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Artigo de Sociologia de Poder 2023

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O PENSAMENTO DO PODER EM BOURDIEU E FOUCAULT: CONSIDERAÇÕES

SOBRE O PODER SIMBÓLICO E O PODER DISCIPLINAR

Dílio Albino Dinala 1


2
Benicio Armando Ascencao Francisco Lumbela
Maria Judite Salomão Macamo 3
Óscar Alexandre Samuel 4
RESUMO
O propósito deste artigo é de interpretar o pensamento do poder em Bourdieu e Foucault dando
considerações sobre o poder simbólico e o poder disciplinar defendido por Bordieu e Foucault,
dois grandes clássicos contemporâneos das Ciências Sociais. Para o mundo escolar das ciências
sociais o poder é visto como uma palavra que tem a sua origem no “Latim” que significa quem
tem potência. Mas também o poder nos remete a capacidade de fazer algo, empreender algo, mas
também, mais tarde o termo passou a significar uma capacidade de impor, de mandar e de
submeter-se a outras vontades, sejam elas: politicas, económica, familiares e dentre outros. O
poder é comumente compreendido como a capacidade de um determinado indivíduo de impor
sua vontade a outros. Neste sentido, surge o grande problema, a interpretação do pensamento
Bordeano e Faculto no que concerne ao aspecto do poder político simbólico e de ponto de vista
disciplianar. Para a realização deste trabalho recorreu-se a revisão bibliográfica de autores que
trazem o pensamento de Focault e Bordieu em volta do poder. Portanto, para terminar vamos
apresentar uma conclusão onde, no que tange à história do pensamento social, filosófico e
político muito se teorizou – e se teoriza – acerca do poder. Referendando a concepção de poder
Weberiana, a tradição clássica do pensamento político retoma a idealização que Thomas Hobbes,
no século XVII, faz do Estado, como no contexto do poder em Bourdieu e Foucault onde
considera-se que o poder simbólico e o poder disciplinar é produto da abdicação do poder
ilimitado de cada homem no estado de natureza (guerra de todos contra todos), em favor de um
pacto social buscando a auto preservação e a paz mútua. Tal pacto ou contrato visa ceder o
monopólio do poder a um soberano – o Estado.

Palavra-chaves: Disciplinar, Estado, Poder, Simbólico

Abstract
The purpose of this article is to interpret the thought of power in Bourdieu and Foucault, giving
considerations on the symbolic power and the disciplinary power defended by Bordieu and

1
Mestrando em ciências Políticas e Estudos Africanos pela Universidade Pedagógica de Maputo. Possui graduação
de Licenciatura em Ensino de História com Habilidades em Ensino de Geografia pela extinta Universidade
Pedagógica de Moçambique delegação de Montepuez. Contacto (861780104/848080410) correio eletrónico:
diliodinala@gmail.com.
2
Mestrando em ciências Políticas e Estudos Africanos pela Universidade Pedagógica de Maputo. Possui o
graduação de Lienciantura em Filosofia pela Universidade Eduardo Modlane. Contacto (879474541/ 849474541)
3
Mestranda em ciências Políticas e Estudos Africanos pela Universidade Pedagógica de Maputo. Possui graduação
de Licenciatura em História Política e Gestão Pública pela Universidade Pedagógica de Moçambique delegação de
Maputo. Contato (877129159) correio eletrónico: jmacamo012@gmail.com.
4
Universidade Pedagógica de Maputo (Unpm), Faculdade de Ciênciais Sociais e filosofia, Pós-Graduação em
Ciências Politicas e Estudos Africanos. samuelalexandresamuel808@gmail.com

1
Foucault, two great contemporary classics of the Social Sciences. For the school world of social
sciences, power is seen as a word that has its origin in the “Latin” that means who has power.
But power also refers to the ability to do something, undertake something, but also, later the term
came to mean an ability to impose, to command and to submit to other wills, be they: political,
economic, family and among others. Power is commonly understood as the ability of a given
individual to impose his will on others. In this sense, the big problem arises, the interpretation of
Bordeano and Faculto thought regarding the aspect of symbolic political power and from a
disciplinary point of view. In order to carry out this work, a bibliographical review of authors
who bring the thought of Foucault and Bordieu around power was used. Therefore, to finish, we
will present a conclusion where, with regard to the history of social, philosophical and political
thought, much has been theorized – and is theorized – about power. Referencing the Weberian
conception of power, the classical tradition of political thought resumes the idealization that
Thomas Hobbes, in the 17th century, made of the State, as in the context of power in Bourdieu
and Foucault where it is considered that symbolic power and disciplinary power are product of
the abdication of the unlimited power of each man in the state of nature (war of all against all), in
favor of a social pact seeking self-preservation and mutual peace. Such a pact or contract aims at
ceding the monopoly of power to a sovereign – the State.

