Interferencia
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Resumo: Sabemos que a língua inglesa (L2) tem posição de destaque no mundo inteiro, inclusive
no dia-a-dia dos brasileiros, uma vez que a mesma é amplamente utilizada na mídia em geral, em
nomes e rótulos de produtos e propagandas disponíveis em nosso mercado e também faz parte do
nosso currículo escolar. Acreditando que juntamente com a disseminação da L2 haveria também
uma adaptação de uso pelos falantes brasileiros, pudemos comprovar a interferência da língua
materna (L1) nos aspectos fonológicos e semânticos da L2 através de duas pesquisas
anteriormente realizadas. Diante disso, este trabalho tem por objetivo verificar se há também a
interferência da L1 nos aspectos morfo-sintáticos da L2 através da análise da produção textual de
alunos brasileiros. Para tanto, os procedimentos metodológicos utilizados foram a pesquisa
bibliográfica baseada em autores como Maia (2009), Jacobs (1999), El-Dash e Busnardo (2002),
Fonseca (2005), dentre outros, que discorrem sobre frequentes erros cometidos por falantes e
alunos brasileiros de L2. Essa pesquisa bibliográfica foi usada como suporte na análise
exploratória de partes de redações de alunos ingressantes em um curso superior cujo
conhecimento de língua inglesa deve corresponder ao nível pré-intermediário, com a finalidade
de comprovar se, de fato, há ou não a interferência da língua materna na escrita desses alunos.
Abstract: We know that the English language (L2) has a prominent position in the whole world,
including the everyday life of the Brazilians, as it is broadly used in the media in general, in
names and labels of products and in advertisements available in our market. Moreover, it is also
part of our school curriculum. Believing that together with the dissemination of L2 there would
be also an usage adaptation by the Brazilian speakers, we could prove the interference of the
mother tongue (L1) in the phonological and semantic aspects of L2 through some research
carried out previously. Therefore, this study aims at verifying whether there is also the
interference of L1 in the morpho-syntactic aspects of L2 through analyses of the Brazilian
students’ written production. The methodological procedures were the bibliographical research
based on authors such as Maia (2009), Jacobs (1999), El-Dash and Busnardo (2002), Fonseca
(2005), amongst others, that talk about frequent mistakes made by L2 Brazilian speakers and
students. The bibliographical research was used as support for the exploratory analysis of parts of
compositions of students who have just entered university, whose knowledge of English language
should correspond to the pre-intermediate level, with the purpose of proving if, in fact, there is
the interference of the mother tongue in these students’ pieces of writing or not.
1
Pesquisas científicas em forma de artigo que fazem parte das atividades de extensão do curso de Letras do Uni-
FACEF – Centro Universitário de Franca. Os artigos escritos em 2007 e 2008 são intitulados respectivamente: A
interferência da língua materna na pronúncia de termos em inglês; Vocábulos da língua inglesa que incorporados á
língua portuguesa perdem seu significado. No capítulo 3 e nas referências bibliográficas há maiores detalhes sobre
essas pesquisas.
2
Língua materna.
3
Língua estrangeira ou segunda língua.
É de grande relevância mencionar que devido à questões éticas e para preservar a
identidade dos alunos, as redações não serão colocadas, na íntegra, neste trabalho. Serão
utilizadas na análise apenas as frases pertinentes a essa pesquisa e que abordam o referencial
teórico apresentado.
De acordo com Harmer (2004)4, embora a língua inglesa não seja a língua
utilizada pela maioria dos falantes em todo o mundo, esta tornou-se uma língua franca, ou seja, a
língua utilizada por falantes de línguas maternas diferentes, para estabelecer comunicação, e
também é a língua mais adotada pelas pessoas como um segundo idioma.
Devido ao destaque econômico e cultural dos Estados Unidos, ocorre uma forte
influência do uso do inglês em várias partes do mundo. Deste modo, muitas pessoas são capazes
de utilizar o inglês tão bem quanto suas línguas maternas.
Como o latim na Europa na Idade Média, o inglês parece ser uma das principais línguas
de comunicação internacional, e até mesmo pessoas que não são falantes de inglês
frequentemente conhecem palavras como bank, chocolate, computer, hamburguer,
hospital, hot dog, hotel, piano, radio, restaurant, taxi, telephone, television, university e
walkman (HARMER, 2004, p.1).
4
As traduções que compõem o trabalho foram realizadas pelas autoras.
