar o desenvolvimento
de um jogo didático desenvolvido com turmas
do Ensino Médio de uma Escola Estadual no
município de Diamantino – MT, referente à
disciplina de Biologia de forma a contemplar os
estudos sobre as principais fitofisionomias do
mundo e do Brasil. A metodologia desenvolvida
foi uma proposta de trabalho com os alunos,
tendo como objetivo desenvolver atividades
de biologia de forma lúdica, alternando a
ação pedagógica que tradicionalmente é
utilizada em sala de aula, buscando estimular
o desenvolvimento de suas habilidades
intelectuais. Foi possível observar durante
a realização das atividades que os alunos
participaram de forma ativa no desenvolvimento
da prática, bem como, ao jogar fizeram
utilização dos conceitos teóricos trabalhados
anteriormente em sala de aula. Como resultado,
foi possível inferir no decorrer das atividades que
a prática dos alunos durante os procedimentos
cumpriu com o que é pressuposto pelos
conceitos teóricos trabalhados em sala de aula,
uma vez que se nota melhor assimilação do
conteúdo trabalhado, bem como a participação
destes no processo de desenvolvimento da
atividade. Sendo assim, é possível afirmar
após os resultados e discussões que os jogos
didáticos são de extrema importância para a
formação educacional de alunos de qualquer
instância.
PALAVRAS-CHAVE:
Atividade
Lúdica;
processo formativo; processo educacional.
THE USE OF PLAYFUL IN THE TEACHINGLEARNING PROCESS OF DIFFERENT
PHYTO-PHYSIONOMIES IN A STATE HIGH
SCHOOL IN DIAMANTINO- MT
ABSTRACT: The teaching and learning
process should provide the student with greater
awareness and participation in the training
processes. The didactic games are important
tools to be used in the classroom in order to
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 24
253
prioritize the meaningful learning of the concepts and contents worked. From this,
the present work aims to explain the development of a didactic game developed with
high school classes of a State School in Diamantino - MT, referring to the discipline of
Biology in order to contemplate the studies on the main phytophysiognomies of the
world and Brazil. The methodology developed was a work proposal with the students,
aiming to develop biology activities in a playful way, alternating the pedagogical action
that is traditionally used in the classroom, seeking to stimulate the development of their
intellectual skills. It was possible to observe during the performance of the activities that
the students participated actively in the development of the practice, as well as, while
playing, made use of the theoretical concepts previously worked in the classroom. As
a result, it was possible to infer during the activities that the students' practice during
the procedures complied with what is presupposed by the theoretical concepts worked
in the classroom, since it is better to assimilate the worked content, as well as their
participation in the classroom. process of activity development. Thus, it is possible to
affirm after the results and discussions that the didactic games are extremely important
for the educational formation of students of any instance.
KEYWORDS: Playful activity; training process; educational process
INTRODUÇÃO
O processo de ensino e aprendizagem deve proporcionar ao aluno uma maior
notoriedade e participação nos processos formativos, para tal, a utilização de métodos
e práticas didáticas vem ao encontro dos esforços em sala de aula para tornar o
conhecimento mais acessível e condizente com as necessidades e particularidades
de seus atores.
Segundo Silva et al. (2016), a utilização de jogos didáticos possibilita aos
alunos e professores uma maior interação e descobrimento de formas diversas de
aprendizagens. Por meio dos jogos didáticos, o aluno pode experimentar o processo
de aprendizagem de forma dinâmica, interativa, prazerosa e interessante. Ao professor
cabe uma reinvenção de seus processos metodológicos e um redescobrimento de
seu processo de ensino-aprendizagem, objetivando-se um processo educacional
pleno e satisfatório.
Para Kishimoto (1994), por meio da aula lúdica os alunos são instigados a
potencializar sua criatividade, sendo protagonistas do processo pedagógico,
despertando por meio da brincadeira a vontade pelo saber e a vontade de participar,
assim a atividade lúdica se torna interessante, uma vez que promove o aumento da
concentração e permeia a assimilação dos conteúdos facilmente.
Segundo Callai (1991) para que os conteúdos possam ser aceitos, absorvidos,
reinterpretado e significados pelos alunos, considerando-se seus conhecimentos
prévios como ser social, é necessário que o processo educacional permita, proporcione
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 24
254
e incentive o educando de forma que o aprendizado seja prazeroso. Corroborando
a essa ideia, Marandino et al. (2009) aponta que o emprego de atividades lúdicas
em sala de aula leva a uma maior participação dos alunos no processo educativo,
tornando-os partícipes da construção de seu próprio conhecimento, ampliando as
possibilidades de aprendizagem, bem como propiciação de uma maior vivência
experimental que os ajudem a fazer relações com os conhecimentos escolares.
Os Jogos didáticos são ferramentas importantes para serem utilizados em sala
de aula de forma a priorizar o aprendizado significativo dos conceitos e conteúdos
trabalhados. Dessa forma, ao aluno, são proporcionados o conhecimento amplo
e a familiarização dos conceitos e termos técnicos da linguagem científica a que
se propõe a atividade lúdica. A partir disso, o presente trabalho tem como objetivo
explicitar o desenvolvimento de um jogo didático desenvolvido com turmas do
Ensino Médio de uma Escola Estadual do município de Diamantino – MT, referente
à disciplina de Biologia de forma a contemplar o ensino das principais fitofisionomias
do mundo e do Brasil.
METODOLOGIA
A metodologia desenvolvida foi uma proposta de trabalho com os alunos que
frequentam uma Escola Estadual de Ensino Médio no município de Diamantino-MT,
tendo como objetivo desenvolver atividades de biologia de forma lúdica, alternando
a ação pedagógica que tradicionalmente é utilizada em sala de aula, buscando
estimular o desenvolvimento de suas habilidades intelectuais.
O jogo didático sobre as principais fitofisionomia - particularidade vegetal ou
flora típica de uma região -, do mundo e do Brasil foi empregado em uma Escola
Estadual de Ensino Médio no município de Diamantino – MT. Para sua confecção foi
necessário: papel sulfite A4, papel cartão, cola branca; tesoura; papel autoadesivo
transparente.
Para a confecção do jogo de cartas (Biomas Card,Imagens em anexo) foi
realizado a impressão das principais fitofisionomias do Mundo e do Brasil em papel
sulfite A4, no qual estes foram recortados e posteriormente colados em papel cartão
para uma maior firmeza das cartas, de forma a facilitar seu manuseio. Para sua
conservação, utilizou-se papel autoadesivo transparente para seu revestimento.
Para o início do jogo os alunos são divididos em grupos de 5 indivíduos, cada
grupo recebe um jogo contendo 20 cartas, sendo que o baralho apresenta duas
cartas de cada fitofisionomia. Cada jogador receberá o mesmo número de cartas,
sendo proibido a visualização das cartas dos adversários.
O jogador que inicia deve escolher um oponente para “duelar” bem como a carta
deste. Escolhido o oponente e a carta, o jogador deve escolher a característica de
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 24
255
sua preferência, revelando qual a característica e pontuação, em seguida o oponente
faz o mesmo. Aquele que obtiver a maior pontuação da característica escolhida
ganha. Caso haja empate deve-se escolher outra característica da mesma carta,
caso as cartas sejam iguais será necessário a escolha de outra carta do adversário,
revelando-se a mesma característica escolhida anteriormente. Ao fim da jogada,
aquele que tiver a maior pontuação ganhará a carta do oponente.
O objetivo do jogo é obter todas as cartas dos adversários ou, em caso de
empate, ganha quem tiver a maior pontuação no somatório das características das
cartas em mãos.
RESULTADOS E DISCUSSÕES
Foi possível observar durante a realização das atividades que os alunos
participaram de forma ativa no desenvolvimento da prática, bem como, ao jogar
fizeram utilização dos conceitos teóricos trabalhados anteriormente em sala de
aula. Com o emprego do jogo foi percebido que os conceitos e características das
fitofisionomias trabalhados foram absorvidos de forma mais lúdica e educativa,
deixando assim o processo de ensino-aprendizagem mais dinâmico, interativo e
motivador.
Em relação ao uso de atividade lúdica em sala de aula, nota-se que a proposta
é uma eficiente alternativa na discussão sobre as fitofisionomias mundiais e biomas
brasileiros. Percebe-se também uma melhora no quesito disciplinar dos alunos, visto
que, os mesmos, ao desenvolverem a atividade proposta, mostram-se mais dispostos
e interessados no processo de ensino de ensino-aprendizagem. É preciso considerar
no desenvolvimento de jogos pedagógicos a interação e o divertimento dos alunos.
Ademais, é passível de consideração a individualidade do aluno enquanto ser e a
aquisição de saberes e experenciações.
Em concomitância a isso Ferrazeri (2004) afirma que os jogos didáticos podem
ter duas funções a lúdica e a educativa, a lúdica tendo por função oferecer o maior
prazer e diversão aos atores participantes da atividade, por outro lado, a educativa
possui como propósito ensinar ou complementar saberes teóricos desenvolvidos em
sala de aula.
Para Antunes (2009), a utilização dos jogos didáticos não é apenas mais uma
maneira de se desenvolver o conhecimento de forma criativa, mas representa uma
metodologia motivadora para um processo de ensino aprendizagem com significações,
no qual os alunos deixam de ser meros ouvintes, para serem protagonistas do seu
processo educacional.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 24
256
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A partir dos elementos supracitados pode se inferir que a utilização de jogos
didáticos em práticas pedagógicas fomentando a ludicidade dos discentes é
satisfatória e viável.
Foi possível observar no decorrer das atividades que a prática dos alunos
durante os procedimentos cumpriu com o que é pressuposto pelos conceitos teóricos
apresentados nesta produção.
Sendo assim, é possível afirmar após os resultados e discussões que os jogos
didáticos são de extrema importância para a formação educacional de alunos de
qualquer instância. Por esta razão, faz-se necessário estudos mais abrangentes
acerca desta problemática. Eis as considerações deste trabalho.
REFERÊNCIAS
ANTUNES, C. Jogos para o bem ensinar. 1º ed, Fortaleza: Imeph, 2009.
CALLAI, Helena Copetti (Org.). O ensino em estudos sociais. Ijuí, RS: Edunijuí, 1991.
FERRAREZI, L. A. A importância do jogo no resgate do ensino de geometria. VIII Encontro Nacional
de Educação Matemática. Universidade Federal de Pernambuco, Recife 15 a 18 de junho de 2004.
KISHIMOTO, T.M. Jogo, Brinquedo, Brincadeira e a Educação. 6. ed. São Paulo: CORTEZ,1994.
MARANDINO, M; SELLES, S.E; FERREIRA, M.S. Ensino de biologia: histórias e práticas em
espações educativos. São Paulo: Cortez, 2009.
KHOURI, R. Jogo de Cartas dos Biomas. Disponível em:<https://descomplica.com.br/blog/biologia/
jogo-de-cartas-biomas/>, acesso em 10 de agosto de 2019.
SILVA, K. J. F.; SOBREIRA, A. C. M.; BEZERRA, M. A.; SILVA, M. O.; MARTINS, M. M.M.C. A
utilização de jogos didáticos no ensino de Biologia: uma revisão de literatura. 3º CONEDU,
Congresso Nacional de Educação, 2016.
SILVA, L. R. B.; BARBOZA, R. J. O.; MATOS, J. G. J.; LIRA, M. M. R. A importância do uso de
jogos didáticos e suas contribuições para o ensino de química. 3º CONEDU, Congresso Nacional
de Educação, 2016.
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Capítulo 24
257
ANEXO
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Capítulo 24
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CAPÍTULO 25
doi
PERCEPÇÃO DOS DOCENTES QUANTO A INFLUÊNCIA
DO ESPAÇO ESCOLAR NA EDUCAÇÃO INFANTIL
Elivania Toledo Rodrigues
Data de aceite: 06/01/2020
Gislaine Maria Lente Franco
Universidade do Estado de Mato Grosso,
Faculdade de Ciências da Saúde, Departamento
de Medicina
Cáceres – MT
Universidade Evangélica do Paraguai, Mestrado
em Educação
Assuncion – PY
Elisangela de Oliveira Silva
Ministério Público Estadual, Cáceres
Cáceres – MT
Marinalva Pereira dos Santos
Universidade do Estado de Mato Grosso, Campus
de Diamantino
Diamantino – MT
Silvana Mara Lente
Universidade do Estado de Mato Grosso, Campus
de Diamantino
Diamantino – MT
Odenise Jara Gomes
Secretaria Municipal de Educação de Cáceres,
Supervisão Pedagógica
Cáceres-MT
Solange Teresinha Carvalho Pissolato
Universidade do Estado de Mato Grosso, Campus
de Diamantino
Diamantino – MT
Vania de Oliveira Silva
Universidade do Estado de Mato Grosso, Campus
de Sinop
Sinop – MT
RESUMO: O referente artigo tem como objetivo
demonstrar a percepção dos docentes quanto
à influência do espaço escolar na educação
infantil a partir da aplicação de questionário
aberto. Abrange uma pesquisa exploratória.
Trata-se de uma pesquisa qualitativa, por ser
de cunho interpretativo quanto às múltiplas
percepções. A pesquisa foi realizada na
Escola Municipal de Educação Infantil “Tia
Alair” representa o Projeto Padrão do FNDE
– Proinfância tipo B. Mais, é preciso ter boa
gestão quanto aos espaços disponíveis, passar
por manutenção visando garantir a integridade
física e ainda a capacitação dos profissionais
que lá atuam para conseguir melhor aproveitar
os espaços no desenvolvimento da criança.
Foram considerados que espaços organizados,
planejados, arejados e iluminados influenciam
na educação infantil, isto reporta a ressaltar
que o projeto Pró-Infância embora ainda tenha
alguns contratempos e quem questiona sua
funcionalidade, é o que se tem de melhor no
contexto da educação infantil. Outro destaque
está na relação professor – aluno, que promove
ou deveria promover uma compreensão do
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 25
259
espaço ocupado no processo educativo, de maneira a permitir que a criança o domine
e tenha segurança para reconhecê-lo. Em linhas gerais, os entrevistados ressaltam que
a escola tem funcionalidade, porém com algumas limitações. E, que requer algumas
adequações físicas e profissionais para atender de maneira adequada e respaldada
nas diretrizes da educação infantil.
PALAVRAS-CHAVE: Percepção dos docentes, espaço escolar, educação infantil.
1 | INTRODUÇÃO
O Espaço Escolar é formado por valores implícitos que contribuem para que o
ambiente transforme em lugar que propicie laços afetivos, sentimento de identidade
e de pertencimento. Sendo assim, o espaço escolar é gestado por múltiplos
interesses manifestos e ocultos que podem afetar a vida dos sujeitos, gerando
inclusões e exclusões. É um elemento essencial do currículo, porém faz parte de um
currículo oculto, ou seja, normas e valores que, embora não estejam explícitos são,
efetivamente, divulgados pela escola (RIBEIRO, 2004, p.104).
Complementa Salvador (2011) apud Sant’Anna (2007) que o espaço deve
passar para o indivíduo que nele está inserido uma percepção satisfatória, agradável e
emocionante do ambiente. O conforto ambiental, eficiência energética e a percepção
arquitetônica devem caminhar juntas.
Cabe destacar que de acordo com a psicologia, neurociência e ciências
cognitivas, percepção é a função cerebral que impõe definição a cada excitação
sensorial a partir de histórico de vivências densa. Transversalmente da percepção
um indivíduo estabelece e interpreta as suas impressões sensoriais para impor
significado ao seu meio. Consiste na obtenção, interpretação, escolha e composição
das informações adquiridas pelos sentidos (SALVADOR, 2011).
Vale destacar que o espaço escolar forma personalidades e traz realizações,
possui o dever de proporcionar ao educando condições para desenvolver habilidades
cognitivas e motora, tendo em conta à evolução do pensamento crítico (SILVA; SILVA;
LIRA; SANTOS e RIBEIRO, 2012, p. 01).
Este desenvolvimento procede de conciliação através de potencial do organismo
humano e as circunstâncias oferecidas pelo meio e que os esquemas de apropriação
vão se transformando progressivamente, considerados estágios de desenvolvimento.
Neste mesmo segmento é possível compreender a estreita relação existente entre
capacidade de aprendizagem e o local de ensino.
No Brasil a maioria das escolas públicas não possuem infraestrutura apropriada
para seu funcionamento, assim, ser professor torna-se um desafio, exigindo do
educador a procura por espaços e metodologias quem suprem a necessidade
dos educandos, respeitando suas individualidades e diferentes estágios de
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 25
260
desenvolvimento e aprendizagem (SILVA; SILVA; LIRA; SANTOS e RIBEIRO,
2012, p.01). Ainda com respaldo nos autores tem-se que o desafio do professor
é constante quanto ao espaço que o limita de realizar certas atividades, tentam
propiciar aos alunos atividades que os conduzem para ambientes além do tradicional,
harmonizando o desenvolvimento de novos imaginários, sentidos e habilidades.