Keywords: Disciplinary, State, Power, Symbolic

INTRODUÇÃO
O termo poder, no seu percurso evolutivo foi muito debatido desde a filosofia, política e outros.
Na perspectiva filosófica é visto o poder a ser defendido pelos teóricos políticos renascentistas
Maquiavel, o alemão Nietzche e também o sociólogo Karl Marx. Cada um deles com uma frase
que definia o poder. Já nos termos explicativos do contemporâneo vamos encontrar o Bobbio o
italiano, Foucalt filosofo Francês a discutir o poder, assim como Bordiue.
Bordieu defende no contexto do poder de que “a questão concernente à dominação – entendida
como a manutenção de uma ordem injusta, que privilegia alguns grupos ou indivíduos em
detrimento de outros”. O poder simbólico para Bourdieu (1989) é, fundamentalmente, um poder
de construção da realidade. Tal poder detém os meios de afirmar o sentido imediato do mundo,
instituindo valores, classificações (hierarquia) e conceitos que se apresentam aos agentes como
espontâneos, naturais e desinteressados.
Foi a passagem da Época Clássica para a Moderna que deu vazão para o nascimento do poder
disciplinar. A analítica foucaultiana envolve um enfoque histórico-social das formas de exercício
do poder e de sua localização no tipo de sociedade estudado, com este fundamento, o autor
entende que na Época Clássica o poder é um excesso, um espetáculo, uma demonstração que

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foge do necessário e, justamente por ser desnecessária, evidencia a capacidade do poder
soberano.
O presente artigo como hipótese salienta que o trabalho girou em torno do pensamento do Poder
Simbólico em Bourdieu e do poder disciplinar de Foucault. De salientar que o objectivo do
trabalho é de interpretar o pensamento do poder em Bourdieu e Foucault dando considerações
sobre o poder simbólico e o poder disciplinar defendido por Bordieu e Foucault.
O artigo é apresentado em itens onde encontramos os assuntos abordados em volta do tema,
nomeadamente:

1. Origem do Conceito: O Poder na Visão Clássica


O Poder é uma palavra originada do latim e tem a mesma raiz que a palavra potência. Ambas
remetem à capacidade de fazer algo, de empreender. Com o passar do tempo, poder também
passou a significar a capacidade de impor, de mandar e de submeter os outros à própria vontade.
Nos percebemos o termo Poder como aquele que é o direito de deliberar, agir, mandar e,
dependendo do contexto, exercer sua autoridade, soberania, a posse de um domínio, da
influência ou da força. Ademais, “na visão sociológica, poder é a habilidade de impor a sua
vontade sobre os outros, e existem diversos tipos de poder: o poder social, o poder económico, o
poder militar, o poder político, entre outros”. No entanto, alguns autores importantes que
estudaram a questão de poder foram Michel Foucault, Max Weber, Pierre Bourdieu. Porém, o
nosso artigo vamos desenvolver o poder simbólico e o poder disciplinar, do ponto de vista de
Michel Foucault e Pierre Bourdieu.
O conceito de poder de um ponto de vista mais geral, segundo o dicionário de política Bobbio
(1995), é definido da seguinte forma: em seu significado mais geral, a palavra Poder designa a
capacidade ou possibilidade de agir, de produzir efeitos. Tanto pode ser referida a indivíduos e a
grupos humanos como a objetos ou a fenômenos naturais (como na expressão Poder calorífico,
Poder de absorção) (Bobbio, 1995:933)
O poder pode ser qualificado em: poder pontual, quando de facto ele é exercido, quando passa da
possibilidade para à acção; como poder potencial, ou seja, quando existe a possibilidade em si,
sem necessariamente ser colocada em acto. As formas de exercício podem ser várias, e vão da
persuasão à manipulação, da ameaça de uma punição à promessa de uma recompensa.

