Monografia - Eficiencia Volumeterica em Motores 4 Tempos
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Este trabalho, além de estudar, analisar e comparar propostas de modelos matemáticos que buscam prever a eficiência
volumétrica em motores de combustão interna, utiliza recursos da modelagem computacional para simular os resultados
com a variação de alguns parâmetros de entrada. A partir dos modelos foram observadas as características funcionais
e analisada algumas variáveis dos motores, como: Pressão versus Volume, Eficiência Volumétrica versus Índice de
Mach Modificado, Liberação de Calor, Pressão versus Ângulo de Girabrequim e Eficiência Volumétrica versus Relação
Pressão de Admissão e Exaustão. Com esses resultados pôde-se realizar comparações com os dados obtidos experimentalmente
e verificar o desvio encontrado entre o modelo e os resultados ensaiados.
Palavras-chave: motor de combustão interna, eficiência volumétrica, modelagem computacional.
e a exaustão, e outras variáveis de operação do motor no interior do cilindro é mais elevada. Quando o pistão
(Heywood, 1988). Segundo Silva (2004), a disposição inicia o curso de admissão, retorna para o cilindro os gases
do coletor de admissão também pode influenciar fortemente que foram para o coletor de admissão e parte da última
o desempenho da eficiência volumétrica e, por consequência, fração dos gases de exaustão. Esse total de gases que retorna
o motor. ao cilindro é denominado gás residual.
O conhecimento de alguns parâmetros não disponíveis A mistura fresca só começa a entrar no cilindro pouco
usualmente nas condições normais de operação do motor depois do fechamento da válvula de exaustão, pois
é necessário para os modelos físicos da eficiência inicialmente acontece expansão da massa de gás residual
volumétrica. Ferguson (1986) apresenta modelos de com consequente queda de pressão.
simulação computacional em FORTRAN que calcula as Usando a equação da energia aplicada a um volume
perdas de calor do motor, as propriedades termodinâmicas de controle que compreende cabeçote, parede do bloco,
dos gases de combustão, o enchimento e o esvaziamento anéis e topo do pistão, chega-se à equação para a
do cilindro, que ajudam nos cálculos da eficiência determinação da eficiência volumétrica teórica ( η v t).
volumétrica de um motor de quatro tempos. Conhecendo-se o diagrama de abertura e fechamento
das válvulas de admissão e escape, a taxa de compressão
Metodologia Utilizada (r), a pressão de exaustão (Pexaust) e admissão (Pind) e a
A Figura 1 mostra o esquema de abertura e fecha- densidade da mistura (ρind), podemos avaliar a eficiência
mento das válvulas para um melhor entendimento desses volumétrica para rotação zero do motor com a Equação
processos. (1) (Ferguson, 1986).
Nos motores de quatro tempos a válvula de admissão O calor transferido no cilindro ( Q ) precisa ser
é aberta antes de o pistão alcançar o PMS (Ponto Morto determinado através de um equacionamento, pois sua
Superior). Assim, a mistura passa a ser admitida para dentro medição na prática se mostra muito difícil. Para isso fez-
do cilindro. A válvula de admissão só é fechada alguns se uso de um algoritmo desenvolvido em MATLAB que
graus depois de o pistão passar pelo PMI (Ponto Morto usa as Equações (2) e (7) fornecido por Ferguson (1986),
Inferior), já no curso de compressão. A válvula de exaustão demonstradas abaixo, para a determinação do calor
é aberta ainda no curso de expansão, alguns graus antes transferido e pressão no interior do cilindro para determinado
do pistão atingir o PMI. Em seguida, o pistão sobe no deslocamento dθ do virabrequim.
curso de exaustão descarregando os gases da combustão Na Equação (1) nota-se claramente a influência
através do coletor de escape. negativa da relação de pressão de exaustão e admissão,
A válvula de exaustão só é fechada alguns graus aquecimento da mistura e fração de gases residuais.
depois de o pistão atingir o PMS. Assim, existe um espaço
angular onde as válvulas de admissão e de exaustão
ηvt =
(cosθ ava − cosθ fva )
−
1 ⎛ Pexaust ⎞⎡
⎜ −1 ⎢
encontram-se abertas simultaneamente (região listrada 2 γ (r − 1) ⎜⎝ Pind ⎠⎣
na Figura 1). Esse espaço angular é conhecido como (1)
cruzamento de válvulas.