Por meio da convivência com educandos em diversas atividades propostas,
observa-se a necessidade e importância da utilização de ambientes alternativos como
estratégia pedagógica, tendo em vista a ampla influência do ambiente de ensino no
processo ensino-aprendizagem. Essa mudança de ambiente traz ao educando o
desenvolvimento de novas e diversas habilidades.
O educador deve tomar consciência do ambiente em que o educando interage
para assim compreender o seu comportamento, suas ações, sua maneira de
aprender, e seu processo de desenvolvimento, bem como a influência que o mesmo
exerce sobre a criança (SILVA e MUZARDO, 2016, p.66 apud DUDEK, 2000).
Nesta linha de pensamento foi desenvolvido este estudo com o objetivo de
demonstrar a percepção dos docentes quanto à influência do espaço escolar na educação
infantil a partir da aplicação de questionário aberto.
Cabe concluir que a busca pela arquitetura escolar se iniciou ao longo do
processo de constituição da escola moderna. Fundamentando como tal a instituição
proposta à formação de cidadãos, desenvolvida a partir das ideais iluministas e que
se submergiu na mesma medida da sociedade industrial. Inicialmente os primeiros
estudos e propostas para edificação escolar do século XIX, preocupou-se com o
estilo externo do edifício escolar do que nas funções propriamente educativas.
E, hoje é muito relevante a busca de realização de novos estudos para que se
aproxime cada vez mais as edificações às necessidades de ambientes escolares
propícios para o desenvolvimento da criança com é o caso da escola em estudo.
2 | PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
Abrange uma pesquisa exploratória, apresenta percepções de docentes no
contexto escolar da educação infantil com ambientes poucos ou nada propícios
ao desenvolvimento das atividades pedagógicas interferindo na Educação Infantil.
Dispõe de uma pesquisa qualitativa, “por envolver uma abordagem interpretativa e
naturalista de seu objeto de estudo. ” (DENZIN e LINCOLN, 2000, p.1).
O espaço escolar da Escola Municipal de Educação Infantil “Tia Alair” foi
oportuno para a cumprimento da Amostra Aleatória Simples, sendo possível executar
a aplicação de questionário aos que interessados a participar do estudo, totalizando
10 participantes entre docentes, gestora e técnico de desenvolvimento infantil.
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Capítulo 25
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3 | RESULTADOS E DISCUSSÕES
Este ponto de discussão tange as contribuições dos profissionais que atuam
na Escola Tia Alair, em Diamantino – MT. Foram entrevistados um total de onze (11)
profissionais dentre eles técnico de desenvolvimento infantil, gestores administrativo
e pedagógico, e, professoras quanto a influência do espaço escolar na educação
infantil, vantagens e desvantagens desses espaços para o desenvolvimento infantil,
e, as considerações quanto aos ambientes da escola Tia Alair.
Ao questionar os entrevistados sobre a influência do espaço na educação
infantil, todos foram taxativos em afirmar que os ambientes influenciam sobremaneira
na educação infantil. Foram selecionadas algumas afirmativas apresentadas pelos
entrevistados que segue dispostas no Quadro 01:
Profissional
Considerações sobre ...
TDI1
[...] ambiente bem organizado e arejado [...] facilitará o trabalho dos professores e
alunos
Professora1
[...] o espaço precisa ser agradável para as crianças, bem iluminado, um ambiente
amplo e decorado.
Professora2
[...] ambiente amplo, arejado e funcional influencia muito no desenvolvimento das
atividades tanto individuais tanto coletivas.
TDI2
[...] o ambiente escolar influencia diretamente na educação infantil pois quando o
ambiente passa harmonia e organização notamos que a aprendizagem ocorre de
forma eficaz.
Gestora1
[...] acredito que os ambientes têm forte influência na Educação Infantil, mas não é
tudo, porém tem fator bastante positivo no desenvolvimento.
Quadro 1. Contribuições dos entrevistados sobre influência.
Fonte: Questionário aplicado pela autora e respondido pelos profissionais da amostra da pesquisa, 2018.
As afirmações destacadas no Quadro 01 reportam a contribuição dos espaços
no processo de interação com o meio destacado por Piaget correspondendo a uma
organização interna com adaptação formalizadas pelas crianças que promovem a
aquisição de conhecimentos e condutas, os quais se processam com a adaptação
ao meio após o equilíbrio entre a acomodação e a assimilação.
Ainda pode se considerar a teoria apresentada por Vygotsky, a sócio
interacionista, onde o contato com o meio cultural e com os objetos provocam nas
crianças o reconhecimento dos mesmos e, por conseguinte desencadeiam o domínio
e o conhecimento.
Foram considerados que espaços organizados, planejados, arejados e
iluminados influenciam na educação infantil, isto reporta a ressaltar que o projeto
Pró-Infância embora ainda tenha alguns contratempos e quem questiona sua
funcionalidade, é o que se tem de melhor no contexto da educação infantil.
Quanto as contribuições do ambiente na educação infantil ressaltam-se as
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 25
262
afirmativas relevantes apresentadas pelos entrevistados. Conforme disposto no
Quadro 02 as contribuições vão desde a própria condição do ambiente até o despertar
para a autonomia e socialização, observe:
Profissional
Considerações sobre ...
TDI3
Um ambiente bem organizado, com os mobiliários bem distribuídos e que respeita
todas as exigências do conforto ambiental contribui de forma significativa na
educação infantil.
Professora2
Acredito que contribui no desenvolvimento da criança da sua autonomia e
socialização. A criança precisa se sentir segura para aprender com propriedade.
Professora3
A qualidade, a organização e a iluminação pode estimular, instiga o desenvolvimento
das capacidades de cada criança, ajuda a manter a concentração fazer se sentir
parte integrante do ambiente.
TDI4
Contribui diretamente a criança e ao professor. Alivia estresse, trazendo tranquilidade
e segurança a aquela criança. O conforto e sua mobilidade assimila segurança,
principalmente à crianças tímidas e inseguras.
Quadro 2. Contribuições dos entrevistados sobre as contribuições do ambiente na educação
infantil.
Fonte: Questionário aplicado pela autora e respondido pelos profissionais da amostra da pesquisa, 2018.
Todas as afirmativas destacadas remetem a compreensão de que o espaço de
educação infantil tem papel fundamental no processo de desenvolvimento infantil,
inclusive ocupa-se da compreensão de Vygotsky (1996) quanto a internalização,
onde o ambiente é considerado espaço para o desenvolvimento intelectual das
crianças. Logo, as influências sociais são de extrema importância para o seu
desenvolvimento cognitivo, pois Vygotsky compreende que as partes biológicas por
si só não conseguem realizar a aprendizagem no seu todo.
Num processo interativo, com o meio, com o ambiente, com o contato direto
com os objetos dispostos nos ambientes consiste na valorização das representações
construídas na produção do conhecimento e dos significados (VYGOTSKY, 1996).
Explica-se que por meio do contato com o objeto e a partir da troca de informação e
interação social o aluno se torna capaz de conceber sobre aquele objeto e construir
sua concepção sobre o mesmo.
Outro destaque está na relação professor – aluno, que promove ou deveria
promover uma compreensão do espaço ocupado no processo educativo, de maneira
a permitir que a criança o domine e tenha segurança para reconhecê-lo. Agora é
claro que este espaço precisa ser adequado dentro das condições arquitetônicas
para o atendimento à criança.
Questionados quanto as vantagens e desvantagens dos espaços escolares no
desenvolvimento infantil, os entrevistados apresentaram concepções semelhantes,
sendo destacados àquelas que representam as expressões com maior recorrência
entre as respostas apresentadas, como se segue nos quadros 3 e 4:
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 25
263
Profissional
Vantagens
TDI5
[...] móveis e brinquedos adequados; ter uma rotina; experiências novas
Professora4
aprendizado; a criança aprende a lidar com a rotina, pois muitas vezes esses
espaços requerem horários; segurança.
Professora1
Um espaço escolar com uma boa ergonomia; Um ambiente que explora o cognitivo
da criança; A interação da criança com meio em que está inserido.
TDI1
Um ambiente livre aonde a criança possa explorar a ludicidade, realizando
atividades como: as brincadeiras, os brinquedos e jogos. Pois brincando que a
criança desenvolve a identidade e autonomia.
Gestora2
O espaço da criança contribui para o desenvolvimento da criança (físico e
psicológico).
Quadro 3. Contribuições dos entrevistados sobre vantagens dos espaços escolares.
Fonte: Questionário aplicado pela autora e respondido pelos profissionais da amostra da pesquisa, 2018.
Profissional
Desvantagens
TDI3
[...] falta de flexibilidade. Pois a criança acaba perdendo a força quando se tem
muitas coisas prontas.
Professora2
Um ambiente pode pausar ou regredir a aprendizagem da criança; O espaço físico
deve passar por manutenção.
Professora1
Quando o espaço não passa segurança para a criança se desenvolverá inseguro
e introvertido.
Gestora1
Não saber usar os recursos disponíveis no espaço; limitar a criança, confina-la
somente em um espaço.
Quadro 4. Contribuições dos entrevistados sobre desvantagens dos espaços escolares.
Fonte: Questionário aplicado pela autora e respondido pelos profissionais da amostra da pesquisa, 2018.
As respostas apresentadas pelos entrevistados correlacionam ao previsto nas
diretrizes nacionais da educação infantil. Enaltecendo a rotina, a liberdade, com
possibilidade de desenvolvimento por meio da realização de atividades interativas
e pedagógicas. Para Piaget (1970) conhecer é aprender a realidade em termos de
compreensão de como determinado estado de coisas se torna possível, e, nisto se
considera a organização do espaço escolar na educação infantil.
Já quanto as desvantagens destacaram o disposto por Piaget (1970) onde o
professor assume um papel de suma importância, criando espaços, disponibilizando
materiais e fazendo mediação da construção do conhecimento. Assim, foi destacado
uma afirmativa quanto a não valorização e não utilização correta dos recursos pelos
profissionais que atuam com as crianças na escola pesquisada.
Ainda se tem que os ambientes por serem fixos não oportuniza mudanças de
cenários para promoção de muitas atividades, além de em alguns casos não estarem
adequados para o uso e bem-estar físico das crianças. A questão da manutenção
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 25
264
é preocupante no contexto das escolas públicas, que quase sempre demoram para
passar por uma reforma de manutenção. Questionados quanto ao espaço da escola
onde atuam as afirmativas foram amplas como apresentado no quadro 5:
Profissional
Considerações sobre ...
TDI1
A escola é o primeiro ambiente em que a criança estará em contato com adultos que
não são da sua família, desenvolvendo características como respeito, disciplina e
paciência.
Professora4
O espaço contribui para o desenvolvimento físico e psicológico da criança, contribui
com o desenvolvimento da identidade cultural e o desenvolvimento profissional.
Gestora2
A escola possui um espaço amplo, contribui fortemente na consolidação da
aprendizagem haja visto que possui um espaço amplo, com brinquedos, com
ventilação, com possibilidades para expressar, conviver, explorar.
TDI3
Um dos exemplos de um ótimo espaço físico é o Solário, pois proporciona a
liberdade de movimentos, possibilita sua socialização com a natureza e com as
outras crianças que ali estão brincando.
Quadro 5. Contribuições dos entrevistados sobre o espaço escolar Tia Alair.
Fonte: Questionário aplicado pela autora e respondido pelos profissionais da amostra da pesquisa, 2018.
Das afirmativas apresentadas pelos entrevistados destaca-se a lembrança de
ser a escola o primeiro ambiente cultural que a criança se insere, externamente, e esta
realidade provoca um processo de adequação entre o ambiente familiar e o ambiente
escolar. Isto é bem tratado por Vygotsky (1996) que descarta a contribuição para que
a criança aprenda a partir de sua própria existência e experiências vivenciadas ao
longo do tempo e espaço, de maneira a significá-las.
Em linhas gerais os ambientes como já tratados anteriormente são específicos
para o atendimento da educação infantil, e, uma das respostas destaca o ambiente
solário, que se torna mais um espaço não disposto em uma escola construída fora
da proposta do Pró-Infância.
Dentre outras contribuições dos entrevistados, destacam-se o disposto no
quadro 6 que destacam sobre a gestão escolar e dos espaços, lugares específicos,
ambientes mal planejados, ambiente aconchegante e a necessidade de reorganização
dos espaços.
Profissional
Considerações sobre ...
TDI4
É preciso de uma gestão para que estes espaços não precisem ser desfeitos no
futuro.
Professora2
[...] o ambiente escolar em que estou inserido possui os lugares específicos para
aplicação de distintas atividades.
Professora3
Os poucos espaços que possuímos ajudam nesse sentido de promover
desenvolvimento das crianças. [...] ambientes mal planejados ou sem manutenção
causam transtornos e possíveis acidentes nos pequenos.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 25
265
TDI1
[...] um ambiente aconchegante, arejado, iluminado, tem que ter uma área verde
com sombra, porque com brinquedos adequados.
Gestora2
Penso que os espaços são muito importantes para o desenvolvimento na Educação
Infantil. Porém os profissionais precisam se conscientizar do seu papel frente a
reorganização desses espaços e do tempo estabelecido para se trabalhar com as
crianças.
Quadro 6. Outras Contribuições dos entrevistados.
Fonte: Questionário aplicado pela autora e respondido pelos profissionais da amostra da pesquisa, 2018.
Percebe-se que os entrevistados reconhecem a importância do espaço no
contexto da educação infantil, porém reforçam que os profissionais precisam ter
habilidades estratégicas para a organização destes ambientes.
A realidade da escola, por ter uma demanda grande de crianças sofreu
alterações nos ambientes e por vezes não atende as necessidades das crianças
e profissionais. Ainda por ser uma escola implantada com pouco tempo, não está
arborizada e existe a indisponibilidade de utilização dos ambientes externos para
prática de atividades extraclasses. Também foi destacado os despreparos dos
profissionais para organizar e reorganizar estes espaços, que foram construídos
para atender a educação infantil.
Em linhas gerais, os entrevistados ressaltam que a escola tem funcionalidade,
porém com algumas limitações. E, que requer algumas adequações físicas e
profissionais para atender de maneira adequada e respaldada nas diretrizes da
educação infantil.
4 | CONSIDERAÇÕES FINAIS
Quanto a verificação da capacidade do ambiente escolar de influenciar na
educação infantil foi possível afirmar que na educação infantil esta realidade é mais
de relevante, pois os espaços influenciam sobremaneira nesta etapa educacional,
tanto que levou o governo a pensar um espaço adequado para tal.
Ao demonstrar as contribuições da arquitetura na educação infantil a partir
da percepção dos docentes com a aplicação de questionário aberto ficou claro
que estes profissionais compreendem esta contribuição conseguindo destaca-las.
Porém, tecem algumas limitações na realidade da escola estudada.
REFERÊNCIAS
DENZIN, N. K.; LINCOLN, Y. S. The sage hand book of qualitative research. 2 edição Thousand
Oaks: Sage, 2000.
PIAGET, J. A epistemologia genética. Petrópolis. R. J: Vozes, 1970.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 25
266
RIBEIRO, S. L. Espaço escolar: um elemento (in) visível no currículo. Rev. Sitientibus. Feira de
Santana, n. 31, p.103-118, jul./dez., 2004. Disponível em: w.w.w.uefs.br/sitientibus/pdf/31/espaçoescolar.pdf. Acesso em: 23 de fevereiro de 2019.
SALVADOR, E. V. Percepção Arquitetônica do Espaço de Trabalho pela Comunidade
Universitária. Estudo de caso da UFSCar: Campus São Carlos. Dissertação (Mestrado).
Universidade Federal de São Carlos, 2011.
SILVA, D. G.; SILVA, L. F.; LIRA, M. S.; SANTOS, A. P.; RIBEIRO, M. A. A Influência do local de
ensino no processo de aprendizagem. Universidade Federal de Pernambuco. Pró-Reitoria de
Extensão e Cultura. 70 Anos Tempos Transversos.
SILVA, F. L.; MUZARDO, F. T. Estudo exploratório sobre o espaço escolar: a percepção de
professores de escolas públicas. Revista THEMA, 2016, vol. 13, nº 1, pág. 65-78.
VYGOTSKI, L. S. A construção do pensamento e da linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 25
267
CAPÍTULO 26
doi
PERCEPÇÃO DOS PROFESSORES SOBRE O ATRASO
NA LEITURA E ESCRITA DOS ALUNOS EM ANOS
INICIAIS DE UMA ESCOLA MUNICIPAL
Data de aceite: 06/01/2020
Data de Submissão: 25/10/2019
Cecilma Miranda de Sousa Teixeira
Pedagoga e Professora do Curso de Medicina da
Universidade Federal do Maranhão (UFMA) em
Imperatriz, Maranhão: ORCID: 0000-0002-70538602.