1.2 A interferência da língua materna na aprendizagem da língua estrangeira
Quando adultos e adolescentes estão aprendendo uma língua estrangeira, eles trazem
consigo algum conhecimento de mundo e querem ser capazes de dizer e fazer na língua
estrangeira aquilo que fazem na língua materna. Algumas vezes essa relação entre as
línguas torna-se difícil para eles, pois “observam a língua materna como algo amplo e a
língua estrangeira como algo pequeno e duvidoso” (RINVOLUCRI Apud FALEIROS,
2004, p. 47).
5
O autor Michael Jacobs, é um falante nativo natural de Londres que dedica-se em seu tempo livre à análise dos
vocábulos incorporados à língua portuguesa com sentido diferente da mesma palavra na língua alvo. O referido autor
imigrou-se para o Brasil em 1967 e atualmente trabalha com o ensino de inglês, traduções técnicas e consultorias
para assuntos de língua inglesa.
Os estudantes criam uma figura mental do idioma estudado, ou seja, um léxico
mental e uma interpretação pessoal de sua estrutura, de acordo com Lewis (1997), uma
intergramática. Este conhecimento é concebido subconscientemente, por leituras e escutas do
idioma e por analogia com a língua materna. Neste contexto, é favorável utilizar esta tendência
dos alunos e assumir que características da língua materna aplicam-se também à língua estudada.
Desta forma o termo interferência pode ser substituído por transferência, ou seja, algumas
analogias da língua alvo com a língua materna fazem sentido e desempenham um papel positivo
na aprendizagem de outro idioma. Muitas palavras aparentemente similares, de fato são, e isso
ocorre com mais frequência do que ocorrem os False Friends (falsos cognatos - palavras que são
semelhantes na escrita, em duas línguas diferentes, mas, cujos significados em cada língua são
diferentes) assim como as características estruturais. Cabe ao professor as atividades de
conscientização dos alunos, tanto dos efeitos positivos quanto dos efeitos negativos que tais
influências ou transferências podem resultar.
É interessante realizar paralelos lexicais entre a língua materna dos estudantes e a
língua estudada, com a finalidade de que os alunos percebam como se usa sua própria língua e a
língua alvo, tornando-os mais conscientes para reais situações de uso do idioma estudado. De
acordo com Faleiros (2004, p. 53) “Quando o aluno se torna consciente do uso de equivalentes,
ele tem uma probabilidade bem menor de fazer uma tradução ‘ao pé da letra’ ou literal e menor
probabilidade de fracasso ao se comunicar”.
Uma pedagogia segura deve explorar este fato ao invés de negá-lo. O professor
deve certificar-se de que os alunos não desperdicem seu tempo em atividades mal direcionadas.
Os alunos vêem a L1 como algo amplo, uma vez que a dominam como falantes nativos,
e seu conhecimento da língua materna será sempre o suficiente para que encontrem
recursos que os auxiliem na comunicação. Essa visão não ocorre quando esses mesmos
alunos lidam com a L2, visto que seu domínio da L2 ainda é muito restrito, o que os
leva, muitas vezes, a fazerem mais uso da L1 na sala de aula do que deveriam.
Concentrar-se muito na L1 poderá com certeza impedir que o aluno acione o
conhecimento adquirido da língua em questão, retardando ou evitando, assim, a fluência
e a competência comunicativa na L2 (FALEIROS, 2004, p.17).
De acordo com Bagno (2002), a estrutura e a gramática das línguas não são
alteradas pelos estrangeirismos ou empréstimos. Tais termos contribuem apenas no léxico, o
nível mais superficial da língua. Segundo o autor, na frase “O office-boy flertava com a baby-
sitter no hall do shopping-center”, mesmo sendo todos os substantivos de origem inglesa, sua
sintaxe e morfologia são portuguesas, podendo isso ser constatado na desinência verbal, nas
preposições e nos artigos. As palavras do enunciado seguem a ordem normal da sintaxe da língua
portuguesa - sujeito, verbo, objeto e adjuntos adverbiais.
Porém, ao lidarmos com a aprendizagem da L2 essa afirmação não é verdadeira. A
alteração não se dará apenas no seu sentido fonológico e semântico, mas também
morfologicamente e sintaticamente, tanto na sua estrutura interna como nos elementos que se
relacionarem a ela.
Com o tempo, percebi que todo estudante sente quase as mesmas dificuldades e comete
quase os mesmo erros, tanto de pronúncia quanto de gramática, que estão vinculados
diretamente a sua cultura, hábitos de comunicação e vícios de linguagem, aceitos (mas
não necessariamente corretos) até nos ambientes mais cultos de sua sociedade
(JACOBS, 1999, p. 7).