⎞⎡ r − 1
Quando a válvula de admissão é aberta, parte dos 1⎟⎟⎢1 + (1 − cosθava )⎤⎥ − ⎛⎜⎜ γ −1⎞⎟⎟ Q − Tres mres
gases vai para o coletor de admissão, visto que a pressão ⎠⎣ 2 ⎦ ⎝ γ ⎠ PindVd Tind ρindVd
VA VE
PMS
PMS
AVA FVE PMS – Ponto morto superior
PMI – Ponto morto inferior
AVA – Abertura da válvula de admissão
FVA – Fechamento da válvula de admissão
AVE – Abertura da válvula de exaustão
FVE – Fechamento da válvula de exaustão
FVA AVE PMI VA – Válvula de admissão
VE – Válvula de exaustão
PMI
Para determinar o calor perdido ( Ql ) pelas paredes O volume na câmara de combustão pode ser
do cilindro do motor, tem-se: relacionado pela seguinte equação:
~ ~ ⎡ r −1
dQl ~
( )(
~ ~~ ~
= h 1 + β V P V − Tw ) (2) V = ⎢1 + (1 − cos θ )⎤⎥ / r (8)
dθ ⎣ 2 ⎦
~
em que h representa o coeficiente convectivo de trans- A pressão é calculada através da equação diferencial
ferência de calor adimensionalizado, β a área superficial abaixo:
~
da câmara de combustão e Tw a temperatura superficial ~ ~ ~ ~
dP P dV Q dx
das paredes da câmara de combustão. = −γ ~ + (γ − 1) ~ (9)
dθ V dθ V dθ
Sendo na equação adimensionalizada:
em que:
~ Q
Ql = in (3) ~ P
P=
P1V1 P1 (10)
~ V
~ T V = (11)
T = (4) V1
T1
~ Q
Q = in (12)
~ hT (A − 4V0 / b ) P1V1
h = 1 0 (5)
P1V1ω
Análise dos Resultados
4V1
β= Com essas equações foram criados alguns algoritmos
b(A0 − 4V0 / b ) (6)
que permitem fazer a simulação do funcionamento do
motor, principalmente com relação ao comportamento
De posse do calor perdido ( Ql ) e do calor liberado
da eficiência volumétrica.
pelo combustível ( Qin ), pode-se facilmente determinar
Um dos algoritmos forneceu os gráficos da Figura
o calor transferido em todo o processo pela integração
2 quando testado com os dados de um motor com as
da Equação (7): ~ ~
seguintes características: r = 10 ; γ = 1,4 ; Q = 20 ; h = 20 ;
~
dQ = Qin dx − dQl (7) β = 1,5 ; Tw = 1,2 .
5 90
(a) (b)
80
4
70
3 60
50
Q~
P~
2
40
1 30
20
0
10
–1 0
–180 –90 0 90 180 –180 –90 0 90 180
Ângulo (q) Ângulo (q)
1,1
(c)
1
0,9
0,8
0,7
V~
0,6
0,5
0,4
0,3
0,2
0,1
–180 –90 0 90 180
Ângulo (q)
Figura 2 (a) Calor perdido adimensional em função do ângulo θ. .(b) Pressão adimensional em função do ângulo θ.
(c) Volume adimensional da câmara de combustão em função do ângulo θ.
90
80
70
60
Pressão (P/P1)
50
40
30
20
10
0
0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11
Volume (V/V2)
1,2
1,15
1,1
0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7 0,8 0,9 1 1,1 1,2 1,3 1,4 1,5 1,6 1,7
Pressão de admissão por pressão de exaustão (Pi/Pe)
1,2
Eficiencia volumétrica, nv (%)
1,15
1,1
1,05
1
0,95
0,9 r
0,85 12
0,8 10
0,75
0,7 8
0,65
0,6
0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7 0,8 0,9 1 1,1 1,2 1,3 1,4 1,5 1,6 1,7
Pressão de admissão por pressão de exaustão (Pi/Pe)
0,12
0,11 8
Fração residual, f (%)
0,1
0,09 10
0,08
0,07 12
0,06 r
0,05
0,04
0,03
0,02
0,01
0
0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7 0,8 0,9 1 1,1 1,2 1,3 1,4 1,5 1,6 1,7
Pressão de admissão por pressão de exaustão (Pi/Pe)
Figura 5 Fração residual dos gases de exaustão e eficiência volumétrica teórica × relação Pi/Pe.