Brauliene Araújo Neves
Acadêmica do Curso de Pedagogia da UFMA
em Imperatriz, Maranhão: CV: https://lattes.cnpq.
br/9333327341493734
Francisco Hudson Coelho Frota
Pedagogo, Consultor em TICs do Curso de
Pedagogia da UFMA em Imperatriz – Maranhão:
CV: https://lattes.cnpq.br/1597944779494739
RESUMO:
Diversas
condições
estão
relacionadas ao processo de aprendizagem
da escrita e leitura, como alunos, família,
professores, escola, o contexto sociocultural e
sócio afetividade neste processo. Percepção
dos professores sobre o atraso na leitura e
escrita dos alunos em anos iniciais de uma
escola municipal de Imperatriz – Maranhão.
Estudo feito em uma escola da periferia com
baixo rendimento, o que instigou este estudo.
Objetivou-se investigar a percepção dos
professores sobre o atraso na escrita e leitura
dos alunos. Pesquisa, qualitativa realizada
em novembro de 2016, com 4 professores do
1º ao 5º ano, exceto do 4º ano por recusa. Os
110 estavam distribuídos por turmas, sendo
1 com 27, outra com 33 e 2 com 25 alunos.
Considerar que um mesmo aluno pode constar
em mais de um dos itens, portanto, 9 alunos
possuíam reprovações, 15 não sabiam ler,
80 não sabiam escrever e 68 não sabiam ler
e escrever e 9 diagnosticados com déficit de
atenção. Na percepção dos professores a
principal causa do atraso foi a ausência dos
pais no acompanhamento das crianças e para
melhorar a aprendizagem da leitura, escrita
e reprovações, foi destacado que a escola
deveria levar mais a sério estas dificuldades,
desenvolver projetos e capacitar professores;
que os professores devem trabalhar mais a
leitura e escrita usando recursos diversificados,
que a dificuldade é pela falta de interesse do
aluno e que a reprovação deveria ser para os
pais porque os professores fazem sua parte e os
pais não fazem. Concluiu-se que na percepção
dos professores a dificuldade de aprendizagem
dos alunos, está relacionada principalmente
aos pais, à indisciplina e a superlotação das
turmas. Recomendam-se outros estudos para
consolidar estes resultados e fomentar ações
educacionais nas escolas sensibilizando os
professores como responsáveis pelo processo
e subsidiar o poder público na melhoria
educacional no município.
PALAVRAS-CHAVE:
Leitura.
Escrita.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 26
268
Percepção de professores.
TEACHER’S PERCEPTION ABOUT DELAY IN READING AND WRITING
STUDENTS IN EARLY YEARS OF A MUNICIPAL SCHOOL
ABSTRACT: Several conditions are related to the learning process of writing and
reading, such as students, family, teachers, school, the socio-cultural context and
socio-affection in this process. Teachers ‘perceptions of students’ delay in reading and
writing in early years of a municipal school in Imperatriz - Maranhão. A study done
in a low-income peripheral school, which prompted this study. This study aimed to
investigate teachers ‘perceptions of students’ delay in writing and reading. Qualitative
research conducted in November 2016, with 4 teachers from 1st to 5th grade, except
4th grade for refusal. The 110 were divided into groups, 1 with 27, another with 33 and
2 with 25 students. Considering that the same student can appear in more than one
of the items, therefore, 9 students had failures, 15 could not read, 80 could not write
and 68 could not read and write and 9 could not be diagnosed with attention deficit.
In the teachers’ perception, the main cause of the delay was the absence of parents
to accompany the children and to improve learning in reading, writing and failing, it
was stressed that the school should take these difficulties more seriously, develop
projects and train teachers; that teachers should work more reading and writing using
diverse resources, that the difficulty is because of the student’s lack of interest and
that disapproval should be for parents because teachers do their part and parents
don’t. It was concluded that in the teachers ‘perception the students’ learning difficulties
are mainly related to parents, indiscipline and class overcrowding. Other studies are
recommended to consolidate these results and to promote educational actions in
schools, sensitizing teachers as responsible for the process and subsidizing the public
power in the educational improvement in the municipality.
KEYWORDS: Reading. Writing. Perception of teachers.
1 | INTRODUÇÃO
A leitura e escrita é um processo que envolve o contexto sócio cultural da criança
e como agente estimulador na geração de hipóteses dos fatos, acontecimentos do
seu entorno. Contudo, aliado ao desenvolvimento cognitivo inerente a cada fase como
descrito por Vitgosky, há necessidade da presença do professor para direcionar esta
fase, elegendo dentre as concepções metodológicas de aprendizagem disponíveis
na área educacional, aquela que mais se adequa a sua realidade.
Família é a primeira escola, ainda que informal e a ela compete, sobretudo,
ensinar valores indispensáveis ao convívio em sociedade, valores estes que deve a
escola implementar, associando ao ensino da leitura e da escrita.
Lamentavelmente, o que vivenciamos hoje é um mister de delegação de
responsabilidade do ensino de princípios e valores o que leva a criança cada vez
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 26
269
mais à indisciplina e como consequência à falta de atenção em sala de aula o que
pode contribuir para a não aprendizagem da leitura e da escrita.
Nesta perspectiva, Brasil (2001) considera que o objetivo da educação é formar
cidadãos, independente da sua concepção.
Há de se considerar, portanto, que a construção do sujeito se dá a partir de
uma determinada realidade social, do seu contexto de vida. Portanto, a educação
não é um ato isolado, onde uma dificuldade de aprender possa ser vista apenas
e unicamente como resultado de processos cognitivos individuais. Aprender ler e
escrever vai muito além, pois envolve a socioafetividade na relação professor/aluno,
a escolha dos conteúdos, a metodologia e a forma de avaliação (FÁVERO; CALSA,
2013).
A partir desta visão e das observações feitas durante as atividades no Programa
de Iniciação à docência - PIBID, Subprojeto de Pedagogia, na escola em questão,
haja vista, a constatação de crianças do 4º e 5º ano, já reprovadas que não sabem
ler e nem escrever, surgiram inquietações que levaram aos questionamentos:
Qual a percepção dos professores em relação ao atraso da leitura e escrita das
crianças? Que concepção considera para resolver este atraso? O que justificou esta
abordagem, cujos objetivos foram investigar a percepção dos professores sobre o
atraso na escrita e leitura dos alunos e destacar a concepção dos professores para
melhorar este atraso.
2 | DESENVOLVIMENTO
No sentido amplo a escola pode ser considerada um espaço público ou
privado destinado ao ensino coletivo e que possui características funcionais que as
diferenciam entre si, embora com objetivo comum de promover a educação.
Para Formiga, Sá e Barros (2012), a educação em uma perspectiva mais
tradicional é a transmissão de saberes, cabendo ao educando assimilar estes
saberes.
De um modo geral, segundo Brasil (2001) o objetivo da educação é formar
cidadãos, independente da sua concepção.
Contudo, não se pode afirmar que os professores reconheçam a sua função no
contexto atual de educador, razão pela qual ainda se perceba enraizados no ensino
tradicional, o que nem sempre se pode atribuir a responsabilidade unicamente sobre
o professor, num país de política do descaso com a educação.
Neste sentido, Silva (2013), considera que para que haja aprendizagem,
o ser humano precisa estar em condições de fazer um investimento pessoal em
direção ao conhecimento, ligado aos recursos pessoais mesclados às possibilidades
socioafetivos, portanto, são condições inerentes a quem busca aprender e a quem
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 26
270
se dedica a ensinar.
Portanto, a prática educativa, seja ela na educação básica ou superior, não é
um fenômeno unidimensional. Isso é tão importante que no campo das abordagens
e nela estão presentes as dimensões técnica, cognitiva, social, política, cultural,
humana e emocional.
Por outro lado, segundo Freire (1996) os saberes necessários à prática docente
exigem, além dos conhecimentos do campo científico da formação do docente,
rigorosidade metódica, curiosidade epistemológica, pesquisa constante, reflexão
crítica sobre sua prática, bom senso, humildade, tolerância, empatia e instrumental
técnico. Daí se acredita que o desempenho do professor, sobretudo com as crianças
no inicio da aprendizagem possa se apresentar mais gratificante e com melhores
resultados.
3 | METODOLOGIA
Pesquisa de campo, com abordagem qualitativa, que conforme Minayo (2010)
se trata de abordagem que responde a questões muito particulares e se ocupa,
nas Ciências Sociais, com um nível de realidade que não pode ou não deveria ser
quantificada e assim, trabalha com o universo dos significados, dos motivos, das
aspirações, das crenças, dos valores e das atitudes.
Para análise, fundamentou-se na proposta da análise de conteúdo de Bardin,
descrita como uma técnica de análise das comunicações, do que foi dito nas
entrevistas ou observado pelo pesquisador como citado por Mozzato e Grzybovski
(2011).
Foram envolvidas 4 professoras dos anos iniciais do ensino fundamental de
uma escola pública municipal, localizada na periferia do município, onde se realiza
atividades do Programa de Iniciação à Docência (PIBID), no Eixo “Monitoria”. A
exclusão foi do 4º ano devido à recusa da professora em participar. Para tanto,
buscou-se dados de informações sobre a turma como número de alunos na turma,
reprovados, quantos não sabem ler e escrever isolados e agrupados de não saber
ler e escrever e se há crianças diagnosticadas com dificuldade de aprendizagem.
Além disso, foram feitas as seguintes questões norteadoras: Na sua percepção,
a que atribui o atraso na leitura e escrita das crianças e qual a concepção para
melhorar este atraso?
As questões foram entregues às professoras que responderam e devolveram,
após assinatura do Termo de Consentimento Livre e esclarecido (TCLE) e das
explicações dos objetivos da pesquisa, e visando garantir o anonimato dos atores
envolvidos designou-se usando nomes de pedras preciosas.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 26
271
4 | RESULTADOS E DISCUSSÕES
Diante da análise dos dados, os resultados apresentaram o total de alunos nas
4 turmas de110, sendo 1 turma com 27 alunos, outra com 33 e 2 outras com 25 alunos
cada uma. Na fase de questões específicas sobre as turmas, considerou-se que um
mesmo aluno pode constar em mais de um dos itens, o que pode ser observado nos
números apresentados em relação a não saber ler, escrever ou ambos, Do total de
alunos, 9 possuíam reprovações, 15 não sabiam ler, 80 não sabiam escrever e 68
não sabiam ler e escrever tendo 9 alunos com diagnóstico de déficit de atenção.
Em termos percentuais, observa-se que 68 (61,8 %) dos alunos não sabem ler e
escrever, o que denota preocupação, principalmente que dos 68 alunos, 30 (44,1%)
se encontram no 3º e 5º ano, onde o esperado é que uma criança que frequenta a
escola desde o 1º ano já tenha certo grau de aprendizagem da leitura e da escrita.
Conhecer estes aspectos foi relevante, pelo muito que se tem escutado em
diversos cenários, que as turmas são superlotadas e que esta seria uma das razões
pela qual os professores não conseguem ter domínio da turma, tanto no sentido da
disciplina, como também na condução de práticas mais estimuladoras para prender
a atenção da criança, ou despertar o interesse das mesmas. Assim como a presença
de crianças com dificuldade de aprendizagem (DA).
Considerando a DA, Fávero e Calsa (2013) diz que requer se pensar
considerando a Teoria das Representações Sociais para vislumbrar a possibilidade
de transformação e modificação de práticas sociais, por meio da análise de práticas
cotidianas escolares.
Na percepção dos professores as principais causas do atraso na leitura e na
escrita das crianças foram devido a:
Falta de ajuda da família, precisamos trabalhar também os pais que são muito
desinteressados. (Ametista)
É o não acompanhamento dos pais e a falta de atenção dos mesmos. (Diamante)
A família por não acompanhar a criança em suas atividades que vai para casa,
sem falar nas reuniões que eles não participam. (Esmeralda)
Ausência da família na escola e no acompanhamento das atividades, a
indisciplina e superlotação de alunos na sala de aula. (Rubi)
Em se tratando da concepção dos professores para melhorar o atraso na
aprendizagem da leitura e escrita foi destacada que:
Na verdade, não são as crianças que devem ser reprovadas não,...quem tem
que ser reprovado são os pais...os professores fazem a parte deles e os pais não
fazem. (Ametista)
Trabalhar os aspectos da leitura e da escrita com ações planejadas com uso de
fichas de leitura, alfabeto móvel, jogos e com a ajuda dos pais. (Diamante)
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 26
272
Para mim, a maior dificuldade é a falta de interesse do próprio aluno, deviam
se interessar. (Esmeralda)
A escola deve levar mais a sério as dificuldades dos alunos e propor e propor
mais ações voltadas para a leitura e desenvolver projetos para amenizar a indisciplina
e até capacitação para os professores. (Rubi)
Observa-se que a maioria dos professores centrou as responsabilidades nos
pais, na família e pouco se considerou fundamental nas tomadas de decisões.
Embora de fato este seja um fator contributivo importante.
Considerando este aspecto, conhecer alguns aspectos da formação do
contexto familiar da criança seria significativo, pois conforme Vieira et al. (2015),
não há mais um padrão de família, e sim uma variedade de padrão familiar,
com identidade própria em constante desenvolvimento, o que requer do professor
conhecer a realidade familiar onde o aluno está inserido, conhecer quais são os
anseios, angustias e necessidades vivenciadas pelos alunos, pois assim poderá
compreender o por que das dificuldades demonstradas no processo da aprendizagem
de modo geral.
Para Freire (1983) alfabetizar é adquirir a prática da escrita pelo processo de
construção do conhecimento, tendo uma visão crítica da realidade, para a conquista
da cidadania. Portanto, não representa apenas conhecer os grafemas e fonemas,
mais dá significado às coisas do seu cotidiano, independente do método ou recursos
e o lúdico deve fazer parte deste contexto.
5 | CONCLUSÃO
Diante dos resultados analisados, concluiu-se que na percepção dos
professores a dificuldade de aprendizagem dos alunos está relacionada principalmente
à ausência dos pais no acompanhamento da vida escolar da criança, seguido da
indisciplina e a da superlotação das turmas. E que a concepção para melhora ou
resolver estas dificuldades seria a ajuda dos pais, do interesse do aluno e da escola
em proporcionar melhores condições para os professores. Praticamente, o professor
se excluiu do contexto da responsabilidade do atraso da leitura e aprendizagem dos
alunos, pois somente uma professora mencionou que o professor deve propor ações
voltadas para a leitura e desenvolver projetos.
Recomendam-se outros estudos para consolidar estes resultados e fomentar
ações educacionais nas escolas sensibilizando os professores como atores
responsáveis pelo processo e subsidiar o poder público na melhoria educacional no
município.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 26
273
REFERÊNCIAS
BRASIL. Ministério da Educação e Cultura (MEC). Diretrizes Nacionais para a educação especial
na educação básica. Secretaria de Educação Especial-MEC; SEESP, 2001. Disponível em: http://
portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/diretrizes.pdf. Acesso em: 03 de maio de 2017.
FÁVERO, Maria Teresa Martins; CALSA, Geiva Carolina. Dificuldades de Aprendizagem? Seminário
de Pesquisa do PPE. Universidade Estadual de Maringá 12 a 14 de Junho de 2013. Disponível em:
www.ppe.uem.br/dissertacoes/2005-Maria_Teresa.pdf. Acesso em: 04 de maio de 2017.
FORMIGA, Nilton; SÁ, Gerônimo; BARROS, Sebastiana. As causas da evasão escolar? Um estudo
descritivo em jovens brasileiros. 2011. Disponível em: www.unitau.br/unindu/artigos/pdf525.pdf.
Acesso em: 12 de maio de 2017.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 13. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: Saberes necessários à prática educativa. (1996).
MINAYO, M.C.S. (org.). Pesquisa social: teoria, método e criatividade. 29. ed. Petrópolis, Rio de
Janeiro: Vozes, 2010. (Coleção temas sociais).
MOZZATO, A. R.; GRYBOVSKI, D. Análise de conteúdo como técnica de análise de dados qualitativos
no campo da administração: potencial e desafios. RAC, Curitiba, v. 15, n. 4, pp. 731-747, Jul./Ago.
2011.
SILVA, Maria J; PAES, da; CASTRO, Freitas; ALIL, de R. (2001). Influências do Comportamento
Comunicativo verbal e não verbal do docente em sala de aula: visão dos alunos e docentes de
enfermagem. Enfermería Global, Nº 3 Noviembre, 2003. Disponível em: www.un.es/eglobal. Acesso
em: 02 de maio de 2017.
VIEIRA, Madalena Rodrigues. Influência da família no processo ensino aprendizagem. (2015).