3
Segundo Lebrun (1999), poder e dominação caminham juntos, e alguém só tem poder quando
outro é despossuído deste. Esta concepção está relacionada à sociologia norte-americana
conhecida por "Teoria do Soma Zero", que diz que alguém só pode ter poder quando outro ou
outros são desprovidos deste poder.
Durante séculos distintas escolas e tradições dedicaram-se a analisá-lo e explicá-lo. De modo
bastante esquemático (o que implica uma consciente redução de sua complexidade), a definição
de poder que se tornou hegemônica no campo da ciência política, a saber, a formulada pelo
sociólogo alemão Max Weber.
Portanto, pode-se clarificar a concepção de poder Weberiana, a partir da tradição clássica do
pensamento político que retoma a idealização de Hobbes no século XVII, faz do Estado, como
produto da abdicação do poder ilimitado de cada homem – no estado de natureza (guerra de
todos contra todos) – em favor de um pacto social buscando a auto preservação e a paz mútua.
Tal pacto ou contrato visa ceder o monopólio do poder a um soberano – o Estado.
Numa segunda fase, o poder tem uma dimensão, eminentemente, coercitiva, sendo a violência
física um instrumento comum, e o Estado, detentor exclusivo de tal prerrogativa. Já no século
XX, Weber explicita sua definição de poder: “ poder significa a probabilidade de impor a própria
vontade dentro de uma relação social, mesmo que contra toda a resistência e qualquer que seja o
fundamento dessa probabilidade.” (Weber, 1984:43). Sob esta perspectiva, a ideia de imposição
da vontade, pressuposto essencial da concepção Weberiana, contém em sua formulação a
intencionalidade e o cálculo por parte dos dominantes e dos dominados. Ela consiste em poder
afectar o comportamento de outrem da maneira desejada. Podemos imaginar, a partir dessas
formulações, “um determinado sujeito contrariado, forçado por meio de ameaças a fazer aquilo
que de outro modo não faria, portanto, com plena consciência da sua condição de dominado
(Perissinotto, 2007:317).

2. O Poder Simbólico em Bourdieu


Portanto, podemos perceber que o poder só pode ser exercido mediante capital e no interior do
próprio campo. Também a realidade social”como um lugar de disputas, um espaço de lutas
simbólicas promovido pelos agentes e as posições ocupadas pelos agentes dentro dos diferentes
tipos de campo social (político; artístico; económico, jornalístico, literário, etc.) e o que acontece
dentro deste campo, é limitam do pelas condições do próprio campo. Desta forma, apenas quem

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pertence a um determinado campo, é capaz de entender a dinâmica própria. Para Bourdieu o
campo político é um campo carregado de poder simbólico. O campo possui regras próprias, onde
apenas determinados indivíduos são legitimados para exercer a actividade política.
Para Bourdieu o poder é simbólico, ou seja, ele é baseado em símbolos, dessa maneira o poder
aqui é bem mais invisível do que no abordado por Foucault, uma vez que ele está estruturado na
religião, na arte - ou na cultura de forma geral -, nos meios de comunicação, inclusive na
linguagem e em muitos outros lugares. Esse poder é atribuído de forma dicotómica, o certo e o
errado, o bem e o mal, e essa disputa simbólica para determinar qual o lado "vencedor" dessa
dicotomia é travada de forma praticamente inconsciente para o colectivo (Bourdieu, 1992).
Essa legitimação das formas de dominação, portanto, de exercício do poder, é pautada numa
estrutura que é naturalizada. Passasse a enxergar aquela situação como algo natural,
estabelecendo-se que o certo seja certo e o errado seja o errado porque naturalmente assim se é,
mesmo que existam argumentos que legitimem a razão dessa dicotomia, ela assim se dá por que
um lado saiu vitorioso na disputa simbólica (Bourdieu, 1992).
Bordieu defende: “A questão concernente à dominação, entendida como a manutenção de uma
ordem injusta, que privilegia alguns grupos ou indivíduos em detrimento de outros”.
O poder simbólico para Bourdieu (1989) é, fundamentalmente, um poder de construção da
realidade. Tal poder detém os meios de afirmar o sentido imediato do mundo, instituindo valores,
classificações (hierarquia) e conceitos que se apresentam aos agentes como espontâneos,
naturais e desinteressados.
O poder simbólico “faz ver e faz crer”, transforma a visão e a acção dos agentes sociais sobre o
mundo – e desse modo, o mundo. É um poder “quase mágico que permite obter o equivalente
daquilo que é obtido pela força (física ou econômica) e só se exerce se for reconhecido, quer
dizer, ignorado como arbitrário” (Bourdieu, 1989:14). O poder simbólico é, com efeito, esse
poder invisível o qual só pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber
que lhe estão sujeitos ou mesmo que o exercem. (Bourdieu, 1989:7-8).
Esse poder simbólico do campo político, se constitui na medida em que são criados mecanismos
capazes de despertarmos eleitores uma espécie de “oferta e procura”, fruto das ideias defendidas
entre diferentes candidatos, como “problemas, programas, análises, comentários, conceitos,
acontecimentos”, levando os cidadãos a agir em como se fossem consumidores, comprando a
melhor opção apresentada na disputa eleitoral. (Bourdieu, 1989,p.164). Portanto, o campo