Verifica-se que, à medida que aumenta a razão relação dos gases, em um motor movido a álcool (taxa de
Pi/Pe , diminui a fração residual e aumenta a eficiência compressão = 12).
volumétrica, em virtude da reversão do processo. Isso Foram feitas algumas iterações para computar a fração
para valores da relação relação Pi/Pe menores que 1. A residual a partir de um caso específico de motor com os
fração residual diminui para taxas de compressão maiores, seguintes parâmetros: Pe = 1,05 bar; M = 29,98; γ = 1,4;
como pode ser visto no gráfico inferior da Figura 5. Para Ti = 300 K; e q = 600 cal/g.
razão de pressão maior que 1 a eficiência volumétrica Para motores em diferentes rotações, a eficiência
aumenta em virtude de uma compressão nos gases residuais volumétrica pode ser calculada com a seguinte equação
causada pela carga que entra no cilindro. apresentada por Ferguson (1986):
O comportamento pode ser melhor entendido por
meio da Figura 6, que mostra a eficiência volumétrica mi A c fva A* ρ c 2 ⎛ 2/γ (γ + 1) / γ ⎞
ηv = = i i ∫ ⎜P − P* ⎟ dθ (16)
sendo prejudicada à medida que aumenta a fração residual ρ i Vd ωVd ava Ai ρi ci γ −1⎝ * ⎠
1,2
0,95
0,9
0,85
0,55
0,5
0 0,01 0,02 0,03 0,04 0,05 0,06 0,07 0,08
Fração residual dos gases (%)
Figura 6 Eficiência volumétrica teórica × fração residual dos gases do motor movido a álcool.
O índice de Mach modificado é definido por Taylor Um algoritmo que fornece a curva eficiência
(1985) como sendo dado pela Equação (17): volumétrica × índice de Mach para os motores de maior
interesse foi programado. A Figura 8 representa a curva
π 2
b Up gerada, porém não consegue prever a eficiência volumétrica
Z= 4 (17) para índices de Mach pequenos, pois a solução dessa
Ai c i
equação tem comportamento assintótico.
Esse índice de Mach modificado (Z) relaciona o Através da técnica de ajuste de curvas pode-se chegar
diâmetro do cilindro com o diâmetro do pé da válvula, e a uma equação que consiga prever o comportamento da
ainda a velocidade média do pistão com a velocidade sônica eficiência volumétrica para toda faixa de Z, para deter-
nas condições do escoamento. minadas condições de funcionamento do motor. A curva
A Equação (16) pode assumir nova forma quando teórica da Figura (8) foi acoplada aos valores obtidos de
se leva em consideração a inexistência de fluxo reverso dados experimentais da Figura (9).
e o limite de fluxo blocado. O ajuste de curva proposto demonstrou grande grau
Rearranjando a Equação (16) com a Equação (17) de proximidade, com R2 igual a 0,99. A função escolhida
e considerando que γ = 11,4, tem-se: para ajustar à curva foi um polinômio de quarto grau.
Assim, tem-se uma equação que prevê a eficiência
⎛θ − θ ava ⎞ 1
= 0,58⎜ ⎟ volumétrica para toda faixa de Z, sob determinadas
fva
ev ⎜ π ⎟Z (18)
⎝ ⎠ condições de funcionamento do motor, dada por:
Utilizando as Equações (17) e (18) juntamente com ηv = – 0,2396Z4 + 1,0791Z3 –
as condições operacionais e dados geométricos do motor (19)
– 1,7767Z2 + 0,9066Z + 0,7164
analisado pode-se avaliar a eficiência volumétrica conforme
a Figura 7 apresentada por Ferguson (1986). Com esses resultados pode-se realizar comparações
Quando os valores de Z são superiores a 0,6, o motor com os dados obtidos experimentalmente e verificar o
entra na faixa em que a eficiência volumétrica cai. desvio encontrado entre o modelo e os resultados ensaiados.
0,9
0,8
0,75/Z
0,7
ev
0,6
0,5
0,4
0,5 0,5 0,5
Z
Figura 7 Eficiência volumétrica × índice de Mach modificado.
0,9
0,8
0,7
ev
0,6
0,5
Z
0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7
1
0,8
0,6
Velocidade do pistão (pé/min)
ev
0
0 500 1000 1500 2000 2500
Velocidade do pistão (pé/min)
Figura 9 Eficiência volumétrica x índice de Mach de um motor operando nas seguintes
condições: r = 5,74, Pi = 0,95 bar, Pe = 1,08 bar; Ti = 339 K (Taylor, 1988).
0,90
0,85
0,80
0,75
0,70
0,65
ηv
0,60
0,55
4 3 2
y = –0,2396x + 1,079x – 1,7767x + 0,9086x + 0,7164
0,50 2
R = 0,9912
0,45
0,40
0 0,2 0,4 0,6 0,8 1 1,2 1,4 1,6 1,8
Z
Figura 10 Ajuste de curva para um modelo que prevê a eficiência volumétrica em relação ao índice de Mach.