Algumas pessoas sugerem que em inglês não seja necessário dar ênfase à
pronúncia do dígrafo th como fricativo, e que dificilmente a sua substituição por um fonema
implosivo causaria mal entendido, já que em palavras como three e tree, o contexto em geral
esclareceria qualquer desentendimento causado por erro de pronúncia. Entretanto, algumas vezes,
pessoas fluentes e bem-formadas associam tais características a sotaques de menor prestígio,
como o sotaque de marginais de Nova York, influenciando assim a formação da opinião sobre
quem est ouvindo, e em situações como entrevistas de empregos, causaria resultados
desagradáveis.
A partir de uma certa idade, todas as nossas referências sonoras são totalmente
relacionadas à língua materna. A língua materna age como um “filtro”, se o som for reconhecido,
não há problemas. Se o som não for reconhecido pela nossa língua materna, ele será
reinterpretado de acordo com o seu sistema sonoro.
Segundo Godoy, Gontow e Marcelino (2006, p. 18), quando um aluno iniciante
ouve a pronúncia de “th” da língua inglesa, seu sistema sonoro de língua materna não encontrará
som correspondente no sistema da língua portuguesa do Brasil. Seu sistema sonoro irá então
reinterpretar o som e aproximá-lo a algum som correspondente em português. O aluno poderá
aproximar o som de “th” a /s/, /f/ ou /t/, o que transformará a palavra think em “sink”, “fink” ou
“tink”. Assim como quando algumas pessoas ao pronunciar they, acabam pronunciando day.
A língua materna afeta o modo como um estudante ouve um som na língua
estrangeira, além de como ele o produz. É importante dar atenção à prática auditiva para se fazer
a pronúncia correta. Aprende-se uma pronúncia ouvindo-a, pois foi ouvindo muitas vezes que
aprendemos a nossa língua materna.
De acordo com Lightbown e Spada (2006, p.188) “é essencial para os alunos
estarem aptos a pronunciar todos os sons individuais na língua estrangeira”. O aluno deve
aprender a entender e produzir variedades linguísticas que permitirão a eles interação
comunicativa com os interlocutores.
Quando o objetivo é um bom desempenho no aprendizado de uma segunda língua,
os referidos autores aconselham o ensino da língua estrangeira o mais cedo possível na vida de
uma pessoa, devido a evidências de que as pessoas que mais se aproximam de falantes nativos da
língua alvo, começaram a aprendê-la em seus primeiros anos de vida.
A escolha de uma forma em vez de outra geralmente implica uma visão diferente de uma
situação e o que é importante nela. A escolha original reflete as opções (semânticas e
sintáticas) disponíveis na língua de partida, mas freqüentemente existe uma falta de
equivalência, quer devido a lacunas semânticas quer a hábitos sintáticos diferentes (El-
DASH; BUSNARDO, 2002, p. 63).
Geralmente, a maior parte dos brasileiros não sabe quando usar o present perfect e
quando usar o simple past, e poucos tem noção de que o problema existente é um problema de
semântica entre o Português e o Inglês.
Segundo Comrie (Apud EL-DASH e BUSNARDO, 2002), o inglês através do
simple past tense, faz uma distinção entre ações passadas vistas como ações, e o present perfect
tense retrata estados presentes que refletem a importância dessas ações passadas citadas pelo
simple past tense. Em inglês a escolha do tempo verbal está relacionada a uma questão aspectual,
de tornar estado uma ação passada, já no português, a escolha de um tempo verbal está mais
6
Uma vez que os alunos incorporam esses termos em inglês, de maneira errônea, antes de chegarem à sala de aula.
relacionada a uma questão de tempo, existe a incorporação de questões relacionadas à semântica,
mas isso é bem restrito.
Na língua inglesa há uma distinção conceitual entre time (tempo) e a forma gramatical
de um verbo, que é o tense. Não é sempre que um time no sentido cronológico
corresponde a um tense. Logo, temos o present perfect que de fato abrange dois tempos.
Ele liga o passado ao presente (JACOBS, 1999, p. 70).
[...] tempo verbal deve ser ensinado discursivamente porque ele tem significados e
valores que se perdem quando uma sentença é despregada do seu discurso, porque é
somente dentro do discurso que ele pode ser examinado, dentro de um todo maior [...]
(FONSECA, 2005, p. 112).