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político é o lugar por excelência de exercício do capital simbólico: é um lugar em que existir, ser,
é ser percebido. Um político é, em grande medida, um homem conhecido reconhecido; não é uns
acasos e os políticos são particularmente vulneráveis ao escândalo, sendo o escândalo gerador de
descrédito, e o descrédito é o inverso da cumulação do capital simbólico (Bourdieu, 2014,
p.353).
Os políticos dentro do campo político, transformam capital em poder de dominação, pois o poder
simbólico, poder subordinado, é uma forma transformada, irreconhecível, transfigurada e
legitima da, das outras formas de poder (Bourdieu, 1989, p.15). Nas tendências acabadas de
referir-se inscrevem diferentes concepções do autor diz jamais ter deixado de se espantar nas
suas análises, tal como está, com seus sentidos únicos e seus sentidos proibidos, em sentido
próprio ou figurado, suas obrigações e suas sanções seja grosso modo respeitada, que não haja
um maior número de transgressões ou subversões, delitos e loucuras. Portanto, uma vez chegado
a esta situação, “o poder simbólico mostra a ordem estabelecida, com suas relações de
dominação, seus direitos e suas imunidades, seus privilégios e suas injustiças salvo uns poucos
acidentes históricos”, perpetue-se apesar de tudo tão facilmente, e que condições de existência
das mais intoleráveis possam permanentemente ser vistas como aceitáveis ou até mesmo como
naturais. (Bourdieu, 2002, p. 10). É de afirmar partir do pensamento Pierre Bourdieu, onde de
facto situa-se, para uns, a um nível demasiado elevado de conceptualização teórica. Será talvez
questionado por não recorrer e propor teoria de médio alcance ou de média dimensão na ordem
de estabelecer a análise do poder simbólico.
Para o sociólogo francês, relações de comunicação são sempre relações de poder onde os agentes
envolvidos visam aumentar o seu poder simbólico. Os sistemas simbólicos são instrumentos
estruturados e estruturantes de comunicação e de conhecimento que cumprem a sua função
política de instrumentos de imposição ou de legitimação da dominação, que contribuem para
assegurar a dominação de uma classe sobre outra (violência simbólica) dando o reforço da sua
própria força às relações de força que as fundamentam contribuindo assim para a submissão
inconsciente dos dominados.
Segundo Bourdieu (2002), podemos assim trazer uma análise no desenvolvimento deste artigo a
partir da violência simbólica: podemos assim afirmar como uma “violência suave, insensível,
invisível a suas próprias vítimas, que se exerce essencialmente pelas vias puramente simbólicas
da comunicação e do conhecimento, ou, mais precisamente do desconhecimento.” Na mesma