Secretaria de Estado de Educação, Esporte e Lazer de Mato Grosso. Governo de Estado do Mato
Grosso. Disponível em: http://www.seduc.mt.gov.br/Paginas/Influ%C3%AAncia-da-Fam%C3%ADliano-Processo-de-Ensino-Aprendizagem--.aspx. Acesso em: 10 de maio de 2017.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 26
274
CAPÍTULO 27
doi
PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO PARTICIPATIVO
(PEP) SOB A PERCEPÇÃO DISCENTE QUANTO AOS
OBJETIVOS ESTRATÉGICOS VALIDADOS EM UMA
INSTITUIÇÃO DE EDUCAÇÃO SUPERIOR
Data de aceite: 06/01/2020
Marinalva Pereira dos Santos
Universidade do Estado de Mato Grosso, Campus
de Diamantino
Diamantino – MT
Solange Teresinha Carvalho Pissolato
Universidade do Estado de Mato Grosso, Campus
de Diamantino
Diamantino – MT
Silvana Mara Lente
Universidade do Estado de Mato Grosso, Campus
de Diamantino
Diamantino – MT
Vania de Oliveira Silva
Universidade do Estado de Mato Grosso, Campus
de Sinop
Sinop – MT
Elisangela de Oliveira Silva
Ministério Público Estadual, Cáceres
Cáceres – MT
Odenise Jara Gomes
Secretaria Municipal de Educação de Cáceres,
Supervisão Pedagógica
Cáceres-MT
Elivania Toledo Rodrigues
Universidade do Estado de Mato Grosso,
Faculdade de Ciências da Saúde, Departamento
de Medicina
Cáceres – MT
RESUMO: O objetivo do estudo consiste em
verificar a partir da percepção dos discentes se o
PEP 2015/2025 vigente para todos os Câmpus,
se atende as necessidades regionais na área
de abrangência do Campus Universitário
Francisco Ferreira Mendes, instituição objeto de
pesquisa. Para tanto foi desenvolvido um estudo
qualitativo descritivo, a partir de levantamento
de dados por meio de Escala Likert para que
os discentes acentuassem quanto ao grau
de importância dos objetivos validados. Os
resultados demonstraram que o planejamento
participativo foi de suma importância para a
construção do plano de desenvolvimento da
instituição, pois, demonstra a importância da
participação de toda comunidade acadêmica
nas decisões de interesse da universidade. Para
os resultados alcançados com a escala obtevese que os acadêmicos compreendem em partes
que os objetivos validados como relevantes
para o campus onde estão matriculados. Dado
a diversidade cultural, ambiental e condição
multicampi da instituição em estudo onde
alguns campi estão em processo estruturação
inicial e outros se consolidando em qualidade
de ensino, pesquisa, extensão e inovação
tecnológica, os objetivos passam a serem
diferentes. Neste sentido é compreensível que
na percepção dos acadêmicos participantes do
estudo apontem alguns objetivos validados no
PEP 2015-2025 como não importantes ou de
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 27
275
importância relativa. Embora seja inegável o papel do planejamento participativo na
garantia dos interesses da comunidade acadêmica.
INTRODUÇÃO
Segundo o informativo com os princípios bases para iniciar o PEP 2015-2025
(UNEMAT, 2015) em longo prazo “é possível alcançar o fortalecimento institucional
com: i. Melhoria de qualidade dos bseus serviços; ii. Maior competência na realização
do seu mandato legal; iii. Mais efetividade em suas atividades; iv. Ampliação da
unidade institucional ou diminuição da “fragmentação” (os diferentes atores, partes
interessadas, percebem que o pacto e instrumentos articuladores do planejamento
estratégico é mais benéfico a todos do que às partes); v. Aperfeiçoamento nas
decisões gerenciais (tático-operacionais), com mais objetividade das decisões
presentes e seus alcances futuros; vi. Maior fortalecimento político (maior base social,
mais respeitabilidade externa, reforçando sua “legitimidade como bem social”).
Assim, investigar a percepção dos discentes em relação aos objetivos estratégicos
validados no Planejamento Estratégico Participativo (PEP) da Universidade do Estado
de Mato Grosso (2015-2025) se tornou elementar. Principalmente pela importância do
Planejamento Estratégico, recentemente validado na Unemat, e a preocupação em
relação ao Campus de Diamantino que por ser um campus ainda em estruturação e
em processo de legalização tem uma realidade diferenciada dos demais campus da
universidade, logo, muitos objetivos validados podem não atender ou não atendem
diretamente as necessidades imediatas.
Para Toni (2008, p. 85) “todo planejamento exige racionalidade e flexibilidade.
Há de se considerar as necessidades de adequação dos meios e das estratégias em
prol dos objetivos traçados, considerando que cada variável pode interferir positiva
ou negativamente no final dos processos”. Uma das vertentes do planejamento é
o Planejamento Participativo, que se desenvolveu paralelamente ao planejamento
estratégico. Neste contexto, discussões sobre as dimensões destacadas no
planejamento da instituição reportam a conscientes reflexões quanto ao papel da
universidade e a obrigatoriedade de um plano estratégico que garanta o alcance
dos objetivos e metas propostos, que passeiam deste a atuação docente até a
infraestrutura e inovação tecnológica.
Considerando o ensino como processo de aprender para criar e fazer, é
necessário ter em vista o resultado dessa aprendizagem no desempenho das próprias
organizações. Pensar a teoria e prática de maneira fragmentada e independente tem
resultado em formação deficiente, ou seja, gerando profissionais com dificuldade
de aplicar os conhecimentos adquiridos na Universidade no exercício da gestão
administrativa.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 27
276
É necessário que o professor crie alternativas e métodos para inovar suas
aulas. O discente consegue digerir melhor quando o conteúdo é transmitido de forma
diferente e com interação seja com vídeos, seminários, músicas e/ou materiais
de apoio relacionados ao tema, e não quando o conteúdo é passado de forma
monótona e sem motivação. O profissional da educação também deve estar atento
que as classes é objeto de constante investigação e reflexão para o professor, se
este estiver atento a dinâmica do ambiente, saberá que precisa ser modificado ou
reelaborado sempre que necessário e de acordo com as necessidades dos discentes
ou do conteúdo em destaque.
Não se trata de fazer de cada acadêmico um pesquisador profissional, mas um
profissional pesquisador, quer dizer, que sabe manejar as virtudes metodológicas
e sobretudo pedagógicas da pesquisa. Para renovar adequadamente os reptos
profissionais num mercado escorregadio e submetido a processos violentes e
geralmente muito dúbios de inovação, é 10 fundamental saber reconstruir a proposta
profissional.
Segundo Fonseca (2003, p. 43) “diversificar as fontes utilizadas em sala de
aula tem ido o grande desafio dos professores na atualidade”, por isso é essencial
adequar o professor às inovações tecnológicas e que o mesmo possa utilizar toda
esta informação em suas aulas. É fundamental que a universidade adote dinâmicas,
acompanhe e incentive mudanças em função das suas necessidades e de seus
objetivos, se constituindo como uma instituição.
Nota-se no diz respeito a qualificação do quadro de docente é muito importante,
pois vem a promover a interdisciplinaridade no desenvolvimento de projetos
de ensino, pesquisa e extensão relevantes a sociedade nas diversas áreas do
conhecimento. Onde capacitar, qualificar e atualizar o professor pedagogicamente
vem contribuir com a didática do mesmo em sala de aula. No entanto, de acordo com
a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) em seu artigo 52 diz “pelo menos 1/3 do quadro
de docentes necessitam ter o título de mestrado ou doutorado para que a instituição
seja reconhecida como universidade, e estes em regime integral”.
Os conteúdos se consomem no tempo, enquanto a habilidade de saber
pensar necessita manter-se viva, mais que nunca. Se não sabe pesquisar, não
sabe questionar. Não sabendo questionar, não sabe ultrapassar os impasses
inevitáveis que toda profissão encontra em sua prática. Assim, o mais importante
hoje na pesquisa não é o manejo de instrumentos metodológicos, mas o manejo dos
desafios inovadores e por vezes surpreendentes da vida. Saber pensar é ótimo para
o mercado, mas é ainda mais essencial para a vida (DEMO, 2000).
Destaca-se ainda que “[...] à medida que interagem com seus ambientes, as
organizações absorvem informações, transformam-nas em conhecimento e agem
com base numa combinação desse conhecimento com suas experiências, valores e
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 27
277
regras internas. ” (DAVENPORT; PRUSAK, 1998, p.1).
Bem como, o uso dos recursos tecnológicos como meio facilitador do processo
de aprendizagem e veiculação das informações, tem como principal objetivo o
desenvolvimento educacional. Permitem uma nova linguagem para enfrentar a
metodologia dos professores em relação aos processos de ensinar e aprender,
dando maior ênfase, a capacidade de aprender, novas habilidades, de assimilar
novos conceitos, de avaliar novas situações, exercitando a criatividade.
PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
Trata-se de um estudo qualitativo que segundo Menga apud Marconi e Lakatos
(1986, p. 18) é aquele que se: “[...] desenvolve numa situação natural: é rico em
dados descritivos, tem um plano aberto e flexível e focaliza a realidade de forma
complexa e contextualizada. ” O qual se desenvolveu por meio de levantamento
documental, bibliográfico e de campo tendo como população e amostra do estudo o
que se segue na tabela 01:
Discentes
População
Amostra
Curso de Direito
439
120
Curso de Administração
274
96
Curso de Enfermagem
240
80
Curso de Educação Física
210
52
Tabela 1. População 1.163 discentes e amostra 348 discentes
Fonte: Elaborado pela autora (2017)
Neste sentido, foram levantados dados por meio de registro documental, a saber
o PEP-UNEMAT 2015-2025, dados estes correspondentes aos objetivos validados,
os quais subsidiaram a construção da Escala Likert utilizada para a aferição de
valores quanto a importância de cada objetivo para a realidade loco regional do
Campus de Diamantino.
Destaca-se ainda a utilização do método hermenêutico e da análise de conteúdo,
método utilizado em vários momentos da análise dos dados coletados tendo como
instrumento principal de análise o Relatório Final do PEP 2015/2025, onde foram
validados os objetivos estratégicos pela UNEMAT para os 13 Campus que compõem
a instituição seguido dos resultados apresentados na coleta dos dados.
RESULTADOS E DISCUSSÕES
Os resultados foram alcançados com a aplicação do questionário com Escala
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 27
278
Likert como instrumentos para coletas de dados para conhecer a percepção dos
discentes a respeito dos indicadores: discente, docente, Ensino e currículo, gestão,
infraestrutura, e, tecnologia e inovação.
PRAZO
CURTO
MÉDIO
LONGO
DIMENSÃO: DISCENTE
VALOR ATRIBUIDO
IM
I
MI
Melhorar a Assistência Estudantil
41
102
205
Definir ações de combate à evasão
191
97
60
101
161
Potencializar a relação teoria x prática
76
86
186
Fortalecer políticas de nivelamento dos calouros
130
138
80
Fortalecer as políticas de ingresso, permanência,
conclusão
NI
IR
86
Estimular a convivência e lazer nos Câmpus
Aprimorar as formas de ingresso
49
98
120
81
Aprimorar práticas construtivas na formação do
profissional
87
205
46
10
Consolidar a participação em projetos sobre a
interação entre o ser humano e o ambiente.
38
39
98
173
Criar estruturas de atendimento aos universitários.
13
30
102
203
Quadro 1. Dimensão discente - objetivos estratégicos validados
LEGENDA: (NI) Não Importante; (IR) Importância Relativa; (IM) Importância Média; (I) Importante e (MI) Muito
Importante. Fonte: Própria autora (2017).
Totalizaram trezentos e quarenta e oito (348) discentes respondentes. Os
resultados como demonstrado no Quadro 01 apontaram pontos relevantes a serem
analisados: Os acadêmicos têm plena convicção que políticas estratégicas quanto
a melhoria da assistência estudantil e relação entre teoria e prática são Muito
Importante, seguida da necessidade de definição de ações de combate à evasão
considerando de Importância Média. Percebe-se que há uma compreensão quanto
ao papel da universidade em assistir os acadêmicos por meio de novas formas de
acesso e garantia de permanência, vendo como ponto frágil a evasão acadêmica.
Estes resultados vêm ao encontro do apontado por Costa (2013) quanto à
gestão pública que deve primar pela redução dos gargalos na educação superior,
incluindo a qualidade acadêmica, o que engloba o ingresso e permanência no
curso, exigindo assim políticas de assistência estudantil acirradas. Fica claro que os
próprios acadêmicos relatam a importância dos objetivos validados. Incluindo aqui
os resultados alcançados para médio prazo, quanto ao nivelamento dos acadêmicos
assinalaram ser importante (138) bem como as formas de ingressos.
Para os discentes é de importância média (205) as práticas de formação
profissional e muito importante (203) e (173) respectivamente o atendimento ao
universitário e ações envolvendo o homem e a natureza. Já dizia Meister (1999)
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 27
279
sobre a tendência da universidade em ampliar a capacidade de formação profissional,
inclusive frente processo competitivo que atingiu as instituições de educação superior.
Quanto a dimensão docente, os acadêmicos sinalizaram em sua maioria
concordância quanto aos objetivos validados no PEP Unemat 2015-2025, observe o
quadro 2:
DIMENSÃO DOCENTE
VALOR ATRIBUIDO
PRAZO
NI
IR
IM
I
MI
Aprimorar desenvolvimento de práticas construtivas formação do profissional.
10
20
181
98
39
Consolidar participação em projetos entre o ser humano e
o ambiente.
20
02
140
46
120
Criar estruturas de atendimento aos universitários
03
21
23
98
223
02
124
91
131
09
39
191
100
02
20
138
198
Capacitação contínua pedagógica para todos os professores
CURTO
Aprimorar mecanismo de avaliação docente.
18
Dar condições de trabalho adequadas ao corpo docente
universitário.
MÉDIO
LONGO
Regulamentação dos professores atuando em cargo de
Gestão.
193
80
69
06
Regulamentar a relação entre os docentes da UNEMAT e a
sociedade
113
71
97
48
15
Ampliar o quadro de docentes efetivos.
06
07
89
104
146
Promover a interdisciplinaridade no desenvolvimento de
projetos
70
90
19
71
98
Aumentar a participação em conselhos externos.
198
60
31
59
0
Capacitar, qualificar e atualizar pedagogicamente os
docentes.
02
30
18
86
212
Promover a divulgação das ações de ensino, de pesquisa
e de extensão
07
71
89
181
Garantir a qualificação profissional
04
136
112
96
Criar fóruns de políticas públicas - referência regional,
nacional e internacional
203
91
54
Desenvolver políticas de parceria público-público e ou
público-privado.
39
49
181
69
86
73
110
49
Consolidar a interlocução da formação inicial com a
educação básica
30
Quadro 2. Dimensão docente - objetivos estratégicos validados
LEGENDA: (NI) Não Importante; (IR) Importância Relativa; (IM) Importância Média; (I) Importante e (MI) Muito
Importante. Fonte: PEP UNEMAT 2015-2025, organizado pela autora, 2017.
O quadro 2, num panorama geral entre os objetivos de curto, médio e longo
prazo fica demonstrado que sete (7) objetivos foram destacados pelos acadêmicos
como muito importante com destaque no atendimento aos universitários (223),
condições de trabalho docente (198) e divulgação das ações de ensino, pesquisa
e extensão (181). Prosseguem os acadêmicos valorizando a articulação em prol do
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 27
280
corpo discente tanto para acolhimento como para garantia de profissionais habilitados
para atuarem como corpo docente. Esta preocupação Davenport e Prusak (1998) já
assinalava quando afirma que a organização precisa interagis com seu ambiente.
Esta é uma oportunidade de absorvem informações transformando-as em valores.
Na compreensão dos discentes foram destacadas três (3) importância média a
saber para busca de práticas construtivas na formação profissional (181), projetos
articulados com o meio ambiente (140) e garantia de qualificação docente (136).
Estes pontos são de extrema relevância em qualquer realidade acadêmica.
Agora, em um (1) objetivo os discentes assinalaram de importância relativa, o que
se fere a fóruns de políticas públicas (203). Cabe ainda destacar que para os discentes
três (3) objetivos não são importantes; que correspondem às regulamentações e
participação em conselhos externos. Vale acrescentar por Fonseca (2003) que aos
docentes recai um grande desafio na atualidade, inclusive é fundamental que a
universidade adote dinâmicas para atender interesses dos alunos.
No campo da dimensão ensino e currículo, seguem no quadro 03 os resultados
alcançados:
VALORES ATRIBUIDOS
PRAZO
DIMENSÃO: ENSINO E CURRÍCULO
NI
CURTO
IR
IM
I
MI
Qualificação e capacitação do quadro docente
55
102
102
89
Direcionar esforços para consolidar os cursos existentes
130
86
103
29
Otimizar o sistema de créditos para facilitar a conclusão do curso
pelo aluno
49
17
151
131
39
96
102
101
139
186
23
Propor alterações da estrutura curricular - resolução de deficiência
educacional no ingresso
10
Promover a inovação curricular
MÉDIO
Flexibilizar o currículo respeitando a interdisciplinaridade e a
acreditação das disciplinas - inserção de práticas metodológicas
inovadoras e a consolidação das políticas de inclusão.
86
39
131
92
Inserção e uso de tecnologias de ponta previstas em PPC do
curso que viabilizem disciplinas
102
31
98
117
86
06
156
85
92
92
204
102
43
Adequação dos espaços para convivência teórico-prático fora do
ambiente da sala de aula.