Maia (2009) afirma que uma das tarefas mais difíceis dos alunos realizarem é a
aprendizagem da escrita em L1 e L2. A modalidade escrita muitas vezes torna-se problemática
para os alunos devido à exigência de uma escrita perfeita, de acordo com a norma padrão. Esta
habilidade exige dos alunos um bom entendimento das estruturas aprendidas e o uso de regras
diferentes da língua falada, assim representando um obstáculo maior à comunicação do aluno,
causando por vezes medos e incertezas. Mesmo que o aluno possua argumentos sobre o tema a
ser desenvolvido, no momento da escrita o aluno encontra dificuldades em relação a vocabulário
e ortografia corretos e coerência e clareza na expressão. Para os aprendizes de L2, além de todos
estes obstáculos, há as dificuldades do conhecimento linguístico da L2 e a interferência da L1 no
momento da escrita. A interferência da L1 pode levar o aluno a um erro de interlíngua.
[...] pode-se resumir que, a interlíngua é a transição criada pelos aprendizes ao longo de
seu processo de assimilação da LE (língua estrangeira)7. Ela é caracterizada pela
Interferência da LM (língua materna); é um sistema independente, cujas regras não
correspondem nem a LM, nem a LE; evidencia o desenvolvimento lingüístico entre as
duas línguas, e ao longo deste processo há avanços, regressões, instabilidades e possíveis
fossilizações (MAIA, 2009, p. 57-58).
7
As explicações entre parênteses foram acrescentadas pelas autoras dessa pesquisa.
também os define como um desvio da norma considerada culta da L2. Para Brown (Apud MAIA,
2009, p. 39) “eles surgem da interferência da língua materna, os chamados de erros interlinguais,
da própria língua alvo, os chamados de erros intralinguais, do contexto sociolinguístico de
comunicação, das estratégias psicolingüísticas ou cognitivas, e sem dúvida, das variáveis
afetivas”.
Maia (2009) observa que as diferentes formas errôneas refletem diferentes
estratégias de aprendizagem, como os erros de omissão, de generalização e a interferência da L1.
De acordo com a autora, os erros de omissão são aqueles que ocorrem quando o
aluno ignora fatores gramaticais que ele não está apto para utilizar. Dulay, Burt e Krashen (Apud
MAIA, 2009, p. 41) “sugerem que omissões acontecem quando há a falta de um item que
obrigatoriamente deve aparecer em uma sentença bem formada, como nos exemplos: She
sleeping (Ela está dormindo)”, ou Rained yesterday (Choveu ontem). Neste caso, há a omissão do
verbo is na primeira frase e do pronome it na segunda frase.
A autora define como erros de generalização (Overgeneralization) aqueles realizados de
estruturas erradas a partir de outras estruturas da L2, que não pertencem à mesma regra: “Does
Charles can play soccer? ao invés de Can Charles play soccer? (Charles pode jogar bola?)”
(MAIA, 2009, p. 41). Neste caso ocorre o uso incorreto do auxiliar junto com o modal can. Um
outro exemplo desse tipo de erro seria: “She goed to school by bus, ao invés de She went to
school by bus (Ela foi para a escola de ônibus)” (MAIA, 2009, p. 41). Neste exemplo, o aluno
generalizou a regra dos verbos regulares, usando-a no lugar da regra dos verbos irregulares.
A interferência da língua materna ocorre, segundo Odilin (Apud MAIA, 2009), no
momento em que se utiliza elementos linguísticos da L1 não comprovados na L2, mesmo
havendo semelhanças: “He is a boy handsome, ao invés de He is a handsome boy (Ele é um
garoto bonito)” (MAIA, 2009, p. 41). Neste caso ocorre uma interferência sintática na ordem dos
termos da oração. Em português o adjetivo segue o substantivo que ele qualifica, ao contrário do
que acontece em inglês.
Segundo Ellis, Burt e Kiparsky, Dulay, Burt e Krashen (Apud MAIA, 2009) em
relação ao processo comunicativo, os erros podem ser classificados como:
• Erros Locais (local erros) - são os erros que normalmente não alteram
profundamente a comunicação, pois ocorrem em alguns termos da sentença e estão relacionados
a erros gramaticais: “She go to school by bus no lugar de She goes to school by bus (Ela vai para
a escola de ônibus)” (MAIA, 2009, p. 43). Neste caso não há a colocação do -s da terceira pessoa
do singular no Simple Present, mas o erro não interfere na comunicação da mensagem.