6
posição intelectual, o poder simbólico para Bourdieu (1989) é, de facto, fundamentalmente, um
poder de construção da realidade. Tal poder detém os meios de afirmar o sentido imediato do
mundo, instituindo valores, classificações (hierarquia) e conceitos que se apresentam aos agentes
como espontâneos, naturais e desinteressados. Portanto, o poder simbólico “faz ver e faz crer”,
transforma a visão e a acção dos agentes sociais sobre o mundo. Na mesma, podemos afirmar
que É um poder “quase mágico que permite obter o equivalente daquilo que é obtido pela força
(física ou económica) e só se exerce se for reconhecido, quer dizer, ignorado como arbitrário.
Também há-de analisar nos outros atores sociais se lançam em uma competição contínua visando
à aquisição e o controle de diversas espécies de poder ou capital. Bourdieu chama atenção para
os actos dos agentes em suas disputas, ressaltando que tais agentes estão desigualmente
preparados e armados para esta contenda, sendo a própria classe à qual pertencem fonte de
consciência de valores, ideias, moral e conduta acção.
Portanto, Segundo Loic Wacquant (2013, p. 89) (considerado um dos maiores herdeiros
intelectuais de Bourdieu), “É a luta, e não a reprodução, que se situa no epicentro de seu
pensamento e se revela o motor ubíquo tanto da ruptura quanto da continuidade social.”
Ademais, Wacquant rechaça o reducionismo de algumas apropriações incidentais da obra de
Bourdieu, que tendem a rotulá-lo como reprodutivista, em sua perspectiva, a sociologia de
Bourdieu admite as condições para revoluções simbólicas, embora, dentro de um campo restrito
de possibilidades, que Bourdieu e Passeron (2014) intitulam campo dos possíveis. Sendo assim,
sob este prisma, vemos diferentes classes e fracções de classes envolvidas em uma luta simbólica
para impor a definição do mundo social mais conforme aos seus interesses.
Todavia, não se desconhece a importância o poder simbólico de ponto de vista global que é
como poder de constituir o, dado pela enunciação, de fazer ver e fazer crer, de confirmar ou de
transformar a visão do mundo e, deste modo, a acção sobre o mundo, portanto o mundo; poder
quase mágico que permite obter o equivalente daquilo que é obtido pela força (física ou
económica), graças ao efeito específico de mobilização, só se exerce se for reconhecido, quer
dizer, ignorado como arbitrário. Isto significa que o poder simbólico não reside nos (sistemas
simbólicos) e se define numa relação determinada - e por meio desta – entre os que exercem o
poder e os que lhe estão sujeitos.
Ao advogar, habitus é de facto, um “princípio gerador de práticas objectivamente classificáveis
e, ao mesmo tempo, sistema de classificação principal de tais práticas.” (BOURDIEU, 2006, p.

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162). Na mesma o autor afirma que as condições de participação social (existência no mundo)
baseiam-se na herança social, ou seja, nos capitais herdados e adquiridos de acordo com a
fracção de classe à qual se pertence, e que os indivíduos trazem inscritos nas estruturas do
pensamento e no corpo (incorporado) o acumulado desses capitais.
Por esta, rompendo com a passividade no posicionamento do sociólogo expande a definição de
capital – até então restrita ao capital económico - formulando uma noção de capitais, que ao
invés de encontrarem-se objectivados na forma de posses materiais, encontram-se incorporados,
isto é, tomando literalmente corpo e condicionando a maneira de ver e ser dos sujeitos; são os
capitais sociais e culturais incorporados conscientemente, mas também, de maneira inconsciente.
A classe dominante, cujo poder alicerça-se principalmente no capital económico, é a vencedora
de uma luta pela “hierarquia dos princípios de hierarquização”, impondo seus valores tanto
através de sua própria produção simbólica quanto por intermédio dos ideólogos conservadores
(alguns artistas, jornalistas, intelectuais, etc.) que servem aos interesses dominantes. Na nossa
posição em concordância dos nossos autores esclarecemos as análises e os mecanismos mediante
os quais as construções mentais cristalizam-se em realidades históricas concretas e apreensíveis
sejam enquanto instituições ou enquanto conjuntos de disposições pessoais, isto é, referentes à
construção da subjectividade dos indivíduos.
Portanto, o poder simbólico, poder. Subordinado, é uma forma transformada, quer dizer,
irreconhecível, transfigurada e legitimada, das outras formas de poder: só se pode passar para
além da alternativa dos modelos energéticos que descrevem as relações sociais como relações de
força e dos modelos cibernéticas que fazem delas relações de comunicação, na condição de se
descreverem as leis de transformação que regem a transmutação das diferentes espécies de
capital em capital simbólico e, em especial, o trabalho de dissimulação e de transfiguração (numa
palavra, de eufemização) que garante uma verdadeira transubstanciação das elações de força
fazendo ignoràr-reconhecer a violência que elas encerram objectivamente e transformando-as
assim em poder simbólico, capaz de produzir efeitos reais sem dispêndio. Enquanto O poder
disciplinar mostra uma análise própria com objectivo maior de adestrar para retirar e se apropriar
ainda mais e melhor. De facto, este poder fabrica os indivíduos, tomando-os como objectos e
instrumentos do seu exercício.
A sociologia de Bourdieu tem o intuito primordial de objectivar e desvendar as imposições
simbólicas, revelando a realidade objectiva por detrás das construções arbitrárias que conservam