Ser excelência na qualidade do ensino em áreas estratégicas
definidas pela UNEMAT
LONGO
79
Consolidar o ensino de graduação-implementação de pósgraduação nos campus/faculdades.
Tornar-se referência no oferecimento de cursos nas modalidades
diferenciadas.
Quadro 3. Dimensão: Ensino e currículo - objetivos estratégicos validados
LEGENDA: (NI) Não Importante; (IR) Importância Relativa; (IM) Importância Média; (I) Importante e (MI) Muito
Importante. Fonte: PEP UNEMAT 2015-2025, organizado pela autora, 2017.
Dos objetivos destacados no quadro 3, num total de três (3) foram considerados
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 27
281
pelos acadêmicos como muito importante para o Campus de Diamantino, os quais
estão ligados a espaços teórico prático (156), inserção de tecnologias (117) e
busca de excelência de ensino (92). Tudo se reporta a fomentar a liberdade de
aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, a ciência, o pensamento, a arte e
o saber; fomentar o pluralismo de ideias nas concepções pedagógicas, científicas,
tecnológicas, culturais, artísticas e esportivas e valorização do pessoal técnicoadministrativo e docente.
Destaca-se ainda seis (6) objetivos considerados pelos acadêmicos importantes
para o campus que correspondem qualificação profissional (102), inovação curricular
(186), sistema de crédito (151), consolidação da graduação com a pós-graduação
(204). Para todos os objetivos destacados há uma emergente necessidade de serem
desenvolvidos no campus o que possivelmente levaria a troca de médio e longo
prazo para curto prazo.
Seria interessante também que o próprio Campus Universitário oferecesse
treinamento ou mesmo formação continuada para estes docentes contratados,
qualificá-los para ministrar suas aulas com qualidade, e saber utilizar dos recursos
disponível na universidade a seu favor.
Possibilitar maior acesso a programas de pós-graduação entre instituições
parceiras, incentivar a troca de saberes entre culturas, estender os relacionamentos
da Universidade com outras Instituições de Ensino.
Evidenciar o protagonismo da sociedade em concomitância com a comunidade
acadêmica e desenvolver ações que favoreçam a efetividade da integração da
universidade pública com a sociedade é uma das preocupações da gestão, observe
o quadro 4:
VALORES ATRIBUIDOS
PRAZO
DIMENSÃO: GESTÃO
NI
CURTO
IR
IM
I
MI
Capacitar os gestores
25
101
131
91
Revisar/Criar normas e procedimentos que regulamentam a
Unemat, reduzindo burocracia
38
140
91
79
Proporcionar maior acessibilidade às informações.
45
101
203
Incentivar a inovação tecnológica.
108
96
144
Fortalecer a imagem e os canais de comunicação da Instituição;
90
36
114
108
Estabelecer políticas para garantir a qualidade no ensino,
pesquisa e extensão nos cursos já existentes.
02
107
36
203
41
96
201
13
8
101
90
96
98
36
5
Ampliar gestão participativa e inovadora, buscar efetivamente o
saneamento de problemas e primar pela excelências das ações
por meio do Planejamento Estratégico Participativo.
Promover políticas de inserção da comunidade na Unemat e da
Unemat na comunidade.
Proporcionar maior autonomia e participação.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
41
Capítulo 27
282
MÉDIO
Fortalecer as atividades das políticas de planejamento
institucional.
34
198
61
36
Intensificar a comunicação com o governo do estado.
41
38
139
161
Estabelecer uma política de preservação do meio ambiente.
31
42
40
201
Buscar alternativas de fomento.
191
86
71
198
105
38
Desenvolver Política de Sustentabilidade da UNEMAT.
15
198
98
23
Implementar Setores Recursos Tecnológicos e incentivar as
iniciativas de criação de novas tecnologias.
161
101
60
26
Aprimoramento dos projetos: atuar em consonância com os
anseios diretos da comunidade onde está inserida, promovendo
a participação da comunidade acadêmica
LONGO
06
Quadro 4. Dimensão: gestão - objetivos estratégicos validados
LEGENDA: (NI) Não Importante; (IR) Importância Relativa; (IM) Importância Média; (I) Importante e (MI) Muito
Importante. Fonte: PEP UNEMAT 2015-2025, organizado pela autora, 2017.
Para a dimensão gestão, como observado no quadro 4 acima, os acadêmicos
assinalaram seis (6) como muito importante para o campus abrangendo objetivos
voltados para acessibilidade às informações e políticas de garantia (203); preservação
do meio ambiente e gestão participativa e inovadora (201), articulação com governo
(161) e inovação tecnológica (144). Os demais variam entre importantes, de
importância média e importância relativa.
O ambiente educacional não pode ser visto apenas como uma realidade isolada
como se fosse uma cabine fechada, deve ser um ambiente com uma visão sistêmica
como um todo, segundo Moraes (1997) o que é feito na sala de aula não deve ser
feito para a sala de aula, mas para a vida. Assim, os objetivos destacados pelos
acadêmicos como importante estão diretamente relacionados a responsabilidade da
gestão para a garantia desta formação integral do profissional egresso.
Ao que se apresenta os acadêmicos destacaram objetivos que reforçam uma
gestão participativa inovadora com foco no resultado e na responsabilidade social,
não sendo diferente para todos campus da universidade. Com vista a contribuir para
qualidade do ensino e serviços, fomentação de projetos de pesquisa e extensão e
implantação de cursos de pós-graduação. O que vem ao encontro do argumento
apresentado por Demo (2000) quando trata dos desafios inovadores e que por vezes
são essenciais não apenas para o mercado e sim para a vida.
No tocante a dimensão infraestrutura os resultados apontaram uma variação
marcante inclusive com apontamentos de serem objetivos não importantes e
importância relativa, observe o quadro 5:
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 27
283
VALORES ATRIBUIDOS
PRAZO
DIMENSÃO: INFRAESTRUTURA
I
MI
71
139
120
18
90
113
Descartar resíduos de forma correta e contínua
39
131
191
31
Elaborar plano para construção, estruturação e manutenção para
atender ensino, pesquisa, extensão, cultura e gestão.
09
131
91
117
Dar manutenção imediata (TI) para atender as demandas de
sistemas e comunicações -IES
NI
IR
IM
13
86
196
18
Disponibilizar acesso à internet com eficiência em todo os ambientes
da UNEMAT.
Otimizar as políticas de TI
CURTO
127
Aprimorar o controle e a divulgação do parque patrimonial de
equipamentos
201
55
70
25
Estabelecer política de depreciação, reposição e atualização de
bens móveis.
09
131
91
198
03
Ter sistema de controle, gestão e serviços acadêmicos - interface
padronizada e descentralizado
111
135
51
49
03
Adquirir e dar manutenção de equipamentos de informática e
servidores de dados.
05
10
86
130
126
Ter áreas experimentais para aulas de campo
61
107
131
36
Adequar o sistema de saneamento básico, rede elétrica e de
drenagem dos campus
201
39
70
26
Disponibilizar casa do estudante e restaurante universitário
235
15
103
Melhorar a área de estacionamento dos campus
205
111
32
191
120
Adquirir os livros da bibliografia básica de novos cursos antes de
sua implantação.
MÉDIO
LONGO
38
Aplicar um plano de segurança para os 13 câmpus.
161
145
42
Ampliar os auditórios para eventos que envolvem a comunidade
acadêmica e sociedade.
31
12
68
248
Implementar gestão da frota interna.
36
71
131
86
Ter instalada rede de fibra óptica interligando todos os câmpus e
estar consolidada a política de expansão dos serviços e centros de
dados de cada câmpus, integrando a UNEMAT com a RNP - Rede
Nacional de Pesquisa
12
49
39
240
Ter amplos espaços - infraestrutura (planejamento arquitetônico
moderno e sustentável)
09
13
79
231
13
39
112
96
Consolidar os espaços adequados nos câmpus para a prática de
artes em cursos e em eventos culturais abertos à comunidade.
49
Quadro 5. Dimensão: Infraestrutura - objetivos estratégicos validados
LEGENDA: (NI) Não Importante; (IR) Importância Relativa; (IM) Importância Média; (I) importante e (MI) Muito
Importante. Fonte: PEP UNEMAT 2015-2025, organizado pela autora, 2017.
Quanto a dimensão infraestrutura os resultados apontam que os acadêmicos
percebem muito importante a ampliação de auditórios (248), instalação de rede de
fibra óptica (240) e espaços arquitetônicos modernos e sustentáveis (231). Como
importante descarte correto de resíduos (191), política de uso bens móveis (198),
eficiência no acesso à internet (139), área experimentais e gestão de frota (131), e,
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 27
284
manutenção de equipamentos (130).
Destaca-se como não importante controle de parque patrimonial (201), políticas
de TI (127); seguido de cinco (5) objetivos elencados como de importância relativa
a saber casa do estudante e restaurante universitário (235), estacionamento (205) e
estrutura básica de saneamento (201) dentre outros.
Tem-se que o planejamento estratégico como descreve Toni (2008) deve ser
flexível e racional, assim acredita-se que este ponto possa ser aplicado no contexto
do campus caso seja manifestação de toda comunidade acadêmica, para que seja
possível flexibilizar os objetivos que não são prioridades para o campus.
Em um contexto planejado e em comum a comunidade identifica e prioriza
os problemas, formula estratégias concretas de seu enfrentamento e encontra
caminhos alternativos e propostas de negociação, onde a organização do grupo é a
estratégia para os dois passos anteriores. Sendo passível também de adequações
e reformulação.
VALORES ATRIBUIDOS
PRAZO
DIMENSÃO: INOVAÇÃO TECNOLÓGICA
NI
IR
IM
I
113
91
93
49
91
89
Agências de fomento, comunidade acadêmica e iniciativa privada.
23
39
201
71
Fortalecer as estruturas que garantem a inovação tecnológica
31
121
131
96
05
139
90
103
79
13
12
69
193
19
13
186
96
13
49
36
98
49
81
18
81
39
19
190
09
97
91
102
31
Fortalecer as políticas de incentivo à inovação tecnológica no currículo. 12
Propor Políticas de incentivo a pesquisa e investimento em inovações
tecnológicas, com a participação do governo,
CURTO
Otimizar as políticas de TI, visando o aprimoramento, atualização,
PRAZO
qualificação e usabilidade dos recursos.
Inserir a UNEMAT nas ações do NIT no Parque Tecnológico
Criar e disponibilizar ferramentas para a melhoria do ensino a distância
da UNEMAT
Ampliar a pesquisa com vistas ao desenvolvimento científico,
tecnológico e de inovação no estado de MT.
Consolidar recursos, parcerias e políticas de pesquisas para novas
tecnologias
Consolidar políticas de incentivo para pesquisas de inovação
39
MI
MÉDIO
tecnológica nos diversos cursos
PRAZO
Estimular políticas de incentivo à parceria público-privado
02
210
35
98
Ter políticas de TI consolidadas.
192
18
120
25
79
39
49
91
89
87
205
46
10
10
201
98
39
126
131
61
Estreitar o relacionamento institucional com setores, apresentar seus
produtos e identificar potencialidades tecnológicas e humanas
Fomentar plano de política pública estadual de inovação tecnológica e
polos tecnológicos.
LONGO
PRAZO
Garantir propostas inovadoras para as ações governamentais.
Propor e acompanhar políticas de incentivo à pesquisa, criando fundos
próprios para este fim.
21
Quadro 6. Dimensão: Tecnologia e inovação - objetivos estratégicos validados
LEGENDA: (NI) Não Importante; (IR) Importância Relativa; (IM) Importância Média; (I) importante e (MI) Muito
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 27
285
Importante. Fonte: PEP UNEMAT 2015-2025, organizado pela autora, 2017.
Quanto a dimensão e inovação tecnológica destacam-se como de relevância
para o campus segundo os discentes apenas dois (2) objetivos muito importantes;
NIT no Parque Tecnológico (193) e, Recursos para novas tecnologias (190). Os
demais se mesclam entre importante, importância média, relativo e não importante.
Cabe destacar em linhas gerais que no processo de gestão institucional
da universidade pública, a partir da constituição de 1988, os antigos métodos
paternalistas e autoritário de tomada de decisão foram substituídos pelas práticas e
métodos democráticos e participativos, em que a comunidade acadêmica visualiza
de forma transparente e toma iniciativas por meio de grupos de múltiplas atuações
dentro da universidade. Esse processo é um reconhecimento de que a comunidade
tem direito de participar ativamente no processo de construção do Planejamento
Estratégico Participativo.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O Planejamento Estratégico existe com o objetivo de propor ações planejadas,
onde a gestão é menos subjetiva, integrada e apresenta menos conflitos, sempre
objetivando os interesses da Universidade pública. E neste caso, na Universidade
do Estado de Mato Grosso, demonstra a importância da participação de toda
comunidade acadêmica nas decisões de interesse da universidade.
Sabe-se que o PEP da instituição foi construído com a participação de toda
comunidade acadêmica acontecendo com marcantes seminários de discussões
e debates para se aparelhar um modelo ideal de planejamento para a instituição.
Porém, pontos como os elencados neste estudo, como é o caso do campus de
Diamantino, diverge dos demais campus consolidados da universidade. Assim
compreende-se que os objetivos para um campus em efetivação e estruturação são
diferentes de um campus consolidado.
Neste sentido é compreensível que na percepção dos acadêmicos participantes
do estudo apontem alguns objetivos validados no PEP 2015-2025 como não
importantes ou de importância relativa. Embora seja inegável o papel do planejamento
participativo na garantia dos interesses da comunidade acadêmica.
REFERÊNCIAS
BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Lei número 9394, 20 de dezembro de
1996. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/ leis/L9394.htm>. Acesso em: 17 mar. 2017.
COSTA, J. S. Cor em movimento: um estudo de caso sobre a vida do projeto pré-vestibular gerido
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 27
286
pela UNEMAT no município de Cáceres-MT. 2013. 163f. Dissertação (Mestrado em Educação). –
Universidade Federal de Mato Grosso, Instituto de Educação, Cuiabá, 2013.
DAVENPORT, T. H., PRUSAK, L. Conhecimento empresarial. Rio de Janeiro: Campus, 1998.
DEMO, P. Conhecer & aprender: sabedoria dos limites e desafios. Porto Alegre: Artmed, 2000a.
FONSECA, S. G. Didática e prática de ensino de história. 11.ed. Campinas, SP: Papirus, 2003.
LAKATOS, E. M.; MARCONI, M. A. Fundamentos metodologia científica. 4.ed. São Paulo: Atlas,
2011.
MASSETTO, M. T. Didática: A aula como centro. São Paulo: FTD, 1997.
MEISTER, J. C. Educação corporativa. São Paulo: Makron Books, 1999.
MELLO, G. N. de. Formação inicial de professores para a educação básica: uma (re) visão radical.
São Paulo Perspectiva, São Paulo, v. 14, n. 1, mar. 2000.
MORAES, A. S. F. A universidade brasileira no final do século XX e o mercado de trabalho. Educação
Brasileira, v. 19, n. 38, p. 73-91, 1997.
TONI, J. Planejamento Participativo: possibilidades metodológicas alternativas. Disponível em:
<http://www.escoladegestao.pr.gov.br/arquivos/File/Material_%20 CONSAD/paineis_II_congresso_
consad/painel_14/planejamento_participativo_possibilidades_metodologicas_alternativas.pdf >.
Acesso em: 08 maio 2016.
UNIVERSIDADE DO ESTADO DE MATO GROSSO (UNEMAT). Planejamento Estratégico
Participativo 2015-2025: planejar, participar, concretizar. [Documento Final]. 2016. Disponível em:
<http://portal.unemat.br/media/ files/Documento%20Final%20PEP%20CONSUNI%20-10-10-16.pdf>.
Acesso em: 13 maio 2017.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 27
287
CAPÍTULO 28
doi
PARA QUE SE ESCREVE NA ESCOLA?
Data de aceite: 06/01/2020
Leonarlley Rodrigo Silva Barbosa
Mestre em Ensino na Educação Básica pela
Universidade Federal de Goiás/UFG, especialista
em Educação para a Diversidade e Cidadania
pela UFG e graduado em Pedagogia pela mesma
instituição. Professor da Rede Municipal de
Ensino de Goiânia – GO.
Maria Alice de Sousa Carvalho Rocha
Professora Adjunta da Universidade Federal de
Goiás do Centro de Ensino e Pesquisa Aplicada à
Educação, Goiânia – GO.
RESUMO: Este trabalho vincula-se à pesquisa
Arte, psicanálise e educação: os procedimentos
estéticos do cinema e as vicissitudes da infância
(UFG/PUC Goiás e UEG), que tem como
proposta principal problematizar questões
sobre linguagem e sujeito. Assim, este relato
tem como objetivo discutir o ensino de língua
portuguesa nos anos iniciais da Educação
Básica. Inicialmente, procura-se problematizar
a relação ensino e língua, a partir da observação
de práticas docentes no encaminhamento das
atividades de leitura e escrita, desenvolvidas em
sala de aula. Na sequência, apresenta-se uma
diferenciação entre informação e experiência.