• Erros Globais (global erros) - são os erros que normalmente afetam a
comunicação tornando-a incompreensível ou até mesmo interrompendo-a, pois ocorrem na
organização geral da sentença. São erros léxico-semânticos referentes à estrutura/organização da
sentença. São palavras utilizadas erroneamente, como False Friends (falsos cognatos), ou num
contexto impróprio em L2, como no exemplo: “I am in the first year no lugar de I am in the first
grade (Eu estou na primeira série)” (MAIA, 2009, p. 44). Um falante nativo poderia não entender
precisamente essa frase, para ele year é o período que corresponde de janeiro a dezembro e grade
corresponde ao ano escolar.
Quando os alunos estão aprendendo parte do novo sistema linguístico de L2, eles
cometem erros em suas produções. São erros de competência que, de acordo com Krashen,
Richards e Selinker (Apud MAIA, 2009), podem ser classificados em:
• Erros interlinguais (externos) – são os erros decorrentes da interferência da L1 na
produção da L2 e ocorrem entre línguas diferentes. Também podem ser chamados erros de
interferência ou de transferência negativa. Além do exemplo “He is a boy handsome”,
anteriormente mencionado, podemos citar vários outros: She is a girl tall, He is a boy fat, etc.
• Erros intralinguais (internos) - são os erros cometidos na aprendizagem de L2
sem a interferência da L1 dos aprendizes. Os erros cometidos nas produções linguísticas
decorrem propriamente de L2, em que há a transferência negativa de itens, como a aplicação de
regras incompletas ou a generalização das mesmas e o uso de conceitos impróprios.
Os erros interlinguais ocorrem muitas vezes no nível semântico. Os erros em nível
semântico são aqueles cometidos em relação ao significado da frase, afetando por vezes a
comunicação a partir da escolha de uma palavra errada, analogicamente.
Um exemplo de erro interlingual frequentemente cometido pelos alunos no nível
semântico, é o que diz respeito à palavra muito. Neste tipo de erro, os alunos não fazem uma
distinção lexical, ou seja, não distinguem a palavra na L1 em relação a L2. Sendo assim, a
palavra pode ser empregada de forma inadequada ao contexto correspondente. Em língua inglesa
existem diferentes formas de expressar muito. Quando a intenção é modificar um verbo, utiliza-se
a expressão very much ou a lot of, e quando a intenção é modificar um adjetivo, usa-se o termo
very. Os alunos apresentam grande dificuldade na distinção do uso destes termos, trocando-os na
maioria das vezes.
Outro erro de interlíngua cometido pelos alunos em nível semântico é a seleção de
um item incorreto. Diferentemente do item anterior, a seleção de um item incorreto ocorre no
momento em que o aluno utiliza uma palavra da L1 na L2 desconhecendo as regras de seu uso.
Assim, os alunos produzem formas errôneas em L2 devido ao fato de que tais palavras possuem
traços semânticos distintos. Podemos observar frequentemente este tipo de erro com relação aos
verbos possuir, haver e existir. Na língua portuguesa, pode-se utilizar o verbo ter para expressar
posse ou existência, enquanto que em língua inglesa há a distinção entre a locução there to be que
expressa existir/haver e o verbo have que expressa possuir.
Jacobs (1999) também comenta sobre problemas de interlíngua ao discorrer sobre
o uso errôneo da tradução do verbo to know por conhecer. Enquanto que em língua portuguesa
podemos utilizar o mesmo verbo para dizer que conhecemos uma pessoa, superficial ou
profundamente, em língua inglesa há a distinção entre encontrar/conhecer uma pessoa num
primeiro encontro e conhecê-la muito bem.
Em língua inglesa usamos o verbo to meet (ou met no passado) para dizer que
encontramos pessoas desconhecidas ou amigos no presente, ou para dizer que conhecemos
alguém que não conhecíamos ou que encontramos amigos no passado. O verbo to know é
utilizado no presente para dizer que conhecemos a pessoa profundamente, no passado indicaria
que a pessoa já morreu ou que há muito tempo não se tem notícias dela, o que impossibilita saber
no presente qualquer coisa a seu respeito.
O mesmo ocorre quando nos referimos a lugares. Segundo Jacobs (1999), jamais
pode-se dizer I knew algum lugar. Apenas pode-se dizer I know algum lugar se na frase for
especificado que você conhece tal lugar muito bem ou nem um pouco. Exemplo: “I know London
very well” (JACOBS, 1999, p. 59). Quando quisermos dizer que já estivemos em determinado
local, o correto em língua inglesa é utilizar os termos I have been to Paris, I was in Paris ou I
visited Paris.