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a ordem estabelecida. A destruição deste poder de imposição supõe a tomada de consciência do
arbitrário”, a descoberta da realidade objectiva e a desconstrução da crença inculcada entre os
dominados (Bourdieu, 1989:15). Somente a formulação e o triunfo de um discurso heterodoxo
contrário ao senso comum legitimado poderiam reverter esse processo e dotar de poder as classes
dominadas.
Para o sociólogo francês, relações de comunicação são sempre relações de poder onde os agentes
envolvidos visam aumentar o seu poder simbólico.

3. O Poder Disciplinar em Foucault


Foi a passagem da Época Clássica para a Moderna que deu vazão para o nascimento do poder
disciplinar. A analítica foucaultiana envolve um enfoque histórico-social das formas de exercício
do poder e de sua localização no tipo de sociedade estudado, com este fundamento, o autor
entende que na Época Clássica o poder é um excesso, um espetáculo, uma demonstração que
foge do necessário e, justamente por ser desnecessária, evidencia a capacidade do poder
soberano. O corpo, neste momento, poderia ser subjugado, torturado até a morte, molestado de
diversas maneiras. O poder soberano faz morrer e deixa viver.
No entanto, a própria valoração do corpo se alterou na mudança da Época Clássica à
Modernidade: tornou-se valioso demais para ser morto em atos de violência suntuosa. O poder
disciplinar em Foucault é um poder descentralizado, estratégico e que tem como elementos o
espaço e o tempo. A hipótese correlacionada às estratégias de fuga a esse poder consiste nas
práticas do cuidado de si.
Michel Foucault, em seu livro Vigiar e Punir descreve os processos de disciplinarização em
diferentes instituições, demonstrando que a principal característica dessa disciplinarização é
fabricação de corpos dóceis, ou seja, de indivíduos preparados para a execução de técnicas
normativas (seja uma atividade profissional.
Segundo Foucault, o poder não é essencialmente uma repressão ou censura, mas criador, pois
produz a realidade, os conceitos e os sujeitos. O poder não é apenas uma instância punitiva, mas
também produtora. O poder produz saberes, discursos, práticas e sujeitos, e os saberes são
utilizados para manter certas relações de poder. Um de seus interesses era sobre o modo como o
poder atua nos indivíduos, ou melhor, como o poder "produz" os indivíduos. Em seus estudos,

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ele constatou que houve uma mudança estrutural da Idade Média para a Idade Moderna, com a
passagem da punição corporal e da tortura para a vigilância e o confinamento.
Foucault parte de uma interpretação da realidade social, na qual a centralidade de seus estudos se
encontra na política, e não na economia como fazem os marxistas.
Quanto ao conceito de poder utilizado por Foucault, este propõe algumas precauções
metodológicas para análise das relações de poder. Destas, com as quais concordamos,
encontram-se: a-) um estudo que não privilegie a concepção hobbeseana de Poder Soberano, em
que se analisa o poder a partir do Estado para suas ramificações, ou seja, do geral para o
particular, mas o contrário, partindo de suas capilaridades, examinar as relações de poder em
seus detalhes mais sutis (os micros-poderes); b-) entender o poder não só do ponto de vista
jurídico de dominação, mas do ponto de vista produtivo, isto é, da produção de um saber,
portanto, não só repressivo; c-) o poder não seria uma coisa que se possui ou que se transmite
para outro, mas uma relação entre indivíduos que "circula" em toda a sociedade; d-) deve-se
fazer uma análise "ascendente do poder", isto é, de baixo para cima e não o contrário e por fim;
e-) não ao modelo do contrato.
Segundo Foucault, toda constituição de saber só se realiza a partir de determinadas condições ou
possibilidades que são, por sua vez, efeito de poder. Outrossim, dentro das relações de poder
surgem possibilidades ou condições para a produção de conhecimento, isto é, este conhecimento
não depende da vontade ou desejo, da capacidade ou habilidade do sujeito de conhecimento, mas
sim das relações de poder que se desenvolvem, pois os sujeitos estariam submetidos à ela, mais
que isto, seriam seu efeito.
Para o nosso discorrer do ponto de vista do poder disciplinar abrange somente sanções
administrativas, como por exemplo, a advertência, a multa, a suspensão e a demissão. De toda
forma, não se pode esquecer que existem sanções penais e civis que podem ser aplicadas ao caso
concreto, embora não façam parte do poder disciplinar. Contudo, o poder que se dirige àqueles
sujeitos à autoridade interna da Administração Pública, poder interno. Mas, segundo alguns,
também pode ser aplicado ao particular sujeito à disciplina da Administração e aos contratados
da Administração. Podemos assim, afirmar de forma geral que o poder disciplinar é
discricionário de forma limitada. Outorga-se à Administração a possibilidade de avaliar, no
momento da aplicação da pena, qual será a sanção correcta, assegurado o contraditório e a ampla
defesa, e qual será a quantificação da sanção.