Para terminar, o texto traz produções escritas,
realizadas por alunos em sala de aula, com o
foco voltado para o uso da palavra.
PALAVRAS-CHAVE:
Língua Portuguesa.
Ensino.
Linguagem.
WHAT IS WRITTEN FOR IN SCHOOL?
ABSTRACT: This work is linked to the research
Arte, psicanálise e educação: os procedimentos
estéticos do cinema e as vicissitudes da
infância (UFG / PUC Goiás and UEG), which
main purpose is to explore matters regarding
language and the subject. Thus, this report
aims to discuss Portuguese language teaching
in the early years of Basic Education. Initially,
we seek to problematize the relation between
teaching and language from the observation
of teaching practices concerning reading and
writing activities developed in the classroom.
Subsequently, a differentiation between
information and experience is established. At
last, the text features written productions made
by students in class, focussing on the use of the
word as experience and creation.
KEYWORDS: Teaching. Language. Portuguese
Language.
1 | INTRODUÇÃO
Aula de Língua Portuguesa. As crianças
entram na sala de aula e se sentam. A
professora solicita o livro didático da disciplina,
indica a página e orienta a atividade a ser
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 28
288
desenvolvida. As crianças cumprem a tarefa. A professora, no quadro-giz, corrige e
depois passa de carteira em carteira dando visto no caderno. As crianças guardam
os materiais na mochila e aguardam o momento de ir para casa. O sino bate e,
alegres, elas saem.
Essa rotina descreve o que se passa em muitas aulas de Língua Portuguesa.
Foi esse o cotidiano que encontramos ao acompanhar e observar as aulas dessa
disciplina em algumas das escolas públicas por onde passamos. Embora saibamos
que existem muitas outras práticas escolares diferenciadas, notamos o quanto
esta, que foi relatada anteriormente, se repete. Esse tipo de prática merece ser
problematizada, afinal, para que se escreve na escola? Que concepções de sujeito,
de linguagem e de língua sustentam esse tipo de vivência? Ela promoveria uma
experiência de escrita? Seria capaz de favorecer a criatividade e a produção de
sentidos? São essas questões que procuraremos discutir neste texto, utilizando como
ilustração algumas atividades realizadas pelos alunos do Ensino Fundamental da
Educação Básica, publicados no site Folhinha Aplicada que é um Projeto de Extensão
realizado no Centro de Ensino e Pesquisa Aplicada à Educação da Universidade
Federal de Goiás sob a coordenação da Profa. Maria Alice de Sousa Carvalho Rocha
e do qual sou membro efetivo. Site: www.folhinhaaplicada.com (ISSN 2595-0576).
2 | INFORMAÇÃO NÃO É EXPERIÊNCIA
Vivemos em um mundo que valoriza as informações e não as experiências,
como bem observa Larrosa (2002) no artigo Notas sobre a experiência e o saber
de experiência. Nesse texto, o autor relembra Walter Benjamim que, já no início do
século XX, denunciava um movimento de declínio da experiência. Segundo Larrosa
(2002), esse movimento, do qual fala Benjamim, tem ganhado mais espaço em
nossa sociedade moderna, principalmente por ter o capital como força motivadora.
Fazer o mundo girar em torno desse bem incentiva práticas educativas que priorizam
seus imperativos, como, por exemplo, a produção de mercadorias, o consumismo, a
informação, o excesso de trabalho e o pouco tempo. Isso porque o que interessa é
um sujeito que atenda às demandas, sempre atualizadas, do capital. Segundo ele,
nessa sociedade, o sujeito:
Além de ser um sujeito informado que opina, além de estar permanentemente
agitado e em movimento, é um ser que trabalha, quer dizer, que pretende conformar
o mundo, tanto o mundo “natural” quanto o mundo “social” e “humano”, tanto a
“natureza externa” quanto à “natureza interna”, segundo seu saber, seu poder e
sua vontade. [...] é animado por portentosa mescla de otimismo, de progressismo
e de agressividade: crê que pode fazer tudo o que se propõe (se hoje não pode,
algum dia poderá) e para isso não duvida em destruir tudo o que percebe como um
obstáculo à sua onipotência. (LARROSA, 2002, p. 24, aspas do autor)
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 28
289
Assim, não nos causa surpresa a rotina das aulas de Língua Portuguesa que
observamos. Tanto que as políticas educacionais em formas de leis e/ou documentos
incentivam esse tipo de prática, pois, como observa Neves (2005), desde a década
de 1990, o Brasil serve-se do modelo econômico hegemônico neoliberal para
implementar os processos pedagógicos ocorridos na escola.
Exemplo disso é o documento intitulado Parâmetros Curriculares Nacionais de
Língua Portuguesa (PCNLP), que serve como referência para os projetos de ensino
dessa área nas escolas brasileiras. Muitos estudos, entre eles o de Rocha e Rodrigues
(2016), apontam a ênfase no estudo da Língua Portuguesa pelo viés pragmatista,
que apenas explora conteúdos informacionais e habilidades de competência “no
sentido de conhecer e aplicar os distintos usos da língua por meio de exercícios de
metacognição e/ou metalinguagem” (ROCHA; RODRIGUES, 2016, p.4).
Além disso, Alcântara e Stieg (2016), ao discutirem a última versão da proposta
de estabelecimento de uma Base Nacional Comum Curricular (BNCC), observam
esse mesmo direcionamento. A BNCC foi encaminhada recentemente para o
Conselho Nacional de Educação tomar as devidas providências. Entretanto, segundo
a análise dos autores, em relação ao componente curricular de Língua Portuguesa,
há ainda uma ênfase no caráter instrumental da língua. Segundo eles, o modelo
curricular, apresentado até agora, tem como objetivo principal facilitar as avaliações
oficiais do governo a fim de atingir a meta prevista para 2021 (média 6,0 no Índice
de Desenvolvimento da Educação Básica – Ideb).
De certa forma, tanto nos documentos oficiais quanto nas práticas, o trabalho
com a Língua Portuguesa enfatiza conteúdos isolados, privilegia normas linguísticas
em detrimento de uma experiência de linguagem. São muitos textos apresentados,
uma grande variedade de exercícios, mas aplicados em função de informar e em
explorar aspectos menores da língua. Esse procedimento sugerido, e muitas vezes
alimentado, produz um tipo de sujeito, o da informação e, como diz Larrosa:
O sujeito da informação sabe muitas coisas, passa seu tempo buscando
informação, o que mais o preocupa é não ter bastante informação; cada vez sabe
mais, cada vez está melhor informado, porém, com essa obsessão pela informação
e pelo saber (mas saber não no sentido de “sabedoria”, mas no sentido de “estar
informado”), o que consegue é que nada lhe aconteça. (LARROSA, 2002, p. 21-22)
Se a escola prioriza conteúdos e treinamentos a fim de atender às exigências
políticas, que têm uma visão mais imediatista do processo educacional, não se
constitui um leitor e nem um escritor. O professor fica impedido de fazer um trabalho
diferenciado por ter que cumprir a matriz curricular, em função de que seu aluno será
avaliado segundo o que ela recomenda. Verificamos que a maioria dos sujeitos que
passam pela escola, depois de anos nesse tipo de ensino, não leem e não escrevem,
não usam a palavra com toda a potencialidade que ela tem. Essa é a consequência
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 28
290
de um ensino voltado apenas para a informação.
O que vimos, nessas aulas, não afeta o sujeito, pois as informações que ele
obteve não o fazem relacioná-las com suas experiências e nem produzir outras. De
acordo com Larrosa (2002), o sujeito da experiência é aquele que está aberto para
aprender, para buscar e para experenciar a palavra. A palavra diz o mundo, mas
também o produz. Assim, a linguagem não é apenas um sistema abstrato e um mero
meio de comunicação que permitiria o acesso e a interação social. Ela é mais que
isso, ela constitui nossa subjetividade. Segundo Larrosa (2002):
E isto não significa que o homem tenha a palavra ou a linguagem como uma coisa,
ou uma faculdade, ou uma ferramenta, mas que o homem é palavra, que o homem
é enquanto palavra, que todo humano tem a ver com a palavra, se dá em palavra,
está tecido de palavras, que o modo de viver próprio desse vivente, que é o homem,
se dá na palavra e como palavra. (LARROSA, 2002, p. 21)
Na infância, a brincadeira tem esse papel. Quando uma criança brinca,
ela reordena as impressões que adquiriu, reelaborando-as e constituindo uma
experiência. Sobre isso, Rodari (1982) explica:
A brincadeira, o jogo, não é uma simples recordação de impressões vividas;
mas uma reelaboração criativa delas, um processo pelo qual a criança combina
entre si os dados da experiência no sentido de construir uma nova realidade,
correspondente às suas curiosidades e necessidades. Todavia, exatamente
porque a imaginação trabalha apenas com materiais colhidos na realidade (e por
isso pode ser maior no adulto), é preciso que a criança, para nutrir sua imaginação
e aplicá-la em atividades adequadas que lhe reforçam as estruturas e alongam os
horizontes, possa crescer em um ambiente de impulsos e estímulos, em todas as
direções. (RODARI, 1982, p. 162-163)
Como observa o autor, a criança precisa explorar sua imaginação e, para que
isso ocorra, o ambiente em que vive deve possibilitar essa condição, a do brincar
(RODARI, 1982). A inserção no mundo da escrita não deve ser diferente, pois muitos
leitores e escritores testemunham e validam essa mesma condição ao lerem e
escreverem. A escola não poderia favorecer essa experiência? O ensino da língua
escrita com enfoque na alteridade não promoveria a subjetividade? Por que não usar
a palavra para constituir experiências, incentivar a imaginação e a criação?
3 | A PALAVRA É NOSSA
A seguir, iremos apresentar propostas realizadas pelos alunos que ilustram
essa possibilidade de ensino de Língua Portuguesa numa perspectiva de constituir
experiência. Isto é, contribuir para que o aluno use a palavra de modo transformador.
São atividades para “considerar as palavras, criticar as palavras, eleger as palavras,
cuidar das palavras, inventar palavras, jogar com as palavras, impor palavras, proibir
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 28
291
palavras, transformar palavras etc.” (LARROSA, 2002, p. 21).
Estas atividades, além de serem feitas na sala de aula, foram publicadas no Jornal
Folhinha Aplicada, um periódico mensal da Primeira Fase do Ensino Fundamental,
do Centro de Ensino e Pesquisa Aplicada à Educação da Universidade Federal de
Goiás (Cepae/UFG). Esse jornal também objetiva promover experiências ao publicar
as produções variadas dos alunos, que são organizadas como as editorias de um
jornal como outro qualquer que circula na sociedade. Além desse objetivo, ele
incentiva e promove situações discursivas em que as particularidades de um texto
– as fronteiras, o acabamento, o tema, o dizer do locutor, o autor, o destinatário,
a expressividade e as formas de estruturação, são elementos relacionados,
dependentes do movimento de construção textual. (SOUZA, CARVALHO, MOTA,
BARBOSA, COSTA, 2014, p. 59)
A primeira foi realizada com uma turma de segundo ano, da primeira fase da
Educação Básica. A professora selecionou uma música bastante conhecida pelos
alunos e depois de lerem, cantarem, comentarem sobre o uso das comparações que
compõem sua letra, solicitou que eles escrevessem outras comparações. A música
era “Fico assim sem você”, composição de Abdullah e Cacá Moraes, interpretada por
Adriana Calcanhoto, regravada também por Claudinho e Buchecha. Sua letra:
Avião sem asa
Fogueira sem brasa
Sou eu assim, sem você
Futebol sem bola
Piu-Piu sem Frajola
Sou eu assim, sem você
Por que é que tem que ser assim?
Se o meu desejo não tem fim
Eu te quero a todo instante
Nem mil autofalantes
Vão poder falar por mim
Amor sem beijinho
Buchecha sem Claudinho
Sou eu assim sem você
Circo sem palhaço
Namoro sem abraço
Sou eu assim sem você
Tô louco pra te ver chegar
Tô louco pra te ter nas mãos
Deitar no teu abraço
Retomar o pedaço
Que falta no meu coração
Eu não existo longe de você
E a solidão é o meu pior castigo
Eu conto as horas pra poder te ver
Mas o relógio tá de mal comigo
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 28
292
Por quê? Por quê?
Neném sem chupeta
Romeu sem Julieta
Sou eu assim, sem você
Carro sem estrada
Queijo sem goiabada
Sou eu assim, sem você
Por que é que tem que ser assim?
Se o meu desejo não tem fim
Eu te quero a todo instante
Nem mil autofalantes
Vão poder falar por mim
Eu não existo longe de você
E a solidão é o meu pior castigo
Eu conto as horas pra poder te ver
Mas o relógio tá de mal comigo
Eu não existo longe de você
E a solidão é o meu pior castigo
Eu conto as horas pra poder te ver
Mas o relógio tá de mal comigo
A seguir, o resultado dessa atividade:
FOLHINHA APLICADA, Vol. 3 Nº 04, Fevereiro/2012, p. 02. Disponível em: <https://docs.
wixstatic.com/ugd/fbf895_e59aa9b4486a4ee2b5ef489413d7ed2f.pdf>
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 28
293
Como se pode observar, os alunos conseguiram apresentar um número bem
razoável de comparações. De acordo com a professora, alguns alunos disputavam
quem tinha conseguido escrever mais.
Outra atividade que gerou bastante interesse e exigiu também associações
diversas dos alunos, foi uma proposta adaptada do livro de Rodari (1982), chamada
de Tema Fantástico que consiste em criar, a partir de uma palavra, frases criativas.
Nessa atividade, é preciso escrever as letras uma sobre as outras e, ao lado de
cada letra, escrever palavras que formem uma frase com sentido ou nonsense. Os
alunos do segundo ciclo criaram a partir dos seus nomes próprios. As composições
elaboradas e publicadas foram as seguintes:
FOLHINHA APLICADA, Vol. 8 Nº 31, Maio/2017, p. 04. Disponível em: <https://docs.wixstatic.
com/ugd/fbf895_00854bf3fe4a474b94f29633bce9f73a.pdf >
A última atividade foi realizada após uma imersão em histórias fantásticas.
Durante algum tempo, os alunos leram, observaram a construções dos personagens
dessas histórias, seus conflitos e suas soluções. Por fim, escreveram as suas
narrativas:
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 28
294
FOLHINHA APLICADA, Vol. 4 Nº 11, Janeiro/2013, p. 03. Disponível em: <https://docs.wixstatic.
com/ugd/fbf895_f75c58e11df74e9cab4ed4bb29a99ed1.pdf >
Como se pode notar, as crianças conseguiram apresentar narrativas incorporando
vários aspectos trabalhados a partir das histórias lidas, inclusive apresentando
outros personagens, como o do Super-Herói das histórias em quadrinhos. Veja
que o repertório textual delas transitou por outros gêneros textuais, apresentando
intertextualidades.
4 | CONSIDERAÇÕES FINAIS
O intuito de apresentar este trabalho é mostrar que a escrita pode ser trabalhada
na escola para favorecer a subjetividade, isto é, permitir que o aluno possa explorar
a língua de maneira criativa e transformadora. Dessa forma, estaremos contribuindo
para a constituição de experiências e não apenas transmitindo informações. A
preocupação da escola com a transmissão de conteúdos, em função das avaliações,
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 28
295
exclui a participação do aluno. Assim, suas experiências não são exploradas e ele
nem é convidado a construir outras potencializando sua imaginação e criatividade.
Rodari (1982, p. 160) já dizia que “não é, portanto, de admirar que a imaginação
nas nossas escolas ainda seja tratada como parente pobre, em desvantagem com a
atenção e com a memória”.
Concordamos com Rodari quando ele expõe que, para haver uma mudança na
sociedade, é preciso de homens capazes de criar, que saibam usar a sua imaginação
em todos os espaços sociais.
Se uma sociedade baseada no mito da produtividade (e na realidade do lucro)
precisa de homens pela metade – fiéis executores, diligentes reprodutores, dóceis
instrumentos sem vontade própria – é sinal de que está malfeita, é sinal de que é
preciso mudá-la. Para mudá-la, são necessários homens criativos, que saibam usar
a sua imaginação. (RODARI, 1982, p. 163)
Esses exemplos, embora simples, oferecem possibilidades para que o aluno
tome a palavra, não como uma ferramenta qualquer, mas como promotora de
experiência e criação. Mesmo que ele ainda não apresente um repertório grande de
informações sobre a língua constituída em sua escrita, podemos ver que o aluno a
tece e esperamos que não a abandone. Será convocando os alunos para trabalhar
com a língua de modo a explorar sua potência criativa que o professor estará
contribuindo para favorecer a experiência e a transformação.
REFERÊNCIAS
ALCÂNTARA, Regina Godinho; STIEG, Vanildo. “O que quer” a Base Nacional Comum Curricular
(BNCC) no Brasil: o componente curricular língua portuguesa em questão. Revista Brasileira de
Alfabetização – ABAlf. Vitória, ES, v. 1, n. 3, p. 119-141, jan./jul. 2016.