Outro erro citado por Jacobs (1999) é em relação ao uso da preposição quando
dizemos que alguém está na praia. Dizer que uma pessoa está in the beach, significa que alguém
está dentro da areia. Desta forma, o correto em língua inglesa é dizer on the beach, que significa
que a pessoa está sobre a areia, caminhando, com os pés em contato com a areia. A preposição in
é utilizada para dizer que alguém está na água, in the water, pois se dissermos he is on the water
estaremos dizendo que ele está sobre a água.
A partir deste referencial teórico, faremos a seguir uma análise com a finalidade
de verificar e comprovar tais interferências da L1 nos aspectos fonológico, semântico e morfo-
sintático na fala e na escrita da L2, por parte de falantes e estudantes brasileiros de língua inglesa.
8
Sons fonéticos transcritos de acordo com o dicionário Longman Contemporary.
nenhum dos alunos. Porém, a palavra hamburgers, foi pronunciada por dois alunos como se
houvesse um “h” mudo no início da mesma, esse “h” mudo é característico do português quando
acompanhado de vogal, como ocorre com as palavras hospital cuja pronúncia inicia-se com o
som de “o”, e história que inicia-se com som de “i”.
Ao pronunciarem as palavras iniciadas em “r”, que possuem som de / /, rope
e rabbit, a maior parte dos alunos trocaram-no pelo som de / /. Isto ocorre porque, no
momento da leitura, o aluno tende a ler da maneira como o som é produzido na sua L1, ou seja, a
letra “r” é pronunciada como / /, que se assemelha ao som de “h” em inglês, caracterizando a
influência da L1.
O som do “th”, corresponde a / / e / /. Porém, três alunos atribuíram o som de
/ ƒ / para as palavras think, healthy e home-theatre. Quatro alunos atribuíram o som de / / às
palavras that e they e um aluno atribuiu esse som à palavra home-theatre. Godoy, Gontow e
Marcelino (2006) explicam essa ocorrência devido a não identificação desse som através do
sistema sonoro da língua materna. Assim sendo, o som foi reinterpretado e aproximado de sons
existentes na fonética do português.
Através desta análise realizada, foi possível comprovar que existe sim uma forte
interferência da L1 no momento da fala na pronúncia de sons da língua estrangeira por parte dos
alunos. Esta interferência ocorre devido ao fato de que o aluno tende a ler da maneira como o
som é produzido na sua língua materna. Desta forma, alguns sons da língua inglesa não são
identificados pelo sistema sonoro do aluno, o qual reinterpreta estes sons e os aproxima aos sons
correspondentes da língua portuguesa. Foi possível também constatar a interferência da estrutura
silábica do português na pronúncia dos termos em inglês. A estrutura silábica característica do
português geralmente apresenta-se em consoante e vogal. Quando o aluno faz a leitura de uma
palavra em inglês em que o som da vogal não existe ou não é pronunciado, como em outdoor e
make, o mesmo tem a tendência de acrescentá-lo de forma inconsciente conforme a pronúncia do
português, mesmo que o som seja enfraquecido.
Como exemplo dessa interferência, analisamos a palavra adventure na leitura
realizada pelos alunos e constatamos que os cinco alunos acrescentaram a vogal entre as
consoantes “d” e “v” e pronunciaram a palavra com o som de / / ao invés de / /. Também
foi constatado na pronúncia desta palavra, a troca da sílaba tônica, devido a influência da palavra
“aventura” em português. Os alunos pronunciaram a palavra / ‘ / ao
invés de / ’ /.
Tal análise nos permitiu concluir que essa influência transforma não só o som das
palavras, mas também os seus significados dificultando o aprendizado e podendo causar
problemas de comunicação.
1C) […] I could […] know so many people that I’ve never ever seen all my life.
(o correto seria I met many people that I’ve never seen all my life)
Nas redações analisadas também foi possível constatar o uso incorreto do advérbio
de intensidade much. Segundo Maia (2009), utiliza-se very much quando a intenção é modificar
um verbo, e utiliza-se very quando a intenção é modificar um adjetivo. Na frase abaixo a intenção
do aluno era modificar o verbo travel positivamente. Portanto, ele deveria ter usado very much
como comenta Maia (2009), e não o advérbio too que, como menciona Swan (1997), significa
“mais que o suficiente”. Vejamos a seguir:
Nos exemplos acima também encontramos um erro de omissão na frase 3B, que de
acordo com Maia (2009) são aqueles em que o aluno ignora itens que deveriam aparecer
obrigatoriamente em uma sentença bem formada. Nessa mesma frase encontramos ainda o uso
errôneo do verbo to know anteriormente explicado por Jacobs (1999). Não usamos o verbo to
know para nos referirmos a lugares a não ser que a pessoa queira dizer que conhece tal lugar
muito bem.