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De acordo com Michel Foucault, a disciplina não se trata de uma instituição ou mecanismo no
Estado. É, por si, uma técnica de poder que consegue ultrapassar todas as instituições e
mecanismos. Assim, consegue fazer com que o poder actue no corpo do indivíduo, utilizando a
punição e a vigilância como instrumentos de adestramento, servindo para socializar o sujeito. A
partir da acção dessa técnica de poder, o indivíduo se adequa às normas estabelecidas pelas
instituições (Diniz e Oliveira, 2014).
Dessa forma, o complexo de conhecimentos, estudos científicos e técnicas, se juntam com a
prática do poder de punir e produzem o regime de poder disciplinar. Nesse sentido, o poder
disciplinar reproduz conhecimentos que, de forma estratégica, servirão de instrumento para
moldar o comportamento do indivíduo. A partir disso, os espaços são construídos por modelos
que possibilitam vigiar os indivíduos e, consequentemente, controlá-los. Assim, Foucault
apresenta a ideia do Panóptico (Souza e Meneses, 2010).
Para Bourdieu e Foucault o poder deve ser entendido como uma estrutura de relações que
distribui os indivíduos em posições hierarquizadas definindo acessos desiguais a recursos sociais
estratégicos. A estrutura é envolvida por uma luta simbólica que faz com que ela se apresente aos
atores sociais – tanto dominados, quanto dominantes – como natural (Perissinotto, 2007). Essa
estrutura é o poder, e o poder, assim compreendido, é um fenómeno duradouro e invisível, difícil
de ser apreendido. A realidade imediata ocultaria as lutas passadas – seus vencidos e vencedores
– apresentando-se aos indivíduos como óbvia e imutável.
Partindo da argumentação no pensamento de Michel Foucault estabelece um triplo objectivo na
disciplina: permitir o exercício do poder de uma forma menos dificultosa; procurar estender e
intensificar os efeitos do poder e, por fim, ampliar a docilidade e utilidade dos indivíduos
submetidos ao poder disciplinar (Pogrebinschi, 2004).
No contexto reflexivo simultaneamente com os nossos autores Bourdieu e Foucault, desvendam
um poder que age de maneira sutil e quotidiana, moldando sistematicamente os desejos, as
escolhas e as acções dos atores envolvidos. “O que Foucault e Bourdieu têm em comum é, por
assim dizer, uma desconfiança em relação ao consenso que caracteriza as relações sociais
presentes. Essa desconfiança estaria autorizada por uma percepção inicial acerca das
desigualdades que caracterizam a distribuição de recursos sociais” 5.

5
Foucault e Bourdieu, podemos afirmar que na visão dos dois, têm em comum é, por assim dizer, uma desconfiança
em relação ao consenso que caracteriza as relações sociais presentes.