FOLHINHA APLICADA. Centro de Ensino e Pesquisa Aplicada à Educação da Universidade Federal
de Goiás (Cepae/UFG). Goiânia. Disponível em: (www.folhinhaaplicada.com).
LARROSA, Jorge. Notas sobre a experiência e o saber de experiência. Tradução de Wanderley
Geraldi. In: Revista Brasileira de Educação, n.19, p. 20-28, jan./abr., 2002.
NEVES, L. M. W. (org.). A Nova Pedagogia da Hegemonia: estratégias do capital para educar o
consenso. São Paulo: Xamã, 2005.
ROCHA, Maria Alice de Sousa Carvalho; RODRIGUES, Sônia Maria. Língua Portuguesa na
Educação Básica: instrumentalização ou alteridade? (mimeo) Apresentado no VIII Congresso da
Cátedra da Unesco de Leitura e Escrita em San Jose, Costa Rica, 2016.
RODARI, Giani. Gramática da Fantasia. Tradução de Antonio Negrini; direção da coleção de Fanny
Abramovich. São Paulo: Summus, 1982.
SOUZA, Andrea Alves da Silva Souza; CARVALHO, Maria Alice de Sousa; MOTA, Telma Maria Santos
Faria Mota; BARBOSA, Leonarlley Rodrigo Silva; COSTA, Sônia Santana da. Jornal na escola: um
exercício para pensar o mundo. In: Veredas Escolares: partilhando experiências criativas de ensino e
aprendizagem do Cepae/UFG – 1ª ed. Goiânia: Gráfica e Editora América, 2014.
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 28
296
CAPÍTULO 29
doi
PRÁTICAS DE EDUCAÇÃO EM SAÚDE PARA A
FORMAÇÃO INTEGRAL DE DISCENTES DOS CURSOS
TÉCNICOS INTEGRADOS DO INSTITUTO FEDERAL
FARROUPILHA CAMPUS JAGUARI
Data de aceite: 06/01/2020
Fernanda Lavarda Ramos de Souza
Odontóloga do Instituto Federal Farroupilha –
Campus Jaguari, Discente do Curso de Mestrado
Profissional em Educação Profissional e
Tecnológica - Polo IFFAR
Jaguari - Rio Grande do Sul
Ricardo Antonio Rodrigues
Docente do Instituto Federal Farroupilha –
Campus Jaguari, Coordenador do Curso de
Mestrado Profissional em Educação Profissional e
Tecnológica - Polo IFFAR
Jaguari - Rio Grande do Sul
RESUMO: Mais que um direito fundamental,
a saúde é essencial para a efetivação dos
outros direitos. A atenção integral em saúde
é imprescindível para a promoção de saúde e
bem-estar. Dentro deste contexto, encontramos
a educação em saúde, que pode construir
vínculos entre o contexto de saúde e as atitudes
do indivíduo. A escola é ambiente de contínuas
relações sociais e troca de saberes. Neste
sentido, a visão holística é estratégia valiosa para
que, aliado aos valores e experiências de cada
um, sejam trabalhados assuntos relevantes
de bem-estar que influenciem no autocuidado,
qualidade de vida e, consequentemente, na
formação escolar. Este artigo tem por objetivo
problematizar a educação profissional para
que ela seja emancipatória, voltada para a
formação integral dos discentes, omnilateral.
Através da reflexão sobre as bases legais e
conceituais sobre o serviço/setor de saúde do
Instituto Federal Farroupilha campus Jaguari,
há o propósito de ponderarmos sobre as ações
no tocante aos seus resultados para a práxis,
visando a problematização dos pensares e
fazeres. O sentido e papel do serviço nos
Institutos Federais devem ser compreendidos
à luz da educação omnilateral. A intenção do
trabalho da equipe multidisciplinar é fomentar
práticas interdisciplinares que atendam a
especificidade de uma formação integral e
integradora entre os saberes e as pessoas.
Na EPT, o serviço visa contribuir para a
permanência e o êxito dos discentes. Através
de um trabalho pautado na multidisciplinaridade
e interdisciplinaridade, é possível oferecer
ferramentas para uma formação integral, não
somente em nível acadêmico, mas também
uma formação humana plena.
PALAVRAS-CHAVE: educação em saúde;
educação profissional; trabalho multidisciplinar;
ensino integrado.
HEALTH EDUCATION PRACTICES FOR
INTEGRAL TRAINING OF INTEGRATED
TECHNICAL COURSES OF THE INSTITUTO
FEDERAL FARROUPILHA CAMPUS JAGUARI
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo 29
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ABSTRACT: More than a fundamental right, health is essential for the realization of
other rights. Comprehensive health care is essential for health promotion and wellbeing. Within this context, we find health education, which can build links between
the health context and the individual's attitudes. The school is an environment of
continuous social relations and knowledge exchange. In this sense, the holistic vision
is a valuable strategy so that, allied to the values and experiences of each one, relevant
issues of well-being that influence self-care, quality of life and, consequently, school
education are addressed. This article aims to problematize professional education
so that it is emancipatory, focused on the integral formation of students, omnilateral.
Through reflection on the legal and conceptual bases on the health service / sector of
the Instituto Federal Farroupilha campus Jaguari, there is the purpose of pondering on
the actions regarding their results for praxis, aiming at problematizing the thoughts and
doings. The meaning and role of service in Federal Institutes must be understood in the
light of omnilateral education. The intention of the work of the multidisciplinary team is
to foster interdisciplinary practices that meet the specificity of an integral and integrative
education between knowledge and people. At EPT, the service aims to contribute to the
permanence and success of students. Through a work based on multidisciplinarity and
interdisciplinarity, it is possible to offer tools for an integral formation, not only at the
academic level, but also a full human formation.
KEYWORDS: Health education; professional education; multidisciplinary work;
integrated teaching.
1 | INTRODUÇÃO
Mais que um direito fundamental, a saúde é essencial para a efetivação
dos outros direitos. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS, 1984) é “a
extensão na qual um indivíduo ou grupo conseguem compreender suas aspirações
e satisfazer suas necessidades, sendo vista como um recurso para vida cotidiana”.
Este conceito demonstra a estreita relação da mesma com a qualidade de vida.
Além das práticas clínicas e curativas, a atenção integral em saúde é
imprescindível para a promoção de saúde e bem-estar. Dentro deste contexto,
encontramos a educação em saúde, que agrega conhecimentos tanto da área da
educação, quanto da área da saúde, e pode construir vínculos entre o contexto de
saúde e as atitudes do indivíduo. Com ela, espera-se conscientizar as pessoas no
tocante aos cuidados e aspectos de saúde, bem como refletir sobre a realidade. É
definida pelo Ministério da Saúde (2004) como “[...] ações que objetivam a apropriação
do conhecimento sobre o processo saúde–doença, incluindo fatores de risco e de
proteção à saúde bucal, assim como a possibilidade de o usuário mudar hábitos,
apoiando-o na conquista de sua autonomia.”
A escola é ambiente de contínuas relações sociais e troca de saberes.
Neste sentido, a visão holística é estratégia valiosa para que, aliado aos valores e
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experiências de cada um, sejam trabalhados assuntos relevantes de bem-estar que
influenciem no autocuidado, qualidade de vida e, consequentemente, na formação
escolar.
No âmbito dos Institutos Federais, cada campus possui uma equipe de
Assistência Estudantil, que de forma multidisciplinar e articulada com os demais
setores da Instituição, trata de assuntos relacionados ao acesso, permanência, êxito
e participação dos estudantes na instituição. Esta equipe engloba profissionais com
formação na área de saúde, que, dentre suas diversas atribuições, devem propor
sequências de ações atrativas que possam auxiliar no autocuidado e bem-estar dos
discentes, tendo como o foco o trabalho preventivo. Neste sentido, devem encontrar
meios de sensibilizar o educando quanto à importância da qualidade de vida para a
formação acadêmica e profissional.
Deste modo, este artigo tem por objetivo problematizar a educação profissional
para que ela seja emancipatória, voltada para a formação integral dos discentes,
omnilateral. Através da reflexão sobre as bases legais e conceituais sobre o serviço/
setor de saúde do Instituto Federal Farroupilha campus Jaguari, há o propósito de
ponderarmos sobre as ações no tocante aos seus resultados para a práxis, visando
a problematização dos pensares e fazeres.
Por meio de estratégias de ensino, as equipes de saúde devem buscar
instrumentos que possibilitem a compreensão dos discentes sobre sua condição
no mundo e ampliação de suas capacidades para sua formação, para o mundo do
trabalho e para a vida. Conforme Machado e colaboradores (2007), “para educar
em saúde, se faz necessário estar aberto ao contorno geográfico, social, político,
cultural do indivíduo, família e comunidade”.
A prática da educação em saúde na escola constitui um espaço de reflexão
e ação, apoiado em conhecimentos técnicos, científicos, populares e culturais,
possibilitando mudanças no indivíduo e capacidade para atuar em suas famílias e
comunidades, transformando o contexto social e marcando significativamente sua
presença no mundo.
2 | DESENVOLVIMENTO E DEMONSTRAÇÃO DOS RESULTADOS
O Instituto Federal Farroupilha promove a formação profissional, científica
e tecnológica, com foco na formação integral do discente. Em suas estruturas
administrativas conta com equipes de Assistência Estudantil, que compreendem
profissionais com formação na área da saúde. Estas equipes trabalham de forma
multi e interdisciplinar, de forma a apoiar a formação técnica e humana dos discentes
dos campus.
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Uma política transversal, integrada e intersetorial, a qual faça dialogar as
diversas áreas, setores e a sociedade, compondo redes de compromissos e
corresponsabilidades quanto à qualidade de vida, em que todos sejam partícipes
no cuidado com a saúde. (Política de Atenção à Saúde dos Discentes do IF
Farroupilha, 2015)
O sentido e papel do serviço ou setor de saúde nos Institutos Federais devem
ser compreendido à luz da educação omnilateral. Não se trata de termos vários
profissionais da área de saúde à disposição para as demandas interventivas e
situações e intercorrências no campo da saúde, desconsiderando a dimensão
do Ensino. Não se trata de uma Unidade Básica de Saúde ou unidade de Pronto
Atendimento para atender as emergências. O serviço de saúde de um campus do
Instituto Federal tem caráter formativo, preventivo e educativo, por excelência.
O caráter multidisciplinar é para atender a missão de nossa instituição que
é atender todas as dimensões de todos os sujeitos envolvidos no processo de
aprendizagem. Embora não seja um serviço instituído aos servidores da educação,
mas aos educandos, a proposta é indiretamente fomentar práticas educativas que
auxiliem direta e indiretamente no acesso, na permanência e no êxito de nossos
discentes. Multidisciplinar porque o ser humano é multifacetado, possui muitas
demandas a serem atendidas e não apenas a cognitiva.
O Ensino Integrado é holístico e deve tender para uma visão sistêmica e não
cartesiana, como lemos,
Atualmente, não se concebe uma Educação Profissional identificada como simples
instrumento de política assistencialista ou linear ajustamento às demandas do
mercado de trabalho, mas sim como importante estratégia para que os cidadãos
tenham efetivo acesso às conquistas científicas e tecnológicas da sociedade. Impõese a superação do enfoque tradicional da formação profissional baseado apenas
na preparação para execução de um determinado conjunto de tarefas a serem
executadas. A Educação Profissional requer, além do domínio operacional de um
determinado fazer, a compreensão global do processo produtivo, com a apreensão
do saber tecnológico, a valorização da cultura do trabalho e a mobilização dos
valores necessários à tomada de decisões no mundo do trabalho. (BRASIL, 2012)
Como estamos falando do Currículo Integrado, a intenção do trabalho da equipe
multidisciplinar é fomentar práticas interdisciplinares que atendam a especificidade
de uma formação integral e integradora entre os saberes e as pessoas. A dimensão
psíquica, a dimensão física, a dimensão afetiva, a dimensão cognitiva e um vasto
leque de dimensões que fazem parte do ser humano e que precisam, de algum modo,
ser consideradas no processo educativo. Diante da missão que temos enquanto
instituição de Ensino,
Art. 6º Os Institutos Federais têm por finalidades e características:
I - ofertar educação profissional e tecnológica, em todos os seus níveis e
modalidades, formando e qualificando cidadãos com vistas na atuação profissional
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nos diversos setores da economia, com ênfase no desenvolvimento socioeconômico
local, regional e nacional;
II - desenvolver a educação profissional e tecnológica como processo educativo
e investigativo de geração e adaptação de soluções técnicas e tecnológicas às
demandas sociais e peculiaridades regionais; (BRASIL, 2008)
É importante registrar que ao falarmos de Currículo Integrado, não visamos
formar cartesianamente especialistas, mas cidadãos e cidadãs que compreendam e
pratiquem o conhecimento científico de maneira articulada, conforme lemos:
Art.2º- A educação profissional observará as seguintes premissas:
I - organização, por áreas profissionais, em função da estrutura sócio-ocupacional
e tecnológica;
II - articulação de esforços das áreas da educação, do trabalho e emprego, e da
ciência e tecnologia;
III - a centralidade do trabalho como princípio educativo; e
IV - a indissociabilidade entre teoria e prática (BRASIL, 2004).
Não podemos negligenciar uma formação que atente e atenda para as
muitas facetas e nuances do que somos enquanto humanos, e das condições que
são necessárias para uma formação mínima e suficiente desta complexa cadeia.
O desenvolvimento endógeno, sustentável do ponto de vista socioambiental e
socioeconômico, não pode ser reduzido ao monetário e/ou a financeirização da
vida. Precisamos dar conta da formação omnilateral de nossos educandos para
não cairmos no reducionismo cartesiano, positivista, empirista e cientificista que
decorrem justamente de uma visão frágil e fragmentada sobre o processo de ensino
e aprendizagem.
Nos Institutos Federais esse cuidado com o todo deve permear o nosso
fazer, não apenas pensando os nossos estudantes como sujeitos que irão para a
universidade, tirando assim, a identidade e a grandeza em si, do Currículo Integrado,
precisamos pensar nossos discentes dentro da lógica da verticalização, da promoção
do empoderamento dos sujeitos pelo conhecimento como potência de compreensão,
interpretação, explicação e transformação social.
Art. 6º - Os Institutos Federais têm por finalidades e características:
III - promover a integração e a verticalização da educação básica à educação
profissional e educação superior, otimizando a infra-estrutura física, os quadros de
pessoal e os recursos de gestão;
IV - orientar sua oferta formativa em benefício da consolidação e fortalecimento
dos arranjos produtivos, sociais e culturais locais, identificados com base no
mapeamento das potencialidades de desenvolvimento socioeconômico e cultural
no âmbito de atuação do Instituto Federal; (BRASIL, 2008)
Muitos de nossos discentes, embora adolescentes ainda, permanecem em
nossa Instituição, fazem suas refeições e higiene pessoal, praticam exercícios,
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estudam e pesquisam, envolvem-se em vários projetos durante os dias que ficam
para as aulas, e é nesse contexto que precisam ser assistidos na perspectiva de
uma formação ampla, interdisciplinar, multidisciplinar que atenda, de algum modo,
as expectativas humanas e sociais do Ensino.
Diante do que nos propomos a fazer como instituição de Ensino, está uma visão
que seja integradora e integrante do ser humano, includente e transformadora. E isso
não se trata de ideologia apenas, assim seria se colocássemos as necessidades
reais das pessoas abaixo de crivos imaginários pautado na exclusão ou legitimação
dela. Tratar da inteireza do ser humano é uma condição fundamental para o
reconhecimento e a valorização do que somos enquanto seres racionais. O serviço
de saúde em nossas unidades pretende atender justamente a concepção de que é
o cuidado com as pessoas que permite uma sociedade melhor. Essa preocupação
está na base, no cerne conceitual de nossa gênese teórica enquanto Instituição.
Na proposta dos Institutos Federais, agregar à formação acadêmica a preparação
para o trabalho (compreendendo-o em seu sentido histórico, mas sem deixar
de firmar o seu sentido ontológico) e discutir os princípios das tecnologias a ele
concernentes dão luz a elementos essenciais para a definição de um propósito
específico para a estrutura curricular da educação profissional e tecnológica. O
que se propõem é uma formação contextualizada, banhada de conhecimentos,
princípios e valores que potencializam a ação humana na busca de caminhos de
vida mais dignos. (PACHECO, 2011, p.15)
Durante o ano letivo, são realizadas oficinas, rodas de conversa, projetos
de ensino englobando temas como saúde geral, saúde bucal, nutrição e aspectos
psicossociais, com foco na saúde do adolescente. Estas ações estão trazendo à luz
resultados, embora provisórios, que indicam benefícios e necessidades.