Outros erros de omissão também foram encontrados, como podemos perceber, nos
exemplos a seguir. Na frase 4C além do erro de omissão, encontramos também um erro de
generalização (Overgeneralization), que segundo Maia (2009), são erros cometidos quando os
alunos se baseiam em outra estrutura que não pode ser usada no contexto em que foi inserida.
Neste caso o aluno aplicou a regra do passado de verbos regulares para um verbo irregular. Nesta
mesma frase há também um erro de ortografia referente à palavra whole, que significa inteiro,
integral. Nesta sentença, o aluno confundiu o termo com a palavra hole, que significa buraco,
abertura, provavelmente devido ao fato dessas palavras serem homófonas, que apesar de terem a
mesma pronúncia possuem grafias diferentes, de acordo com a teoria vista em Poedjosoedarmo
(2004). Seguem-se os trechos:
4C) When I was on the beach I swimed the hole day because I like very much.
(o correto seria When I was on the beach I swam the whole day because I like it
very much.)
4E) [...] I was with my grandmother and my sister...was very good [...]
(o correto seria […] I was with my grandmother and my sister...it was very
good [...])
Nos exemplos abaixo ocorre a interferência da L1. Este fato ocorre segundo Maia
(2009), quando o aluno utiliza em L2 elementos linguísticos da L1.
Na sentença 5A, além do erro de interferência da L1, que foi colocar o substantivo
antes do adjetivo, como ocorre em língua portuguesa, esquecendo-se que na língua inglesa a
ordem é inversa, o aluno cometeu também um erro de omissão da preposição in no início da
frase. Isto comprova que os estudantes realmente criam uma figura mental e uma interpretação
pessoal da estrutura de L2, uma intergramática, de acordo com a teoria estudada em Lewis
(1997).
Nas sentenças 5A, 5B e 5C foi possível observarmos também um erro em nível
semântico referente a seleção de um item incorreto: os verbos there to be e have foram usados
indistintamente, provavelmente, devido à interferência da L1. Porém, na frase 5C, ao invés de
usarmos there is ou have seria melhor reestrutura-la omitindo a locução. Essa frase apresenta
também um erro de omissão da preposição it.
Outro caso de erro decorrente da interferência da L1 foi o uso de plural em
adjetivo, como ocorre na língua portuguesa, e podemos perceber na frase 5D. Em língua inglesa,
o adjetivo permanece no singular, enquanto o plural é expresso apenas no substantivo. Maia
(2009) caracteriza essa falha como um erro local, pois o mesmo não interfere na comunicação da
mensagem. Este fato também reforça a teoria de intergramática citada por Lewis (1997), assim
como demonstra a forte tendência dos estudantes de associar tudo em L2 à sua L1.
5B) [...] there is a “Brighton Pier” where has got games, food, etc.
(o correto seria […] there is a “Brighton Pier” where there are games, food,
etc. for the public)
5C) I went to France, too. It’s a lovely place, and there is a wonderful
Language, I”d like to learn, is my dream.
(o correto seria [...]and the language is wonderful. I´d like to learn French - it is
my dream)
5D) [...] I could visit a lot of place, eat differents kinds of food […]
(o correto seria I could visit a lot of places, eat different kinds of food[…])
6A) [...] I want enjoy all the time in the beach and the partys.
(o correto seria I want to enjoy all my time on the beach and at the parties)
Conclusão
Referências
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London, v. 10, n. 2, p. 41-44, Abril. 2001.
Leitura de palavras
I have the habit of eating hamburgers. I hope to kick this habit because eating
hamburgers is not healthy.
I will use a rope to take that rabbit down. Although I'm not good at using ropes,
the rabbit will not escape.
Although I don’t have enough money, I would like to go on adventure tour. I think
that going to Disney World and riding on the attractions would be perfect. I would meet Mickey
and Minnie Mouse. They are really cute.
Os vocábulos abaixo, que são palavras da língua inglesa, fazem parte também do
nosso cotidiano por serem estrangeirismos. Escreva a tradução dos mesmos.