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No contexto social, seriam virtuosos corpos dóceis e adestrados, com aspectos de submissão,
como, por exemplo, paciência, obediência e resiliência. Assim, a disciplina é uma técnica
utilizada para assegurar a coordenação das multiplicidades humanas, sendo usada para reduzir o
que é difícil de controlar. É o procedimento pelo qual a força do corpo é reduzida à força política
e constituída como força útil, buscando o máximo de efectividade com mínimo de gasto. De tal
modo, a disciplina permite que o poder actue na vida dos indivíduos de modo favorável ao
circuito de produção (Lauro, 2017).
Na compreensão do pensamento do nosso autor, o poder possa estar alojado em um núcleo
central de onde parte contra tudo, faz com que as pessoas não tenham o verdadeiro conhecimento
sobre esse instrumento de relações. Ao acreditar que o poder emana de um ponto qualquer, passa
a ideia de que é adquirido por meio de investidura e não como capacidade natural dos indivíduos,
ou seja, passa a creditar que o poder seria algo que recebemos em determinado tempo da vida.
Por isso, Michel Foucault, teorizou acerca desse fenómeno social, denominando como
sociedades disciplinares, situação em que os indivíduos são disciplinados para se tornarem
dóceis (Cruz e De Freitas, 2011).
Entende-se que o poder disciplinar nasce em conjunto com as técnicas disciplinares e atua como
modelo geral de movimentação e organização dessas técnicas na Modernidade nascente. O tipo
de poder específico da sociedade nascente, que emerge em conjunto com a nova classe
dominante da época, a burguesia, e que rechaça os usos nababescos do poder monárquico.
O poder disciplinar é uma forma de exercício do poder que prende, arrasta, separa, corta, marca,
introjeta. É um tipo de poder que tem sua face repressiva visível, atuante e pavorosa, mas
mantém obscura sua face positiva, seu aspecto produtor, criador, seu lado que fabrica, constrói
corpos regulares, adequados e conformes

Considerações finais
Ao finalizar esta pesquisa é de imensa importância dar a perceber a grande preocupação
avançada por Michel Foucault e Pierre Bourdieu defende, os dois tem a ideia do poder posto em
prática pelo Estado moderno, tendo como principal tarefa a formatação e controle do indivíduo e
da sociedade. A partir do momento em que tais ambientes sofrem alterações com a aplicabilidade
do poder, Michel Foucault passa a denominar como Sociedades Disciplinares. Ademais, fora
apresentado o poder disciplinar, que se define como uma técnica de poder em que o indivíduo se

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adequa às normas estabelecidas pelas instituições. Portanto, demonstramos a aplicabilidade dos
fundamentos teóricos do filósofo, com foco em como o poder possui finalidade específica nas
sociedades contemporâneas. Ao ser demonstrado os elementos constitutivos do Estado, o poder
Foucaultiano se apresenta como uma rede de relações em que todos os indivíduos estão
envolvidos, como geradores e receptores, podendo actuar em todos os níveis da sociedade. Por
outro lado, em Bourdieu e Foucault o poder é entendido como algo abstracto, não localizável,
que existe enquanto relação, moldando a mente e os corpos de sujeitos que nem sequer se dão
conta que são tocados e influenciados por uma força exterior.

Bibliografia: Obras Primarias


BOURDIEU, P. A economia das trocas simbólicas. 6.ed. São Paulo: Perspectiva, 2007.
BOURDIEU, P. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.
BOURDIEU, P. e PASSERON, J.-C. Os herdeiros: os estudantes e a cultura. Florianópolis:
Editora da UFSC, 2014.
FOUCAULT, M. Vigiar e punir: nascimento da prisão. 39.ed. Petrópolis: Vozes, 2011.

Obras Secundarias
BOBBIO, N. et al. Dicionário de política. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1995
BOURDIEU, P. A distinção: crítica social do julgamento. Porto Alegre: Zouk, 2006.
LEBRUN, G. O que é poder. São Paulo: Brasiliense, 1999.
PERISSINOTTO, R. História, sociologia e análise do poder. Rio Grande do Sul: Revista
História Unisinos. 2007.
ROSA, Tiago Barros. O poder em Bourdieu e Foucault: considerações sobre o poder
simbólico e o poder disciplinar. Rev. Sem Aspas, Araraquara, v.6, n.1, p. 3-12, jan./jun.2017.
e-ISSN 2358-4238.
WACQUANT, L. Poder simbólico e fabricação de grupos: como Bourdieu reformula a
questão das classes. São Paulo: Novos Estudos-CEBRAP. 2013.
WEBER, M. Economia e Sociedade. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1984.

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