O primeiro
Venom (2018) não era lá grande coisa, mas encerrava com um gancho
para continuação que talvez rendesse algo melhorzinho por conta da presença do
serial killer Cletus Kasady. Pois bem,
este
Venom: Tempo de Carnificina tenta
pegar o gancho final do primeiro e não faz nada de muito interessante.
Na trama, Eddie Brock (Tom Hardy)
consegue uma entrevista exclusive com o serial
killer Cletus Kasady (Woody Harrelson), mas durante a conversa Brock é mordido
por Kasady, que fica com o pedaço do simbionte de Eddie. Usando o novo
simbionte para se tornar o perigoso Carnificina, Cletus foge da cadeia e começa
a causar destruição por onde passa. Cabe a Eddie Brock e ao simbionte Venom
deter a nova ameaça.
De cara incomoda como a relação
entre Brock e Venom parece estagnada em relação aos eventos do filme anterior.
No final do primeiro Brock parecia ter aceito a condição de “protetor letal”
permitindo que Venom devorasse bandidos. Aqui, no entanto, tudo parece ter
voltado à estaca zero, com o filme dando a desculpa de que as autoridades ainda
estavam à procura do simbionte por causa dos eventos do filme anterior, sendo
que nada disso tinha sido dito no final do primeiro filme quando Eddie deixa
Venom devorar um assaltante. Assim, ao invés de mover adiante a relação dos
personagens, tudo soa estagnado, repetindo o que já tinha sido feito no
primeiro filme, sendo que o primeiro filme não é exatamente bom.
Muitos defeitos do anterior
também retornam, como o fato de que o texto não consegue fazer Eddie soar como
um competente repórter investigativo. Porque inicialmente ele recusaria uma
exclusiva com um serial killer?
Porque ele aceitaria publicar uma fala de Cletus que claramente é uma mensagem
cifrada sendo que isso poderia ser um código para que crimes fossem cometidos
em nome dele? É um tipo de coisa que deveria passar pela cabeça de um
jornalista experiente, mas Brock continua a agir como um amador estúpido.
Do mesmo modo, a relação entre
Venom e Eddie continua sendo apresentada mais como uma espécie de comédia
romântica e menos como um sujeito lidando com um parasita alienígena querendo
controlar seu corpo. Ao fazer Venom engraçadinho, o filme diminui a capacidade
intimidadora da criatura como um predador voraz e letal, impedindo que Venom
seja aqui a presença imponente que o texto visa construir.
Qualquer um que já tenha
assistido Assassinos por Natureza (1994)
sabe que Woody Harrelson é perfeitamente capaz de fazer um serial killer caipira cruzando o país ao lado de um interesse
romântico igualmente letal. A escalação dele como Cletus Kasady seria um acerto
fácil, no entanto, não funciona por conta de um texto que não sabe fazer com o
personagem. Kasady muda de personalidade o tempo todo, uma hora sendo enquadrado
como um completo lunático e sádico, um psicopata cruel que busca destruição e
dor. Em outros momentos o filme tenta transformar Cletus em uma vítima das
circunstâncias, um coitado solitário e incompreendido que se tornou violento
por causa dos abusos que sofreu e só queria ser amado. Essas duas abordagens
entram em conflito uma com a outra e o personagem acaba soando vazio.
Não ajuda que o roteiro tenha uma
série de incoerências e elementos mal explicados ou desenvolvidos. Porque, por
exemplo, Cletus só queria dar entrevista para Eddie? O filme nunca dá uma
justificativa crível para isso e soa mais como algo que acontece porque precisa
acontecer para mover a trama. Do mesmo modo, porque exatamente o simbionte
Carnificina precisa matar Venom? É estabelecido desde o início que Carnificina
é naturalmente mais poderoso que Venom, então qual a razão dessa obsessão em
matar o “pai”? Porque Venom fica assustado ao ver Carnificina pela primeira
vez, explicando que é por ele ser vermelho? Qual o motivo do inimigo ser um
simbionte vermelho afetar tanto Venom?
A ação abusa de névoa e espaços
mal iluminados, provavelmente para facilitar os efeitos especiais que criam as
criaturas, mas assim como no anterior são escolhas que tornam tudo
incomodamente escuro. As lutas entre simbiontes continuam parecendo que duas
manchas de tinta foram jogadas em uma folha de papel. São menos confusas que o
filme anterior por causa das cores mais díspares entre as criaturas, entretanto
não empolgam como deveriam. Parte do motivo da ação não empolgar é que o filme
nos diz o tempo todo como esses seres são monstros carniceiros devoradores de
gente, porém nunca vemos essa violência e brutalidade nas cenas de ação, já que
o filme tem classificação indicativa baixa e não pode mostrar nada muito
explícito.
Não esperava nada de Venom: Tempo de Carnificina e ainda
assim o filme conseguiu decepcionar sendo pior que o primeiro em praticamente
tudo.
Nota: 3/10
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