Entrevistado 1
1- Box: vidro
2- Smoking: traje fino
3- Cooper: corrida
4- Skate: brinquedo
5- Shopping: centro de lojas
6- Test Drive: teste grátis em carro
7- Outdoor: divulgação publicitária
8- Home theater: aparelho de som
9- Delivery: entrega em domicílio
10- Drive-thru: rápido
Entrevistado 2
1- Box: divisão em estacionamento de mercado
2- Smoking: traje
3- Cooper: correr
4- Skate: objeto que criança brinca
5- Shopping: um agrupamento de loja com praça de alimentação
6- Test Drive: teste grátis em carro
7- Outdoor: local de propaganda
8- Home theater: não sei
9- Delivery: não sei
10- Drive-thru: pizza, comida em lanchonete
Entrevistado 3
1- Box: caixa
2- Smoking: fumar
3- Cooper: corrida
4- Skate: objeto utilizado para a prática de um esporte
5- Shopping: lojas
6- Test Drive: teste automotivo
7- Outdoor: propaganda exibida em uma grande dimensão
8- Home theater: teatro caseiro
9- Delivery: entregas feitas à domicílio
10- Drive-thru: espécie de um “lugar” em uma lanchonete, parecido com um
“corredor” em que os veículos circulam e esperam a entrega de seus lanches
Entrevistado 4
1- Box: cubículo no banheiro delimitado por vidro ou material de plástico e
alumínio
2- Smoking: fumando
3- Cooper: prática de esporte (corrida/ caminhada)
4- Skate: prancha com rolamento
5- Shopping: comprando??? Adoro!!!
6- Test Drive: pretendo fazer num Ford Fusion!!!
7- Outdoor: “vitrine publicitária”
8- Home theater: “teatro em casa” tem haver com som/ acústica?
9- Delivery: não sei
10- Drive-thru: tem relação com comida, no carro?
Entrevistado 5
1- Box: espaço reservado para banho com divisória
2- Smoking: traje masculino
3- Cooper: tipo de esporte
4- Skate: objeto de rodinhas utilizado por crianças ou adolescentes
5- Shopping: espaço com muitas lojas e praça de alimentação
6- Test Drive: teste feito em carros 0k, antes da compra
7- Outdoor: grande placa localizada em lugares específicos com informes
comerciais
8- Home theater: sistema de som acoplado à TV
9- Delivery: não sei
10- Drive-thru: lugar em lanchonetes em que se passa e leva o alimento para
comer em casa
Entrevistado 6
1- Box: divisão do banheiro
2- Smoking: fumar ou um traje de roupa social masculina
3- Cooper: correr
4- Skate: objeto de madeira com rodas
5- Shopping: grupo de lojas diferenciadas,/praça de alimentação
6- Test Drive: teste que se faz em carro
7- Outdoor: objeto de propaganda colocado na rua
8- Home theater: caixas de som que se conecta à televisão
9- Delivery: não sei
10- Drive-thru: onde compra esfirra ou Mc Donald´s
Entrevistado 7
1- Box: compartimento do banheiro
2- Smoking: fumar
3- Cooper: correr
4- Skate: carrinho pra brincar
5- Shopping: compras
6- Test Drive: teste grátis de carro
7- Outdoor: local onde se expõem propagandas
8- Home theater: som de cinema em casa
9- Delivery: não sei
10- Drive-thru: compras rápidas
Entrevistado 8
1- Box: caixa
2- Smoking: fumar
3- Cooper: andar acelerado
4- Skate: equipamento esportivo
5- Shopping: lugar onde faz compras
6- Test Drive: teste em carro
7- Outdoor: material demonstrativo para propagandas
8- Home theater: cine em casa
9- Delivery: entrega residencial
10- Drive-thru: lugar pelo qual os veículos esperam o pedido na lanchonete
Entrevistado 9
1- Box: caixa
2- Smoking: terno
3- Cooper: corrida
4- Skate: equipamento para prática de esportes radicais
5- Shopping: centro de compras
6- Test Drive: teste de carro
7- Outdoor: propagandas de grandes extensões
8- Home theater: cinema em casa
9- Delivery: entrega à domicílio
10- Drive-thru: lugar de espera para veículos em lanchonete
Entrevistado 10
1- Box: caixa
2- Smoking: fumar
3- Cooper: corrida
4- Skate: equipamento com rodinhas
5- Shopping: compras
6- Test Drive: teste em carro
7- Outdoor: propagandas
8- Home theater: teatro em casa
9- Delivery: entrega em casa
10- Drive-thru: dirija rápido