Podemos destacar a relevância de dispor de uma equipe de saúde, com estrutura
física habilitada para acolhimentos, sendo um diferencial de outras instituições de
ensino, que carecem deste olhar específico contínuo de prevenção e promoção de
saúde durante o ano letivo. Além disso, o acompanhamento de saúde dos discentes
por parte dos profissionais pode propiciar a frequente troca de saberes, que, embora
não se configure garantia na melhoria e/ou manutenção dos hábitos de saúde, tem
campo fértil para estas práticas.
Ensinar não é apenas transmitir saberes e informações, é problematizar hábitos,
é questionar convicções, é oportunizar reflexões teóricas e através de práticas
educativas e pedagógicas que auxiliem o desenvolvimento pleno e íntegro de
nossos discentes. O cuidado preventivo é a melhor forma de constituirmos cidadãos
e cidadãs capazes de lutar por seus direitos, ao reconhecê-los como dimensão
fundante da vida humana. O Currículo Integrado possibilita ao discente uma visão
articulada entre os saberes dedutivos formais e o mundo da vida, visa conectar os
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saberes existenciais e empíricos ao universo complexo e polissêmico do mundo do
trabalho.
O caráter inter e transdisciplinar nada mais são que princípios basilares da
própria EPT, conforme observamos:
Art. 6º - São princípios da Educação Profissional Técnica de Nível Médio:
I - relação e articulação entre a formação desenvolvida no Ensino Médio e a
preparação para o exercício das profissões técnicas, visando à formação integral
do estudante;
II - respeito aos valores estéticos, políticos e éticos da educação nacional, na
perspectiva do desenvolvimento para a vida social e profissional;
III - trabalho assumido como princípio educativo, tendo sua integração com a
ciência, a tecnologia e a cultura como base da proposta político-pedagógica e do
desenvolvimento curricular;
IV - articulação da Educação Básica com a Educação Profissional e Tecnológica,
na perspectiva da integração entre saberes específicos para a produção do
conhecimento e a intervenção social, assumindo a pesquisa como princípio
pedagógico;
V - indissociabilidade entre educação e prática social, considerando-se a
historicidade dos conhecimentos e dos sujeitos da aprendizagem;
VI - indissociabilidade entre teoria e prática no processo de ensino-aprendizagem;
VII - interdisciplinaridade assegurada no currículo e na prática pedagógica,
visando à superação da fragmentação de conhecimentos e de segmentação da
organização curricular;
VIII - contextualização, flexibilidade e interdisciplinaridade na utilização de
estratégias educacionais favoráveis à compreensão de significados e à integração
entre a teoria e a vivência da prática profissional, envolvendo as múltiplas dimensões
do eixo tecnológico do curso e das ciências e tecnologias a ele vinculadas; (BRASIL,
2012)
Contudo, parece ser necessária uma construção de novos saberes, novas
formas de pensar e agir, contribuindo para construção do ser omnilateral. É possível,
hipoteticamente, atribuirmos esta carência principalmente no que tange à quantidade
de discentes que participam das atividades, com número reduzido nos períodos de
contraturno escolar. Além disso, embora haja o esforço coletivo em traçar caminhos
para a adoção de hábitos saudáveis e qualidade de vida, com foco na formação
integral, há de considerarmos os diversos fatores que podem influenciar o bemestar, como as questões familiares e sociais.
A construção do processo educativo em saúde que atenda ao princípio da
integralidade como eixo norteador das ações de saúde requer a participação
ativa da população na leitura e reflexão crítica de sua realidade, das estruturas
socioeconômicas como constituintes de acessos na busca por condições humanas
dignas, como sujeito histórico e social, possuidor em sua dimensão holística de
interfaces integradas e permeadas pelo processo autônomo das descobertas e
inquietações frente ao modo de viver em sociedade exercendo sua cidadania.
(Machado e colaboradores, 2007)
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3 | CONCLUSÕES
Diante das reflexões e ponderações de que tratamos neste artigo, percebemos
que é importante retomar de modo reflexivo e cuidadoso a matriz legal e conceitual
do setor de saúde e seu papel vinculado ao Ensino. Na EPT, esse serviço visa
contribuir para a permanência e o êxito dos discentes, e essa função precisa ser
compreendida dentro e diante de uma complexidade mínima.
Há muitas práticas educativas dentro da EPT que não raramente se distanciam
do sentido e papel dos Institutos Federais, por isso a retomada constante de
nossa identidade institucional é uma necessidade e não uma ação isolada que
atende especificidade desta ou daquela pesquisa. No contexto docente o Ensino
no Currículo Integrado é um desafio enorme, sobretudo pela carência de formação
inter e transdisciplinar nos diferentes percursos formativos das licenciaturas, que
em boa parte dos casos, são apenas bacharelados disfarçados. Para uma atuação
condizente no Currículo Integrado é necessário formação, convicção e boas escolhas
por boas metodologias.
Ao dizermos isso, queremos problematizar que para um profissional de
saúde, os problemas são similares, tendo em vista que a tendência é a inserção do
mundo do Ensino, não como alguém que possua uma experiência formativa inter
e transdisciplinar. Um profissional de Enfermagem, de Medicina, de Nutrição, de
Odontologia, de Psicologia, entre outros, dificilmente faz uma concurso para um
Instituto Federal tendo presente tudo o que representa uma equipe de saúde, dentro
de uma organização que visa a omnilateralidade.
De modo praticamente ao docente o servidor Técnico-Administrativo em
Educação que atua na saúde das unidades de ensino dos IFs faz um concurso
para atuar como profissional daquela área específica, e o fato de ter que trabalhar
multidisciplinarmente em prol do Ensino, por mais que seja algo facilmente apropriável
do ponto de vista teórico, na práxis e na prática depende de muitos fatores.
Não é automática a convicção de que um profissional de determinada área,
como a Odontologia, deve ter o direcionamento para sua importância dentro da lógica
do Ensino, e não apenas que tenha um gabinete odontológico dentro de um campus.
A convicção de que tem-se que atuar em um campus específico, em prol do Ensino,
não é a mesma coisa, nem de longe, de atuar num campo específico e determinado.
Os profissionais da saúde podem incorrer no mesmo fator limitante, já enunciado em
relação aos docentes de não terem em seu itinerário formativo a subjetivação de que
sua função está para o Ensino, para um campus específico e não para um campo ou
ramo específico da atividade humana.
Por fim, conforme nos indicam os documentos sobre Permanência e Êxito
(2012;2014;2015), sobretudo o de 2012, Conforme IF Farroupilha (2012, p. 3-4) a
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Política de Assistência Estudantil do IF Farroupilha, tem como base conceitual a
convicção de que precisamos:
I - Promover o acesso e a permanência na perspectiva da inclusão social e
democratização do ensino;
IV - Contribuir para o enfrentamento das desigualdades sociais;
V - Promover e ampliar a formação integral dos estudantes, estimulando e
desenvolvendo a criatividade, a reflexão crítica, as atividades e os intercâmbios de
caráter cultural, artístico, científico e tecnológico;
VI - Preservar e difundir os valores éticos de liberdade, igualdade e democracia:
VII - Interagir com a família dos estudantes, no intuito de qualificar o processo e os
resultados da aprendizagem, estabelecendo relações de cooperação;
VIII - Estimular a participação dos estudantes, através de suas representações,
no processo de gestão democrática. (Política de Assistência Estudantil do IF
Farroupilha, 2012)
Assim, parece ser necessário o olhar contínuo na construção das práticas
educativas, visando a construção do ser omnilateral. Novos saberes, novas formas
de pensar e agir, em um processo integrador, includente e transformador do ser
humano. São necessárias ações atrativas que contribuam na emancipação e tomada
de consciência dos discentes, no tocante à importância do cuidado de si e do outro
no seu processo educativo e qualidade de vida, considerando que todos precisam
ser atendidos em todas as suas dimensões.
Através de um trabalho pautado na multidisciplinaridade e interdisciplinaridade,
é possível oferecer ferramentas para que o educando reflita e construa conhecimentos
para uma formação integral, não somente em nível acadêmico, mas também uma
formação humana plena.
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SOBRE A ORGANIZADORA
Solange Aparecida de Souza Monteiro - Doutoranda em Educação Escolar. Mestra
em Processos de Ensino, Gestão e Inovação pela Universidade de Araraquara
- UNIARA (2018). Possui graduação em Pedagogia pela Faculdade de Educação,
Ciências e Letras Urubupungá (1989). Possui Especialização em Metodologia do
Ensino pela Faculdade de Educação, Ciências e Letras Urubupungá (1992). Trabalha
como pedagoga do Instituto Federal de São Paulo (IFSP/Câmpus Araraquara-SP).
Participa dos núcleos: - Núcleo de Gêneros e Sexualidade do IFSP (NUGS); -Núcleo
de Apoio as Pessoas com Necessidades Educacionais Específicas (NAPNE), Membro
da Equipe de Formação Continuada de Professores. Desenvolve sua pesquisa
acadêmica na área de Educação, História da Educação Sexual, Sexualidade e em
História e Cultura Africana, Afro-brasileira e Indígena e/ou Relações Étnico-raciais.
Participa do Grupo de pesquisa - GESTELD - Grupo de Estudos em Educação,
Sexualidade, Tecnologias, Linguagens e Discursos. Membro desde 2018 do Grupo
de pesquisa "Núcleo de Estudos da Sexualidade - NUSEX" - https://www.fclar.unesp.
br/#!/pesquisa/grupos-de-pesquisa/estudos-da-sexualidade/apresentacao
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Sobre a Organizadora
307
ÍNDICE REMISSIVO
A
Afetividade 28, 47, 51, 52, 54, 55, 57, 208, 268
Amazônia 110, 111, 112, 113, 118, 119
Aplicação 32, 36, 37, 40, 43, 58, 88, 96, 97, 100, 120, 121, 123, 124, 126, 128, 130, 145, 158,
179, 198, 199, 200, 201, 259, 261, 265, 266, 278
Aprendizagem 24, 28, 29, 30, 32, 33, 35, 36, 39, 40, 41, 42, 46, 48, 50, 52, 53, 54, 63, 70, 104,
105, 107, 109, 120, 121, 122, 123, 124, 125, 128, 129, 130, 140, 141, 143, 145, 146, 149, 152,
153, 154, 155, 156, 157, 161, 162, 163, 164, 165, 166, 167, 168, 169, 171, 175, 177, 178, 180,
182, 183, 184, 185, 186, 187, 189, 193, 195, 196, 197, 198, 199, 202, 207, 210, 214, 220, 221,
222, 228, 229, 230, 231, 232, 233, 236, 237, 238, 239, 244, 245, 246, 247, 248, 249, 251, 252,
253, 254, 255, 256, 260, 261, 262, 263, 264, 265, 267, 268, 269, 270, 271, 272, 273, 274, 276,
278, 296, 300, 301, 303, 305
Aprendizagem significativa 32, 40, 128, 154, 184, 186, 251, 252
C
Caderno virtual 120, 121, 122, 123, 126, 127, 128, 129, 130
Competência de leitura e escrita 82
Concurso público 100, 102, 104
Contextualização 135, 140, 143, 145, 146, 148, 149, 176, 248, 303
Criança 2, 4, 5, 7, 16, 24, 25, 30, 47, 48, 49, 50, 51, 52, 53, 54, 55, 64, 152, 153, 154, 155,
156, 157, 160, 161, 162, 163, 164, 165, 166, 185, 186, 187, 194, 201, 203, 259, 260, 261, 263,
264, 265, 269, 272, 273, 291
D
Deficiência intelectual 152, 153, 154, 157, 158, 159, 162, 164, 165, 166, 167, 169
Deficiência visual 203, 204, 205, 207, 209, 210, 211, 212, 214, 215, 216, 217, 218, 219
Didática 53, 104, 105, 122, 167, 177, 196, 277, 287
Discurso de ódio 88, 97
E
Educação a distância 104, 131, 170, 173, 181, 203, 218
Educação do campo 105, 109
Educação sensível 110, 111, 113, 116
Ensino de arte 132
Ensino médio 20, 21, 22, 23, 26, 29, 30, 31, 32, 35, 36, 41, 58, 97, 101, 102, 132, 133, 134, 136,
139, 141, 142, 143, 144, 147, 148, 149, 150, 228, 229, 230, 231, 244, 245, 247, 253, 255, 303
Ensino médio e superior 143
Ensino médio integrado 20, 21, 22, 23, 26, 29, 31, 97
Ensino-pesquisa-extensão 56, 58
Escrita 46, 47, 48, 49, 50, 51, 52, 53, 54, 55, 70, 82, 83, 84, 125, 127, 171, 187, 207, 214, 231,
232, 268, 269, 270, 271, 272, 273, 288, 289, 291, 295, 296
A Educação no Brasil e no Mundo: Avanços, Limites e Contradições 5
Capítulo
Índice Remissivo
Índice
Remissivo
308
Experiência 21, 22, 26, 27, 29, 30, 46, 48, 49, 65, 66, 68, 69, 70, 73, 74, 82, 104, 106, 108,
109, 115, 116, 118, 134, 136, 140, 141, 156, 158, 167, 182, 196, 198, 214, 218, 227, 232, 244,
252, 288, 289, 290, 291, 296, 304
F
Feminino 9, 60, 110, 111, 112, 113, 114, 116, 118, 229
Formação 6, 9, 22, 23, 24, 31, 35, 41, 46, 47, 50, 55, 56, 63, 64, 65, 66, 67, 68, 71, 77, 87, 88,
98, 101, 102, 107, 109, 112, 120, 121, 122, 125, 126, 128, 129, 130, 132, 134, 136, 137, 140,
143, 144, 145, 146, 150, 162, 169, 170, 171, 172, 173, 174, 175, 176, 177, 178, 179, 180, 181,
182, 184, 194, 195, 196, 197, 199, 202, 222, 223, 227, 229, 230, 231, 233, 234, 239, 244, 246,
247, 249, 252, 253, 257, 261, 271, 273, 276, 279, 280, 281, 282, 283, 287, 297, 299, 300, 301,
302, 303, 304, 305, 306, 307
Formação docente 68, 71, 120, 126, 128, 130, 178, 180, 197
Formação pedagógica 120, 170, 173, 174, 175, 177, 178, 179, 180, 181
I
Iemanjá 110, 111, 112, 113, 114, 116, 117, 118, 119
Inclusão digital 69, 70, 74, 203, 204, 205, 209, 210, 216, 217, 218, 219
Inclusão social 68, 69, 70, 81, 100, 203, 204, 205, 207, 208, 210, 216, 217, 219, 305
Intolerância 88, 90, 91, 97, 98, 99
Isomeria geométrica 32, 33, 34, 36, 40
J
Jovens 20, 22, 23, 25, 27, 28, 29, 30, 139, 157, 161, 179, 180, 207, 222, 228, 229, 274
L
Lei dos grandes números 43
Leitura 15, 26, 27, 37, 46, 47, 48, 49, 50, 51, 52, 53, 54, 55, 70, 82, 83, 84, 85, 86, 87, 115,
117, 126, 132, 135, 139, 140, 141, 165, 169, 187, 200, 201, 207, 211, 220, 232, 268, 269, 270,
271, 272, 273, 288, 296, 303
Leitura extraclasse 82, 84, 85, 87
Letramento o digital 68
Liberdade de expressão 88, 89, 90, 95, 97, 98, 99
Licenciatura 35, 71, 72, 74, 81, 131, 170, 173, 174, 180, 181, 198, 235
Liga acadêmica 56, 57
Língua de sinais 120, 122, 125, 126
Lúdico 35, 40, 41, 63, 152, 153, 154, 155, 156, 157, 160, 161, 163, 164, 165, 166, 167, 168,
253, 273
M
Matemática 42, 45, 68, 100, 102, 105, 106, 107, 108, 109, 133, 138, 139, 147, 150, 169, 173,
174, 203, 235, 237, 238, 239, 240, 241, 244, 257
Metodologias 32, 33, 36, 52, 53, 58, 64, 70, 143, 144, 145, 146, 147, 149, 152, 157, 167, 170,
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Capítulo
Índice Remissivo
Índice
Remissivo
309
180, 202, 211, 220, 222, 230, 231, 232, 233, 234, 237, 238, 247, 260, 304
Mídia digital educativa 120, 123
P
Palavras cruzadas 32, 35, 36, 37, 38, 39, 40, 41, 42, 53
Poética oral 110, 111
Práticas de acolhimento 20, 23, 24, 27, 30
Probabilidade 43, 44, 45, 102, 108
Produção textual 20, 26, 82, 84, 85, 87
Programa mulheres mil 68, 75, 76, 78
R
Recurso didático 32, 41, 122, 128, 166
Recurso metodológico 38, 152, 153, 165, 166
Recursos pedagógicos 198
S
Sexualidade 1, 3, 4, 5, 7, 16, 17, 18, 56, 57, 58, 59, 61, 62, 63, 64, 65, 66, 67, 307
Significação 47, 50, 115, 235
Sujeito ativo 82, 162
T
Tecnologias assistivas 203, 206, 215, 216
Tolerância 88, 89, 90, 91, 92, 93, 94, 95, 96, 97, 98, 99, 271
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Índice Remissivo
Índice
Remissivo
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